História I can see clearly now - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias EXO
Personagens D.O, Kai, Kris Wu, Sehun
Tags ?2concursoexofanfics?, Dtehospital, Krisoo, Sehun Fanboy
Exibições 399
Palavras 14.486
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Fluffy, Slash, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


OOOOOI <3

Sim, me enfiei em mais um concurso, mas tá sendo uma ótima experiência porque eu amei escrever isso do fundinho do meu coração.

Tenho que agradecer ao @DarthCaedus por ter me ajudado na revisão e por ter feito a capa. E a @hernameisbarbs, por ter tirado algumas dúvidas que eu tinha e feito essa capa lindíssima pro capítulo. Obrigada, não sei o que faria sem vocês. <3333

Isso é basicamente uma fluffy contada pelo ponto de vista do Sehun, que tá por fora da história, então espero que você se divertiam com ponderações desse menino louco e...

Não shippem SeSoo nesse começo, pelo amor de Deus. NÃO É um romancezinho profissional x paciente. Sehun não sabe o que tá fazendo da vida, ele é adolescente. Enfim, é realmente só nas primeiras cenas. -q

Nos vemos nas notas finais.

Boa leitura!

Capítulo 1 - Único - Sehun tinha um faro certeiro para casais


Fanfic / Fanfiction I can see clearly now - Capítulo 1 - Único - Sehun tinha um faro certeiro para casais

Capítulo Único

 

Oh Sehun odiava as terças-feiras porque elas significavam uma só coisa: ir até aquele maldito hospital, ficar tempo demais passando ferro na veia e perdendo umas boas horas da sua vida no processo.

Ou talvez ele estivesse garantindo horas de vida, já que não sabia se aquela coisa de anemia podia matar ou não. Era melhor prevenir do que remediar, certo?

Ainda assim, saber que aquele era um mal necessário não melhorava muito o seu humor. Hospitais ainda tinham aquele mesmo cheiro - uma mistura de produtos de limpeza com doença, se é que aquilo era possível -, falta de cor e seriedade no rosto de todo mundo. Era um ambiente muito pesado para alguém que tinha tão pouco tato. E paciência. Sehun não era a pessoa mais legal do mundo.

Pelo menos podia ficar ouvindo música durante todo o processo. E seriam só oito semanas - oito fucking semanas -, mas era melhor do que morrer ou ter que comer bife de fígado por uma década. Ou até que a sua língua caísse de podridão. Não importava o que acontecesse primeiro, nenhuma opção parecia boa.

O maior problema naquilo tudo - isso porque não era difícil enumerar coisas que o desagradavam no processo - era que, para a completa infelicidade de Sehun, nas terças de manhã era sempre o mesmo enfermeiro cretino que o atendia, um orelhudo que parecia ter algum problema na boca, já que nunca parava de sorrir. Se hospitais já eram assustadores, era ainda mais assustador quando um puta homem alto vestido de branco ficava sorrindo para a parede.

Sehun já estava começando a achar que existia algum tipo de fantasma preso nas paredes da Sala de Medicação e por isso aquele cara - Chan-alguma-coisa -, o enfermeiro macabro, sorria tanto. Até tinha criado toda uma teoria em cima daquilo, algo envolvendo uma amizade entre enfermeiro e paciente, uma morte súbita e a pobre alma do paciente, que não havia conseguido se desapegar do mundo material, vivendo por ali mesmo. Sorrisos de seu amiguinho enfermeiro não faltariam.

Mas, independente de haver fantasmas ou não, o que mais fodia era que aquele enfermeiro tinha a mão tão pesada quanto um elefante e fazia o braço de Sehun ficar doendo a semana inteira, mal conseguindo se mover, porque ele furava em mil lugares enquanto tentava conseguir pegar uma veia. A mãe de Hun costumava dizer que algumas pessoas apenas não tinham a delicadeza o bastante para lidar com medicina, enfermagem ou pessoas. Chan-alguma-coisa era uma daquelas pessoas. Ele mexia aquela agulha dentro da pele de Sehun como se estivesse no meio de uma escavação, amarrava aquele elastiquinho maldito até o braço do garoto ameaçar se quebrar e cair rolando pelo chão, e muitas vezes até tinha que chamar outro enfermeiro para ajudá-lo no processo.

Chan-alguma-coisa só tinha um trabalho - ao menos com Sehun. Um único fodido trabalho, e ainda assim ele fracassava.

Se ele tinha cursado enfermagem para ajudar as pessoas, obviamente estava fazendo aquilo da forma errada.

Era por aquele motivo que, depois de muito procurar por uma solução, Hun decidiu que não podia mais cair nas mãos daquele enfermeiro. Se aquilo continuasse acontecendo, além de uma anemia profunda ele também teria um braço amputado antes que as oito semanas acabassem.

E, considerando que ainda faltavam seis semanas, continuar indo lá nas terças de manhã era o mesmo que dar um passo para mais perto da morte.

Na semana seguinte, a terceira indo naquele hospital, Sehun esperou a noite cair para ir até lá. Pelas suas contas, o turno do Chan-alguma-coisa devia acabar lá pelas sete horas, na pior das hipóteses - tinha pesquisado na internet e descoberto que muitos enfermeiros trabalhavam por doze horas e folgavam por mais tempo -, por isso chegou ao local às oito da noite. Devia ser o bastante. Era preferível andar pelas ruas à noite do que ser assombrado pelos sorrisos gigantescos daquele cara.

Ok, talvez aquilo fosse meio injusto - se não fosse por aquelas mãos de concreto, ele nem seria tão ruim assim. Chan-alguma-coisa até que era bem simpático. E não era como se Sehun fosse mesmo andar pelas ruas sozinho, afinal, seu pai o buscaria dali a uma hora e meia.

Como de costume, o rapaz se dirigiu até o guichê e apresentou os documentos junto com a receita, batendo os pés no chão com um pouco de impaciência. Quanto mais rápido começasse, mais rápido acabaria. Seus fones já estavam plugados no celular e descansando ao redor do seu pescoço. Tudo certo - de preferência, sem as mãos do enfermeiro bruto para aplicarem a dose semanal de ferro.

Em poucos minutos, Sehun estava sendo encaminhado para o corredor da Sala de Medicação que ele já havia aprendido a reconhecer, se sentando em um banco próximo à espera de um profissional.

Sehun, que já estava entediado depois de cinco minutos de espera, se pôs a tamborilar os dedos de modo frenético, tentando se distrair com o som enquanto murmurava a letra de uma música. Se houvesse mais alguém ali, certamente o odiaria por ser tão inquieto.

E foi então que ele surgiu no corredor: cabelos vermelhos, carinha de perdido e tão pequenininho que dava vontade de apertar até que ele ficasse tão minúsculo quanto um dos países que o Rússia encolhia em Hetalia.

Como aquela obra de Deus estava vestido de branco como os outros enfermeiros e tinha algumas receitas na mão, Sehun deduziu que ele o atenderia no lugar do Sorrisão, o que fez com que ele parasse de mexer os dedos e se ajeitasse na cadeira de espera.

Por um momento, temeu que aquele moço lindo fosse passar direto sem nem olhar na sua direção. Mas quando ele parou, checou a receita e olhou para Sehun, o garoto não conseguiu evitar um sorriso tão grande que até daria inveja a Chan-alguma-coisa.

— Oh Sehun? — O enfermeiro de cabelo colorido perguntou, ao que o adolescente assentiu, ficando sério. Então a coisa mais incrível do mundo aconteceu: o enfermeiro abriu um sorriso delicado e meio contido, que fez seus lábios ficarem em um formato de coração. Sehun quase suspirou. — Me acompanhe até a Sala de Medicação, por favor.


 

X


 

Do Kyungsoo.

Era o que estava escrito na plaquinha colada no uniforme dele, que contrastava com os cabelos muito vermelhos e davam um pouco de vida àquele hospital.

Só tinha uma pessoa passando soro em uma das cadeiras, mas Sehun evitou olhar para ela, já que tinha agonia daquele negócio pingando de uma em uma hora - sério, não dava só para aumentar a velocidade daquilo? Tudo bem que receber a dosagem muito rápido só deixaria a pessoa ainda mais zoada, mas mesmo assim…

De qualquer forma, Sehun tratou de prender sua atenção em Kyungsoo, que estava preparando sua própria bolsa de soro, com a diferença que aquele tal de ferro tinha uma cor tão escura que parecia café. Sehun achava a cor engraçada, ao mesmo tempo em que dava um pouco de medo, já que todo mundo ficava no sorinho transparente e ele ali, servido de garrafa térmica.

Kyungsoo pareceu terminar a preparação e caminhou até o rapaz de cabelos loiros, colocando a bolsa no suporte para soro, que estava ao lado dele. Sehun quase gemeu em frustração, sabendo que a pior parte estava por vir - a parte em que aquele negócio teria que ser enfiado nas suas veias. Por uma agulha.

Kyungsoo pareceu perceber o desconforto dele, já que sorriu tranquilo, fazendo com que seus olhos - que eram gigantes - se fechassem um pouquinho.

— É a sua primeira vez aqui? — Ele quis saber, deixando o sorriso de lado e andando até o outro extremo do cômodo, mexendo em algumas gavetas e tirando um cateter novo dali. Kyungsoo ajeitou aquelas luvas horrorosas na mão, colocou tudo o que precisava em uma bandeja e andou até Sehun, olhando-o enquanto esperava a resposta para a pergunta.

O garoto limpou a garganta, com os olhos ainda arregalados.

— Terceira vez… — Sehun praticamente sussurrou, arrancando uma risadinha baixa de Kyungsoo. O paciente até podia levar aquilo como ofensa ou falta de profissionalismo, mas o enfermeiro não parecia estar zombando dele, só rindo todo bonitinho. Ele era tão bonitinho… — Eu tava vindo de manhã, mas o Sorrisos tava fodendo com o meu braço.

Daquela vez, Kyungsoo riu mais alto, o que arrancou um olhar esquisito do cara que passava soro em frente à eles. Sehun observou quando as bochechas dele se avermelharam, ficando muito parecidas com seus cabelos, e a forma como ele arregalou aqueles olhos de coruja para o nada, parecendo culpado.

Sorrisos seria o Chanyeol? — Kyungsoo perguntou quando seu rosto voltou ao normal, logo depois de sussurrar um “Com licença” para Sehun, amarrando aquela maldita borracha amarela ao redor do braço do garoto. — Porque ele é todo sorridente mesmo… Abra e feche a mão repetidamente, por favor… Isso…

Era estranho conversar com uma pessoa que estava apalpando suas veias, mas Kyungsoo era bem simpático - muito mais que Sorrisos, que agora ele tinha lembrado se chamar Chanyeol -, então Sehun só evitou olhar para o que estava acontecendo em seu braço e respirar fundo.

— Sim… Esse moço mesmo. Ele é seu amigo? — Perguntou, tentando se distrair. Apertou os olhos quando Kyungsoo pareceu ter achado uma veia e começou a limpar o local com algodão e álcool. Sabia que a picada estava por vir, o que o deixava mais nervoso do que Sehun gostava de admitir. — Desculpa dizer isso, mas ele tem mão de cavalo…

Kyungsoo riu outra vez, parecendo ver alguma coisa de muito engraçado no drama de Sehun. Ora, ele tinha dezessete anos, era seu direito ser dramático… Certo?

— A gente se esbarra pelos corredores. Temos uma boa relação profissional. — Kyungsoo explicou, finalmente enfiando o cateter na veia do adolescente de cabelos loiros. Sehun apertou os olhos. — Tenta relaxar… Isso… Não abra a mão ainda… Enfim, eu só sou realmente próximo de uma pessoa aqui, então não sei dizer muito sobre o Chanyeol. Pode abrir os olhos.

Sehun não entendeu o tom meio tímido de Kyungsoo, tampouco porque o enfermeiro estava mandando que ele abrisse os olhos. A pior parte era quando estava tentando pegar a veia.

Ainda assim, o adolescente fez o que lhe foi mandado, e foi uma uma surpresa gigante ao ver que Kyungsoo não só tinha conseguido pegar sua veia, mas que também já estava ligando a bolsa com o líquido ao seu braço, deixando o ferro ir para suas veias. Piscou, confuso, não acreditando que tinha sido tão rápido.

— É isso? — Perguntou só para ter certeza, ainda descrente, e Kyungsoo só concordou, dando mais um daqueles sorrisos bem desenhadinhos para ele. Sehun se sentia tão privilegiado naquele momento… Não era todo mundo que tinha a chance de ver um sorriso tão gracinha de perto. — Nossa, cara, isso foi rápido. Você tem mãos de fadas.

Kyungsoo sorriu, levando aquilo como elogio, e voltou a recolher os objetos descartáveis, pronto para levá-los até o lixo.

— É só muito tempo de prática. — Garantiu de um jeito humilde e, embora Sehun não acreditasse em modéstia, não parecia que ele estava falando da boca para fora. — Bem, qualquer coisa você pode me gritar. Tenho que ir na Sala de Observação, mas vou ficar passando.

Sehun observou quando Kyungsoo se afastou, sorrindo para o paciente que estava passando soro, sendo gentil e amável como sempre. Bem, eles haviam acabado de se conhecer, mas ele parecia amável e lindo. Ah, se parecia…

Com um sorriso satisfeito, o garoto colocou os fones de ouvido. Parecia que havia, enfim, encontrado a pessoa ideal para cuidar de suas veias. E ele era lindo. Além de se livrar de Chanyeol, ainda poderia ver aqueles olhinhos esbugalhados e cabelos vermelhinhos, e pessoas bonitas era algo que Sehun nunca negaria de apreciar.

Naquela noite, enquanto gota por gota pingava daquele negócio, deixou o volume de sua música bem mais baixo que o de costume, só para prestar atenção em Kyungsoo, que passava por ali de tempos em tempos para perguntar se estava tudo bem.

E, incrivelmente, Hun quase tinha se esquecido de que estava em um hospital.

E era por aquele motivo que Oh Sehun iria conquistar Do-Lindíssimo-Kyungsoo.


 

X


 

— Você não pode conquistar esse tal de Kyungsoo.

Kai falou cheia de certeza, enrolando suas trancinhas nos dedos e olhando para seu melhor amigo como se Sehun fosse louco.

Talvez ele fosse mesmo, mas ouvir uma resposta tão dura de Kai fez com que os ombros do rapaz caíssem e sua animação murchasse. Por que Kai tinha que ser sempre tão racional?

— Mas… Mas… Mas… — Ele ainda tentou argumentar, olhando de Kai para o suporte de soro que ligava a bolsa de ferro a seu braço, querendo achar um bom argumento para retrucar. — Por que não? Ele não é meu médico ou sei lá. Não seria antiético nem nada.

Kai só continuou a olhá-lo como se Sehun estivesse um sério problema. Ou como se precisasse de uma intervenção divina. Como duvidava que Deus fosse aparecer naquele hospital só para colocar um pouco de juízo na cabeça do amigo - ou dar uns tapas nele -, Kai tinha tomado aquilo como um trabalho pessoal.

— Hun, amor, ele deve ter, sei lá, uns vinte e cinco anos. Isso são oito anos a mais que você. Quando você tava nascendo, ele tava brincando com cartinhas e cuspe na escola. Quando você tinha uns cinco anos, ele provavelmente tava dando o primeiro beijo. — Explicou em voz baixa, não querendo que os poucos pacientes que estavam ali a ouvissem. Sehun só olhava para as próprias unhas, parecendo querer ignorar o que a amiga dizia. Ele era ótimo fechando os olhos para a razão, se é que aquilo era motivo de orgulho. — Caras da idade dele não se interessam por adolescentes do colegial. Ou melhor: os caras que se interessam por adolescentes da nossa idade, ou ainda mais novos, são super problemáticos. É uma diferença muito grande de visões e objetivos de vidas.

Sehun mexeu o narizinho pontudo de um lado para o outro, só para arrumar seus cabelos - que tinha passado horas ajeitando na melhor posição na frente do espelho, querendo ficar bonito para chamar a atenção de Kyungsoo - com a mão esquerda. A direita, infelizmente, estava recebendo aquele negócio cor de café que provavelmente não daria super-poderes a ele. A vida era injusta às vezes.

— Minha mãe sempre falou que eu sou mais maduro que as pessoas da minha idade. — O loiro ainda resmungou, não gostando de ser contrariado, e Kai soltou uma risada gostosa, exibindo seus dentes alinhadinhos e brancos. Ela era muito bonita, também, com aquelas trancinhas fofas que batiam até o meio das costas e pele cor de chocolate. Se Kyungsoo era o cara mais bonito da cidade - porque Sehun já tinha atribuído aquele título a ele -, Kai certamente era a garota mais linda.

— Claro, claro. Porque conquistar um cara muito mais velho que você é muito maduro. — Ela girou os olhos, o que fez com que Sehun a empurrasse de leve com a mão livre, fazendo a garota rir.

— Você não pode lutar contra o amor verdadeiro, valeu? Se nossos destinos estiverem mesmo entrelaçados, não vão ser seus argumentos que vão mudar isso. — Sehun falou, mais por birra do que por qualquer outra coisa. Ele estava refletindo sobre os pontos da melhor amiga, mas nunca a deixaria saber daquilo. A graça da vida era contrariá-la, mesmo que Kai fosse de fato muito observadora e inteligente. — Eu te trouxe aqui pra ver ele, então apenas observe a gostosura em silêncio e deixa o resto acontecer.

— Se você diz… — Kai deixou a frase no ar, como quem não queria nada, mas o olhar interrogativo de Hun foi o bastante para fazê-la sorrir com divertimento.

— O que você quer dizer? — Sehun perguntou, não conseguindo se conter.

Kai passou as mãos pela saia xadrez, parecendo se conter muito para não se empolgar demais e gritar as informações que tinha juntado durante aquela hora que estavam ali. A medicação de Sehun já estava quase acabando, o que queria dizer que o tal Kyungsoo logo apareceria para tirar aquele cateter do braço dele, mas, ah, tinha sido uma noite muito produtiva.

— Eu tenho uma boa e uma má notícia, mas me promete que você não vai surtar. — Kai pediu, olhando para Sehun de uma jeito sério, que fez o garoto arquear ambas as sobrancelhas em confusão. Aquele nunca era um bom pedido.

— Ok… — Concordou por fim, mesmo que não estivesse muito certo daquilo. — Desembucha logo.

— Você quer a boa ou a má notícia?

— A boa, é claro. Que pergunta idiota.

— Seu príncipe encantado é gay! — Ela exclamou baixinho, se segurando muito para não gritar e expor o pobre enfermeiro. Fez um coraçãozinho com as mãos, feliz por ver a heterossexualidade passar longe da vida das pessoas. — Gay, muito gay, super gay. Gayzíssimo.

COMO ASSIM? — Sehun, ao contrário da amiga, não estava se importando muito em ser discreto. Antes que Kai pudesse se pronunciar, voltou a perguntar um pouco alto demais: — Você tá inventando? Isso é maravilhoso, Kai. Maravilhoso!

Não, ela não estava inventando aquela história. Nunca falaria uma coisa daquelas só para deixar Sehun feliz, por mais que vê-lo todo saltitante fosse algo muito bonitinho.

— Eu juro pelos meus pais que não tô inventando. — Kai falou de modo sério, sem desviar os olhos dos de Sehun, que ainda sorria de um jeito grande. — Mas fala baixo, caralho. Você tá quebrando a sua promessa. Cê quer que alguém ouça e despeça o pobre coitado?

— N-não… — Sehun negou de prontidão, começando a falar baixo, quase aos sussurros. Em um mundo onde todos os caras interessantes eram héteros, até mesmo a maior parte dos seus maridos 2D, Sehun não queria expôr o único que tinha chance de jogar no seu time. Kyungsoo era gentil, fazia um bom trabalho e não parecia estar perfurando o seu braço com uma furadeira. Do Kyungsoo era uma alma abençoada e perder o emprego por causa de pacientes especulando sua orientação sexual era algo inadmissível. — Mas… De onde você tirou isso? Ele te disse? — Sehun então arregalou os olhos, como se tivesse pensado em algo muito ruim. — Oh meu Deus, ele tava pegando alguém em um depósito ou algo do tipo?

— Ahn? Não! — Kai riu, olhando para Sehun como se ele fosse tonto. — Bem, é aí que entra a má notícia.

Sehun franziu o cenho, tendo a impressão de que não ia gostar nem um pouco do que estava por vir. Ele olhou para Kai, que ainda sustentava aquele sorrisinho implicante. Pensou em só ignorá-la, mas, merda, estava curioso.

— Eu vou me arrepender disso, mas continue. — Pediu de modo sério, e foi o bastante para fazer Kai sorrir ainda mais.

— Sabe a hora que eu fui te pegar um café? Eu vi o seu amorzinho olhando todo apaixonado pra um loiro alto e gostoso. E eles pareciam bem próximos, se você quer saber a minha opinião. — Kai contou com ar perspicaz, mal conseguindo se conter, como se entendesse muito do assunto, o que só fez com que Sehun ficasse boquiaberto, fazendo com seu queixinho pontudo parecesse ainda maior.

— Você tá blefando. — Hun falou depois de alguns segundos de reflexão, tentando se apegar às próprias palavras. Kyungsoo não tinha cara de que flertava pelos corredores com loiros altos gostosos. — Você quer tanto assim destruir o meu amor proibido pra inventar essas coisas?

— Eu não tô inventando. Juro. — Kai olhou para Sehun de um jeito sincero. — Eles não estavam se agarrando ou sei lá… Nem deixando muito na cara… Mas sabe quando uma pessoa olha pra outra com aquela expressão de “Caralho, como você é incrível, vamos fazer bebês”? Era a cara dos dois.

— Talvez… Talvez você esteja enganada. — Sehun tentou argumentar, ainda descrente com aquilo tudo. — Quer dizer, eles podem ser só amigos…

— Hun… — Kai a cortou com um sorrisinho, tocando o braço do melhor amigo de leve. — Acredite, eu já tinha percebido que esse Kyungsoo é gay no momento em que a gente chegou. Eu não sei como você ainda estava dando a ele o benefício da dúvida.

O rapaz girou os olhos, voltando toda a sua atenção para sua calça jeans surrada. Estava preocupado com aquela notícia. E se Kyungsoo estivesse mesmo afim de outra pessoa? E se ele namorasse essa pessoa? Seria uma catástrofe.

— Eu não saio por aí deduzindo a orientação sexual das pessoas pela forma como elas se vestem ou agem. — Sehun bufou, ainda pensativo com o que Kai havia dito. — Isso é babaquice.

— Ué, por quê? — A garota quis saber. — Às vezes você só olha pra pessoa e sabe. É tipo um instinto de alma.

— Você sabe que eu não acredito nessa coisa de gaydar. É meio absurdo pensar que exista um radar que te avisa quando você tá perto de iguais. — Sehun opinou, mais por birra do que por qualquer outra coisa. Ele não queria acreditar que Kai tinha razão e Kyungsoo, sempre tão bonitinho, almejava os sentimentos de outra pessoa. — Além do mais, você é héteros. Se gaydar existisse mesmo, só gay poderia ter. — Sehun finalizou, girando os olhinhos.

Kai não pareceu se abalar com aquilo, já que só girou os olhos.

— É aqui que você se engana. — Ela murmurou, subitamente parecendo meio acanhada. — Eu tenho tanto gaydar quanto você.

Sehun, que já tinha aberto a boca para fazer algum comentário sobre o assunto, fechou os lábios e se sobressaltou quando o peso daquela frase finalmente caiu sobre ele. Olhou bem para o rosto da melhor amiga, vendo-a tímida de um jeito que quase nunca acontecia, e então Hun se deu conta de que não tinha entendido errado.

— Você é…? — Deixou a frase no ar, ainda com dificuldade de assimilar. Era óbvio que eu ele não tinha nenhum problema quanto aquilo - como poderia, sendo que nem ele mesmo não era hétero? -, só nunca tinha pensado que Kai era… Uau.

— É… — A garota com trancinhas respondeu, ainda evitando olhar para o amigo. — Eu queria te contar tem um tempo. Tudo bem pra você?

Sehun percebeu que ela mordia o lábio de um jeito repetitivo e frenético, como se estivesse descontando o nervosismo na boca carnudinha. Hun deduziu que aquilo devia ser um assunto tenso para ela, muito mais tenso do que ela estava deixando transparecer, por isso deixou que sua mão escorregasse até a de Kai, apertando os dedos magrelinhos com força.

— Claro que tudo bem. Eu não entendo porque você não me contou antes. Sei lá, você sempre soube de mim. Mas tudo bem. — Respondeu por fim. Podia jurar que Kai tinha soltado um suspiro de alívio. Sabia que eles tocariam no momento depois, quando saíssem daquele hospital e não estivessem rodeados por pessoas passando mal, então naquele momento demonstrar apoio era o bastante. — Eu devia ter desconfiado… Quer dizer, suas unhas tão sempre curtas demais…

Kai quase gargalhou com aquilo, se contendo a tempo, mas não conseguiu diminuir o sorriso depois de ouvir aquilo. Respirar sem medo era uma das melhores sensações do mundo.

— Você é um idiota… — Afirmou, arrancando um “Uhum!” alegre de Sehun.

— Posso até ser idiota, mas aposto que você ainda tá errada. — O outro retomou o assunto, começando a fazer carinho em círculos nas costas da mão da amiga. — Do Kyungsoo não gosta de ninguém. Eu ainda vou ser o senhor Do, você vai ver.

Não devia existir nenhum loiro alto e gostoso. Kai estava mentindo, não estava? Não podia ser.


 

X


 

Existia um loiro alto e gostoso.

Sehun o viu na semana seguinte, a quinta delas, e quase agradeceu aos céu por Kai não estar lá também, já que a amiga o olharia com aquela expressão detestável de “Eu te avisei, viu? Lide com isso”.

Sehun já estava tendo dificuldades demais em lidar com a própria dor, então sofrer em silêncio era preferível do que sofrer com sua melhor amiga lhe dando lição de moral.

A dor era tanto metafórica quanto literal, por sinal, o que também foi culpa do loiro gostoso.

Sehun estava lá sentado, todo bonitinho, enquanto observava Kyungsoo andar de um lado para o outro, cuidando do mesmo procedimento de toda semana. Era uma rotina - eles podiam criar rotinas quando se apaixonassem, não podiam? Uma que não envolvesse hospitais, de preferência.

Uma pena que Kyungsoo mal olhava para Sehun. Ele era só mais uma paciente no meio de tantos outros. Lamentável.

Mas não ser notado não impedia Sehun de ficar lá, observando Kyungsoo. Ele era lindo até respirando, colocando as luvas, procurando por cateteres… Era nojento ter fetiche com aquela coisa de hospital, por isso o adolescente sempre imaginava que eles estavam em uma ilha bem bonita. No lugar do uniforme branco, Kyungsoo sempre usava aqueles colares havaianos e camisas coloridas, que davam ainda mais vida aos seus sorrisos.

Talvez algum dia eles pudessem visitar o Havaí. Ou mesmo se casar lá. Mas eram só planos distantes, claro, nada muito concreto...

Kyungsoo se aproximou dele com aquela bandeja e seus objetos de tortura. Seus lábios não mais exigindo o sorriso de coração, já que ele ficava sério quando estava trabalhando, assim como o cenho  ficava franzido. Os cabelos continuavam tão vermelhos quanto de costume, também, o que era muito bonito de se ver. Será que  eles eram tão macios quanto pareciam?

— Vou amarrar o elástico pra tentar pegar sua veia, ok? — Kyungsoo explicou daquele jeito prático e profissional, mesmo que Sehun já estivesse habituado ao procedimento, não fazendo a mínima ideia do que se passava na cabeça do garoto. Ele só concordou, engolindo em seco. Mesmo sabendo que não doeria - Kyungsoo realmente tinha mãos de fadas -, ainda era agoniante ver uma agulha rompendo sua pele.

— Sem problemas. — Sehun concordou com um sorriso pequenino, observando o formato das sobrancelhas do seu crush. Kyungsoo finalmente abriu aquele sorriso bonito, começando com o seu trabalho depois do consentimento. Sehun havia esperado por aquele sorriso a noite toda… Mesmo que só estivesse ali há dez minutos. Já devia contar como uma eternidade.

E foi então que a desgraça começou.

Aconteceu tudo muito de repente - em um momento, Kyungsoo estava conversando com Sehun, perguntando coisas aleatórias, só para distraí-lo e fazer com que ele não ficasse todo nervoso na hora de pegar uma veia. Hun sempre tinha ouvido que nervosismo fazia as veias sumirem, então talvez fosse verdade mesmo.

Mas então, enquanto eles conversavam baixinho para não atrapalhar os outros pacientes - sério, como podia ter sempre alguém passando soro? -, uma voz grossa e cantarolada soou da porta da Sala de Medicação, chamando a atenção dos presentes:

— Hey, Kyung.

A decepção começou a se alastrar por Sehun naquele momento, quando Kyungsoo, que normalmente tinha mãos de anjo, apertou seu braço com um pouco mais de força e fez o cateter se mexer embaixo da pele, perdendo a veia e fazendo com que ele soltasse um “Ai!”, tanto pela dor - que era pequena, mas desconfortável ainda assim - quanto pela surpresa.

— Me desculpa, Sehun. — Kyungsoo pediu com a maior expressão de culpado do mundo, tirando o cateter com cuidado e limpando o local com algodão e álcool, já que estava sangrando um pouquinho. — Foi desatenção minha. Me perdoa.

— Tá tudo bem, não se preocupe. — Ele garantiu, ainda que não estivesse entendendo nada. Kyungsoo tinha se desconcentrado só porque alguém chamara o seu nome? Mas aquilo já tinha acontecido outras vezes antes, se Sehun bem lembrava. — Essas coisas acontecem.

Não pareciam acontecer com Kyungsoo, que era sempre sério e adorável, mas Hun achou melhor não falar nada. Ele tinha descido um pouquinho no seu conceito - de nota 10 para 9.9 -, mas nada que se equiparasse a Chanyeol, então tudo bem.

— Eu… Eu vou pegar um novo material, daí encontro uma nova veia e a gente começa, tudo bem? — O enfermeiro perguntou de forma atrapalhada, meio gaguejando, o que só deixou Sehun ainda mais confuso.

— Ok…

Kyungsoo sorriu de um jeito nervoso para ele antes de se levantar, e só então Sehun desviou a atenção dele para a pessoa que estava na porta, o responsável por atrapalhá-los e deixar o enfermeiro tão desconcertado. E o que encontrou um cara alto e loiro, vestido com o mesmo uniforme de Kyungsoo e usando… Um nariz de palhaço?

Sim, aquele era definitivamente um nariz de palhaço. E sapatos gigantes, também, coloridos e extravagantes.

Sehun tentou dividir a sua atenção entre os dois homens. De um lado, Kyungsoo tentava se livrar das luvas descartáveis de um jeito atrapalhado e jogá-las no lixo; do outro, o rapaz loiro com um sorrisinho feliz no rosto, mãos enfiadas no jaleco enquanto esperava Kyungsoo se desenrolar. Não parecia estar sendo um processo fácil, mas o enfermeiro loiro não parecia com pressa.

Depois de deixar a bandeja no local indicado, Kyungsoo finalmente caminhou até a porta - sendo acompanhado pelos olhos atentos de Sehun -, sorrindo de um jeito tímido e bonitinho para o loiro. Sehun não entendia porque ele estava agindo daquele jeito, o que só o deixou mais curioso, apurando os ouvidos para não prender aquela conversa.

— Oi, Yifan. — Sehun ouviu Kyungsoo cumprimentar de um jeito quase hiperativo, como se ele estivesse tentando conter a felicidade, o que fez com que ela arqueasse as sobrancelhas. Como não queria ser chamado de intrometido ou stalker, ou mesmo fazer com que eles se afastassem para ter privacidade, o adolescente desbloqueou o celular e começou a deslizar o dedo pela tela, fingindo estar entretido. — Você estava na ala infantil?

Hmmmm. Aquilo explicava o nariz vermelho e os sapatos bizarros.

Yifan riu baixinho, parecendo feliz pela pergunta, e Sehun acompanhou pelo canto dos olhos quando ele se balançou naqueles sapatões.

— Sim! Eu fiquei lá até tarde porque, sabe como é, né… — Ele deixou a frase no ar, como se Kyungsoo soubesse muito bem do que estava falando.

Sehun não sabia o que aquilo significava, por isso se sentiu meio perdido.

— Eles pediram pra você ficar brincando de super-herói de novo? — Kyungsooo perguntou todo risonho, falando de um jeito que Sehun não o via falar com as outras pessoas. Talvez eles fossem amigos?

Enquanto Kyungsoo falava com as pessoas - tanto pacientes quanto outros funcionários - com educação e formalidade, com aquele Yifan-Palhaço ele parecia bem diferente. Quase como se sentisse confortável, mas ao mesmo tempo ficasse todo atrapalhado quando tentava conversar com ele. Sehun não sabia se era sempre daquela forma ou se era uma única vez, já que ele podia só ter sido pego de surpresa pela visita, então apenas ficava trabalhando em cima de suposições.

As suposições acabaram em um só lugar: no que Kai tinha dito, sobre Kyungsoo estar apaixonado, mesmo que tudo parecesse absurdo. O problema era que, ouvindo aqueles dois conversarem, não parecia tão absurdo assim.

— E hoje eu tive que ler histórias em quadrinho também, além da coisa de super-herói. — O loiro contou, parecendo acanhado, o que fez com que Kyungsoo risse em um tom baixo. Ainda que tivesse se atrapalhado todo segundos antes, ele parecia não ter se esquecido que estava em um ambiente sério, embora estivesse muito sorridente.

— Você sabe que seu superior vai te dar uma bronca, né? — A pergunta era retórica, mas aquilo não evitou os dois enfermeiros de rirem juntos.

— O que eu posso fazer se eles são tão fofos? — O ser chamado Yifan comentou com um suspiro, o que só fez Kyungsoo rir ainda mais.

Parecia que Kyungsoo tinha guardado todas as risadinhas para compartilhar com Yifan. Jesus.

— Foi ele que me mandou pra ala infantil uma vez por semana, né? Eu só estou cumprindo com a ordem e ficando lá.  — O loiro deu de ombros.

— Sim, ficando tanto que passa o expediente todo brincando de super-herói. — Kyungsoo brincou, enfiando as mãos no jaleco da mesma forma que Yifan fazia.

— Eu já te disse que você é chato? Porque você é. — Yifan falou de forma meio emburrada, se perguntassem a opinião de Sehun, o que não combinava nada com todo aquele tamanho dele.

— Se eu fosse chato você não estaria aqui agora. — Kyungsoo falou com um falso ar superior, que foi quebrado por seus risinhos no final.

Sehun não sabia se funcionários podiam ficar daquele jeito, conversando no meio da Sala de Medicação, mas eles pareciam tão entretidos que nem dava para reclamar. Eles pareciam tão absortos e… Felizinhos.

— Eu não deveria estar aqui mesmo. — O rapaz com nariz de palhaço comentou. Sehun não sabia como Kyungsoo podia levar uma pessoa com um nariz daqueles à sério, mas ele não parecia estar achando graça naquilo. Na verdade, Kyungsoo parecia estar achando aquilo bem fofo. Ora, e como Sehun poderia competir com aquilo? Não dava. Ele era só um adolescente e aquele loiro bonito animava criancinhas na ala infantil. Era apelação demais. — Eu… Eu só queria saber se você já fez seu intervalo, porque daí a gente pode comer juntos.

O tom daquele cara loiro, Yifan, parecia bem hesitante, como se ele estivesse com muita vergonha de perguntar aquilo. Sehun não sabia porque alguém de quase dois metros teria vergonha de chamar um baixinho com cara de bebê para passarem um tempos juntos, mas então ele se deu conta: Kai tinha razão. Ela provavelmente tinha razão, porque eles eram todos risinhos e vergonha um com o outro.

Seu crush tinha um crush.

— Eu… Eu ia gostar muito, mas eu meio que já fiz a minha pausa. — Kyungsoo respondeu, parecendo relutante e meio infeliz com aquilo. Sehun viu quando o sorriso do rapaz loiro morreu, só para voltar a crescer aos pouquinhos quando Kyungsoo continuou: — Mas talvez eu possa fazer uma pausa de uns quinze minutinhos pra tomar um café.

— Um café é bom. — O de nariz de palhaço falou, a animação voltando a estar presente na sua vida. — Eu gosto de tomar cafés com você.

Aquela frase, de tão sincera que tinha soado, ficou ecoando pela cabeça de Sehun. E pareceu deixar Kyungsoo encabulado também, já que ele ainda parecia todo sem jeito quando murmurou para Yifan esperar, já que ele tinha que aplicar a medicação nele e então eles poderiam tomar um café.

E Yifan esperou tão pacientemente quanto antes, seguindo Kyungsoo de um lado para o outro com os olhos, o que só pareceu deixar o baixinho ainda mais atrapalhado. Sehun percebeu que as mãos dele estavam trêmulas enquanto apalpava seu braço, mais uma vez procurando por uma veia.

Os olhinhos e sorrisos de Yifan para Kyungsoo eram diferentes do de Sehun. Ele só o achava muito lindo, mas o cara da ala infantil olhava para Kyungsoo com quase devoção, como se visse mágica em tudo o que ele fazia, mesmo que fosse só enfiar uma agulha no braço de um adolescente franzino de dezessete anos.

Não dava para competir contra o amor. E talvez eles se amassem mesmo, mas Sehun duvidava que eles tivessem alguma coisa. Era tudo tão “Nossa, você parece inalcançável para mim”.

Quando eles saíram da Sala de Medicação, mãos nos jalecos e sorrisos nos lábios, Sehun se perguntou qual era a história daqueles dois. Há quanto tempo se conheciam, como aquilo tinha nascido, se algum deles já havia se dado conta. Melhor ainda - se mais alguém já havia se dado conta, já que eles podiam passar facilmente despercebidos como dois amigos conversando. Eles não invadiam o espaço pessoal um ou do outro e nem se tocavam, mas os sorrisos não mentiam. Os olhos também não.

Ou talvez Sehun só conseguisse ver claramente porque Kai havia apontado os sinais, caso contrário ele só teria rido do desastre de Kyungsoo e deixado para lá.

Maldita Kai, que havia acabado com a chance do seu amor maior acontecer.


 

X


 

— Você não gosta mesmo dele, né? — Kai perguntou enquanto encarava aquelas paredes brancas e claustrofóbicas. Não parava de se remexer na cadeira, o que só parecia estar deixando Sehun com o mesmo sentimento incômodo. Não conseguia achar uma posição confortável para se sentar, mas andar pelo prédio também não parecia nada atrativo. Por que hospitais sempre tinham que ser daquele jeito?

— Não… Quer dizer, eu não tô apaixonado por ele. Só acho ele muito lindo. — Sehun sorriu porque era verdade. Não podia fazer nada, a culpa devia ser dos pais de Kyungsoo. — Acho que você tem razão e tal. Mundos muito diferentes. Não é como se eu tivesse mesmo esperando que a gente fosse mesmo se casar no Havaí.

— Embora a ideia tenha passado pela sua cabeça. — Kai afirmou, nem precisando fazer daquilo uma pergunta, e Sehun confirmou. Eles riram. — Mas viu só… Você acabou de dizer que eu tenho razão. Isso é um grande progresso.

Sehun só girou os olhos, não dando atenção para a melhor amiga. Estava mais preocupado em refletir sobre aquilo tudo. Eles pareciam tão perdidos, coitadinhos… Ao longo da semana, a adolescente tinha decidido abrir a mão do possível amor da sua vida, já que ele estava apaixonado por outro, e decidido até tentar ajudar. Se é que mandar boas energias e ficar desejando que eles conseguissem se encontrar nos intervalos do trabalho contava como ajudar.

Não havia muito o que uma desconhecida de dezessete anos podia fazer para ajudar de modo efetivo.

— Kai? — Sehun chamou, pensando justamente naquele assunto.

— Sim? — A garota perguntou, sorrindo daquele jeitinho bonitinho, parecendo de encarar as paredes como se elas fossem começar a se mover como as escadas de Hogwarts.

— Você acha que a gente… Sei lá, deve fazer alguma coisa? — Perguntou, pensativo. — Tipo intervir. Fazer com que eles enxerguem que se gostem.

— Não acho que isso seja legal. — Kai opinou, franzindo as sobrancelhas. — Isso tem que partir deles, né? A gente não tem nada a ver com a história. Além do mais, não leve o que eu falei como uma verdade absoluta. Pode nem ser tão verdade assim. Pessoas se enganam.

Sehun sabia que Kai não acreditava que estava errada, mas ainda assim estava tentando conter seus impulsos arianos para que ele não fizesse alguma besteira. Não que Sehun fosse impulsivo, claro que não.

Mas a certeza de que Kyungsoo e Yifan estavam mesmo trocando olharzinhos chegou mais tarde naquele dia, quando Sehun já estava passando a bolsa de ferro da semana e Kyungsoo estava em um canto da Sala de Medicação, enchendo uma seringa com benzetacil. Era um pó branco e bizarro - que o adolescente bem sabia doer horrores -, por isso já estava com dó do garotinho de uns cinco anos que iria recebê-la. Estar doente devia ser uma merda.

Kyungsoo estava sendo todo amorzinho com a criança, prometendo que daria um pirulito para o garoto depois que o procedimento acabasse, e era tanta atenção que o garoto nem parecia estar tão preocupado. Aquilo devia ser um tipo de dom.

Foi então que Kyungsoo, distraído quando o seu celular começou a vibrar no bolso, se sobressaltou e espetou o dedo na agulha, fazendo com que ela perfurasse a luva de látex que usava.

Sehun arregalou os olho os olhos, preocupado, e até fez menção de se levantar - assim como Kai e mãe do garotinho também.

— Mer…! — Ele começou a praguejar, só então se dando conta de que estava em um ambiente profissional. Kyungsoo deu um sorriso amarelo, se encolhendo de forma tímida. Ao lado de Sehun, Kai riu baixinho, o que chamou a atenção de Kyungsoo. Ele sorriu pequenininho para ela, parecendo se desculpar, e Kai só abriu seu maior sorriso para ele. Kyungsoo se voltou para a mãe e a criança, ao mesmo tempo em que descartava as luvas, a injeção e o medicamento na mesma hora. — Desculpa por isso, eu não devia ter deixado meu celular alto. Nunca acontece, por isso o susto. — Encolheu os ombros, ainda segurando o dedo.

— Você está bem? — A mãe perguntou, preocupada, segurando o filho para mais perto do corpo. — Isso não vai te fazer mal… Ou vai?

A mulher parecia estar preocupada, como se Kyungsoo estivesse infectado ou com alguma coisa muito grave. Mas ele só riu, tentando aliviar a tensão que tinha se espalhado pelo cômodo.

— Não se preocupe. — Ele falou de modo gentil, se dirigindo até a pia que ficava no final da sala e lavando as mãos com sabonete líquido, antes de secá-las. — Nós temos que jogar tudo fora quando isso acontece porque já não está mais esterilizado, além de tomar as medidas necessárias, mas não foi nada grave nesse caso. Eu tinha acabado de pegar uma seringa nova. Além do mais, só furou a minha luva, nem tocou a minha pele. É só benzetacil.

Isso pareceu tranquilizar todos os pacientes. Kyungsoo deu um último sorriso bonitinho, tentando amenizar a tensão que pairava entre eles.

Foi quando Yifan entrou, com seus cabelos loiros penteados para trás, um sorrisinho no canto dos lábios e uma expressão tranquila, que foi substituída quando ele percebeu o silêncio que pairava no local.

— O que aconteceu? — O loiro perguntou diretamente para Kyungsoo, que só dispensou a preocupação dele com um aceno de mão.

— Nada demais. — Garantiu. — Eu só furei minha luva com uma agulha e…

Kyungsoo não conseguiu falar mais nada.

Em segundos, Yifan tinha atravessado o cômodo em passos largos e parado ao lado dele, pegando a mão de Kyungsoo entre as suas e as verificando sem cerimônia alguma, virando os dedos de um lado para o outro. Kyungsoo parecia meio sem reação, só deixando que o outro o examinasse enquanto despejava mil perguntas:

— Meu Deus, Kyung! Você tá bem? Você provavelmente foi infectado! — O rapaz mais alto começou a falar, desesperado, parecendo prestes a desmaiar de nervoso: — Nós temos que te levar pra uma bateria de exames. Agora. Me conta tudo, nós temos saber com o que você foi contaminado e…

— Yifan. — Kyungsoo chamou, finalmente se esquivando as mãos dele, parecendo perdido com tudo aquilo. Ele riu, mesmo que o outro rapaz estivesse sério como o inferno. — Tá tudo bem. Eu estou bem, ok? Juro.

— Você só tá falando isso porque é o período de incubação! PERÍODO DE INCUBAÇÃO, KYUNG, VOCÊ SABE COMO FUNCIONA!

Sehun não conseguiu se conter e começou a rir baixinho, levando um beliscão leve de Kai. Ele reclamou, olhando feio para a melhor amiga, mas tentou conter a risada daquela vez.

Kyungsoo só continuou sorrindo para Yifan, tentando acalmá-lo, e tocou o braço dele de leve, fazendo com que Yifan parece de despejar frases do que deveria ser feito em cima do enfermeiro de cabelos vermelhos.

— Ei… Tá tudo bem. — Kyungsoo voltou a garantir, acariciando o braço do outro enfermeiro uma última vez antes de afastar a mão, parecendo se dar conta do que estava fazendo. — Era uma agulha nova. Eu nunca acabado de abrir. Eu não fui infectado. Já aconteceu com você uma vez, lembra?

Sehun, assim como todos os pacientes, acompanhavam a interação dos dois profissionais da saúde em silêncio, tentando entender. O adolescente sorriu, achando aquela preocupação bem fofa, para dizer o mínimo.

Não havia mais dúvidas de que eles se gostavam, pelo menos para ele. Que tipo de pessoa surtava tanto só por ver o colega de trabalho em uma aparente situação de risco, mas se desesperando antes mesmo de saber o que tinha acontecido? Eles eram enfermeiros. O dever deles era se manter calmos e imparciais, acalmando pessoas e orientando, não agindo com tantos sentimentos. E isso porque era algo pessoal, com sentimentos envolvidos.

Hun começou a torcer de verdade para que eles ficassem juntos. O mais rápido possível. Era tão lindinho. Devia ser difícil um amor nascer em um lugar rodeado por mortes.

Yifan era um homem muito bonito. Ele devia ter a idade de Kyungsoo, com a diferença de que ele era muito alto e com traços mais marcados. Era a segunda vez que Sehun o via e o cabelo dele continuava impecável, e, a julgar pelo trabalho que ele tinha ali dentro, a garota deduziu que ele só tinha cara de marrento mesmo, já que se derretia em sorrisos no momento em que Kyungsoo o notava naquela sala.

— É… Eu lembro que já aconteceu comigo. Foi no meu começo aqui. Eu fiquei desesperado e… — Yifan deixou a frase no ar, parecendo sem jeito, enfiando as mãos no jaleco. Ele parecia fazer muito aquilo, também.

—...E eu te levei na sala do Joonmyeon, porque você tava com medo de ser despedido por ter feito algo errado. — Kyungsoo riu, arrancando um sorriso de Yifan também, e Sehun prendeu o ar inconscientemente ao vê-los se olhando daquele jeito, por longos segundos, antes de desviarem os olhos. Deus… Eles eram tão adoráveis que dava vontade de vomitar açúcar.

— Aquilo foi bem vergonhoso pra mim. — Yifan resmungou, olhando para o chão por um momento. Kyungsoo só largou o sorriso. O rapaz loiro logo voltou a falar: — Você tá mesmo bem? Tem certeza?

— Tenho sim. A não ser que você queira me levar pra sala do diretor e receber uma advertência por incomodá-lo quando nada aconteceu. — O de cabelos vermelhos gracejou, o que fez com que Yifan desse um sorriso mais leve e despreocupado. — Desculpa te preocupar.

— Não tem problema. Você me paga um café e ficou tudo bem. — Yifan propôs como quem não queria nada, o que Sehun soltar um “Awwwwn” silencioso, olhando para Kai com mais empolgação do que queria mostrar. A melhor amiga sorriu de volta para ele, provavelmente pensando a mesma coisa. — Desculpa aparecer sem avisar, aliás.

— Não tem problema. — Kyungsoo encolheu os ombros, sorrindo de um jeito lindo. — Você precisa de alguma coisa daqui?

Yifan abriu a boca para falar, mas pareceu finalmente se dar conta de que eram atentamente observados, então ele só olhou para os pacientes antes de voltar para Kyungsoo, parecendo ficar tenso ao perceber que eram alvo da atenção de todos - até mesmo da criança, que parecia estar se perguntando como um adulto podia ser tão alto.

— Eu… Ahn… Vou te esperar aqui no canto, daí a gente conversa, pode ser? — Yifan propôs, já se afastando, e Kyungsoo só assentiu, piscando um dos olhos para ele.

Sehun achou que ia precisar ser colocado na inalação logo que saísse dali, porque toda aquela interação estava lhe tirando o ar.

Demorou uns bons dez minutos até que tudo voltasse ao normal na Sala de Medicação, depois de Kyungsoo finalmente aplicar a injeção na pobre criança, que saiu de lá chorando com a mãe - mas pelo menos havia mesmo ganhado um pirulito, como o enfermeiro prometera.

Kyungsoo, depois de limpar tudo à sua volta e conferir que tudo estava funcionando perfeitamente com os pacientes, andou até Yifan, o que obviamente foi observado por Hun, que apurou os ouvidos e ainda cutucou Kai, entretida com o celular, para prestar atenção também.

Melhores amigas serviam para aquilo.

— Tem certeza que está tudo bem? —Yifan voltou a perguntar, mesmo que já soubesse a resposta, mas aquilo não o impedia de observar o rosto de Kyungsoo atrás de qualquer expressão de dor ou sinal que ele estava desmaiando febril.

— Claro que eu estou bem. — Kyungsoo garantiu, olhando para Yifan como se ele fosse a pessoa mais dramática do mundo. Ele claramente não conhecia Sehun, que era mestre naquela arte. — Só uma dorzinha nas costas, mas…

— Isso pode ser sinal da doença se alastrado em você. — Yifan opinou em um tom sério demais. Era engraçado como ele tinha uma daquelas posturas de pessoas sérias e distantes, que só são admiradas ao longe, mas isso caía por terra quando ele falava com todo cuidado na voz.

Kyungsoo riu, balançando a cabeça negativamente.

— A dor nas costas é por causa do mal jeito que eu dormi ontem, seu bobo. Não tem nada a ver com uma agulha esterilizada que nem tocou minha pele. — Kyungsoo enfatizou a palavra, ainda divertido, fazendo com que Yifan soltasse um “Hmmmm” descrente.

Sehun quis bater na cara daquele enfermeiro loiro. Kyungsoo havia acabado de dizer que dormiu de mal jeito e aquela era a reação dele? Um simples som de concordância? Ele devia soltar um “Eu tenho uma cama lá em casa… Se você quiser”. Por que eles tinham que complicar tanto?

Ok, talvez fosse um pouquinho mais complicado do que aquilo, já que eles eram adultos e trabalhavam juntos. Sehun esperava nunca chegar àquele ponto e não puder usar seu impulso.

— Acho que você precisa comprar um colchão novo, então. — Yifan falou com cara de idiota, o que obviamente não era o que ele queria ter falado, e Sehun enfiou o rosto nas mãos, descrente que ele tinha mesmo falado aquilo.

Por que eles tinham que ser tão lerdos?

— Eu não acredito no que eu tô vendo. — Sehun sussurrou para Kai, balançando a cabeça com pesar, e a garota negra só concordou em silêncio.

— Eles são muito burros, puta merda. — Ela sussurrou de volta, só para os dois rapidamente voltarem a atenção para aqueles dois idiotas.

Yifan parecia uma adolescente de catorze anos com dois metros de altura, porque ele faltava só mexer o pézinho de um lado para o outro e piscar os olhos, esperando por um beijo que nunca vinha. E isso porque Kyungsoo era o adolescente tímido e atrapalhado que levava a menina no cinema, mas não sabia como terminar a noite.

Eles eram piores que os meninos da sala de Sehun. Ainda bem que ele já não estava mais afim de Kyungsoo.

— É… Acho que eu vou comprar mesmo… — Kyungsoo deixou a frase no ar, parecendo sem graça. Sehun guinchou, sussurrando um “Ele queria uma massagem!” para Kai, que só concordou eufórica. Os dois deram as mãos - do jeito que aqueles dois deviam estar fazendo, aliás -, não conseguindo mais lidar com os próprios sentimentos. — Enfim… Você precisava me falar alguma coisa?

— Eu não acredito que ele tá puxando um assunto profissional. — Kai resmungou, girando os olhos. — Posso bater neles?

— Eu seguro e você soca. — Sehun propôs, ao que a melhor amiga concordou. — Mas depois a gente tem que revezar.

— Ah… Sim. — Yifan respondeu, recobrando a compostura. Se é que ele tinha uma. — Eu queria saber se, sei lá, você pode ir até a ala infantil comigo amanhã. — Ele propôs como quem não quer nada. Sehun podia jurar que ele estava ficando um pouquinho vermelho. — Eu sei que você precisa ficar no Pronto Socorro, mas eu… Eu meio que prometi… Levar meu amigo pras crianças conhecerem.

Kyungsoo se empertigou todo, parecendo ser pego de surpresa, mas o sorriso que tomou conta dos lábios dele quando a surpresa passou foi tão felizinho que Sehun quase suspirou.

— Você falou de mim pras crianças? — Ele quis saber, parecendo meio encantado, e Yifan mordeu o lábio inferior, parecendo ficar sem jeito. Ele não parecia um cara que ficava sem jeito fácil, então Sehun deduziu que era só o poder do amor falando mais alto.

— É… — Ele deixou a frase no ar, como se estivesse nervoso demais para completá-la. Mas logo o fez, de qualquer forma: — Eu falei sobre meu amigo dos cabelos vermelhos que sabe tudo sobre X-Men. E que é engraçado também.

Kyungsoo riu alta e genuinamente, como se não esperasse por aquela visão que Yifan tinha dele. O adolescente que os observava sorriu, só por acompanhar aquela reação. Era estranho como pessoas se espantavam com a imagem que pessoas de fora tinham delas, já que nunca era como a pessoa se via. Humanos tinham a tendência de se diminuir.

Sehun se pegou pensando, por alguns segundos, como Kyungsoo e Yifan deviam ser longe daquele hospital, sem o uniforme e só agindo como realmente eram. A única coisa que ele sabia era que Kyungsoo, aparentemente, se segurava para não falar palavrões no trabalho e gostava de HQ’s. Isso o fez rir baixinho, já que destoava muito da carinha de bom moço que ele tinha.

— Eu não sei tudo sobre X-Men… — Kyungsoo dispensou o elogio, parecendo sem jeito. — Eu sei muito mais sobre os quadrinhos da DC. — Ele completou de um jeito divertido, que pareceu deixar Yifan mesmo tenso quando ele riu.

— Isso serve também. Eu tenho certeza que eles vão te adorar. — Yifan falou cheio de certeza, observando Kyungsoo tão fixamente que parecia prestes a perfurar a pele dele. Sehun engoliu em seco. Se a alguém o olhasse daquela forma, ele casava. — Então… Você vem comigo? — O loiro voltou a perguntar, meio hesitante.

— Claro! — Kyungsoo respondeu de prontidão. — Eu peço pro Chanyeol me cobrir por uma horinha. Ele tá me devendo uma.

Sehun fez uma careta ao se lembrar de Chanyeol, o enfermeiro com mãos de tesoura - porque ele machucava tanto quanto Edward, definitivamente.

— Isso é ótimo. — Yifan constatou por fim, sorrindo todo bonitinho. Aquele desgraçado era tão lindo que Sehun se perguntava como era possível. — Só tem uma coisa… Eu prometi que você ia vestido de Homem-Aranha, igual aquela roupa que você vestiu no Halloween passado.

— Então você prometeu que eu ia vestido de uma forma, mesmo não sabendo se eu ia aceitar? — Kyungsoo arqueou as sobrancelhas, se divertindo com a falta de jeito de Yifan, que começou a olhar qualquer coisa que estivesse no cômodo branco, menos o enfermeiro de cabelos vermelhos.

— Eles insistiram muito, ok? Eu sei que não devia ter falado tanto em você, mas… — Yifan deixou a frase no ar enquanto fazia um bico contrariado.

“...Mas não dá para parar de falar na pessoa que a gente ama”, Sehun fez o favor de completar mentalmente a sentença por ele.

— Não tem problema. — Kyungsoo riu, dispensando as explicações de Yifan. — Não é como se eu fosse negar ver um tanto de criancinha fofa… Mas aquela roupa podia muito bem ser alugada. — Ele brincou, já que obviamente não era o caso. Sehun não fazia ideia de que ele era tão nerdzinho.

Mas Yifan parecia saber, já que olhou de um jeito engraçado para Kyungsoo, como se ele estivesse falando a coisa mais absurda do mundo.

— Uhum. Como se você não fizesse uns cosplays escondidos. — Ele acusou, fazendo com que Kyungsoo levasse o dedo indicador até os lábios, soltando um “Shhhh” de quem pedia silêncio. Eles riram juntos, com mais uma troca de olhares tão gays que daria inveja a qualquer um.

— Não sei do que você está falando. — O baixinho desconversou de um modo nem um pouco convincente. — Mas então está combinado. Amanhã.

Aquele provavelmente era o pior momento, já que cada um teria que voltar ao seu trabalho, por isso Sehun observou a relutância que eles tinham ao se afastar. Deviam querer conversar mais, com mais calma e longe do trabalho. Ah, como aqueles dois precisavam de um encontro de verdade…

— Bem… Eu vou indo. — Yifan falou por fim, enfiando as mãos nos bolsos do jaleco. Podia ser impressão de Sehun, mas o sorriso de Kyungsoo até se abalou um pouquinho. — A não ser que você queira tomar um café comigo. — O loiro propôs.

Kai cutucou o braço de Sehun, soltando um “Ai que lindinhos, puta que pariu”.

Eles eram realmente lindinhos.

— Tá tudo bem parado por aqui, então acho que um café não vai fazer mal algum. — Kyungsoo abriu seu sorriso mais lindo, o sorriso de coração, e Sehun tinha certeza que Yifan estava se segurando para não suspirar. Ele estava com aquela cara meio de idiota, com os lábios entreabertos, como se Kyungsoo fosse uma divindade ou algo do tipo. Talvez, aos olhos do loiro, ele realmente fosse. — Vamos.

Eles começaram a andar até a porta, o que fez com que os ombrinhos de Sehun caíssem desanimados. A investigação tinha sido boa enquanto durou.

Felizmente, Deus parecia estar do lado das duas amigas, já que, antes que os dois pudessem sumir da Sala de Medicação, Yifan tocou o braço de Kyungsoo de leve, como se estivesse lembrado de alguma coisa importante. Kyungsoo parou de andar, o olhando intrigado.

— Você sabia que… Ahn… Abriu um restaurante japonês muito bom aqui perto? — Yifan mandou a indireta, fazendo com que Sehun e Kai arregalassem os olhos um para o outro, sorrindo gigante, mal podendo acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. Um convite! Era um convite! — Eu lembro que você me disse que adora comida japonesa… Acho que eu vou lá amanhã à noite.

Era bom que alguém trouxesse um aparelho de medir pressão para Sehun, porque ele estava próximo de desmaiar.

Seu casal favorito no mundo, interagindo. Ok que ela tinha acabado de conhecê-los, mas ainda assim… Tinha tanta tensão sexual ali, Jesus.

— Isso é muito legal. — Kyungsoo falou depois de uma pausa, como se não não quisesse interpretar aquilo errado. Mesmo que, caralho, não tivesse como interpretar aquilo errado. E então ele falou a coisa mais estúpida do mundo, que fez Sehun querer beber todo aquele ferro que estava indo para sua veia só para morrer de uma vez e não ter que lidar com a humanidade: — Me fala depois se o lugar é bom mesmo.

Ai. Uma espada fincada na barriga teria doído menos.

Yifan, que até então tinha um sorriso cheio de expectativa, pareceu murchar igual uma flor morta. De fato, Kyungsoo havia acabado de pisar em todas as pétalas dele. Pobre garoto alto bonito.

—...Falo sim, pode deixar. — Ele respondeu, parecendo meio magoado, e Kyungsoo só ficou olhando com aquela cara de perdido. Talvez não soubesse o que tinha feito de errado, mas, ah, ele tinha feito.

Os dois enfermeiros saíram dali - Kyungsoo ainda perdido e Yifan cabisbaixo - e Sehun ficou encarando a porta aberta, não acreditando no que tinha acontecido.

Não sabia o que era pior: não poder dar uns tapas em Kyungsoo ou não estar ali no dia seguinte, só para ver os dois cuidando de crianças, lindinhos e com poses de pais.


 

X


 

Na sétima semana, a penúltima de Sehun indo naquele hospital, ele começou a ficar nervoso.

As coisas tinham que começar a andar porque, sinceramente, ele não poderia seguir a vida enquanto não soubesse que a vida daqueles dois enfermeiros estavam encaminhadas. Eles tinham que dar uns beijos logo, comer muito sushi e se roçarem em alguma sala perdida do hospital.

Tá, talvez aquela última parte fosse uma péssima ideia, já que eles sempre podiam ser pegos.

Mas os beijinhos e as viadices ainda eram muito válidas. Sehun tinha passado a semana toda roendo as unhas de curiosidade, se perguntando se eles tinham se beijado depois de saírem da ala infantil, rindo e lembrando dos melhores momentos, até que um estalo cairia em cima de Kyungsoo e ele beijaria Yifan, pensando que ele era lindo, amoroso e que queria ter bebês com ele.

Sehun não negaria o convite de ser padrinho dos quadrigêmeos deles, caso ele surgisse.

Estava imaginando e criando finais românticos demais para aqueles dois, mas não conseguia evitar. Às vezes, quando estava no meio da aula, o coração de Sehun começava a doer quando ele se lembrava do puta fora que Kyungsoo tinha dado em Yifan. Nesses momentos, tinha que se apoiar em Kai, que era a única que compreendia aquilo tudo.

Eles estavam até pensando em criar um fã clube para aqueles dois. Um perfil no Twitter chamado Kyung&Fan - Emergências do Amor não pegaria mal, pegaria? Mas, novamente, era só um plano futuro.

Hun não gostava daquela sensação, a de estar perdendo peças importantes do quebra-cabeça, já que só via Kyungsoo e Yifan uma vez por semana.

Era por isso que naquele dia, aproveitando que a Sala de Medicação que estava vazia - um pequeno milagre, já que sempre tinha alguém tossindo e tomando remédios por ali -, Sehun puxou o suporte do soro até praticamente colar seu rosto na janela que dava para o corredor do hospital. Era um corredor bem vazio, com poucas pessoas transitando por ali, mas Sehun tinha praticamente pulado de felicidade ao ver Yifan todo lindo aparecer ali com dois copinhos de café e chamar Kyungsoo para o corredor, só para que eles pudessem “Conversar rapidinho”.

O adolescente ainda esperava que por “conversar” Yifan estivesse planejando tascar um beijo naquela boquinha bonita, mas duvidava que aquilo fosse acontecer.

Ele conseguia ouvir os dois conversando pela porta entreaberta, já que os dois enfermeiros estavam encostados na parede. A janela tinha como finalidade só observar a cena, mais do que escutá-la.

— Eu realmente não entendo porque as pessoas babam tanto na Gryffindor. — Sehun ouviu Kyungsoo dizer, bebendo seu café e fazendo uma careta ao falar o nome da casa. — As pessoas ficam diminuindo a Hufflepuff, mas ninguém vê que todo o egocentrismo e escolhas estúpidas estão focados na Gryffindor.

— Você só está falando isso porque o Harry é protagonista. E todo protagonista é um saco. — Yifan retrucou com as sobrancelhas arqueadas, parecendo ofendidíssimo com aquela afronta, tanto que sorria incrédulo para um Kyungsoo inabalado. — É óbvio que você vai ter uma visão estereotipada quando tudo gira ao redor do Harry.

— Mas eu não tô falando só de quando o Harry estava em Hogwarts. — Kyungsoo explicou, trocando o peso do corpo de uma perna para a outra. — Embora o Dumbledore seja um escroto. Por que diabos as casas vão se esforçar pra ganhar pontos se no final ele vai dar pontos pro Harry só pra inflar o ego dele e ele ainda continuar sendo o capacho que vai morrer pro Dumbledore?

— Nãããão! — Yifan exclamou, dessa vez demonstrando toda a sua indignação e Kyungsoo só riu de um jeito meio demoníaco, meio infantil, tudo ao mesmo tempo. Como se ele soubesse que aquele assunto irritasse Yifan e estivesse colocando o dedo na ferida dele se propósito. — Não começa de novo com o papo de que o Dumbledore é um manipulador sem coração.

Kyungsoo riu mais alto, não conseguindo se conter, enquanto Yifan só girava os olhos.

— Mas ele foi, ué. — Deu de ombros, como se fosse um fato e nada pudesse mudar aquilo. — Ele manipulou o Harry pra fazer o que ele queria, pouco se fodendo em contar o que realmente acontecia pro menino, pouco se fodendo se ele iria querer se sacrificar ou não.

Sehun levou a mão que não estava ligada ao cateter até a boca, a tampando e arregalando os olhos. Aquilo era tão errado… Não a coisa do Dumbledore em si, mas Do Kyungsoo, o enfermeiro amorzinho, falando palavrões. Uma coisa era saber que vez ou outra, provavelmente, ele soltava um “Merda”. Outra coisa completamente diferente era ouvir ele falando aquilo como se fizesse parte do seu vocabulário.

Yifan nem parecia se importar, como se já estivesse habitado, mas isso pelo menos era bom - mostrava que eles tinham intimidade.

Quando Sehun tinha decidido espiá-los, correndo o risco de ser pego com o rosto colado na janela, não esperava que eles fossem estar falando de Harry Potter. Mas era bonitinho, embora o garoto loiro sentisse que estava sendo intrometido e descobrindo coisas que não era para ter descoberto.

Não que ouvi a conversa dos dois durante um mês todo não contasse como intromissão também.

— Corta essa, Kyung. O Dumbledore só fez o que era preciso. — Yifan defendeu, girando os olhos e terminando de beber seu café. — Era uma guerra. O que você faria no lugar dele? Não foi legal, mas ele estava pensando no bem maior.

— Incrível como o Dumbledore só faz umas merdas gigantes pelo bem maior, não é mesmo. — Kyungsoo provocou, mas o sorriso dele aumentou consideravelmente, olhando para Yifan como se estivesse vendo algo que o colega de trabalho - amigo? Futuro amante? - não via.

Yifan pareceu perceber aquele olhar também, já que ficou meio tímido, se encolhendo perante o olhar do ruivo.

— Que foi? Por que cê tá me olhando assim? — Quis saber, o que só arrancou uma risada gostosa de Kyungsoo.

— Nada. É só que você é inteligente e racional… Bastante, até. Você acha que o fim justifica os meios, desde que o objetivo desejado seja obtido. — Kyungsoo observou, como se estivesse analisando o comportamento do outro pelo seu posicionamento quando o assunto era Harry Potter. — Wu Yifan, você tá longe de ser Gryffindor. Você é Ravenclaw da cabeça aos pés.

Yifan tinha ganhado um sobrenome. Interessante, já que Sehun nunca tinha conseguido chegar perto o bastante para observar o nome preso em seu uniforme.

— Você não pode me falar que eu não sou Gryffindor! — Yifan falou de um jeito esganiçado, que fez Kyungsoo gargalhar no meio do corredor. — Eu acredito nisso tem… Não sei, desde quando eu tinha nove anos e A Pedra Filosofal foi lançada.

— Mas naquela época não existia Pottermore. — Kyungsoo falou de um jeito cantado, também terminando de beber seu café. Sehun achava incrível ver como ele parecia outra pessoa quando não estava trabalhando. — Você devia parar de enrolar e descobrir de uma vez por todas onde é o seu verdadeiro lar.

Se perguntasse a opinião de Sehun, ele diria que o lar de Yifan devia ser nos braços de Kyungsoo. Mas, é claro, era só uma visão de que alguém que observava de fora.

— Não sei… Isso é assustador demais. — Yifan disse enquanto passava as mãos pelos cabelos perfeitamente arrumados. — Eu não quero descobrir que a minha vida foi uma mentira.

Kyungsoo abriu a boca para respondeu, mas nessa mesma hora uma pessoa se aproximou, olhando para os dois enfermeiros e logo depois para a janela, dando um passinho para trás ao ver os olhos e os cabelos loiros de Sehun ali.

O rapaz se abaixou, se odiando por ter sido pego e odiando a mulher que tinha se aproximado e atrapalhado os dois.

Mas como viver perigosamente era necessário, Sehun continuou ali, meio abaixado, torcendo para que Kyungsoo não entrasse com o paciente ainda. Era arriscado, mas tinha que acompanhar a despedida deles. Tinha.

Ok - Sehun meio que estava se jogando de cabeça naquele relacionamento que nem era seu, mas que culpa ele tinha se era tudo tão bonitinho?

Ele ouviu Kyungsoo, amável como sempre, ouvir as dúvidas da mulher e olhar a receita dela, dizendo que logo aplicaria não-sei-o-quê nela - Sehun não fazia ideia do que aquelas palavras significavam; ele tinha falado grego? -, mas pedindo um minutinho para ela.

Sehun, mandando tudo à merda, voltou a espiar pela janela, tomando cuidado para não tirar o cateter de seu braço ou derrubar o suporte de soro. Nem ligou para a paciente, uma mulher de uns trinta e cinco anos, olhando para os seus olhões como se o adolescente fosse o fantasma de Chanyeol que morava na Sala de Medicação.

— Yifan… Você vai conseguir aceitar a verdade. Eu acredito em você. — Kyungsoo dramatizou, fazendo com que Yifan sorriso largo, descrente. — E você pode começar amanhã… Em uma maratona de Harry Potter na minha casa.

Sehun podia jurar que suas pernas tinham virado gelatina só de ouvir aquela frase.

Desde o convite para sair de Yifan, que tinha virado um grande mal entendido, Sehun andava temeroso de que nada novo fosse rolar. E se aquele tapão metafórico - usando a mão de Chanyeol - que Kyungsoo tinha dado em Yifan ao negar o convite dele tivesse inibido o enfermeiro loiro?

Mas ali estava, o universo dando uma segunda chance para aqueles dois. Yifan só tinha que agarrar a oportunidade e…

— Quem mais vai estar lá? — O loiro perguntou, parecendo tímido, mas ansioso ao mesmo tempo.

...E Yifan, ao invés de aproveitar a oportunidade, estava fazendo perguntas idiotas.

Sério, qual era a chance daqueles dois não conseguirem entender que se gostavam e estavam se chamando para sair? Sehun entendia que devia ser mais difícil para eles perceberem, já que vivenciavam aquilo, mas estava tão na cara…

Sehun nunca tinha gostado de ninguém de verdade, mas Kai tinha dito que quando sentimentos estavam envolvidos, as partes envolvidas tinham tanto medo de estragar tudo que tinham muita cautela. Cautela até demais, naquele caso, porque eles estavam andando tão devagar que dava agonia.

Talvez eles precisassem de um empurrãozinho, mesmo que Kai tivesse dito para Sehun não se meter.

Enquanto Sehun refletia sobre aquele negócio de amor, Kyungsoo parecia perdido, sem saber o que falar. Hun até ficou com dó dele, que estava em uma situação tensa. Devia dar um puta nervoso falar “Somos só eu e você, é um encontro”.

Mas isso não explicava a resposta dele:

— Eu… Acho que vou chamar… O Chanyeol?

Sehun balançou a cabeça, decepcionado, agradecendo por não ter nascido cupido. Já teria enfiado seu arco e suas flechas nas bundas daqueles dois.

— Ah… Ok. Eu vou sim.

E ali estava de novo: a estranheza no ar, as coisas não ditas e entaladas na garganta e a infelicidade que a falta de coragem trazia.

Yifan e Kyungsoo se despediram logo depois daquilo, combinando de se encontrar na saída do turno, e Sehun correu até o banco, arrastando o suporte com um pouco de dificuldade. O líquido da bolsa já estava quase acabando, o que significava que ele logo poderia ir embora, mas Sehun estava insatisfeito e incrédulo quando Kyungsoo entrou na sala de novo, acompanhado da paciente.

Kyungsoo olhou para ele, como se perguntasse se algo estava errado, mas Sehun só balançou a cabeça, dizendo silenciosamente que não era nada. Estava bravo com ele, mesmo que não houvesse real motivo para aquilo. Pelo menos Kyungsoo não o havia pego espiando, porque ao invés de raiva, Sehun estaria sentindo vergonha.

A paciente - que no fim das contas só precisava tomar uma injeção e fazer inalação -, ficou olhando estranho para Sehun durante todo o tempo que o rapaz ficou naquela sala.

A raiva de Sehun deu lugar para a dor de um amor mal resolvido quando ele ouviu, com seus ouvidos treinados naquelas semanas, Kyungsoo resmungar em um canto da sala:

— Merda… Por que eu falei do Chanyeol? Era pra ser só ele…


 

X


 

Oh Sehun tinha passado a semana toda ponderando se devia ou não interferir e soltar um “Nossa, ele gosta de você, você gosta dele… Parem de enrolar e fiquem logo juntos, caralho”.

Só que de uma forma mais sutil, é claro. Kyungsoo não sabia que Sehun tinha tanta intimidade com ele mentalmente ao ponto de não levar um xingamento como ofensa.

Era a ultima semana de Sehun ali, então seria naquela noite ou nunca mais. Era uma responsabilidade muito grande aquela - se ele não falasse nada, Kyungsoo e Yifan poderiam ficar enrolando por muito, muito tempo, o que faria com que eles perdessem um tempo precioso juntos. E se eles decidissem, cegos como estavam, que um nao gostava mesmo do outro e por isso ficavam se dando foras? Sehun nunca poderia se perdoar, mesmo que provavelmente nunca mais fosse vê-los.

E justamente porque eles nunca mais se veriam, Sehun sentia que devia falar. Seria tão ruim assim se Kyungsoo o chamasse de enxerido, já que na semana seguinte nem estaria mais ali?

Ah, Sehun mal via a hora de sentir o gosto da liberdade, por sinal. Era provável que já estivesse louco se não tivesse Kyungsoo e Yifan para observar. Eles traziam um pouco de vida para aquele ambiente pesado.

Era engraçado ver aquilo, aliás.  Perceber que coisas boas se escondiam atrás de coisas aparentemente ruins. Por trás de cada doença daquele hospital, havia uma pessoa trabalhando em uma cura, tentando fazer os pacientes melhorarem. Por trás daquele trabalho de enfermagem, que muitas pessoas não davam tanto valor por "não ser medicina", havia uma pessoa de bom coração lidando diretamente com os enfermos, conversando e medicando, as vezes de forma muito mais preocupada e do que os próprios médicos - porque, sim, Sehun tinha plena consciência de que alguns médicos se sentiam superiores as pessoas só por terem um diploma difícil de se conseguir.

E mais do que qualquer coisa, Sehun tinha percebido que o amor genuíno, aquele que as pessoas carregavam para a vida, florescia ali também. Mesmo que o solo parecesse nocivo, à primeira vista.

Ele tinha conseguido ver um amor romântico, algo que nunca tinha achado existir fora dos filmes, dar seus primeiros passos. Era mágico. Talvez nunca mais voltasse a acontecer - a não ser que Kai se apaixonasse, porque nesse caso Sehun estaria lá durante todo o processo.

Não dava para negar que Sehun tinha se envolvido com a história daqueles enfermeiros, mesmo que só trocasse poucas palavras com Kyungsoo e nunca nem tivesse falado com Yifan. Sentia que os conhecia, de alguma forma, mesmo que só tivesse pego detalhes pequenos e soltos de uma história complexa.

Toda história de amor era complexa. Algum dia, talvez, Sehun pudesse ouvir a de Kyungsoo e Yifan.

Sehun acabou decidindo, por fim, que tocaria no assunto. Só precisava esperar pela oportunidade perfeita.

Spo que, como a vida não era lá muito legal, a oportunidade perfeita estava demorando demais para aparecer.

Já estava na metade do último frasco que tomaria daquele ferro-com-cor-de-café maldito e o adolescente estava longe de conseguir tocar no assunto com Kyungsoo.

O que era bem irônico, já que naquela noite Kyungsoo nem tinha deixado a Sala de Medicação e estava andando de um lado para o outro, preenchendo relatórios e cuidando dos pacientes, que pareciam ter escolhido justo aquela terça-feira para ficarem doentes e lotar o local. Sehun observava os cabelos vermelhinhos deles e os sorrisos gentis para os pacientes. Tentava juntar coragem para chamá-lo e dizer que precisava dizer uma coisa, mas as palavras pareciam travadas em sua garganta. Por mais que Sehun quisesse falar, ele não conseguia. Parecia que o destino estava lhe castigando, já que o adolescente tinha passado semanas julgando Kyungsoo e Yifan, que nunca conseguiam falar um com o outro, e agora entendia como era não conseguir verbalizar algo importante.

Devia ser ainda mais difícil no caso deles, aliás, porque pelo menos Sehun não perderia nada caso resolvesse arriscar.

Sehun começou a ficar desesperado quando, uma meia hora depois, a bolsa ficou finalmente vazia e Kyungsoo se aproximou, sorrindo, parecendo feliz por Sehun ser enfim um elfo livre.

Por falar em elfos livres, será que seria muito íntimo perguntar como tinha sido a maratona de Harry Potter deles?

— Último dia, hein? — Kyungsoo comentou e Sehun sorriu. No começo daquelas sessões, ele teria se derretido todo se Kyungsoo tivesse falado daquele jeito com ele. Mas agora era como se eles se conhecessem, mesmo que só um pouquinho, e Sehun nem se abalava com os sorrisinhos. Embora ele ainda fosse absurdamente lindo. — Como você se sente?

— Com vontade de sair correndo pelo hospital só de cueca. — Comentou sinceramente, o que fez Kyungsoo rir baixinho, começando a tirar o cateter do seu braço com cuidado. Sehun apertou os olhos, só para não perder o costume, e sentiu o cheiro de álcool adentrar suas narinas. — Mas eu acho que seria atentado ao pudor. Ou acabariam me levando pra psiquiatria, o que não seria muito legal também.

Kyungsoo riu, colocando a frasco e todos os acessórios descartáveis na bandeja. Então era aquilo. Tinha, enfim, acabado.

Consequentemente, também tinha chegado o momento de Sehun tocar no assunto. Ou verbalizava as palavras, ou as engolia para sempre. E engolir não era uma ideia muito boa, já que dali a quarenta anos ele nao teria uma grande história de amor para contar aos filhos - tirando aquela de como tinha conhecido o pai deles, e claro… Que de preferência estaria vivo.

— Eu nao acho mesmo que seja uma boa ideia. — Kyungsoo falou, ainda sorrindo. Ele já podia ir embora, mas parecia disposto a ter uma conversa final. Por que aquilo era meio triste, de alguma forma? Sehun não podia estar mais feliz por nao ter mais que sentir aquele cheiro de hospital, mas, querendo ou não, tinha se tornado parte da sua rotina. — Os seguranças do hospital não são muito legais.

— Eu imagino que não sejam. — Sehun respondeu sorrindo, finalmente se levantando e arrumando seus fones de ouvido ao redor do pescoço. A parte mais engraçada era que tinha se entretido tanto naquele ambiente que nem tinha ouvido muita música.

Kyungsoo, que ainda estava com a bandeja nas mãos, observou Sehun enfiar as mãos nos bolsos da calça. O silêncio era meio constrangedor, já que não havia muito para se falar alem de “Não deixe de se alimentar bem”. Sehun odiava aquela momentos tensos

— Não deixe de se alimentar bem e passar em uma consulta de rotina com o seu médico. — Kyungsoo instruiu, quebrando aquele quase-silêncio, já que ao redor deles as pessoas continuavam falando. — Espero não precisar mais te ver aqui, Oh Sehun. — Kyungsoo comentou de um modo divertido. Sehun quase deixou um "Awwwn" escapar, pensando que não era surpresa nenhuma que Yifan tivesse se apaixonado por ele.

— Também espero. — Sehun respondeu, se amaldiçoando por não conseguir dizer o que queria.

E foi então que ele viu a oportunidade se esvaindo de suas mãos conforme Kyungsoo sorria em adeus, se virando para jogar aquelas coisas nojentas no lixo.

Foi então que a coragem tomou conta de Sehun,que juntou todo o ar de seus pulmões e chamou

— Kyungsoo?

E depois Kyungsoo ainda dizia que odiava Gryffindors.

— Sim? — O baixinho perguntou, parecendo intrigado, mas voltando se aproximar. — Eu esqueci de devolver a sua receita?

— Não, não. — O garoto se apressou em negar. Mesmo que só tivesse dezessete anos, era muito mais alto que Kyungsoo, então era uma sensação estranha olhá-lo de cima. — Eu só queria te falar que… Ele gosta de você.

Só Deus sabia como tinha sido difícil para o garoto loiro dizer aquilo. Mas, quando as palavras finalmente saíram, ele se sentiu tão aliviado que foi mais fácil respirar. Agora só faltava dizer tudo e sair dali com o sentimento de dever cumprido.

— O-o quê? — Kyungsoo gaguejou, mas pelas bochechas vermelhas, Sehun sabia que ele já tinha entendido do que estava falando.

Sentiu-se mais confiante depois daquilo. Depois de abaixar o tom de voz, começou a falar tudo aquilo que estava entalado em sua garganta.

— Ele gosta de você. — Voltou a dizer, só para reafirmar. — E você gosta dele. Caralho… Ta tão na cara que eu nao sei como vocês não se deram conta ainda. Quando ele te falou do restaurante novo que abriu, ele não queria dividir a novidade, mas sim te chamar pra ir com ele. E quando um cara de perguntar quem mais vai ver um filme com vocês, você não inventa um nome na hora, mas sim fala “Ninguém, porque na verdade a gente nem vai ver o filme”.

Sehun colocou a mão na cintura, sentindo-se satisfeito. Era como se a mãozona de Chanyeol tivesse ficado em cima dos seus ombros durante todos aquelas semanas e agora tivessem saído.

— Eu … Eu… Não faço ideia do que você está falando. — Kyungsoo falou, mesmo que aqueles olhões arregalados e as mãos trêmulas na bandeja dissessem o contrário.

Sehun abriu o maior sorriso do mundo, enfiando as maos nos jeans e já se preparando para sair dali.

— Tudo bem que você não faça ideia. Mas ainda dá pra ver de longe, sabia? É só prestar um pouquinho de atenção. — Sehun apontou, já começando a andar em direção à saída. — Sejam discretos. Ah! E fale com ele. Dessa vez, pra valer. Não perca mais tempo.

Dizendo isso, o loiro piscou um dos olhos e saiu dali, mal vendo a hora de contar para Kai que havia salvado o dia.

Não havia visto a expressão de Kyungsoo antes de sair dali, mas ficou rindo durante todo o caminho até a saída do hospital só de imaginá-lo todo embasbacado.


 

X


 

Oh Sehun odiava estacionamentos.

Ele tinha assistido filmes de terror demais na vida para saber que sempre acontecia uma morte em lugares daquele tipo.

Para Sehun, evitar estacionamentos era o mesmo que evitar uma morte dolorosa e trágica.

Mas seu pai estava atrasado - como sempre - e Sehun já tinha se acostumado com o estacionamento do hospital, que pelo menos era aberto. Poder olhar o céu fazia com que a sensação de ser esfaqueado a qualquer momento se tornasse menor.

Ainda mais quando tinha um funcionário ou outro fumando ali, desde seguranças até médicos. Não entrava na sua cabeça como pessoas que trabalhavam com saúde podiam foder os próprios pulmões daquela forma, mas não cabia a Sehun julgar. O ritmo de trabalho devia ser puxado por ali, então talvez fosse a única forma de aliviar a tensão.

O adolescente se encostou em uma parede, perto da vaga onde seu pai costumava estacionar, e se pôs a observar o estacionamento que, graças a alguma entidade, era bem iluminado. Tinha mandado uma mensagem para seu pai há uns dez minutos, que provavelmente era quando ele tinha saído de casa, o que significava que ele demoraria mais uns quinze para chegar ali.

Foi na sua busca por distração que Sehun os viu - cabelos vermelhos e loiros se destacando na noite, uniformes brancos e uma urgência nos gestos do mais baixo deles, que puxava o outro até um canto afastado do estacionamento.

Sehun quase começou a gritar, se contendo a tempo ao perceber que seria uma péssima ideia, mas os seguiu com os olhos até que eles fossem para o outro lado do estacionamento, para completa tristeza do loiro.

Ele não se orgulhava do que tinha feito. Realmente não se orgulhava, mas queria saber o que iria acontecer - será que Kyungsoo finalmente ia tascar um beijão nos lábios de Yifan? Sehun suspirava só de imaginar.

Se esgueirando pelos carros - e se sentindo protagonista de um filme de ação -, Sehun caminhou até onde eles estavam, seguindo os sussurros e os cabelos coloridos. Eles estavam se esforçando para não serem encontrados. Hun sentiu até orgulho ao constatar isso. Seus filhos - podia considerá-los daquela forma? - estavam crescendo.

— Kyung… Tá tudo bem? — Sehun ouviu Yifan falar conforme parou alguns carros atrás deles, espiando pelos cantinhos dos olhos, muito parecido com a vez que tinha colado o rosto na janela para observá-los.

Percebeu que Yifan estava perdido e que Kyungsoo estava tenso. Eles remexia as mãos, mordia os lábios carnudinhos e batia os pezinhos no chão. Sehun ficou inquieto só por vê-lo daquela forma. Esperava que Kyungsoo não desse para trás - ele ia chamar Yifan para sair, ele ia chamar Yifan para sair, ele ia chamar Yifan para sair -, porque Sehun seria obrigado a se intrometer e jogar um em cima do outro. Bem literalmente.

Mas Kyungsoo parecia decidido. Oh, sim, Sehun conseguia ver aquilo de longe. A forma como ele respirou fundo e olhou Yifan nos olhos, parecendo engolir todo o medo, parecia determinado o bastante para o garoto.

— Eu nao sei como dizer isso, Fan, mas eu… Eu gosto de você. — Kyungsoo falou as benditas palavras, provavelmente depois de muito tempo de espera. Sehun soltou um YESSS animado, porém discreto. Ou não tão discreto assim, já que os dois homens olharam ao redor, como se tivessem ouvido alguma coisa. Sehun tratou de se conter e fechar a boca. Os dois estavam muito entretidos um no outro para se importarem com outra coisa por muito tempo. — E eu acho que fiquei tão focado em não deixar você saber dos meus sentimentos que eu não percebi que você… Que você parece interessado em mim também. — Kyungsoo pausou para tomar fôlego, já que estava falando tudo de uma vez. — Então eu quero saber se… Se você realmente… Sabe? Tentou me chamar para sair um dia desses.

— Eu… Eu tentei. — Yifan confessou, parecendo prestes a explodir. — Só achei que você não queria. Que você não liga pro que eu sinto.

Yifan parecia tão sentido ao falar aquilo… Sehun quis abraçá-lo.

E aparentemente, Kyungsoo também.

— Eu ligo. Porra, eu passei meses querendo que você me visse como eu queria ser visto… Estar conversando sobre isso com você é bem irreal. — O baixinho confessou, rindo de nervoso, dando um passo para mais perto de Yifan,

— Imagina pra mim então. Eu to esperando por esse momento há dois anos. — O outro confessou, não contendo o sorriso, se aproximando de Kyungsoo também.

Kyungsoo arregalou os olhos, não parecendo acreditar no que estava ouvindo.

— Você…?

— Sim. Desde o primeiro dia. — Yifan afirmou, e tinha tanta sinceridade na voz dele.

Sehun fechou os olhos quando eles se aproximaram muito, quase como se estivessem sendo atraídos um para o outro. Aquilo era íntimo demais, até para Sehun. E, se eles fossem se beijar, ele não iria querer ver.

— Yifan? — Kyungsoo soltou em um fiapo de voz, ao que o outro soltou

— Hm?

— Você… Quer maratonar Harry Potter amanhã comigo? Dessa vez só nós dois? — Perguntou com um sorriso. Sehun entreabriu os olhos e, quando teve certeza que eles não estavam se beijando, observou os olhos entreabertos e a aproximação deles.

Era tanta tensão sexual que dava para cortar com uma faca.

— Eu quero. Mesmo que a gente tenha feito isso esses dias. — Yifan respondeu, rindo, e Kyungsoo se juntou a ele.

— A gente pode só não prestar atenção em algumas partes...Que J.K. Rowling me perdoe por dizer isso.

— Ela vai perdoar. É por uma boa causa.

Eles ficaram daquele jeito, tão próximos e tão longe que dava vontade de bater neles. Mas Sehun bem sabia que eles não podiam fazer nada, por mais que quisessem.

— Eu tenho que entrar. — Kyungsoo falou, parecendo se dar conta daquilo e se afastando, mas não sem antes perguntar   — Nos vemos na saída?

— Nos vemos na saída. — Yifan respondeu em uma voz rouca. E então, com um suspiro e um breve momento de coragem, completou — Mas talvez eu te beije na saída.

Kyungsoo riu, suas bochechas ficando meio vermelhas, só para responder no mesmo tom tímido

— E algo que eu iria apreciar… Talvez.

Sehun estava tão orgulhoso deles… De alguma forma, se sentia responsável por aquilo, mesmo que em partes. Era prepotência demais se considerar a Felix Felicis deles?

Ficou ali, derretendo na sua pocinha de glitter até seu pai chegar.


 

X

 

 

Oh Sehun viu Do Kyungsoo e Wu Yifan uma última vez, quase um mês depois, quando teve que voltar para a consulta de rotina com o Byun Baekhyun, seu médico.

Foi um encontro aleatório e fora de horário, porque Sehun estava saindo da consulta e voltando para a casa - já que a noite ainda estava caindo e ele estava caminhando com Kai - quando os dois amigos viram os enfermeiros do outro lado da rua.

Kyungsoo tinha os cabelos arrumadinhos e vestia uma camiseta da Hufflepuff, ao mesmo tempo em que Yifan vestia uma camiseta da Gryffindor e tinha aquela postura pomposa, mesmo que sorrisse tanto para Kyungsoo que sua boca parecia prestes a se rasgar. Muita coisa parecia ter mudado, mas ao mesmo tempo parecia continuar igual. Ainda eram eles, com as trocas de olhares e delicadeza nos gestos, mesmo que fosse um pouco estranho para Sehun vê-los daquela forma, sem uniforme.

Sehun observou satisfeito como as mãos deles se roçavam o tempo todo, como se eles quisessem se tocar e não pudessem juntá-las, mas ainda assim dessem um jeito de juntar seus dedos por poucos segundos.

Quando Kai percebeu isso e deu um gritinho estridente, Sehun quase se escondeu, morrendo de vergonha por terem chamado a atenção dos dois enfermeiros.

Kyungsoo sorriu em sua direção, acenando uma das mãos, só para voltar a caminhar com Yifan em seguida, depois de receber um acenar de volta de Sehun e outro gritinho de Kai. Ela parecia estar fora de controle naquele fim de tarde.

Sehun ficou se perguntando se tinha tocado aqueles dois de alguma forma também. Gostava de pensar que sim.

Seu trabalho ali estava feito.

 


Notas Finais


É isso alsjkçljçasjalkçsaljsças O Sehun é meio dramático, eu sei, mas perdoem. Espero que não tenha ficado exagerado ou chato.

Eu escolhi anemia porque é algo aleatório, não mata e eu já tive, então sei mais ou menos como funciona o processo (embora eu seja péssima com termos técnicos, percebam). Foram dias tediosos passando ferro na veia. q

Amem KriSoo. KriSoo é lindo.

Torçam por mim nesse concurso.

Beijos e até a próxima fase. <3

P.S.: Desculpem qualquer erro, vou corrigir tudo depois. Só não queria perder o prazo. ;;


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