História If Only - Capítulo 16


Escrita por: ~

Exibições 2.202
Palavras 15.159
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Olá pessoas 😍😍😍😍
Antes tarde do que nunca, não acham? Eu sei que tinha prometido uma atualização até o dia 15 e hoje não é 15. Mas a minha semana foi cheia, tive simulado e para completar minha mãe tomou o notebook de mim. Tive que escrever o capítulo todo pelo celular e acreditem, foi uma tortura. Tinha hora que eu queria jogar o celular para puta que pariu e esperar a boa vontade da minha mãe.
Mas como eu detesto pessoas que não cumprem promessas, fiz esse sacrifico para vocêse e aqui estou com o capítulo fresquinho para vocês.
O revisei antes de postar, mas como sempre tem alguns erros que passam por mais que tenhamos lido umas dez vezes. Então me desculpem se houver erros, tá bom. Como tenho mania de reler depois que posto, corrigi qualquer erro lol
Agora vou deixar vocês lerem 🙆😻

Capítulo 16 - The other side


Justin Point Of View 

Bryce estava imóvel e com as mãos postas sobre o colo, enquanto a enfermeira colocava os eletrodos na sua cabeça. 

Eu não precisava perguntar qual era o problema, a sua cara dizia tudo. 

Ela estava chateada por ter acabado cedendo e estar ali recebendo atendimento no hospital que eu costumo ir. Lauren com certeza teve trabalho para convencê-la, ou talvez ela tenha ficado preocupada com a própria saúde e aceitou a contragosto.

Mas o importante era que íamos descobrir qual era o seu problema.

— Você está se mexendo muito e isso me atrapalha — a enfermeira murmurou para Bryce quando ela mais uma vez se mexeu incomodada.

— Desculpe — Bryce murmurou de volta. — Vai demorar muito?

— Já está quase acabando. Mas não tenho muita certeza se vai dar muito certo, os seus cabelos estão atrapalhando.

— É uma pena que esse problema não possa ser resolvido.

— Fique quieta.

Ela olhou para mim e estreitou os olhos.

A porta se abriu e Lauren entrou trazendo dois copos de café. Me entregou um e olhou para Bryce.

— O que foi? — Bryce perguntou, irritada.

— Está falando comigo? — perguntei. 

— Com vocês dois. Me olham como se eu fosse de outro mundo.

— Impressão sua — Lauren falou dando de ombros e bebendo um pouco de café.

O silêncio voltou. Ficamos apenas olhando para a mulher que estava concentrada no seu trabalho. 

Quando terminou se afastou um pouco e olhou para Bryce que estava mais emburrada que de início.

— Vou chamar o doutro Halle para te conectar a máquina — informou e saiu do quarto.

Esperei alguns segundos até que perguntei qual era o seu problema. Sua expressão suavizou um pouco mais e ela suspirou. 

— Estou sem cafeína no meu organismo a quase catorze horas — falou. 

— Por isso está brava? — Lauren perguntou rindo.

— Sabe que sou quase uma dependente e para completar, os dois estão tomando café bem na minha frente — olhei para o copo de isopor fumegante não minha mão e foi impossível não rir. — Qual o problema de vocês dois?!

— O anticonvulsivante tem algum efeito colateral? — perguntei simples. 

— Acho que quase todos os remédios têm um efeito colateral. O que isso tem a ver?

— Talvez a cafeína não seja o seu único problema...

— É, talvez — mexeu nos cabelos. — Meu cabelo tá horrível. 

— Fala sério, Bryce! — Lauren exclamou. — Estou começando a achar que você não está batendo muito bem da cabeça.

— Com estou? — perguntou ignorando a irritação de Lauren. 

— Como assim? — perguntei quando percebi que a pergunta tinha sido feita para mim.

— Os meus cabelos!

— Hã... Estão muito bonitos. Brilhantes.

— Ah. Estou me sentindo uma cobaia com essas coisas na cabeça — suspirei. — E se der alguma coisa errada e eu levar um choque e morrer durante o exame? Sabe, como naquele filme premonição.

— Você definitivamente não está bem — Lauren sussurrou. 

— Está tentando não ficar nervosa, não é? — perguntei baixinho. Ela mordeu os lábios e assentiu. — Vai ficar tudo bem, Bryce. Está tudo bem.

— Justin, o médico pediu um monte de exames do meu cérebro. Eu tive uma convulsão e nem me lembro disso. Com certeza não está tudo bem. E se eu tiver um tumor cancerígeno? E se eu tiver câncer?

— Acho que câncer e um tumor cancerígeno é a mesma coisa — Lauren a corrigiu. — Mas não vamos pensar isso. Pode ter sido outra coisa. Você está bem.

— Não sinto isso... — torceu os dedos e mordeu os lábios com mais força. — Agora me lembrei que senti um mal-estar no mesmo dia que sofri a convulsão... Isso não é sintoma de câncer? Tirando a convulsão, é claro.

— Muitas coisas podem causar uma convulsão — falei. — E não significa que é câncer. Abuso de álcool, estresse...

— Eu bebi e sofri estresse nesse dia!

— Você não bebeu muito. E que estresse você passou? 

 Ela olhou para Lauren que negou com a cabeça e desviou o olhar. Os seus olhos encontram os meus. Suas bochechas coraram.

— Acho que foi mais cedo no abrigo... Se lembra do Matt? — assenti. — Ele está com problemas com a mãe e me envolvi muito sentimentalmente. E acho que fortes emoções também causam. Você disse que me ama e... É eu fiquei emocionada. 

— Claro — sorriu forçado. — Mas não fique preocupada. Tenho certeza que está bem de saúde.

Voltamos a ficar em silêncio até que o médico entrasse no quarto e começasse a explicar como o exame funcionava, enquanto ligava Bryce ao leitor de ondas magnéticas. Bryce apenas assentiu quando ele perguntou se ela não tinha consumido nada com cafeína nas últimas doze horas, se tinha lavado os cabelos e outras coisas. 

Aquele exame em si levava apenas duas horas para ser feito, mas ela teria que passar a noite ali para os outros.

— É claro que apenas esse pode nos dizer o que precisamos — ele concluiu, fazendo um gesto com a mão. — Mas os outros podem nos mostrar qualquer irregularidade no cérebro. 

— Então finalmente podemos descobrir se ela bate bem ou não da cabeça? — Lauren perguntou com um sorrisinho.

Eu sabia que ela estava apenas tentando amenizar a situação. Mas a julgar pelo estado de espírito de Bryce, não tinha sido uma brincadeira apropriada.

— Acho que sim — o médico falou um pouco confuso. — Mas tenho certeza que Bryce é uma jovem saudável — deu uma batidinha no ombro de Bryce.

O som da máquina de eletrococleografia me distraia um pouco e tudo o que eu conseguia fazer era olhar para Bryce.

Um pouco entediada, ela acabou dormindo. O médico a acordou, para que não houvesse nenhuma alteração nas ondas. Ela cruzou os braços e voltou a ficar séria. 

Duas horas depois o exame estava pronto. O médico ficou o estudando com uma expressão séria. Apenas balançou a cabeça e disse que precisava fazer os outros exames para ter certeza. 

— O que acha que pode ser? — Bryce perguntou nervosa. 

— Somente depois dos outros exames, Senhorita Garrison — ele disse apenas isso e saiu do quarto.

— Para que tanto mistério para dizer que tenho apenas seis meses de vida? — ela falou jogando os braços para o ar, totalmente dramática.

— Credo, Bryce! Você não vai morrer — Lauren falou. — Eu acho...

— Lauren — falei. Ela sorriu sem jeito. — Não atraia esse tipo de pensamento, Bryce. 

— Viu a cara dele? Pode não ser câncer, mas acho que é sério... Eu não quero morrer, Justin. Sou muito jovem. Ainda tenho muito o que fazer.

— Você não vai morrer — olhou para baixo. Olhei para o me relógio de pulso. — Leah daqui a pouco vem me pegar...

— Claro. 

— Só preciso descansar um pouco e... — olhei para Lauren. Ela me olhava curiosa. — Volto mais tarde para ficar com você.

— Tudo bem — se sentou e esticou a mão. Me aproximei mais da cama e a segurei. — Obrigada. Por tudo.

— O que você precisar — sorriu de forma verdadeira. — Eu estava pensando que podíamos fazer alguma coisa juntos depois. Sair, ou algo do tipo.

— Vai me levar para jantar?

— Você quer?

— Você quer me levar?

— Claro.

— Acho jantar uma coisa tão formal. Por que não me leva a um lugar que costumava ir sem ser um restaurante?

— Bem, eu não era de sair muito...

— Você era entediante?

— Não...

— Sei que você saía, Justin — apertou a minha mão. — Não me enrola.

— Claro. 

Sorri, tentando pensar em um lugar que eu ia sem que Carol estivesse junto. Eram poucos. 

Eu viajava muito por causa do trabalho e quando estava em Nova York, ia para algumas festas com Carol. Ela gostava de ir a boates ou ao Outback. Mas como Bryce tinha descartado restaurantes da lista, ele estava fora de questão.

Era difícil pensar em algo que Bryce possa gostar. 

Me peguei pensando como as coisas eram mais simples com Carol. Eu precisava apenas comprar mais algum tipo de joia ou levá-la para jantar todas as sextas no restaurante mais caro de Nova York. 

Leah chegou meia hora depois e me despedi de Bryce, prometendo voltar.

                       [...]

Já fazia um tempo que eu olhava para o teto e não conseguia dormir, o que era normal nos meus descansos diários. Isso já não me deixa mais irritado ou triste. 

Ouvi batidas na porta. 

Fechei os olhos e tentei ignorá-las. Mas quando percebi que quem quer que fosse não ia embora, falei que podia entrar. 

Era Rick.

— Tudo bem? — ele perguntou quando fechou a porta e se aproximou com as mãos nos bolsos de sua calça social.

— Acho que sim — falei estranhando ele ali. — Não devia estar no escritório ou...

— Jonny está me cobrindo — folgou a gravata e olhou ao redor. — Onde está a cadeira que estava aqui antes?

— Pedi para que Bryce tirasse.

— Por quê?

— Porque não quero ninguém sentado à beira da minha cama como se eu fosse um enfermo nos últimos dia. Na verdade, não quero Bryce fazendo isso.

— Por quê?

— Você sabe — dei de ombros. 

— Claro — se sentou na beira da cama e me olhou com um sorriso triunfante. — Tudo bem assim?

— Não faz diferença. O que quer?

— Nada. Um pai não pode conversar com o seu filho?

— Não tenho mais quinze anos. E sei muito bem que quer falar sobre o meu divórcio com Carol.

— Talvez. Não tem nada que queira me falar?

— Como assim?

— Eu não sei. Talvez o verdadeiro motivo para você ter terminado tudo com Carol de uma hora pra outra. Não que fosse algo que eu não imaginava que aconteceria, mas foi estranho.

— Acho que deixei claro os motivos para fazer isso. Jonny te falou alguma coisa ?

— Não. Tem algo que ele devia me falar?

— Não. 

— Já cansei de ser o secundário nesta casa, Justin. Tenho sempre que ser o último a saber das coisas ?!

— Pai, não é por isso.

— Quando você marcou o casamento com Carol, eu fui o último a saber. Já estava tudo pronto e você me contou faltando dois dias. Se lembra disso?

— Tive os meus motivos.

— Como teve agora?

— Sim.

— Justin, eu sou o seu pai e te amo muito. Tudo o que mais quero é que você seja feliz. Mas também é minha obrigação de te alertar.

— Me alertar de quê?

— De decisões impensadas. Você não me ouviu da primeira vez e olhe onde está agora. Você precisa aprender a ouvir.

— Está falando sobre eu me casar com Carol ou ter entrado naquele prédio? — minha voz saiu arrastada. 

— Os dois! Tem certeza de que Bryce gosta de você?

— Quem te falou?!

— E isso importa?

— Claro que sim. Aposto que foi o babaca do Jonny. 

— Sim, foi ele — cerrei os dentes. — E não fique com raiva do seu irmão. Eu o pressionei até que me contasse.

— O pressionou?

— Carol me mandou uma mensagem ontem, perguntando se tenho percebido algo estranho entre você e Bryce. Perguntei o motivo da pergunta e ela disse que não era nada demais, que só tinha visto algumas fotos que você tirou com ela e Merrin. 

— Fotos? Que fotos?

— Acho que estão no seu celular.

— Ah.

— Fiquei desconfiado, mas não a pressionei. Depois a sua mãe ficou falando que eu tinha que te apoiar e aceitar as suas decisões. E então hoje fiz Jonny me falar. A questão aqui é se você tem certeza disso e se Bryce gosta mesmo de você. Claro que percebi o afeto que ela tem com você lá em Londres, mas pensei que fosse apenas por causa do trabalho. Gosto dela. É uma moça muito cativante, sincera e simples. Mas também não quero que você mais uma vez se engane como se enganou com Carol.

— O que quer dizer com isso?

— Não quero que se machuque, Justin. Tente descobrir as reais intenções dela com você, antes de qualquer decisão. Não quero parecer arrogante ou preconceituoso, mas o que não falta são jovens querendo ficar bem de vida as custas dos outros. E se ela estiver se aproveitando da sua situação delicada para isso, nem sei do que sou capaz. 

— O que Bryce menos quer é se aproveitar da minha “situação delicada”. E antes que pergunte porque razão alguém como ela iria querer ficar comigo, tenho uma coisa a dizer. Não seja fútil. Sei que não tenho nada para oferecê-la, mas pretendo ter algum dia e sei mais que ninguém que ela me ama de verdade.

— Eu não ia dizer isso. O problema é que a realidade é essa. Claro que há sempre algum interesse em qualquer tipo de relação, não falo apenas de financeiro. Mas se você tem certeza... Dessa vez se case com separação de bens.

— Meu Deus. Você poderia sair? Quero descansar um pouco.

— Claro — se levantou. — Carol virá essa tarde para discutir o divórcio. 

— Teremos que fazer isso outro dia. Bryce...

— Tenha ao menos um pouco de consideração pela mulher que esteve ao se lado todo esse tempo, Justin. Por sua filha também. 

— Tudo bem...

Ele ficou me olhando como se quisesse falar mais alguma coisa, mas apenas assentiu e saiu do quarto.

Olhei para o criado mudo, a procura do telefone. Olhei por cima do meu peito e vi que ele estava perto dos meus pés. 

— Que ótimo.

Deitei a cabeça no travesseiro e esperei que Pattie ou Leah aparecesse e assim pudesse pegá-lo para mim.

Os meus olhos ficaram pesados e mergulhei em sono sem sonhos.

                          [...]

Enxuguei o suor da minha mão na calça e passei a mesma pelos meus cabelos, tentando arrumá-los. Eu não tinha um espelho, mas a julgar pela cara de Pattie, eu só tinha piorado a situação. 

— Deixe-me fazer isso — ela falou se aproximando. Passou os dedos por meus cabelos. — Só isso não vai adiantar. Leah, vá ao quarto e pegue uma escova e... Gel.

Leah se levantou e saiu da sala.

Pattie voltou a me olhar. Os seus dedos ainda acariciavam os meus cabelos.

— Você devia cortá-lo — ela falou. — O cabelo...

— Talvez — dei de ombros. 

— Você precisa voltar a cuidar da aparência, Justin. Não nego que houve uma mudança, mas precisa mais. Quem sabe depois disso, não vamos ao shopping comprar algumas roupas para você? O que me diz?

Ela estava nervosa. 

— Por que está nervosa? — perguntei.

— Isso é sério, Justin? Acha que não sei o que está prestes a acontecer?!

— O que está prestes a acontecer? 

— Justin! — afastou a mão dos meus cabelos e a passou nos seus. — Não pode sequer repensar e pensar na sua filha?

— A minha relação com Merrin não vai mudar.

— Que relação? Você nem liga para ela! Nem você e nem Carol. Você fala que Carol só pensa nela mesma, que só pensa em compras, mas e você, Justin? Não acha que também não pensa só em você mesmo? Passou dois anos da sua vida, afastando as pessoas, afastando a sua filha! E usa o seu estado como desculpa. E agora não se comove nem um pouco por estar pondo um fim na chance de Merrin crescer ao lado dos pais, em uma família normal e estabilizada.

— Sabe que mesmo que eu não me separe de Carol, nunca iremos ser estabilizados. E muito menos uma família normal. Não é só porque você e Rick não se divorciaram que sou obrigado a seguir o padrão de perfeição que você criou. 

— Acha que não temos problemas?! Todo casal passa por problemas, mas não é na primeira briga que deve se separar. Você está sendo mimado, Justin. 

— Pensei que ter personalidade e não se deixar manipular era ser adulto, não mimado. 

— Vejo isso apenas como mais um capricho seu. E se um dia se cansar de Bryce e fazer o que estar fazendo com Carol agora? Acha que é assim que funciona? Entra na vida das pessoas e depois quando se cansa, as descarta?

— Claro que Rick te falou...

— Ele não me falou. Bryce que me falou. 

— Bryce?

— Sim.

— Quando?

— E isso importa? Sem contar que vocês não são nada discretos. Foi eu que falei para Rick. A questão é que...

— A questão é que vocês querem cuidar da minha vida mais do que de suas próprias vidas. Você se esqueceu que não andar não alerta nada na minha cabeça?

— Eu...

— Então pare de querer tomar as decisões por mim.

— Tudo bem, Justin. Eu não vou mais tentar ajudar em nada. Separa-se de Carol, casa-se com Bryce e desejo do fundo do meu coração que você seja feliz.

— Aqui está — Leah entrou na sala com a escova e o gel para cabelos. 

— Tente arrumar os cabelos dele — Pattie falou seca. — Vou me deitar, não me sinto bem. 

Saiu, pisando firme. 

Leah ficou olhando por onde ela saiu por alguns segundos. Se voltou para mim.

— Se não se importa, eu vou... — ela começou a falar, mas a interrompi:

— Não precisa. 

— Tem certeza...?

— Só saía daqui. 

— Claro. 

Girou nos calcanhares, mas pareceu mudar de ideia. Se aproximou de mim e me entregou a escova. A aceitei e esperei que saísse. 

Quando me vi sozinho, arremessei a escova longe. Ela bateu em um dos vasos de cerâmica de Pattie. Ele balançou um pouco, até que se decidiu e caiu, se reduzindo a pedaços sem mais nenhum valor.

 

Quando Carol chegou, a senhora Flanders já tinha tirado o que restou do vaso egípcio favorito de Pattie.

Foi impossível não me sentir tenso com a sua figura alta e esbelta.

Ela me lançou um olhar de esguelha e se sentou no sofá com as pernas cruzadas. Os seus olhos azuis se fixaram nos meus e tive que desviar o olhar. 

— Você deve estar precisando disso — ela falou tirando algo da bolsa. Me estendeu a mão e vi o meu celular.

— Ah. Claro — o peguei e tentei ligá-lo. Estava sem bateria. — Pensei que você fosse vim com um advogado...

— Acho que não precisa — deu de ombros. — Você acha que precisa, Justin?

— Vamos descobrir — Carol riu anasalada e negou com a cabeça. — Eu já dei a entrada nos documentos e...

— Eu já sei.

— É... Ficarão prontos no mês que vem. Quero deixar claro que não lhe faltará nada. Terá tudo o que tem direito. 

— E Merrin?

— Ela também. Se você não ver problema em guarda dividida. 

— Eu não vejo problema nisso. Mas quer saber no que vejo problema? — suspirei e esperei o seu monólogo. — Vejo problema em você simplesmente desistir de nós. Depois de tudo que passamos juntos. Essa foi o quê? A nossa segunda briga? Se lembra da primeira? — não respondi. — Foi exatamente por causa de Bryce Garrison. Está lembrado agora?

— Você não devia tê-la tratado daquele jeito. 

— Eu só pedi para que ela não colocasse amaciante nas roupas de Merrin! Daí ela se fez de vítima e pediu demissão. Você gritou comigo sem nem ouvir a minha versão. Então fui embora naquela noite. E sabe por que voltei, Justin? Porque não podia deixar que algo tão ridículo quanto essa briga, fosse nos separar. Quando você ficou agindo como um louco, tentando se suicidar e me esfaqueou, eu também não deixei que isso nos separasse. Eu ficava na cozinha, ouvindo você conversando com aquela boneca como um completo lunático e não desisti de você. Então porque você pode desistir de nós por palavras mal faladas? Meus erros, posso concertá-los. Eu estava tentando. Até aprendi a te trocar, te dar banho... Até mesmo passá-lo para a cadeira. E então você termina tudo porque falei uma bobagem de Bryce. Percebe o quanto isso é ridículo? Eu te amo, Justin...

— Carol, eu...

— Ainda não acabei. Acho que sei o que está acontecendo... Sei que você e Bryce têm um caso. E não venha me dizer que não. Fui estúpida para não perceber a princípio. Estava tudo diante dos meus olhos, mas eu não enxerguei as insinuações dela para você. Mas eu te perdoou, Justin. Sei que ela te seduziu. Sei que você não queria isso. Talvez seja porque ela conseguiu fazer o que eu não consegui, mas posso tentar. De novo, de novo e de novo.

— Do que está falando?!

— Volta para casa, Justin... Volta para mim e para Merrin.

Me assustei quando ela se levantou e caiu de joelhos diante de mim, tomando minhas mãos. 

— Por favor — implorou. — Faço o que você quiser...

— Carol, pare com isso — tentei soltar a minha mão da sua, mas ela a apertou mais. Suas unhas chegaram a me machucar.

— Paro de falar mal de Bryce Garrison e até mesmo fazer compras. Nunca mais pegarei os seus cartões de crédito ou exigir que me dê uma joia nova uma vez por mês. Paro até mesmo de cuidar de mim para cuidar de você. Mas, por favor, Justin, não me deixe.

— Levante-se.

— Não sairei daqui até você voltar para mim. Bryce não te ama, meu amor. Ela está interessada apenas no seu dinheiro. Por que ela iria querer ficar com você?

— Me diz você.

Talvez Bryce tem razão quando fala que Carol é apenas sem noção. Eu sabia que suas palavras não foram para me ofender, mas era o que ela pensava. Não pude deixar de ficar com raiva.

— Ela é só uma pobre tentando tirar proveito da sua fragilidade. Não há outra explicação.

— Eu gosto dela, Carol. E ela também gosta de mim.

— Você acha que gosta, Justin. Não confunda atração física com sentimentos. Não sei até que ponto vocês chegaram, mas estou disposta a esquecer tudo. Começar do zero. Como se Bryce nunca tivesse entrado nas nossas vidas. Tá bom?

— Não é assim que as coisas funcionam.

— Claro que é assim. Ligue para ela e diga que tudo não se passou de uma aventura. Peça para que fique longe. Eu te amo, Justin. Não vou aceitar te perder para aquela criatura embusteira. Volta para mim e para sua filha... Por favor — os seus olhos se encheram de lágrimas. — Sei que não sou perfeita e que você odeia os meus defeitos, mas estou disposta a mudar. Por você. 

— Eu sinto muito, Carol... — tentei mais uma vez soltar as suas mãos das minhas, mas suas unhas se cravaram mais. 

— Você não me ama? Não me ama mais?

— Eu...

— Me responde...

— Não, Carol. Eu não te amo mais. É com Bryce que quero ficar. E por favor, aceite isso.

Ela respirou fundo e apertou mais as minhas mãos.

— Isso não é  verdade — falou por fim. — Você não pode estar apaixonado por ela! Ela te enfeitiçou!

— O quê?

— Nunca ouviu falar em bruxaria? Fazem muito isso na Índia e principalmente na África. Ela não ia para lá? Deve conhecer feitiços e...

— Não seja ridícula — seus olhos azuis brilharam. — Bryce não me enfeitiçou. Pelo contrário, ela me libertou. Me libertou de uma vida infeliz, me libertou de mim mesmo, me libertou de você. Não adianta me falar essas coisas, dizendo que vai mudar. Você é assim e ponto final. Pode estar falando a verdade, mas não adianta. Acabou. 

Ela soltou minhas mãos bruscamente.

— Então é assim? — se levantou, limpando a saia. — Você está disposto a me deixar para ficar com Bryce Garrison? 

— Sim.

— Isso não vai acontecer.

— Quem vai impedir?

— Eu! Não vou aceitar isso nunca! Você só pode estar louco!

— Louco eu estava quando resolvi me casar com uma mulher tão vazia como você e...

Não pude terminar. 

O tapa que ela deu no meu rosto, me assustou.

A olhei sem acreditar, sentindo a minha bochecha queimando.

— Eu não sou vazia — falou entredentes. — É você que não vê graça em ninguém. Aí se convenceu que Bryce é especial por causa daquele jeito irritante que ela tem. Me diz uma coisa, você transou com ela? — a olhei estático. — Claro que sim.

— Isso não é da sua conta.

— Isso foi um sim.

— Por que está interessada? É tão masoquista assim?

— Por quê? — começou a chorar. — Eu sou mais bonita que ela. Eu te amo! Por que, Justin?

— Porque ela não é você — ela secou as lágrimas e me olhou incrédula. — Não se trata de beleza e sim pela pessoa que ela é. Então não tente criar argumentos para isso. 

— Ela te excita?

— Carol, já chega. 

— O que ela faz?

— É melhor você ir embora. Quando os documentos chegarem, mando para você e...

— Eu não vou assinar.

— Como?

— Não vou assinar os documentos do divórcio. Se isso é a única coisa que te mantém preso a mim, continuará mantendo. E quando sua sanidade voltar, eu e sua filha estaremos te esperando. Na nossa casa — pegou a bolsa. — E se isso não adiantar, prepare-se para conhecer o pior de mim. Você e Bryce Garrison.

— Está me ameaçando?!

Ela não respondeu. Ergueu a cabeça e se foi.

                       [...]

Pedi que Leah colocasse o meu celular para carregar e passei o resto da tarde pensando nas palavras de Carol.

Pensei que tudo daria certo e ela aceitaria o divórcio. Mas deixou claro que não e para completar, se recusava a assinar os documentos. 

Claro que isso não mudaria nada e muito menos me faria voltar para ela. Mas de qualquer forma, atrapalharia os meus planos. Eu sonhava em me casar com Bryce um dia, formar uma família com ela.

Eu não estava com medo da sua ameaça direcionada a mim e a Bryce. Não havia nada que pudesse fazer além de não assinar alguns papéis. Nada que ela fizesse, me impediria de ser feliz novamente ao lado de Bryce.

No jantar, mamãe perguntou o que tínhamos resolvido. Preferi não responder. Estava com a cabeça a milhas de distância.

 

Leah terminou de arrumar os travesseiros para mim e ascendeu a luz do abajur.

— Pode apagá-la — pedi. 

— Tudo bem — apagou a luz e me olhou. — Quer tomar algum remédio para dormir?

— Não, obrigado. 

— Posso fazer um chá, o que acha? Ajuda muito a dormir. 

— A bebês — sorriu de lado. — Já que hoje está mais gentil do que de costume, pode pegar o meu celular? 

— Claro — tirou o celular do carregador e me entregou. — Mais alguma coisa?

— Chá de maracujá ajuda a dormir — assentiu. — E Diazepam...

— Bem, terá que escolher entre os dois.

— O que você escolheria?

— Sou a favor de coisas naturais.

— Chá de maracujá e meio comprimido de Diazepam.

— Tudo bem.

Saiu do quarto sem fechar a porta. 

Suspirei e olhei para o meu celular. 

Tinha prometido ficar com Bryce no hospital, mas com o que aconteceu, fiquei sem vontade até mesmo de sair de casa. Mas ela provavelmente não se incomodou.

Procurei o seu número na minha lista telefônica e não encontrei. 

Não tinha problema, já o tinha decorado. 

Disquei o número rapidamente e esperei que atendesse. 

— Justin? — era Lauren. 

— Oi... Como Bryce está?

— Ela... — ficou em silêncio.

— Lauren?

— Ela está bem — respondeu rapidamente. 

— Ela pode falar?

— Sim, mas ela não quer...

— Ela não quer falar comigo?

— Ela não quer falar com ninguém. Preciso desligar. Até mais.

— Espera...

Mas ela já tinha desligado.

Voltei a ligar, mas caiu direto na caixa postal. 

O que estava acontecendo?

Como eu queria poder ir até o hospital neste exato momento e fazê-la se explicar. 

Mas eu não podia. Ao menos que pedisse para Leah me vestir, me tirar da cama e me levar.

Não.

Joguei o celular ao meu lado. Ele quicou no colchão e caiu no chão. 

Esfreguei as têmporas. Minha cabeça já começava a doer.

Leah voltou para o quarto, trazendo o chá e metade de um Diazepam.

O tomei junto com o chá.

Quando ela apagou a luz e saiu do quarto, passei a mão debaixo do travesseiro e os meus dedos tocaram o frasco de melatonin que eu tinha colocado ali pela tarde.

O abri, peguei dois comprimidos e os engoli.

Afastei as cobertas, fechei os olhos e tentei ignorar o som da chuva fraca batendo na janela, para que o hormônio funcionasse.

                         [...]

Quando acordei já era dia e eu estava deitado de lado.

Pattie ou Leah tinha me trocado de posição durante a noite.

Ainda sonolento, passei a mão debaixo do travesseiro. Respirei aliviado quando senti o frasco de melatonin ainda ali .

O puxei e peguei um comprimido.

Não me importava com a hora, só queria dormir e acordar quando os meus problemas estivessem resolvidos.

 

Acordei com o som de alguém andando pelo quarto. 

Fiz menção de afastar as cobertas, mas elas já tinham sido afastadas.

Os passos estavam atrás de mim e eu não podia me virar para ver. Para completar o quarto estava escuro graças às cortinas fechadas 

Os passos se aproximaram mais e me assustei quando senti algo molhado tocar o meu pescoço. De súbito o virei e os meus olhos encontram as íris acinzentadas de Bryce. 

— Bryce? — perguntei. 

Minha voz estava arrastada. O remédio ainda agia no meu organismo. 

— Pensei que você não fosse acordar mais — ela falou, passando o pano molhado no meu pescoço.

— O que é isso? — tentei afastar a sua mão, mas minha mão caiu como se eu não tivesse o controle dela. 

— Estou te limpando — ela explicou com a voz doce e calma. — Já são quase cinco horas da tarde. Troquei a sua fralda, mas você precisa tomar banho. Não para de suar. 

— Pare com isso — tentei empurrar a sua mão, mas ela a desviou, passando o pano por meu peito. — O que está fazendo aqui? Não devia estar no hospital fazendo os exames...?

— Já os fiz.

— Ah... — tentei juntar as palavras, mas estava muito dopado para isso. Comecei a fechar os olhos. 

— Não tenho nenhum tipo de tumor, se você quer saber — Bryce falou de repente. Abri os meus olhos. — Mas acho que você não quer saber.

— Por que não quis falar comigo? — consegui perguntar.

— Porque... Não quis.

— Ah...

— O que você tomou?

— Mela... tonin. 

— Só isso? — apenas assenti. — Leah falou que te deu Diazepam ontem à noite.

— Ah, sim. Bryce, eu quero muito conversar com você, mas não agora.

— Está bem. Você precisa comer. Vou pedir para a senhora Flanders preparar algo e... E depois a gente conversa. 

Assenti novamente e fechei os meus olhos que pareciam ter chumbo. 

Bryce Point Of View 

Fiquei observando Justin por alguns segundos e quando percebi que ele tinha caído no sono profundo novamente, terminei de limpá-lo com o pano molhado. 

Depois desci e pedi para que a senhora Flanders preparasse algo para ele comer. Me encostei a bancada da cozinha e comecei a roer a unha do meu mindinho.

— Você está bem? — a senhora Flanders perguntou de repente.

— Estou... — falei.

— Não parece. Você geralmente não fica assim calada e pensativa.

— São só algumas coisas. Já terminou?

Ela assentiu e me entregou a bandeja que tinha um sanduíche de peito de peru e um copo de suco de maracujá.

— Maracujá não é uma boa ideia — falei sem jeito. — Ele já está dopado o suficiente. 

— Claro. Que cabeça a minha — bateu na testa. — Espere, vou fazer um de laranja. 

— Obrigada — coloquei a bandeja na bancada.

Percebi que a senhora Flanders estava concentrada no que fazia, então tirei o celular de Justin do meu bolso.

Ele estava com a tela rachada.

Liberei a tela.

Tudo bem que o celular era dele, mas mais cedo eu não pude deixar e procurei pelas fotos que tínhamos tirado no parque da Barbie, mas na havia mais nenhuma ali. A galeria tinha sido limpa. Até mesmo as suas fotos antigas tinham sido apagadas. 

Eu não sabia se tinha sido Justin que as apagou ou não, mas tinha ficado muito triste. 

E isso se misturou com a minha insegurança do dia anterior. Ele tinha prometido voltar para me ver no hospital, mas não voltou. Pode parecer bobagem, mas isso é o resultado de ser insegura e apaixonada por homem que ainda legalmente era casado. E para acrescentar nessa mistura, o meu problema que eu tinha descoberto. 

Talvez Justin já desconfiasse e por isso não me queria mais. Isso explica ele não ter voltado ao hospital e a sua indiferença há pouco.

Quem iria querer ficar com pessoa que não tem controle de si e que no fundo também precisa de cuidados?

Percebi que a senhora Flanders me observava. Tentei sorrir e guardei o celular.

 

Quase perto das sete horas, Justin despertou completamente e comeu o lanche que eu tinha levado.

O seu olhar estava distante e ele parecia evitar fazer contato visual comigo.

— Pronto para um banho? — perguntei. 

— Não — ele falou puxando as cobertas. — Por que você não quis falar comigo?

— Não estava me sentindo muito bem...

— O que você tem, Bryce? — olhei para baixo. — Me diga.

— Não é nada para se preocupar — tentei sorrir.

— Então me fale.

— É só... — torci os dedos. — Epilepsia... — não olhei para o seu rosto. — Eu sou epilética, Justin.

— Eu... — o olhei e ele sustentou o olhar. — Eu não imaginava que pudesse ser isso.

— Não?

— Não. Achei que fosse apenas o estresse mesmo. Isso mexe com o sistema nervoso e causa convulsões, mas...

— Se lembra do que te falei? Sobre o acidente com os meus pais? — ele apenas assentiu. — Eu tive traumatismo craniano e fiquei em coma. O médico explicou que pancadas fortes na cabeça, causam epilepsia. 

— E ela veio se manifestar somente agora?

— Geralmente ela se manifesta na faixa etária dos vinte a trinta anos.

— Ah. E agora? Você vai ter que tomar remédios?

— Um monte deles. Até mesmo rivotril — dei uma risada sem humor. Justin continuou sério. — Tá tudo bem.

— Tem certeza? — assenti. — Bryce...

— Só estou com medo de nunca mais ter controle sobre mim. O médico explicou que posso ter um ataque a qualquer momento, em qualquer lugar.

— Mas isso apenas se você não tomar os seus remédios, não é?

— Eles ajudam a controlar a doença, mas não significa que estou livre de um ataque. E isso é uma droga. E se eu estiver sozinha? Posso cair de mal jeito, bater a cabeça e morrer. Acredita que tenho que tomar cuidado até mesmo em uma piscina? Que tipo de vida é essa? Tomar remédios e rezar para que o seu cérebro não dê um pane a qualquer momento — olhei para o outro lado. — Eu te entendo se não quiser mais nada comigo...

— O quê? Por que eu não iria querer mais nada com você?!

— Porque... Eu não sei. Você quer?

— Bryce, epilepsia não é contagiosa. 

— Eu sei. Só acho que você não gostaria de presenciar mais um ataque.

— Não nego que foi assustador e o quanto me senti impotente com a situação. Mas isso não significa que eu não vou te querer mais. Sua vida não vai mudar, Bryce. Vai continuar sendo a mesma Bryce... Apenas vai tomar alguns remédios e cuidar mais da saúde.

— O médico explicou os cuidados que terei que ter... E são horríveis. Talvez eu não possa mais ajudar no abrigo.

— Por que não?

— As coisas por lá são muito estressantes. Eu não posso me estressar, não posso beber e nem me esquecer de tomar os medicamentos. Aí, Justin... Sinto que minha via acabou — me sentei ao seu lado e coloquei as mãos no rosto.

— Não diga isso. Nada vai mudar, Bryce. E claro que vai poder continuar ajudando no abrigo. 

— Não sinto isso. 

— Você está assustada, o que é normal quando a pessoa descobre o que tem. Esse pensamento de que uma pessoa com epilepsia não pode levar uma vida normal é coisa de pessoas sem conhecimento. O médico não falou que você já a tinha há um tempo? — assenti. — Viu? Ela nunca atrapalhou nada na sua vida. Você é inteligente e altamente capaz. 

— Mas eu não sabia que a tinha...

— Então haja como se não soubesse! Tome os remédios, os vendo apenas como uma de suas rotinas. Como sair para correr no Central Park, ou ajudar no abrigo. Você consegue. É só seguir as recomendações do médico e tudo ficará bem — segurou a minha mão. 

— Você tem razão...

Preferi não falar que a minha preocupação também era com os custos dos remédios. O meu convênio médico não os cobriria.

— Já pensou aonde vai me levar? — perguntei, querendo esquecer essa questão. Justin franziu o cenho. — No nosso encontro. 

— Ah. Ainda estou pensando. Primeiro preciso resolver algumas coisas na minha vida.

— Fala de Carol — assentiu. — Entendo...

— Não voltei para o hospital ontem porque ela esteve aqui pela tarde... — deslizou o dedos pelo dorso da minha mão. — Ela já sabe sobre nós. Assim como os meus pais. 

— Sabe? — o meu coração começava a disparar.

— Sim.

— E o que ela falou?

— Isso não importa. O que importa é que não precisamos mais nos esconder de ninguém. 

— Carol aceitou? Então isso significa que ela deve me odiar... Mais.

— Não importa — deitou a cabeça no travesseiro e me olhou com mais intensidade. — Vai ficar tudo bem. Falo sobre tudo. 

Apenas assenti. 

No fundo eu sabia que as coisas estavam longe de ficarem bem.

 

Descobri que as coisas não ficariam mesmo bem naquela mesma noite, quando cheguei em casa e me deparei com Carol na minha sala, tomando chá e conversando com Lauren. 

Como elas não tinha me notado, dei um passo para trás, pronta para fugir dali. Mas o som que as minhas sapatilhas fizeram no chão, fez com que as duas me olhasse.

— Ah, aí está ela — Lauren falou se levantando e me lançando um olhar de alerta. — Vou deixá-las a sós.

Passou por mim e tocou o meu ombro. 

Me voltei para Carol que tinha colocado a xícara na mesa de centro. Ela cruzou e descruzou as pernas. Até que se levantou e caminhou até mim com passos decididos. Dei um passo para trás quando ela levantou a mão, mas a deteve. 

Fechou os olhos e suspirou. 

— Eu não vou fazer isso — falou baixinho. — É isso que você quer que eu faça. Daí vai correndo para Justin e falar que eu vim até a sua casa te agredir. Eu não vou fazer isso, Garrison — se afastou de mim e passou a mão pelos cabelos. — Não vou.

— O que faz aqui? — perguntei com a voz falha. 

— Essa pergunta é seria? O que estou fazendo aqui? — engoli a seco. — Você achou que ia roubar o meu marido de mim e eu não faria nada?! Acha que as coisas são tão simples assim?

— Eu...

— Eu devia desconfiar que algo estava acontecendo. Você e essa sua bondade em excesso. Vocês passando horas no quarto, sozinhos, fazendo-se lá sabe o quê. Eu não percebi que tudo não se passava do seu plano maquiavélico. Justin pode não saber quais são suas reais intenções, mas eu sei, Bryce Garrison. Você está apenas se aproveitando dele! Com certeza quer ter uma vida melhor e escolheu Justin para dar o golpe, o que ao meu ver é algo sujo e baixo. Não pensou sequer nele? Ou em Merrin que você diz gostar tanto? Até mesmo em mim! Provavelmente você que fez a cabeça de Justin contra mim.

— Eu não fiz isso! Não me culpe pelos seus erros. E eu não estou me aproveitando de Justin, gosto dele de verdade. 

— E acha que eu não gosto também?!

— A forma que age, deixa a desejar.

— Você não pode dizer o que eu sinto ou não! Você e nem ninguém está no meu coração para saber exatamente o que eu sinto! Amo Justin sim! Se não o amasse, não estaria aqui me rebaixando e tendo essa conversa com você. Ele só está fragilizado com tudo e viu em você uma forma de se aceitar! Porque você age como se não estivesse nem aí com as condições dele. Sabe que ele precisa de cuidados e não dá a mínima importância. 

— Claro que me importo! Você sabe muito bem disso. 

— Eu não sei de nada! Tudo o que sei é que você está se aproveitando da situação para ficar bem de vida. Mas saiba que eu não vou deixar. Você não se passa de uma coisinha sem importância. Não seria nada difícil acabar com você. Então afaste-se de Justin enquanto há tempo. É o meu único aviso.

— Eu não farei isso.

Os seus olhos brilharam de uma forma assustadora e pensei que ela estava considerando a possibilidade de bater em mim.

— Você não tem o direito de entrar nas nossas vidas e destruir tudo o que construímos — ela falou por fim. Sua voz era puro ódio. 

— Eu não destruí nada. Você mesma que fez isso. Percebe o quanto é distante? Que só se preocupar consigo mesma?

— Isso não é verdade! Se estava distante era porque Justin me afastava! Eu passei os últimos anos tentando fazer com que ele aceitasse as condições e o incentivando a continuar, mas quanto mais o fazia, mais ele me afastava e chega uma hora que a gente cansa. Você não é perfeita e vai se cansar. Qualquer um se cansa. Mas isso não significa que eu não o queira mais. Muito menos para perdê-lo pra você. Então, aproveite enquanto é tempo e suma de nossas vidas.

— Você pode me ameaçar o quanto quiser. Não tenho medo e não vou deixá-lo — falei decidida. 

— É dinheiro que você quer, não é? Faça o seu preço. Eu te pago e você some!

— Saía da minha casa...

— Todos têm um preço, Bryce. Inclusive você que não se passa de uma pobre coitada. 

— SAÍA JÁ DAQUI!

Carol deu um sorriso sarcástico, pegou a bolsa e a abriu.

Tirou dali um talão de cheques.

— Vou deixá-lo com você — falou destacando um cheque. — Quando decidir parar de brincar com os sentimentos de Justin, me ligue e fale quanto quer para sumir de uma vez por todas — empurrou o cheque contra o meu peito. Não o segurei, ele caiu no chão. — Estou sendo pacífica. Não tente me provocar.

Passou por mim se batendo e se foi.

As minhas mãos começaram a tremer e me senti desnorteada. Cai de joelhos, peguei o cheque e o rasguei em pedaços.

Tentei controlar os meus movimentos, mas era impossível. Olhei para as minhas mãos. Estavam pálidas e tremiam muito.

— Lauren! — chamei por Lauren, desesperada.

Eu sabia o que aquilo significava.

                       [...]

Abri os meus olhos lentamente e tentei enxergar algo entre a escuridão. 

Impossível. 

Senti braços em torno de mim e percebi que estava com a cabeça deitada sobre o peito de alguém. Podia ouvir o som do seu coração. 

Estava prestes a falar o nome de Lauren, mas reconheci aquele perfume. 

— Charlie... — falei baixinho.

Não obtive resposta, mas sabia que era ele. Apertei os braços em volta da sua cintura e enterrei o nariz no tecido macio do seu moletom. 

Senti os seus dedos acariciando os meus cabelos e relaxei mais.

 

Quando acordei novamente, estava sozinha na minha cama e já era dia.

Me sentei e olhei ao meu redor. Sabia que não tinha sido um sonho porque o perfume de Charlie ainda impregnava o quarto. 

Joguei as pernas para fora da cama e tentei me lembrar do que tinha acontecido. 

Havia apenas um branco na minha memória e tinha certeza que tinha tido novamente uma crise epilética.

Fui para o banheiro, arrastando os pés e me tranquei. Me olhei no espelho, assustando-me com o machucado que estava na minha têmpora esquerda, ao mesmo tempo que senti o gosto amargo do sangue na boca.

Me curvei sobre a pia e cuspi o sangue.

                     [...]

Eu estava no fim da escada, observando todos que desciam.

Atrás do último grupo, avistei Matthew de cabeça baixa.

Esperei que passassem por mim e quando ele estava próximo, o puxei pelo braço. Ele me olhou assustado e não tentou escapar. 

— Você está bem? — perguntei, reparando que o seu machucado estava melhor do que da última vez que o vi.

— Hã... Sim? — ele falou confuso. — O que você quer?

— Eu estava pensando e acho que devíamos ir atrás da sua mãe. 

— Por quê?

— Porque ela é a sua mãe e sei que você sente falta dela. 

— Eu já te expliquei a situação. Não vamos atrás dela.

— Me diga então onde fica a casa do Bob, eu posso ir lá sozinha e tento convencê-la. 

— É um bairro barra pesada. E não quero que você fique se metendo na minha vida! Só falei porque ficou enchendo o saco, mas não significa que quero a sua ajuda — se soltou de mim bruscamente. — O que aconteceu com o seu rosto?

— Ah... — toquei o Band-aid que tinha colocado sobre o machucado na minha têmpora. — Eu cai...

— Sei.

— Vamos, Matt, me dê o endereço. Posso fingir que sou apenas uma amiga. O Bob não precisa saber.

— Você não sabe no que está se metendo — olhou ao redor. — Ele é perigoso. Matou a última mulher — engoli a seco. — Se desconfiar de algo, você tá morta. Ele vai te matar e esconder o corpo, ninguém nunca mais vai te achar.

— Está tentando me assustar.

— Não mesmo. 

Mordi os lábios e olhei dentro dos seus olhos azuis. Era uma coisa que aprendi com a minha mãe quando ela queria me intimidar, ou tentar descobrir se eu estava mentindo. 

— Acho que já estive na presença de homens piores que esse Bob — falei por fim.

— Sério?

— Sou voluntária de saúde, se esqueceu?

— O que isso tem a ver?

— Quer almoçar comigo fora daqui?

— Por que eu iria querer?

— Por que tenho algumas coisas para te falar.

— Não acho que seja uma boa ideia. Sei muito bem que vai tentar me convencer a falar onde é a casa do Bob e eu não vou!

— Prometo que não — segurei a sua mão novamente. — Vamos. 

Ele tentou protestar, mas eu já estava o arrastando para fora.

 

O nosso almoço foi hambúrguer e batatas fritas que comprei no Burger King. Matt não quis ficar no restaurante, então o levei a High Line — onde eu e Justin tivemos o nosso primeiro encontro — e procuramos um banco livre para nos sentarmos. Aquela hora o parque estava cheio, então o levei para a rua 26. 

Matthew parou próximo a uma lixeira e fiquei estarrecida o observando abrir o saco de papel com o seu lanche, tirar o hambúrguer, abri-lo e jogar a carne fora. Depois ele o guardou de volta à sacola e me seguiu. 

Nos sentamos suspenso sobre a ponte e lhe entreguei o suporte com os copos de refrigerante para ele e abri o meu saco.

— Pensei que você estivesse brincando quando falou ser vegetariano — falei, enquanto ele fazia o mesmo que eu.

— Por que achou isso? — ele perguntou me olhando. O sol refletiu nos seus olhos, os deixando quase brancos.

— Talvez acreditei que você pudesse ser um garoto normal e brincar às vezes — dei de ombros. — Mas por quê? Você não parece ser o tipo de pessoa que luta a favor dos animais.

— Eu não estou nem aí para os animais. Só não consigo comer carne.

— Por quê?

— Você quer mesmo saber?

— Estou perguntando. 

Ele suspirou e olhou para o horizonte. 

— Você deve saber o que aconteceu com o meu pai...

— Ouvi boatos no lá no abrigo — mordi um pedaço do lanche e fiquei o encarando. Ele balançava as pernas no ar e mordia o lábio inferior. — Sei que foi ele que fez isso no seu rosto... — me olhou. — E que foi morto por um traficante.

— O  que mais?

— Que ele era um homem muito violento...

— Só isso?

— Sim — ele deu uma risada anasalada e voltou a olhar para frente. — Há algo mais que eu devia saber?

— Isso não faz diferença. Ele está morto. E quando não estava morto, ninguém se importava... — cruzou os dedos e mordeu os lábios com mais força. — Eu o vi ser morto...

— Sei disso também...

— Sabe como ele morreu?

— Não. 

— O espancaram até a morte. O esfaquearam também. Bem na minha frente. Eles sabiam o que ele fazia comigo e então me fizeram ajudá-los. Eu não consegui, as minhas mãos tremiam muito. Tudo o que consegui fazer foi um corte no seu braço. Depois me fizeram assistir a execução até o fim. Eu tentei senti alguma coisa, mas toda vez que fechava os meus olhos para não ver o que eles faziam, imagens do que ele fazia comigo vinham a minha cabeça. Eu não senti nada. A única coisa boa com a sua morte, foi que os abusos pararam. Mas em compensação, mamãe se afundou mais nas drogas. 

— Ele... Ele abusava de você? — eu não conseguia parar de olhá-lo. Estava assustada e chocada.

— Existem vários tipos de abusos — ele falou dando de ombros. — emocionais também. Mas já passou.

— Eu sinto muito... As pessoas não vê muita importância a abusos emocionais, mas sei o quanto é sério. 

— Você já sofreu?

— Não, mas tenho conhecimento — assentiu. — Por isso você não como carne?

— Sim.

— Bem, explica...

— Você disse que já esteve na presença de homens piores que o Bob... O que isso quer dizer?

— Sabia que eu ia para a África com grupos de voluntários? — negou com a cabeça. — Pois é. Lá tem muitos lugares bonitos, os lugares que os filmes só mostram. Mas há muita pobreza, sofrimento, fome e miséria. E eu ia para esses lugares. 

— Para quê?

— Ajudar as pessoas. Dar assistência médica. 

— Ah... Por que não está mais lá? 

— Como eu disse, tem muito sofrimento. O caso é que há pessoas muito violentas também. Na Somália há alguns grupos armados que aterrorizam aldeias. Eles matam também. Homens, mulheres e crianças. Uma vez tive que dar assistência médica ao líder de um desses grupos. Era um homem sujo, com um coração obsceno. Sabe o que ele fazia? — ele apenas deu de ombros. — Abusava de crianças entre dois a quatro anos. Dizia que era um tipo de sacrifício para levar paz a Somália.

— E por que você o ajudou?! O que ele tinha?

— Tinha levado um tiro. E o ajudei porque fui obrigada. Os seus homens apontavam armas para mim todo o tempo e o mesmo quando terminei, encostou uma arma na minha cabeça e disse que só não me matava porque eu não tinha dois anos.

Essa era uma das muitas situações que escondi de Lauren e preferi esquecer.

— Esse homem é um monstro — Matthew falou. 

— Pois é. Acho que saberia lidar com o Bob.

— O Bob também é uma assassino. Não de crianças, mas não faz diferença. 

— Eu não vou insistir. 

— Tá... Até que você é legal, sabia? A sua vida...

— Você também até que é legal — coloquei o braço sobre os seus ombros e o senti ficar tenso. — Relaxa, eu não vou te morder.

Matt deu risada e realmente relaxou.

                       [...]

O rosto de Charlie não esboçou nenhuma emoção quando ele abriu a porta. 

Eu torci os meus dedos e tentei controlar a vontade de desmoronar ali na sua frente. 

— Oi... — falei.

— Oi — ele respondeu sem um pingo de emoção na voz.

— Vim buscar as minhas coisas...

— Estão aqui — abriu mais a porta e pude ver a minha mochila com as poucas roupas que eu tinha levado na sua mão. Ele a me entregou. — Era só isso?

— Espera! — pedi antes que ele fechasse a porta. Ele me olhou entediado. — Você esteve lá em casa ontem à noite...?

— Lauren me ligou. Estava desesperada. Eu tive que ir — deu de ombros. — Era só isso?

— Você... Ela te falou?

— Sim. Eu sinto muito. Mas hoje em dia existem remédios ótimos para isso. Você vai ficar bem. Agora se me der licença...

— Não faz isso comigo, Charlie... Por favor.

— Eu estou mesmo ocupado, Bryce. Podemos conversar uma outra hora?

— Quando?

— Quando eu não sentir mas raiva ao olhar na sua cara — meus olhos se encheram de lágrimas. — Se cuida. 

E ele fechou a porta na minha cara. 

Coloquei a mão na minha boca, forçando o soluço a voltar para dentro. Eu não podia desmontar ali, não quando ainda sentia que era capaz de mas uma vez perder o controle do me corpo em menos de doze horas.

Charlie estava magoado. Eu merecia a forma que ele estava me tratando. Merecia isso mais do que ninguém. 

Coloquei a mochila nas costas e fui arrastando os pés até o elevador.

Esperei cinco minutos e quando as portas se abriram, me deparei com uma morena muito bonita.

Eu a reconheci. Ela que estava uma vez com Charlie no pub que sempre íamos. 

Jennifer.

— Opa — ela falou quando as portas ameaçaram fechar, as segurando. — Vai entrar?

Senti todo o meu corpo tremendo.

Charlie tinha conseguido superar mais rápido do que eu esperava.

Apenas assenti para ela que sorriu e saiu do elevador. Entrei e fiquei a vendo caminhar pelo corredor. Quando parou em frente à porta do apartamento de Charlie, soltei as portas, deixando que se fechassem.

                          [...]

— Aí! — Justin exclamou quando cortei a unha do seu pé.

Olhei para cima e encontrei os seus olhos castanhos. Um sorriso maroto estava no canto dos seus lábios. 

— Aí? — perguntei. 

— Sim? — ele falou ainda sorrindo.

— Sei que não te machuquei. E mesmo se o tivesse, você nem ia saber.

— Tem certeza? Eu estou olhando para você. 

— Para mim, não para o seu pé.

Ele riu e esticou a mão, tocando o Band-aid na minha têmpora.

— Eu sei — falou. 

Sorri, segurei a sua mão e a beijei. Os olhos de Justin brilharam mais. O sol que passava pelas cortinas, refletiam nos seus cabelos que agora estavam mais baixos. No dia anterior Pattie o tinha levado para cortá-los.

Eu tinha gostado do resultado, o seu rosto ganhou um novo brilho e o deixou com uma aparência mais jovem. Até sua pele estava menos pálida e as olheiras abaixo dos seus olhos mais claras.

— Agora me deixe terminar — pedi.

Ele apenas assentiu e soltou a minha mão.

Ouvi a porta sendo aberta, mas não olhei para ver quem era.

— Não acredito — Justin falou, levando a cadeira para trás.

Olhei para trás e vi que Pattie que entrou no quarto. Merrin estava no seu colo.

Me levantei de súbito.

— Bryce! — ela exclamou, tentando pular do colo de Pattie.

— Minha princesa! — falei indo até Pattie e a pegando. — O que faz aqui? — olhei para Justin que se aproximava.

— Eu fui pegá-la — Pattie explicou fazendo um gesto com a mão. — Não vou deixar de ver a minha neta por causa de dois adultos que se comportam como duas crianças — lançou um rápido olhar para Justin que rolou os olhos. — Achei que você quisesse vê-la, Justin. 

— Claro que eu queria vê-la — ele falou, assentindo para mim. 

Entendi o que queria e coloquei Merrin no se colo. 

— Papá! — ela falou abraçando o seu pescoço. 

— Que saudade, filha... — acariciou as costas de Merrin e cheirou os seus cabelos. — O papai está feliz em te ver.

Sorri com isso e o meu coração se aqueceu mais. De repente, eu não estava mais triste com os meus problemas. Era incrível como eu gostava de olhar os dois juntos. Mesmo não tendo jeito com Merrin, era bom vê-lo se esforçando. 

— Fiquem com ela. Preciso orientar a senhora Flanders na cozinha. Algumas amigas minhas irão almoçar aqui — Pattie falou.

— Pode deixar com a gente — falei sorrindo.

— Termine o que estava fazendo — ela falou olhando para a tesoura na minha mão. 

Olhou em seguida para Justin que tampava os próprios olhos com as mãozinhas de Merrin. Ela sorriu e deixou o quarto.

 — Vamos terminar com essas unhas? — perguntei por fim.

— Agora não. Vamos ao jardim? — Justin perguntou sem tirar os olhos de Merrin. 

— Claro!

Eu tinha agradecido por ele ter se alojado no quarto que ficava no primeiro andar, assim não teríamos que esperar por Rick para descê-lo. 

Coloquei os seus sapatos e arrumei os seus cabelos rapidamente. No guarda-roupa, peguei um lençol. O entreguei a Justin e empurrei a sua cadeira para fora do quarto. 

Merrin tentou ficar de pé no seu colo, mas ele a segurou. 

Molly estava na sala e quando me viu,  fechou a cara. Com certeza Carol tinha falado sobre mim e Justin para ela.

A ignorei e saímos da casa. 

A manhã estava agradável e o jardim mais bonito com a chegada da primavera. Guiei a cadeira de Justin pelo gramado e parei debaixo da árvore onde tínhamos deitado uma vez.

Merrin pulou do seu colo e tento puxar o lençol da minha mão. 

— Você quer me ajudar? — perguntei rindo. 

Ela apenas assentiu e segurou desajeitada na outra ponta do lençol. O abri e coloquei no gramado para que pudemos nos sentar.

Parei a frente de Justin. Ele abaixou mais os braços reguláveis da cadeira e levantou os seus, em um convite para que eu o pegasse. 

Ri com isso e com cuidado passei os meus braços em torno do seu tronco. Quando o ergui, ele afundou o nariz nos meus cabelos e depois cheirou o meu pescoço. 

— Eu preciso descobrir o nome desse perfume — ele falou baixinho. 

Sua respiração fez cócegas no meu pescoço e me arrepiei dos pés a cabeça.

— Eu gostaria se você descobrisse — falei tão baixo quanto ele. — Está quase acabando. 

— Eu vou descobrir — deslizou os lábios por meu pescoço.

Tentei manter a minha cabeça no lugar e com cuidado o coloquei deitado no lençol. Merrin foi até ele e subiu na sua barriga. Me sentei ao seu lado e olhei para o céu que estava azul e com muitas nuvens. 

— Sempre há o sol depois da tempestade — Justin falou. 

— Por que está falando isso? — sustentei o seu olhar. 

— Você não acha?

— É... Talvez — tirei uma folha da árvore que caiu no meu colo e olhei para o outro lado. 

Não sabia o que ele queria dizer com essas palavras. Talvez desconfiasse do que Carol fez. Ou não. Mas eu preferi não falar sobre ela ter ido a minha casa e me oferecido dinheiro para me afastar. 

— Deite-se — Justin pediu, me tirando dos meus pensamentos. 

Sorri e me deitei ao seu lado.

Justin levantou o braço esquerdo e acariciou os meus cabelos. Virei a cabeça para olhá-lo. Ele sorria.

— O que foi? — perguntei também sorrindo. 

— Nada. Apenas estou feliz por estar aqui com você.

— Eu também estou, Justin — deitei de lado, me apoiando no cotovelo. — Seria um bom final para um livro, não acha? Deitados debaixo de uma árvore, ao lado das pessoas que amam...

— E no fim da página estaria um “fim” em aberto. 

— Por que em aberto?

— Por que uma estória nunca chega ao fim, mesmo depois do fim. 

— Isso eu não entendi — ele riu. — Se ela não chegasse ao fim, teria sequências. 

— Mas não é melhor você mesmo escolher o fim? Ou ao menos pensar o que aconteceu depois do fim?

— Quando você não confia no autor, sim.

— Prefiro escolher o meu fim — Merrin se deitou sobre o seu peito e ele sorriu, alisando os seus cabelos. 

— Você é sempre assim?

— Assim como?

— Ah, sei lá. Com suas próprias opiniões. 

— Acho que todo mundo deveria ser assim.

— Concordo — apoiei o queixo no seu ombro. — Vamos escrever o nosso próprio fim, Justin. 

Ele virou a cabeça e beijou a minha testa.

Justin Point Of View 

Três semanas depois, os documentos para o divórcio chegaram. Liguei para Carol para avisá-la, mas ela não estava em casa. Quem atendeu foi Molly, falando que ela estava na Madison com a mãe, arrumando a loja de souvenir. Pedi para que ela desse o recado e desliguei. 

Mamãe ficou o tempo todo com a cara fechada, depois que leu os documentos. 

— A casa em Maine não é dela? — perguntou depois de ler os documentos pela quinta vez.

— Não, é minha — falei.

— Mas não está no contrato que qualquer propriedade comprada durante o casamento passaria para o nome de Carol?

— Não a casa em Maine, a comprei quando estávamos noivos. E Carol a odeia.

— Mas por quê? A casa é maravilhosa!

— Ela acha que é muito isolada.

— O que ela mais queria? É em uma ilha!

— Esse é o principal motivo para ela odiá-la. Mas não me importo, posso passar para o seu nome e ela decide o que faz. Pode vender se quiser.

— Não faça isso, Justin! Aquela casa foi muito cara para você simplesmente dá-la para Carol. Provavelmente ela vai vendê-la. 

— É o mais provável. E para que vou querer ficar com a casa se nem vou mais lá?

— Por que não quer? Não se desfaça dela agora. Pode ir lá quando quiser deixar Nova York um pouco e relaxar. 

— A quer? Posso te dar.

— Não gosto de ilhas — suspirei. — Só não a dê para Carol. Depois podemos pensar em algo melhor. 

Apenas assenti.

Ela voltou a ler os documentos.

 

Mais tarde Jonny apareceu, me chamando para sair. Eu queria ficar em casa e esperar por Carol, mas ele insistiu tanto que decidi aceitar o convite.

Pattie o alertou sobre bebidas e ele ficou irritado. Falou que o que tinha acontecido da última vez foi uma fatalidade.

— Onde você quer ir? — ele perguntou depois de certificar se o cinto que me prendia estava bem preso.

— Vamos no shopping? Acho que quero comprar algumas roupas. 

— Espera. Isso foi novo! — neguei com a cabeça. — Cara, estou cada dia mais gostando da Bryce!

— Isso não tem a ver com a Bryce. Só preciso de roupas novas.

— Desde quando você liga para isso? Digo, você não tá nem aí para o que veste. Veja só, até cortou o cabelo. Se isso não tem nada a ver com a Bryce, o que está acontecendo com você então?

— Eu...

— E você nem compra roupas no shopping, compra tudo pela Internet!

— Tudo bem, Jonny. Talvez eu queria ir ao shopping e estou dando uma desculpa qualquer. 

— E o que tem a ver ter que fazer compras? Você ainda está intoxicado com as manias da Carol.

— Quer saber? Esquece, eu não quero mais!

— Brincadeira! — saiu do carro. — Você tem que ter mais senso, Justin. 

Não o respondi. Ele deu a volta pelo carro e quando se acomodou no volante, olhou para mim.

— Sei que você quer conversar comigo longe daqui — falou. 

Piscou e ligou o carro.

Fomos ao mesmo shopping que eu tinha ido com Bryce e Merrin. Jonny estranhou a minha escolha, mas nada falou. Aquele era um dos shoppings mais simples do Brooklyn. As lembranças que eu tinha dele, eram agradáveis.

Entramos e saímos de lojas, a procura de roupas. 

Eu não gostava de fazer compras nem mesmo quando andava, o que é claro, hoje em dia odeio. Mas eu queria mesmo comprar roupas novas. Pattie e Bryce andavam me incentivando muito. 

Toda vez que eu escolhia alguma roupa, Jonny torcia o nariz e sugeria procurarmos em outra loja.

Finalmente encontramos uma loja que só vendia roupas masculinas. Era um loja para todos os estilos. Jonny ficou empolgado e falou que me daria algumas dicas, e claro que eu aceitei. Gosto do jeito que ele se veste.

— Acho que devia ser um número maior do que visto — falei quando ele me mostrou uma calça de brim. 

— Por quê? Acho que essa vai ficar boa.

— Vai ficar muito apertada. 

— Não vai, Justin. Eu tenho quase certeza de que não vai. Afinal, é o seu número. 

— Você não entende. É diferente usar uma roupa do seu tamanho quando se está sentado o tempo todo em uma cadeira de rodas. Sem falar que é mais difícil para vestir.

— Acho que é só uma desculpa para você continuar se vestindo mal. Mas se esse é o problema, vamos levar duas de tamanhos diferentes — jogou a calça no meu colo e percorreu pelas araras, a procura da calça. 

Voltou para perto de mim com outra calça e a jogou no meu colo também.

— Posso escolher todas as roupas? — perguntou.

— Claro.

Levamos quase três horas para escolher as roupas e não levei nem metade do que tínhamos pego. Não que fossem ruins, mas eu achava que não se encaixavam no meu padrão. 

Jonny ficou irritado, mas também não discutiu. Depois que saímos da loja, procuramos um café. Ele escolheu uma mesa afastada e pediu o cardápio para atendente. 

— O que vai querer? — perguntou percorrendo os olhos pelo cardápio.

— Espresso macchiato e uma água com gás.

— Doce como você  — respirei fundo. 

Ele riu e fez um gesto com a mão para a atendente que tinha se afastado apenas um pouco para nos dá privacidade. Fez os pedidos.

— Você quer ter uma conversa de homem pra homem? — ele perguntou quando a mulher se afastou. 

— Talvez. — riu. — Na verdade, quero sua opinião e uns conselhos. 

— Claro. Estou aqui para isso. Pode falar.

— O que você acha da casa em Maine?

— A casa em Maine? Maravilhosa. Foi lá  que fizemos sua despedida de solteiro. Se lembra da Britney? — sorriu malicioso. 

— Como não lembrar? Ela queria que eu cancelasse o casamento só para ficar com ela. E não tivemos nada naquela noite.

— Porque você é tonto.

— Tanto faz. Ela só estava interessada na casa. 

— Que seja. Mas ela era mais bonita que Carol. 

— Beleza não importa, Jonny. Mas não é sobre isso que eu queria falar. Queria saber se você não a quer. 

— Você quer me dar a casa? Simples assim?

— Sim.

— Só pode ser uma brincadeira — olhou a redor. — Cadê as câmeras?

— Jonny.

— Que coisa mais sem sentido, Justin. É um presente maravilhoso, mas para que eu vou querer uma casa na ilha? Mal tenho tempo para ficar na minha casa aqui em Nova York.

— Imaginei que você não fosse querer. 

— Se quer se livrar, porque não a vende?

— Não quero fazer isso. 

— Então você é maluco. Era sobre isso que queria falar?

— Não... — assentiu. — O que você acha da minha relação com Bryce?

— Hã... Eu não sei. Como qualquer outra relação?

— Não tem só isso.

— Ambos são malucos?

— Jonny, isso é sério. 

— Ah, foi mal. Eu acho interessante. Vocês se dão muito bem e combinam — sorri. — Só isso?

A atendente chegou com o pedido e esperei que ela arrumasse tudo na mesa e saísse. Jonny colocou açúcar no café e ficou o mexendo, me olhando objetivo. 

Ignorei o seu olhar, abri um dos saches de açúcar e o joguei no meu café. 

— Concordo com tudo o que você falou — falei por fim. — Mas há uma coisa me incomodando.

— Nela? Acho melhor você averiguar para não acontecer o mesmo que aconteceu com Carol.

— Não é com ela. É comigo. Com nós dois...

— Estou ficando confuso. Poderia falar de uma forma que eu entenda?

— É que... — O olhei sem jeito. Não tinha certeza se queria falar sobre isso justo com ele que leva tudo na brincadeira. — Acho que já te falei como estava indo a minha relação com a Carol. Sobre a nossa vida sexual.

— Ah, sim.

— Eu não me sinto seguro quanto a isso... Fiz algumas pesquisas e vi que há um meio, mas nunca tive coragem de tentar — fiz uma pausa e olhei para ele que estava com uma expressão séria. — Carol sempre esperou o melhor de mim e eu não queria decepcioná-la. Talvez se tivéssemos tentado, não estaríamos na situação que estamos agora. Mas a questão é que acho que nunca vou conseguir fazer isso novamente. 

— Isso você quer dizer sexo? — assenti. — Por que acha isso?

— Porque estou em uma cadeira de rodas. 

— Isso é sério?!

— Eu não consigo, Jonny. Já ouviu falar em estímulo reflexo e psicogênico?

 — É algo sobre conseguir uma ereção com estímulo visual ou tato?

— Sim. 

— Você já tentou com Carol? — sorriu com malícia. — Ou com Bryce?

— Não! Eu nunca tentei. Carol leu sobre isso na internet e sempre me estimulava a tentar. 

— Estimulava literalmente?

— Literalmente apenas uma vez, alguns meses depois do acidente — seu sorriu malicioso aumentou e me senti profundamente envergonhado. — Mas eu não consegui.

— Onde você quer chegar com isso?

— Sério?

— Claro que você quer transar — bateu com força no meu braço. — Só estou brincando. Prossiga. 

— Você acha que posso conseguir?

— Bem, eu não sei...

— E se eu conseguir? Como vai ser?

— Depende. Há muitas formas. 

— Mas eu não ando...

— Você por  acaso já fez ou viu alguém fazendo sexo andando, Justin? — mordi o lábio inferior e neguei com a cabeça. — Que mania de achar que uma pessoa com dificuldade de locomoção não poder ter uma vida sexual normal. Claro que você pode. Mas tem que querer. Mas espera uma coisa... Você quer fazer isso com Bryce ou com Carol?

— Acho que não preciso falar isso. 

— Claro que é com Bryce — senti tudo esquentar do meu pescoço ao meu rosto. — Não precisa se envergonhar, Justin. 

— É que eu gosto dela e me sinto confortável ao seu lado. Não é como se ela fosse reclamar caso não dê certo. E eu quero...

— Você quer...?

— Você sabe. 

— Transar?

— Poderia falar mais baixo? — ele estava me irritando. 

— Desculpe. 

— A questão é que eu não sei como fazer isso e quando estou com Bryce e estamos nos beijando, percebo que ela quer mais e eu não posso — olhei para baixo. Olhar nos olhos de Jonny falando essas coisas me deixava desconfortável. — Digo, como posso fazer?

— Já ouviu falar na arte do improviso? Os seus braços se mexem e... — se inclinou sobre a mesa. — E sua boca. 

— Meu Deus, eu sabia que não podia falar sobre isso com você! — ele gargalhou. —  Sério, você é terrível. 

— Só estou falando a verdade.

— Tá bom. Mas digamos que ela aceite essa esmola. Como vai ser o resto?

— Tem certeza de que quer ouvir? — assenti. — Já ouviu falar em Sildenafila?

— O remédio?

— Existe algo com esse mesmo que não seja ele?

— O meu urologista me receitou.

— Mentira. 

— Sério — peguei a minha carteira do bolso e a abri.

Jonny ficou me olhando curioso. Tirei o papel dobrado dali e lhe entreguei. 

— Quando foi isso? — ele perguntou desdobrando o papel que já estava amarelado.

— Há quase um ano — ergueu uma sobrancelha. — Achei a ideia humilhante!

— Que bobagem. É normal. As letras ainda estão legíveis. Ótimo. 

— Por que ótimo?

— Por que vamos comprá-lo agora — terminou de tomar o café e tirou algumas notas da carteira, as colocando na mesa. — Vamos. 

— Jonny, eu não quero isso — protestei quando ele ficou atrás de mim e me puxou. 

— Claro que quer. Caso contrário não teria guardado a receita.

Isso me deixou sem palavras e tive que deixá-lo me empurrar para fora do café. 

Já na farmácia que ficava no shopping mesmo, ele teve que convencer ao farmacêutico a vender o remédio. Ele reclamou sobre a receita ser antiga. Mas quando Jonny falou que era para mim, ele mandou que esperássemos e sumiu das nossas vistas.

 — Isso é ridículo — falei. — Como vou falar para Bryce isso?

— Você não precisa falar. 

— E se Pattie ver? Ou a Leah? Ou até mesmo Bryce! Como vou me explicar?

— Não é como se fosse drogas, Justin. 

— Tá, mas e depois?

— Como assim?

— Eu nunca teria coragem de falar sobre isso com Bryce...

— Não é como se você precisasse falar. Será natural como um sexo natural. Vocês vão se beijar, as coisas vão esquentar e não precisarão falar nada. Seus corpos responderão por vocês e pronto!

— Não é bem assim. O médico falou que preciso tomar o remédio meia hora antes. Não acha ruim isso? As coisas não têm que acontecerem naturalmente, sem planejamentos?

— Você tem razão. Pode tomar sempre que for vê-la e se acontecer, aconteceu. 

— Não está bom. 

— Então esqueça o que o médico disse. Os tome como tratamento e se tiver que acontecer, vai acontecer. Sem precisar de remédio!

— E a vergonha se eu não conseguir?

— Você não disse que Bryce te deixa confortável?

— Sim, mas isso é diferente. 

— Claro que não.

Nos calamos quando o farmacêutico voltou, trazendo consigo duas caixas do remédio. Desejei que um buraco se abrisse e me engolisse.

 

Jonny ficou  para o jantar e depois disso fomos para o meu quarto, ler a bula do remédio. 

Ele estava achando a situação divertida, mas o que eu achava, não chegava nem perto disso. Não queria que mamãe, Leah e muito menos Bryce encontrasse o remédio, então tive a ideia de colocar as pílulas em um frasco de analgésico que estava quase acabando. Jonny se livrou das caixas, rindo da minha cara. 

Depois disso foi embora. 

A receita disse que era para tomar um por dia, então tomei um antes que Leah aparecesse para me trocar.

Dez minutos depois ela entrou no quarto e tentei não parecer com uma criança que tinha culpa no cartório. 

Naquela noite resolvi não tomar melatonin para dormir, muito menos Diazepam, pois não queria nenhum efeito adverso. 

Passei a noite em claro, tentando sentir alguma diferença. Mas não houve nada e quando os primeiros raios de sol entraram pelas cortinas do quarto, deixei que algumas lágrimas caíssem, e depois consegui dormir.

Bryce Point Of View 

Chovia muito naquela manhã, mas eu estava feliz. 

Lauren atualmente estava saindo com um dos modelos da sua agência e ele não era um simples modelo, era um cara de contatos e tinha conseguido quatro ingressos para o fim da primeira temporada da MLB que aconteceria no Yankee Stadium. E era justamente o Toronto Blue Jays que jogaria contra os Yankees. Poderia ser melhor se os lugares fossem na área reservada para deficientes. Mas isso era o que menos importava. 

Mandei Lauren agradecer ao tal Carter — o homem dos contatos — e quando estava com os ingressos nas mãos, quase tive um  enfarte de tanta felicidade. Lauren me alertou, para que não me esquecesse do meu problema. Mas eu não liguei. Estava tomando os remédios corretamente e pela primeira vez em semanas, consegui me sentir mais positiva.

Uma coisa que Lauren detestava — depois de lojas de departamento —, era jogos de Basebol. E deixou claro que não me  acompanharia junto com Justin para ver caras acertarem bolas com um taco.

Eu tinha quatro ingressos, sendo que um era pra mim e outro para Justin. Só precisava achar mais duas pessoas para nos acompanhar, apenas para não desperdiçá-los. 

Por um momento pensei em Charlie. Ele amava Basebol. Mas eu não iria chamá-lo. Não quando ele não suportava olhar para a minha cara e estava buscando conforto nos braços da Jennifer.

Talvez Jonny gostaria de ir. Ou até mesmo levar Merrin que já podia entrar  em um estádio. 

Passei o fim de semana planejando como faríamos. Ainda tínhamos uma semana para resolver. Preferi dar a notícia pessoalmente a Justin, então estava ansiosa para chegar na casa de Pattie.

No penúltimo trem que peguei para chegar ao Park Slope, houve uma confusão. Uma senhora disse que um garoto estava tentando lhe roubar a bolsa. Alguns passageiros seguraram o garoto, que dizia que não estava tentando roubar nada.

O seguraram até a próxima estação, onde chamariam um guarda. Quando o trem parou, ele conseguiu se soltar do homem que o segurava, tomou a bolsa da senhora e saiu correndo para fora do trem.

Uns cinco homens foram atrás dele. 

Tentei ver se o tinham pego, mas as portas se fecharam e em questão de segundos, todos no vagão agiram como se nada tivesse acontecido.

Encontrei Pattie na varanda da casa, regando algumas flores.

— Bom dia! — falei. 

Ela me olhou com a sobrancelha arqueada.

— Bom dia, Bryce — falou.

— Justin já acordou?

— Sim. Leah o triou da cama. Tudo bem?

— Sim. Por quê?

— Nada...

— Vou vê-lo. 

— Claro...

Passei por ela e entrei na casa. Fui direto para o quarto de Justin e entrei sem bater.

Ele estava próximo a janela e ao me ver, guardou algo as presas no bolso da sua calça de moletom. 

— O que você tem aí? — perguntei rindo. 

— Não é nada — ele falou um pouco atrapalhado. Me aproximei. — Não achei que chegaria agora. Bom dia.

— Bom dia — me inclinei e beijei os seus lábios.

Ia me afastar, mas ele segurou na minha nuca e aprofundou o beijo. Sua boca de tinha gosto de menta. 

— Hum... — falei entre os seus lábios. — Amo o seu creme dental. 

— Pensei que você me amasse.

— Eu te amo também — rocei o me nariz ao seu. — O que você tem aí? — toquei a barra da sua calça, ele pareceu não perceber. Claro.

— Não é nada.

— O que está aprontando, Justin? — os meus dedos já estavam no seu bolso. Era um golpe baixo, mas eu estava mesmo curiosa. 

— Eu já falei que não é nada — sua cadeira deslizou para trás. Eu me desequilibrei e quase cai. — Pensei que você fosse vim pela tarde. 

— Eu queria te mostrar uma coisa! — tirei a mochila das costas e a abri. — Fecha os olhos!

— É uma surpresa?

— Quase isso.

Ele riu e fechou os olhos.

Peguei os ingressos.

— Pode abrir!

Justin abriu os olhos e encarou os ingressos que eu balançava.

— O que é isso? — perguntou confuso. 

— Ingressos!

— Ah... Para quê?

— Para veremos o jogo no próximo sábado no Yankee Stadium! Os Yankees vão jogar contra o Toronto Blue Jays! O que achou?

— Legal... Você os comprou?

— Lauren ganhou e me deu.

— Onde vai ser? — onde ele estava com a cabeça?

— Justin, onde fica o Yankee Stadium?

— Acho que no Bronx...

— Acertou! Fica a uma hora de carro daqui. Podemos ir e vim sem problemas. Você vai, não é? Me prometeu...

— Claro que vou. Eu prometi. 

Dei pulinhos de alegria e o beijei novamente. Me sentei no seu colo e baguncei os seus cabelos curtos.

— Eu estava pensando em levar a Merrin. O que acha? — perguntei agora esfregando a sua orelha esquerda.

— Não sei se é bom levar uma criança de dois a um estádio — Justin falou fechando os olhos. 

— Por que não? Tem pessoas que levam bebês.

— Cada pessoa tem o seu jeito de pensar. E acho que Carol não vai deixar. Pattie tentou pegá-la para trazer para cá no fim de semana e ela não deixou.

— Por quê?!

— Por que ela está com raiva. Ou talvez tenha percebido que sou eu que quero ver Merrin. Mas não tem problema, se ela quer assim. O meu advogado vai vim a tarde para resolver isso.

— Precisam mesmo brigar?

— Ela se recusa a assinar o divórcio! — o olhei sem entender. — Sei que devia ter falado isso, mas achei que ela não estivesse falando sério. 

— E agora?

— Conversei com o meu advogado e ele falou que posso recorrer ao divórcio litigioso. Demora uns três meses para sair. Somente a partilha de bens que demora. Mas acho que ela não está muito interessada nisso. Sua intenção é apenas dificultar as coisas. 

— Que bom que existe a opção do divórcio litigioso... Lamento mesmo pelas coisas terem que ser assim. 

— Está tudo bem. 

— Se você diz... — coloquei o dedo dentro do seu ouvido. 

— O que está fazendo?

— O quê? — fingi que não entendi. 

— Não sei se isso é estranho ou...

— Ou...?

Ele suspirou e me olhou.

— Bryce, e preciso te falar uma coisa...

A porta foi aberta e Pattie entrou com o rosto pálido. Me levantei  rapidamente do colo de Justin.

— Carol está aqui — ela falou olhando de mim para Justin que apenas assentiu. — Acho que o seu advogado já entrou em contato com ela...

— Vou falar com ela — Justin falou passando por mim.

— Troque-se pelo menos, Justin. Você...

— Chega de formalidades.

Pattie o olhou por alguns segundos, parecendo considerar a ideia. Então apenas suspirou e abriu a porta para ele passar.

— É melhor você ficar aqui, Bryce — Pattie pediu quando eu fiz menção de sair do quarto. — Ela está furiosa e acredito que te ver não vai ajudar muito.

— Claro...

Ela sorriu de forma nervosa e fechou a porta. 

Me sentei na cama e rezei para que tudo acabasse bem, mesmo desconfiando de que as coisas estavam longe de acabarem.

Quatro minutos depois ouvi os gritos furiosos de Carol.

Ela gritava coisas como: “litigioso”, “maldito”, “desgraçado”, “eu te amo”, “como pôde”, e por aí. 

Me levantei e aproximei o ouvido da porta.

Ouvi o som de algo se quebrando e a voz de Pattie e Rick, a pedindo para se acalmar. Entre os gritos de Carol, identifiquei a voz calma de Justin. Com certeza isso aumentava a fúria dela. Eu mesma ficaria furiosa se estivesse gritando com uma pessoa e ela estivesse agindo como se nada estivesse acontecendo.

— A CULPA É SUA, PATTIE! — Carol gritou. — SE NÃO TIVESSE COLOCADO AQUELA VAGABUNDA AQUI, NADA DISSO TERIA ACONTECIDO E EU AINDA TERIA O MEU MARIDO!

— Você não pode me culpar pelo fracasso que o seu casamento estava sendo, Carol — ouvi a voz de Pattie. Ela parecia estar prestes a chorar. — Justin encontrou em Bryce o que não encontrou em você. Então não me culpe e muito menos xingue a moça. 

— ELA É UMA VAGABUNDA OFERECIDA E VOCÊ SABE MUITO BEM DISSO!

— Carol, se você falar mais uma vez de Bryce, eu... — era Justin.

— VOCÊ O QUE, JUSTIN?! VAI SE LEVANTAR E ME BATER? VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO!

Ouvi um som que me pareceu um tapa. Eu sabia que não tinha partido de Justin. Abri a porta e corri para a sala.

Encontrei Carol sendo segurada por Rick. Ela tentava avançar em Justin que tinha a mão no lado esquerdo do rosto. Quando me aproximei mais, percebi que o seu pescoço estava arranhado. 

Carol subitamente parou de se debater nos braços de Rick e me olhou com ódio. 

— Ah, então aí está a embusteira — ela falou em tom sarcástico. 

Olhei mais uma vez para Justin que me olhava com um olhar repreendedor. 

— Você bateu nele? — perguntei me aproximando dela com passos firmes.

— Bryce... — Justin falou.

Mas eu não lhe dei ouvidos. Estava próxima o suficiente de Carol e não pensei duas vezes em lhe dar um tapa na cara. 

Pattie gritou, Rick arregalou os olhos, assim como Carol.

— Bata em alguém que possa revidar, sua covarde de merda — falei, sentindo calor de tanto ódio.

— Ela... Ela me bateu! — Carol exclamou com a voz esganiçada. — Justin, ela me bateu!

Ela conseguiu se soltar de Rick e avançou na minha direção. Segurou nos meus cabelos e tento me dar um tapa, mas consegui segurar a sua mão. 

— Você vai pagar por isso, sua morta de fome! — ela falou, com os olhos vermelhos.

— CAROL, SOLTE-A AGORA! — ouvi Justin gritar.

Pattie correu até nós e tentou me puxar. Isso só fez eu me distrair e Carol conseguiu me dar um tapa no rosto. Não foi muito forte, mas serviu para que a minha vontade de esganá-la aumentasse. Não era só pelo o que ela tinha feito com Justin, mas sim por tudo. Pela forma que me tratava, como se fosse melhor que eu por vestir roupas caras, por tratar Justin com indiferença e depois agir como se não tivesse culpa de nada do que estava acontecendo.

E por principalmente por achar que era dona de tudo e que podia levantar a mão primeiro, sem sofrer as consequências. 

Eu nunca tinha brigado na minha vida e Carol provavelmente também não. Então estava apenas segurando nos meus cabelos e tentando acertar tapas no meu rosto. Eu segurei nos seus cabelos também.

Rick reagiu e a puxou para longe de mim. Ela chutou o ar, gritando todos os tipos de ofensas possíveis para mim.

Leah e a senhora Flanders tinham aparecido na sala e olhavam tudo estarrecidas.

 — VOCÊ VAI SE ARREPENDER POR ISSO, GARRISON! — Carol gritou.

— Já chega, Carol! — Pattie falou me soltando e ficando a sua frente. — Você não pode entrar na minha casa, agredir o meu filho e nem ninguém. Saía já daqui!

— Mas foi ela que me bateu primeiro! — Carol falou indignada.

— Por que você bateu em Justin! Independente das condições dele, sabe que ele jamais revidaria. Vá embora agora.

— Então é isso? Vocês vão acolhê-la? A pessoa que destruiu a minha vida?

— A culpa disso tudo é de suas ações, não de Bryce.

— Todos vocês vão pagar por estarem me tratando como lixo. Todos!

Pegou a bolsa e saiu.

— Rick, a leve para casa — Pattie pediu. — Não é bom que dirigia nesse estado. 

— Claro — ele correu para alcançar Carol.

— Você está bem? — Pattie perguntou para mim.

Não respondi. Fui até Justin. 

— Tudo bem? — perguntei segurando o seu rosto e estudando os arranhões no seu pescoço.

— Estou bem. Obrigado — ele segurou a minha mão e tentou sorrir. 

— Ela não pode te tratar assim! Não tem o direto!

— Bryce, ela só está com raiva. A entendo. 

— Ela quebrou o meu outro vaso egípcio — Pattie se lamentou, olhando para os cacos no chão. — Qual o problema de aceitar o fim de uma relação, meu Deus. 

— Eu vou limpar, senhora Mallette — a senhora Flanders falou se aproximando com cautela. 

Justin fez um gesto com a cabeça e o segui até o seu quarto.

Fechei a porta e o olhei.

— Me desculpe por isso, Bryce — ele falou. — Carol está inconsolável...

— A culpa não é sua — segurei a sua mão. 

— Você não pode se estressar...

— Eu vou ficar bem, não se preocupe. Vou limpar esses machucados — apontei para o seu pescoço. 

Ele apenas deu de ombros.

Molhei um algodão com éter e limpei os arranhões no pescoço de Justin. Ele não falou nenhuma palavra. Estava calado e pensativo. 

Leah apareceu e se ofereceu para ajudar. 

Mais tarde, no mesmo dia quando tive que trocar Justin, descobri o que ele tinha colocado no bolso da calça quando eu cheguei. Era apenas um frasco de analgésico.

Ele não percebeu que eu o tinha achado, então o devolvi ao bolso e fingi que nunca tinha visto. Podíamos falar sobre isso numa outra hora, afinal eu não via problema algum ele tomar analgésicos.

                   [...]

Jonny também não gostava de Basebol. E eu começava a desconfiar que Justin também não. Mas isso ele tinha me falado no dia que falou que o seu esporte favorito era o golfe. 

Sua falta de interesse era óbvia e eu não podia reclamar, afinal ele estava em um processo de separação turbulento com Carol que apareceu na casa de Pattie mais três vezes depois do ocorrido. Justin estava tenso e qualquer coisa que eu falava, o deixava irritado.

Seu humor melhor um pouco na sexta-feira e descobri que o motivo era por Merrin estar ali. Pattie tinha conseguido convencer Carol deixar Justin vê-la. Depois ela me contou escondido que tinha mentido para Carol, a assegurando de que tentaria fazer com que Justin voltasse atrás. 

Eu não gostei muito, mas não podia julgá-la, estava desesperada e qualquer coisa que apaguizasse a situação, servia para ela.

E quando Justin estava brincando com Merrin na sala, perguntei sobre o jogo. Ele pareceu se aborrecer um pouco, mas quando Merrin correu até ele e lhe entregou uma de suas bonecas, sua expressão se suavizou e ele sorriu para mim.

— Já que ela está aqui e só irá embora no domingo, acho que podemos sim — ele falou devolvendo a boneca a Merrin.

— Que bom! — falei. — Acho que sair um pouco, vai te ajudar a esquecer um pouco as coisas que estão acontecendo.

— Talvez. 

— Já falei com o Jonny e ele disse que não gosta de Basebol, muito menos estádios...

— Eu imaginei. O que vai fazer agora com o ingresso que sobrou?

— Não tenho certeza. Pensei em vender, mas está muito encima da hora. Não conheço mais ninguém possa querer ir...

Ele franziu o cenho e esperou que eu terminasse. Mas eu estava começando a ter uma ideia que tinha tudo para dar errado.

— Acho que sei quem pode ir — falei sorrindo. 

— Quem?

— Se lembra do Matt? — sua expressão voltou a ficar séria e logo me arrependia de citar o nome de Matthew. 

— O garoto grosseiro e mal educado do abrigo? — Justin perguntou friamente. 

— Sim... — rolou os olhos. — Sei que vocês começaram com o pé esquerdo, mas acredite em mim, ele tem os motivos para ser desse jeito.

— Claro. Falta de educação e muita indulgência da sua parte. 

— Não, Justin... Ele é um garoto sofrido. Passou por muitas coisas nessa vida e só tem catorze anos. Tive a oportunidade de conhecê-lo um pouco mais e desconfio que sofreu abusos do próprio pai.

— Por que acha isso? — sua expressão mudou para comoção.

— Lá no abrigo recebemos muitas crianças vítimas de abusos e o Matt tem os mesmos olhos assustados e tristes. Sei que ele foi horrível com você, mas é apenas uma forma de mascarar as suas feridas. Quero muito ajudá-lo. A mãe agora está vivendo com um homem que a espanca e o espancou também uma vez e...

— Tudo bem, Bryce. Eu entendi. Vamos levá-lo. Mas se ele for grosso e mal educado, deixo vocês lá e vou embora com a minha filha. Estou falando sério. Já tenho muitos problemas para ter que ouvir desaforos de um garoto revoltado.

— Eu juro que isso não vai acontecer. 

— Vai controlar o que ele falar por acaso?

— Terei uma conversa bem séria com ele.

Justin suspirou e nada disse.

                 [...]

Era quase seis da tarde quando cheguei ao abrigo.

Estava com pouco movimento por ainda ser cedo. Algumas pessoas que moravam ali, trabalhavam. 

Passei pela sala de TV e encontrei alguns garotos. Matthew geralmente ficava ali, mas não estava. 

Fui para o andar dos dormitórios e parei em frente à porta do seu quarto. 

Talvez não fosse uma boa ideia... Ele podia não estar mais bem humorado como da última vez que estivemos juntos e ser completamente grosseiro.

Mas eu tinha que tentar.

Bati na porta e como não obtive resposta, entrei. 

Parei estática com o que vi. 

Matthew cheirava cocaína na companhia de dois garotos mais velhos que também eram do abrigo. 

Os garotos me olharam assustados por um momento, mas logo relaxaram ao me ver e continuaram se intoxicando com aquilo.

Os olhos azuis de Matthew, agora tingidos com o vermelho me encaravam furiosos.

Ele se levantou subitamente e passou a mão sobre a mesa, derrubando o pó branco no chão. 

— O que você tá fazendo, cara? — um dos garotos perguntou, completamente entorpecido pela droga. — Não cortar o nosso barato!

— Saiam daqui! — ele rosnou para os garotos que resmungando, se levantaram saíram do quarto. 

Quando fecharam a porta, fiz menção de sair, mas em um pulo Matthew estava próximo a mim e segurava o meu pulso com força.

— Nem pense em contar para a Amanda o que você viu aqui — ele falou em um tom ameaçador. Tentei me soltar, mas ele era forte para um garoto de catorze anos. — Se você abrir a boca, vão encontrar o seu corpo boiando no Lake.

— Você... Você está me ameaçando? — consegui falar. Matt parecia distante e um brilho perigosamente sádico nos seus olhos azuis, me assustava. 

 — Estou! — me soltou bruscamente. — Agora saía daqui! — limpou os resíduos de cocaína do nariz e se afastou. 

 — O que você está fazendo, Matt? Com a sua vida...?

— Isso não é da sua conta!

— Claro que é! Você só tem catorze anos! Como pode usar essas porcarias? Há quanto tempo usa? Você é viciado?

— Me deixa em paz — ficou de costas para mim e passou as mãos pelos cabelos. 

— É assim que pretende terminar a sua vida? Viciado como a sua mãe?

— Cala a boca... — soluçou. 

— Não vai conseguir ajudá-la se tornando um viciado também... Você é novo. Tem um futuro inteiro pela frente e não pode se deixar levar por isso. Sua mãe não ficaria feliz. Ela sabe o quanto é difícil ser dependente...

— Isso não tem mais importância. Já era. Acabou! — se voltou para mim com os olhos cheios de lágrimas. — Acabou, Bryce...

— Por que está dizendo isso?!

Ele se sentou na cama e escondeu o rosto entre as mãos. Me abaixei a sua frente e as segurei. Ele olhou para o outro lado, evitando os meus olhos. 

— Por que está falando isso? — perguntei mais uma vez. Ele fungou e não respondeu. — Me responde...

— A minha mãe... — ele falou entre soluços. — Ela está morta.

— O quê?

Ele choramingou e tentou se soltar de mim. O segurei com mais força e quando se levantou, acabou caindo. 

— Me solta! — suplicou. — Acabou, acabou...

— Não, não acabou — tentei abraçá-lo, mas ele se desvencilhou. — Por favor, me deixe fazer isso. Não pode enfrentar tudo isso sozinho. Você é só um garoto...

Ele desmoronou de vez e quando puxou o meu pescoço para me abraçar, me assustei. 

Ele soluçava de forma compulsiva e os seus braços em torno do meu pescoço tremiam. Acariciei os seus cabelos com cautela e falei que ele podia chorar, que eu estava ali.

E chorei junto com ele, pois pela primeira vez desde que eu o conheci, ele mostrou alguma emoção. 


Notas Finais


Espero que vocês tenham gostado do capítulo porque apesar de ser estressante, até que eu me divertir o escrevendo e gostei do resultado final! Me digam o que acharam!
Não tenho muito o que falar aqui, estou com um sono...
Qualquer coisa falem comigo lá no ask: https://ask.fm/Opsdoof
Se tiver alguém lendo a essa hora, boa noite ❤ Um super beijo para todo mundo é até o próximo capítulo.


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