História Harry Potter e a Câmara Secreta - Capítulo 16


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Categorias Harry Potter
Personagens Personagens Originais
Tags Aventura, Fantasia, Harry Potter
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LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Aventura, Fantasia, Romance e Novela

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 16 - A Câmara Secreta


— Tantas vezes estivemos naquele banheiro, e ela ali a apenas três boxes de distância — comentou Rony amargurado à mesa do café, na manhã seguinte —, e poderíamos ter perguntado a ela, e agora...

Fora bastante difícil encontrar as aranhas. Fugir dos professores o tempo suficiente para entrar escondido em um banheiro de meninas, e ainda por cima o banheiro de meninas bem ao lado da cena do primeiro ataque, ia ser quase impossível.

Mas aconteceu uma coisa logo na primeira aula, Transfiguração, que varreu a Câmara Secreta para longe dos pensamentos dos dois garotos pela primeira vez em semanas. Minutos depois de entrarem em sala, a Profª. McGonagall avisou que os exames começariam no dia primeiro de junho, dali a uma semana.

— Exames? — gritou Simas Finnigan. — E vamos ter exames?

Ouviram um estrondo atrás de Harry quando a varinha de Neville escapuliu e fez desaparecer um pé de sua carteira. A professora restaurou-a com um aceno da própria varinha e se virou de cara amarrada para Simas.

— A razão de se manter a escola aberta neste momento é vocês receberem educação — disse ela severamente. — Portanto, os exames vão se realizar normalmente, e confio que vocês estejam estudando a sério.

Estudando a sério! Jamais ocorrera a Harry que haveria exames com o castelo naquela situação. Houve muitos murmúrios de protesto na sala que fizeram a professora amarrar ainda mais a cara.

— As instruções que recebi do Prof. Dumbledore foram no sentido de manter a escola funcionando o mais normalmente possível. E isto, não preciso dizer, significa descobrir o quanto os senhores aprenderam neste ano.

Harry olhou para os dois coelhos que devia transformar em chinelos. O que é que ele aprendera até ali naquele ano? Não conseguia lembrar nada que lhe pudesse ser útil em um exame.

Rony parecia que tinha acabado de ser informado de que seria obrigado a ir viver na Floresta Proibida.

— Você pode me imaginar fazendo exames com isso? — perguntou ele a Harry, mostrando a varinha, que começara a assobiar alto.

Três dias antes do primeiro exame, a Profª. McGonagall deu outro aviso no café da manhã.

— Tenho boas notícias — disse, e os alunos no Salão, ao invés de se calarem, desataram a falar.

— Dumbledore vai voltar! — exclamaram de alegria vários alunos.

— Apanharam o herdeiro de Slytherin — gritou, esganiçada, uma menina na mesa da Corvinal.

— Os jogos de Quadribol vão recomeçar! — berrou Olívio, excitado.

Quando o vozerio diminuiu, a professora disse:

— A Profª. Sprout me informou que finalmente as mandrágoras estão prontas para serem colhidas. Hoje à noite, poderemos ressuscitar os alunos que foram petrificados. Não será preciso lembrar a todos que um deles talvez possa nos dizer quem ou o que os atacou. Tenho esperanças que este ano tenebroso terminará com a captura do culpado.

Houve uma explosão de vivas. Harry olhou para a mesa da Sonserina e não ficou nem um pouco surpreso ao ver que Draco Malfoy não se alegrara. Rony, porém, parecia mais feliz do que nos últimos dias.

— Então, não vai fazer diferença nunca termos perguntado nada à Murta! — disse a Harry. — Mione provavelmente terá todas as respostas quando a acordarem! E mais, vai endoidar quando descobrir que vamos ter exames dentro de três dias. Ela não estudou. Seria mais caridoso que a deixassem onde está até os exames terminarem.

Nesse instante Gina Weasley se aproximou e se sentou ao lado de Rony. Parecia tensa e nervosa e Harry reparou que torcia as mãos no colo.

— Que foi que aconteceu? — perguntou Rony, servindo-se de mais mingau.

Gina não disse nada, mas olhava de uma ponta a outra da mesa da Grifinória com uma expressão apavorada no rosto, que lembrou a Harry alguém, embora ele não conseguisse atinar quem.

— Desembucha logo — disse Rony, observando-a.

Harry de repente percebeu com quem Gina parecia. Estava se balançando para frente e para trás na cadeira, exatamente como Dobby fazia quando estava hesitando, pouco antes de revelar a informação proibida.

— Tenho que lhe contar uma coisa — murmurou Gina, tomando cuidado para não olhar para Harry.

— O quê? — perguntou Harry.

Gina fez cara de quem não consegue encontrar as palavras certas.

— Que é? — perguntou Rony.

Gina abriu a boca, mas não saiu som algum. Harry se curvou para frente e falou baixinho, de modo que somente Gina e Rony pudessem ouvir.

— É uma coisa sobre a Câmara Secreta? Você viu alguma coisa? Alguém se comportando estranhamente?

Gina tomou fôlego e, naquele exato momento, Percy Weasley apareceu, com a cara cansada e pálida.

— Se você já terminou de comer, fico com o seu lugar, Gina. Estou morto de fome. Acabei de ser liberado do serviço de vigilância.

Gina deu um pulo como se sua cadeira estivesse eletrificada, lançou a Percy um olhar rápido e amedrontado e saiu correndo. Percy se sentou e pegou uma caneca no meio da mesa.

— Percy! — disse Rony aborrecido. — Ela ia começar a nos contar uma coisa importante!

A meio caminho de beber um gole de chá, Percy se engasgou.

— Que tipo de coisa? — perguntou tossindo.

— Acabei de perguntar se tinha visto alguma coisa estranha e ela começou a dizer...

— Ah, isso, não tem nada a ver com a Câmara Secreta — disse Percy na mesma hora.

— Como é que você sabe? — perguntou Rony erguendo as sobrancelhas.

— Bem, se você faz questão de saber, Gina, hum, esbarrou comigo no outro dia quando eu estava... Bem, não importa, a questão é que ela me viu fazendo uma coisa e eu, hum, pedi a ela para não contar a ninguém. Devo dizer que achei que ela ia cumprir a promessa. Não é nada, verdade, só que eu preferia...

Harry nunca vira Percy tão constrangido.

— Que é que você estava fazendo, Percy? — perguntou Rony rindo. — Vamos, conte para a gente, não vamos rir.

Percy não retribuiu o sorriso.

— Me passa esses pães, Harry, estou morto de fome.

Harry sabia que o mistério todo poderia ser resolvido no dia seguinte sem ajuda deles, mas não ia deixar passar uma oportunidade de falar com Murta se aparecesse uma – e para sua alegria apareceu, no meio da manhã, quando a turma estava sendo levada para a aula de História da Magia por Gilderoy Lockhart.

Lockhart, que tantas vezes os tranquilizara dizendo que o perigo passara, para em seguida provar-se o contrário, agora estava inteiramente convencido de que nem valia a pena levá-los em segurança pelos corredores. Seus cabelos não estavam tão sedosos quanto de costume; parecia que estivera acordado a maior parte da noite, vigiando o quarto andar.

— Marquem minhas palavras — disse, contornando um canto com os alunos. — As primeiras palavras que aqueles coitados petrificados vão dizer serão “Foi Hagrid”. Francamente, estou pasmo que a Profª. McGonagall continue achando que todas essas medidas de segurança são necessárias.

— Concordo, professor — disse Harry, fazendo Rony derrubar os livros de surpresa.

— Obrigado, Harry — disse Lockhart, gentilmente, enquanto esperavam uma longa fila de alunos da Lufa-Lufa passar. — Quero dizer, nós, professores, já temos muito o que fazer sem ter que acompanhar alunos às aulas e ficar de guarda a noite inteira...

— Tem razão — disse Rony, percebendo a jogada. — Por que o senhor não nos deixa aqui, só temos mais um corredor pela frente...

— Sabe, Weasley, acho que vou fazer isso. Preciso mesmo preparar a minha próxima aula...

E se afastou depressa.

— Preparar a aula — Rony caçoou quando o professor se foi. — É mais provável que vá é enrolar os cabelos.

Os dois amigos deixaram o resto dos colegas da Grifinória seguirem em frente, dispararam por uma passagem lateral e correram para o banheiro da Murta Que Geme. Mas quando estavam se parabenizando pela jogada genial...

— Potter! Weasley! Que é que os senhores estão fazendo?

Era a Profª. McGonagall, e sua boca parecia um fio de linha de tão fina.

— Íamos... Íamos... — gaguejou Rony. — Íamos... Ver...

— Mione — disse Harry. Rony e a professora olharam para ele. — Não a vemos há séculos, professora — continuou Harry depressa, pisando o pé de Rony — e pensamos em entrar sem sermos vistos na ala hospitalar, sabe, e contar a ela que as mandrágoras já estão quase prontas e... Para não se preocupar...

A Profª. McGonagall continuou a olhar fixo para ele e por um instante Harry achou que ela ia explodir, mas quando falou, tinha a voz estranhamente rouca.

— Claro — disse, e Harry, espantado, viu uma lágrima brilhar nos seus olhos de contas. — Claro, compreendo que isto tenha sido mais duro para os amigos dos que foram... Compreendo bem. Está bem, Potter, é claro que os senhores podem ir visitar a Srta. Granger. Vou informar ao Prof. Binns onde foram. Diga a Madame Pomfrey que têm a minha permissão.

Harry e Rony se afastaram, mal ousando acreditar que tinham evitado uma detenção. Quando dobraram o canto do corredor, ouviram distintamente a professora assoar o nariz.

— Essa — disse Rony entusiasmado — foi a melhor história que você já inventou.

Não havia escolha agora senão ir à ala hospitalar e dizer à Madame Pomfrey que tinham permissão da Profª. McGonagall para visitar Mione.

Madame Pomfrey os deixou entrar, com relutância.

— Não tem sentido conversar com uma pessoa petrificada — disse ela, e os garotos tiveram que admitir que estava certa, depois de se sentarem ao lado de Hermione.

Era evidente que Hermione nem imaginava que tinha visitas, e que tanto fazia dizerem ao armário de cabeceira para não se preocupar, tal era o bem que a conversa poderia produzir.

— Mas eu me pergunto se ela terá visto o atacante — disse Rony, contemplando com tristeza o rosto rígido de Mione. — Porque se ele chegou sem ser visto, ninguém nunca vai saber...

Mas Harry não estava olhando para o rosto de Hermione. Estava mais interessado na mão direita da amiga. Estava fechada por cima das cobertas e ao chegar mais perto ele viu que havia um pedaço de papel amarrotado dentro dela.

Verificando antes se Madame Pomfrey andava por perto, ele apontou o papel para Rony.

— Tente tirar — cochichou Rony, mudando a posição da cadeira de modo a esconder Harry da vista de Madame Pomfrey.

Não foi nada fácil. A mão de Mione segurava o papel com tanta força que Harry teve certeza de que ia rasgá-lo. Enquanto Rony vigiava, ele puxou e torceu e, finalmente, depois de alguns minutos tensos, o papel saiu.

Era uma página rasgada de um livro muito velho da biblioteca. Harry alisou-a ansioso, e Rony se curvou mais para ler também.

 

Das muitas feras e monstros medonhos que vagam pela nossa terra, não há nenhum mais curioso ou mortal do que o basilisco, também conhecido como rei das serpentes.

Esta cobra, que pode alcançar um tamanho gigantesco e viver centenas de anos, nasce de um ovo de galinha, chocado por uma rã. Seus métodos de matar são os mais espantosos, pois além das presas letais e venenosas, o basilisco tem um olhar mortífero, e todos que são fixados pelos seus olhos sofrem morte instantânea. As aranhas fogem do basilisco, pois é seu inimigo mortal e o basilisco foge apenas do canto do galo, que lhe é fatal.

 

E, no pé da página, uma única palavra fora escrita numa caligrafia que Harry reconheceu ser de Mione. Canos.

Era como se alguém tivesse acabado de acender uma luz em seu cérebro.

— Rony — sussurrou. — É isso. Isso é a resposta. O monstro na Câmara é um basilisco, uma cobra gigantesca! E por isso que andei ouvindo a voz por todo lado, e ninguém mais ouvia. É porque entendo a língua das cobras...

Harry ergueu os olhos para as camas à sua volta.

— O basilisco mata as pessoas com o olhar. Mas ninguém morreu, porque ninguém o encarou. Colin viu o bicho através da lente da máquina fotográfica. O basilisco queimou o filme que havia dentro, mas Colin só ficou petrificado. Justino... Justino deve ter visto o basilisco através do Nick Quase Sem Cabeça! Nick recebeu todo o impacto, mas não podia morrer novamente... E Mione e aquela monitora da Corvinal foram encontradas com um espelho ao lado delas. Mione acabara de perceber que o monstro era um basilisco. Aposto o que você quiser que ela preveniu a primeira pessoa que encontrou para antes de virar um canto, primeiro olhar o outro lado com um espelho! E aquela garota tirou o espelho da mochila... E...

O queixo de Rony caíra.

— E Madame Nor-r-ra? — perguntou, ansioso.

Harry pensou bastante, imaginando a cena na noite da festa das bruxas.

— A água... — disse lentamente. — A inundação do banheiro da Murta Que Geme. Aposto como Madame Nor-r-ra só viu o reflexo...

Harry examinou a página que tinha na mão, pressuroso.

Quanto mais lia, mais ela fazia sentido.

— “O canto do galo... Lhe é fatal!” — leu ele em voz alta. — Os galos de Hagrid foram mortos! O herdeiro de Slytherin não queria nenhum perto do castelo quando a Câmara fosse aberta! As aranhas fogem do basilisco! Tudo se encaixa!

— Mas como é que o basilisco anda circulando pelo castelo? — perguntou Rony. — Uma cobra gigantesca... Alguém a teria visto...

Harry, porém, apontou para a palavra que Mione escrevera no pé da página.

— Canos. Canos... Rony, ela está usando os canos. Tenho ouvido aquela voz dentro das paredes...

Rony agarrou de repente o braço de Harry.

— A entrada para a Câmara Secreta! — disse com a voz rouca. — E se for um banheiro? E se for o...

— Banheiro da Murta Que Geme — completou Harry.

Os dois ficaram sentados ali, a excitação circulando com rapidez pelo corpo, mal conseguindo acreditar.

— Isto significa — disse Harry — que não devo ser o único a falar a língua das cobras na escola. O herdeiro de Slytherin deve ser outro que fala também. É assim que ele controla o basilisco.

— Que vamos fazer? — perguntou Rony, cujos olhos faiscavam.

— Vamos direto à Profª. McGonagall?

— Vamos à sala dos professores — disse Harry, ficando de pé de um salto. — Ela vai para lá dentro de dez minutos. Já está quase na hora do intervalo.

Os garotos correram para baixo. Não querendo ser encontrados perambulando por outro corredor, foram diretamente à sala dos professores, ainda deserta. Era um aposento amplo, as paredes forradas com painéis de madeira, as cadeiras de madeira escura. Harry e Rony ficaram andando de um lado para o outro, excitados demais para se sentar.

Mas a sineta do intervalo jamais tocou.

— Em vez disso, ecoando pelos corredores, ouviram a voz da Profª. McGonagall, magicamente amplificada.

 

“Todos os alunos voltem imediatamente aos dormitórios de suas casas”.

“Todos os professores voltem à sala de professores. Imediatamente, por favor”.

 

Harry virou-se para encarar Rony.

— Não outro ataque! Não agora!

— Que vamos fazer? — disse Rony horrorizado. — Voltar ao dormitório?

— Não — disse Harry, olhando à sua volta. Havia um tipo feio de guarda-roupa à sua esquerda, onde guardavam as capas dos professores. — Ali dentro. Vamos ouvir o que foi. Depois podemos contar o que descobrimos.

Os garotos se esconderam dentro do armário, escutando o barulho de centenas de pessoas andando no andar de cima e a porta da sala de professores se abrir e bater. Do meio das dobras mofadas das capas, observaram os professores chegarem um a um. Alguns pareciam intrigados, outros completamente apavorados. Então chegou a Profª. McGonagall.

— Aconteceu — disse ela na sala silenciosa. — Uma aluna foi levada pelo monstro. Para a Câmara.

O Prof. Flitwick deixou escapar um grito fino. A Profª. Sprout tampou a boca com as mãos. Snape agarrou com muita força o espaldar de uma cadeira e perguntou:

— Como você pode ter certeza?

— O herdeiro de Slytherin — disse a professora muito pálida — deixou outra mensagem. Logo abaixo da primeira.

 

“O esqueleto dela jazerá na Câmara para sempre.”

 

O Prof. Flitwick rompeu em lágrimas.

— Quem foi? — perguntou Madame Hooch, que afundara, com os joelhos bambos, numa cadeira. — Que aluna?

— Gina Weasley — respondeu McGonagall.

Harry sentiu Rony escorregar silenciosamente para o chão do armário do lado dele.

— Teremos que mandar todos os alunos para casa amanhã — continuou ela. — Isto é o fim de Hogwarts. Dumbledore sempre disse...

A porta da sala de professores bateu outra vez. Por um momento delirante, Harry teve certeza de que seria Dumbledore.

Mas era Lockhart e ele sorria.

— Lamento muito, cochilei, o que foi que perdi?

Ele não pareceu notar que os outros professores o olhavam com uma expressão muito próxima ao ódio. Snape se adiantou.

— O homem de que precisávamos! Em pessoa! Uma menina foi sequestrada pelo monstro, Lockhart. Levada para a Câmara Secreta. Chegou finalmente a sua vez.

Lockhart ficou lívido.

— Isto mesmo, Gilderoy — disse a Profª. Sprout. — Você não estava dizendo ainda ontem à noite que sempre soube onde era à entrada da Câmara Secreta?

— Eu... Bem, eu... — gaguejou Lockhart.

— É, você não me disse que tinha certeza do que havia dentro dela? — falou o Prof. Flitwick.

— D-disse? Não me lembro...

— Pois eu me lembro de você dizendo que lamentava não ter tido uma chance de enfrentar o monstro antes de Hagrid ser preso — continuou Snape. — Você não disse que o caso todo foi mal conduzido e que deviam ter-lhe dado carta branca desde o começo?

Lockhart contemplou os rostos duros dos colegas à sua volta.

— Eu... Eu realmente nunca... Vocês devem ter entendido mal.

— Vamos deixar o problema em suas mãos, então, Gilderoy — disse a Profª. McGonagall. — Hoje à noite será uma ocasião excelente para resolvê-lo. Vamos providenciar para que todos estejam fora do seu caminho. Você terá oportunidade de cuidar do monstro sozinho. Enfim, terá carta branca.

Lockhart olhou desesperado para os lados, mas ninguém veio em seu socorro. Ele não parecia mais bonitão, nem de longe. Seu lábio tremia e na ausência do sorriso costumeiro, cheio de dentes, seu queixo parecia pequeno e fraco.

— M-muito bem — disse. — Estarei em minha sala me... Me preparando.

E saiu.

— Muito bem — disse a Profª. McGonagall, cujas narinas tremeram — com isso o tiramos do caminho. Os diretores das casas devem informar aos alunos do que aconteceu. Digam que o Expresso de Hogwarts os levará para casa logo de manhã. Os demais, por favor, certifiquem-se de que nenhum aluno fique fora dos dormitórios.

Os professores se levantaram e saíram, um por um.

 

 

Foi provavelmente o pior dia da vida de Harry. Ele, Rony, Fred e Jorge se sentaram juntos a um canto da sala comunal da Grifinória, incapazes de dizer qualquer coisa.

Percy não estava presente. Fora despachar uma coruja para o Sr. e a Sra. Weasley, depois trancou-se no dormitório.

Nenhuma tarde jamais se arrastou tanto quanto essa, nem tampouco a Torre da Grifinória esteve tão cheia e, no entanto, tão silenciosa. Próximo ao pôr-do-sol, Fred e Jorge foram se deitar, porque não conseguiam continuar sentados.

— Ela sabia alguma coisa, Harry — disse Rony, falando pela primeira vez desde que entraram no armário da sala de professores. — É por isso que foi sequestrada. Não era uma bobagem sobre o Percy, nada disso. Descobriu alguma coisa sobre a Câmara Secreta. Deve ter sido por isso que foi... — Rony esfregou os olhos com força. — Quero dizer, ela era puro sangue. Não pode haver nenhum outro motivo.

Harry podia ver o sol se pondo, vermelho-sangue, na linha do horizonte. Nunca se sentira pior na vida. Se ao menos houvesse alguma coisa que pudessem fazer. Qualquer coisa.

— Harry — disse Rony. — Você acha que pode haver alguma chance de ela não estar... Sabe...

Harry não soube o que dizer. Não conseguia ver como Gina ainda pudesse estar viva.

— Sabe de uma coisa? — falou Rony. — Acho que devíamos ir ver Lockhart. Contar a ele o que sabemos. Ele vai tentar entrar na Câmara. Podemos contar onde achamos que é, e avisar que tem um basilisco lá dentro.

Porque Harry não pôde pensar em mais nada para fazer e porque queria fazer alguma coisa, ele concordou. Os alunos da Grifinória na sala estavam tão infelizes e sentiam tanta pena dos Weasley, que ninguém tentou impedi-los quando se levantaram, atravessaram a sala e saíram pelo buraco do retrato.

 

 

Anoitecia quando desceram à sala de Lockhart. Parecia haver muita atividade lá dentro. Os garotos ouviram coisas sendo arrastadas, baques surdos e passos apressados.

Harry bateu e fez-se um repentino silêncio na sala. Então abriu-se uma frestinha na porta e eles viram o olho de Lockhart espreitando.

— Ah... Sr. Potter... Sr. Weasley... — disse, abrindo um pouco mais a porta. — Estou muito ocupado no momento, se puderem ser rápidos...

— Professor, temos umas informações para o senhor — disse Harry. — Achamos que podem ajudá-lo.

— Hum... Bem... Não é tão... — A metade do rosto de Lockhart que podiam ver parecia muito constrangida. — Quero dizer... Bem... Muito bem...

Ele abriu a porta e os garotos entraram.

Sua sala tinha sido quase completamente desmontada. Havia dois malões abertos no chão. Vestes verde-jade, lilás, azul-meia-noite, tinham sido apressadamente dobradas e guardadas em um deles; livros tinham sido enfiados de qualquer jeito no outro.

As fotografias que cobriam as paredes agora estavam comprimidas em caixas sobre a escrivaninha.

— O senhor vai a algum lugar? — perguntou Harry.

— Hum, bem, vou — disse Lockhart, arrancando um pôster com a sua foto em tamanho natural das costas da porta, enquanto falava, e começando a enrolá-lo. — Chamado urgente... Inevitável... Tenho que partir...

— E a minha irmã? — perguntou Rony de supetão.

— Bem, sobre isso... Foi muito azar... — respondeu Lockhart, evitando encarar os garotos, enquanto puxava uma gaveta com força e começava a esvaziar o seu conteúdo em uma mochila. — Ninguém lamenta mais do que eu...

— O senhor é o professor de Defesa Contra as Artes das Trevas! — exclamou Harry. — Não pode ir embora agora! Não com todas essas artes das trevas em ação!

— Bem... Devo dizer... Quando aceitei o emprego... — resmungou Lockhart, agora amontoando meias por cima das vestes — nada na descrição da função... Não era de esperar...

— O senhor quer dizer que está fugindo? — disse Harry, incrédulo. — Depois de tudo que fez nos seus livros...

— Os livros podem ser enganosos — disse Lockhart gentilmente.

— Mas foi o senhor quem os escreveu! — gritou Harry.

— Meu caro rapaz — disse Lockhart se endireitando e amarrando a cara para Harry. — Use o bom senso. Meus livros não teriam vendido nem a metade se as pessoas não achassem que eu fiz todas aquelas coisas. Ninguém quer ler histórias de um velho bruxo feio da Armênia, mesmo que tenha salvo uma cidade dos lobisomens. Ele ficaria medonho na capa. Nem sabe se vestir. E a bruxa que afugentou o espírito agourento tinha lábio leporino. Quero dizer, convenhamos...

— Então o senhor só está recebendo crédito pelo que outros bruxos e bruxas fizeram? — perguntou Harry, incrédulo.

— Harry, Harry — disse Lockhart, sacudindo a cabeça com impaciência — a coisa não é tão simples assim. Há muito trabalho envolvido. Eu tive que procurar essas pessoas. Perguntar exatamente como conseguiram fazer o que fizeram. Depois tive que lançar um Feitiço da Memória para elas esquecerem o que fizeram. Se há uma coisa de que me orgulho é do meu Feitiço da Memória. Não, foi muito trabalhoso, Harry. Não é só autografar livros e tirar fotos de publicidade, sabe. Se você quer ser famoso, tem que estar preparado para dar duro.

Ele fechou os malões com estrondo e trancou-os.

— Vejamos — disse. — Acho que é só. É. Só falta uma coisa.

E tirou a varinha e se virou para os garotos.

— Lamento muito, rapazes, mas tenho que lançar um Feitiço da Memória em vocês agora. Não posso permitir que saiam espalhando os meus segredos por aí. Eu jamais venderia outro livro...

Harry apanhou a própria varinha bem na hora. Lockhart mal erguera a sua, quando Harry berrou:

— Expelliarmus!

Lockhart foi atirado para trás, caiu por cima do malão; a varinha voou no ar; Rony agarrou-a e atirou-a pela janela.

— O senhor não devia ter deixado o Prof. Snape nos ensinar isso — disse Harry furioso, chutando o malão de Lockhart para o lado.

Lockhart ficou olhando para ele, parecendo frágil outra vez. Harry apontava a varinha em sua direção.

— O que você quer que eu faça? — perguntou Lockhart com a voz fraca. — Eu não sei onde fica a Câmara Secreta. Não há nada que eu possa fazer.

— O senhor está com sorte — disse Harry, forçando Lockhart a se levantar com a varinha. — Achamos que sabemos onde fica. E o que tem lá dentro. Vamos.

Saíram os três da sala, desceram as escadas mais próximas, e seguiram pelo corredor escuro em que as mensagens brilhavam na parede até a porta do banheiro da Murta Que Geme. Empurraram Lockhart na frente. Harry ficou satisfeito de verificar que o professor tremia.

Murta Que Geme estava sentada na caixa de água do último boxe.

— Ah, é você — disse quando viu Harry. — Que é que você quer agora?

— Perguntar como foi que você morreu.

A atitude de Murta mudou na hora. Parecia que nunca alguém lhe fizera uma pergunta tão elogiosa.

— Aaaah, foi pavoroso — disse com satisfação. — Aconteceu bem aqui. Morri aqui mesmo neste boxe. Me lembro tão bem! Eu tinha me escondido porque Olivia Homby estava caçoando de mim por causa dos meus óculos. Tranquei a porta e fiquei chorando e então ouvi alguém entrar. Disseram uma coisa engraçada. Deve ter sido numa língua diferente, acho. Em todo o caso, o que me incomodou foi que era a voz de um garoto. Então destranquei a porta do boxe para mandar ele sair e ir usar o banheiro dos garotos e então... — Murta inchou fazendo-se de importante, o rosto brilhante. — Morri...

— Como? — perguntou Harry.

— Não faço ideia — disse Murta, sussurrando. — Só me lembro de ter visto dois olhos grandes e amarelos. Meu corpo inteiro foi engolfado e então me afastei flutuando... — Ela olhou para Harry, sonhadora. — E então voltei. Estava decidida a assombrar Olivia Homby, sabe. Ah, como ela lamentou ter-se rido dos meus óculos.

— Onde foi exatamente que você viu os olhos?

— Por ali — respondeu Murta apontando vagamente na direção da pia em frente ao boxe em que estava.

Harry e Rony correram para a pia. Lockhart ficou parado bem mais atrás, uma expressão de puro terror no rosto.

Parecia uma pia comum. Eles examinaram cada centímetro, por dentro e por fora, inclusive os canos embaixo. E então Harry viu: gravada ao lado de uma das torneiras de cobre havia uma cobrinha mínima.

— Essa torneira nunca funcionou — disse Murta, animada, quando ele tentou abri-la.

— Harry — disse Rony. — Diga alguma coisa. Alguma coisa em língua de cobra.

— Mas... — Harry se esforçou.

As únicas vezes em que conseguira falar a língua das cobras foi quando estava diante de uma cobra real. Ele fixou o olhar na gravação minúscula, tentando imaginar que era real.

— Abra — mandou.

Ele olhou para Rony, que sacudiu a cabeça.

— Nossa língua.

Harry tornou a olhar para a cobra, desejando acreditar que estivesse viva. Se ele mexia a cabeça, a luz das velas fazia parecer que a cobra estava se mexendo.

— Abra — repetiu.

Só que as palavras não foram o que ele ouviu; um estranho assobio lhe escapara da boca e na mesma hora a torneira brilhou com uma luz branca e começou a girar. No segundo seguinte, a pia começou a se deslocar; a pia, na realidade, sumiu de vista, deixando um grande cano exposto, um cano largo o suficiente para um homem escorregar por dentro dele.

Harry ouviu Rony soltar uma exclamação e levantou a cabeça. Decidira o que ia fazer.

— Vou descer — anunciou.

Ele não podia deixar de descer, agora que tinham encontrado a entrada para a Câmara, não se houvesse a mais leve, mínima, imaginária chance de Gina estar viva.

— Eu também — falou Rony.

Houve uma pausa.

— Bem, parece que vocês não precisam de mim — disse Lockhart com uma sombra do seu antigo sorriso. — Eu vou...

E levou a mão à maçaneta da porta, mas Rony e Harry apontaram as varinhas para ele.

— Você pode descer primeiro — rosnou Rony.

De rosto lívido e sem varinha, Lockhart se aproximou da abertura.

— Rapazes — disse com a voz fraca. — Rapazes, que bem isto vai trazer?

Harry cutucou-o nas costas com a varinha. Lockhart escorregou as pernas para dentro do cano.

— Eu não acho... — começou a dizer, mas Rony deu-lhe um empurrão, e ele desapareceu de vista.

Harry seguiu-o em silêncio. Baixou o corpo lentamente para dentro do cano e se soltou.

Foi como se ele se precipitasse por um escorrega escuro, viscoso e sem fim. Viu outros canos saindo para todas as direções, mas nenhum tão largo quanto aquele, que virava e dobrava, sempre e íngreme para baixo, e ele percebeu que estava descendo cada vez mais fundo sob a escola, para além das masmorras mais fundas. Atrás ele ouvia Rony, batendo-se ligeiramente nas curvas.

E então, quando começava a se preocupar com o que aconteceria quando chegasse ao chão, o cano nivelou e ele foi atirado pela extremidade com um baque aquoso, e aterrissou no chão úmido de um túnel de pedra às escuras, suficientemente amplo para a pessoa ficar de pé. Lockhart estava se levantando um pouco adiante, coberto de limo e branco como um fantasma. Harry afastou-se para um lado enquanto Rony também saía chispando do cano.

— Devemos estar quilômetros abaixo da escola — disse Harry, sua voz ecoando no túnel escuro.

— Provavelmente debaixo do lago — sugeriu Rony, apertando os olhos para enxergar as paredes escuras e limosas.

Os três se viraram para encarar a escuridão à frente.

— Lumus! — murmurou Harry para sua varinha que acendeu.

— Vamos — chamou Rony e Lockhart, e lá se foram os três, seus passos chapinhando ruidosamente no chão molhado.

O túnel era tão escuro que eles só conseguiam ver uma pequena distância à frente. Suas sombras nas paredes molhadas pareciam monstruosas à luz da varinha.

— Lembrem-se — disse Harry baixinho enquanto avançavam com cautela — a qualquer sinal de movimento, fechem os olhos imediatamente...

Mas o túnel estava silencioso como um túmulo, e o primeiro som inesperado que ouviram foi o ruído de alguma coisa sendo esmagada quando Rony pisou em alguma coisa que descobriram ser um crânio de rato. Harry baixou a varinha para olhar o chão e viu que se encontrava coalhado de ossos de pequenos animais. Tentando por tudo não imaginar que aspecto teria Gina se a encontrassem, Harry, à frente, virou uma curva escura do túnel.

— Harry... Tem alguma coisa ali... — disse Rony rouco, agarrando o ombro do amigo.

Eles se imobilizaram, observando. Harry conseguia apenas ver o contorno de uma coisa enorme e curvilínea, deitada atravessada no túnel. A coisa não se mexia.

— Talvez esteja dormindo — sussurrou, olhando para os outros dois atrás.

Lockhart tampava os olhos com as mãos.

Harry tornou a se virar para olhar a coisa, o coração batendo tão forte que chegava a doer. Muito devagarinho, com os olhos o mais apertados possível, mas ainda vendo, Harry avançou aos poucos com a varinha erguida.

A luz deslizou pela pele de uma cobra gigantesca, colorida e venenosa, que se encontrava enroscada e oca no chão do túnel. O bicho que se desfizera dela devia ter no mínimo uns seis metros de comprimento.

— Droga — xingou Rony em voz baixa.

Ouviram então um movimento súbito às costas. Os joelhos de Lockhart tinham cedido.

— Levante-se — disse Rony com rispidez, apontando a varinha para Lockhart.

O professor se levantou – em seguida atirou-se contra Rony, derrubando-o no chão.

Harry deu um salto à frente, mas demasiado tarde – Lockhart já se erguia, ofegante, a varinha de Rony na mão e um sorriso radioso novamente no rosto.

— A aventura termina aqui, rapazes. Vou levar um pedaço dessa pele de volta à escola, dizer que cheguei tarde demais para salvar a garota e que vocês dois enlouqueceram tragicamente ao verem o corpo dela mutilado, digam adeus às suas memórias!

Ele ergueu a varinha de Rony, emendada com fita adesiva, acima da cabeça e gritou:

— Obliviate!

A varinha explodiu com a força de uma pequena bomba. Harry ergueu os braços para o alto e fugiu, escorregando nas voltas da pele de cobra, escapando do alcance dos grandes pedaços do teto do túnel que caíam com estrondo no chão. No momento seguinte, ele estava sozinho, contemplando uma parede maciça formada pelos destroços.

— Rony! — gritou. — Você está bem? Rony!

— Estou aqui! — respondeu a voz abafada de Rony atrás do entulho. — Estou bem, mas esse imbecil aqui não está, a varinha acertou nele...

Ouviu-se uma pancada surda e um sonoro “ai!”. Parecia que Rony tinha acabado de chutar Lockhart nas canelas.

— E agora? — perguntou a voz de Rony, desesperada. — Não podemos passar, vai levar séculos...

Harry olhou para o teto do túnel. Tinham aparecido nele enormes rachaduras. O garoto nunca tentara cortar, com auxílio da magia, nada tão grande como essas pedras, e agora não parecia uma boa hora para tentar – e se o túnel inteiro desabasse?

Ouviu-se mais outra pancada e mais um “ai!” por trás das pedras. Estavam perdendo tempo. Gina já fora trazida para a Câmara Secreta havia horas... Harry sabia que havia apenas uma coisa a fazer.

— Espere aí — gritou para Rony. — Espere com Lockhart. Eu vou continuar... Se eu não voltar dentro de uma hora...

Houve uma pausa cheia de significado.

— Vou tentar afastar umas pedras — disse Rony, que parecia estar querendo manter a voz firme. — Para você poder... Poder passar na volta. E, Harry...

— Vejo você daqui a pouco — disse Harry, tentando injetar alguma segurança em sua voz trêmula.

E retomou sozinho a caminhada para além da pele de cobra.

 

 

Logo o som distante de Rony batalhando para retirar as pedras silenciou. O túnel dava voltas e mais voltas. Cada nervo do corpo de Harry formigava desagradavelmente.

Ele queria que o túnel terminasse, mas temia o que encontraria no fim. E então, ao dobrar mais uma curva, deparou com uma parede sólida à sua frente em que havia duas cobras entrelaçadas talhadas em pedra, os olhos engastados com duas enormes esmeraldas brilhantes.

Harry se aproximou, a garganta seca. Não havia necessidade de fingir que essas cobras de pedra eram reais; seus olhos pareciam estranhamente vivos.

Ele adivinhou o que precisava fazer. Pigarreou e os olhos de esmeralda pareceram piscar.

— Abram — disse num sibilo grave e fraco.

As cobras se separaram e as paredes se afastaram, as duas metades deslizaram suavemente, desaparecendo de vista e Harry, tremendo dos pés à cabeça, entrou.



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