História Historias Macabras de Horror: Orfanato - Capítulo 12


Escrita por: ~, ~LucydasCoxinha e ~iAzure

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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Hmh, Horror, Orfanato, Primeira Temporada, Silenthill, Slenderman, Terror
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Palavras 7.603
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Hentai, Mistério, Misticismo, Policial, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Demorei por causa do colégio, mas já voltei com um novo capítulo.
Boa leitura!

Capítulo 12 - Capítulo XII: Identidade


Historias Macabras de Horror: Orfanato

Capítulo XII: Identidade

 

 

 Indignação. Revolta. Raiva. O que seria aquilo, afinal?

 As vaias saiam das gargantas dos opressores de uma forma ríspida, pareciam rugidos felinos de tão retumbantes e perspicazes. Mas, com uma certa circunstância, aquelas pessoas ali estavam como felinos: irados com o seu mandato, insaciáveis por vingança e furiosos com as suas mentiras. E é com comparações animalescas que o orfanato se consagrava neste dia. Um verdadeiro "poleiro" de pessoas irracionais e egoístas, afinal, Jane não era culpada! Estava sendo acusada de algo que não cometera. Estava correta em repudiar-se e irritar-se com essa ridícula situação. E a maldosa e injustiçada Irmã Jane estava aos apuros, sem ninguém para lhe acolher, sem alguém para amar... Estava sozinha no mundo, empurrada por 'Clarice' em um poço fundo de misericórdia, mergulhado em lágrimas de tristeza e solidão. 

 A vadia ria baixo, estava amando aquela ocasião. Tanta mágoa, rancor, RANCOR?! Por que será? Por quê? Trauma, traumas, uma vida traumática, essa era a resposta. A raiva que sentia toda vez que olhava para Jane agora se dissipava em alegria. Alegria em ver o desespero estampado naquele rosto enrugado... A freira estava aos apuros, mas isto aguçava cada vez mais o seu sorriso, que se escancarava após observar aquela recente situação deplorável. Aquela risada silenciosa representava o seu ressurgimento sobre as cinzas. "Do pó ao pó" - seria o fim dela, pois quem busca a vingança recebe algo bem pior: a sua morte. E este será o triste (alegre?) fim da falsa noviça Anna ou Clarice, o seu pseudônimo. 

 As crianças? Nelas os seus olhos brilhavam cintilantes como estrelas no céu, tendo o seu brilho alimentado pelo sentimento de esperança, liberdade. Mas, o principal motivador para a felicidade constante das crianças, era ver Jane se entregando a desgraça que ela própria plantou, afinal, os órfãos eram meros "empregados" do orfanato. Se não obedeciam eram castigados severamente, trabalhavam arduamente, sofriam constantemente. Aquela cena lhes serviam de alívio para os poucos, mas estonteantes instantes próximos da freira Jane... E o sentimento revolucionário entraria em ruínas com os covardes ataques de fúria da Irmã Jane. 

 

 - Vamos logo, Jane, nos diga a verdade! - exclamava em um tom agressivo, mas ao mesmo tempo delicado, já que ela não desejava assustar as crianças com uma entonação irosa.

 

 A sua autoridade (se ela ainda existia) entrava em desuso. Como estava rebaixada. Por que foi traída por estas criaturas hediondas? Logo ela, uma mulher afetuosa com as crianças, mesmo tendo os seus vacilos corriqueiros, sofrendo deste modo? Sendo torturada por essa injustiça? O Apocalipse estava próximo mesmo.

 Aquelas vaias infiltravam em sua mente e a torturavam de uma forma brusca e repentina. A face do medo estava claramente estampada no rosto da Irmã Jane, que se contorcia de um lado pro outro, olhando para as pessoas que a humilhavam naquele breve instante. Como aquilo lhe irritava, como aqueles gritos opressores despertavam a sua raiva, sentimento este que se apresentava à flor da pele. Não, ela não era de se rebaixar! Não era de ouvir desaforos calada. Precisava reagir urgentemente, rebater com um ato tão horrível que todos os presentes se calariam com o seu atrevimento e crueldade. Um ato onde ela retomaria a sua autoridade desnecessária e menosprezada naqueles momentos. Um ato que criaria um elo de superioridade sobre qualquer um do orfanato.

 Com olhares impiedosos sobre as crianças, à procura de uma vítima, Jane encontra uma garota (negra, cabelos escuros), que ria de sua situação e a vaiava sem piedade. A fúria dilacera a sua alma, a tornando um retalho de ódio e desgraça. Os passos firmes em direção à inofensiva garota criavam um oco timbre no chão. A cada passo o nível de receio entre os órfãos aumentavam, portanto, os seus gritos de alegria eram tomados por suspiros agonizantes de medo. Até a noviça tentava intervir no que a freira iria fazer, dizendo: "Jane, VOLTE PARA CÁ AGORA!", mas já era tarde demais... O corpo da freira carrancuda estava sucumbido em ódio e desprezo, não dando a devida atenção para os dizeres da noviça. A sua mão entrelaça na nuca da garotinha e um, dois, três... O seu rosto bate agressivamente na mesa, quebrando o seu nariz, entortando os seus globos oculares e a matando no mesmo instante. 

 Susto, medo, horror. Estavam aterrorizados. Todos, sem exceção.

 O corpo sem vida da garota cai no chão.

 Suspiros de terror escapavam pelas bocas escancaradas das crianças. Elas não estavam acreditando no feito da Irmã Jane, principalmente a freira Mary e a noviça 'Clarice', que se amedrontaram com aquela morte impetuosa e agressiva... Repentina, covarde, sangrenta.

 Jane se sobressai entre as crianças completamente feliz com o seu ato maligno. Como era gostoso ver os outros sofrerem! Era incrível! Andava até a noviça. Andava até o centro da grande roda estarrecida, alegre. Se acalmara e calara a boca daqueles demônios, que a julgavam sem ter conhecimento da verdade. Agora, a briga pela superioridade se finaliza com aquela morte, e a vencedora era Jane, que agora se tornara a grande e majestosa comandante do Orfanato.

 

 - E agora, em? - Jane fala com um tom sobreposto, aumentando o timbre até ele se tornar grave e gutural. - Quem irá me INTERVIR?! VENHAM ATÉ A MIM! VENHAM! QUEM QUER SER O PRÓXIMO?! - pergunta, porém não recebe resposta alguma. Todos estavam calados, sem reação. Apenas observavam as ordens sufocantes da Irmã Jane. - Seus VAGABUNDOS! TRAÍRAS! - olha para um lado, olha pro outro e, com uma fúria retumbante, fita uma garoto que se entregava as risadas. Ria de suas falas corriqueiras com uma coragem imensurável. Talvez, aquela era a única criança presente naquele momento que ainda não se conformou com o atrevimento da Jane. - Por que VOCÊ ESTÁ RINDO?! POR QUÊ?!! - ela se aproxima do garoto enquanto indagava, andando vagarosamente até a fronte do garoto. 

 

 Olhares impiedosos caíam sobre eles dois. A respiração de todos estavam ofegantes, esperando a reação e a resposta que o garoto iria falar.

 Clarice desejava interromper, mas as suas lembranças misericordiosas, sobre o seu passado torturante no orfanato, logo recaíam em sua mente. Estava paralisada de medo e horror. Uma verdadeira covarde.

 Mary? Outra tola sem noção alguma. O que ela poderia fazer? Era fraca e, como sempre, o amor e compaixão a cegava dos apuros do orfanato. Uma inútil que não sentia o desespero alheio. Uma cega que apenas enxergava o amor dos outros... Mesmo que ele seja inexistente.

 

 - Eu não tenho medo de você! - respondia com um afronte impiedoso, mesmo que tivesse um certo medo do que poderia vir depois.

 

 Arfadas agonizantes eram arrancandas das bocas de todos os presentes.

 Por que ele havia dito isso? Ele queria morrer ou algo do tipo? Qual era a lógica de tentar se defender com uma relutância dessa? 

 Não havia motivo. 

 Ele era um tolo, que não pensava em seus atos uma, três, cinco, inúmeras vezes antes... Era outro a ser morto junto com aquela pobre e inocente garota. 

 

 - MAS DEVIA! TODOS VOCÊS DEVEM SENTIR MEDO DE MIM! - a raiva se presenciava como a face daquelas palavras. Vocábulos agressivos e rasos como a própria dona de seus dizeres. - Vamos logo! REPITA PARA MIM, SE VOCÊ TIVER CORAGEM! 

 

 - EU NÃO REPITO! SUA VADIA VELHA E MAL AMADA!

 

 Um soco... Um murro forte bem no meio do rosto do garoto, que se calou no mesmo instante. Um soco violento em sua mandíbula, o fazendo cair no chão como uma fruta podre.

 Agora eles gritaram. Gritaram. Faziam uma algazarra majestosa de tantos gritos, arfadas, suspiros que entregavam para o nada. Incrédulos com aquele soco... Com os socos, MEU DEUS, com os socos! Jane ainda continuava a bater no garoto desacordado. Que horror! QUE MONSTRO! 

 Clarice obtem os seus sentidos de volta e corre em direção à freira Jane, que batia, socava o menino em vários locais de seu corpo. Estava horrorizada com aquilo. Todos estavam aterrorizados com aquilo. Ela entrelaça os seus braços sobre a cintura da demoníaca freira e a puxa para trás, tentando separar as suas garras do corpo indefeso e mutilado do garoto. 

 

 - Me solte! ME SOLTA, SUA VAGABUNDA! - vários tapas inflingiam na pele de Clarice, que começava ficar enfurecida com aqueles incansáveis golpes de Jane. - Deixe eu terminar o meu serviço. ME SOLTA! - implorava a freira, que se encontrava no chão completamente humilhada e com um ódio sobre-humano.

 

 - EU NÃO LHE SOLTAREI! - enraivecia a noviça, ainda segurando fortemente a freira, que se arrastava enlouquecidamente em direção ao garoto espancado, mesmo que de uma forma inútil graças à força aplicada por Clarice para conter Jane. - VOCÊ DEVE SE CONTROLAR, JANE! SE CONTROLE, SUA LOUCA! 

 

 - Me controlar?! - Jane se ergue incrédula, com os paramentos de seu hábito meio desarrumados. - VOCÊ QUE DEVE SE CONTROLAR, SUA PIRANHA! - Jane retira o véu branco da cabeça da noviça, que fica meramente desesperada, e com a outra mão puxa os cabelos da moçoila com força, criando uma ligeira, mas insistente, dor em seu couro cabeludo. - AGORA VOCÊ VAI SE VER COMIGO! VAMOS PARA A CABANA, E VOCÊ VAI VER QUEM É A LOUCA DESTE ORFANATO! - e a puxa em direção ao portão de madeira da cantina, quase arrancando aqueles sedosos cabelos com a fúria aplicada. 

 

 A cantina estava silenciosa, incrédula, preocupada. Estavam boquiabertos. Observavam Jane carregando Clarice pelos cabelos, a puxando violentamente até a porta, logo saindo do refeitório surpreendido com tamanho ódio de Jane.

 Foram ajudar as crianças. A garota estava morta, com o rosto desfigurado pelas pancadas agressivas sobre a mesa. O menino se encontrava vivo, mas vertia sangue pela boca e pela nariz loucamente.

 As crianças choravam decepcionadas. Decepcionadas pelo sentimento de liberdade frustrado. Frustrado pela autoridade inquestionável da Jane. Jane, a freira que iria praticar algo maligno com a bondosa e querida noviça. A noviça, comandante daquele raso e falível motin. Motin, que salvaria as crianças decepcionadas e frustradas pelas maldades de Jane com a noviça.

 Afinal, o que iria acontecer com Clarice na cabana? 

 

 

 - Mas que gritaria é essa? - Tomas interroga meio preocupado e receoso com a algazarra do andar debaixo. 

 

 Louise estava passando mal, aí estava o porquê de tanta preocupação vinda de Tomas. A freira se encontrava enjoada e com uma cefaleia incessante, torturante, massacrante. Parecia que a sua cabeça iria explodir. 

 Como estava desconfortável com o seu hábito, Louise trocara a sua roupa por um pijama branco de tecidos finos e sutis, que ficava tão rente ao corpo que a sua pele se encontrava brevemente colada ao tecido, realçando os seus seios fartos e sua bunda volumosa. Era realmente uma linda mulher com seus maravilhosos olhos azuis. 

 

 - Eu vou ver o que é - Louise se levanta da cama abruptamente, logo sentindo uma tontura em seus olhos. Como não era uma mulher de se abalar com qualquer coisa, Louise ainda insiste em se erguer do colchão, obtendo o êxito tão desejado.

 

 Tomas, como era sempre atencioso e cauteloso com a sua amada, se surpreende com o desrespeitoso ato de Louise e corre em direção à sua querida freira. Ela precisava repousar, mesmo que fosse normal estes tipos de enjoos durante a gravidez, mas, por precaução, não fazia mal evitar algo prejudicial à saúde da freira e do ocorrente filho que teriam.

 

 - Não, não - ele segura com delicadeza nos ombros da Irmã e a abaixa em encontro à cama, logo lhe oferecendo um bem-estar divino a sua mentalidade juvenil. - Vamos logo, deite na cama, mulher ousada! - repreende com um tom debochado, mas, ao mesmo tempo, receoso e preocupado. Preocupado como todo homem que descobre que irá ser pai... Amor paterno, bobo, singelo e bastante afetuoso. - Você precisa descansar. 

 

 - Eu estou grávida, Tomas, não estou doente - Louise repreende a desnecessária atenção que o padre continha com ela, pois uma dorzinha de cabeça não era uma enfermidade tão alarmante. Um selinho, um beijo, o toque dos lábios de Tomas na testa de Louise criava uma tensão carinhosa e amorosa entre o casal. Talvez a única boa (ou seria ruim?) ação que ainda existia no orfanato. 

 

 - O enjoo melhorou? - dizia com uma melancolia insuperável enquanto mexia e acariciava os cabelos de Louise. Tomas insistia em sua preocupação insustentável. Não deixava Louise em paz em nenhum instante, meu Deus! Não estava percebendo que a sua amada precisava de seu devido descanso?

 

 - Não... - responde curta e grossa, mas tentando esconder o seu estresse e decepção com os extravagantes atos carinhosos que o padre fazia para ela. Ela estava exausta, com sono, enjoada, porém, infelizmente, para a sua ocasião, Tomas não saía de seu lado. 

 

 - Então continue deitada até ela passar - rebate com uma de suas precauções. Adverte de uma forma meiga e sutil, se levantando da cama sem antes esquecer de entregar um beijo molhado, quente, pervertido nos lábios tristonhos e desmotivados da bela freira Louise. 

 

 - Ah, Tomas, você não manda em mim! - irrita, não tentando transparecer a sua atual situação. Estava cansada de ouvir e obedecer as ordens de Tomas, sem antes intervir nas quais. Não estava somente enjoada fisicamente, mas também psicologicamente de seu amor... Aquele beijo dedicado a ela recentemente foi tão forçado e sem amor que a freira nem subliminou o seu afeto pelo padre, apenas ignorou os deliciosos e carnudos lábios do pecador.

 

 - Você está esperando o meu filho... - o egocentrismo de Tomas é expressado mais facilmente com a sua fala, mesmo que ela fosse corriqueira e sem valor algum. O esquecimento de Louise sobre a afetividade com o seu filho havia criado um sentimento de revolta nela, já que aquele "meu" lhe excluía do devido acompanhamento de seu amado feto.

 

 - O nosso filho...

 

 - O nosso filho - Tomas corrige meio envergonhado e estarrecido, finalizando entre risadas sutis e primordiais -, então deve repousar quando sentir essas tonturas repentinas - e ele aproxima o seu rosto sobre o dela, tentando arrancar pelo menos um sorriso de sua face tristonha e carrancuda.

 

 - Está bem, seu mandão! - Louise se entrega às risadas de Tomas, aos beijos exaustivos e excitantes, à sua diversão exuberante, e, principalmente, ao seu amor imensurável pelo padre. 

 

 - Que bom que você compreende, Louise -  com um tom de voz prática e carinhosa, Tomas se distancia de Louise mesmo com relutância. - Agora descanse, durma. Eu vou ali para o banheiro. Me chame quando estiver precisando - e ele percorre o quarto até a porta e, olhando para a freira, em forma de despedida, solta beijos pelo ar, simbolizando o amor incrivelmente inseparável que os dois tinham. Eles se amavam, e isso era inegável. 

 

 - Está bem, meu amor, pode ir! 

 

 E ambos se despedem antes que Tomas saísse de suas vistas.

 Virando-se para o corredor, o padre anda por ele cabisbaixo, mas estupendamente feliz, afinal, ele seria pai. Mas, por dentro desta camuflagem alegre, havia uma angustiante preocupação sobre o futuro daquele inesperado filho. O que poderiam fazer? Fugir? Não podiam por causa do Johnny, o órfão amado por ambos. Escapar do orfanato e levá-lo consigo? Não, de modo algum, seriam considerados sequestradores, criminosos, uma verdadeira e horripilante desgraça. Talvez, eles não tinham nada mais a fazer do que apenas seguir as ordens do clero católico e esquecer, por enquanto, como estava fazendo o Tomas, do futuro filho encarregado no ventre de Louise.

O andar frágil sobre o piso laminado de madeira, mesmo assim, criava rangidos baixos, mas imperceptíveis aos tímpanos alheios. O sol brilhava reluzente pelas vidraças enfileiradas geometricamente no corredor, porém a luz proveniente da exuberante estrela era "fria", "morta" e frágil, deixando o ambiente mais gélido e sem vida, reforçado pelas árvores caóticas do outono. 

 Os gritos vindos da cantina aguçavam a curiosidade de Tomas, mas, sendo uma pessoa honrosa à sua amada, ele logo deixara essa ideia estúpida de lado. Precisava estar do lado de sua esposa durante toda a sua inesperada gravidez, ele deve se dedicar ao máximo para Louise e o bebê que estava a nascer. Não seria estes ridículos e desnecessários (ao olhar deles) gritos que iria retirar Tomas do leito enfermo da freira, mesmo que aquela algazarra fosse incômoda a cura imediata de Louise, que, desde o começo deste estridente acontecimento, queixava de dores extremas em sua cabeça.

 Por que Louise estava doente? Enjoada, fraca, dolorosa, manhosa. Havia algum motivo específico para este acontecimento? Poderia ser o filho, que carregava consigo, que praticara tal fato. Ou seria algo pior e prejudicial a vida do casal?

 

 - TOMAAS! TOMAAS! - gritos femininos e guturais pediam socorro. Aquela era a voz de Louise, que se apresentava desesperada a algo que lhe ocorreu.

 

 Tomas se assusta. Começa a suar frio. O que havia praticado estes gritos horrendos na freira, meu Deus? O quê? O padre corre aflito até o quarto em que a freira descansava completamente trêmulo e com palpitações agonizantes em seu peito. Poderia ter um infarto com o susto que percorria as suas entranhas e o deixava aflito e irracional. Os seus passos pareciam não ter efeito algum. Parecia que quanto mais corria, mais distante ficava a porta para adentrar o quarto. E o desespero se presencia em sua carne fraca e trêmula.

 

 - O-o que foi? - Tomas chega no quarto extremamente intrigado, atordoado com os gritos que evocavam o seu nome... Gritos hediondos e medonhos. Olhando para Louise, que estava em pé próxima a cama chorando, um gemido é arrancado de suas cordas vocais quase que involuntariamente, saindo entre seus lábios escancarados. Os seus olhos se arregalam com tamanha tristeza e sofrimento que avista em sua frente. - AH! MA-MA-MAS O QUE É ISSO? 

 

 A camisola branca, de um tecido simples, estava manchada, não somente de suas lágrimas que escorriam pelo seu rosto, mas também de um líquido avermelhado logo abaixo de suas pernas: o sangue.

 Não se sabia o porquê de isso ter acontecido, mas era algo desesperador para Louise, que chorava, entristecia como a escuridão sem a luz melancólica da Lua... Mas, mas aquilo não tinha comparação com nada que houvesse atualmente na natureza, afinal, algo havia acontecido com o seu filho, e o medo de saber o que era a deixava cada vez mais preocupada e trêmula. 

 

 - EU NÃO SEI! - a dor do desconhecimento adentrava na mente de Louise e se expressava em lágrimas e em seus gritos interrompidos por soluços e roucos por causa de sua garganta irritada. - TOMAAS, ME AJUDE! O NOSSO BEBÊ! - seria o filho deles? Como isso torturava a freira, que faltava despencar no chão de tanto estar trêmula e preocupada, enquanto que o sangue quente escorria e esquentava a pele de suas pernas. As dores eram absolutas e certeiras, adentrando a carne corrompida pelo pecado.

 

 - COMO ISSO ACONTECEU? - um grito baixo, mais baixo que os de Louise. Era uma tentativa de deixá-la menos desesperada. Ele tinha ciência da resposta, apenas não queria transparecer. Apenas não desejava saber se o filho que eles teriam havia se perdido assim tão de repente. 

 

 - E-EU NÃO SEI! - a sua voz não saía. Parava toda hora que pensava no que poderia ter ocorrido com o seu filho. Estava desequilibrada, abatida, triste, era um misto surpreendente de sentimentos e sensações que esmagava o seu coração em uma agonia sofrível e imensurável. - TOMAS, O QUE NÓS FAZEMOS? - dizia sem saber o que fazer, o que falar. Não estava conseguindo pensar em absolutamente nada. Estava tão abalada psicologicamente, que o seu físico não aguentara tal enfermidade: caíra no chão com as pernas entrelaçadas.

 

 - NÃO... - ele corre ao seu encontro desesperado. Chegando na despedaçada freira, Tomas consegue olhar mais de perto o sangue que se estancava de sua vagina. Observou que ela havia perdido... Havia perdido o filho deles. Meu Deus, como aquilo tinha lhe assustado, lhe espantado, lhe horrorizado, logo ele que sempre pensara em ter um filho... Eles sempre pensaram em ter um filho. - NÃO sei - o seu tom de voz muda repentinamente, pois percebia que se continuasse gritando, Louise ficaria cada vez mais desequilibrada. Ele precisava reestabelecer o alicerce da freira, desfigurado com aquela desgraça. 

 

 - SERÁ QUE EU PERDI O NOSSO FILHO?! SERÁ QUE NÓS O PERDEMOS, TOMAAS! - de nada adiantava a prevenção de Tomas, Louise ainda continuava assustada, porém mais recuperada com a presença do padre. Os seus carinhos e afetos, principalmente em seu rosto e cabelos, e o apoio era a melhor coisa que precisava naquele momento. Estar do lado de seu amado ajudava superar esta horrível e desesperadora perda.

 

 - Pare de gritar, Louise, se controle! - afirma com uma certeza admirável, já que Louise não parava de gritar e chorar. Ela ainda estava descontrolada, e aquela ordem afetiva servia para ajudá-la. Ela precisava se acalmar. 

 

 - Estou desesperada... - ela respira fundo, transpira, suspira, começa a se acalmar, e a primeira característica de sua recente calmaria foi o seu tom de voz delicado e melancólico, que ainda tentava se recuperar de tanto sofrimento - MEU DEUS, MEU FILHO, MEU DEUS! O QUE EU FIZ DE ERRADO?! O QUÊ!!? -, mas a desgraça retoma aos seus vocábulos, entranhando em sua voz e a tornando rouca e falha.

 

 - Louise, fique calma - a face da freira estava inchada de tantas lágrimas, avermelhada de tanta sensibilidade encravada em sua carne. A mão áspera de Tomas passeava delicadamente no rosto emocionado e torturado de Louise... Aquele seria o maior ato de amor proveniente do orfanato, que vivia mergulhado em traumas e tristezas.

 

 - TOMAS, EU PERDI O NOSSO FILHO... EU PERDII! - ela insistia em sofrer, insistia. Cansou de tentar esconder a verdade tão explícita quanto aquela. Já disse e derrubara a falsa expectativa que eles tanto tentavam entregar para si mesmos: a de que o seu filho estava vivo no útero de Louise. 

 

 - Não chore, por favor, não chore - implorava em lágrimas. Cai em lágrimas, em um choro pleno e suave. Não suportou oprimir aquele sentimento de mágoa.

 

 - EU SOU UMA PÉSSIMA MÃE. MEU DEUS! O QUE EU FIZ DE ERRADO?! QUAL FOI O MEU PECADO SENHOR?! QUAL FOOII!? - e ambos se abraçam em uma confraternização impecável e rústica, tentando um apaziguar o outro sobre a perda de seu filho. 

 

 Aquela cena era realmente linda. Abraçados um com o outro, acolhendo e retribuindo calor, estavam Louise e Tomas jogados no chão completamente tristonhos e deprimidos. Lágrimas, sangue, os olhos inchados, os cabelos desgrenhados e desarrumados... Que horrível! A luz solar se tornara quente somente naquele instante, adentrando pela janela e aquecendo os presentes daquele quarto, criando uma iluminação límpida, suave e de uma clareza admirável sobre o quarto. Era um momento triste, mas lindo de se ver e de uma extrema complexidade para se entender. É a extraordinária e incondicional forma de amor. 

 Seria aquilo um castigo divino? Uma forma de desabar esse amor proibido entre estes membros do clero católico? O erro que tanto Louise procurava, e achava que não existia, estava em um alto nível de clareza: a relação entre um padre e uma freira. E esta foi a punição de Javé sobre a suas honrosas criaturas, retirando o fruto daquele pecado perverso: o vosso filho. 

 Mas, se pararmos para pensar, será que foi ocasionalmente Deus que retirara o filho de Louise? Ou houve algum tipo de intervenção física nada esperada?

 

 

Aquele cheiro de mofo adentrava em suas narinas, as irritando em proporções misericordiosas. A cabana ainda permanecia a mesma desde a última visita de Clarice ao local: suja, mofada, escura como a noite de lua nova e, principalmente, com o mesmo cheiro de morte encravado nas tábuas de madeira que revestiam as paredes. A única fonte de luz era uma lâmpada mal instalada pendurada por um longo fio amarrado no teto, aquilo era macabro e aterrorizante. Escutava, de vez em quando, berros, passos, choros infantis perambulando por aquele local... Estava tendo algum tipo de alucinação? Não era de se estranhar, viver dentro daquele local aterrorizante, frio, úmido deixava qualquer um atordoado, principalmente uma pessoa como Clarice, que já passou por torturas terríveis naquele local.

 Ela não queria relembrar do passado, não queria. Somente desejava a morte de Jane, desejava ter a sua vingança concluída. Estava perto, muito perto, mas aqueles ataques terríveis de fúria da freira espantou a todos e dissolveu o motin criado por ela. Tudo foi acabado sem um pedido de misericórdia. Pelo menos, pensara ela, todos sabiam e conheciam o verdadeiro carácter de Jane, sendo, mais cedo ou mais tarde, afrontada como deveria. Que Deus rogue pelo orfanato, rogue pelos pecados e pela desgraça implantada naquele lugar, entranhada por causa da carrancuda da Irmã Jane. Que os seus pecados fossem varridos de sua alma corrompida pela vingança, e que a própria fosse correspondida por intervenção divina ou, até mesmo, por atos físicos e psicológicos.

 Ela retornara ao inferno. Ela retornou a antiga sala chamada de brinquedoteca. E o brinquedo, a diversão de Jane, seria ela própria. 

 

 - O que eu estou fazendo aqui? - com uma entonação sofrível, falha, mas brevemente irritada, a noviça falara apressadamente, tentando romper as amarras entrelaçadas em seus pulsos fortemente. 

 

 - Você vai morrer hoje, sua vadia - Jane ameaça completamente irritada e estressada, se aproximando da noviça com uma raiva escancarada em seus passos compassados e de ritmo sutil, leviano. 

 

 - Você vai me MATAR?! - diz com um tom meio doce, extravasando a sua fúria na última palavra proclamada. Pergunta com a certeza absoluta, entre os dentes. Esperava algo do tipo vindo daquele monstro vestido de freira. 

 

 - Vou e com vontade - e uma risada maligna, sarcástica, forçada, fogosa finaliza a sua fala malévola e com um encargo emocional surpreendente. O seu desejo por vingança, por sangue, apenas nutria e corrompia a sua alma em repleto menosprezo. 

 

 A mesma pessoa se apresentava à frente da noviça. A mesma pessoa, com o mesmo físico e psicológico. Com o mesmo rancor. Não mudou, um demônio não muda, apenas aglomera mais e mais ódio, mais raiva, mais mágoas, mais... Traumas. Não mudaria, iria ser a mesma mulher, a mesma freira que maltrata as crianças. "Se você existir, eu imploro, Senhor, que essa mulher perceba o quanto é mau! O quanto as suas perversidades destroem as almas, os corpos das crianças. Eu espero que o seu espírito seja corrompido pela graciosidade da benignidade, pela misericórdia de seus atos, me Deus. Amém." - rezava esperando a ajuda divina e misericosa de Jeová. Esperava.

 

 - Irmã Jane, você não mudou mesmo, não é? - a noviça indaga meramente perplexa com as crueldades que Jane cometera desde a morte de Madeleine. Ela percebia que aquele ser persistia em errar, em pecar, em maltratar, não rompera o seu comportamento agressivo e maldoso nem por um instante. - Ainda continua sendo a mesma rancorosa freira de anos atrás - e ela relembra das torturas que sofria quando criança naquele mesmo lugar. Lembranças que implorava em não lembrar, mas aquele cheiro de algo podre, o cheiro fortíssimo do mofo lhe recordavam de suas épocas remotas em desespero e piedade.

 

 - O que você quer dizer com isso? - Jane fica de cócoras, mesmo tendo conhecimento que aquela posição lhe traria consequências gravíssimas em sua coluna. Os dizeres da noviça despertavam uma curiosidade jamais sentida por Jane, tal obviedade estava claro nos olhos sinuosos e ardentes da freira, que observava a noviça com desprezo, raiva, fúria. 

 

 - Não é de sua conta - enfrenta, afronta. Tinha ciência que aquelas falas cortavam e aumentavam cada vez mais a raiva de Jane. Mas Clarice desejava ver isso, mesmo que o seu sentido de liberdade daquele local fosse maior, sentir a que ponto a freira iria para satisfazer o seu ódio acumulado. 

 

 - Me fale! - insistia. Como ela era ousada, como a noviça era estúpida! O que ela achava que era? Uma mulher digna de respeito? Pelo amor de Deus, desde quando? Ela merecia morrer, sofrer por ter praticado tais atos de afrontamento com a sua pessoa. E aquele pontiagudo pedaço de ferro que trazia consigo seria um dos melhores modos de mostrar à noviça quem é que manda naquele orfanato. 

 

 - Eu não irei falar nada - Clarice, com a sua coragem infinita, engole a seco, teimando as prováveis consequências de ter dito e enfrentado a freira Jane. Os seus olhos ficavam cada vez mais úmidos, ela segurava o choro; ela ficava cada vez mais trêmula, mas se contia para não transparecer. Por dentro, ainda sentia medo de Jane, tinha consentimento disso, mas preferia relutar do que se entregar ao "joguinho" diabólico da freira. 

 

 - Não mesmo?! - o pontiagudo pedaço de ferro (20 cm de comprimento, 1,5 cm de largura, duas pontas finíssimas, afiadas e enferrujadas) era a arma que ela usaria para arrancar de vez, por bem ou por mal, aquela informação da noviça. Se ela, por acaso, não contar, não havia problema. Apenas pelo fato de torturar aquela desgraçada, o seu sorriso no rosto aumentaria de tamanho de tanta felicidade. 

 

 - N-não... - ela se debatia, fazendo de tudo para fugir das garras torturantes de Jane,  que estampava um sorriso cínico  seu rosto. Com apenas um golpe, aquele pedaço de ferro adentra a carne trêmula da noviça, rasgando a sua pele, musculatura e rompendo a articulação existente logo abaixo da mão.  - AAAHH! AHH! TÁ BOM, EU... - gritava, gemia, agonizava, parecia que iria morrer, parecia que a sua mão esquerda iria ser arrancada naquele instante, mas algo de pior ainda estava por vir: - AHHH! EU SOU UMA ANTIGA ÓRFÃ... - como as pontas são duplicadas, com um breve entrelaçamento de ambas até a extremidade, o movimento rotatório daquela peça enferrujada arrancaria, dependendo da força, a carne ao redor do ferro... E foi isso que se deu, porém de um nível bem maior: as rotações não apenas arrancou pedaços do músculo que circundava o ferro mas também rompera os nervos que davam mobilidade à mão, que ficara dormente ao passar do tempo; dislacerou as veias, sujando as suas vestes brancas do vermelho do sangue, que escorria ardente pela sua pele; e separou, mesmo que por poucos centímetros, os ossos que ligavam o pulso com a mão, adentrando entre eles. -  EU JÁ ESTIVE AQUI ANTES! AHHH!

 

 - Uma antiga órfã? - Jane pergunta interessada, olhando atentamente para os gritos misericordiosos que Louise entregava para o nada, como se fosse possível ela sair dali com uma ajuda externa. 

 

 - NA VERDADE, O MEU NO-NOME É ANNA. O MEU NOME É ANNA - aquilo saiu como um falso grito de sua boca. O alívio era algo que se apresentava em suas palavras irosas, mas delicadas e sorrateiramente sutis.

 

 Um aglomerado de memórias vaga pelas mentes de ambas mulheres. Enquanto uma se amedrontava, aterrorizava, espantava pelas cruéis torturas, inúmeras e massacrantes torturas que já passou em seu corpo, a outra se deliciava, sentia um prazer inigualável apenas pelo fato de se recordar do sangue que vertia da pele de Anna, o seu brinquedinho de "vodu" preferido. E aquilo tudo, para alegria de uma e tristeza da outra, iria retornar com imensa perversidade, tendo como finalidade a morte da noviça.

 

 - Agora eu lembro de você - diz a freira Jane, pegando um banco e se sentando na frente da noviça Clarice. Se recordava da doce garota de meio rural que veio para o orfanato após a morte de seus pais. Uma morte covarde e sem misericórdia. Um trauma horrível que marcara a vida da garota. 

 

 - LEMBRA!? - Clarice dizia aos prantos, chorando de uma forma horrível, terrível. Aquele monstro era a pior coisa que já apareceu em sua vida, e ela precisava se recompor daquelas horrendas torturas que a freira praticava.

 

 - Lembro... - a sua voz saía melancolica de seus lábios, consentindo e respondendo a pergunta que Clarice proclamou. Jane se ergue do banco ao ponto de estar bem próxima da orelha da noviça, escutando as suas arfadas de medo e preocupação saindo de sua boca e nutrindo o corpo da freira, que implorava por medo e terror vindos de Clarice. - Você era meu brinquedinho de diversão - cochicha, enquanto induzia arrepios pelo corpo da falsa Clarice. Quando eu estava com raiva, eu lhe levava até aqui para lhe torturar e me sentir finalmente bem  - e uma risada farta sucumbia o tímpano esquerdo de Anna, criando uma sorrateira agressividade vinda da falsa futura freira. - Passamos por bons momentos juntas.

 

 - SEU MONSTRO! MAU CARÁTER! EU QUASE MORRI AQUI DENTRO! EU QUASE MORRI - vociferou Clarice, enquanto se debatia violentamente. Pensou em cuspir no rosto de Jane, mas logo percebeu que isso poderia acarretar em algo pior do que um simples pedaço de ferro entranhado em seu pulso. - EU PREFERIA VIVER EM MINHA CASA DO QUE CONTINUAR COM VOCÊ!

 

 - Ficar em casa? Em Holstein? - Jane ri escandalosamente, debochando dos dizeres chulos da noviça. Ela logo retorna ao seu banco meramente baixo, sentando e ficando cara a cara com as feições estraçalhadas de Clarice. - Sua tola, nós a salvamos daquela desgraça! Aquela cidade passou por uma seca terrível! - ela esbanjava incredulidade, afinal, Holstein passara por um evento terrível em épocas remotas, destruindo e manchando toda a população que lutara para sobreviver. Aquelas sim eram épocas difíceis. - Pessoas morreram em proporções bíblicas, e as que sobreviveram comeram umas as outras. 

 

 - A Grande Seca de 1980...

 

 - Sim, a Grande Seca de 1980 - consente, afirmando, estabelecendo e destruindo todo o firmamento medíocre que a noviça disse. Ela era criança e não entendia os verdadeiros horrores que aquela cidade rural passara tempos atrás. - Nós a salvamos de lá, Anna, e você deve um mínimo de respeito com a gente. Comigo - essa foi a faísca que iria reacender a fúria de Clarice. Mas que atrevimento era esse? Jane sabia muito bem que a suas perversidades com os órfãos, principalmente com a noviça, não poderia ser retornado com respeito e compaixão, e sim com ódio, raiva e rancor. Aquele demônio precisava morrer o mais rápido possível, porém a coragem faltava nas pessoas seguidoras da rebelião contra o seu mandato.

 

 A Grande Seca de 1980 não foi somente uma estiagem que devastou os campos de milho na época mas também um momento de pragas que arrasaram as plantações quase que completamente. A comida esgotou na cidade de Holstein, e a fome prevaleceu por meses naquele local. Mataram o gado, as aves, mas de nada adiantara para conter tamanha miséria. A população estava assustada, começou a ter alucinações com um provável assassino vestido de espantalho, criou grupos canibais para conter a sua fome. Foram terríveis tempos não somente para Holstein e seus habitantes, mas também para Centralia e Johnsonville, cidades abastecidas pelo tráfico agrário da cidade rural. Uma verdadeira calamidade que perpetuou durante anos na região. 

 

 - Você é uma criatura hedionda! - humilha, ofende se enfurece, logo recebendo um forte tapa na cara para se calar. - Eu vivia sendo torturada sem motivo algum! - se queixava enquanto sentia a sua bochecha arder em brasa por causa do fortíssimo tapa. Ela se relutava para rebater de qualquer forma, porém as consequências de tal ato poderiam ser prejudiciais para a sua vida ou até mesmo para o seu corpo mutilado. -  Eu quase morri em suas mãos! QUASE NÃO SOBREVIVI - e Clarice se entrega ao choro, relembrando das noites sem comida, sem água, das noites frias e torturantes que passou no orfanato. Ela tinha direito de se irritar, havia motivo. 

 

 - E eu gostava cada vez mais de ver o seu sofrimento- Jane disse aquelas palavras em um tom baixo e claramente feliz. Afirmava algo de uma extrema obviedade para todos do orfanato: o seu lado sadomasoquista. - As suas lágrimas, os seus berros de choro eram músicas para os meus ouvidos. Eu adorava fazer isso com você, minha querida Anna - a carga emocional era tamanha. A sua insanidade, a sua horrível sanidade, persistia em existir em sua personalidade podre. Aquela era, realmente, uma horrível prova de crueldade infantil. 

 

 - Por que você fazia isso comigo? Por que você faz isso com as crianças? A maltratam, a matam, a torturam? Por quê? - Clarice joga as suas dúvidas intrigantes para a freira, mesmo sabendo o motivo das perversidades da freira. Apenas precisava de uma certeza, uma certeza que iria saciar de vez a curiosidade incessante da noviça. 

 

 - Por que eu gosto disso.    Eu amo ver o sofrimento dos outros. É meu passatempo preferido. Me faz refletir. Me relaxa. Me faz pensar que a desgraça dos outros é menor que a minha. Eu verdadeiramente amo isso tudo. 

 

 - Elas não merecem... São apenas crianças traumatizadas pela perda dos seus pais - o choro era livre. Os traumas era a principal marca dos órfãos, é o principal motivo de eles tentaraaem se revitalizar em um orfanato. Quanto maior o apoio, mais fácil para aquelas crianças superarem os seus traumas pessoais. Se aqueles traumas fossem debatidos com ódio e tortura, maior seria a mágoa que elas sentiriam. Jane não percebia isso, mas Clarice sim, e esse era a causa de tanta revolta e tristeza vinda da noviça, que soluçava à procura de fôlego. 

 

 - CALA A BOCA! SUA VOZ ME IRRITA! - ordena entre dentes, despejando a sua fúria acarretada pela falta de paciência. Quase batera no rosto da noviça novamente, mas ela precisava de algo pior... Bem pior. 

 

 - EU NÃO CALO! - rebate a altura, afronta aquele terrível demônio vestido de hábito. Essas palavras forçadas era a única forma de enfrentar a ordem e a superioridade de Jane, que ae avermelhava depois de escutar esse afronte.

 

 Jane se vira de cortas para Clarice e começa a andar em direção a uma das prateleiras pregadas nas paredes manchadas pelo mofo.  - NÃO QUER SE CALAR?! - vasculhando as peças metálicas presentes ali e logo depois achando o que queria, Jane se vira para a noviça segurando um maçarico, a ameaçando com a chama azul que saía do objeto. 

 

 - E nem vou! - responde trêmula, mesmo tendo consciência de que poderia morrer com aquelas palavras.

 

 Jane se encaminha com vagarosamente até a noviça, esbanjado a sua maldade a cada passo que dara. - E agora, vai calar a boca? - chegando em seu destino, a freira acende o maçarico e começa a queimar a pele do braço direito, entorpecendo o local com o odor de carne queimada. 

 

 - Pare com AHHHH, PARA, PARA, PARA, PARA! TÁ DOENDO, TÁ DOENDO, TÁ DOENDO - ela contorcia, implorava, gritava, mas não era correspondida. Quem iria lhe corresponder? Estava ali para sofrer, o seu destino era sofrer. 

 

 - SUA PUTA! - um tapa brusco silencia os gritos de Clarice, que se calara e gemia de dor e sofrimento. - E o que você veio fazer aqui? Não acho que você deva ser uma noviça de verdade - ela pergunta e espera a reposta vinda de Clarice. Aquela era a única dúvida que permanecia vaga na mente da freira carrancuda.

 

 - Vim lhe matar! ME VINGAR DAS CRUELDADES QUE VOCÊ FAZIA COMIGO! - e ela cospe na cara da freira, finalizando com uma risada exuberante de canto a canto. Uma aflição percorre o seu corpo, lutando com a satisfação de uma vingança incompleta. 

 

 - Mas não vai! Eu vou te matar primeiro - o maçarico é reacendido com uma raiva agressiva corrompida pelo ódio. Não queria mais queimar a pele daquela vadia imunda! Ela iria fazer algo bem pior.

 

 A chama azulada soltava faíscas e um som como um zumbido para os timpanos da noviça, que tentava, sem sucesso, fechar os seus ouvidos do timbre agudo, mas de nada adiantava. Os seus olhos brilhavam com tamanha luminosidade transmitida pelo fogo do maçarico, chegando a dilatar a suas pupilas com aquela lindeza rara para ela. Aquilo era realmente lindo... O deslumbramento foi tão falso e apunhalador, que a noviça não percebia que o fogo se aproximava cada vez mais de seu olho esquerdo, queimando os seus cílios, os pelos da sobrancelha, e a sensível córnea. Dor, muita dor é sentida por Anna, que, em um movimento involuntário, fecha os seus olhos, queimando a fina pálpebra e derretendo o seu globo ocular rapidamente, abrindo um breve buraco em sua pálpebra. 

 

 - AHHHH. MEU OLHO, MEU OLHO, MEU OLHO! MEU... MEU... AHHHH. VOCÊ QUEIMOU MEU OLHO, SUA VAGABUNDA!

 

 - E queimo o outro se por acaso você não parar de ser ousada! - ameaça com o maçarico em mãos, finalizando com uma gargalhada mal intencionada.

 

 - Meu olho... Meu olho... ahhhh! AHHHH! - o seu olho esquerdo começa a muchar-se, liberando um líquido esbranquiçado, que escorria pelo seu rosto lentamente. O globo ocular se desencaixa do orifício e despenca em direção ao chão, estando somente pendurado pelo nervo não danificado. A dor era tanta que um simples movimento da sobrancelha arrancava um grito abafado de sua garganta. Parecia que ela iria morrer a qualquer instante. 

 

 - E o que aconteceu com a noviça que viria para aqui? - indaga claramente curiosa sobre a finalidade da verdadeira noviça. - O que você fez com ela? - ela já pressentia isso, já pressentia que a verdadeira noviça não era Clarice, apenas faltava algum resquício ou declaração para provar o que pensara. E Jane estava certa novamente, como sempre esteve.

 

 - Eu a matei! - ela se estica para frente, expressando raiva e dor em suas palavras rasas, finalizando com um sorriso sutil figurado em seu rosto. 

 

 - Então estamos diante de uma assassina?! - aquilo foi um deslumbre para os seus ouvidos, pois aquela era a prova das crueldades de Clarice, era a prova de que ela não era somente uma mulher boa e insolente, ela também era má, adjetivo esse que a noviça tanto tentava esconder. - Como você matou ela? - e um riso de canto encerra a sua frase enquanto esperava se deliciar com a declaração de Clarice. 

 

 - Dei um tiro no meio de sua testa; - cabisbaixa, Clarice fala em um tom desanimado, apenas olhando para baixo. Chorava baixo, mas as lágrimas salgadas ardiam o seu olho esquerdo queimado e desidratado. Se chorasse, mais agonizante seria a sua dor, mas se não chorasse, mais deprimente seria a sua morte. 

 

 - Delícia... - as suas pupilas dilatam. A sadomasoquista pensava em cada detalhe,  desde a bala perfurando o seu cérebro, até o sangue despejado pela sua saída. Uma maravilha fenomenal

 

 - Despedaçei o seu corpo com uma faca de açougueiro; - prossegue com uma entonação mais frágil e fraca que a anterior. 

 

 - Um cutelo? - indaga, tentando corrigir, logo se aproximando do abismo mergulhado em desgraça da noviça. 

 

 - Sim, um cutelo. - responde com um timbre melancólico, se entregando ao suspiro sombrio da morte... Se entregando vagarosamente ao peso mortífero que pressentia em todo o seu corpo. - E dei a sua carne para um canil - termina aliviada, arfando e respirando longamente, expressando a força esgotável que percorria por todo o seu corpo. 

 

 - Você é tão má quanto eu... - comenta rindo maliciosamente baixo, demonstrando para a noviça que ambas ali tinham algo em comum: a crueldade, a decepção. Porém, de uma certa forma, enquanto uma praticara isso por causa da falta de amor, a outra era má por que a sua vingança corrompia o seu espírito benigno.

 

 - ME MATE! ME MATE! EU LHE IMPLORO, ME MATE! - gritos guturais e roucos eram arrancados de sua garganta, rasgavam as suas cordas vocais enquanto se debatia. - COMO ESTÁ DOENDO... AHHH, EU NÃO ESTOU AGUENTANDO... ME MATE LOGO, NÃO QUERO MAIS SENTIR DOR!  NÃO ESTOU AGUENTANDO!!! - como ela gritava. Clarice tinha noção que a sua morte estava próxima... Ela sabia que iria morrer sem ao menos se vingar da mulher que tanto destroçou a sua vida. Ela iria morrer com um rancor imensurável encravado em seu peito. Iria morrer com um ódio devorador em todo o seu corpo. 

 

 - Então vamos acabar com o seu sofrimento - Jane agacha-se no chão com uma extrema cautela enquanto olhava para o olho melancólico de Clarice. Ver aquela criatura morrer seria uma delícia, um prazer inacreditável. Ela pega uma enorme barra de ferro e observa o sofrimento que Clarice passara: desde o seu pulso estraçalhado até o seu olho esquerdo queimado... Ela já sofrera demais. - Agora você vai morrer! 

 

 - AHHHHHHHHH! - Clarice grita como jamais gritou. Ela estava recordando de sua infância triste e mortífera. Agora, ela iria morrer nas mãos da mesma mulher que quase a matou quando criança.

 

 Jane joga os seus braços para trás, em busca de impulso, e encrava a barra de ferro na garganta escancarada da noviça, rasgando o seu esôfago e rompendo o seu pulmão, o esvaziando rapidamente como um balão sendo estourado por uma agulha. O seu coração para lentamente, distribuindo sangue sem a adrenalina necessária para bater. Perde a visão, ficando turva, olhando para o demônio que ria de sua situação. Perdia o olfato, não sentindo mais o cheiro de mofo que tanto ardia as suas narinas. Perde a sua audição, perdendo a percepção das risadas diabólicas vindas da freira, sendo tomadas pelo zumbido agudo da morte.

 E o seu corpo perde a sua alma.

 Este era o triste fim de uma pessoa que busca a vingança. Esse era o horrível fim da falsa noviça, do pseudônimo Clarice e de seu verdadeiro nome, Anna. 

 E ela morre sem ao menos ter a sua vingança completa.

 

Continua...


Notas Finais


Erros de ortografia? Opiniões? Críticas? Dúvidas? Comentem logo abaixo que eu lerei com prazer.
Teorias e ideias para a próxima temporada? Digam aí!
Faltam 3 cap para o término de orfanato, vou ficar triste quando ela acabar.
Espero que tenham gostado da reviravolta.
Até semana que vem.

Link da segunda temporada:
https://spiritfanfics.com/historia/historias-macabras-de-horror-helltown-8533871


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