História Garotinhas - Capítulo 8


Escrita por: ~

Postado
Categorias Originais
Exibições 2
Palavras 2.080
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Famí­lia, Mistério, Policial
Avisos: Álcool, Estupro, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 8 - Os queridinhos da mídia


8

Os queridinhos da mídia

 

Mesmo depois de toda a confusão da noite passada, Carlos acordou no costumeiro horário de sempre para caminhar. Contudo, tinha alguma coisa diferente desta vez: ele não trouxe os fones de ouvido. Decidiu, de última hora, não escutar música, porque do mesmo modo que ela lhe atrapalhava ao decorar uma fórmula matemática, ela lhe atrapalharia a pensar.

            Agora, as suas lembranças pareciam incompletas, como se faltassem uma peça. Carlos se lembrava muito bem da época em que estudava a oitava série e conheceu Bruna, na rapidez em que se tornaram amigos e iam para todas as aulas juntos, quase que como um casal de namorados. Se perguntassem se ele se lembrava do possível dia em que ela começou a sair com Murilo, ele diria que sim, porque foi nesse mesmo dia que ela disse que peru era o seu tipo de carne preferida e também foi o mesmo dia em que Bruna não o esperou para lancharem.

            Depois, foi o dia em que Tainá o chamou para tomar banho de piscina na casa dela. A primeira vez em que ficaram sozinhos e falaram sobre muitas coisas, como a escola, a família e os amigos. Podia até parecer uma coisa qualquer, mas Tainá estava desabando com o peso que isso trazia, tudo porque acreditava que o seu pai estivesse traindo a sua mãe com a vizinha, o que, na verdade, era o vizinho.

            Assim que Carlos correu para contar a Bruna, ela não pareceu mais feliz do que ele, ou sequer feliz. Hoje, ele entende o porquê.

            – Carlos – ela sussurra na aula de inglês para ele –, escute, acho que não vou poder ir para a casa de Tainá no sábado.

            – Por que não, Bruna? – Carlos a encara. Bruna sabia o quanto aquilo era importante para ele e estava caindo fora.

            – Escute, menino! – ela bate o pé no chão. A professora, por sorte, não escutou. Caso visse os dois conversando ao invés de copiarem a tarefa para casa, os mandaria para a detenção. Por uma semana inteira. – Eu vou te levar até lá, só não vou poder ficar, entendeu? – Carlos assente. – Mas preciso que diga a minha mãe que vou estar lá, ok?

            – Para onde você vai? – ele sabia que Bruna iria fazer algo idiota, porque a dona Sônia era uma das mães mais liberais da cidade, daquelas que não se importam em saber que a filha anda matando a aula de história.

            – Vou me encontrar com alguém especial.

            – Quem? – Carlos chega mais perto.

            – Carlos, não é da sua conta!

            Ela se vira de vez para a frente, chamando a atenção de uma boa parte da sala, o que faz com que Carlos core e volte para o seu lugar.

            O que os dois não esperavam era que Sara, a prima e melhor amiga de Tainá, estivesse ouvindo toda a conversa.   

            Carlos dobra à direita da rua da igreja. O frio da manhã de domingo fazia a sua mandíbula tremer. Ele se lembrava muito bem daquele sábado.

            O sol estava bem mais alto do que jamais estivera em nenhum outro sábado antes em sua vida. Até parecia que Tainá fosse uma meteorologista, usando o seu dom para dar uma festa.

            – Vamos logo, Tainá já está nos esperando! – Sara estava fechando a porta do Corola prateado da mãe. Ela usava um biquíni rosa. Era uma das meninas mais magras do colégio. Os colegas que não gostavam dela usavam essa sua característica para fazerem caricaturas na aula de artes.

            – Certo – Carlos ver a mãe descendo a rua na SW4. Bruna ainda estava atrás dele.

            Carlos cruza a cerca da casa, Sara o acompanha. Ele devia ter esperado a garota, para andar lado a lado com ela, porque, depois, mesmo quando os passos dela cessaram, ele não voltou atrás, não olhou para ver se ela tinha saído e seguido Bruna até a casa de Murilo, só para saber de tudo, como uma grande fofoqueira.

            A Sra. Borges estava na cozinha preparando limonada. Tainá tinha colocado a música muito alta, só para acordar Fernando, que dormia em seu quarto no andar de cima.

– Finalmente, vocês chegaram! – ela pula do sofá para receber os amigos. – Cadê Bruna? – ela se vira para Carlos.

            – Ela está gripada – ele não olha nos olhos da garota, como sempre fazia.

            – Que rápido, hein? – Sara cutuca o braço dele. – Ontem mesmo ela estava tão saudável!

            – Pois é – Tainá concorda.

            O que elas queriam, afinal? Desmascará-lo logo na entrada?

            Tainá se vira para a televisão, onde passava os clipes da MTV. A Sra. Borges já tinha colocado as limonadas no centro em frente ao sofá.

            – Estão com fome? – pergunta Tainá.

            – Eu estou faminta!

            Sara levanta os braços para o alto, como se fosse uma fada do clube das Winx, dançando a música de abertura. Carlos vai até a poltrona com passos largos. Estava zangado com a garota. O que ela sabia? Ou o que ela queria saber?

            Ele se joga na poltrona antes da menina.

            – Carlos – Sara fala baixinho. Tainá estava indo a cozinha, não ia escutá-la –, eu ia sentar aí.

            – Que pena. Eu já sentei – Carlos não abaixa a cabeça para olhar as sandálias, como fez com Tainá. Ao contrário, ele mantêm o olhar firme.

            – Eu vou contar até três para você sair! – os olhos de Sara pareciam que iam cair no colo do menino. – Um... Doooiis... Trêês!

            – Eu já disse. Não vou sair!

            Tainá estava de volta com bolinhos de amora.

            – Prima – Sara dá as costas ao menino –, sabe por que Bruna não está aqui?

            – Por que ela está doente? – Tainá a respondeu como se a garota fosse uma débil mental.

– Não, bobinha – mesmo de costas, Carlos podia sentir o sorriso se alargando na boca de Sara. – Porque ela está na casa de Murilo Tomaz.

            – O quê? – Tainá abre a boca. Não da forma como se fosse espalhar uma fofoca, mas do mesmo modo de uma pessoa ao receber uma notícia terrível. – Por que vocês não me contaram logo? – ela intercalava o olhar entre os dois. – Fernando! – ela gritou, fazendo Carlos pular da cadeira. – Fernando! – o irmão não apareceu, o que fez com que ela saísse correndo pela escada.

– Eu te avisei – Sara se senta na poltrona e pega um bolinho. Tinha ganhado o jogo.

            Fernando desce as escadas ainda de pijama, Tainá a tira cola. Os dois estavam com a mesma cara de preocupação. Por quê? Carlos se vira para Sara, que tinha a mesma cara de confusão que ele.

            Biii! Biii!

Carlos verifica o relógio em seu pulso. Já havia ultrapassado os dois quilômetros que planejara percorrer por hoje. Estava em uma das granjas do pai, quase fora da cidade.

            Ele expira pela boca, tentando recuperar o fôlego. Estava encharcado pelo suor da corrida.

            Devagar, fez o caminho de volta para casa. Mas ainda carregava a mesma pergunta na cabeça: Tainá sabia, desde o início, que Murilo era um pedófilo?

 

– Meu Deus, Carlos! – Amanda, a governanta da família Arruda, pula do balanço na varanda da mansão assim que ver o garoto entrar na propriedade. – Já estava para chamar a polícia!

            Carlos revira os olhos.

            – Eu só fui caminhar, como todo dia.

            Ele se senta ao lado da mulher para desamarrar os cadarços dos tênis. Agora, ele via o quanto os seus pés estavam doloridos – tinha se esquecido de se alongar.

            – Você pensa que o seu pai vai te deixar caminhar durante estes dias? – Amanda o encara. Carlos não a olha, ainda massageava a sola do pé. – Há um assassino a solta. O prefeito até já instituiu um toque de recolher.

            – Não sei o porquê – o menino tira as meias. – Murilo era um pedófilo imundo. Qualquer pai de umas das vítimas dele pode ter feito isso.

            – Esta pessoa conseguiu tirá-lo de um reformatório de segurança máxima. Sabe-se lá mais o quê tem por trás disso.

            Amanda passa o tablet que estava em seu colo para Carlos.  

 

Morte de Murilo Tomaz preocupa a cidade de Catolé do Rocha

Jovem acusado de pedofilia é encontrado enterrado em porão de sua antiga casa

            Segundo Mara Gisleane, nova delegada de Catolé do Rocha e atual responsável pelo caso, a polícia optou por manter a fuga de Murilo Tomaz, 16, em sigilo como forma de não preocupar os moradores da cidade e evitar a atenção da mídia, pois tinham em mente encontrá-lo e descobrir quem o ajudou a fugir do reformatório São Pedro, conhecido por sua excelência em segurança e métodos de reeducação de seus jovens detentos.

            Ainda de acordo com informações da delegada, o toque de recolher foi uma ideia apresentada por ela ao prefeito da cidade, visando a segurança dos jovens habitantes do município, tendo em vista a não existência de provas ou pistas sobre quem matou Murilo, conhecido pela região como o garoto que não pegava garotas, pegava garotinhas.

            A causa da morte foi divulgada na madrugada deste sábado, 17, como um derrame causado por um tiro em sua têmpora direita. O seu pai não quis dar depoimento, enquanto a mãe, a Sra. Tomaz, retorna a cidade para cuidar dos preparativos do velório do filho. Ela afirma que não tinha conhecimento da fuga do garoto.

            Murilo Tomaz foi acusado por estuprar várias jovens em sua cidade no ano de 2013, após ser descoberto por seu vizinho, Fernando Borges, 17. Após um mandato de busca, a polícia encontrou, em seu quarto, vídeos dos atos sexuais que praticava sem o consentimento das vítimas.

 

            Ao lado da notícia, Carlos ampliou uma imagem. Era ele junto à Tainá, Fernando, Sara e a Sra. Borges, Angélica. Foi no dia em que a polícia levou os vídeos de Murilo. A Sra. Tomaz soluçava na calçada, tentando tomar as caixas das mãos dos policiais, porque sabia que aquilo comprovaria toda a história de Fernando.

            – Eles amam colocar essa foto – Amanda pega de volta o tablet. – Seus pais já estão voltando do cruzeiro.

            – Como? – Carlos se vira para a governanta.

            – Você precisa mais deles aqui.

            – Eu não tenho nada haver com isso. Fernando quem vai ter com o que se preocupar. Ele vai ser o alvo da mídia!

            Amanda se levanta do balanço de madeira. Ela se espreguiça, a pele negra brilhando ao sol.

            – Mesmo assim, você não pode lidar com toda esta situação sozinho. Você vivenciou de perto toda essa confusão.

            – Se eu sobrevivi quando era mais jovem, sobreviverei agora.

            Carlos pega os tênis no chão e entra. Ele corre para a sua suíte. Ao ligar o chuveiro, ainda pensava naquele sábado. Porque, de todos os dias em que teve que falar sobre o caso, foi naquele dia em que nada pôde dizer, pois Bruna estava sendo tirada das investigações. Ninguém jamais soube que ela fora uma das garotinhas.

            – O que está acontecendo? – Carlos pergunta a Sara logo depois que Fernando e Tainá correm para fora da casa.

            – Eu não sei, mas podemos descobrir – Sara o olha com interesse. Ainda mantinha o sorriso no rosto. Estava se divertindo com aquilo que causara.

            Os dois correm.

            A porta da mansão dos Tomaz estava aberta. A escada, que ficava encostada a parede, dava para o quarto de Murilo. Na soleira, Carlos pôde ver Tainá na porta, expirando com força, depois da corrida.

            – Saia de cima dela, seu porco! – gritou Fernando. Depois, um barulho enorme ecoou pela casa. Murilo gemeu.

            – Meu Deus! – Sara colocou a mão na boca e correu de volta para a residência dos Borges.

            Carlos também correu, só que para a escada. Ao empurrar Tainá para o lado para ver o que estava acontecendo, viu Bruna chorando, jogada no chão. Fernando esmurrava Murilo na estante. A parte de cima do biquíni da amiga estava amassada.

            – Venha, Bruna – disse o menino, ao entrar no quarto. – Vou te tirar daqui.

            Ele não ligou para os pedidos de súplica de Murilo. Só queria tirar a companheira deste inferno que o garoto a havia a colocado.

            – Eu te ajudo – Tainá colocou um braço da mulata ao redor de seu pescoço.

            – Ligue para a minha mãe... – Bruna estava tremendo. Se não fosse guiada, cairia, sem forças para se levantar. – Eu... Eu quero ir embora...

            Eles já estavam saindo da casa, quando a Sra. Borges veio correndo em direção às três crianças.

            – Meu Deus, meninos! – ela gritou. O cabelo loiro caindo em seus olhos. – Fernando! – ela correu para dentro da residência. – Saia de perto dele!  

            Carlos fechou os olhos, tentando afastar as lembranças. Ele já compreendia tudo do que precisava saber. Tainá e Fernando sempre souberam sobre Murilo, senão não teriam corrido para salvar Bruna de suas mãos.

 

 

 

 

 

 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...