História Hammond - Capítulo 2


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Categorias Originais
Tags Depressão, Diário, Drama, Filosofia, Originais, Psicologia
Visualizações 7
Palavras 1.034
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


E aí, gostaram do primeiro capítulo? Espero que sim, meus caros. Essa é uma história bastante profunda, e alguns podem achar os temas que abordo um tanto pesados. Acho válido ressaltar que é importante ter discernimento ao decidir prosseguir ou não com a leitura dessa história.
De resto, agradeço pelos favoritos, pelos comentários e pela leitura de vocês. Um grande abraço a todos!

Capítulo 2 - Dia 2 - Os Olhos


É, o dia já virou, e parece que estou de volta. Aposto que pensou que eu não voltaria, não é mesmo?

Meu Deus, a que ponto eu cheguei? Estou literalmente – e literariamente – conversando com uma folha de papel. Me pergunto se eu poderia ser mais louco e mais dramático do que isso. E ainda criei uma persona! Sim, estou falando exatamente de você, leitor imaginário. Uma persona para ouvir as baboseiras que tenho a dizer.

Sabe, odeio admitir coisas para mim mesmo, mas agora é preciso: foi boa a sensação de contar a alguém sobre essa angústia que assola meu coração. Só acho uma pena que esse alguém seja um mísero pedaço de papel. Não tenho dinheiro para pagar um terapeuta e meus amigos já morreram, ou se afastaram de mim.

Ou teria eu me afastado deles? Creio que não faça muita diferença. A solidão continua sendo a mesma, não importa quantas pessoas lá fora no mundo ainda se lembrem do seu nome. Ainda assim, me pergunto em que ponto minhas melhores amizades deram errado. Lembro-me de Lucas, com quem eu adorava passar as tardes jogando futebol quando era criança. Podia-se dizer que éramos melhores amigos. Sentávamos sempre juntos na escola, saíamos todas as tardes da aula para brincar no parquinho do bairro, um vivia na casa do outro.

Então, veio o falecimento dos meus pais. Não o vejo desde o dia do funeral, afinal, tive de me mudar imediatamente da cidade para morar com uma tia. Recordo-me de entregar a um colega nosso um bilhete com meu futuro novo endereço para que ele, por sua vez, o repassasse para Lucas. Esperei por meses ao lado da caixa de correio, mas nenhuma carta chegou.

Já em outro canto do país, conheci Daniel. Já eram tempos de ensino médio. Meus colegas começavam a descobrir as maravilhas proibidas do mundo dos adultos; sexo, drogas e bebidas eram a novidade mais quente que as festinhas poderiam proporcionar.

Certa vez fui convidado para a festa da menina mais popular da escola. Seus pais eram ricos, e alugaram um enorme salão para a comemoração do aniversário da filha. Em meio a copos de cerveja espalhados pelo chão e banheiros interditados pelo sexo aventureiro de alguns casais, encontrei Daniel por trás de uma cortina de fumaça oriunda do baseado de seu amigo.

Por mais que estivesse rodeado de jovens inconsequentes se embriagando, foi fácil perceber que aquele era o sujeito mais sóbrio da festa. Mal sabia eu que aquela conversa que se iniciara com meu comentário “que festa de merda”, acabaria por virar uma das amizades mais duradouras que eu tive na vida.

Infelizmente, Daniel, assim como eu, não vinha de uma família perfeita. Seu pai era ausente, vivia no trabalho, e sua mãe tinha surtos psicóticos. Certa noite, a mãe de Daniel, em mais um de seus delírios, tentou mata-lo com a arma do marido. Para sua sorte, o tiro apenas pegou de raspão no braço.

No entanto, como pude perceber, Daniel jamais voltara a ser o mesmo. Enquanto isso, sua mãe fora internada na ala psiquiátrica do hospital local, sem esperança de tratamento por parte dos médicos.

É engraçado como os olhos nos dizem muita coisa. Os olhos azulados de Daniel mais me pareciam uma prisão. Era como se seu espírito quisesse sair daquela cela, mas a carcaça do corpo não o permitisse. Daniel havia morrido por dentro, apenas o resto do mundo não queria admitir.

Ver a própria mãe se voltar contra sua criação... aquilo simplesmente não era natural, não era certo. Muito mais do que isso, aquilo ameaçava todo e qualquer sentido que a vida poderia ter. Depois de um acontecimento desses, não seria possível em mais ninguém. Afinal, se não na pessoa que me trouxera ao mundo, em quem mais eu poderia confiar?

A minha “teoria prisão” ficava cada vez mais clara à medida que as semanas passavam. Primeiro, Daniel parou de ir aos nossos encontros no bar após a aula. Em seguida, nem mais às aulas ele comparecia. Nas poucas oportunidades em que fora ao colégio, passara a aula inteira dormindo sobre a carteira. Aquilo não mais era um ser humano. O que eu e meus colegas víamos era um zumbi, como aqueles nos filmes da televisão. Suas olheiras eram tão profundas que era possível sentir vertigem olhando para elas. Seus olhos eram como areia movediça, sugando para o abismo infindável todos aqueles que se aventurassem a decifrá-los.

A partir disso, tudo seguiu ladeira abaixo para ele. Não mais vi Daniel até o fim das aulas. Já perdi a conta de quantas vezes batemos incessantemente à porta de sua casa, tentando chama-lo, e descobrir se ele ainda estava vivo. Mas ninguém nunca respondia. Apenas alguns anos depois, num reencontro de cinco anos de formatura, me contaram que ele cometera suicídio alguns meses antes. Usara a mesma arma com a qual a mãe tentara mata-lo quando era mais jovem. Apenas um tiro e uma carta que escrevera, culpando seus pais por sua decisão.

No último ano do ensino médio, já sem esperanças de que algo de bom poderia me acontecer, acabei por conhecer Pedro, o sujeito que mudaria minha vida para sempre. Mas acho que essa história deveria ficar para depois. Ela tem relação direta com o meu maior segredo, o mais difícil que já precisei guardar em toda a minha vida. E eu pretendo contar a você, minha persona imaginária, apenas não me sinto preparado ainda. Portanto, fica para uma próxima oportunidade.

Hoje acredito que as amizades são todas baseadas na audição. Não adianta nada ter um banana do seu lado e chama-lo de amigo, se você não estiver disposto a ouvi-lo e ajuda-lo, e vice-versa. Vale dizer que amizade é uma via de mão dupla; se o esforço vem apenas de um dos lados, ela também estará fadada à decomposição do tempo.

Meu maior arrependimento é só ter percebido isso quando já era tarde demais. Hoje a solidão me consome por conta dos meus erros do passado. É triste dizer isso, mas você, meu pedacinho de papel, meu leitor imaginário, é o único amigo que me resta. Mesmo que você não seja uma pessoa, você é o melhor amigo que eu já tive.



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