História Hades (Camren) - Capítulo 6


Escrita por: ~

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Categorias Fifth Harmony
Personagens Ally Brooke, Camila Cabello, Dinah Jane Hansen, Lauren Jauregui, Normani Hamilton
Tags Ally, Cabello, Camila, Camren, Dinah, Fifth, Hades, Halo, Harmony, Jauregui, Lauren, Mgk, Normani
Exibições 82
Palavras 4.104
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Fantasia, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


MEU DEUS QUE PRÉVIA FOI AQUELA DE BAD THINGS?!?! TO NO SHAWN

Capítulo 6 - Estrada Para o Inferno


Fiquei parada no corredor vendo as minhas amigas histéricas descerem as escadas de dois em dois degraus. Não demoraria muito para que se espalhasse a notícia de que havia um fantasma naquela festa. E, mesmo que ninguém tivesse visto nada, com certeza a história seria repercutida até o fim da noite, sempre com uma nova versão. Senti uma tontura repentina e me segurei no corrimão. A noite planejada para ser divertida acabou se transformando em outra coisa. Estava cansada: era hora de ir embora. Tudo o que deveria fazer era procurar Lauren e pedir que me levasse para casa. Quando a tontura passou, fui até a cozinha, onde dei de cara com uma atividade muito mais inocente. Um grupo estava tentando morder uma maçã mergulhada num balde de água, recipiente que tinham encontrado do lado de fora e posto no chão. Uma menina estava de joelhos, com o rosto enfiado na água, e o pessoal que a observava não parava de gritar. Quando ela finalmente se levantou, os seus cabelos negros estavam molhados e colados à nuca e aos ombros, e havia uma maçã vermelha presa aos seus dentes. Fui empurrada e notei que havia entrado na brincadeira sem saber.

— Agora é a sua vez! — gritou alguém.

Resisti, não queria me ajoelhar.

— Não quero. Só estava olhando.

— Vamos! — gritavam.

Percebi que seria mais fácil morder uma maçã do que vencer o entusiasmo daquela gente. Ainda que uma voz na minha cabeça dissesse que eu deveria ir embora dali, acabei de joelhos, vendo o reflexo do meu rosto na água. Fechei os olhos com força, querendo evitar os avisos que me bombardeavam. Quando voltei a abri-los, vi uma coisa na água que fez o meu coração parar de bater. Logo abaixo do reflexo do meu rosto, estava a imagem de outro rosto. Eram feições esqueléticas ocultadas sob um capuz, com algo escondido na mão em forma de garra. Seria uma foice? A outra mão veio na minha direção, e os dedos estranhamente longos se enrolaram como tentáculos ao redor do meu pescoço. Parecia impossível, mas a imagem era muito familiar. Já tinha visto a túnica preta em quadros e sabia que se tratava da representação da morte... Um Ceifador de Almas. Mas o que ele queria de mim? Não posso ser tocada pela morte, ele deveria estar ali por outra razão. Seria um presságio. Mas do quê? Entrei em pânico e corri em direção à porta, afastando todos os que estavam no caminho. Do lado de fora, ouvi os gritos reclamando da minha fuga. Eu os ignorei e coloquei uma das mãos sobre o peito, tentando controlar os batimentos cardíacos. O ar frio ajudou um pouco, mas eu não conseguia me livrar da sensação que aquele fantasma me causara, pois tudo indicava que ele continuava por perto, esperando uma chance de me encontrar sozinha e me estrangular com as próprias mãos.

— Mila, o que você está fazendo aqui fora? Está tudo bem?

Ouvi um som estranho e percebi que saía de mim. A respiração era pesada, entrecortada. A voz era familiar, mas não era de Lauren, como eu gostaria que fosse. Ben Carter desceu da varanda e ficou de pé ao meu lado, sacudindo o meu corpo de leve, como se eu devesse ser despertada de um transe. O contato humano fez com que me sentisse um pouco melhor.

— Mila, o que aconteceu? Você parecia em choque...

Os cabelos despenteados de Ben caíam sobre seus olhos castanhos, que me encaravam, assustados. Tentei controlar a respiração, mas não consegui, e o meu corpo começou a ficar mole. Se Ben não estivesse por perto, teria caído de cara no chão. Ele parecia acreditar que eu mesma estava causando tudo aquilo.

— O que você está fazendo? — perguntou ele, ao notar que eu não morreria. Depois, se aproximou de mim, e percebi que ele suspeitava de alguma coisa. — Você andou bebendo?

Eu estava prestes a negar aquela alegação, mas logo entendi que seria a maneira mais plausível de justificar o meu estranho comportamento.

— Talvez — respondi, soltando-me de suas mãos e tentando ficar de pé. E me afastei de Ben, querendo evitar as lágrimas. — Obrigada pela ajuda — agradeci, rapidamente. — Estou bem. Sério.

Enquanto me afastava, uma pergunta martelava na minha cabeça em alto e bom som: onde estaria Lauren? Algo estava errado. Eu percebia isso. Todos os instintos celestiais me avisavam que precisávamos dar o fora dali. Logo. Encontrei um salgueiro no jardim, na frente da casa, e me recostei em seu tronco robusto. Ben continuava de pé na varanda, me olhando com uma expressão preocupada e confusa. Não havia tempo para me preocupar, pensando se teria ou não maltratado aquele garoto. Seria verdade que tudo estava voltando? Teriam os demônios retornado a Venus Cove? Tinha certeza de que aquela cidade estava livre deles. Normani e Ally se encarregaram disso. MGK fora banido. Eu mesma vi o corpo dele sendo consumido por línguas de fogo. Ele não voltaria. Mas por que eu estava toda arrepiada? Por que sentia calafrios nas minhas veias, como se fossem pequenas descargas elétricas? Eu me sentia caçada. Naquele lugar, sozinha, podia ver os campos que se abriam na parte traseira da casa e o denso bosque logo atrás. Via também o espantalho com a cabeça tombada sobre o peito. E rezava para que Lauren estivesse voltando do lago. Sabia que, ao vê-la, o medo desapareceria como uma maré. Juntas éramos fortes e nos protegíamos. Precisava encontrá-la.

Naquele exato momento, uma lufada de vento fez a grama seca se mover para todos os lados. A roupa do espantalho voava, a cabeça dele se mexia, e ele passou a olhar diretamente para mim, os olhos feito botões pretos. Meu coração parecia saltar do peito. Deixei escapar um grito. Girei o corpo e voltei correndo para a casa. Logo depois me choquei com alguém. 

— Calma — disse um menino. — O que foi? Você parece morta de medo. 

Ele não falava como um demônio, e, quando ergui os olhos, percebi que não se parecia com um deles. Não usava fantasia, e o reconheci vagamente de algum lugar. Meu pânico amainou um pouco quando percebi que era Siope, ex-namorado de Dinah. Ele estava com um grupo perto da varanda da casa, com um cigarro pela metade entre os dedos. As pessoas me olhavam com desinteresse. Havia um cheiro forte e amargo no ar, algo que eu não conseguia identificar, muito forte. Toquei minha bochecha, que queimava, e fiquei grata quando o ar frio da noite acariciou meu rosto.

— Estou bem — respondi, tentando soar convincente. A última coisa que queria era levantar alarmes desnecessários com base nas minhas confusões.

— Ótimo — disse Siope, fechando os olhos. — Não seria legal se você não estivesse, se é que você me entende...

Franzi o cenho. O que ele dizia parecia incoerente. Ou seria coisa minha? Eu estaria completamente louca? Poderia culpar aquela festa bizarra? Dei um salto quando alguém abriu a porta com força. Dinah apareceu na varanda.

— Finalmente, Mila! — Ela parecia aliviada ao descer as escadas.

— Você quer me enlouquecer? Não encontrei você em lugar algum!

— Ela falava comigo e olhava para Siope e seus amigos. — O que você estava fazendo com eles?

— Siope estava tentando me ajudar — murmurei.

— Sou uma pessoa muito prestativa — disse Siope, indignado. 

Dinah viu o cigarro enrolado entre os dedos dele.

— Você está se drogando? — perguntou ela.

— Drogando, não — respondeu Siope. — Acho que o termo certo é viajando...

— Seu idiota! — gritou Dinah. — Você deveria me levar de volta para casa. Não pretendo passar a noite inteira nessa espelunca.

— Calminha que eu dirijo muito melhor assim — disse Siope. — Fico com os sentidos mais apurados. Aliás, acho que preciso de um balde...

— Se vai vomitar, sai de perto de mim — avisou Dinah.

— Acho que deveríamos dar a noite como encerrada — interrompi. — Você me ajuda a procurar a Lauren? — pedi, virando-me para Dinah. 

A sugestão levantou uma onda de protestos entre Siope e seus amigos.

— Claro — respondeu ela, revirando os olhos para eles. — Acho que a festa está em franca decadência.

Chegamos aos fundos da casa, procurando Lauren, quando ouvimos o som de uma motocicleta avançando pela grama e giramos o corpo. Havia alguma urgência na maneira que a moto gritava, lançando grama pelo ar. Dinah tapou os olhos por causa do farol. O motoqueiro saltou, deixando o motor ligado. Ele usava uma jaqueta de couro estilo aviador e um boné de beisebol virado para trás. Reconheci o garoto alto: era Shawn Mendes. Eu e Lauren passávamos pela casa dele todas as sextas-feiras à tarde quando voltávamos para casa, vindos da escola. Ele estava sempre agachado na entrada polindo o velho Mercedes do pai, preparando-se para um fim de semana de festas. Assim como Lauren, pouca coisa seria capaz de abalar o seu ar de confiança, e por isso era estranho vê-lo com aquela expressão preocupada e vestindo uma camiseta manchada de lama. Instintivamente, Dinah agarrou o seu braço.

— O que foi, Shawn?

Ele mal conseguia falar por causa da respiração pesada.

— Aconteceu um acidente no lago. Precisamos ligar para uma ambulância!

Siope e seus amigos ouviram e tiraram os celulares dos bolsos.

— Não temos sinal — disse Siope, após alguns minutos de tentativa, sacudindo o aparelho e xingando.

— O que aconteceu? — quis saber Dinah.

Antes de responder, Shawn me olhou de maneira estranha. Era como se estivesse em busca do meu perdão.

— Nós apostamos se ela teria coragem de se atirar de uma árvore, mas havia pedras na água. Ela bateu com a cabeça e não acordou.

Shawn falava com os olhos fixos em mim. Por que me olhava daquele jeito? Permaneci em silêncio, mas um pânico gelado tomou conta do meu corpo, envolvendo-me como dedos de gelo. Não seria Lauren. Não poderia ser. Lauren era responsável e ficara por lá para manter os demais sob controle, atendendo ao ferido até a chegada de uma ambulância. No entanto, meu coração não ficaria tranquilo até ter a certeza... E então alguém perguntou o que não tive coragem de perguntar.

— Quem se machucou?

Shawn arregalou os olhos e demorou alguns instantes para responder. Porém, mesmo antes de ouvir, eu sabia qual era a resposta.

— A Lauren.

A voz dele me atingiu como a mera constatação de um fato, sem emoção, e a minha cabeça começou a imaginar a cena. Mas, naquele momento, as minhas pernas pareciam não aguentar o peso do meu corpo. E o meu maior medo — um medo muito maior do que qualquer coisa que poderia acontecer comigo — era que algo acontecesse a Lauren, o que naquele momento era a realidade. Por um segundo, a notícia pareceu forte demais e fiquei sem forças ao lado de Siope, que tentava segurar o meu corpo, embora também estivesse sem muito equilíbrio. Sim, a ferida era Lauren, e eu fora premiada por passar um tempo longe dela. O destino não poderia ser tão cruel. Numa das poucas noites em que os nossos caminhos não se encontraram, ela perdeu a consciência. Shawn colocou as mãos ao redor da cabeça e desabafou:

— Cara, estamos ferrados.

— Ela estava bebada? — perguntou Siope.

— Claro que sim — respondeu Shawn. — Como todos nós.

Em todo o tempo em que estivemos juntos, nunca vi Lauren tomar mais do que duas cervejas. Ela nunca bebia destilados. Era algo que considerava irresponsável. Eu não conseguia imaginar Lauren bêbada e afoita. Era estranho... (N/A: só em fic msm hahahahah)

— Não — discordei. — Lauren não bebe.

— Sério? Mas para tudo existe uma primeira vez.

— Cale a boca e ligue para uma ambulância! — gritou Dinah. E notei o seu braço sobre o meu ombro, e os cachos dos seus cabelos roçando a minha bochecha. Dinah estava curvada sobre mim. — Está tudo bem, Mila, ela vai ficar bem.

Shawn nos observava. O pânico parecia transformado em perverso prazer diante da minha reação. Os demais formavam um círculo à minha volta e todos davam pitacos sobre como lidar com a situação. As vozes se combinavam, formando uma sinfonia sem sentido.

— Como ela está? Deveríamos tentar chamar um médico?

— Entraremos todos numa fria chamando uma ambulância.

— Ah, boa ideia... — disse alguém, em tom de sarcasmo. — Então vamos esperar e ver se ela se recupera sozinha.

— Como ela está, Shawn?

— Não sei muito bem — respondeu ele, perdido. — Ela cortou a cabeça. Havia muito sangue...

— Droga. Precisamos de ajuda.

A imagem de Lauren caída no chão sangrando fez com que eu entrasse em ação.

— Preciso encontrá-la! — gritei, aproximando-me de Mendes. — Quero que alguém me mostre o caminho para o lago!

De repente, Dinah estava ao meu lado, e as mãos dela agarravam os meus ombros, tentando me acalmar.

— Fique calma, Mila. Alguém poderia levá-la até lá?

— Não seja estúpida, Dinah, o lago fica no meio do bosque — disse Ben. — Não se chega lá de carro. Alguém precisa ir à cidade e conseguir uma ambulância.

Eu não podia ficar nem mais um segundo esperando as deliberações dele sabendo que Lauren estava ferida. Eu poderia ajudar com os meus poderes curativos.

— Estou indo — avisei, começando a correr.

— Espere! Levo você — disse Shawn, de repente. — Vai ser mais rápido do que ir correndo no escuro — completou, ainda sem forças, como se soubesse que me levar até Lauren não o libertaria da responsabilidade pelo acidente.

— Não! — disse Dinah, tentando me proteger. — Você deveria ficar aqui enquanto tentamos conseguir um médico.

— E que tal chamar o pai dela? — sugeriu alguém. — Ele é cirurgião, certo?

— Boa ideia. Descubra o número.

— O Sr. Jauregui  é um cara legal, ele não nos entregaria.

— Mas como poderíamos entrar em contato com ele se não temos sinal? — perguntou Ben, agitado. — Por telepatia?

Eu fazia força para não liberar as minhas asas e voar em direção a Lauren. Seria a reação natural do meu corpo, e não sabia quanto tempo poderia aguentar. Impaciente, olhei para Shawn.

— O que estamos esperando?

Ele montou na moto de imediato e estendeu o braço para que eu subisse. A moto brilhante uivava na noite como um inseto alienígena.

— Que tal usar um capacete? — perguntou Ben, enquanto Shawn acelerava. Ele não gostava dos bad boys da escola. Mas, pelo rosto dele, notei que também estava preocupado comigo, com a minha segurança e com o nível questionável de responsabilidade de Shawn. Entendi que Ben apenas estava sendo precavido, mas o meu único objetivo era encontrar Lauren.

— Não temos tempo para isso — respondeu Shawn, agarrando os meus dois braços e posicionando-os na sua cintura. — Segure firme — disse. — Aconteça o que acontecer, não solte.

A moto deu um pinote antes de descer em direção ao asfalto escuro.

— O lago não fica do outro lado? — gritei, tentando vencer o barulho do motor.

— Vamos por um atalho — respondeu Mendes.

Eu tentava me conectar a Lauren para conhecer a gravidade dos seus ferimentos, mas não conseguia. Isso me deixou assustada. Normalmente, eu percebia o que ela estava sentindo antes mesmo que ela. Normani me disse que eu perceberia de imediato se algo ruim acontecesse. Mas daquela vez não. Seria por causa do estresse vivido na sessão espírita? Shawn chegou à estrada e começou a ganhar velocidade quando ouvi uma voz vinda de trás, que me chamava. Mesmo com a barulheira do motor, identifiquei a voz que adorava e que passara a noite querendo escutar. Ela me fez reviver. Shawn girou a moto, e vi Lauren de pé, banhada pela luz da lua, na beira da estrada. Meu coração ficou imediatamente mais leve. Ele parecia perfeitamente saudável.

— Camz? — Ela repetia o meu nome, num tom cauteloso.

Lauren estava de pé, a poucos metros da moto, e fiquei tão agitada ao vê-la inteira que nem cogitei que algo pudesse estar fora de lugar nem parei para pensar por que Lauren parecia tão surpresa ao nos ver.

— Para onde estão indo? — perguntou ela. — Shawn, onde você conseguiu essa moto?

— Lauren! — gritei, aliviada. — Graças a Deus, você despertou! E a sua cabeça, como está? Estávamos muito preocupados. Precisamos voltar e avisar que você está bem.

— A minha cabeça? — perguntou ela, ainda mais intrigada. — Do que você está falando?

— Do acidente! Você pode ter sofrido uma concussão. Shawn, quero descer da moto.

— Camz, eu estou bem — disse Lauren, tocando a cabeça. — Não aconteceu nada comigo.

— Mas achei que... — E parei de falar.

Lauren estava bem e não havia nenhuma marca no seu corpo. Ela estava do mesmo jeito de quando me deixou na festa, de calça jeans e camiseta preta justa. Notei que a postura de Lauren era cada vez mais defensiva. Os olhos verdes ficavam mais penetrantes.

— Camz — disse ela, com cuidado — quero que desça dessa moto.

— Shawn? — pedi, batendo de leve no seu ombro, notando que ele não dissera uma única palavra durante a minha conversa com Lauren. A moto continuava vibrando sob mim, e Shawn seguia imóvel, com o olhar fixo na frente.

Lauren tentou dar um passo na nossa direção, mas algo a deteve, e ela ficou parada. Tentou também manter o tom de voz, mas percebi certo desespero. — Camz, você me escutou? Desça da moto, agora!

Coloquei os dois pés no chão para acalmar Lauren, mas, quando tentei soltar os braços da cintura de Shawn, ele deu marcha a ré e a moto se moveu para trás. Tive que me agarrar com mais força ao seu corpo para não cair.

Até aquele momento, imaginava que a situação fosse uma brincadeira de Shawn, o que, aos olhos de Lauren, não era nada engraçado. Mas vi Lauren passando uma das mãos pelos cabelos, nervosa, e percebi que o rosto dela estampava angústia. Seu olhar era o mesmo daquela terrível tarde no cemitério, quando fui capturada na frente dela e ela não pôde fazer nada. Era o mesmo olhar: um olhar que demonstrava a sua busca urgente por uma saída, embora soubéssemos que estávamos encurraladas. Era como se Lauren estivesse encarando uma cobra venenosa que poderia dar o bote a qualquer momento, como se um movimento pudesse ser fatal. Shawn movia a moto em círculos, se divertindo com a ansiedade que causava. Lauren gritava e tentava mover o corpo, mas alguma força a detinha. Ela trincou os dentes e lutou contra a barreira invisível imposta diante do seu corpo, mas não conseguiu ultrapassá-la. A moto se movia em todas as direções.

— O que está acontecendo? — gritei, quando a moto finalmente parou, levantando poeira. — Lauren, o que está acontecendo?

Estávamos mais perto dela, e eu podia ver nos seus olhos uma dor profunda, mas também raiva e muita frustração por não poder me ajudar. Sim, eu estava mesmo em perigo. Talvez nós duas  estivéssemos.

— Camz... Esse aí não é o Shawn.

Essas palavras me deixaram muito nervosa. Tentei me soltar. Estava pronta para me jogar da moto, mas não consegui mover os braços. Pareciam presos por uma força invisível.

— Pare! Quero descer! — gritava.

— Tarde demais — respondeu Shawn, embora não fosse ele. A voz era mais doce e pegajosa. Era a mesma voz que tantas vezes me assustara em sonhos, uma voz que eu reconheceria em qualquer lugar. O corpo sob os meus braços começou a ganhar novas formas. O peito musculoso e amplo e os braços bem-definidos ficavam mais finos, mais frios. As grandes mãos de Shawn pareciam mais ossudas, mais pálidas. Pela primeira vez, ele virou o rosto para me encarar. Vê-lo tão perto fez o meu estômago se revirar. O rosto de MGK não tinha mudado nada. Reconheci aquele nariz afilado que se curvava de leve na ponta e as bochechas entalhadas que certa vez levaram Dinah a compará-lo com um modelo da Calvin Klein. Os lábios pálidos se entreabriram, revelando pequenos dentes brancos. Mas os olhos eram diferentes. Pareciam pulsar com uma energia maligna. Quando observei com atenção, vi que não eram azuis nem pretos, como me lembrava, mas sim cor de vinho, cor de sangue coagulado.

— NÃO! — gritou Lauren, com o rosto desfigurado de tanto desespero.

Sua voz era engolida pelo vento que assolava a estrada deserta. 

— AFASTE-SE DELA!

Não lembro muito bem o que aconteceu em seguida. Sei que Lauren se livrou da imobilidade, pois correu na minha direção. Meus braços ficaram livres, e tentei descer da moto, mas a cabeça doía, e percebi que MGK me segurava pelos cabelos ao mesmo tempo que dirigia a moto com apenas uma das mãos. Ignorei a terrível dor e lutei com mais força, mas tudo foi inútil.

— Consegui! — gritou MGK. E a voz dele soava como um predador em luta.

Ele acelerou a moto com força, e o motor ganhava vida, como se fosse uma besta descontrolada. A moto se movia aos tropeções. 

— Lauren! — gritei, no momento em que ela nos alcançou. Esticamos os braços, e os dedos quase se tocaram. Mas MGK tombou a moto de forma violenta, atirando-a contra o corpo de Lauren. Ouvi um barulho seco no momento em que o metal a atingiu. Gritei quando ela caiu no chão e começou a rolar em direção à beira da estrada. Eu a perdi de vista. A moto ganhou velocidade, deixando-a envolta numa nuvem de poeira. Com o canto do olho, vi que algumas pessoas se aproximavam da estrada, atraídas pela confusão, e rezei para que chegassem a tempo de socorrer Lauren. Como um chicote negro, a moto subia a estrada deserta que serpeava à nossa frente. MGK dirigia a tanta velocidade que, ao virar numa curva, quase tocamos o chão. Meu corpo gritava para voltar para perto de Lauren. Meu único amor verdadeiro. A luz da minha vida. Meu peito ficou pesado, não conseguia respirar, só pensava nela, imóvel e envolta em poeira. A dor era tão grande que nem ligava para onde MGK me levaria ou para os horrores que me esperavam. Tudo o que desejava era saber se Lauren estava bem. Tentei não pensar no pior, embora a palavra "morta" não saísse dos meus ouvidos, sendo repetida em alto e bom som, como um sino de igreja. Demorei um pouco para perceber que estava chorando. Meu corpo se curvava em soluços pesados, meus olhos queimavam por causa das lágrimas escaldantes.

Não havia nada mais a fazer além de implorar ao Criador, rezando, pedindo, implorando, negociando — eu faria qualquer coisa para proteger a Lauren. Ela não poderia ser afastada de mim daquela maneira. Eu seria capaz de sobreviver a um furacão, a intensas torturas físicas, ao Armagedom e a uma chuva de fogo, mas não o conseguiria longe de Lauren. Um pensamento estranho tomou conta da minha cabeça: se MGK de fato tivesse matado a minha namorada, ele pagaria por isso. E daí se isso era contrário às leis divinas? Eu vingaria a minha perda. Seria capaz de perdoar qualquer crime, desde que não fosse contra Lauren. Que Deus me perdoasse, mas MGK teria o troco. Queria destruir aquele corpo à minha frente — queria puni-lo mais uma vez por infectar a minha vida com a sua terrível presença. Eu me sentia contaminada simplesmente por estar perto dele. Pensei em jogar o peso do meu corpo para um dos lados e desestabilizar a moto, embora soubesse que, na velocidade em que viajávamos, provavelmente os dois seriam esfolados contra o asfalto. Estava desesperada. Antes que eu perdesse o controle dos meus pensamentos, algo aconteceu — algo que nunca imaginaria possível, nem mesmo nos meus piores pesadelos. Em qualquer outro momento, teria ficado horrorizada só de pensar nisso. Mas estava tão perdida que não senti nada além de uma forte tensão no corpo, como se tivesse sido invadida por um jorro de veneno. A estrada desafiava a gravidade e se erguia à nossa frente. Uma grande cratera se abriu em seu centro. Sim, a estrada se abriu, e a cratera era cada vez maior, como uma boca faminta, cavernosa, esperando para nos engolir. O vento que batia contra o meu rosto era quente, e uma fumaça começou a erguer-se do asfalto. Instintivamente, sabia que tudo aquilo emanava de um sentimento de profundo vazio, estávamos seguindo em linha reta em direção aos portões do Inferno. E o Inferno logo surgiu à nossa frente.

Gritei quando a moto ficou parada no ar por alguns instantes, e MGK desligou o motor pouco antes de entrarmos no vazio, em completo silêncio. Virei o rosto para ver a abertura logo atrás se fechando, afastando-nos da luz da lua, das árvores, da Terra que eu tanto amava.

Era impossível dizer quando eu voltaria a ver tudo aquilo. A última coisa que percebi foi que caía ouvindo o som dos meus próprios gritos, antes de sermos consumidos pela escuridão.


Notas Finais


Welcome to the hell...


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