História Hold Me Tight - Capítulo 23


Escrita por: ~

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens J-hope, Jimin, Jin, Jungkook, Rap Monster, Suga, V
Tags Kookv, Onesided!jikook, Onesided!vhope, Taekook, Vkook, Yoonseok
Exibições 537
Palavras 6.831
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Fluffy, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


merhaba, amores <3

ahh, eu demorei muito de novo :( infelizmente, fiquei //muito// ocupada essas semanas. não tive tempo de sequer pegar o computador pra escrever alguma coisa, mas por sorte eu tinha deixado o capítulo escrito pela metade e só precisei concluir hoje. eu espero mesmo que vocês gostem, e eu vou postar o mais rápido possível agora que eu tô parcialmente descansada da correria das últimas três semanas (NUNCA entrem na minha escola. sério. vão sugar a sua alma sem dó nem piedade).

enfim, espero que entendam a demora. boa leitura ~

Capítulo 23 - .thank you for being us


Jeongguk suspirou. Na linha, tudo que havia era silêncio, evidenciando que Taehyung havia desligado a ligação. Ele baixou o telefone e encarou a tela, o número desconhecido marcado em seu histórico de ligações.

Com um sorriso que era tudo — aliviado, inconformado, contentado — menos feliz, Jeongguk clicou na opção “Adicionar contato”.

Tae, ele escreveu, e salvou o número novo de Taehyung. Jeongguk sentiu-se infinitamente aliviado por ter aquele nome mais uma vez ali, mas disse para si mesmo que não adiantaria ligar de volta para o outro agora; ele provavelmente não atenderia. Jeongguk bloqueou o aparelho mais uma vez e o colocou de lado, obrigando-se a respirar fundo na tentativa de colocar a cabeça no lugar, normalizar as batidas descompassadas que seu coração dava involuntariamente.

Jeongguk bufou para si mesmo, tentando manter os pés no chão e entender o que fazer em seguida.

O relógio indicava 01:31 da manhã. As janelas estavam salpicadas por pequenos pingos de chuva, e o quarto de Jeongguk estava desconfortavelmente gelado por conta do aquecimento ruim desde a primavera.

Ele estreitou os olhos para o caderno aberto em seu colo, expondo descaradamente o rascunho de um desenho inacabado.

É claro que ele estivera desenhando Taehyung.

Jeongguk já havia terminado a pintura fauvista para a escola, apesar de não ter tido vontade alguma de entregar o retrato, mesmo que isso significasse perder a oportunidade de receber a nota extra. Ele havia mantido a peça no próprio quarto, guardado perto de sua escrivaninha para que pudesse olhar para a pintura todos os dias, e usara um pedaço fino e transparente de tecido para proteger a tela, porque ele não poderia arriscar que o retrato de Kim Taehyung ficasse manchado pela poeira de seu quarto.

Naquele momento, na madrugada de um dia que parecera ter durado séculos, Jeon Jeongguk rascunhava o rosto de Taehyung: seu maxilar reto, os lábios desenhados, cabelos caindo sobre olhos grandes e bonitos, salpicados de estrelas prateadas, e tudo se juntando para formar um rosto de beleza única. No desenho, Taehyung usava um cachecol azul-cerúleo e seus pulsos estavam cheios de braceletes coloridos. Por algum motivo, Jeongguk sentira vontade de desenhar o Taehyung de antes. O Taehyung que ele não conhecia e não tinha certeza se queria entender. O garoto que escondia uma porção de coisas por trás de um carisma fácil e notável, que conseguia fazer dos detalhes mais insignificantes as coisas mais importantes do mundo.

Não entendia o porquê, mas Jeongguk sentia-se nostálgico daquelas primeiras semanas, quando ele e Taehyung faziam tão bem um ao outro, e nada além disso importava.

Não havia muito que Jeon Jeongguk pudesse fazer sobre esse sentimento, porém. Ele sabia que, por enquanto, teria que se contentar com rascunhos que nunca seriam capazes de captar toda a beleza e a complexidade de Kim Taehyung, com imagens hipotéticas que não desbotariam tão facilmente de sua memória, como algum tipo de castigo.

Jeon Jeongguk sabia disso tudo.

Ele só não queria — e nem pretendia — aceitar assim tão cedo.

 

No dia seguinte — uma quinta-feira tão gelada que poderia muito bem ser o começo de janeiro no bairro horrivelmente suburbano de Jeongguk —, ele pensou que aquela ligação poderia ter simbolizado um ponto final num parágrafo especialmente amargo de um capítulo mais melancólico ainda.

Um ponto continuativo, se ele fosse sortudo o suficiente.

Mas, quando Taehyung não ligou novamente na quinta, e nem nos dias depois disso, ele começou a pensar que não era nem um pouco sortudo. Afinal de contas, as palavras de Taehyung haviam ditado o ponto final do repentino último capítulo de uma história que parecia inacabada. Um desses livros que terminam com tudo dolorosamente incompleto e recente.

Ou talvez não houvesse significado coisa alguma.

Mais de uma vez durante dias pálidos, curtos e chuvosos, Jeongguk teve que forçar-se a colocar o celular de lado, os dedos remexendo sobre o teclado numérico, indecisos. Teve que dizer para si mesmo que precisava ter paciência. Que Taehyung ligaria se assim quisesse.

— Jeongguk, você está bem?

Uma semana depois, a tarde de quarta-feira parecia apenas suportavelmente gelada.

Jeongguk estava sentado sob um pouco de insólita luz solar no pátio aberto da Academia ao lado de Jimin, aproveitando o intervalo de meia hora entre as aulas da tarde para se aquecer. Ele estivera imerso na missão de contar os pequenos pássaros vermelhos que se escondiam numa rara árvore cujas folhas ainda não haviam sido totalmente varridas pelo outono, o queixo apoiado sobre o punho.

Era um daqueles dias ruins.

— Por que eu não estaria? — ele perguntou, sem olhar na direção de Jimin, que estava com metade do rosto escondido na gola do moletom. Ele estivera resfriado nos últimos dias, fungando a todo o momento e falando com dificuldade.

Mesmo sem olhar para o garoto, Jeongguk ouviu o suspiro de Jimin. O amigo estivera estranhamente quieto durante os últimos dias. Ele também havia repetido o mesmo suéter três dias seguidos, e Jeongguk sabia que isso era incomum para o garoto. Talvez fosse o final do semestre ou o festival de artes se aproximando, mas era óbvio o quanto Jimin estava estressado e pressionado, mesmo que sempre abrisse um sorriso sempre que Jeongguk pensava que ele estava prestes a gritar com alguém.

Jeongguk queria ajudar, mas ele mesmo não conseguia manter o foco. Fazia pouco mais de uma semana desde que Taehyung dissera aquelas palavras — aquelas palavras que pareciam demolir alguma coisa dentro de Jeongguk sempre que ele pensava nelas —, e ele perdia a hora mais vezes do que gostaria de admitir, tendo que correr para pegar o metrô. Pulava refeições e matava aulas sem sequer perceber. Os dias pareciam estranhos paradoxos, passando rápido e devagar demais, o tempo mais relativo do que nunca. E os únicos momentos em que ele conseguia se sentir relativamente bem era quando Jimin estava por perto, uma presença reconfortante e familiar.

— Eu não sou cego, Jeongguk — Jimin respondeu, sem soar agressivo ou irritado. Apenas suave. — Você nunca foi dos mais alegres, mas nós já somos amigos por um tempo agora... O suficiente para eu perceber quando você está mal.

Jeongguk baixou a cabeça para olhar para Jimin. Ele sentia falta do aperto em seu estômago sempre que olhava para o garoto ao seu lado. Saudades das batidas que seu coração pulava sempre que Park Jimin sorria, falava, gargalhava, sempre que ele simplesmente existia.

— Vai me dizer que você está bem? — Jeongguk retribuiu a pergunta.

Jimin encolheu os ombros.

— Eu nunca disse que estava bem — respondeu o ruivo. — Mas qualquer um se sentiria exausto na minha situação, ok? É um daqueles períodos de estresse que são perfeitamente normais uma vez ou outra. Com as provas semestrais chegando, o festival e exames de admissão em universidades. Motivos perfeitamente normais para se estar estressado.

Jeongguk arqueou as sobrancelhas, mas não respondeu. Ele parou um segundo, encarando o céu metálico e contemplando a bagunça que sua vida havia se tornado em tão pouco tempo.

E tudo porque ele estava desesperado por uma ligação. Tudo porque ele morria de saudades de quando Kim Taehyung estava lá — uma zona de trégua onde todo o resto era uma guerra cansativa —, mesmo que todo o restante fosse ruim. Tudo porque Jeongguk não queria que o que ele sentia por Taehyung se misturasse à inevitável tendência trágica que o mundo real tinha — havia dado tão errado.

Tudo porque Jeongguk não conseguia se desapegar de um sentimento relativamente antigo e confortável. Não conseguia se desapegar da familiaridade que era gostar de Park Jimin além do que o código dos melhores amigos ditava.

— Jimin? — Jeongguk chamou, tão baixo que o garoto ao seu lado quase não escutou.

Jimin inclinou a cabeça para ouvir o outro melhor.

— Sim?

— Eu sou apaixonado por você.

A atmosfera calma entre os dois transformou-se em caos generalizado quando Jimin mudou de posição bruscamente, afastando-se de Jeongguk para olhá-lo nos olhos. Sua expressão era mais de surpresa do que exatamente choque.

Jeongguk quase riu. Sentia-se pesado demais para se importar com o que acabara de dizer.

— O quê?! — Jimin exclamou, os olhos quase o dobro do tamanho normal.

Jeongguk se ajeitou no lugar. Ele não sabia de onde vinha toda aquela serenidade sobre os próprios sentimentos — de onde viera a súbita vontade de esclarecer todas as coisas que Jimin representava para si.

Ele abriu um sorriso. Talvez só estivesse cansado de guardar todas aquelas coisas.

— Gostei desde que você entrou naquela maldita aula de História parecendo a pessoa mais perfeita do mundo — contou, as palavras com um leve toque de indignação, como se fosse culpa de Jimin o garoto ser tão inevitavelmente apaixonante. — E eu não sei se mudei de opinião desde aquele dia. Eu achava que não, mas...

— Por que não me disse antes? — Jimin interrompeu, gesticulando com um grande toque de revolta nos gestos. — Jeongguk, por que não me disse?!

— Porque eu nunca pretendi fazer nada sobre o assunto — Jeongguk encolheu os ombros.

Ele estava sendo sincero. Nunca havia tido a intenção de levar seus sentimentos por Jimin à frente, como se apenas contemplá-lo fosse suficiente.

— Mas — Jimin franziu a testa por alguns segundos, como que tentando escolher apenas uma pergunta para fazer. Jeongguk esperou, sentindo nada além de leveza por finalmente dizer aquelas malditas palavras. Jimin ergueu os olhos para ele de modo incerto quando perguntou: — E Taehyung?

Jeongguk puxou uma respiração profunda. Ele desviou os olhos para a árvore que estivera observando antes, e fingiu estar interessado em algum ponto aleatório no horizonte.

— Aí é que está — ele respondeu, tentando não deixar que seu tom saísse magoado demais. — Por causa desses sentimentos que eu tenho por você, não consigo ter certeza de que gosto do Taehyung... não consigo fazê-lo acreditar que sou apaixonado só por ele. Sequer eu tenho certeza.

— Jeongguk...

— Sempre que eu acho que estou certo sobre todos os meus sentimentos, você aparece e eu não consigo evitar te seguir como um verdadeiro idiota.

Houve quase um minuto inteiro de silêncio entre eles. Jimin, com as palmas das mãos na nuca e olhos afiados, parecia vasculhar por alguma coisa na expressão de Jeongguk. O segundo, porém, fingia não perceber o olhar do outro, apenas encarando o nada, esperando por Jimin para dizer alguma coisa.

— Você é tão idiota, Jeongguk.

O garoto de cabelos escuros piscou e olhou de volta para Jimin, surpreso pela afirmação.

— O quê? — perguntou, arqueando as sobrancelhas. — Do que você está falando? Eu...

— Deixa eu ver se eu entendi direito. Você acha que está apaixonado por mim — Jimin apontou para Jeongguk, e depois para si — É isso?

Jeongguk umedeceu os lábios. Eles tendiam a ficar ressecados no tempo frio.

— É isso — confirmou. — Mas ainda não entendi qual é o seu ponto.

Jimin inclinou-se, colocando uma mão sobre o ombro de Jeongguk, que encarou-o com certa curiosidade.

— Você está se equivocando — o garoto afirmou, balançando a cabeça com toda a certeza do mundo. Sua expressão era suave, um sorriso nos olhos e nos lábios. Jeongguk não entendia o que havia de engraçado sobre aquilo, mas não teve a oportunidade de falar. — Eu não vou dizer que você não se apaixonou por mim em algum ponto, porque, isso é obviamente possível. Digo, eu fui eleito o visual do clube de piano por um motivo...

Jimin — Jeongguk franziu a testa.

— Estou brincando — Jimin riu, voltando a se sentar no lugar, as pernas cruzadas enquanto ele olhava para Jeongguk com um brilho solidário nos olhos. — Mas, falando sério. Nós somos amigos por tempo o suficiente para eu ser capaz de perceber, sem margem de erro, que você está apaixonado pelo Taehyung — e, com um sorriso maior ainda, ele enfatizou: —  pelo Taehyung.

Jeongguk suspirou lentamente, deixando o ar frio preencher seus pulmões pouco a pouco, e depois soltando tudo. Sua cabeça era um espaço vazio.

— Como você pode ter tanta certeza? — murmurou, querendo, mais que tudo, que aquilo fosse verdade, mas duvidando demais da própria capacidade.

Jimin inclinou a cabeça, olhando para Jeongguk com uma expressão que parecia ser de empatia.

— Por causa de uma porção de coisas — o garoto de cabelos ruivos respondeu, sorrindo. — Primeiro de tudo, eu conheço você. Eu costumava ser a única pessoa com quem você sequer conversava. Você nunca sorriu para um desconhecido, sequer um colega de classe nosso, e demorou meros dias para estar obviamente encantado pelo Taehyung.

Jeongguk baixou a cabeça, o rosto repentinamente quente demais para que ele conseguisse sustentar o olhar conhecedor de Jimin. Ele mordeu o lábio inferior. Havia caído tão depressa por Taehyung porque nunca pensara em como seria se a relação deles se tornasse real demais. Se o que eles tinham acabasse por se misturar com o mundo do lado de fora.

Ele havia sido inconsequente, se apaixonando tão rápido. E então ele temia que não pudesse ser só de Taehyung o tempo inteiro. Que seus sentimentos por Jimin — que ele sempre deixava na porta antes de entrar no mundo que era só dele e de Tae — acabassem atrapalhando tudo. Desintegrando tudo.

— Eu sei que estou apaixonado por ele — Jeongguk respondeu, passando uma das mãos pelo rosto. — Droga, eu sei que é real agora porque dói. Mas não é justo que eu tenha dúvidas. Não é justo com Taehyung que eu ainda goste de você, mesmo que só um pouco. Mesmo que seja só porque é um sentimento familiar.

— Tem certeza de que é disso que se trata?

Jeongguk ergueu o rosto mais uma vez. Jimin não esperou por uma resposta antes de continuar.

— Eu sei das coisas que acontecem com você — o garoto continuou, suavizando o tom. — Jeongguk, você tem essa mania, sabe? Construir pequenos refúgios aqui e ali. Eu percebo esse tipo de coisa. Às vezes, mesmo quando eu não precisava ensaiar, mesmo quando eu já estava cansado de ouvir e reproduzir as mesmas malditas notas, eu ficava até mais tarde só porque você precisava daquilo. Mesmo as nossas caminhadas para casa... Esses pequenos momentos em que você esquece do resto do mundo, de como as coisas são ruins, eu sei que você precisa disso.

Jeongguk sentiu uma queimação no rosto novamente. Ele ficou surpreso enquanto Jimin dizia tudo aquilo. Surpreso porque, mesmo depois daqueles meses, ele não percebera o quanto da própria vida havia revelado. O quanto de si havia mostrado para Jimin.

— E eu fiquei me perguntando se Kim Taehyung era uma dessas coisas, também — Jimin prosseguiu, sem desviar os olhos de Jeongguk uma vez sequer. — Uma dessas coisas que você quer manter só sua, só um breve momento, longe de todo o resto para evitar que seja danificado.

 E, mesmo assim, Jeongguk não conseguiu responder. Ele queria dizer que sim. Porque era verdade. Jeongguk sentia-se tão impotente e exposto, os sentimentos desvendados sem que ele pudesse fazer muito para evitar. Nunca lhe passara pela cabeça que Jimin houvesse reparado em todas aquelas coisas. Que ele soubesse tanto sobre Jeongguk, sem que o mesmo precisasse dizer.

— Acertei, não acertei? — Jimin finalizou.

Jeongguk assentiu muito lentamente.

— Acertou — ele concordou, sem ver sentido em negar. — Mas...

— Você realmente acha que existe um mas? — Jimin suspirou, parecendo começar a ficar impaciente, mas ainda assim usando um tom suave. — Jeongguk, eu posso ter sido um de seus refúgios por um tempo, mas não confunda isso com o que você sente pelo Taehyung. Não use isso como motivo para a sua relutância em deixá-lo evoluir para uma parte permanente da sua vida... Você nunca precisou me dizer que estava apaixonado por ele, porque eu já sabia disso antes até de você mesmo perceber.

Jeongguk quase ficou sem fôlego. Ele soubera, desde o começo, que Jimin era uma pessoa esperta. O garoto sempre sabia que Jeongguk tinha um novo problema em casa antes mesmo de ele precisar falar alguma coisa. Sempre fazendo perguntas sutis, com significados subentendidos. Você está bem? Como foi a sua noite? Precisa de ajuda em alguma coisa? Qualquer coisa?

E Jeongguk era tão profundamente grato por todas as vezes que Jimin ligava no meio da noite e o resgatava de uma porção de pensamentos ruins sem nem mesmo perceber o bem que fazia. Jimin, que era seu melhor amigo — e nada além disso — em toda e qualquer ocasião.

— E se o mundo real estragar o que nós temos? — Jeongguk murmurou, ainda incapaz de levantar o rosto. — E se todas as complicações da minha vida acabarem desgastando o que ele sente por mim?

— Se acontecer, então você ainda terá um ótimo amigo pra te ajudar a superar todas as fases do término de um relacionamento — Jimin afirmou, humorado. Ele abriu um sorriso brilhante, e Jeongguk ergueu os olhos para ver o outro rindo. — Mas, sério, Jeongguk. Você precisa tentar. Precisa dar uma chance a isso. A vocês dois. Porque eu estou cansado de te ver se arrastando por aí com essa péssima postura e expressão fechada. Faça isso por si mesmo e pelo Taehyung, ok?

E, justo quando Jeongguk estava prestes a dizer que tentaria — que se esforçaria para colocar a cabeça no lugar, que voltaria atrás em todas as coisas que havia afirmado, que procuraria por Taehyung —, os trinta minutos de intervalo acabaram, e Jimin o puxou pela mão em direção à última aula sem que Jeongguk pudesse responder.

— Você precisa parar de faltar as aulas quando temos provas na semana que vem — o mais baixo explicou, ainda sem soltar a mão de Jeongguk enquanto o guiava na direção da aula de Linguagem Fotográfica.

Jeongguk agradeceu mentalmente a Jimin (por aquela e por tantas outras coisas).

 

Jeongguk havia conseguido dormir um total de oito horas nos últimos dois dias, o que já era mais do que ele havia conseguido nas duas últimas semanas. Mas, ainda mesmo quando tudo apontava para o nome de Taehyung na sua lista de contatos, dizendo que ele não só podia, como devia ligar para ele, algo em Jeongguk hesitava.

Ele tinha certeza dos motivos de sua hesitação agora, mas não havia coragem suficiente em Jeongguk para superar isso. Ele ainda queria, desesperadamente, que Taehyung ficasse fora das frações ruins de sua vida. Queria que o mundo desaparecesse quando eles estavam juntos. Queria manter Kim Taehyung um sonho.

E ele experimentou mais dessa hesitação quando chegou em casa na quinta-feira à noite e conseguiu escutar sua mãe fungando na cozinha. Chorando.

— Eu estou bem, Jeongguk — ela havia fingido um sorriso, secando os olhos com um guardanapo que segurava rapidamente. — Estou fazendo o jantar hoje. Está com fome?

Daein já havia saído para o trabalho, então, ao invés de perguntar tudo o que queria perguntar e exigir qualquer coisa da mãe, Jeongguk apenas aceitou a comida e fez com que ela se juntasse a ele na mesa. O jantar de uma família quebrada. Era quase cômico.

Na sexta-feira, ela não estava fazendo café da manhã no escuro. Jeongguk foi para a escola com a sensação de que havia algo faltando, algo errado. Queria ver a mãe. Tomar coragem para perguntar por que ela estivera chorando na noite anterior, o que Daein havia feito. Mas Jeongguk não era maluco o suficiente para bater na porta do quarto ao lado do seu.

— Como a foi a sua noite? — Jimin perguntou, quando Jeongguk o encontrou em frente à casa dos Park.

Estranha.

— Nada de mais — Jeongguk deu de ombros.

O dia inteiro na escola foi de reforço para as provas que vinham, e Jeongguk se esforçou para não faltar aula alguma. Ele tinha uma porção de notas para recuperar, e decidiu que se esforçaria para fazer qualquer informação útil entrar em sua cabeça. Jimin empurrou alguma comida para ele durante o almoço e Jeongguk simplesmente comeu, triste porque a comida de sua mãe era mil vezes melhor.

Não foi até — exatamente — as 17:02 naquela tarde que Jeongguk finalmente pareceu acordar de um transe em que nem sabia que estava. Ele estava sentado no chão em frente à ala de música esperando por Jimin para que pudesse ir embora quando seu celular vibrou no bolso e um número desconhecido apareceu no identificador de chamadas.

Ele mordeu o interior das bochechas, imaginando quem deveria ser e considerando se deveria apenas ignorar. Depois de alguns segundos de consideração, acabou apenas apertando o botão verde.

— Alô?

— Jeongguk?

A voz era conhecida. Conhecida demais, familiar demais.

— Mãe? — ele perguntou, se erguendo num só movimento surpreso. — Mãe, é você? O que houve? Você está bem?

Sua mãe nunca ligava. Nunca.

— Jeongguk, acalme-se. Eu... Eu estou segura.

"Segura". Aquela era a palavra que indicava que Daein não estava por perto. Era o modo de dizer que ela não iria se machucar por estar ligando para ele.

— O que aconteceu? — ele perguntou, tentando soar menos assustado do que se sentia.

— Você sabe onde fica o hospital em que eu trabalho nos domingos? — a mulher respondeu com uma pergunta. — Não fica muito longe da sua escola...

— Eu sei onde fica — Jeongguk respondeu, já colocando a mochila sobre o ombro e se levantando. — O que você está fazendo aí? O que ele fez?

Alguns segundos de silêncio se arrastaram na linha. Jeongguk ficou apreensivo conforme fazia o caminho em direção à saída, os passos apressados.

— Apenas venha. Procure por Lim Nari na recepção e ela vai te trazer até onde eu estou.

E então a ligação havia terminado. Jeongguk praguejou.

Estava chovendo moderadamente do lado de fora. Jimin havia levado um guarda-chuva, mas ele não. Jeongguk atravessou algumas ruas antes de parar sob o toldo de uma pequena loja para pegar o celular.

Havia cinco mensagens de Jimin.

Park: Onde você se meteu?

Park: Jeongguk?

Park: JEON JEONGGUK

Park: Eu vou matar você.

Park: Juro que vou matar você.

Jeongguk, sentindo-se ligeiramente culpado, mandou uma rápida mensagem resumindo o motivo de ele ter saído sem avisar (“minha mãe precisa de mim”) e voltou a caminhar sob a chuva e o céu escuro. O hospital em que sua mãe fazia trabalho voluntário aos domingos era próximo, mas as ruas estavam cheias de pessoas igualmente apressadas e ele demorou pelo menos quinze minutos para chegar.

— Pois não? — a mulher do outro lado do balcão do hospital perguntou, olhando para Jeongguk com sobrancelhas franzidas.

Jeongguk engoliu em seco.

— Meu nome é Jeon Jeongguk, eu estou procurando por Lim Nari? É urgente, eu preciso saber onde minha mãe está — ele despejou as palavras.

A mulher desconhecida piscou, levando alguns segundos para compreender as palavras apressadas de Jeongguk.

— Lim Nari? Ela é uma enfermeira, querido. Mas eu tenho quase certeza de que ela não tem filhos...

— Não — Jeongguk respondeu, balançando a cabeça. — Lim Nari não é minha mãe. Minha mãe se chama Jiyeon, ela faz trabalho voluntário aqui nos domingos. Olhe, moça, é urgente mesmo...

— Jeon Jeongguk?

Jeongguk virou-se. Havia uma mulher parada atrás dele, usando roupas brancas que se misturavam ao piso e paredes brancas do hospital. Ela tinha um rosto cansado e cabelos curtos bagunçados, mas sorria minimamente para Jeongguk.

— Lim Nari? — ele devolveu a pergunta.

A mulher sorriu um pouco mais e, virando-se para a atendente atrás de Jeongguk, falou:

— Eu cuido dele, Yisu — e, voltando a falar com Jeongguk, a mulher gesticulou para ele, dizendo: — Sua mãe está na enfermaria, me siga.

Jeongguk correu para acompanhar os passos pequenos e apressados de Lim Nari, a cabeça uma turbulência de pensamentos aleatórias. Ele não conseguia parar de imaginar o que poderia ter acontecido com a mãe, como ela deveria estar, o que Daein poderia ter feito.

— Ela está bem? — questionou. — O que aconteceu?

— Sua mãe está... — a mulher hesitou por um segundo. — Você vai ver, ok? Ela está fisicamente bem agora, e acho que você precisa conversar com ela. Ela não quis me dizer o que aconteceu, mas nós dois sabemos que tipo de padrasto você tem, Jeongguk-ssi.

Jeongguk mordeu o interior das bochechas com tanta força que sentiu o gosto metálico de sangue em sua boca quase imediatamente.

Mesmo que nunca houvesse chegado a tal ponto, ele sabia muito bem que Daein não era a pessoa mais carinhosa do mundo. O homem era violento e tinha um temperamento explosivo. Jeongguk nunca havia testemunhado nenhuma das agressões físicas, mas ele ouvia as discussões descontroladas durante a madrugada quando tentava dormir e via as marcas quase sutis em sua mãe durante a manhã. Ele se sentia fraco e desarmado, sem conseguir se mover para fazer algo. Estagnado na mesma condição de subordinaçãoEra frustrante o fato de que ele e sua mãe ainda dependiam de Daein — não tinham dinheiro suficiente para se manter sozinhos ou mesmo um lugar para ir. Jeongguk, certas vezes, quase cedia ao impulso de discar o número de seu pai e pedir ajuda. Exigir que ele fizesse alguma coisa. Ele morava em Seoul e, apesar de o dinheiro da pensão de Jeongguk sempre chegar mensalmente, fazia anos que não ouvia uma palavra sequer do pai. Ele nem mesmo se lembrava da aparência dele — não havia fotos das quais pudesse se recordar.

— Aqui — Lim Nari apontou. Eles haviam parado em frente a uma porta tão branca quanto o resto do lugar, com uma placa que dizia "Enfermaria" em letras grandes e azuis. — Mas, olhe, Jeongguk-ssi, não a pressione, ok? Eu sou amiga da sua mãe já faz quase três anos, desde que ela começou a fazer trabalho voluntário aqui, e sei que ela é uma pessoa fechada, então não seja muito exigente, tudo bem?

Jeongguk piscou. Ele se sentia nervoso. Suas roupas molhadas contribuíam nos calafrios que abalavam sua espinha. Parte dele não queria entrar e ter que encarar sua mãe, mas outra parte estava desesperada para saber o que havia acontecido, se ela estava bem, se todo o resto estava bem.

— Minha mãe tem amigos? — foi a única pergunta que veio a sua mente, e Jeongguk se sentia dormente demais para evitar que as palavras simplesmente escorregassem dele.

Não que sua mãe não fosse a pessoa mais gentil e compreensiva do mundo, além de ser a mais corajosa também. Jeongguk se lembrava do quão brilhante ela era durante a sua infância, e como isso havia se esvaído gradativamente enquanto ele crescia — se lembrava de achar, por muito tempo, que era sua culpa. Mas, ainda assim, lhe parecia estranha a ideia de que sua mãe, que naqueles dias pouco saía de casa e raramente falava qualquer coisa, houvesse feito amigos.

— Por que a surpresa? — Lim Nari perguntou, arqueando uma sobrancelha. 

Jeongguk desviou os olhos para as próprias mãos ainda molhadas da chuva lá fora, assim como suas roupas. Balançou a cabeça lentamente.

— Eu não sei. Acho que... eu só não sei muito sobre ela — ele encolheu os ombros, se sentindo repentinamente culpado por saber tão pouco sobre a própria mãe. — Não conversamos sobre, bem, nada.

A mulher mais velha assentiu, como se compreendesse, e seus lábios se contorceram num quase sorriso gentil.

— Bem, vocês vão ter a chance de conversar por um tempo agora — Nari respondeu, gesticulando para a porta. — Vá em frente. Eu volto daqui alguns minutos, preciso terminar de preencher a ficha da sua mãe.

Jeongguk assentiu devagar. Enquanto Nari girava nos calcanhares para deixá-lo sozinho, ele encarou a porta a sua frente. Pensou em mil possibilidades, temendo o estado em que encontraria a mãe. Daein havia a machucado o suficiente para que Jiyeon fosse parar na enfermaria de um hospital, e o pensamento fazia a raiva queimar em todas as células de Jeongguk. Ele queria procurar pelo homem e fazê-lo pagar por aquilo e por todas as outras coisas pelas quais o homem havia feito sua mãe passar. Aquela era a gota d'água. O sentimento no estômago de Jeongguk era de algo doentio, repulsivo, e ele não conseguia sequer considerar a ideia de voltar ao lugar em que vivera sob a influência de Choi Daein por tanto tempo. 

Ele apertou os pulsos em punhos. Precisava se conter agora — precisava ter certeza de que sua mãe estava bem.

Jeongguk respirou fundo, engolindo toda a raiva que se embolava em um nó em sua garganta à força enquanto girava a maçaneta da porta.

A enfermaria era um lugar branco e silencioso, exceto pelo barulho baixo de algumas máquinas ligadas e do ar-condicionado. O lugar era gelado, fazendo a pele já fria de Jeongguk tornar-se ainda mais gélida. A sala era pequena, com apenas três camas e só uma delas ocupada.

A mãe de Jeongguk estava sentada com as pernas cruzadas, lendo alguma revista sobre o colo. Ela pareceu não perceber que ele entrara, pois continuou com a cabeça baixa, o rosto parcialmente escondidos pelos longos cabelos escuros, que estavam soltos pela primeira vez em muito tempo.

Jeongguk engoliu em seco, aliviado por vê-la acordada.

— Oi — Jeongguk conseguiu murmurar.

Jiyeon ergueu os olhos, surpresa. As pessoas sempre insistiam em dizer que Jeongguk era a cópia masculina e mais jovem de sua mãe, mas ele discordava. Jeongguk era bruto e largo onde sua mãe era delicada e sutil. Ela sempre se escondia por debaixo de roupas escuras, sempre prendendo os cabelos longos, e Jeongguk havia acabado por se esquecer de como Jeon Jiyeon era por trás da postura cabisbaixa e sorrisos melancólicos.

— Jeongguk, você veio — sua mãe abriu um sorriso pequeno, fechando a revista que lia e colocando de lado.

Jeongguk hesitou antes de avançar. Ele caminhou a passos lentos e se sentou na beirada da cama, encarando as próprias mãos.

— É claro que eu vim — respondeu, tentando não soar ríspido. — Por que eu não viria?

Sua mãe piscou, surpresa pela pergunta.

— Eu não... não sei — confessou.

Jeongguk respirou fundo, tomando coragem para erguer os olhos. O rosto de sua mãe estava pálido, mas não havia nenhuma marca além das — agora habituais — olheiras sob seus olhos. 

— O que aconteceu?

A pergunta saiu dele automaticamente, sem que Jeongguk conseguisse evitar, mas ele não se arrependeu de ter feito a questão. 

— Concussão — Jiyeon respondeu, com uma risada breve, como se a resposta fosse engraçada. Ela balançou a cabeça para si mesma, suspirando. — Nari disse que eu preciso ficar em observação pelo resto da noite. 

Jeongguk sentiu aquela mesma raiva fria tomando conta de seu peito, mas mordeu o lábio inferior com força na esperança de reprimir aquilo, pelo menos naquele momento. Não queria colocar sua mãe numa pose defensiva — queria apenas conversar com ela, perguntar todas as coisas que queria saber.

— Não podemos voltar para lá — Jeongguk constatou, balançando a cabeça. — Se eu vê-lo mais uma vez eu juro que...

— Jeongguk — Jiyeon interrompeu, colocando uma mão sobre o ombro de Jeongguk. — Não pense muito sobre isso.

— Mãe, você não pode perdoá-lo dessa vez. Não pode — ele insistiu, fazendo o que podia para conter a raiva em sua voz. — Não me importa se dependemos dele, porque eu não vou me obrigar a suportá-lo fazendo esse tipo de coisa com você.

Ele sentia as lágrimas queimando em seus olhos, sentia a raiva deixando marcas profundas em seu peito, fazendo seus dedos tremerem incontrolavelmente. Jeongguk queria se virar e abraçar a mãe, mas não sabia como seria recebido — ele sequer se lembrava da última vez que havia de fato abraçado a mãe, e essa percepção fez algo se comprimir dolorosamente em seu peito. Mas Jeongguk sequer precisou se mover porque, com os lábios pressionados juntos numa expressão reconfortante, como se lesse seus pensamentos, sua mãe colocou um dos braços ao redor dos ombros de Jeongguk.

— Eu não lembro muito bem do que aconteceu — ela contou, em voz baixa, com os braços ao redor de Jeongguk como se ele fosse uma criança alta demais. Mas Jeongguk não reclamou. — Nari diz que é por conta da concussão. Perda de memória recente é um dos sintomas. Tudo que lembro é... de ser empurrada com força, e depois de ser trazida aqui pelo Sr. Park.

Jeongguk arqueou uma sobrancelha.

— O nosso vizinho? — questionou.

— Sim. Nunca achei que o velho tivesse algum pingo de solidariedade. 

Os dois riram brevemente. Quem imaginaria que o idoso rabugento do primeiro andar do duplex onde moravam teria alguma compaixão? Jeongguk quase nunca o via, de qualquer maneira, a não ser que fosse para reclamar do fato de que Jeongguk chegava tarde demais em casa e acabava por acordar o senhor Park com o barulho.

— Mas... E o Daein? — ele ousou perguntar, tentando desvendar a expressão da mãe. — Pra onde ele foi? Não podemos deixar que ele se salve disso tão facilmente.

Jiyeon balançou a cabeça negativamente.

— Eu não sei — sua mãe murmurou, suspirando. — Não me lembro o que ele fez depois e não quero pensar nisso agora. Só quero... dormir. Estou com muito sono. Nari também disse que é por causa da concussão. Só fiquei acordada porque estava esperando por você.

Jeongguk sorriu, tentando passar um sentimento de conforto enquanto empurrava para baixo o instinto egoísta de perguntar o que diabos ele faria agora. Queria saber para onde ir, se deveria ficar ali, se deveria ir embora, se deveria voltar para o apartamento, se deveria procurar um lugar para ir. Ele estava perdido, mas deixou tudo isso de lado e ajudou a mãe a se ajeitar na cama aparentemente desconfortável da enfermaria excessivamente iluminada. Disfarçadamente, enquanto a ajudava, tentou procurar por hematomas visíveis na mãe, mas não achou nada.

Ele engoliu em seco a própria curiosidade.

— Tudo bem — Jeongguk sorriu, parado de pé ao lado da cama, sentindo-se infinitamente sem rumo. — Você deveria... Deveria dormir.

Enquanto sua mãe se revirava na cama, tentando achar uma posição confortável, ainda de olhos fechados, Jiyeon chamou:

— Jeongguk?

— Sim? — ele se inclinou para frente, a fim de ouvir melhor.

Sua mãe sorriu.

— Obrigada por vir.

E, automaticamente, Jeongguk sorriu também, sentindo seu peito se aquecer de um jeito revigorante. 

— Não foi nada — ele respondeu.

Menos de cinco minutos depois, sua mãe já estava obviamente dormindo. Jeongguk suspirou, se sentando numa das outras camas desconfortáveis. O frio do lugar impedia suas roupas de secarem, e ele sentia o frio infiltrando em sua pele, impregnado em seus ossos. Mas ele não queria sair dali; pelo contrário. Jeongguk pretendia permanecer ali pelo resto da noite, garantir que sua mãe estivesse confortável, que não ficasse sozinha. 

Ele estava tão distraído com os próprios pensamentos que só notou que Lim Nari havia entrado na sala quando a mulher parou a sua frente, um sorriso gentil desenhado no rosto. Jeongguk piscou, surpreso. Havia se esquecido de Lim Nari por um momento.

— Jeongguk-ssi, você deve estar com frio.

Ele balançou a cabeça, afastando o pensamento com um gesto da mão.

— Eu estou bem — respondeu, falando baixo para não atrapalhar o sono da mãe.

— Sua mãe precisa se recuperar, mas ela vai ficar bem em algumas horas — Nari falou, virando-se ligeiramente para observar Jiyeon, que dormia em silêncio. Ela voltou a olhar para Jeongguk com um quê de preocupação dos olhos profundamente castanhos. — Você tem algum lugar para passar a noite? Sei que vocês não têm parentes, mas a casa de um amigo, talvez?

Sim, ele tinha. Jeongguk tinha Jimin. Ele sabia que bastava uma ligação e a porta da casa dos Park estaria aberta para ele por quanto tempo fosse necessário. Jimin saberia como lidar com aquilo, do jeito que sabia lidar com todo o resto. Ele era bom confortando Jeongguk quando se tratava de sua família fragmentada.

Mas, naquele momento, com as mãos dormentes de tanto frio e a cabeça latejando com uma enxaqueca crescente de preocupações, o primeiro rosto que irrompeu na mente de Jeongguk não foi o de Park Jimin.

— Sim, eu tenho — ele murmurou, olhando hesitantemente para a figura pálida de sua mãe. — Mas... e depois? Eu não posso ficar aqui?

Lim Nari abriu um sorriso doce, que agora parecia ser apenas uma parte de sua expressão constantemente afável.

— Apenas descanse por agora, Jeongguk — e, como se sentindo a hesitação do garoto, ela acrescentou, segura: — Vocês não vão precisar voltar para aquele lugar.

Era doloroso pensar que, com "aquele lugar", Nari estava se referindo ao apartamento que Jeongguk, tragicamente, chamara de casa durante quase sua vida inteira. Era apenas um lugar. Paredes que haviam testemunhado brigas e desentendimentos, desconciliações. Atmosferas poluídas por palavras ofensivas que haviam sido pronunciadas naquele mesmo lugar, que Jeongguk havia aprendido a repugnar cada vez mais.

— Obrigado — ele sussurrou, se levantando, incapaz de levantar a voz além do tom baixo. — Eu... muito obrigado, de verdade.

— Só estou ajudando uma amiga, Jeongguk — Nari negou. — É o mínimo da decência.

Jeongguk assentiu, concordando. Ele queria agradecer mais mil vezes, mas se limitou a seguir Lim Nari para fora, sem ousar olhar para a figura fraca e desacordada de sua mãe mais uma vez. Havia um nó em sua garganta que ele não queria deixar escapar na forma de lágrimas.

— Eu tenho alguns pontos para costurar e braços quebrados para engessar no segundo andar, mas vou garantir que sua mãe fique confortável — a mulher assegurou, afagando o ombro de Jeongguk sem hesitação conforme o levava na direção da sala de espera mais uma vez. — Você vai ficar bem? Precisa de mais alguma coisa?

— Vou ficar bem — ele afirmou. — Pode salvar meu número e me ligar assim que minha mãe acordar amanhã? Ou se... se acontecer alguma coisa.

Nari assentiu e anotou o número de Jeongguk num dos diversos papéis que carregava nos braços, rapidamente assegurando que não perderia o número do garoto. Ela também garantiu que Jeongguk tivesse seu número, caso ele precisasse de alguma coisa (Qualquer coisa, ela havia enfatizado), e, em seguida, Nari se virou e apressou-se, dizendo que tinha trabalho a fazer, deixando Jeongguk para trás na recepção com a mente a mil e os dedos paralisados.

Ele fungou, sentindo as roupas molhadas grudando em sua pele. Queria ir para casa, tomar um banho quente, se enfiar debaixo dos cobertores e liberar todas as coisas que se embolavam em seu peito num tumulto de emoções. Queria chorar.

Jeongguk pegou o celular no bolso e discou o número que estivera ansiando tanto para chamar nos últimos dias, embora por motivos tão gritantemente distintos. Ele sequer tinha energia suficiente para hesitar e pensar sobre aquilo antes de simplesmente apertar o botão verde.

Bastaram apenas dois toques, e, quando a ligação iniciou-se, ele não deixou que Taehyung falasse qualquer coisa primeiro.

— Taehyung — Jeongguk apressou-se em dizer, sem conseguir conter as palavras angustiadas que espontaneamente fluíam de si. — Eu preciso de ajuda.

Houve um segundo perplexo de silêncio do outro lado da linha. Jeongguk conseguia escutar o barulho de uma música lenta ao fundo e o barulho de pessoas conversando ao longe, mas não conseguiu desvendar onde Taehyung estava.

— Jeongguk, aconteceu alguma coisa? Você está bem? O que houve?

A preocupação imediata na voz de Taehyung o fez sorrir fracamente.

Um misto de emoções varreu o peito de Jeongguk, substituindo a insegurança pelo alívio de finalmente ouvir a voz de Taehyung depois de dias sem conseguir, de modo algum, tirá-lo da cabeça. Uma parte frágil dele queria chorar, desmanchar-se em lágrimas de uma vez por todas, tamanho o conforto que envolveu seu corpo gelado apenas com o timbre familiar da voz do outro. Jeongguk sentiu-se tonto pelo alívio. Ele engoliu em seco, forçando sua respiração a se normalizar, sem sucesso algum.

— Taehyung, aconteceu uma coisa e eu... eu preciso da sua ajuda — falou, quase não conseguindo colocar as palavras no lugar.

— Você está me deixando nervoso, Jeongguk — Taehyung suspirou. Ele não soava irritado ou áspero, o que surpreendeu Jeongguk. Sua voz era suave e cheia de conforto, com uma pontada de apreensão. — Onde você está? O que aconteceu?

Jeongguk olhou em volta. Tinha dificuldade em organizar as próprias ideias, mas tinha certeza de que não queria despejar a história inteira sobre Taehyung daquele modo — não por uma ligação telefônica, e não quando eles estavam tão distantes.

— Pode me fazer um favor? — murmurou.

— É claro que sim — a leveza da voz do outro fez o peito de Jeongguk se apertar de um jeito agradavelmente familiar.

Ele suspirou.

E então, diante do silêncio tenso de Taehyung do outro lado da linha, Jeongguk deu o endereço do hospital em que se encontrava. Ele não explicou o que havia acontecido, mas demorou alguns minutos para convencer Taehyung de que não estava machucado, e de que não havia se metido em nenhum tipo de confusão. De que estava fisicamente bem, mas que precisava de ajuda.

— Espere por mim, Jeongguk. Não saia daí. Eu chego em dez minutos.

Jeongguk não se incomodou em mencionar que o caminho do bairro de Taehyung até o hospital deveria demorar pelo menos vinte minutos. Ele não mencionou o fato de que eles não se viam havia dias, e também não mencionou o quanto machucava a falta que Jeongguk sentia de Taehyung. Mas ele sabia que essas palavras não deveriam ser ditas numa ligação telefônica. Elas deveriam ser ditas quando ele estivesse frente a frente com Kim Taehyung, e quando não houvesse aquele peso dolorosamente soturno puxando seu corpo para baixo por conta de dezenas de outros infortúnios que nada tinham a ver com a paixão pungente de Jeongguk por Taehyung.

Jeongguk se limitou a palavras mundanas, que ele esperava terem a capacidade de carregar toda a gratidão que ele sentia por ter Kim Taehyung em sua vida, de qualquer maneira que fosse, e especialmente naquele momento.

— Muito obrigado, Taehyung — murmurou.

Mas Taehyung já havia desligado a ligação.


Notas Finais


A MÃE DO JEONGGUK FINALMENTE TEM UM NOME!!! eu realmente precisava resolver essa parte da história do jeon, porque a família é muito importante, certo?

eu sei que vocês provavelmente vão querer me caçar por terminar o capítulo desse jeito mas eu vou tentar atualizar o mais rápido possível!!! essa semana (EU ACHO QUE) vai ser tudo tranquilo na escola, mas nunca se sabe...

vou tentar responder aos comentários dos capítulos passados ao longo da semana, amores sz

enfim, espero que tenham gostado, que tenham compaixão e não me matem <3 beijos e até o próximo!


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