História Gota a gota - Capítulo 9


Escrita por: ~

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Categorias Naruto
Personagens Fugaku Uchiha, Itachi Uchiha, Kagami Uchiha, Mikoto Uchiha, Shisui Uchiha
Tags Fugamiko
Visualizações 39
Palavras 1.902
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Romance e Novela

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 9 - Segurando os pedaços do fim


Fugaku segurava a xícara com os olhos mergulhados no vazio. Havia esquecido o sono em alguma esquina da mente quando as palavras de Mikoto fizeram o favor de não sair dela. Mantivera a surpresa trancafiada no quarto até decidir lhe fazer um chá. Caminhou com ela sobre os ombros e com gestos cegos preparou a bebida que repousou no fundo da porcelana fria que emprestou sua temperatura ao líquido conforme Fugaku se esquecia dele.

O verbo “deixar” soprou seu hálito quente outra vez em seus ouvidos, fazendo algo se curvar no interior do peito adormecido e “solidão” arranhou sua espinha provocando um vazio na garganta como se tivesse roubado suas cordas vocais.

Não notou quando Mikoto deslizou seus passos calmos pelo assoalho e parou para lhe observar, apenas depois de muitos minutos e um gole gelado, deu-se conta da presença dela.

— Eu...

— Não precisa. — Ela o interrompeu, retomando seu caminho.

Fugaku a acompanhou com o olhar pensando no que não sabia começar. Assistiu os gestos suaves encherem a chaleira e acenderem o fogão, a mão cobrir a boca para um bocejo e os dedos bagunçarem o cabelo para prendê-lo com um elástico.

— Mikoto... — O nome ficou no ar quando ela o encarou, porém ele se apressou para prosseguir antes que fosse impedido outra vez. — Eu pensei a noite toda no que me disse... Tem razão em querer partir. Não fui um marido para você durante esse tempo nem sequer um amigo.

— Tratou-me como uma completa estranha, pior, como sua inimiga.

— Não foi um privilégio seu ser tratada assim — respondeu, arrependo-se ao notar a expressão fria da esposa. — Quer dizer...

— Diga logo!

Fugaku respirou fundo condenando sua tentativa de suavizar as palavras. Não tinha a mínima habilidade para tal e acabara de comprovar que tentar dava mais errado do que usar sua sinceridade.

— Não consigo... — disse fazendo a irritação de Mikoto se atenuar pela curiosidade. — relacionar-me com outras pessoas. Por isso não queria casar: sabia que daria errado porque não tinha vontade de assumir o compromisso. Viveria com alguém apenas pelo bem do clã e pelo mesmo motivo teria que tomá-la como mulher. Isso é... Quando soube que era você, senti-me pior. Preferia alguém que eu mal tivesse olhado na cara.

— Não sou muito diferente disso.

— Seria mais fácil se fosse assim... Você não tem culpa de ter entrado nessa situação. Aposto que meu pai e os anciãos tinham tudo pronto há muito tempo, talvez aquela missão que fizemos juntos foi um teste. — Fitou o chão enquanto meditava. — De certa forma, contribuí com sua aprovação. Se eu tivesse desconfiado, a faria reprovar.

— E aprovaria quem desejava.

— Não aprovaria ninguém — pontuou com firmeza. — Nenhuma mulher me interessava naquela época.

— Até hoje isso não mudou? — A frase saltou da boca de Mikoto antes que pudesse filtrá-la. — Não é da minha conta, esqueça. Se terminou, vou me retirar.

— São invisíveis. Comuns feito as árvores ou a chuva. Existem, mas não me chamam a atenção, apenas completam a paisagem. Tem sido assim faz um tempo. O mundo é só um cenário em que vivo. Não me alegra, não me entristece, não me provoca nada.

Mikoto apertou os lábios ao percebê-los abertos e piscou para dispersar o atordoamento. A rachadura mostrava um homem que ela não conhecia, porém suspeitava que existisse debaixo da armadura de ferro que o marido vestia.

— Eu vejo alguém que esconde a dor dentro de si, mas a está transbordando aos poucos por não aguentar — articulou com cuidado temendo que ele se fechasse.

— Isso é um problema — murmurou estreitando os olhos.

— Enquanto não se permitir viver o luto continuará alimentando-o.

— Não há tempo. Tenho que cuidar do clã e da polícia. Ainda há muito a fazer, preciso mostrar que estamos tão sólidos quanto éramos sob o comando do meu pai.

— Em troca dos seus pedaços?

— Ninguém morre por perder uma pessoa querida. Lamentar só faz de mim um fraco que não aceita caminhar com as próprias pernas — rebateu deixando-a sozinha, contudo pode ouvir quando ela soprou:

— Seu coração está cheio de lágrimas...
 

 Fugaku se trancou no quarto, dispondo-se a fazer o que parecia uma das funções básicas de seu corpo. Desengavetou um maço de pergaminhos e se debruçou sobre eles por horas evitando que sua mente fosse preenchida por pensamentos sobre a conversa anterior. Cansado, apoiou a cabeça em uma das mãos e encarou o papel como se este o desafiasse, franziu o cenho, relaxou, resmungou e até mordeu um dos dedos enquanto queimava os neurônios. Estava diante de um dos problemas que se negava a aceitar solução, e quando o mindinho já pedia por misericórdia ao canino nervoso, as batidas na porta anunciaram sua salvação.

— Vim comunicar minha partida. — Mikoto falou indiferente, notando a expressão surpresa dele.

— Certo... — rebateu desviando o olhar para o chão. Não sabia o que sentia, mas preferia esconder o possível.

— Deixei tudo igual ao que era antes de eu morar aqui.

Fugaku assentiu ainda fitando o assoalho. A sensação do rompimento era uma novidade desagradável que o paralisava.

— Se eu soubesse que estava trabalhando não viria avisá-lo. — Atentou-se aos papeis espalhados na mesa pequena.

— Seria um pouco demais ir embora sem se despedir — rompeu a bolha do que não devia dizer. — Embora seja um direito seu agir assim ou de qualquer forma que desejar. — Interrompeu-se para evitar falar além da conta, mas a ponta do novelo já havia sido puxada. — Eu não queria que chegássemos a esse ponto: com essa sensação de que tudo deu errado do começo ao fim. Esperava que você fosse apenas por se dar conta de que não havia futuro entre nós, sem carregar alguma mágoa provocada por mim.

— Como tem certeza de que estou magoada?

Fugaku apertou os lábios num sorriso discreto.

— Continuo presunçoso. Achar que uma garota forte feito você se abalaria por minha causa prova isso.

— Achar que ainda sou uma garota prova que você não enxerga um palmo diante de seu nariz. — Mikoto não conseguiu atenuar a rispidez. — Algumas coisas não devem durar mais que o necessário — disse para si mesma e se aproximou dele.  Curvou o corpo num cumprimento de olhos fechados e ao abri-los reparou no mapa sob a mão de Fugaku.

— É uma área que pertence ao nosso clã... — Ele respondeu a curiosidade nítida na expressão da esposa. — Estava pensando no que poderia fazer com ela.

— Espero que encontre uma alternativa em breve.

— Eu também... — pronunciou em meio a um suspiro. O tempo que dedicara àquela tarefa sem obter sucesso o fazia duvidar de sua capacidade.

 Mikoto pressionou a unha do indicador contra o polegar. A vontade de ficar e ajudar o quase ex-marido surgiu subitamente ironizando a decisão que tomara. Era um pretexto, sabia disso, e odiava pretextos da mesma forma que fugir de situações, mas não tanto quanto se ver dividida entre seus dois objetos de ódio.

— Foi nisso que trabalhou a tarde inteira? — questionou irritada com sua inclinação ao primeiro.   

— Sim. Pensei em várias formas de utilizar a área, mas nenhuma me pareceu boa o bastante. Estou preocupado em deixá-la sem uso, pois pode ser invadida e me causar uma dor de cabeça por culpa da displicência.

— Você puxa para si todas as culpas do mundo. — Mikoto soltou, empurrando a mão dele para observar melhor o mapa. — Se o solo for fértil podemos plantar, talvez até consigamos vender uma parte da produção, assim não dependeríamos tanto de Konoha. Temos um número considerável de pessoas não disponíveis para batalha que poderíamos empregar nisto.

Fugaku encarou o papel como se o visse pela primeira vez. Piscou algumas vezes e fitou Mikoto com assombro.

— É uma ideia ótima...

— Realmente isso não passou por sua cabeça? — perguntou recebendo um “não” discreto. — É viável, simples e de custo mediano. A longo prazo terá um bom retorno.

— Tem razão... Falarei sobre isso na próxima reunião — disse pensativo, logo perdendo a concentração ao notar que Mikoto deslizava para a saída. — Você vai partir agora? — murmurou entre a incredulidade e o dissabor pela realidade. 

— Eu deveria ter partido há dez minutos.

O futuro solteiro levantou e de forma desajeitada anunciou que a levaria até a porta. Soava-lhe estúpido demais acompanhar o fim como um cavalheiro, em contrapartida sentia que devia o mínimo de cordialidade à mulher que, enquanto sua esposa, suportara a frieza de uma montanha de gelo sob a pele de homem.

— Gostaria de sua presença. — Ele exprimiu no lugar do adeus.

— Não vejo motivo para ir.

— Deveria estar lá já que sua ideia será apresentada, aliás, você mesma deveria apresentá-la.

— Não creio que me darão ouvidos.

— Óbvio que irão, você é minha esposa. — A frase escorregou da boca de Fugaku de um modo tão inocente que ele não percebeu suas próprias palavras, no entanto para Mikoto, elas eram feito fios que amarravam seu corpo à paralisia. — Continuará sendo se não for embora...

— Disse que não desejava um relacionamento, o que lhe fez mudar de ideia?

A verdade sorriu para Fugaku com seus dentes pontiagudos, e a solidão deu um passo à frente para lembrá-lo de que seria sua companheira assim que a mulher cruzasse a porta. Ele abaixou a cabeça sentindo vergonha do motivo e emudeceu a resposta que Mikoto esperava.

— Falar às vezes torna as coisas mais fáceis. — Ela continuou encarando-o. — Quando você dá uma ordem e não é compreendido, precisa explicá-la aos seus subordinados para que se tornem claras.

— Algumas explicações são egoístas.

— É o seu egoísmo que está lhe mantendo diante de mim?

— Sim, mas não irei fazê-la refém dele. Espero que tenha sorte da próxima vez — pronunciou devagar a incerteza contida em cada vocábulo.

Os pés de Mikoto se seguraram no lugar por segundos até a última gota de esperança ser consumida pela chama de uma certeza amarga e giraram rumo à saída antes que a indecisão os prendesse ali. Pararam para que as mãos abrissem a porta e tremeram junto com elas quando outra a tocou.

A pele ligeiramente mais grossa cobriu o dorso delicado com um toque digno dele, os dedos se colocaram sobre os espaços dos outros como se a qualquer momento fossem se entrelaçar a eles e logo a respiração de Fugaku roçou nos cabelos da esposa. Os lábios pressionaram devagar os fios negros e sussurraram um “obrigado” pesado e sincero.

— Por que está tornando as coisas mais difíceis? — Ela perguntou com a voz fria embora seu coração gritasse. — Se isto for uma tentativa, desista. Não voltarei atrás.

— Não tenho nada a lhe oferecer além dos problemas que conhece, jamais lhe pediria para ficar e suportá-los.

— Um dia a dor passará e você vai se reencontrar, mas se permitir que tudo se perca não terá para o que voltar quando ela acabar. Será um estranho para si mesmo.

— Talvez eu já seja, mas isso é um problema meu e eu a envolvi mais do que deveria durante o tempo que moramos juntos.

Mikoto entrelaçou seus dedos aos dele com a mesma força que a afirmativa a golpeou.

— Você se afoga sozinho para não pedir ajuda. Pensei que fosse arrogância, mas é o seu jeito de se importar com os outros... Vai expulsar todos da sua vida até morrer de dor?

Fugaku não rebateu, muito menos conseguiu pensar nas frases que sempre usava para se convencer de que sua postura estava correta. Diminuiu a distância sentindo o calor daquelas costas aquecer seu peito e a mão ser tomada pela palma da mulher que esmiuçava seu interior com uma habilidade igualmente desagradável e precisa.



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