História Gone Too Soon - Capítulo 7


Escrita por: ~

Postado
Categorias Cássia Eller
Personagens Personagens Originais
Tags Cotidiano, Orange/ Yuri, Romance
Exibições 18
Palavras 3.969
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Orange, Romance e Novela, Yuri
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Pansexualidade, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Boa leitura!

Capítulo 7 - Cataflor


Fanfic / Fanfiction Gone Too Soon - Capítulo 7 - Cataflor

 

 

Saio por aí juntando flor por flor

Só pra te lembrar

Do que a natureza tentou imitar

Quando olhou pra ti, só pra ti, só pra ti

 

 

Aqueles últimos dias estavam sendo os melhores!

 

Ajudava minha mãe no trabalho ganhando uma graninha de vez em quando. Só que o que me deixava feliz mesmo, não era o dinheiro e sim alguém que descobri trabalhar no mesmo prédio.

 

Cássia, claro!

 

Ela estava trabalhando na cozinha do clube, enquanto eu corria com a minha mãe nos andares de cima, ela  ficava na parte inferior. Sempre que tinha um tempinho descia pra vê-la, nem sempre conseguindo já que o supervisor dela era um pé no saco.

 

Só que mesmo brigando comigo e chamando minha atenção, eu só sabia rir e ela também. E assim formei minha rotina, nunca ficando tão ansiosa para ir trabalhar quanto agora.

 

Porém não podíamos dar pinta de nada, tinha muita gente por lá entrando e saindo o dia inteiro, sem contar a minha mãe. Então fazíamos a faixada de melhores amigas, no almoço sempre dávamos uma sumida pra aproveitar o tempo uma com a outra.

 

Inclusive estava indo encontra-la, não tinha tido tempo de vê-la mais cedo hoje.

 

Cheguei até a cozinha batendo na porta e ela logo saiu arrancando o avental, não pude deixar de notar que ela parecia mais magra, aquela camisa de manga longa listrada, não parecia tão justa em seu corpo como antes.

 

- Boa tarde! – Cumprimentei a abraçando e beijando seu rosto.

 

- Boa tarde – Respondeu com um pequeno sorriso, parecia cansada.

 

- Parece que não dormiu bem... – Ela deixou o avental sobre o balcão e fomos saindo.

 

- Esses dias... Tem sido meio estressantes pra mim – Suspirou, fechando aqueles olhinhos pequenos. Pobre menina, devia estar morrendo de sono.

 

- Hoje você come e aproveita o tempo pra tirar uma soneca, pode usar meu colo de travesseiro – Ofereci como quem não queria nada.

 

E ela já me conhecia bem o bastante para saber das minhas intenções, acabou rindo e envolvendo meus ombros de lado, seguimos até uma área atrás do prédio.

 

- É tão clássico se pegar nos fundos de qualquer lugar – Se não queríamos levantar suspeita, um lugar deserto não era uma boa ideia.

 

Sentei-me na sombra, encostando minhas costas na parede. Olhei pra cima e bati as mãos sobre as coxas, convidando ela á se deitar.

 

- Isso é verdade, aqui já pode ter sido esconderijo de muitos casais – Disse aceitando o convite.

 

A baixou-se enquanto deitava de lado, colocando a cabeça sobre meu colo e fechando os olhos por alguns minutos, abrindo-os logo depois, lutando pra se manter acordada.

 

Passava a mão direita por seu cabelo, adorava brincar com o cabelo dela.

 

- Parece que a cada dia que passa, você tem menos cabelo – Comentei.

 

- Pois é, cortei ele bastante ultimamente... – Disse rindo.

 

- Você não trouxe sua comida – Lembrei-me de repente – Quer que eu vá buscar?

 

Perguntei já me preparando pra levantar, mas ela negou.

 

- Não, não precisa. Fica aqui... – Se virou, deixando seu rosto de frente para minha barriga.

 

Fechou os olhos e encolheu as pernas, se ajeitando da melhor forma. Talvez ela já tivesse comido algo mais cedo, independente disso o sono parecia ser mais forte naquele momento.

 

Continuei ali velando seu sono, arrastando as pontas dos dedos por todo seu cabelo, sem tirar os olhos dela. Estava notando que a cada dia que passava ao lado dela, aquele sentimento bom crescia. Já nem sabia se ainda podia chamar de “Paixonite.”

 

Estávamos sempre conversando e namorando pelos cantos, ainda não tinha tido coragem para seguir além das preliminares. Pois é, eu que mais queria, estava travando naquela hora.

 

Semana passada em um encontro quase rolou, mas pedi pra pararmos por não me sentir confiante. Minha sorte era que Cássia, era alguém muito doce e compreensiva, em momento algum ficou brava.

 

Com aquele voto de confiança me senti muito mais livre ao lado dela. Sentia que podia confiar sem me arrepender. Tinha certeza que da próxima vez daria certo!

 

Nessa última semana, ela me disse que estava discutindo muito com a Mariana e que aquilo estava deixando-a muito nervosa. Coisa que fazia ela fumar mais que o normal.

 

Tinha descoberto aquele mau hábito á pouco tempo.

 

Eu tinha pavor de cigarro, pois em uma época muito importante da minha vida, meu avô, quem eu era muito apegada, acabou falecendo por causa daquela droga silenciosa! E saber que a pessoa mais especial pra mim, fumava, me dava um enorme aperto no coração.

 

Engoli em seco balançando a cabeça, pra afugentar aqueles pensamentos. Acabei levantando um pouco as pernas e abraçando seu corpo do jeito que podia.

Ás vezes eu sentia, que devia aproveitar ao máximo à presença dela, que seria a última vez que nos veríamos. Claro que aquilo era apenas coisa da minha cabeça, mas assustava.

 

Tínhamos pouco tempo de almoço, sem nem notar, uma hora passou voando, teria que acorda-la mesmo sem querer. Por mim ficaria ali o dia inteiro, com ela nos meus braços, cuidando de seus sonhos.

 

Distraída com meus dedos que brincavam por seu rosto, acabei não ouvindo alguém se aproximar. Não teria nada demais em nos verem daquele jeito, ela só estava dormindo no meu colo, mas o “alguém”...

 

Não era qualquer um...

 

- Luiza! – Virei á cabeça na direção do grito assustada e senti meu coração parar.

 

Era minha mãe.

 

Se ela já não tivesse visto Cássia pelo prédio, poderia ter imaginado que fosse um cara e provavelmente teria me mandado não demorar, saindo logo assim.

 

Só que ela sabia que não era um cara.

 

Olhava pra mim buscando explicações e olhava pra pobre garota dormindo querendo mata-la. Com medo de ela acabar voando em cima de nós, balancei Cássia tentando acorda-la.

 

- Acorda, acorda, acorda! – Sussurrei.

 

- Por que está com essa garota, Luiza?! – Perguntou grosseiramente.

 

Pronto, estou tão fodida.

 

- É uma amiga mãe, ela trabalha aqui também lembra? – Dei um sorriso de desespero e tentei mudar o rumo da coisa, suspirando aliviada quando notei ela acordar.

 

- O... Que? – Perguntou se levantando.

 

Passava minhas mãos sobre seus cabelos, fingindo arruma-los pra esconder meu nervosismo.

 

- A gente já estava quase perdendo a hora. Se minha mãe não chega, eu também ia acabar dormindo – Ela passava a mão nos olhos, parando de repente.

 

- Sua mãe? – Perguntou estranhando.

 

- LUIZA, VAMOS AGORA!

 

Nós duas acabamos pulando assustadas, ela se virou e viu minha mãe na entrada do corredor, parecia ver um fantasma. Levantou-se na hora e eu a imitei, não queria que a situação ficasse mais desagradável do que já estava, então resolvi apresenta-las.

 

Não era uma boa ideia, era óbvio que minha mãe não queria papo com ela, mas eu esperava que mesmo com raiva, ela fosse educada.

 

Peguei na mão dela e fui puxando-a até minha mãe.

 

- Na-na-não, Lui-za não... - Ela até tentou puxar seu braço de volta, porém desistiu no segundo puxão. Ela estava com medo e não era pra menos.

 

- Mãe, essa é... A Cássia. Uma amiga que o Nando me apresentou – Se eu falasse que ela era amiga de um amigo conhecido, talvez ela desencanasse.

 

- O-o-oi – Cássia gaguejou.

 

Foi nessa hora, que lembrei-me do quanto ela era tímida com desconhecidos.

 

- Eu não quero saber se ela é amiga do Nando, ele eu conheço e sei quem é. Não quero você andando com gente assim! – Arregalei os olhos ao ouvir aquilo sair da boca dela e na hora me preocupei.

 

Fiquei na frente da minha menina e segurei seu rosto com as duas mãos, querendo de alguma forma me desculpar por aquilo. Ela apenas tocou minha mão esquerda e negou.

 

Ela estava sem reação.

 

- O que é isso? Solta esse, essa... Essa doente, AGORA, LUIZA! – Sem paciência alguma, ela me agarrou pelo pulso.

 

Na mesma hora Cássia me segurou e pareceu notar a gravidade da situação.

 

- Não machuca ela... E-eu já vou voltar... – Ouvimos ela começar a falar e eu sabia o esforço que era pra ela, fazer aquilo – A se-senhora... Pode ficar tranquila, não é nada do que esta pensando.

 

- Você não me dirija á palavra! – Gritou quase avançando sobre ela, mas a protegi por estar entre as duas.

 

Olhei minha mãe e puxei meu braço de volta, não acreditava na forma  horrível que estava tratando ela.

 

- Desculpa Cássia, por favor... – Estava me sentindo tão culpada.

 

- Eu que peço desculpa, Luiza... – Respirou fundo e sorriu em nervosismo, eu sabia que ela não estava bem – Se eu não tivesse te pedido ajuda quando passei mal, sua mãe não estaria brava... Eu, preciso ir...

 

Logo em seguida saiu apressada, quase caindo quando perdeu o equilíbrio.

 

Ela havia mentido só pra me livrar... Senti vontade de chorar por tudo aquilo. Ainda estava de costas pra minha mãe, sabia que ela devia estar explodindo, mas não me importava.

 

A pessoa que eu amava estava triste e precisando de um ombro. Era a primeira vez que via seu lado frágil.

 

- Luiza, desde quando esta andando com gente assim? – Me empurrou com a mão, fazendo eu me desequilibrar – Sabe que essa gente é doente!

 

Eu não conseguia nem olha-la de tanta incredulidade.

 

Minha mãe, minha própria mãe agindo de forma pior que a Eliz. Duas grandes decepções... Dela, eu não esperava nada menos do que respeito.

 

- E se depois você pega isso e vira sapatão também?! Quero saber quem que foi o infeliz que contratou aquilo pra trabalhar aqui, esta na cara que não serve pra nada!

 

Apertei os punhos com raiva.

 

- Se eu te ver de novo com essa garota, eu mato vocês duas! – Gritou apontando o dedo no meu rosto.

 

Eu já estava cansada daquilo, tão cansada que pra não responder de forma mal educada ou mesmo agredir minha mãe, saí correndo. Corri o mais rápido que pude, rodei aquele prédio inteiro pra chegar até a cozinha.

 

Só que para o meu desespero ela não estava lá, perguntei pra uma moça que trabalhava com ela e a mesma disse que a Cássia tinha sido chamada na sala do chefe.

 

Esperava que não fosse nada grave, ela não estava tão atrasada no horário. Sentei-me em um banco próximo e senti uma lágrima descer por meu rosto.

 

Triste.

 

Avistei minha mãe chegando e fechei a cara, levantei-me e peguei outro caminho, desviando dela. Busquei minhas coisas no andar de cima e com a mesma rapidez, sai de lá, indo embora.

 

Queria ficar sozinha, não ter que dar satisfações a ninguém, mas acima de tudo, queria minha menina nos meus braços. Conforta-la.

 

Não daria uma de adolescente inconsequente, iria pra casa, tomaria um banho, pegaria uma mochila e avisaria meu pai que estava indo na casa do Nando. Simples assim, somente com ele teria tudo que precisava.

 

Ele ouviria o que eu dissesse  e respeitaria meu silencio da mesma forma.

 

 

 

°°°°°°°°°°

 

Assim que cheguei em casa, havia tomado um longo banho e me arrumado, junto a uma bolsa de lado. Joguei-me na cama e lá fiquei o resto do dia, sem tirar um cochilo, apenas olhando o teto.

 

Depois de algumas horas pensando, levantei da cama mais calma e busquei as horas no relógio. Calcei meus tênis e peguei minha mochila, saí trancando meu quarto e despedi-me do meu pai.

 

Não tinha contado a ele sobre o episódio, deixaria que ele conversasse com minha mãe. Sabia que não adiantaria eu tentar me explicar, sendo que no final, eles sempre teriam suas “razões”.

 

Quase no horário do termino de serviço, saí de casa e segui até meu amigo. Estava indo naquele horário, pois ele estaria se arrumando pra ir á faculdade.

 

Toquei a campainha e sem demora ele abriu a porta.

 

- Dinossauro! – Me apertou em um abraço – Quanto tempo sem ver essa cara feia.

 

- Dois dias né... – Dei risada e entrei – Posso ficar aqui?

 

- Claro que pode, mas o que aconteceu? – Fechou a porta e veio atrás de mim.

 

- Eu te conto assim que você chegar, agora vou aproveitar e já sair junto com você – Joguei minha mochila em um canto da sala e me virei pra ele.

 

- Certo, eu só foi terminar de arrumar minhas coisas – Segui ele até seu quarto e ficamos conversando enquanto ele se arrumava.

 

Saímos de lá sete e meia, ele entrava ás oito horas, me deu a chave de reserva e nos despedimos na entrada do prédio. Nossos caminhos eram em direções opostas.

 

Fui apressada pelas ruas, estava um pouco nervosa, por não saber o que esperar. Ela poderia por um fim em  tudo por causa da minha mãe, como também poderia ficar com raiva pela cena. Eu não a culparia, mas pô, eu gostava demais dela pra deixar isso acontecer.

 

Assim que avistei o prédio, corri um pouco chegando no corredor. Meio tímida passei por duas senhoras que conversam, eram vizinhas e andei até a porta que queria, sentindo os olhos delas nas minhas costas.

 

Sabe aquele momento, que você passa por alguém que esta conversando com outra pessoa e elas param do nada só pra te seguir com os olhos? Foi exatamente assim.

 

Quando levantei a mão pra bater na porta, uma delas se pronunciou.

 

- A menina daí ainda não chegou – Virei-me pra elas sem acreditar.

 

- Mas á essa hora ela já devia ter chegado... – Insisti.

 

A outra senhora da casa de frente, olhou no relógio de pulso, conferindo as horas.

 

- Devia sim, mas ela ainda não chegou... – Olhou pra amiga – Ela sempre passa de casa pra me trazer alguma comida que fez no serviço.

 

Que?

 

- Sim, pra mim também! É um amor de menina – A outra Sorriu comentando – Meu neto adora ela, vive indo nesse apartamento.

 

- Acho que ela será uma ótima mãe, leva tanto jeito com crianças.

 

- E não é mesmo?  Uma vez o meu Arthur estava passando mal e eu não sabia o que fazer, bati na porta dela e...

 

...

 

Certo...

 

Cássia tinha fama de boa moça com as vovós do prédio... Não sabia se achava aquilo fofo ou hilário. Porque era sim muito engraçado ouvir aquilo de duas senhorinhas.

 

- Então... Eu vou esperar, ela deve estar chegando – Falei já me sentando do lado da porta – Obrigada.

 

Elas ainda ficaram lá conversando por mais algum tempo, depois se despediram entre si e de mim também. Queria eu ter vizinhos simpáticos assim, hoje em dia isso era raro.

 

Batiam nove e quarenta quando finalmente ela chegou, eu estava em um canto mais afastada, perto de um vaso de planta enorme. Ela vinha devagar, com a mochila nas costas e duas sacolas, com caixinhas de isopor.

 

Bateu no apartamento da porta da frente e cumprimentou aquela segunda senhora, entregou umas das sacolas a ela e ainda conversou um pouco. Depois de se despedir, se virou já seguindo pra outra vizinha do lado.

 

Então era mesmo verdade aquela história? Essa é pra casar.

 

Fez o mesmo com a vovó e ainda brincou um pouco com um menininho que devia ter uns 3 aninhos. Desejou boa  noite a eles e veio até a porta dela, tateando os bolsos atrás da chave.

 

- Gata, gente boa e charmosa... Afinal, qual é o seu defeito? – Soltei a pergunta.

 

E ela acabou olhando para os lados, me notando somente agora.

 

- O que você... Como... Luiza? – Ficou sem reação e acabamos rindo, caminhou até mim, ajudando-me a levantar.

 

Assim que fiquei em pé, enlacei o pescoço dela, abraçando-a com toda minha força. Desejava aquele contato desde a confusão de mais cedo, agora sim estava me sentindo melhor.

 

Ela retribuiu o carinho sorrindo de lado e nos soltamos, infelizmente não podíamos correr o risco de nos verem.

 

Pegou minha mão em um convite para segui-la e assim fiz. Ela abriu a porta e entramos, foi andando na frente, largando a mochila atrás da porta e a jaqueta em cima dela.

 

Em seguida indo até seu quarto.

 

- Estava esperando á muito tempo? – Perguntou se sentando na cama.

 

- Um pouco, mas não foi tão tedioso esperar... – Apoiei-me no batente da porta, observando-a – Suas admiradoras me fizeram companhia.

 

Falei em um tom zombeteiro e ela ergueu a cabeça curiosa.

 

- Admiradoras?  - Perguntou.

 

Colocou-se em pé e foi até o guarda-roupa, selecionando algumas peças, jogando-as sobre a cama. Estava de costas pra mim e a visão que tinha era de sua calça meio caída, mostrando a faixa de uma cueca da cor preta.

 

Se aquela cena havia me desnorteado? Talvez...

 

- Sim, as suas vizinhas.

 

Ela acabou soltando uma gargalhada daquelas.

 

- Elas são assim mesmo, vivem enchendo todos de elogios, são boas pessoas – Falou rindo.

 

Jogou uma toalha sobre o ombro e recolheu as roupas da cama, levando pro banheiro.

 

- Quer ajuda? – Gritei pra ela ouvir e ela riu de novo.

 

Aah menina, estou falando seríssimo!

 

°°°°°°°°°°°°°°

 

 

Enquanto estava na sala esperando, fiquei a pensar no acontecimento de hoje mais cedo. Algo que me levava a recordar especificamente da conversa que tivemos naquela primeira vez que tinha vindo visita-la.

 

Quando ela havia dito algo sobre aquilo.

 

“- Eu só não quero induzi-la nessa realidade, eu mesma por anos me neguei a aceitar que gostava de mulher. Não é uma coisa fácil, ela tem que entender isso”.

 

Eu realmente não tinha noção, daquilo que ela falava com tanto pesar.

 

Ás vezes eu parecia esquecer que ela era mulher... Me pegava perguntando por que não saíamos de mãos dadas nas ruas ou por que não podíamos nos beijar publicamente.

 

A primeira razão, era porque ela namorava e a segunda, porque nós duas éramos mulheres.

 

Deitei-me no sofá com o corpo virado pra cima e usei meu braço para apoiar a cabeça.

 

Eu não queria que aquilo que eu sentia por ela fosse passageiro... Não queria que ela estivesse certa e que fosse mesmo só uma fase. Só de pensar naquilo já sentia triste, nunca tinha me sentido tão bem com alguém antes.

 

Tinha que ser especial!

 

Depois de hoje, meus olhos acabaram por enxergarem o que ela dizia. Agora eu sabia das dores que aquilo poderia trazer, das perdas e da solidão.

 

Eu não era diferente de ninguém, aquelas coisas me afetariam muito, mas eu acreditava que enquanto houvesse amor envolvido, nada poderia ganhar. Estava me agarrando a ele, lutaria por aquilo nem que o preço fosse perder muito mais.

 

Respirei fundo fechando os olhos.

 

Fiquei quieta na escuridão do cômodo e quando menos esperava senti um corpo se deitar em cima do meu. Em seguida um beijo carinhoso, ser deixado na minha bochecha.

 

Sorri boba ainda de olhos fechados, podia não saber do nosso futuro, mas que eu guardaria pra sempre ela no meu coração, isso eu tinha certeza.

 

- Tá dormindo? – Cochichou perto do meu ouvido e eu balancei a cabeça em afirmação, arrancando uma gargalhada dela.

 

Escorregou o corpo no vão entre mim e o sofá e eu me virei de lado para dar espaço, com seu corpo totalmente colado ao meu, enlaçou seus braços ao meu redor. Gostava quando ela agia assim, sem motivo algum, apenas se aproximava e colava em mim.

 

Gostava de imaginar, que fosse o jeito dela de mostrar que gostava de mim, porque Cássia não era de muitas palavras.

 

Ela achava melhor demonstrar o que sentia em gestos, pois acreditava que as palavras não conseguiam carregar o mesmo sentimento, como se não fosse suficiente.

 

Virei-me no pequeno espaço e ficamos de frente uma pra outra, ela sorriu daquela forma linda que era uma de suas maiores qualidades e beijou a pontinha do meu nariz. Assim que voltou a posição normal notei que seus lábios estavam roxos.

 

Instantaneamente senti algo como um dejá vu, como se eu já tivesse visto aquilo antes. Aquilo era algo banal pra se dar importância, mas o fato de eu me lembrar de algo parecido me chamou a atenção.

 

Em poucos minutos, varri todas as minhas memórias em busca de acontecimentos que se encaixassem com aquilo.

 

Observando seu quarto em um dia qualquer, havia notado muitos frascos de remédios sobre o criado mudo. E a cor dos lábios... Eu já tinha notado antes...

 

Remédios?

 

Eram poucas pistas pra tentar adivinhar o que estava acontecendo!

 

- Por que esta me olhando assim? – Perguntou rindo, mas eu estava tão concentrada que acabei não ouvindo realmente.

 

O que lábios roxos significavam? Ela estava doente?

 

O fato de ela possuir muitos remédios, não tinha que ser necessariamente por ela estar com algo grave. Eu mesma costumava ter todos os tipos de medicamentos, para coisas comuns do dia a dia. Relaxante muscular, gripe, febre, mal estar.

 

Eu nem havia dado bola para aqueles frascos todos naquele dia, nem tido a curiosidade de sempre para ler os rótulos, o que era muito estranho.

 

- Luiza?

 

Eu tinha que aprender de uma vez, a perguntar as coisas antes de começar a ficar maluca com tantas possibilidades. Era tão mais simples!

 

Mas e se ela não quisesse dizer a verdade? E se fosse mesmo algo grave?

 

Porra, Luiza! Pergunta de uma vez.

 

- Cássia... – Ela já me olhava, talvez estivesse tentando falar comigo antes. Mesmo não querendo ser indelicada, eu tinha que perguntar – Você sofre... De alguma doença grave?

 

Primeiro ela fez uma cara de estranhamento e por um momento, quando desviou o olhar pareceu expressar medo, mas depois sua expressão pareceu suavizar.

 

Tudo isso em milésimos de segundos.

 

Ela levou a mão ao rosto, massageando o queixo com o olhar meio longe e ficou nisso por incontáveis minutos, até que finalmente voltasse a olhar pra mim.

 

Comecei a ficar preocupada.

 

- Não que isso vá me afastar é só curiosidade... – Resolvi tentar amenizar a situação.

 

Ela baixou o olhar inquieta mexendo no cabelo, distraída, pois ainda nos mantínhamos abraçadas e sorriu como se lembrasse de algo.

 

- Não... Eu não tenho – Respondeu parecendo calma – Fala isso por causa da minha boca? - Acenei um sim - Isso sempre acontece quando tomo banho gelado, daqui apouco volta ao normal - Terminou tocando os lábios com o indicador.

 

Eu queria acreditar que  eu não precisava me preocupar, porém aquela demora toda pra me responder um simples “Não”, me dizia o contrário.

 

- Por que demorou pra responder? – Perguntei baixinho não querendo questiona-la.

 

Encarou-me seriamente, talvez tentando ler meus pensamentos.

 

- Só... Estava lembrando que outra pessoa havia me feito a mesma pergunta – Fechou os olhos aproximando sua cabeça da minha.

 

- Cássia... – Aquela sensação de que ela estava mentindo prevalecia.

 

- Não se preocupa atoa Luiza, eu juro que não tem nada demais... – Senti sua bochecha em meu queixo – A única coisa que sofro é de mau humor, ao ser acordada a força.

 

Não reprimi o riso ao ouvir aquilo.

 

- Então você tomou banho gelado? –  Tentei mudar de assunto.

 

Se afastou um pouco pra me olhar.

 

- Ás vezes eu gosto – Riu da minha surpresa e eu achei loucura. Onde já se viu? – Peguei esse costume com a minha mãe, mesmo no frio quando dá vontade eu tomo.

 

A loucura é de família, maravilhoso!

 

- Falando em mãe... – Não queria mesmo lembra-la daquilo, porém não poderia deixar passar em branco - Desculpa por aquilo! Acredite, ela não é uma má pessoa... É só esse preconceito gigante que todos têm hoje em dia – Pedia apertando o tecido de sua blusa.

 

- Não grila com isso... Só, esquece... Ta tudo bem – Balançava a cabeça negando.

 

Ela podia dizer quantas vezes quisesse que estava tudo bem, mas eu sabia que não estava. Ninguém fica bem quando as pessoas tentam te machucar, te humilhar. Ainda mais quando as armas são as palavras, essas que nos atingem tão profundamente.

 

Segurei seu rosto aproximando nossas bocas e nos beijamos apaixonadamente, fazendo com que eu me sentisse melhor. Nos apertamos, querendo nos fundir mais naquele sofá, onde passaríamos a noite juntas.

 

Queria aquilo pra sempre.

 

 

 


Notas Finais


(Música: Tiago Iorc – Cataflor)


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