História Hidden Truths - Capítulo 34


Escrita por: ~

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Categorias Orphan Black
Tags Cophine, Cosima Niehaus, Crazy Science, Delphine Cormier, Orphan Black
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Palavras 5.723
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 34 - Cormier


Cormier não era um sobrenome de peso para Delphine, mas era um sobrenome que compartilhava com sua esposa, criando um vínculo entre ambas, ela sempre tivera esse sobrenome, mas não era igual ao de sua mãe, tão pouco ao de seu avô, mas sabia que era de seu pai, não sabia o porquê, mais aquela indagação a fez recordar daquele detalhe, dentro de tantos outros detalhes relevantes.

Delphine sentia-se encurralada por sua esposa, não sabia se seu discernimento que estava demasiadamente afetado para contestar ou se ela que realmente tinha razão em suas palavras, mas uma coisa estava clara em seu interior, contar aquela história não era de seu agrado, não era um conto que seus lábios seriam capazes de proferir facilmente, tão pouco algo que queria.

Aquela dúvida, onde não sabia se cedia ao seu desagrado e ganas de manter seu passado em segredo ou se seguia o conselho lógico de sua esposa, a fez sentir necessidade de inspirar profundamente o ar, coisa que fez com tanta força que gerou a necessidade de expira-lo pela boca, como se estivesse proferindo um suspiro de impaciência.

Com o olhar contrariado levantou sua cabeça, voltando a fitar a figura feminina de sua bela esposa, uma mulher que a desequilibrava e surpreendia nos momentos mais inapropriados ou seria nos mais apropriados?

Realmente ela não sabia, a única coisa que tinha certeza era que aquela situação seria mais fácil se tal indagação inoportuna houvesse surgido em meio a uma discussão, pois facilmente ela se livraria daquele assunto com a velha desculpa ‘’ não é de sua conta’’.

Contudo infelizmente não era assim, mesmo sentindo certo nervosismo tomar seu corpo com a mera cogitação de contar e recordar sua longa história, sabia que seria mais fácil proferi-la naquele momento em que pouca ou nenhuma intimidade emocional tinha com aquela mulher, facilitando digerir o gosto amargo de uma possível rejeição ou aumento do asco que Cosima já havia alegado sentir por ela.

– Está bem – murmurou, chacoalhando levemente em um sinal positivo sua cabeça, semicerrando suas pálpebras e arqueando ambas as sobrancelhas rapidamente.

Os olhos castanhos de Cosima se abrandaram, como se sumisse a necessidade de ter razão e persuasão para pôr fim saber a verdade que tanto aguçava sua curiosidade, não temia o que estava preste a ouvir, pois realmente já havia presenciado o pior daquela mulher, nada a espantaria, como era de desejo de Sarah.

Para o alivio de Delphine um barulho ecoou pelo quarto, era um som que seu ouvido estava habituado, era alguém batendo na porta, deu graças pela primeira vez por aquela interrupção, afinal tardaria o início de sua história, sem mencionar que daria tempo para talvez reconsiderar ou recordar fatos que preferia esconder em um lugar esquecido de sua mente.

– Pode entrar – ordenou Delphine, pela primeira vez encontrando uma expressão de desgosto na face de sua esposa por uma interrupção.

–Trouxe seu jantar- anunciou Susan abrindo a portar, enquanto na outra mão segurava a bandeja.

– Deixa eu te ajudar- prontificou-se a senhora Cormier, segurando a bandeja em suas mãos.

– Não era necessário Susan – reclamou Delphine, incomodada com tamanhos cuidados e atenção.

– Era sim – respondeu prontamente a governanta - Não pode abusar – completou esboçando um suave sorriso – Vai comer agora senhora? – Indagou fitando Cosima

– Depois eu desço para comer – respondeu suavemente

– Com licença – proferiu Susan se retirando.

– Melhor deitar-se – sugeriu Cosima, segurando a bandeja e fitando Delphine

Contrariada, algo que deixou evidente em sua expressão, Delphine deitou-se sobre o leito, ajeitando habilmente os travesseiros em suas costas, ficando sentada, logo vendo Cosima pousar as pernas de madeira da bandeja em volta de suas coxas, deixando na altura de seu tronco aquela apetitosa refeição, que apenas pelo aroma já aguçava seu paladar e despertava sua fome.

Os dedos de Cormier agarraram a média colher posta ao lado do prato, logo levando até o conteúdo presente no prato fundo, assoprou buscando afastar a calentura daquela sopa, levando imediatamente a seus lábios e saboreando o gosto delicioso de uma refeição agradável.

– Hummm – gemeu de prazer, sentindo o alimento liquido deslizar por sua traqueia, aguçando o paladar de sua língua – Adoro essa sopa – murmurou, prosseguindo com a refeição.

Ela estava se ocupando em manter sua boca cheia, mas comendo em uma lentidão maior que o habitual, com a cabeça um pouco inclinada para baixou, ousou por um instante levar seus olhos para cima, alcançando a figura de sua esposa sentada aos seus pés, com uma expressão de certa impaciência.

Pousando a colher sobre o prato ainda cheio, Delphine engoliu a refeição, agarrando o guardanapo de pano e limpando seus lábios, o qual sentia estarem sujos.

– No meu lado do closet, na prateleira mais alta – murmurou em um tom suave, com os olhos fixos na mulher curiosa a sua frente – Há uma pequena caixa de madeira, está atrás de algumas blusas – completou, fazendo Cosima recordar da manhã em que despertou com Delphine derrubando uma caixa, semelhante à sua discrição, sobre o piso – Poderia pegar para mim? – Pediu gentilmente.

Disposta a iniciar sua história, apenas fitou em silencio sua esposa se dirigir ao closet, onde prontamente pegou a pequena escada que havia no ambiente, um acessório justamente colocado para ela pegar as coisas guardadas nos lugares mais altos.

Delphine aproveitou aquele ato, para voltar a saborear sua refeição, mas com a atenção a todo tempo voltada a mulher que logo saberia sobre sua história.

– Aqui está – anunciou, regressando ao quarto e pousando a pequena caixa em uma distância que ficava entre ela e Delphine.

– Obrigado – agradeceu, limpando seus lábios e tragando um gole de suco de laranja – Pode abri-la – autorizou, fitando certo receio na expressão de sua esposa.

Cosima fitou Delphine, voltando logo a fitar aquela pequena caixa de madeira, envernizada e trancada com uma pequena fechadura, que bastava puxa-la para revelar seus segredos, coisa que ela fez facilmente.

Assim que a tampa de abriu, para ambas foi visível uma foto, era a foto de uma bela mulher, alta, cabelos loiros, trajando um elegante vestido, carregando uma pequena bebê, de alguns meses, em seus braços, era visível o amor da mulher pela criança através de seu largo sorriso.

–Essa é a única foto que tenho com a minha mãe – afirmou com um olhar melancólico - Eu a conheci, mas não me recordo, pois era apenas uma bebê de colo – completou roubando a atenção de sua esposa.

– O que aconteceu com ela? – Indagou curiosa, fitando cada detalhe da foto, constatando que havia semelhança em alguns traços entre Delphine e sua mãe, coisa que se fez mais evidente quando agarrou mais algumas outras fotos de uma bebe, que pelos olhos indicavam ser sua esposa.

– Minha mãe- murmurou – Virginia – revelou o nome de sua progenitora – Morreu quando eu tinha menos de um ano de idade – revelou com certo pesar em seu tom, como se doesse aquela ausência.

–Não vejo o porquê haver escondido esse fato de mim – afirmou, segurando as fotos em sua mão – Afinal também cresci sem mãe - recordou a semelhança dos fatos.

Mal sabia Cosima que aquele era um singelo fato da história de Delphine, um fato até pouco relevante, mas melancólico para ela, pois certamente sua vida seria distinta se tivesse sido criada por sua mãe.

– Mas você teve seu pai – murmurou suavemente –Eu não – completou, gerando certa confusão em Cosima.

– Não entendi – revelou prontamente sua confusão

– Começarei do início – anunciou Delphine, recostando seu corpo no travesseiro atrás de si – A família de minha mãe é do México, uma família de pouquíssimas posses, sendo a irmã mais nova de três irmãos, o mais velho que era um homem morreu e a do meio sumiu no mundo, a mãe deles, minha avó, faleceu cedo o que fez minha mãe ter necessidade de trabalhar como camareira em um hotel de luxo da cidade, para levar dinheiro para casa, onde ela ficou encarregada de cuidar de meu avô – proferiu, inspirando profundamente o ar e fazendo uma breve pausa, como se necessitasse resgatar parte dos detalhes ou não deixar escapar nenhum – Nesse hotel muitas pessoas de posses se hospedavam, algumas possuíam um bom caráter , mas outras, em especial os homens, viam as camareiras como mulheres que não estavam ali apenas para servir e limpar, mas sim satisfaze-los em outros sentidos, afinal em uma país considerado subdesenvolvido, os estrangeiros creem que podem abusar de seus direitos e agredir os dos demais – prosseguiu proferindo uma fraca risada, com certa ironia – Uma noite um desses ilustres homens , que deveria ter aproximadamente seus 40 anos , engenheiro, solteiro e rico abusou sexualmente de uma das camareiras – contou um fato que parecia irrelevante – A minha mãe- completou revelando a importância .

Ela pode ver a expressão de espanto com misto de pena na face de Cosima, sendo também perceptível a falta de palavras dela, como se seu vasto vocabulário houvesse sido consumido com aquela revelação asquerosa, um silencio que o possibilitou prosseguir.

– Mas para a desgraça de minha mãe, esse abuso gerou um fruto – revelou com um enorme pesar – Uma criança que aparentemente ela deveria odiar, mas amou com loucura – revelou, com um suave sorriso nos lábios, deixando uma lágrima escapar de seu olho, que obrigou prontamente seu dedo alcançar e secar.

– Delphine – murmurou Cosima vendo pela primeira vez sua esposa completamente vulnerável.

– Não diga nada – disse logo em seguida a impedindo de continuar a terminar sua frase – Deixa eu continuar – pediu em um tom suave, como se temesse recuar naquele instante em que já havia começado.

Cosima nada respondeu, apenas concordou com o olhar, esperando que sua esposa prosseguisse com a história que era mais trágica do que com algum elemento de horror.

– Ainda comigo na barriga , prestes a dar à luz – recordou , com o olhar voltado para o prato , mas sem enxerga-lo – Ela começou a ficar doente, uma enfermidade que talvez pela falta de condição ou descaso médico jamais soube com exatidão a origem, ou se quer teve algum diagnostico , algo que piorou após o parto até que antes de eu completar um ano ela veio a óbito – completou, melancolicamente, levantando seu olhar e encontrando um semblante triste estampado no rosto de sua esposa – Meu avô foi obrigado a me criar desde então , mas para ele foi uma punição criar um menina que considerava a desgraça de minha mãe , como também culpada por sua morte – proferiu uma risada irônica fraca , com os olhos vermelhos – Quando eu completei meus 3 anos de idade, eu e ele, o senhor Esteban, meu avô, viemos para Argentina, pois um conhecido havia prometido um trabalho para ele, esse conhecido foi o Leekie , que já cuidava do orfanato – revelou , desvendando a origem da longa amizade com Leekie - Daí vem minha relação com aquele orfanato , porque passava meus dias lá enquanto meu avô trabalhava , indo me buscar só no fim do dia, coisa que ficava esperando ansiosamente, enquanto para aquele homem era uma tortura me ter por perto – afirmou , não sabendo se sentia raiva de si por haver sido tão tola ou de seu avô por culpa-la .

Aquelas palavras subitamente trouxeram uma de suas recordações mais marcantes com seu avô, se não a última.

Há 20 anos atrás ...

Delphine estava com seus olhos fixos no papel sobre a mesa, enquanto em sua mão segurava um pequeno lápis, que já estava quase no fim de tanto ser usado, adorava desenhar e desenhava bem para um menina de apenas 5 anos, não entendia o porquê, mas o que mais lhe chamava atenção eram casas, prédios , construções em geral, adorava passar o dia desenhando o que via durante o caminho que fazia do orfanato para casa e vice versa, principalmente construções antigas , seus traços não eram firmes e precisos, devido à pouca coordenação e habilidade , coisa que se devia a pouca idade .

Assim que terminou, fitou cada detalhe dos traços sobre o papel, não era bem como havia imaginado, mas estava quase perto do desenho em sua mente, era uma pequena casa, uma casa em que sonhara viver com uma família, com amor e carinho.

Rapidamente a pequena menina se pôs em pé, se pondo a correr apressadamente em direção ao velho, de cabelos cinza escuro, pele morena, barba por fazer, trajando vestimentas humildes, sentado no sofá em frente ao aparelho televisor.

–Vô.... Vô ...- proferiu correndo até seu avô e parando em sua frente – Olha o que eu fiz – proferiu, ainda gesticulando algumas letras com dificuldade, entregando o pedaço de papel ao seu avô – A casa em que um dia vamos morar – afirmou sorridente, enquanto o homem fitava o papel.

Com um olhar de raiva e frustração, Esteban agarrou a ponta daquela folha, a partindo ao meio, com a expressão cerrada e um olhar diabólico, a ponto de chegar a ser agressivo.

– Menina inútil – proferiu terminando de rasgar a folha – Pare de sonhar, porque você é uma peste que nunca vai ter nem se quer uma casa – completou amassando o papel e atirando no chão – Acha que Deus vai te dar algo depois de você ter tirado a minha filha de mim – proferiu raivosamente – Um dia desses ainda te esqueço naquele orfanato – afirmou, se pondo em pé.

Delphine apenas abaixou a cabeça, deixando uma lágrima escorrer por sua face, não sentia raiva de seu avô, apenas carência, pois ansiava que um dia aquele homem gostasse dela como ela gostava, sem mencionar a culpa.

Dias atuais ...

– Delphine – uma voz lhe chamou

Um chamado que a fez regressar daquela recordação, algo que vendo como uma simples espectadora a fazia sentir raiva e ódio daquele homem e pena daquela menina.

– Está bem? – Indagou percebendo certa tensão na expressão de sua esposa, mas um olhar melancólico.

– É ... - murmurou voltando a fita-la – Sim – proferiu ainda meio inerte – Desculpa – desculpou-se cerrando as pálpebras e logo voltando a abri-las – Para alivio de meu avô, um dia ele esqueceu de me buscar no orfanato, mandando minhas coisas, juntamente com uma carta para o Leekie - completou sua amarga história com seu avô Esteban – Dentro dessa caixa deve estar guardada a carta – afirmou, apontando com a cabeça para a caixa próxima a Cosima.

Cosima prontamente se pôs a revirar a caixa, logo encontrando um pequeno papel, uma folha de caderno, um papel meio amarelado, com as linhas já se apagando, rapidamente, levando seu olhar para Delphine, que assentiu para que prosseguisse, assim ela abriu a pequena folha, logo avistando poucas palavras preenchendo as listras.

– Apareceu uma oportunidade no Chile, infelizmente não há lugar para a menina, sendo assim abro mão de minha guarda e a deixo sobre sua responsabilidade, podendo escolher o destino que quiser para a garota – leu, tragando dificultosamente a saliva, por aquelas palavras tão vazias e sem amor – Por favor não tente me encontrar, pois vou seguir meu caminho, assinado Esteban – terminou, levando seu olhar a Delphine

– Acho que essa foi a única coisa boa que ele fez por mim – murmurou tristemente –Depois disso não voltei a vê-lo, passando a viver no orfanato, sobre os cuidados do Leekie e da nossa querida Susan, que na época era cozinheira lá – comentou com um ar mais alegre – E assim cresci, como uma órfã, tendo apenas como lembrança de minha mãe uma foto e .... - Proferiu fazendo uma pausa, puxando a pequena caixa de madeira ao seu lado e remexendo – E essa medalha da Virgem de Guadalupe – afirmou com um sorriso nos lábios, tirando a pequena medalha presa em uma corrente dourada

– E o seu pai? – Indagou curiosamente, não compreendendo como Delphine poderia haver se tornado herdeira de tamanha fortuna sem conhecer seu pai.

– Meu pai – murmurou, proferindo uma risada fraca e colocando a medalha novamente dentro da caixa – Senhor Enrique Cormier – seus olhos voltaram a fitar a pequena caixa, agarrando uma foto, uma imagem que continha inúmeros homens em frente a uma construção, homens de pouca idade, humildes e um homem bem vestido ao lado, com uma expressão cerrada, cabelos castanhos claro, pele clara, forte e magro, ela esticou o braço entregando a foto a Cosima

– Meu avô jamais me contou o nome do homem que abusou de minha mãe, mas contou para o Leekie, que incrivelmente, quando fiz meus 18 anos e queria trabalhar para pagar meus estudos, me indicou a um conhecido dele, Enrique Cormier, que prontamente me empregou por ser jovem e trabalhadora – recordou, fitando Cosima que ainda mirava a foto.

– Você não achou estranha a semelhança de sobrenomes? – Indagou, voltando a fitar Cosima.

 – Cormier é um sobrenome comum – afirmou – Jamais me passou pela cabeça uma coincidência ou que ele fosse meu pai – garantiu, com a expressão mais serena – Contudo curiosamente me tornei seu braço direito, uma pessoa de confiança, sempre o informando de tudo que se passava nas construções em que trabalhava, achava estranho o interesse dele em minha vida , nos meus estudos e futuro- comentou, recordando-se de alguns daqueles momentos – Quando por fim já havia me formado, após anos trabalhando para ele , fui contratada como engenheira e assim fiquei por alguns meses , mas as coisas mudaram quando Enrique adoeceu e curiosamente mandou me chamar – recordou-se .

Aquela afirmação trouxe lembranças que invadiram a mente de Delphine, com pequenas cenas, mas as palavras proferidas intactas em sua memória, como se houvessem sido proferidas a pouco.

Meses atrás ...

Como sempre que visitava aquela residência, Delphine adentrou pela área de serviço, pois sempre dava preferência em primeiramente cumprimentar aquela mulher tão querida que fizera parte de sua infância, apenas deixando de manter uma presença constate quando foi trabalhar para aquele homem.

– Susan – saudou com um largo sorriso nos lábios, dando um forte abraço na mulher que mexia as panelas em frente ao fogão.

– Delphine – saudou, retribuindo o gesto – O senhor não disse que você viria – constatou achando estranha a presença de Delphine, pois Enrique era um homem reservado, sem família e que pouca ou nenhuma visita recebia, indicando a escassez de amizades.

– Também achei estranho o chamado- concordou – Como ele está? – Indagou curiosa pelo estado de saúde de seu patrão.

– Cada dia pior – comentou com pesar Susan – Mas se ele te chamou, melhor ir vê-lo – afirmou, buscando não deter mais a jovem.

– Sim – concordou Delphine, dando um suave beijo na face de Susan

Rapidamente se pôs a subir a enorme escadaria de mármore que dava para o segundo andar, aquela residência era demasiadamente fria, impessoal, sem qualquer detalhe marcante, não demonstrando a personalidade de Enrique, mas talvez a ausência de detalhes fosse o que marcava aquela fria personalidade.

Assim que adentrou o enorme corredor, inspirou profundamente o ar, caminhando cautelosamente em direção a porta dupla de madeira, educadamente levou seu dedo dobrado contra a madeira, anunciando sua presença.

– Pode entrar – proferiu uma voz rouca e até falha de dentro daquele cômodo.

Lentamente Delphine levou sua mão até a maçaneta fria a girando e empurrando a porta pesada, que indicava ser de madeira maciça, logo encontrando a figura enferma de um homem sobre a cama.

– Com licença – proferiu gentilmente, cerrando a porta e caminhando em direção ao leito.

– Fico feliz que tenha vindo Delphine – murmurou, tossindo em seguida, evidenciando que o câncer de pulmão havia progredido mais rápido que o esperado.

– Em que posso ajudar senhor? – Indagou, buscando não tomar mais o tempo de seu patrão.

– Delphine – murmurou Enrique , se ajeitando sobre o leito –Sempre te achei uma garota brilhante – revelou fitando com admiração a jovem ao seu lado – Nunca entendi o porquê ou preferi não entender a empatia que tinha com você – completou, revelando mais um detalhe – Quando o Leekie me procurou para te empregar, me disse coisas que não acreditei, mas mesmo assim resolvi te dar uma oportunidade, contudo aquilo que o Leekie me contou jamais saiu de minha cabeça, até que um dia tive a oportunidade de comprovar terminou, proferindo as palavras dificultosamente .

– Desculpa senhor – murmurou Delphine confusa – Mas não entendo aonde quer chegar – completou, buscando um esclarecimento.

– Desculpa minha falta de clareza - desculpou-se , com a voz rouca e a respiração pesada – Delphine certa vez fui ao México, mais precisamente Guadalajara , jamais fui um homem de ouvir não como resposta ou de aceitar não obter o que queria, por isso acabei me envolvendo com uma mulher, foi apenas uma noite com aquela jovem bela de cabelos loiro e olhos claros,  – Delphine pôde sentir seus olhos se encherem de lágrimas, e seu interior inflar, com algo que não sabia se era ódio por aquele homem estar brincando daquela maneira sórdida , pela tranquilidade e ausência de culpa ou por tanto tempo estar mantendo aquele segredo – Exatos 18 anos depois Leekie bateu em minha porta, revelando que aquela aventura havia rendido um fruto, confesso que não acreditei , mas minha curiosidade foi maior e me pus a investigar tempo depois, inclusive aproveitei os exames anuais da empresa para ter minha prova final , me dando certeza da veracidade das palavras de Leekie – completou – Creio que você sabe do que eu estou falando ? – Indagou

Delphine nada conseguiu responder, um nó havia se formado em sua garganta, enquanto lágrimas escorriam de seus olhos, sua cabeça apenas se fazia capaz de balançar negativamente, tentando rejeitar ou afastar aquela ideia cruel, que não conseguia acreditar.

– Eu sou seu pai – completou o homem, proferindo as palavras que Delphine não queria ouvir.

Dias atuais...

– Ele simplesmente me contou que era meu pai – recordou Delphine, inspirando profundamente o ar, como se pudesse sentir a agonia daquele dia – Naquele dia meu mundo desmoronou , pedi demissão e busquei me afastar daquele homem – completou , melancolicamente – Coisa que não durou muito tempo, porque algumas semanas depois um advogado bateu em minha porta, anunciando que o senhor Enrique Cormier havia falecido e antes disso havia me reconhecido como filha e me deixado sua fortuna, fortuna que rejeitei prontamente, mas que o Leekie me fez reconsiderar com fortes alegações, alegações como eu poderia ajudar os necessitados e evitar que inúmeras pessoas perdessem seus empregos, pois a construtora seria vendida – terminou , podendo sentir facilidade para respirar em fim, como se seus pulmões houvessem se desobstruídos – Na noite em que te conheci, foi a noite em que esse advogado me leu o testamento – completou, recordando do quão perdida estava naquela noite e como aquela mulher havia sido uma luz em seu caminho - Agora você que cresceu em um berço de ouro, dentro da sociedade de Buenos Aires, sabe que se casou com uma bastarda, que invadiu seu mundo sorrateiramente e que tem que omitir o passado para que a sociedade não a condene – constatou, com os olhos vermelhos , levando sua mão até a face e a deslizando por seus cabelo jogando para o lado, gesto que sempre fazia quando estava nervosa .

Cosima nada proferiu, apenas largou a foto sobre a cama, se pondo em pé e caminhando pelo quarto, parando em frente a extremidade do leito em que Delphine estava, a fitando com certa indignação e confusão.

– Delphine não vejo porque haver me escondido isso – murmurou a fitando com um olhar sereno – Não me importa o que a sociedade pensa, porque essa mesma sociedade virou as costas para o meu pai quando ele mais precisou – recordou, indignada.

– Você não acha que fui uma oportunista? Não sente mais asco de mim? – indagou surpresa.

– Não – proferiu, caminhando até o lado dela e sentando sobre o leito – Talvez se houvesse me contado antes a teria visto de maneira diferente - afirmou com uma enorme sinceridade na expressão – Não teria te visto como uma mulher prepotente, disposta a pagar por uma esposa – completou o fitando com ternura.

Delphine nada soube responder com aquela afirmação, apenas abaixou seu olhar e fitou a pequena mão pousada ao seu lado, em um movimento cauteloso, levou a sua sobre ela, sentindo o calor daquela mulher, com um enorme alivio em seu interior, levantou sua mirada, encontrando os olhos ternos e castanhos de sua esposa.

Os olhos de ambas se mantiveram fixos, era impossível conseguir mirar qualquer outro detalhe do campo de visão de ambas, Cosima sentia ganas de envolver aquela mulher sofrida em seus braços e acalentar aquelas dores que se faziam evidentes e claras , já se fazia incapaz de fita-la e ver uma mulher sórdida e cruel, uma impossibilidade que consumia com suas defesas , a deixando vulnerável a uma mulher que a confundia e que poderia torna-la insana e no ato impensado simplesmente a abraçou, como nunca havia abraçado, com toda sinceridade e carinho que poderia transmitir a sua esposa, Cosima apenas queria ajudar a amenizar toda dor que sua esposa sentia.

– Delphine – murmurou se soltando daquele abraço em que queria permanecer soltando um suspiro

A dona daquele nome nada respondeu, apenas seguiu a fitando ternamente, uma ternura que a perturbava, que causava aquele incômodo que somente aqueles olhos de íris âmbar sabiam causar em seu corpo.

– Eu …-murmurou novamente, cerrando suas pálpebras, como se as palavras houvessem lhe escapado – Eu vou levar sua bandeja- conseguiu proferir por fim, voltando a fita-la.

Sem proferir uma palavra ela ficou a fitando, sabia que sua esposa estava fugindo, mais uma vez ela escapava por seus dedos, literalmente, pois em um movimento mais que ligeiro aquele pequeno corpo se desvencilhou do seu e agarrou apressadamente a bandeja, evitando fita-la.

– Quer mais alguma coisa? – indagou um tanto quanto afobada, devido a sua pressa em se afastar daquela perturbadora mulher.

Novamente ela nada responde, apenas com um olhar sereno realizou um movimento negativo com a cabeça, a vendo rapidamente partir daquele cômodo, como um animal indefeso que fugia do caçador.

Com um suave sorriso nos lábios, Delphine fitou a porta de vidro a sua frente, o Sol já não iluminava mais a cidade, apenas as luzes artificiais espantavam a profunda escuridão.

Por fim ela sentia-se livre de seus segredos, segredos que jamais havia compartilhado com alguém que não houvesse participado do momento, Cosima era a primeira pessoa a tomar conhecimento de detalhes que somente ela sabia.

Suavemente fitou a caixinha ainda aberta ao seu lado, seus dedos agilmente se puseram a revirar aqueles pertences, que no meio havia seu pequeno e único chocalho, uma pequena boneca de pano o único presente de seu avô, mas havia algo mais especial naquela pequena caixa, algo que sua esposa não deu importância ou ela evitou mencionar a relevância, a única prova material do amor de sua mãe.

Delicadamente agarrou um pedaço de papel meio amarelado devido ao tempo, abrindo com a mesma delicadeza revelou as palavras escritas naquele espaço , únicas palavras que ela tinha de sua mãe , estava enganada, pois aquele havia sido o melhor presente que seu avô lhe dera, se não a melhor coisa que fez por ela , uma carta que havia sido deixada junto com a de despedida, uma carta que releu inúmeras vezes sobre a penumbra da noite , lentamente seus olhos se puseram a recorrer as letras, formando as singelas palavras de sua mãe .

‘’Delphine,

Minha amada filha, neste momento em que as palavras me são necessárias em que tenho tanto para dizer, elas fogem, um dia você entenderá tal incapacidade humana, uma incapacidade que é suprida pela capacidade do amor, o grande amor que espero ter plantado em seu pequeno coração nesses meses em que tive a oportunidade de sentir-me realizada, através de seu doce e sincero amor.

Jamais ouse a pensar que não a quis, que não a amei, digam o que digam as pessoas, saiba que a amei e a quis com todo meu coração, um amor puro que você me ensinou.

Infelizmente o tempo ao seu lado está acabando, algo que me faz sentir impotente por não poder ter a oportunidade de te ver crescer, se formar, casar, ajudar com meus netos, netos que espero e rogo que você passe o mesmo amor que vejo em seus olhos, também espero que você jamais perca esse amor e simplicidade que são suas essências.

 A única coisa que posso te afirmar e deixar como ensinamento é que o mundo não é fácil, mas não permita que a corrompam, faça a diferença para as pessoas ao seu redor e as ame como se não houvesse um amanhã.

Supere as dificuldades com honestidade e não permita que sentimentos obscuros e ruins a ceguem e caso isso ocorra seja valente parar reconhecer seus erros e conserta-los.

Mantenha sempre o amor em cada gesto, seja feliz dentro de suas possibilidades e permita que as pessoas ao seu redor também o sejam, aproveite os momentos e os crie, não tenha medo de viver, pois a vida é única e acaba logo.

Quando sentir solidão, magoa, raiva, injustiça ou tristeza, recorde-se que eu a amo e que sozinha não está, que a magoa serve para nos ajudar a crescer e nem sempre é como nossos olhos veem, procure a justiça para a injustiça e sorria quando a tristeza acometer seus dias, sorria e faça os outros sorrirem, pois, o amor compartilhado é mais gratificante.

Infelizmente é impossível resumir palavras que queria te dizer durante uma vida em um pequeno pedaço de papel, mas espero sinceramente que com as minhas singelas palavras compreenda a imensidão de informação que quis passar, que te ajudem a escolher o melhor caminho sempre e guia-la nos momentos difíceis.

Com todo meu amor,

Virginia, sua mãe ‘’

Um nó se formou na garganta de Delphine, que pôde sentir sua visão embaçada, enquanto lágrimas escorriam por sua face, a fazendo sentir necessidade de inspirar o ar com toda a força que seus pulmões eram capazes.

– Desculpa ter falhado mãe – murmurou em meio a lágrimas

Delicadamente, como se estivesse com um papel de seda entre seus dedos, dobrou o pequeno pedaço de papel o guardando dentro da pequena caixa, rapidamente reuniu todos os conteúdos daquele recipiente de madeira, fechando a tampa e o colocando sobre o criado mudo ao seu lado.

Rapidamente secou suas lágrimas com as costas de sua mão, inspirando profundamente o ar, ajeitando dificultosamente seu corpo sobre o leito, o repousando, mas certificando-se que os travesseiros estavam em uma altura suficiente para que seus olhos fitassem a noite a fora.

Delphine sentia-se mal por haver agindo contrário ao que sua mãe buscou lhe ensinar, aquilo a deixava triste, mesmo havendo suas justificativas, que naquele momento não pareciam tão convincentes ,mas que como um ser humano a haviam afetado e despertado o pior nela, talvez fosse o cansaço que acometia seus olhos, obrigando suas pálpebras se cerrarem, se tornando uma tarefa com um enorme esforço para voltar a abri-las, coisas que desistiu de fazer, pegando no sono antes mesmo que pudesse anunciar a si mesmo que estava indo dormir .

Um cansaço onde o tempo sumiu, como se fosse um simples descansar de olhos, mas algo que não permitiu que seu corpo cedesse por completo a aquela exaustão, permanecendo em alerta e em um estado em que facilmente seria despertada, pelo mínimo ruído.

 

Coisa que aconteceu logo segundo sua percepção, mas que realmente levou longos minutos, se não horas, com certo cansaço em sua cabeça, pode ouvir um ruído, tragando a saliva, obrigou suas pálpebras a se abrirem, logo encontrando o quarto escuro, sendo iluminado apenas pelo abajur ao seu lado, algo que facilitou sua procura pela origem do ruído.

Assim que fitou a porta que dava ao banheiro, encontrou uma bela cena, sua esposa, que andava sorrateiramente, com os cabelos molhados e escondendo sua nudez com uma bela camisola, se indagava se aquela mulher possuía consciência do quão bela era ou se sabia o quanto sua beleza a perturbava , algo que claramente poderia lhe tirar o sono, já tirando em algumas noites , mas não ligaria de passar um vida a fitando , tão pouco se arrependia de ter arriscado sua vida por ela, sabendo que  faria novamente se necessário .

– Acordei você? – indagou em um sussurro, com certo pesar pela possibilidade de tê-la acordado.

– Não – respondeu prontamente com um sorriso em seus lábios

– Que bom – expressou seu alivio acompanhado de um expirar de ar.

Delphine apenas a acompanhou lentamente arrumar algumas roupas, logo se voltando de frente para ela, com uma expressão distinta, até encabulada.

– Boa noite – proferiu, em um tom suave, caminhando em direção a porta

– Aonde você vai? – indagou a detendo, não compreendendo aquele ato ou buscando se fazer de desentendida.

– Dormir no outro quarto – afirmou, calmamente

– Por que? – questionou, buscando compreender as razões de sua esposa, ou se era somente um simples temor de dormir com ela.

– Porque tenho medo de te machucar durante a noite – afirmou – E você ficara mais cômoda dormindo sozinha – justificou seu ato.

– A cama é grande – afirmou Delphine com um suave sorriso nos lábios – Você vai dormir do lado oposto do meu machucado, então duvido que corra algum risco de me machucar – proferiu a contradizendo e percebendo naqueles olhos castanhos que a havia encurralado.

– Está bem – assentiu proferindo um longo suspiro.

Delphine obrigou seus lábios a se conterem, não queria demonstrar o sorriso vitorioso que desejava escapar de seu interior, apenas se pondo a fita-la, a observando lentamente afastar o lençol e as cobertas ao seu lado e repousar seu corpo, coisa que ela fez tomando todo cuidado possível para não esbarrar na mulher ao seu lado.

Ambas fitavam o teto , em um completo silencio, onde não havia palavras a serem proferidas devido à falta de intimidade entre ambas, coisa que criava um silencio cortante.

– Obrigado – agradeceu suavemente Cosima, quebrando o silencio.

Levando seu olhar de encontro com os olhos castanhos da mulher ao seu lado, Delphine a fitou com certa incompreensão.

– Por haver confiado em mim – esclareceu o motivo de seu agradecimento - E me contado sua história - completou a fitando.

– Obrigado por me escutar – agradeceu, levando sua mão até a pequenina ao seu lado, a levantando e levando até seus lábios – Boa noite – saudou suavemente, com um sorriso nos lábios e voltando a pousar a mão dela sobre o leito.

 – Boa noite – respondeu Cosima, apagando o abajur ao seu lado e dando as costas à sua esposa.

Normalmente ela demoraria a pegar no sono, ainda mais sendo aquela a primeira vez em que compartilhavam um leito espontaneamente, sem haverem apelado para o sexo, era a primeira vez que dormiam juntas como um casal, contudo ao invés de remoer a presença daquela mulher, devido ao enorme cansaço que acometia seu corpo logo ela pegou em um completo sono, um sono que era reflexo de sua exaustão.


Notas Finais


Demorei, mas voltei!!!!
Aguardando as declarações e beijos de luz


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