História Hollywood's Dead - Capítulo 1


Escrita por: ~ e ~RocketQueen9

Postado
Categorias Guns N' Roses
Personagens Axl Rose, Duff Mckagan, Izzy Stradlin, Personagens Originais, Slash, Steven Adler
Tags Axl Rose, Bandas, Drama, Duff, Guns N' Roses, Izzy, Rock, Romance, Slash, Steven
Exibições 66
Palavras 7.451
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Festa, Hentai, Romance e Novela
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Hey Girls!!! Bem, eu e a @RocketQueen9 somos melhores amigas e temos uma fic de Metallica juntas, só que a gente não cansa de escrever juntas e como somos loucas por Guns também, aqui está uma fic nossa <3

Esse capitulo ta enorme por que alem da gente escrever muito normalmente (umas 3.000 palavras) ta juntado ai o primeiro pov da Eva e da Athena, mas os proximos capitulos serão menores, com aproximadamente 3.000 palavras em media, é que esse é apresentação mesmo...
Então sem mais delongas....

Torcemos muito para que gostem, e por favor, comentem!!

OBS: EU TINHA ESQUECIDO MAS O TRAILER DA FIC TA LÁ EMBAIXO

Capítulo 1 - Turn the Page


Fanfic / Fanfiction Hollywood's Dead - Capítulo 1 - Turn the Page

POV EVA

Lafayette- 1985

Não tinha a mínima capacidade de lembrar a última vez que algo sólido havia entrado por minha boca, atiçando minhas malditas papilas, fundindo-se em meus dentes e escorregando para o meu interior e me dando sustância. Não tinha a mínima capacidade de lembrar a última vez que um gole do líquido vital havia molhado meus lábios rachados, que no momento tremiam com o frio do clima bipolar do deserto prestes a escurecer, com os últimos sinais do sol alaranjado descendo e dando beleza ao fim do maldito mundo em que habitávamos.

Joguei o casaco para trás, e fui ao chão, sentindo meus joelhos serem esmagados por pequenas pedrinhas que adentraram levemente minha pele, estava de quatro, jogada na beira da estrada, derretendo e suando frio ao mesmo tempo, um estado bipolar, polos extremos, dois lados, duas mudanças, fazendo com que eu me recobrasse daquele maldito ser que estava indo atrás. William e seus olhos. William e sua fúria. William e Los Angeles.

Tentei levantar, mas minha cabeça girava, e a queda foi definitiva, caí na areia dura, passei a mão pelo rosto tentando parar a tontura causada por longas oito horas de caminhada no sol extremamente quente do meio da tarde rumo ao nada, buscando uma carona, que nunca chegou. Desci as mãos sujas pelo resto de minha face e senti alguns pedaços dos meus lábios irem ao chão, em pequenas peles ressecadas, assim que meus olhos que já encontravam dificuldade em piscar pela falta da lubrificação costumeira.

Olhei ao redor e percebi que há horas não aparecia uma mísera placa, tentei levantar pegando o apoio dos braços, mas meus pés estavam queimando dentro de uma bota velhas, com inúmeras bolhas impedindo um mísero passo sem que fosse ao chão, e então caí novamente contra o asfalto que ainda estava quente e a lua tomou o céu, iluminando minha derrota cantada pelos gritos e pelo chacoalho de cobras perdidas no matagal escasso, contribuindo para a loucura que tomava minha cabeça.

A claridade tomou meus olhos, levantei a cabeça sabendo do que se tratava, e o desespero tomou meu cérebro, fiz força para levantar e ignorei todas as dores e queimação que tomavam meu corpo do início ao fim, tentei correr até a estrada e dei a mão para o velho caminhão que se aproximava.

- Por favor, para – encarei os céus tentando acreditar em qualquer salvador- Para, para- algo escorri escassamente por meu rosto seco- Para- balancei a mão conforme o veículo ficava mais perto – Por favor, por favor – fechei os olhos os apertando assim que a luz tomou minha visão fraca e o barulho do motor ao meu lado foi a aureola dos anjos, o primeiro milagre divino que presenciei. Levantei o olhar, me deparando com uma figura gorda e suada me encarando enquanto mastigava um palito.

- Ae, moço – gritei tentando enxergar a figura- Qual o destino?

O homem me lançou um sorriso podre que era parcialmente coberto por um bigode branco e ensebado e apenas abriu a porta, subi sem sua ajuda, tropeçando algumas vezes e suas mãos nojentas me lançaram para o outro lado do banco, prendi a náusea que me tomou assim que o cheiro de fritura e mijo do veículo alcançaram minhas narinas, ele percebeu o acontecido e apenas deu outro sorriso grotesco antes de aumentar o som e deixar o country local e nojento tomar meus ouvidos.

Joguei a única mochila que carregava em minhas pernas e fitei o ambiente escuro que avançava a estrada, repleto de latas de cervejas baratas e secas, cigarros amassados, restos de comida já lotando de insetos e parasitas, um pequeno crucifixo balançava conforme avançávamos e mais uma memória de William veio a minha cabeça, estava prestes a recordar todos os motivos que me trouxeram até aqui quando a voz gasta e grossa chamou minha atenção.

- Deixa eu adivinhar- acendeu um cigarro e me ofereceu o mesmo que adentrava seus lábios nojentos, apenas neguei com a cabeça e outro sorriso de dentes pretos veio em minha direção – Está indo pra Los Angeles – apenas assenti com a cabeça – Quer ganhar a vida, mudar tudo, gracinha?

-Uhum.

- Não vai ser fácil não, visse? – assenti novamente- Carrego um de vocês todo dia, querendo sair das asinhas dos velhos e ir tentar a sorte e todo dia carrego um desiludido na volta, arrependido e detonado.

- É...

-O gato comeu a língua, menina?– não respondi e ele sorriu de novo, assustando-me – Lá tudo tem um preço, acho bom se preparar – gritou e um pavor começou a crescer quando o barulho do motor cessou e o caminhou parou bruscamente – Acho bom se preparar – ele se aproximou, seus dedos velhos e sujos, de unhas longas e encardidas tocou meu rosto – Delicada, mas daqui, não sobrevive lá não- desceu a mão pelo meu rosto enquanto eu recuava e fechava os olhos, já sabendo o que aconteceria – Lá só tem maldade, moça – o sotaque caipira, o maldito sotaque caipira- Vou facilitar pra você, mostrar como funciona do outro lado, já vai chegar bem preparadinha- agarrou meus cabelos com força fazendo com que eu soltasse um grito abafado e o forçou contra sua virilha asquerosa – CHUPE! – desceu o jeans e ameacei o vômito várias vezes, cuspindo o nada, tentei me soltar, mas suas duas mãos pressionavam minha cabeça contra seu pau mole e velho, ele o pegou com os dedos e o enfiou em minha boca, cuspi, forçou, engoli, tentei colocar para fora, mas ele me apertava, fazendo o descer contra minha garganta, estava tudo escuro, ameacei apagar, mas fui puxada e lançada na parte traseira, meu corpo reclamou com a dor, mas não era nada em comparação com o que minha mente sofreria depois, passei os olhos pelo lugar sentindo o desespero, procurando por algo, uma saída, qualquer coisa que o afastasse, que o ferisse, mas não havia nada e nem forças em mim que o fizesse recuar – Nada é barato lá não, moça- puxou minhas pernas, me debati, ele era mais forte, desceu minha calça, virei, suas mãos me agarraram, mostrando-me que eu não possuía nenhuma força contra ele no momento que segurou meus cabelos, passando a mão melada por minha buceta seca e dolorida tamanho o medo e me penetrou, algumas lágrimas caíam pelo meu rosto a cada movimento seu – Se quiser carona, vai ter que pagar – ele falava e urrava, sua coisa mole estava em mim, tentei não pensar, sequei o rosto, seja forte, Eva, pense em outra coisa.

Pense em outra coisa.

Pense em outra coisa.

Meu estômago revirava, ainda forçando expelir algo, fechei os olhos tentando focar em outra coisa, qualquer coisa, pensar, sumir dali, mas nada era o suficiente, estava quase morrendo de nojo e desgosto. O homem se mexia como se o mundo estivesse prestes a acabar, indo e vindo de meu interior dolorido e seco.

Forçou minha cabeça contra o chão do caminhão, algumas farpas de madeiras entraram em minha bochecha, fazendo-me gritar e fechar os olhos, passei a bater a cabeça no chão na tentativa de apagar, mas nada era o suficiente, ele me puxou, me deixando rente a sua barriga suada...pense em outra coisa, pense em outra coisa e só me sobrou lembrar de tudo mais uma vez, das razões, dos motivos, das justificações e dos pretextos.

Lafayette- 1980

- Jeffrey!!- corri assim que o avistei e me joguei ao seu lado no velho banco da rua – Está adiantado.

- Que seja – puxou um cigarro do bolso e virou para o lado, a falta de empatia dele não me atingia, na verdade, estava tentando agir como ele, não ligando para nada – Escuta, preciso de você hoje as 2:00 atrás do mercado, acha que consegue?

- Sabe que pode sempre contar comigo – puxei a nicotina de seus dedos e tratei de botá-la para dentro.

- Preciso de dinheiro, Eva, muito dinheiro – permaneci calada apenas o observando, sabendo que ele nunca me contaria o motivo de estar nessa vida, enquanto o meu estava exposto – Vai ter um cara novo na jogada.

- Como é? O dinheiro mal dá para nós dois.

- Ele vai ajudar, esse esquema é complicado.

 - JEFFREY, NÃO!

- Não pira, Eva, ele só vai pegar a parte dele e vazar – puxou o cigarro de meus dedos e saiu- Conto com você.

(..)

As ruas continuavam escuras, um vento quase gradativo tomava meu corpo a cada passo que dava, deixando para longe o calor infernal das horas anteriores, estava escondida atrás de uma velha árvore de frente para o mercado central há alguns minutos, como sempre adiantada e quando me dei conta, uma figura se aproximava, gelei por logo notar não ser Jeffrey, já que o moreno era tão magra que mal propagava uma sombra e possuía os cabelos para cima. Já esse era diferente, estava desconfiado, olhava para os lados e vinha com rapidez em minha direção, tentei sair da árvore e correr na direção oposta.

- HEEY! – tive o braço puxado e fui alcançada – Jefrrey disse que você era de confiança- sussurrou olhando para os lados enquanto sua voz grossa e rouca fez-me virar, o menino era levemente encorpada, tinha cabelo medianos e ruivos, estava todo de jeans e tinha o pavor no olhar, assim como machucados pelos corpo – Eva, né?

- Você é o tal cara novo?

- William- estendeu a mão, apenas a encarei e deixei passar.

- Cadê o Jeffrey?

- Ele não vem – olhou para os lados – Vem cá, vamos fazer isso logo.

- Já está se cagando –gargalhei alto e sem jeito – Vamos logo – agarrei seu pulso e dessa vez ele se livrou com raiva, e o enfiou nas mangas da jaqueta.

O garoto não falava nada, apenas seguia meus passos, cheguei ao ponto de encontro, permanecendo na parte de trás do mercado, era completamente clara, então o puxei até a fileira de carrinhos, uma área que sucumbia a escuridão e nos abaixamos – O cara deve chegar já.

- Você parece saber lidar com isso bem – sussurrou – Não precisa de um protetor.

- Jeffrey não é meu protetor- o empurrei e o garoto me olhou com uma expressão de fúria pura – Ele precisa de dinheiro tanto quanto eu, e se quer pegar a sua parte, acho melhor cala a boca que ele vem aí.

- Jeffrey?

- Não, menino! O cara.

- Ahhh o cara.

De repente uma figura vestida completamente de preto parou em nossa frente ,me levantei trêmula, já que o fornecedor havia mudado e puxei William que continuava abaixado, o homem tinha uma boina cobrindo os olhos e dedos magros e acabados, a única parte visível de seu rosto era repleta de perebas fundas causadas...bom, drogas. Ele estendeu a mão suja com uma sacola preta e dei um tapa em William, ele puxou e olhou, mas parecia não ter ideia do que deveria ter dentro, puxei de sua mão, e o homem já nos olhava com estranheza, estendi a mão e um bolo de dinheiro pousou nela, William sorriu.

- Uma semana – o homem sussurrou e saiu.

William gritou e depositei mais um tapa, ele retribuiu, mas o seu era forte, reclamei, mas não deixei aparente – É DINHEIRO PRA PORRA!

- Para de gritar, imbecil.

- Como funciona?

- Jeffrey não te explicou? – ele negou com a cabeça e prossegui – Mas que merda!- o puxei e fomos andando para a parte iluminada- Aqui tem cocaína e heroína em pó, nosso trabalho é vender tudo até o resto da semana e essa belezinha nas suas mãos, vulgo o dinheiro, será nosso.

- Mas isso não faz o menor sentido, por que ele já nos deu o dinheiro se não sabe se conseguiremos vender?

- Você é muito burro, mesmo...Ele é tipo o chefe do tráfico, sacas? Já temos os fornecedores e o dinheiro que ele nos dá cobre os próprios lucros dele.

- E se não conseguirmos vender?

- Morremos.

- QUE?

- Alguns são baleados, outros enforcados e...- vi seu olhar de desespero em direção ao pacote – Mas vai dar tudo, é só você colar comigo, que se for um bom garoto te dou metade- estava o tratando da mesma forma que Jeffrey fez comigo no principio, há mais ou  menos um ano atrás quando precisei de dinheiro e o encontrei fumando um baseado abertamente no meio da rua.

- VOCÊ É UMA CRIANÇA – gritou e me assustei com o tom rouco de sua voz – PORRA!

- O quê? – notei que estávamos completamente iluminados e fitei seu rosto quadrado, os olhos extremamente claros e os cabelos mais avermelhados do que cheguei a imaginar.

- QUANTOS ANOS TEM? 13?

- 15 – sussurrei e me afastei – Quer minha identidade agora?

- Por que faz isso?

- Por que você faz isso?

- Tenho meus motivos.

- E eu tenho os meus.

- É muito bonita pra fazer isso.

Parei por um momento, sem saber como reagir, era a primeira vez que chegava perto de um menino que não fosse Jeffrey ou os do orfanato – Não enche, caipira- o empurrei.

- Gosta de mulheres, é isso? – o garoto sorriu e eu não respondi – Gosta de mulheres?- continuei calada, o que diabos esse cara estava falando – Percebi pelo jeito que anda e como fala, não precisa ter vergonha não.

 - EU NÃO GOSTO DE MULHERES- gritei e o empurrei.

- Então pare de ser violenta...e tente andar rebolando mais.

- Quem você pensa que é? – tomei o dinheiro de suas mãos e ele me empurrou, fui ao chão com a força de seus atos e o baque de minhas costas no asfalto me fez gritar, ele montou em cima de mim, tentando pegar o bolo, estava avermelhado e bufava pelo nariz a cada ato, o empurrei para o outro lado – CHEGA PORRA!

O tal de William levantou, parecendo calmo – Uma parte disso me pertence.

- Para de bancar o babaca, se conseguirmos no fim da semana, essa porra vai ser sua. Precisa tanto de dinheiro assim? Por que não vira garoto de programa, então, mas que merda de maluco surtado.

- Desculpa – sussurrou – Eu preciso mesmo dessa grana.

- Estamos numa boa- estendi a mão e ele a apertou – Certo.

- Quer fazer alguma coisa?

- Como assim fazer alguma coisa, são três da manhã, tá louco?

- Viva perigosamente.

- Mais do que já vivo?

- Isso é fichinha pro que eu faço.

- Você tava todo borrado ali, só com a sombra do cara.

- Me segue, se aguentar até o fim da noite, te dou 15% da minha parte e aí me inclui no próximo esquema.

- Você não tem cara de quem sabe calcular porcentagem.

- Quanto anos têm mesmo, pra valer.

- 15!!

- Tão jovem- sorriu – Tão corrupta- me empurrou na direção da rua e comecei a segui-lo.

- Você não anda muito longe não.

- 18! – gritou passos a frente – Isso me dá uma vantagem, não?

- Não –corri e o alcancei – Que diabos de lugar é esse?

- Eu avisei – sorriu e me puxou para um quintal escuro.

Seus passos ecoavam numa grama bem aparada, o menino sorria baixo e num momento mínimo de distração, um estrondo tomou meus ouvidos e vários vidros foram ao chão – FICOU LOUCO?

Tapou meus lábios com as mãos – Não grita- sussurrou e me puxou até a janela – Vamos!

- O que vai fazer?

- Entrar, pegar bebida e vazar.

- O que??

- Relaxa, ele é meu vizinho, Deus vai te perdoar.

- Não acredito nesse merda.

- Pois devia – me empurrou e caí contra o chão, dentro da sala escura, levantei com cuidado e William estava do outro lado sussurrando para onde deveria ir – Esquerda, sala, vai ter um barzinho, pega tudo que tiver cor marrom ou amarela, as transparentes não, são horríveis.

Apenas revirei os olhos e fiz o que foi pedido, me surpreendendo com a quantidade de luxo na casa, e a raiva me possuiu, o mesmo sentimento de desigualdade, por que uns não tinham e outros já possuíam em excesso? Cheguei ao tal bar e custei a entender quais eram as bebidas, peguei duas garrafas cheias e quando ia saindo algo chamou minha atenção, um carteira estava parada no móvel de madeira pura, a abri vendo a enorme quantidade de dinheiro, pensei algumas vezes e peguei tudo, correndo para fora, entregando as bebidas para ele que já sorria eufórico e corremos sem rumo.

Caímos ofegante e gargalhando no fundo do mercado, ele estava suado, abriu uma das garrafas e deu um longo gole, a entregando em minha direção, fiz o mesmo sentindo o gosto agradável queimar minha garganta e passei de volta- Você me surpreendeu – gargalhou.

-Ainda acha que sou um feto?

- Você é muito bonita pra traficar – me encarou e desviei – Você que deveria tentar a prostituição.

-Naaah! É provável que eles prefiram sua bunda a minha.

- Você olhou para minha bunda?

- Esses jeans são de quem? Da sua irmã ou encolheram e não tem dinheiro pra um novo, porque porra!!

- Você olhou pra minha bunda!

- Podemos parar com essa conversa?

- Tá – deu de ombros e bebeu novamente – Por que vive assim?

-Por que você vive assim?

- Se me contar eu te conto.

- Advinha.

- Menina rica e mimada, quer se revoltar contra os pais?

- Você é tolo ou realmente acha que se eu fosse rica estaria nessa situação?

Ele parou e o senti me encarando pela primeira vez na noite, talvez só tenha percebido minhas roupas largas e sujas agora –É uma menina de rua?

- Quase, mas não.

- É o que então?

- Bom, vivo no orfanato, esperando há um bom tempo que alguém me adote e me dê banho e me alimente, ou qualquer coisa, mas eles preferem sempre os bebês, não é mesmo? – percebi que o clima havia ficado tenso e puxei a garrafa de suas mãos, gargalhando e dando um longo gole – Mas eu consigo escapar as vezes!

Continuamos bebendo até o sol aparecer, e isso se tornou nosso ritual durante os três anos que se seguiram, Will, Jeff e eu éramos inseparáveis, todas as noites estávamos juntos e quando eu não aparecia por estar presa na casa de abrigo infantil, eles arrumavam um jeito de me tirar de lá.

Gastávamos as horas da madrugada com bebidas roubadas, fumando, experimentando coisas novas, furtando o necessário, compartilhando metas e tudo que era possível durante as horas que a noite caía, mas quando o sol saía tínhamos que voltar para nossas vidas odiosas e torcer para que o sol desaparecesse.

Lafayette- 1983

- Parabéns, Will- a voz de Jeff se tornava cada vez mais próxima.

- Legal, cara, um baseado!

- Diz se não foi o melhor presente, esse é dos bons!

- Cadê a Eva? – o cheiro da velha e boa maconha tomou minhas narinas.

- CHEGUEI! – joguei-me ao lado deles no chão e puxei a garrafa de bebida – Feliz aniversário, Will- o puxei para um abraço e senti seus braços ao redor de meu corpo, apertando-me numa retribuição.

- Bom, eu tenho que ir- Jeff levantou, tinha os olhos abaixados, demorou um tempo antes de fazer qualquer coisa e como sabíamos que ele era tão verdadeiramente apático que o abraçamos por longos minutos, até ele se soltar – Vou perder o ônibus- olhou para nós mais uma vez e com apenas uma mochila nas costas, tornou a andar, havia finalmente conseguido o dinheiro e aos 21 anos, era o primeiro de nós a ir embora e buscar o próprio sonho indefinido.

Will estava de cabeça baixa, visivelmente na merda, já que passara os últimos anos planejando a ida para L.A com Jeff, mas teve seu dinheiro roubado pelo maldito padrasto.

- Will, quero te dar uma coisa.

- Sabe que não precisa me dar presente, Eva- levantou o rosto e deu mais um gole na garrafa, a passando para mim.

- Você merece- tirei o bolo de dinheiro do bolso e joguei em sua direção – Você precisa ir, William, é seu sonho.

- Eva, não! Isso é seu – tentou devolver, mas neguei de imediato- Não posso fazer isso.

- Aceita, Will...por favor.

- Eva...

- Will, você vai poder me recompensar um dia, mas por favor, vai agora.

- Eva...

- VAI! – o puxei pela barra da jaqueta e começamos a correr na rua atrás de Jeffrey, até o acompanharmos quando já estava no ponto prestes a subir dentro do veículo.

- ESPERA! – Will corria em sua direção apenas com a roupa do corpo e um punhado de dinheiro – ESPERA, JEFRREY, EU VOU! EU VOU!

O moreno tinha um cigarro pela metade nos lábios finos, um casaco grosso  e a velha boina, nos encarou com confusão e quando o viu correndo com um bolo de dinheiro nas mãos, um longo sorriso se formou em seu rosto, Jeff o abraçou e acenou em minha direção, desaparecendo de minha vista, em seguida foi a  vez de Will, que sorriu e em seguida veio correndo e me tomando nos braços – Você merece- sussurrei e ele cobriu meus lábios com os dedos.

- Você é minha garota favorita okay? Quando chegar lá, me procura, demore o tempo que for, mas nós vamos nos ver de novo, Eva, okay?

- Me promete?

- Promete – ele apertou minha mão como sempre fizemos e correu até o ônibus e ali foi a última vez que o vi, há mais de dois anos atrás, com um sorriso esperançoso nos lábios, cabelos médios e o velho casaco jeans, sem um pingo de luxo, só esperança.

 

Los Angeles- 1985

Estava quase amanhecendo quando empurrei o velho asqueroso e saltei do caminhão, vendo o longo e branco letreiro preenchendo a paisagem, joguei minha mochila no chão e procurei por um cigarro, mas não havia nada, só algumas mudas de roupa, encarei o novo ambiente, vendo o fim da vida noturna badalada, não sabia o que fazer, por onde ir ou seguir, apenas levantei a cabeça e dei meus primeiros passos tortos na famosa cidade dos anjos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pov Athena

 

Los Angeles, 1985.

 

Living on a jet

Making love to someone else's dreams

Say it again

She puts her leg up

Well, calls it good luck

Do you know what I mean?

Do you remember?

Well I remember

Oh no, oh no

Dream machine

So damn cool she can turn on the night

The more she gets

 

Well, the more that she needs

Do you know what I mean?

Do you remember?

Well, I remember, oh no, oh no

(Vivendo em um jato

Fazer amor com os sonhos de outra pessoa

Diga outra vez

Ela levanta suas pernas

Bem, isso se chama boa-sorte

Você sabe o que eu quero dizer?

Você se lembra?

Bem, eu lembro

Oh, não, oh, não

Máquina de sonhos

Tão legal que ela pode se transformar na noite

Quanto mais ela recebe

 

Bem, quanto mais ela precisa

Você sabe o que eu quero dizer?

Você se lembra?

Bem, eu me lembro)

 

Minhas mãos seguravam com força o pedaço de metal já suado, brilhante e reluzente, enquanto meu corpo balançava em sincronia com a batida forte e icônica da canção, girando e girando no poste. O vento frio do ar condicionado atingia minha pele já úmida pelo cansaço de movimentos exaustivos e repetitivos, causando leves calafrios pelos ralos pelos de meu corpo. Meus joelhos ardiam de tanto cair ao chão, sendo levemente queimados pelo roçar do tecido barato e fino da minha meia calça que ia até a metade da cocha, enquanto eu me arrastava de quatro pelo longo palco retangular, da forma mais sensual que meu corpo consegue exalar.

Os mais diversos olhos pousavam sobre mim com puro desejo, olhos azuis, negros, castanhos, esverdeados, puxados, arredondados, grandes, pequenos, não importa o modelo, a etnia, a quantidade de dinheiro na conta, casado, solteiro, noivo, altos, baixos, magros, gordos, famosos ou completos desconhecidos, mas estavam lá, com um punhado de dólares na mão, sacudindo suas notas ao vento, despejando-as sobre mim, pagando garçonetes por suas bebidas, gastando seus míseros tostões de trabalho duro sabe deus onde por um par de peitos que não pode pagar para tocar.

Os sorrisos de canto de boca, sacanas, com suas expressões completamente pervertidas, excitados e encantados, por finalmente poder observar o que nunca vão ter, que nunca alcançarão, seu maior ápice da ânsia carnal, do mais primal no ser humano, querendo me devorar com seu puro apetite sexual.

Eles queriam ser excitados, querem ficar perplexos em frente a rainha da hipnose, com seu corpo esbelta e seu movimentos pélvicos atrativos, seus seios voluptuosos a balançar e seus pequenos pares de calcinha.

E eu era a rainha nessa arte.

A arte de iludir, de foder sua mente, de perverter seus pensamentos, de implantar uma imagem em sua mente que nunca esquecera, de despertar os mais primais de seus sentimentos, de atiçar o desejo, a tara, a perversão.

Já podia sentir o suor começar a escorrer pouco a pouco pela lateral de meu rosto e meus cabelos abaixarem um pouco, mesmo sendo tão armados. Já estava ofegante e satisfeita com o estado catatônico daqueles a minha frente, completamente hipnotizados pelo caminho de meus mamilos a sacudir, de se perder no meu olhar perverso e indecente, sem sorriso algum no rosto.

Too fast

Too fast for love

Too fast

You're too fast for love

 

Oh, no, oh, no

She's a streamline queen

On a sex craved movie screen

Say it again

She'll use her time up

Have nothing to show

Well mark my words

Do you remember?

Well I remember

Oh, no, oh, no

 

Too fast

Too fast for love

Too fast

You're too fast for love

 

(Rápida demais

Rápida demais para amar

Rápida demais

Você é rápida demais para amar

 

Oh, não, oh, não

Ela é uma rainha aerodinâmica

No meio de um filme de sexo

Diga isso de novo

Ela vai aproveitar o tempo

Não tenho nada para mostrar

Bem marque minhas palavras

Você se lembra?

Bem, eu me lembro

Oh, não, oh, não

 

Rápida demais

Rápida demais para amar

Rápida demais

Você é rápida demais para amar)

 

Joguei minha cabeça para trás, sendo cegada pelas luzes em tons de vermelho, roxo e rosa que me atingiam com total intensidade, holofotes tão potentes que podia sentir o calor das lâmpadas velhas e nem um pouco sustentáveis. Meus joelhos estavam ao chão, com minhas cochas pesando sobre minhas panturrilhas, as mãos percorrendo pela barriga e subindo por toda lateral do corpo, brincando com os seios até serem esticadas junto aos braços para trás.

Os assovios eram ensurdecedores e logo senti notas caírem sobre mim. Não notas de 20, muito menos de 50 ou sem, míseras notas de 1, 5, 10 dólares que serviram para pagar o aluguel e uma boa dose de Jack Daniels, ou até mesmo, caso consiga um desconto, um pequeno pacote de coca.

Finalmente sorri, meu turno por aqui havia acabado, mas nem tudo são flores, ainda não era hora de ir para casa descansar, tomar um banho para tirar todo o suor e os óleos que dominam por completo minha pele, junto com o glitter.

Era hora do segundo turno.

Mandei um beijo para o bando de homens transformados a puro primatas pelo simples fato de verem mulheres seminuas e desci do palco, com os pés doloridos e cheios de bolhas pelo salto alto, agulha e transparente que insiste em ferir minha pele sem piedade.

-Estava inspirada hoje? – ouvi a voz de Hugh seguido de sua longa tosse de tanta fumaça em seus pulmões.

-Deu pra perceber? – brinquei e ele sorriu, em seguida, tragando seu charuto cubano.

-Nada mal, talvez até mereça um extra

-É noite de Motley, quis fazer uma singela homenagem

-Puxa saco – implicou – só por que dão boa gorjeta

-As vezes é bom ganhar mais que 50 paus por cara, eu ainda tenho que pagar o aluguel, sabia?

-Então vá ganhar seus mais de 50 paus lá trás, eles estão te esperando – disse, me dando um forte e ardente tapa na bunda e lá fui eu, quase caindo de cima do salto.

***

Eu estava de quatro. Minhas mãos se agarravam com força a cintura de Nikki para não perder o equilíbrio enquanto o chupava. Por trás, enquanto esmurrava minha bunda em tapas, Tommy enfiava seu pau em mim em um constante e forte vai em vem. Eu podia sentir seu suor pingar em minhas costas. Tommy era tão bruto que as vezes eu achava que ia me partir em dois, mas o seu abuso de drogas cada vez crescia mais e isso o estava deixando cada vez mais lesado.

Por um momento quase engasguei, era muita informação, sendo fodida atrás e chupando na frente, mas estava tão acostumada em fazer qualquer tipo de trampo por uma grana a mais que nem sei se me importo mais. Além disso, é sempre divertido desvendar os prazeres alheios, sentir prazer (não todas as vezes, claro) e ainda ganhar por isso.

E eles pagavam bem.

-Athena, Athena...- Nikki gemia agarrando meus cabelos com força e enfiando seu pau ainda mais fundo na minha garganta a ponto de sentir uma leve ânsia de vomito, mas passageira – eu vou gozar...

Normalmente eu faria uma conversinha suja, sussurraria em seu ouvido o que eu sei que ele adoraria ouvir, mas como seu pau está em minha boca, fica pra outra. Logo seu liquido gente e viscoso preencheu minha boca com seus pequenos jatos. Nikki se afastou de mim, se jogando na cama em um grande suspiro. Engoli e limpei a boca com a parte traseira da mão, ainda sentindo os solavancos de Tommy dentro de mim. Me agarrei mais uma vez com força aos lençóis, com as unhas postiças cravadas no fino tecido, quando eu preferia muito mais que fosse a carne de alguém, arranhando as costas ou algo do tipo, mas Tommy e seu complexo por garotas de quatro.

Desviei meu olhar para o homem sentado na poltrona vermelha, degustando com calma seu copo de whiskey e somente observando a cena. Vince é daqueles que gostam de olhar, além de foder obvio, mas as vezes vem aqui somente para me ver ser fodida, sabe deus por que, mas cada um com suas taras e meu trabalho é suprir suas necessidades e realizar seus desejos.

Tommy então agarrou minha cintura e enfiou fundo, finalmente gozando. Em seguida se sentou, ainda nu, no chão, a procura de algum pacote de cocaína.

-Ae, vai dividir? – Nikki disse com um sorriso completamente drogado no rosto, olhos avermelhados e perdidos.

-Tá – comentou, fazendo uma carreira na cômoda e cheirando, fez mais duas – uma é pra você, minha deusa grega – brincou, como sempre me gostou de chamar.

-Nhown, que lindo, sendo carinhoso – falei, caminhando até Tommy e depositando um beijo em sua testa e ele retribuiu com uma lambida em meu seio.

-Eu que agradeço pelos seus serviços – respondeu, enquanto eu finalmente cheirava com todo o prazer do mundo – gozou hoje? – me questionou.

-Vai ter que se esforçar mais, zé droguinha – brinquei.

Fazem 2 anos que eles frequentam o seven veil, o puteiro/bar de strip em que trabalho, e desde então criaram esse encanto por mim e praticamente só aceitam me foder. Tommy criou essa fixação por tentar me fazer gozar que chega a ser doentia, mas ele tenta, coitado, só não entende como as coisas funcionam.

Isso é trabalho.

-Um dia eu chego lá – respondeu enquanto Nikki vinha por trás de mim, cheirando a carreira a minha frente.

-Obrigada pelo presente – sorri, colocando minha calcinha – mas está na hora de ir, queridos

-Mas já? – Vince finalmente falou algo – achei que íamos sair e celebrar, algo do tipo, não é todo dia que se faz 22 aninhos

-Tenho que trabalhar querido, infelizmente minha conta bancária não tem tantos dígitos como a de vocês – brinquei.

-Que merda, você comemorando o aniversario aqui –Nikki disse me dando um forte abraço e caindo por cima de mim na cama – tenho um presente para você...

-Pra mim? Que lindo...mas se for um foda se eu te mato – falei e ele gargalhou.

-Não, não é, é muito melhor – me deu um selinho e se levantou, correndo até as calças – aqui está – tacou notas em mim.

Peguei as notas apressada, contando e contando.

-300 DÓLARES? – falei quase em um berro – Nikki, mas, mas

-Não gasta com o alguel hein, aceito gastar com drogas, desde que seja para a sua diversão – sorriu, tão carismático –e legal você dançando Motley hoje, deu até um orgulho aqui no papai

-Eu, caralho, obrigada

-Ah, eu também tenho algo – Tommy disse me tacando uma sacola da Macy’s – trate sua puta bem – deu uma piscadinha.

-Nossa, to até me sentindo aquelas esposas com um marido bem rico que trai ela pra cacete e pra esquecer, ele a enche de presente – brinquei – ou você só quer foder meu cu mesmo

-Não posso ser uma alma caridosa? Um anjinho?

-Você é o diabo em pessoa, mas tudo bem – falei abrindo a sacola – CARALHO O VESTIDO

-Você deixa muito explicito babando por esse vestido na vitrine – revirou os olhos – careira

-Que amor, estou me sentindo especial obrigada              

-Você e a única puta que mora aqui ó – colocou a mão no peito – no coração

-Eu tinha entendido pelo gesto mas tudo bem obrigada agradeço a consideração –e antes que eu pudesse completar a frase, uma batida forte na porta me interrompeu – é melhor vocês saírem, não querem outra surra do Frank

-Pelo amor de deus, o Frank não – Nikki disse colocando as calças rápido – da ultima vez ele quase quebrou minha cabeça

-E QUASE ME CASTROU, VAMOS – Tommy disse abrindo a porta correndo e Nikki e Vince os seguiu, me deixando mais uma vez sozinha.

Até o outro cliente chegar.

-O que posso fazer por você hoje? – falei, abrindo as pernas lentamente enquanto a visão de um homem acima do peso e levemente careca se aproximava de meu corpo com seus olhos gordos e tive que segurar a tentação de revirar os olhos.

E por um momento, eu me recordei o quão merda esse trabalho pode ser.

***

Meus pés começaram a latejar e eu sabia que estavam prestes a recomeçar a sangrar. Meus cabelos loiros pareciam mais uma juba de leão, desgrenhados e armados, soltos ao vento forte que batia devido a proximidade com o mar. Já era de madrugada, quase na hora do sol nascer. Era o começo de mais um aniversário de merda no qual eu não me importo em comemorar. Estava usando meu vestido da macy’s e pela primeira vez em muito tempo, nesse mesmo horário, eu não parecia uma prostituta. Não que isso seja uma ofensa, parecer uma prostituta, por que eu realmente sou, não tenho vergonha alguma em falar, mas as pessoas e suas tendências em julgar.

Não tenho dinheiro, sou quebrada, falida, pobre de maré, mas vivo como posso, em meu pequeno e fodido apartamento barato na sunset, alimentando meus vícios e escutando meu rock.

Eu podia ser garçonete, gari, qualquer um desses trabalhos de fácil acesso, mas não me trariam satisfação alguma, seria só mais uma obrigação para deprimir minha vida a ponto de tornar todos os meus dias miseráveis, e isso é a ultima coisa que eu quero.

Quero viver, ter meu dinheiro, minha vida, minha felicidade, minha loucura, não ser só mais uma escrava do “Status Quo”.

Tenho prazer no que faço, mental e físico, me é um agrado diário (a maioria das vezes) e mesmo com seus altos e baixos, gosto.

Além disso, ganho mais do que qualquer garçonete e se eu tivesse algum pingo de consciência e algum senso de responsabilidade, já poderia ter juntado um bom dinheiro, mas prefiro, como disse, alimentar meus vícios.

Caminhei com meus passos arrastados até a praia. O calçadão estava vazio e abandonado como um deserto e era assim que eu gostava, solitário como a lua, solitário como eu. Pensei na falta da companhia humana em minha vida, tinha um gato e era o único que realmente interagia comigo, mas acho que nem ele necessita de mim, é autossuficiente e independente, assim como eu.

Me sentei na areia, fitando o sol nascer, algo comum no meu dia a dia, trabalho no horário em que as pessoas normais dormem e bem, tenho insônia, ou seja, o casamento perfeito.

Fitei os 300 dolares de Nikki em minha mão, além dos 200 que tinha a receber do meu cafetão, Hugh. Pensei sinceramente em torrar tudo em uma porrada de heroína de boa qualidade e torcer para ter uma overdose, mas pela primeira vez em muito tempo, a consciência pesou, e enquanto eu fitava o mar aberto e sua linda dança das ondas, me lembrei dela.

 

Flashback 1981

 

-Era uma vez, uma linda princesa que vivia em um castelo em uma terra distante – comecei a falar enquanto brincava com seus cachinhos dourados em meus dedos – e eles viveram felizes para sempre

-Ei! Não é assim que conta a história!  - Macy me interrompeu com um bico enorme, mas eu sabia que estava lutando para segurar o riso.

-Mas é o que está falando no livro, não vê? – respondi, pegando o livro e enfiando sua cara nele – agora vê? – repeti enquanto ela gargalhava alto.

-Você é idiota sabia? – implicou.

-Idiota? Eu? Não sou eu que já tem 12 anos na cara e ainda pede pra irmã mais velha ler história tosca de princesa – Macy gargalhava – além do mais, eu leio essa história desde que você estava na barriga da Tatiana

-Por que você insiste em chamar ela assim?

-Por que você insiste em ser o cão fiel dela quando ela não faz nada por ti? – respondi em e arrependi na hora – desculpa Macy, eu...

-Olha, eu sei que você não gosta da mamãe, mas ela só está passando por um momento difícil e...

-Quando que ela não está em um momento difícil Macy? Você tem que me escutar e...

-Eu não quero saber do que você sabe Athena, me deixa ainda ter essa ideia na cabeça que ela é uma pessoa boa e que me ama

-Ela te ama Macy, mas

-Sem mas, não quero ouvir, só vamos dormir, pode ser? – emburrou e se virou para o lado, de costas para mim.

A abracei por trás, depositando um beijo carinhoso em sua bochecha.

-E viveram felizes para sempre... – sussurrei e pude ver um sorriso bobo formar em seu rosto.

Tatiana é o nome de nossa mãe, mas não a chamo assim, para mim, ela é somente mais uma drogada, um trem a toda velocidade a caminho da morte, que torra o dinheiro que deveria gastar com as filhas em uma boa quantidade de heroína. Já meu pai é outra história, assim que descobriu que eu estava a caminho, fugiu com sua amante para Los Angeles e nunca mais voltou, me deixando para cuidar de uma criança e uma drogada.

Bem, acabei de conseguir um bom trabalho na mercearia perto de casa e estou tentando juntar um dinheiro para alugar um apartamento para mim e para Macy, pois ela merece muito, muito mais.

Macy é minha meia irmã, na qual praticamente criei. Ela nasceu prematura e quase morta, pois naquela época mamãe já era uma viciada de primeira. Não fazia ideia de quem era seu pai e não fazia questão de saber, desde que estivesse comigo para protege-la, tudo estaria bem.

***

Acordei com o grito agudo de Macy ecoando por  toda a casa. Meus pés atrapalhados mal sabiam seguir sua função enquanto eu tropeçava em todos os cantos com meu canivete na mão, torcendo para não me cortar com minha alma desastrosa e meus atos desordeiros. Cheguei ao banheiro e Macy berrava em um choro doloroso e molhado, agachada junto a um corpo pálido, gélido, como uma estatua grega, simplesmente inerte, jogada ao chão, com suas veias expostas com seu inúmeros furos de agulhas nos braços e pernas.

Agulhas a rodeavam junto a um pó branco e uma colher queimada. Seus olhos estavam revirados, mostrando somente seu branco e vermelho globo ocular. Em sua boca formava uma poça de vomito na qual ela mesma engasgara.

Tatiana havia tido uma overdose.

Tatiana estava morta.

E Macy não parava de chorar.

E eu não conseguia ao menos derrubar uma lagrima.

E Macy parecia mais uma torneira impossível de fechar.

Chorava, chorava, chorava.

E eu perdi

-CALA A BOCA, CALA A BOCA, CALA A BOCA – eu berrava para Macy enquanto ela insistia em fazer o oposto, só berrava mais e mais – CALA A BOCA, CALA A BOCA, CALA A BOCA – continuei berrando a ponto de ficar sem ar, enquanto meu corpo escorria encostado na parede até me jogar contra o chão.

E esse foi o fim.

Tatiana morta.

Macy em outro país morando com seu pai biológico.

E eu me mudando para Los Angeles, para morar com o meu suposto pai.

 

Flashback OFF

 

Me levantei apressada. Corri até a lata de lixo mais próxima a procura de algum tipo de papel e achei uma embalagem de hambúrguer. Peguei uma caneta de dentro de minha bolsa, pensando em que merdas ia escrever. Escrevi. Rasguei o papel.

Já eram 6 da manhã quando fui ao banco e, anonimamente, depositei 100 reais na conta de Macy.

Ela não podia saber o que eu havia me tornado.

Uma hipócrita com tendências viciantes a alucinógenos que vende seu corpo com prazer para pagar as contas.

Ela precisava manter fixa a imagem que tinha de mim, pois o que sobrou de mim são somente restos da escória de o que um dia foi uma pessoa. Mas por trás de todo o melodrama e as crises existências, sou feliz, vivendo de sexo, drogas e rock n roll, literalmente.

Comecei a caminhar, simplesmente vagando pela cidade sem rumo, embriagada com o cheiro do cigarro e nauseada com o cheiro da maconha. As luzes eram muito fortes, os ruídos constantes e altos, as vozes incansáveis, o cheiro poluído e as ruas sempre lotadas, sejam de pessoas ou carros ou boates. Uma vida tão depreciativa, a vida de um morador jovem de LA, se deteriorando cada dia um pouco mais, mas o fazendo com estilo, com prazer, vivendo a vida até a sua ultima gota, vivendo no limite, sem o medo de se perder na tentação ou de acabar morto no dia seguinte.

É o amor por brincar com o fogo e não se importar em se queimar. E mesmo com a dor ardente da quentura e da falta da pele, no caso, falta da sanidade, ainda sim, repetir o mesmo erro, uma vez atrás da outra, como um insano foragido de um hospício.

Los Angeles, a cidade do pecado, da luxuria, do drama, das artes, das drogas, do rock n roll, da ascensão da juventude, prestes a tomar o mundo com seu descuido e sua ambição.

Los Angeles, meu lar, minha cidade, minha paixão e minha única e verdadeira amante.

Mais uma vez, com meus passos tombando pelo salto alto demais e a mente vagando distante, andei pela calçada da fama, hipnotizada pelas imagens passando nas tvs a venda, pelos corpos de jovens jogados ao chão pela bebedeira, pelas prostitutas caminhando e fitando os carros, pelas luzes dos holofotes e das placas de neon convidativas para se embriagar em experiências que nunca vai esquecer.

Me sentei na calçada da fama, acendi um cigarro enquanto ele pendia entre a fresta de meus lábios carnudos e avermelhados por um batom barato e já borrado, arranquei meu salto, finalmente podendo ver suas bolhas, eu estava sedenta com a garganta implorando por álcool, a fome fazendo minha barriga criar uma sinfonia alta e desconfortante, e tentei me lembrar quando foi a última vez que coloquei algo solido para dentro. Senti as pedrinhas de cascalho provavelmente por uma construção ou só da sujeira do dia a dia da cidade grande perfurar minhas mãos que usavam o chão estrelado como apoio. Não sabia se colocava a jaqueta de couro ou se a tirava, não conseguia entender se estava com calor ou frio. Pensei em ir embora e pegar uma carona com qualquer estranho, somente para não ter que machucar ainda mais meus pés na caminhada, mas acabei entretida com a visão a minha frente. O vai e vem, como o pendulo, das pessoas.Meu corpo estava jogado em frente a um dos diversos pontos de ônibus dessa cidade, fitando o vai e vem das pessoas, indo trabalhar, voltando do trabalho, passeando, turistando e o melhor de todos, aqueles corajosos que abandonaram suas vidas medíocres para recomeçar aqui, na cidade onde tudo é possível, que alimenta seus sonhos e te transforma em um de seus filhos perdidos.

Traguei mais uma vez o cigarro com gosto, expelindo com calma a fumaça que me trazia a motivação para continuar.

Continuar perdida.

Na cidade dos anjos caídos.


Notas Finais


Eai, o que acharam babes? Por favor, nos digam!!

Link Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=C3JNdOKN6ZY&feature=youtu.be


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