História If Only - Capítulo 17


Escrita por: ~

Exibições 1.295
Palavras 14.691
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Oi gente! Não vou fazer um texto aqui pedindo perdão pela demora, pois essa desculpa é um pouquinho velha. Mas creio que esse mês foi cheio para todo mundo. Teve enem, provas finais na escola e tcc, então acho que me entendem. Ia postar no fim de semana, mas só para atrapalhar a Internet aqui em casa parou de funcionar. Quero também pedir desculpas se houver muitos erros grosseiros. Não tive muito tempo para revisar o capítulo depois que terminei. Vou reler depois e arrumo qualquer coisa errada, que acredito que deve ser muita.
Como tive muito trabalho para escre ver esse capítulo, espero de coração que vocês gostem ❤
Agora boa leitura!

Capítulo 17 - Someday


  Eu alisava os cabelos de Matt que agora dormia com a cabeça sobre o meu colo. Sua crise de choro tinha passado, mas eu não consegui fazer com que falasse mais nada. Também não queria força-lo a nada, ainda estava muito abalado.

Eu sempre soube que por trás de toda a sua arrogância e rebeldia, existia apenas um garoto que já tinha passado por muitas coisas nessa vida. Tudo o que eu queria fazer no momento era protegê-lo, não deixar que nenhum mal lhe acontecesse.

Ele se mexeu um pouco e parei de acariciar os seus cabelos. Os seus olhos se abriram e ele me encarou.

 — Está melhor? — perguntei baixinho. Ele apenas deu de ombros. — Quero que saiba que estou aqui para o que precisar, está bem?

— Você nem sempre estará — foi sua resposta. Agora ele estava com uma expressão triste mais uma vez. — É sempre assim.

— Isso não vai acontecer comigo.

— E agora? O que vai ser de mim? — se sentou, me olhando com os seus olhos suplicantes. — Terei que ir para um orfanato?

— Não!

— Mas eu não tenho ninguém. Isso é o mais provável.

— Eu não vou deixar que isso aconteça. Cresci em um orfanato e sei como isso funciona.

— Você cresceu em um orfanato? — assenti. ¬ O que aconteceu?

— Os meus pais morreram também ¬— olhou para baixo. — Mas já passou... Essa dor que está sentindo agora vai passar.

— Ainda é muito recente.

— Eu sei... ¬ — ele mordeu o lábio inferior e assentiu. — Como soube sobre a sua mãe?

— Fui até a casa do Bob... Havia policiais e uma ambulância. Não me deixaram vê-la, apenas falaram que ela tinha tido uma overdose...

— Eu sinto muito — o puxei para um abraço o qual ele retribuiu receoso. — Vai ficar tudo bem.

— Como pode saber?

— Porque não é para sempre.

— Isso não se atribui também a coisas ruins?

— Não nesse caso. Todos passamos por uma fase ruim na vida, é como se fosse um teste. Temos que tentar tirar o melhor da pior situação.

— O que de melhor posso tirar da morte da minha mãe? — se afastou um pouco. Os seus olhos estavam vermelhos e inchados. — Sei que vai dizer que ela era uma mãe de merda e que não me fará falta.

— Eu nunca diria isso! Independente da mãe que ela era, ainda assim era a sua mãe. Às vezes coisas ruins acontecem porque têm que acontecer, mas não significa que sempre será assim. Eu não sei como explicar, você pode não me entender e ficar bravo comigo.

— Acho que estou entendendo — sorri triste. — Acho. — assenti. — Me desculpe por ter te envolvido nos meus problemas.

— Não, tudo bem. Eu meio que tenho mania de me envolver nos problemas dos outros. Ou é os problemas dos outros que vêm até mim — ele franziu o cenho. — Isso não importa agora. Para que hospital sua mãe foi levada?

— O corpo dela.

— É... Isso ai.

— Eu não sei. Provavelmente esteja em um necrotério.

— Não é difícil achar.

— É...

— Tenho que ir embora agora — falei consultado o meu relógio de pulso. — Fiquei de fazer o jantar hoje.

— Tudo bem — ele esticou as pernas e se levantou. — Obrigado pelo apoio.

— Vai ficar bem?

— Acho que sim.

Sua cara não dizia isso, e eu não queria ter que deixá-lo, não agora.

— Eu tive uma ideia! Que tal passar essa noite na minha casa?

— Por que eu faria isso?

— Porque sei que não quer ficar sozinho neste momento.

— Você nem me conhece. Posso roubar a sua casa quando estiver dormindo.

— Não tenho nada de valor para ser roubado. E porque você faria isso comigo que estou sendo solidaria?

— Você é daquele tipo que acha que todos são bons?

— Não. A verdade é que eu não quero te deixar aqui. Você estava se drogando e... — ele desviou o olhar. — Pode fazer isso novamente e você é muito novo. Não que eu ache que existe idade para fazer isso, mas você só tem catorze anos. E escolher esse caminho é a pior decisão que alguém pode tomar.

— Então quer que eu vá com você, apenas para se certificar se não vou mais fazer isso?

— Sim. Digo, não! Apenas quero que venha comigo.

— Eu não quero.

— Por favor, Matt...

— Eu já falei que não!

— Não pode ficar sozinho.

— Eu não vou mais fazer isso, te garanto.

— Como posso ter certeza? Se não fizer isso, pode fazer outra coisa. Está muito deprimido.

— Eu não vou fazer nada.

— Tudo isso é tão triste... Vi até aqui para te fazer um convite e de repente descubro isso...

— Me fazer um convite? — me olhava desconfiado. — Clube de leitura?

— Não. Para ver um jogo de beisebol.

— Ah. Mesmo se isso não tivesse acontecido, eu não iria aceitar.

— Porque não? Não gosta de beisebol?

— Não sei se posso dizer se gosto ou não, apenas tenho mais com que me preocupar.

— Entendo. Vou adiar e amanhã tento descobrir para onde sua mãe foi levada.

— Vai deixar de ir ao seu jogo para me ajudar?

— Sim.

— Por quê?

— Eu já falei que tenho mania te pegar para mim os problemas alheios.

— Isso é uma forma educada de dizer que gosta de cuidar da vida dos outros?

— Cuidar dos outros.

— Já não tem muito com o que se preocupar? Tipo o seu namorado aleijado?

— Como sabe que estou namorando com Justin?

— Estão mesmo namorando?! Apenas deduzi.

— Mas sabe que ele era o meu patrão, não sabe?

— Sim? 

— Não vai fazer nenhuma piada com isso?

— Não estou com cabeça — segurei o riso. O momento não era apropriado. — Pode ir embora, vou ficar bem.

— Posso fazer um jantar vegetariano para nós.

— Dispenso.

— Para de ser durão! Sei que não quer ficar sozinho!

— Como pode saber?

— Porque ninguém iria querer num momento como esse... — suspirou. — Mas se eu estiver enganada, me desculpe.

— Eu como soja.

— Como? — o olhei sem entender. 

— Não como carne, mas como soja.

— Isso quer dizer que vem comigo?

— Acho que sim.

— Que bom! Então vamos logo, ainda temos que passar no mercado. E por favor, seja legal com a minha irmã.

— Apenas se ela não ficar enchendo o meu saco.

— Prometo.

Ele apenas deu um sorriso forçado e assentiu.

                                    [...]

Eu estava arrependida por ter prometido a Matthew que Lauren não encheria o seu saco. Ela não estava enchendo como ele tinha se referido, mas desde que colocamos os pés no apartamento e ela o viu comigo, o bombardeou com perguntas. Se isso não era encher o saco, eu não sei qual a definição. 

A expliquei com calma que ele morava no abrigo, sobre o que tinha acontecido a sua mãe e que ele passaria a noite conosco. Ela ficou chocada e deixou Matt desconfortável quando o abraçou, falando que ele podia ficar o tempo que quisesse e que sentia muito por sua perda. Depois ficou perguntando sobre ele.

Fui para a cozinha preparar o jantar e os deixei conversando.

Estava na duvida se fazia salada de maionese ou vinagrete quando senti o meu celular vibrar no meu bolso. O peguei e vi que era Justin. Foi impossível não sorri.

— Olá, me amor! — falei ao atender.

— Olá, Bryce — ele falou rindo.

— Ei, era para você me chamar de amor também!

— Me desculpe. Vamos começar de novo.

— Olá, meu amor! — falei rindo.

— Olá, vida — foi sua resposta que fez o meu coração bater mais forte.

— Vida?

— Sim.

— Você sabe o que isso significa?

— Que preciso de você ao meu lado para viver, que minha vida se resume em você e que eu te amo.

— Isso com certeza foi profundo!

— Estou começando a ficar bom nisso.

— Leu em algum lugar?

— Não.

— Viu em um filme, não é?

— Não, Bryce.

— Foi mal então — ele riu. — Ao que devo a honra de receber a sua ligação?

— Estava sentindo saudade. Não nos vimos hoje.

 — Ah, sim.

— Você não estava sentindo a minha falta?

— Eu estava...

— Aconteceu alguma coisa?

— Por que acha que aconteceu alguma coisa?

— Sua voz. Você parece triste.

— Estou um pouquinho.

— A culpa é minha?

— Claro que não. Sabe o Matt?

— Sim.

— A mãe dele faleceu hoje.

— Por essa eu não esperava.

— Nem eu... Ele está arrasado. Fui ao abrigo para chamá-lo para o jogo de amanhã e encontrei com uns garotos se drogando.

— Se drogando? Quantos anos ele tem?

— Catorze... — ele suspirou. — Fiquei brava e falei umas coisas para ele e daí ele começou a chorar e me contou sobre a mãe.

— Que coisa mais triste. O que vai ser dele agora?

— Eu não sei. Talvez vá para um orfanato.

— É o mais provável. É só um garoto, não poderá ficar por ai.

— É... O trouxe para minha casa hoje.

— Não quis deixá-lo sozinho?

— Não podia fazer isso.

— Entendo. Então não iremos ao jogo amanhã?

— Acho que não, preciso descobrir para onde levaram o corpo da mãe dele.

— Tudo bem.

— Não tá zangado?

— Por que eu estaria?

— Vamos perder os ingressos.

— Podemos ver outro.

— Mas o próximo vai ser em Chicago...

— Vamos para Chicago. Não se preocupe com isso agora, console o garoto.

— Obrigado.

— Pelo quê?

— Por tudo.

— Ser flexível não é algo raro é mim.

— Tá bom. Tenho que desligar agora, estou preparando um jantar vegetariano.

— Que maravilha. Tudo bem. Qualquer coisa me liga.

— Está bem. Boa noite.

— Tenha uma boa noite, Bryce. Te vejo na segunda.

Quando desliguei, estava suspirando. Era incrível que somente o fato de ouvir a voz de Justin já me deixava calma. E era muito assustador também, porque isso significava certa dependência e isso não é muito saudável, mesmo sendo maravilhoso.

Terminei de preparar o jantar e eu mesma coloquei a mesa. Lauren ainda enchia Matt de perguntas quando os chamei. Matt se sentou ao meu lado na mesa. Percebi que ele estava desconfortável. Interação não era bem um forte dele.

— E então, Matthew, como tem ido a escola? — quebrei aquele silêncio mortal.

Matthew me olhou por alguns segundos, parecendo surpreso.

— Não tem ido — falou baixinho. — Não estou indo esses dias... Muitas coisas acontecendo.

— Entendo... — sorri. — Mas você com certeza deve saber que o estudo é essencial.

— Com certeza — Lauren falou com um sorrisinho. — Veja a Bryce, por exemplo, se dedicou nos seus estudos sobre enfermagem e acabou se tornando enfermeira de um cara rico que hoje é namorado dela. Em um futuro próximo eles irão se casar. Interessante, não acha?

— Isso é algum tipo de piada, Lauren? Perguntei irritada.

— Imagina. Só acho interessante o percurso das coisas. Você é uma mulher de sorte. — Se não fosse pelo fato de todas as palavras que saíram da sua boca escorrer ironia, eu teria ficado feliz por ela ter se referido a mim como uma mulher pela primeira vez na vida. — Mas quem sabe você também não tira a sorte grande, Matthew? Pode acabar encontrando uma mulher rica para se casar. Vai ficar com certeza um homem muito bonito. Olha só esses olhos...

Matthew olhou para baixo, o seu rosto sempre pálido estava corado agora.

— Eu realmente não consigo entender qual o seu problema — falei com a raiva transparente na voz.

— Caso não tenha percebido, estou apenas tentando quebrar o gelo.

— Fazendo piadas sobre minha relação com Justin? Estou realmente surpresa por você não ter mencionando a deficiência dele.

— Acho que você está ficando paranoica, Bryce. Fico me perguntando como vai ser daqui a alguns anos... Ninguém poderá olhar para Justin que você vai achar que estão o fazendo por ele ser paraplégico — suspirei. — Estou brincando. Você teve mais senso de humor. 

— Faz parte do processo de amadurecimento. 

— Que coisa mais entediante — rolou os olhos. — Mas não vamos falar sobre você e o seu relacionamento de livro água com açúcar que se acha apenas em bienais — voltou o seu olhar para Matt que olhava de mim para ela estático. — Não importa o quanto as coisas possam estar sendo difíceis, você nunca deve desistir da sua educação, está bem?

— Claro... — ele falou sem jeito, brincando com a comida.

— Tem alguma matéria que você mais prefere? — perguntou Lauren. Ao menos ela estava tentando ser legal com alguém.

— Educação física, eu acho.

— Somente?

— Sou bom em matemática — deu de ombros. — Mas não significa que eu goste. 

— Você é bom em matemática?! — perguntei sem acreditar.

— Sou... — franziu o cenho. — Por quê? 

— Por quê? Isso é serio? É tão difícil encontrar garotos da sua idade que gostem de matemática.

— Eu disse que não gosto, apenas consigo responder os problemas.

— Justin vai achar isso interessante — um ponto de interrogação se formou no seu rosto. — Ele gosta de matemática. É formado em engenharia civil.

— Claro.

— Por que claro?

— Típico dos ricos — Lauren riu. — Se ele não fosse um engenheiro, certamente seria um arquiteto.

— Isso é bobagem, uma formação não depende de condições sociais. — retruquei.

— Você que pensa — ele retrucou de volta. Lauren riu mais uma vez. A olhei de cara feia e ela bebeu um pouco de suco para disfarçar.

— E você é muito jovem para ter pensamentos de adultos. Estereotipar é uma coisa tão sem noção. Significa então que por sermos pobres, não podemos gostar de música clássica ou ter um carro do ano?

— Acho que você leva essa coisa de igualdade social muito a sério — Lauren me cortou sem disfarçar sua cara de tédio. — O garoto só está dando a opinião dele.

— Foi como se ele estivesse falando que um negro não pode ser médico ou um juízo — olhei para Matthew que deu de ombros.

— Bryce, segura a onda — Lauren me alertou. A olhei sem entender.

— Desde quando você fala assim? Segura a onda? Achei que não fazia parte do seu linguajar refinando que fez com que Carol Bieber gostasse de você.

— Com certeza é um efeito colateral do remédio. Você está surtando.

— Talvez eu esteja. Que saber? Vamos parar por aqui.

— Acho bom mesmo.

— Ótimo.

Dei atenção ao meu prato e ela fez o mesmo. Matthew ficou alguns segundos apenas olhando de Lauren para mim, depois começou a comer. No final acabou elogiando a minha comida. Isso tinha sido com toda certeza um grande avanço. Até me ajudou a retirar a mesa e se ofereceu para lavar a louça, fazendo a observação sobre o meu dedo enfaixado. Tinha até me esquecido desse detalhe.

Lauren foi ver TV enquanto ele lavava a louça e eu secava.

— Você e bom nisso — falei, observando o quanto ele era ágil nessa coisa chata de lavar louça.

— Gosto de fazer isso — ele falou dando de ombros.

— Gosta de lavar pratos? — agora eu estava pasma.

— Sim. Sempre fui eu que lavava.

— Que sorte da sua mãe...

— Não que ela reparasse, mesmo eu fazendo isso desde os oito anos de idade. Gosto de limpar a casa também.

— Você com certeza seria um filho perfeito se não tivesse um gênio tão forte — brinquei. Ele deu uma risada sem humor e voltou sua atenção para a louça. — Eu gosto de passar roupas... — me olhou. — Ajuda a me acalmar.

— Sinto a mesma coisa quando estou limpando a casa.

— Legal. Acho que vou te prender aqui o fim de semana inteiro para limpar a minha casa.

— É o mínimo que posso fazer.

— Matt, estou brincando.

— Eu só... Só queria saber por que você está sendo tão legal comigo. Tenho te tratado mal desde que nos conhecemos e eu esculachei o seu namorado.

— Você não sabia que ele era o meu namorado.

— É. Mas quanto à forma que te trato?

— Não me importo, sei das coisas que você passa.

— Acha que isso justifica? — assenti. — Eu te ameacei hoje... E acho que seria mesmo capaz de fazer o que disse.

— Eu acho que não, embora estando sob influencia de drogas — olhou para baixo. — Posso te fazer uma pergunta?

— Sei que vai fazer de qualquer jeito. Então, pode fazer.

— Há quanto tempo você vem usando essas coisas?

— Não muito. Não sou viciado, se você quer saber.

— Como pode ter certeza?

— Porque eu saberia? — fechou a torneira e se voltou para mim. — Eu nem estaria mais no abrigo a essa hora. Sei que foi o pior caminho que resolvi tomar, mas apenas precisava esquecer a minha vida.

— É assim que começa, querendo esquecer os problemas, ou para se divertir e quando menos se espera, você está viciado. É um caminho sem volta. Não te conheço por completo, mas sinto que é um garoto brilhante. Tem um grande futuro.

— Futuro? Não tenho pais e sou um sem teto. Que tipo de futuro é o meu?

— A vida dá voltas. Mas é claro que você precisa colaborar também. Então, se dá 

a valor a sua vida e tem algum sonho, precisa cortar o mal pela raiz. Nada de drogas, de brigas, andar com um canivete ou qualquer coisa que comprometa o seu bem-estar. Estamos entendido?

— Não pode falar comigo como se fosse a minha mãe.

— Eu sei.

— Então por que está falando?

— Não sei bem. Mas acho que você precisa de alguém que fale assim — coloquei as mão na cintura. — Então, estou falando.

— Legal — ironizou me entregando um prato para secar.

— Sabia que íamos nos entender. Uma hora a guarda baixa.

— Ao mesmo tempo que você é “até que é legal”, é irritante.

— Justin dizia que eu era irritante antes também — pisquei.

— Estou tentando entender isso... Ele não era casado?

— Sim.

— Então você o roubou da mulher dele? — senti minhas bochechas esquentarem. — Que coisa feia.

— Não é bem assim...

— Do bairro de onde eu vim, teriam te enrolado em um colchão e colocariam fogo em você.

— Como você é sinistro! — sorriu. 

— Estou falando sério.

— Eu não o roubei! Só aconteceu. E não vou ficar me explicando para um pirralho hadcore.

— Tudo bem. Eu não queria te julgar.

— Está me olhando como se eu fosse a Maria Madalena.

— Quem é essa?

— Agora entendi porque você é tão obscuro assim — rolou os olhos. — Vamos mudar de assunto, por favor?

— Claro.

— Vou ajudar com o enterro da sua mãe.

— Por que faria isso?

— Porque estou sentindo vontade de ajudar. Não vai ser lá um enterro, mas ela terá um velório digno.

— Acha que isso vai me fazer feliz ou algo do tipo?

— Não estou tentando te agradar.

— Mas quer me deixar feliz.

— Vê problema nisso?

— É só um enterro.

— Tenho certeza de que não acha isso... — ele apenas deu de ombros mais uma vez e mordeu os lábios. — O que foi?

— Nada...

— Pode me falar.

— Eu só acho tudo isso tão estranho... A morte. Ontem ela estava viva e agora está morta.

— É bem estranho mesmo...

— Você acha que é minha culpa? Sei lá, que eu devia ter tentado mais?

— Claro que eu não acho isso. Você é só um garoto.

— Mas se eu tivesse sido mais forte, não acha que teria a tirado da casa do Bob e a essa hora ela estaria viva?

— Eu acho que quando uma coisa tem que acontecer, não há quem mude. É o destino.

— Então esse sempre foi o destino dela?

— Sim...

— E qual será o meu?

— Não sou Deus para saber.

— Isso realmente soou rude — ele falou rindo de forma forçada.

— Estou aprendendo com você — pisquei.

— Não foi tão rude assim.

— Tá bom. Então amanhã resolvo tudo isso, está bem? — apenas assentiu. — Te prometo que vai ficar tudo bem.

— Como pode ter certeza? — me olhou com os seus olhos azuis tristes.

— Porque eu farei de tudo para que fique.

— Pensei que tivesse acabado de dizer que a vida já traçou os nossos destinos.

— Não foi bem com essas palavras.

— Eu posso ir amanhã com você? Queria vê-la...

—Não sei se vão permitir a sua entrada. E seria uma coisa muito triste.

— Apenas quero me despedir.

— Terá a oportunidade.

Ele nada disse, apenas voltou a sua atenção para a louça. Resolvi ficar calada também, com os acontecimentos do dia circulando por minha cabeça.

[...]

O meu fim de semana se baseou em resolver o enterro da mãe de Matt. Não tinha sido difícil descobrir para que hospital o corpo tinha sido levado. O difícil foi explicar para alguns médicos do hospital que ela era uma das moradoras do abrigo onde eu trabalhava e que mesmo não sendo problema meu, queria lhe dar um enterro digno. Eles ponderaram, mas acabaram cedendo, afinal ela seria enterrada como uma indigente.

Lauren no mesmo dia me ajudou com a escolha do caixão e comprou flores para o velório que aconteceu na capela do cemitério. Estava apenas eu, Matt, Lauren e o seu novo namorado, Carter. Não sei como ela tinha o convencido ir, mas a situação era muito triste para contestar alguma coisa. Matt parecia mais pálido usando um moletom preto e calças da mesma cor. Os seus olhos estavam vidrados na mãe no caixão, mas ele não chorou. Talvez já tivesse chorado tudo o que tinha para chorar. Mas na hora do sepultamento, quando o primeiro punhado de terra caiu sobre o cachão, as lágrimas solitárias desceram por seu rosto.

Lauren e Carter se afastaram, olhando algumas lápides — talvez achassem isso interessante — e eu fiquei um pouco atrás de Matt que não tinha se movido desde que o coveiro tinha ido embora depois de anunciar que o cemitério fecharia em meia hora. Eu não sabia o que falar. Talvez ele nem quisesse ouvir nada. E eu o entedia, era muito para processar. Mas quando os seus ombros se moveram e ele começou a soluçar, me aproximei.

Ele subitamente parou de chorar e me olhou com os olhos vermelhos.

— Eu já desejei que ela estivesse morta — ele revelou com a voz rouca. — Achei que talvez fosse melhor, mas agora não tenho mais certeza disso...

— Eu te entendo — foi tudo o que consegui falar. Ele era muito dark para um garoto com apenas catorze anos.

— Sei o que está pensando. Ela era uma péssima mãe, mas era minha mãe.

— Deve ser por causa dessa regra que se deve amar a mãe mesmo ela sendo a pior mãe do mundo — tentei amenizar as coisas. Ele se retraiu e fechou os olhos. Quando voltou a abri-los, estavam frios novamente. — Me desculpe.

— Sei que isso faz parte do seu jeito de tentar melhorar as coisas — falou secamente. — Eu não quero que me console, ou coisa do tipo. Só quero ficar sozinho. Obrigado por tudo.

— Você quer que eu vá embora? — apenas assentiu. — Volte comigo. Pode passar um tempo lá em casa se quiser, acho que Lauren não vê problema. E não pense que é porque você é um bom faxineiro — ele riu anasalado. — Mesmo que o que você fez no apartamento foi incrível, apenas não quero que fique sozinho por hora.

— Você falou para a Amanda? — neguei com a cabeça. — Vai falar?

— Ela pode achar um lugar para você ficar sem que seja um orfanato...

— Fala sobre um lar provisório?

— Sim...

— Não. Essas famílias que se escrevem querem apenas ganhar dinheiro do governo.

— Você não pode ficar sozinho, vai precisar de um lar.

— Eu me viro.

— Não poderá ficar no abrigo, a assistência social vai aparecer por lá.

— Eu sei. Por isso vou para bem longe.

— Eu não vou deixar.

— Não pode me impedir.

— Claro que posso.

— O que vai fazer? Me acorrentar na sua casa?

— Se for preciso — dessa vez ele riu de verdade. Mordi o meu lábio inferior. — Fique por enquanto lá em casa, vamos pensar em uma solução.

— Por quê?

— Porque eu sei como é não ter ninguém...

— Ainda não terei ninguém. Você não é da minha família.

— Mas pode fingir que sim — semicerrou os olhos. — Como sua irmã mais velha. O que acha?

— Acho que você é maluca.

— Vamos, Matt, pare de ser tão orgulhoso. É só por um tempo.

— Quem me garante que você não vai chamar a assistência social?

— Dou minha palavra que não farei isso. Juro.

— Não dá para confiar.

— Que tal eu jurar de dedinho? — mostrei o meu dedo mindinho. — Essa promessa nunca pode ser quebrada. Sério.

— Ou então podemos fazer de um jeito diferente — fiquei o olhando com atenção. — Se você chamar a assistência social, vai te acontecer uma coisa bem ruim.

— Tipo?

— Tipo encontrarem seus pedaços espalhados por Nova York.

— Alguém já te falou que você é sinistro?

— Alguns garotos da escola — deu de ombros.

— Acho que vou aceitar a proposta — lhe estendi minha mão. — Fechado?

Ele ficou olhando para a minha mão em duvida, mas acabou a apertando.

[...] 

Não segunda-feira acordei me sentindo completamente indisposta. Isso nunca tinha me acontecido na vida. Mas então me lembrei que era resultado dos remédios que eu tinha que tomar por causa do meu problema. Fiquei rolando na cama por quase quinze minutos, ponderando ter que me levantar, tomar banho e ir até o parque Slope. Queria muito ver Justin, mas o meu dia já não tinha começado muito bem. 

Depois de uma batalha contra o meu corpo, consegui me levantar e tomar um banho. 

Ao passar pela sala parei e estudei Matt que dormia no sofá. Sorri, pensando no quanto ele era diferente quando estava dormindo. Com cautela me aproximei e arrumei a coberta que tinha escorregado. Ele se mexeu, mas não acordou. 

 

Cheguei a casa de Pattie exatamente as sete em ponto. Como de habitual, ela já estava de pé. Lia uma revista na sala. 

— Bom dia, Bryce. Pensei que não fosse te ver hoje — ela falou me olhando. 

— Sempre venho... — falei sem entender o motivo dela ter feito essa observação. 

— Você sumiu o fim de semana inteiro, pensei que tivesse se desentendido com Justin. 

— Não! Só estive ocupada com algumas coisas. 

— Resolveu todos os seus problemas? 

— Acho que sim. 

— Ótimo. Sente-se aqui. Preciso te conhecer mais. 

— Agora? 

— Leah já vai chegar e Justin ainda não acordou. Apenas quero conhecer a minha nova nora — franziu o cenho. — É um pouco estranho dizer isso... 

— Oh, imagino que sim — tirei a bolsa do ombro e me sentei no sofá de frente ao que ela estava. — Sobre o que queria conversar? 

— Sobre tudo. Conte-me sobre você, o que pensa do presente e o que deseja para o furto — mordi o lábio inferior com força. — Sei o que deve estar pensando, sempre fui assim com as namoradas de Justin. Isso que dá ter dois filhos homens. Como ele é o mais novo, é sua tarefa ser o meu protegido — sorri. — E neste momento quero me certificar de que ele acertou dessa vez. Devo ressaltar mais uma vez que gosto muito de você. É uma moça muito boa.

— Obrigada, mas acho que já sabe tudo sobre mim, falei na entrevista que me deu quando me tornei babá de Merrin.

— Aquilo era para você ser babá de Merrin, não minha nora — torci os meus dedos, me sentindo completamente tensa. — Preciso te conhecer mais, Bryce.

— Tem que ser agora?

— Tem algo importante para fazer? — apenas dei de ombros. Ela suspirou. — Justin, claro. Podemos fazer isso de uma forma diferente então. Eu ia te chamar para sairmos juntas, fazer compras, ou um jantar, mas Justin me falou que você não gosta muito desse tipo de lazer. Então, quero te fazer um convite. Já passeou pelo Parker Slope?

Neguei com a cabeça lentamente, ela deu um sorriso de orelha a orelha e falou que eu podia sair.

Ainda estava me sentindo confusa quando entrei no quarto de Justin. Ele estava acordado e mexia no celular.

— Ah, ai está você — falou colocando o celular de lado e me olhando feliz. — Pensei que não fosse vim.

— Eu te ligaria para avisar caso não pudesse — falei me aproximando. — Ah, bom dia.

— Bom dia, Bryce — me sentei ao seu lado e segurei a sua mão, fiz menção de beijar os seus lábios mas ele desviou o rosto. — Não, acabei de acordar.

— Como você é formal — falei rindo.

— Não usaria bem essa palavra para me definir — entrelaçou os nossos dedos. — Como foi?

— O enterro? — apenas assentiu. — Como todo enterro, muito triste. Matt está inconsolável, apenas rir de forma forcada. Tentei conversar com ele pelo resto do domingo e ele ficou me evitando.

— Como ele conseguiu fazer isso?

— Isso o quê?

— Te evitar, Bryce. Isso é quase impossível. Tentei fazer isso, se lembra?

— Ele consegue ser mais obscuro que você — seu sorriso se apagou. — Digo, você era, mas agora não é mais. Apenas precisava de um incentivo para ser mais alegre e... E eu falei besteira.

— Tudo bem, você tem razão.

— Não queria te ofender...

— E não ofendeu. Sério — sorriu, mas pude perceber que se esforçou um pouco.

— Não pensa mais aquilo, não é? — me olhou confuso. — Que tudo o que está sentindo agora vai passar e vai voltar a se sentir infeliz...

— Eu não sei. Mais ou menos.

— Você mesmo falou que não existe meio termo, Justin.

— É que tem horas que é inevitável. Estou bem agora, mas sempre acontece algo para me deixar mal.

— Aconteceu alguma coisa no fim de semana? — não respondeu, desviou o olhar. — Não adianta negar. Me fala.

— Se lembra do Robert Hernandez?

— O ruivo desagradável de Londres? — assentiu. — Como não lembrar daquelas sardas e sorrisinho presunçoso? O que tem ele?

— Como deve saber, daqui a três semanas será o feriado de 4 de Julho.

—Claro! — falei empolgada. — Amo ver o desfile e os fogos á noite.

— Imaginei que sim, você é bem comemorativa — assenti freneticamente. — Tem algo em mente para esse dia?

— Como sou eu e não posso ir para Washington, me conformarei com o desfile da Times Square — fiz ar dramático.

— E está achando ruim?

— Eu poderia estar em Washington — rolou os olhos. — Estou brincando. Mas o que Robert Hernandez tem a ver com isso?

— Ele vai dar uma festa particular para comemorar o feriado — assenti. — No palácio Monticello.

— Monticello? — perguntei estática. Justin apenas assentiu. — A antiga propriedade do Thomas Jefferson?!

— O que é bastante significativo para comemorar o dia da independência, não é?

— Sim! Mas como ele conseguiu isso?! A propriedade é fechada! Somente é permitido visitas turísticas!

— Robert é um homem de contatos — franzi o cenho. — Vou falar em uma linguagem mais popular. Ele é “podre de rico”. Conseguir isso é fácil para ele.

— Mesmo assim... E se houver algum dano na propriedade?!

— Tenho certeza de que ele pode pagar por isso.

 — Caramba!

— Ele convidou Rick.

— Meu Deus! Você vai?!

— Não sei, Pattie está tentando me convencer.

— Tentando te convencer?! Meu Deus, Justin!

— Você quer ir?

— Como?

— Perguntei se você não quer ir.

— Eu nunca fui à Virgínia...

— Imaginei.

— Ei, mas eu já sai do país, tá bom?

— Mas não foi à Virgínia — sorriu malicioso.

— É...

— Você quer ir? Pode levar sua irmã também. Tenho certeza de que ela vai gostar. Sabia que lá tem uma ótima plantação de uvas? Eles produzem o próprio vinho que é considerado um dos melhores da América.

— Eu sei! Mas não poderei...

— Por quê?

— É uma viagem de quantas horas?

— Sete horas de carro. Mas não vamos de carro, Pattie detesta viagens longas. Vamos de jato.

— Sabe, por mais que eu saiba que vocês são ricos, nunca vou me acostumar com isso — ele riu. — Bem, essa casa é incrível, mas não é bem o tipo de casa que ricos que frequentam festas no palácio Monticello, teria.

— Pattie é simples — deu de ombros. — Você aceita o convite?

— Você quer ir?

— Pensei em ver o desfile pela TV mais uma vez esse ano, mas se você quiser ir, estou de acordo.

— Meu Deus! Claro que eu quero ir! Lauren pode mesmo ir?!

— Robert nos falou para levar convidados.

— Justin, eu queria negar, mas isso é impossível!

— Então estamos de acordo.

— Sim, com certeza. Tenho que dar a notícia a Lauren — me levantei. — Mas primeiro vou te tirar da cama e... Desculpe, estou empolgada.

— Tudo bem, gosto de te ver feliz.

— Ai, não...

— O que foi?

— O Matt... Pedi para que ele passasse uns dias lá em casa, não vou poder deixá-lo sozinho lá.

— Poderia levá-lo.

— Sério?

— Não vejo problema.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Tudo bem. Mas primeiro verei se ele quer ir — assentiu. — Obrigada.

— Não precisa agradecer, Bryce.

Assenti, sentindo a euforia tomar conta de mim.

Resolvi ajudar Justin com sua rotina matinal. Teria que ajudá-lo com os exercícios também.

A manhã passou rápida e muito calma. Jonny apareceu pela tarde para animar como sempre. Justin estava descansando, então fomos apenas nós dois passear pelo jardim. Ele estava empolgado também para o feriado e não parava de falar como o lugar era maravilhoso e que eu ia amar.

                            [...]

— Já fez as pazes com o Charlie? — Justin perguntou de repente enquanto eu abotoava os botões de sua camisa.

— Desculpe... 

— Eu sei que vocês brigaram naquele dia.

— Não!

— Eu te vi quando entrou e depois teve a crise.

— Isso não foi por causa do Charlie! Aconteceu porque tinha que acontecer.

— Mas houve essa influência. Não sei exatamente o que vocês sentem um pelo outro, mas acho que não é apropriado acabar a amizade — ficou pensativo por alguns segundos. Quando voltou a me olhar, estava com uma expressão indescritível. — A culpa é minha, eu sei. Não devia ter falado que estávamos namorando justo para ele, vocês tinha terminando o relacionamento recentemente. Foi imaturo. Me desculpe.

— A culpa não é sua, meu amor. Eu que criei essa situação, devia ter sido honesta com ele desde o inicio. Ele sabia sobre os meus sentimentos por você e achou que você não sabia. Eu que fui imatura — suspirou. — Está com raiva de mim também? Por não ter sido sincera...?

— Não, eu não estou — arrumou uma mecha que tinha escapado de trás da minha orelha novamente. — Eu teria feito a mesma coisa no seu lugar. Você gosta muito dele.

— Como amigo — riu.

— Sim, eu sei.

— Ele é quase como se fosse um irmão.

— Isso não teria soado tão estranho se você já não tivesse dormido com ele — senti minhas bochechas esquentarem. — Não fique assim.

— Foi uma observação muito estranha, confesso.

— Corre o risco de acontecer isso com a gente? Você passar a me ver apenas como um amigo, depois de... Sabe...

— Eu... Nunca tinha pensado nisso — falei sem jeito. Não acreditando que íamos ter mesmo aquela conversa. Talvez fosse melhor mudar de assunto.

— Em nós dois? — Justin perguntou me olhando sem jeito.

— Nós dois? — pigarreei. — Tipo, nós dois? — ele gargalhou. — O que foi?!

— Está com vergonha de falar a palavra — ele falou ainda rindo, os seus olhos estavam até cheios de lágrimas.

— Que palavra?!

— Ora, Bryce...

— Tudo bem, eu estou! É como se eu estivesse falando sobre a minha primeira vez.

— Mas não seria a sua primeira vez? — semicerrou os olhos. — Com um cara aleijado.

— Ah, sim... É, seria... — como eu fazia para aparatar do quarto? — Eu só não esperava termos essa conversa. E não se referia a si como aleijado.

— Paraplégico, aleijado, que diferença faz? Me desculpe por falar isso.

— Não, tudo bem. Só não esperava que fosse ouvir isso de você um dia... Achei que você nem pensava numa possibilidade.

— Tudo o que mais desejo agora é fazer amor com você, Bryce — sua voz soou baixa e rouca. Senti o chão deslizar embaixo dos meus pés.

— Nossa, onde está aquele Justin inseguro? — tentei brincar, disfarçando o máximo da vergonha que sentia naquele momento. A situação era excitante e tensa.

— Ultimamente não o tenho visto — Justin falou em tom zombeteiro, mas percebi que esfregava a mão no joelho em um tique. Ele agora também estava tenso. — Desculpe, eu não queria falar isso.

— Não precisa se desculpar.

— Eu já fui melhor nessas coisas antes... Na verdade, não precisava falar esse tipo de coisa, eu só... Me desculpe.

— Eu também quero! — disparei antes que ele começasse a se sentir mal consigo mesmo. Ele me olhou sem entender. — Fazer amor com você...

No momento que vi Justin pela primeira vez, nunca imaginei na minha vida que um dia falaria isso com ele. Na verdade, nunca imaginei que me apaixonaria por aquele cara amargo e infeliz. E agora eu estava falando que queria fazer amor com ele como se estivesse o chamando para passear no jardim. O pior foi o espanto estampado no seu rosto. Claro que ele estava apenas brincando.

— Bem, eu não sei como fazer isso — Justin falou por fim. O seu pescoço e rosto estavam vermelhos.

— Eu... — olhei ao meu redor nervosa. — Se você quer tentar, acho que podemos...

— Agora? — me olhou um pouco assustado.

— Não agora, uma outra hora...

— Claro... Mas eu preciso te avisar que talvez não dê certo ou seja estranho, eu não mexo nada do peito para baixo e você teria que...

— Eu sei! Sei como isso funciona.

— Ah...

Ficamos em um silêncio mortal, olhando um para a cara do outro. Eu sabia que no futuro iria rir da situação, mas no momento, ela era mais que estranha.

— E então? — Justin quebrou o silêncio, o olhei sem jeito. — Quando vamos... — pigarreou.

— Algum dia — falei a primeira coisa que me passou pela cabeça. Péssima escolha de palavras, Justin olhou para baixo. — Acho que não é bem assim que funciona... Não acontece naturalmente?

— Isso é um das coisas que nunca mais terei o prazer de ter — ele falou com um sorriso nervoso. — Nada mais na minha vida é natural.

— Você tem razão, acho que é mesmo preciso um planejamento.

— É.

— Então vamos planejar!

— Sério?

— Sim! — me sentei de lado no seu colo. — Você precisa estar pronto e seguro.

— Concordo — colocou a mão no meu joelho. Os seus dedos circularam o local por alguns segundos.

Depois ele afastou a mão e ficamos olhando para o nada, imersos em pensamentos. Eu não sabia o que ele estava pensando, mas o que eu estava pensando era em como isso seria.

Eu falei que Justin precisava estar pronto e seguro, mas o problema é que eu não me sentia pronta e muito menos segura.

                                              [...]

Quando falei para Lauren onde passaríamos o feriado de 4 de julho, primeiro ela surtou e depois disse que não estava acreditando. Depois que a convenci de que não estava brincando e falei que íamos em um jato particular, ela gritou, literalmente. Depois foi pesquisar na internet sobre o local e ficou enchendo o meu saco, falando sua história do inicio ao presente. Ai do nada ela bateu na testa e falou que precisaria comprar um vestido novo. Eu nem tinha pensado sobre isso. Justin falou que seria uma comemoração ao dia da independência, não via necessidade de usar um traje a rigor para isso.

— Você é tão brega — Lauren falou quando comentei que usaria uma roupa normal e talvez pintaria minhas unhas de azul e vermelho. Claro que foi apenas uma brincadeira. Matt do outro lado do balcão riu. — Estamos falando sobre comemorar o feriado ao lado de ricos! Não vou deixar que se humilhe desse jeito!

— Estava apenas brincando, Renne — provoquei. — Estou pensando mesmo em usar um vestido com a estampa da bandeira dos Estados Unidos.

— Os meus ouvidos sangram! — ela exclamou tapando os ouvidos.

— Eu acho legal — Matt falou dando de ombros. — Um pouco de patriotismo em excesso, mas mesmo assim é legal.

— Vocês são malucos por acaso?! — Lauren perguntou, dessa vez irritada. — Está falando sério, Bryce? — dei de ombros. — O que Justin viu mesmo em você?

— O meu interior.

— Assim como você viu o dele... — assenti. — Isso consegue ser ainda mais brega!

— Estou brincando! Não sou tão sem noção assim.

— No que estava pensando?

— Sei lá.

— Vamos ao shopping e comparamos algo apropriado.

— Na verdade, eu estava pensando em usar o vestido que o Jonny me deu em Londres... 

— Ah, sim, ele é bonito. Então só eu e ele que temos que achar algo apresentável? — olhou para Matt que mordia uma maçã distraído. Quando notou que o olhávamos, parou de mastigar.

— O que foi? — perguntou confuso.

— Você precisa de uma roupa — Lauren falou como se essa fosse a maior de nossas preocupações.

— Não precisa, eu não irei.

— Como não? — perguntei. — E com quem vai ficar?

— Se esqueceu do abrigo? Espero que você não tenha falado nada para Amanda.

— Eu não falei. Mas eu pensei que você quisesse ir...

— Se esqueceu de que não vou muito com a cara do Justin? Acho que ele também não vai muito com a minha cara também depois do que falei.

— Por que não vai com a cara dele?! Nem o conhece.

— Ele parece ser um pé no saco. E não estou falando no sentido figurado.

— Ele não é um pé no saco! E que expressão feia é essa?

— Que graça você vê nele? — ele continuou. — As pessoas não costumam namorar com outras pessoas legais?

— Já chega, Matthew. Não entendo o porquê dessa sua implicância com ele. Apenas pare. E só para você ficar sabendo, foi ele que deu a ideia de te chamar para ir conosco. Se ele não tivesse “ido com a sua cara”, nem teria a dado. E você tem que aprender a respeitar as pessoas, senão ninguém vai gostar de você.

— Tenho que concordar — Lauren falou sem desviar os olhos do celular. — Você precisa ser mais legal com as pessoas se quer que elas gostem de você.

— Eu não preciso que ninguém goste de mim — Matt falou se levantando. — E acho que não sou obrigado a gostar de ninguém.

Saiu da cozinha com passos firmes. Eu e Lauren ficamos olhando por onde ele tinha saído por alguns segundos. Ela suspirou e me olhou.

— Que garoto estranho — falou por fim com um leve dar de ombros.

Dessa vez fui eu que tive que concordar com ela.

                                                [...]

As duas semanas que se passaram foram tranquilas, com exceção das duas vezes que Carol apareceu para perturbar um pouco. Ela ainda não estava conformada com o fim da relação e não deixou de soltar palavras de ameaças que eu não tinha tanta certeza se eram vazias ou não. Justin por outro lado nem se importou, estava com um ótimo humor.

Estava prestes a desistir de levar Matthew quando em uma tarde ele chegou da escola com um olho roxo. Fiquei o enchendo de perguntas e para fugir do assunto, ele disse que ia para a Virgínia conosco. Na hora fiquei tão contente que deixei de lado o ocorrido. Voltei à conversa durante o jantar e tudo que ele disse que foi uma briga na escola. Eu estava pensando seriamente em ligar para Amanda e contar sobre a situação, ela provavelmente ainda não sabia sobre a morte da mãe dele. Eu não tive tempo de ir ao abrigo nas últimas semanas, estava tão ocupada em controlar Matt e o meu relacionamento com Justin que era impossível acrescentar mais algo na lista. E para completar, Lauren estava questionando sobre minha situação com Charlie. Ela achava que tudo o que eu precisava fazer era pedir desculpas que ele voltaria a ser meu amigo. Então falei sobre Jennifer. Ela ficou apenas me olhando sem falar nada enquanto eu falava o quanto Jennifer era bonita e o quanto eu estava chateada por Charlie ter ido buscar consolo nos seus braços.

Então ela falou que eu estava sendo mesquinha e egoísta por querer a atenção dele só para mim. Que ele tinha mesmo que seguir em frente como eu estava fazendo com Justin.

E eu não encontrei palavras para argumentar mesmo sabendo que o que eu estava sentindo não era ciúmes.

                    [...]

— Por favor, prometa que vai se comportar — falei com Matt assim que colocamos os pés no aeroporto empresarial. Ele fingiu que não meu ouviu, olhando para a sua esquerda. — Matt...

— Eu falei que não queria vim — ele falou me olhando com raiva. 

— Você mudou de ideia de última hora! Já estava tudo combinado — Lauren falou correndo para nos alcançar. — Qual o problema?

— Apenas não entendo porque você quer tanto que eu vá — Matthew falou me olhando. — Sabe que isso não vai dar certo. 

— Apenas não vai dar certo se você quiser.

— Por que me trouxe? — parou de andar. Eu e Lauren fizemos o mesmo. — Está com medo que eu passe o feriado me drogando com perdidos?

— Talvez. 

— Bem, ao menos você foi sincera — sorriu com ironia.

— Em que portão estão nos esperando? — Lauren perguntou consultando o relógio de pulso.

— Justin não me falou nada, apenas que devemos esperar próximo a ala de embarque. Não sei com funciona essa coisa de voou particular. 

— Bryce, não precisa ter certificado de pobreza — ela falou com um sorriso falso.

— Me desculpe, eu não sabia que estava conversando com uma rica autêntica — passei a mão pela saia do vestido que estava usando.

— Para de ser irônica, Bryce.

— Tudo bem — tirei a bolsa do ombro e olhei ao meu redor. — Vamos.

Lauren e Matt me seguiriam sem falar mais nada. Próximo a ala de embarque não avistei nenhum Bieber. Era meio óbvio que eles não chegariam primeiro. Lauren e Matt foram se sentar em uma das cadeiras de espera e eu peguei o meu celular. Havia uma mensagem de Justin me dando bom dia e outra falando que estavam saindo de casa.

Como não tinha nada para fazer além de olhar para a cara de Lauren e Matt, mandei uma mensagem para Charlie desejando um feliz 4 de Julho. Ele respondeu com um emoji de legal. Quase uma hora depois não tinham chegado. Voltei para perto de Lauren e Matt e coloquei os meus fones de ouvido.

Estava quase cochilando quando Lauren me chamou.

 — Chegaram — ela falou se levantando.

Segui o seu olhar e vi Justin, Jonny, Rick e Pattie que empurrava o carinho onde Merrin estava. Um funcionário do aeroporto vinha logo atrás trazendo suas bagagens em um carrinho. Fiquei cismada. Íamos passar só um dia lá. Eu tinha levado apenas a roupa que estava vestindo e  uma peça na bolsa. Justin falou que a festa ia começar pela tarde e que íamos voltar naquela mesma noite depois dos fogos. Por mais que eu já estivesse acostumada com a mania deles, sempre me surpreendia com algo.

— Nos desculpe pelo atraso — Pattie falou assim que se aproximaram. — Carol resolveu ir para Washington de última hora e nos pediu para ficar com Merrin. Tivemos que ir buscá-la. 

— Tudo bem, estou feliz que tenham a trazido — falei sorrindo. Merrin usava um vestido vermelho e uma fita azul bebê no cabelo. Uma verdadeira patriota.

Fui até Justin e beijei a sua testa. Ele riu.

— Como você está? — perguntei baixinho. 

— Ótimo — ele respondeu também baixinho. 

— Que bom — me voltei para a sua família. — Gente, essa é Lauren, minha irmã e esse é o Matthew — falei apontando para Lauren e Matt que apenas observavam a família de Justin como se eles não fosse desse mundo.

— É um prazer — Jonny falou se aproximando de Lauren e lhe estendendo a mão. Ela sorriu e a apertou. Também cumprimentou Matt com um aperto de mão.

Pattie e Rick também os cumprimentaram. Mas o que eu percebi foi a forma que Justin e Matthew se olhavam. Já previa que esse seria o comportamento de ambos. Mas eu não queria que ficasse um clima estranho, então o fiz cumprimentar Justin. Ele me olhou de soslaio como se não acreditasse que eu o estava fazendo fazer aquilo. Dei um sorrisinho e bati no seu ombro. Os dois se cumprimentaram a contragosto.

— Estou tão empolgada — Pattie falou, não percebendo o clima estranho. — É como se fosse um feriado em família. Sorri sem mostrar os dentes.

— Gostei do seu vestido, Bryce — Jonny falou piscando. — Está muito bonita.

— Obrigada, peguei a primeira coisa que vi — brinquei mexendo nos meus cabelos. Ele deu uma risadinha e assentiu.

— O piloto já está nos esperando — Rick falou guardando o celular no bolso do blazer. — Vamos. 

— Ai, meu Deus — Lauren falou quando entramos na ala de embarque e ficamos um pouquinho para trás. — Jonny consegue ser ainda mais bonito que Justin!

— Eu não acho isso — falei baixinho. 

— Qual é, o cara é um gato!

— Já mandou um feliz 4 de Julho para o Carter hoje? — provoquei e ela rolou os olhos.

— Você sabe que é só um lance, Bryce.

— Ele parece gostar muito de você. Então comporte-se. 

Apressei os passos e fiquei ao lado de Justin. Coloquei a mão no seu ombro e ele me olhou.

— Tudo bem? — perguntou. 

— Sim!

Ele riu, dizendo que não acreditava. Fiquei atrás dele e segurei a cadeira, ele foi obrigado a parar. Inclinou a cabeça e me olhou. Ele estava bonito: uma camisa azul marinho por baixo de um blazer da mesma cor. Sua calça era branca. Sapatos de couro marrom com cadarços. 

— Feliz 4 de Julho — falei. Ele sorriu e assentiu. — Não vai me desejar também?

— Idem, Garrison. 

Me inclinei e beijei os seus lábios. Foi rápido, pois não queria que sua família visse. Ainda estavam se acostumando com tudo isso. Justin tentou me segurar, mas a posição que eu estava não o favorecia. Fiquei na sua frente a abri um segundo botão da sua camisa.

— Assim está melhor — falei.

Ele estreitou os olhos, mas nada disse. Apesar das coisas que Lauren fala de mim, eu tinha um pouquinho de senso de estilo.

Fomos levados de carro até a pista onde o jato privado esperava. Justin no caminho me explicou que ele era usado apenas para viagens de trabalho da empresa e fomos para Londres em um avião comum porque ele estava em manutenção. Brinquei falando que achava que eles tinham apenas uma boa condição financeira.

Os mesmos homens que descarregaram as bagagens carregaram Justin e o acomodaram em uma das poltronas confortáveis do jato.

— Vai ficar confortável? — perguntei quando os homens se afastaram, indo auxiliar Pattie que tirava Merrin do carrinho. 

— Acredito que sim — respondeu dando de ombros.

— Quer que eu incline um pouco mais a poltrona? 

— Estou bem, Bryce.

— Certo... — olhei para trás, vendo Jonny se sentar ao lado de Lauren que sorriu abertamente. Ele a ajudou apertar o cinto de segurança. — Que ótimo — me voltei para Justin que franziu o cenho. — Não tenho nada contra o Jonny, mas ele precisa saber que minha irmã está tendo um lance no momento. 

— Então ela não está namorando.

— Está tendo um lance, o que não é diferente de um namoro. 

— Claro. Aquela é a Deborah — olhei para a direção que ele olhava e vi uma mulher com uma saia social preta que ia até os joelhos e uma blusa também social branca. Os seus cabelos estavam presos em um coque. Ela se aproximou sorridente. 

— Bom dia, Justin, como vai? — ela perguntou com os olhos brilhantes. — Quanto tempo...

— Estou bem, obrigado — Justin respondeu com um sorriso discreto.

Ela me olhou também sorrindo.

— Olá, sou Deborah, comissária do Legacy 450, é um prazer — me estendeu a mão que aceitei.

— Legacy 450? — perguntei completamente confusa.

— Esta aeronave, Bryce — Justin explicou.

— Ah, sim...

— Deseja beber alguma coisa? Chá, suco, água...?

— Nos sirva um Richebourg — Justin pediu. Ela assentiu e se afastou. 

— O que é isso? — perguntei. 

— Vinho tinto. 

— Sério?! Mas são só nove horas da manhã...

— Hoje é um dia especial para você, sua americana.

— Ah, sim. 

— Além do mais, eu preciso estar preparado para o dia de hoje. Você está prestes a entrar no covil dos lobos, Bryce.

— Talvez nem todos sejam prepotentes como o Robert.

— A maioria será parentes e amigos, esse é o círculo social dele. Mas não se preocupe, vamos ficar bem.

— Espero...

Deborah chegou com o vinho e nos serviu ainda com o seu sorriso radiante. Depois o piloto apareceu e nos cumprimentou. Gostei dele, era um homem que sorria de forma verdadeira. Desejou-nos boa viagem e foi para a sua cabine. Apertei o meu cinto depois de verificar o de Justin e enchi mais a minha taça de vinho, tentando não absorver as palavras de Justin. Ele estava apenas tentando me assustar. 

Eu não precisava sentir tanto receio. Apesar de não pertencer ao círculo social, estava a altura usando o vestido que Jonny me deu. Tudo o que eu precisava era relaxar.

A viagem durou trinta minutos e foram os trinta minutos mais incríveis da minha vida. Aquele jato, o tal Legacy, conseguia ser mais confortável que o meu apartamento. Quando fui no toalete — que só para constar, pensei que fosse uma cabine minúscula—, me surpreendi com o tamanho e o luxo. Não me contive e tirei algumas fotos no espelho para mostrar para Charlie se um dia voltássemos a nos falar. Tinha um pote de vidro encima da pia com pequenos sabonetes coloridos com o formato de avião, não me contive e peguei um. Seria uma lembrança legal.

Dois carros já nos esperavam assim que colocamos os pés fora da aeronave. Fui com Lauren, Matt e Jonny em um. Justin, Merrin, Pattie e Rick em outro que era adaptado para deficientes físicos. Tentei não pensar porque Jonny fez tanta questão de dirigir o carro que estávamos. Tudo o que eu menos queria agora era o irmão de Justin se engraçando com a minha irmã. Com certeza não era uma situação das melhores.

Minha atenção foi toda voltada para a estrada quando as casas e prédios sumiram e todos os lados que eu olhava havia somente o verde da natureza.

— Apesar de ser um lugar muito bonito, eu prefiro Nova York — Lauren comentou quando não se via nada além de árvores.

— Eu acho legal — Jonny comentou sem tirar os olhos da estrada. — Estar aqui é como se estivesse desligado do mundo lá fora. Nada de transito, pessoas sempre correndo e fumaça.

— Olhando por esse lado, você tem razão — ela falou sorridente. Rolei os olhos. Matt deu um risada anasalada. O olhei e ele deu de ombros. — Você já esteve aqui?

— Não, mas conheço muito sobre o lugar.

— Então já tenho o meu guia turístico para hoje.

— Todo mundo que estudou e tem internet sabe — murmurei. Não era para ter soado tão rude, mas as investidas de Lauren eram quase patéticas. — Inclusive você, Lauren. Se me lembro bem, pesquisou sobre o lugar desde que eu te falei que íamos passar o feriado aqui.

Matthew tentou segurar a risada, mas isso fez que ele pigarreasse alto. O olhei e ele caiu na gargalhada. Lauren se voltou para mim com as bochechas vermelhas. Jonny também começou a rir. Eu não podia ler mentes, mas conhecendo bem minha irmã, eu sabia que o que ela mais deseja no momento era sumir.

Chegamos ao palácio por volta do meio-dia. Me surpreendi com a quantidade de carros de luxo que havia ali. Jonny estacionou ao lado do carro que Rick estava dirigindo. Arrumou os cabelos rapidamente no retrovisor e me olhou. Sorri de forma nervosa e olhei para Matthew. Ele olhava o local impressionado.

Fiquei em duvida se deixava minha bolsa no carro ou não. Ela estava pesada por causa da roupa que tinha ali, resolvi deixá-la, mas em compensação tive que segurar a bolsa de Merrin. Me lembrei do remédio que tinha que tomar as três da tarde e o coloquei no bolso da bolsa de bebê. Lauren ficou me perguntando se o vestido que escolheu estava bom enquanto caminhávamos.

Toda a área gramada enfrente ao palácio estava tomada por mesas e pessoas que vestiam roupas como se estivessem em um casamento. Essa foi a primeira observação de Lauren. Pela manhã eu tinha falado que achava que talvez as pessoas não usariam roupas a rigor. Agora agradecia mentalmente por me deixar influenciar tanto.

— Acho que isso talvez não seja uma boa ideia — ouvi uma voz atrás de mim quando eu estava prestes empurrar a cadeira de Justin em direção ao gramado para nos alojarmos em uma das mesas. Me voltei e vi Robert Hernandez com o seu sorriso presunçoso. Agora a luz do dia eu pude ver que o seu rosto tinha muito mais sardas do que eu tinha percebido em Londres. Uma jovem de cabelos ruivos como os dele, estava ao seu lado com um sorriso irônico. — Há não ser que queira estragar o gramado do nosso antigo presidente.

Justin fez a cadeira girar e encarou o homem. 

— Ah, Robert — falou sem muita emoção.

— E eu, Justin — a jovem falou com ar magoado.

— Me desculpe, Emily — Justin falou ainda sem um pingo de emoção na voz. Foi preciso pouco tempo para ver que a situação estava o deixando desconfortável.

Olhei na direção que a família de Justin, Lauren e Matthew tinham ido. Eles já estavam se acomodando em uma das mesas que era grande.

— Quanto tempo... — a tal Emily falou. — Você está ótimo! — me controlei para não olhar para o rosto de Justin. Mas tudo o que ele fez foi dar uma risada sarcástica. — Abigail não parava de falar de você, está louca para te ver!

— Ah... Essa é Bryce, minha namorada — Justin falou.

— Namorada? — a ruiva me avaliou com os seus olhos verde oliva. — Pensei que fosse casado...

— Ela não é a sua enfermeira de Londres? — Robert se meteu me olhando com os olhos semicerrados.  

Talvez eu achasse uma toca de coelho pelo gramado e pudesse me enfiar.

— Não mais. Agora ela é minha namorada — Justin falou simples.

— E sua mulher?

— Divorcio — deu de ombros.

— Que coisa mais esquisita... Mas quem sou eu para julgar, não é? Afinal aquele ator não teve um filho com a empregada? — Emily riu. — As coisas são assim hoje em dia.

— Onde está Helena? — Justin perguntou com tom irritado.

— Ela não pôde vim, vai participar da comemoração no Dallas, sua cidade local. Acho que vai dar até um discurso. Abigail está lá dentro orientando o pessoal do bife. Não via a hora de te ver. Falou disso a semana toda. Olhei de soslaio para Justin. Ele pigarreou e assentiu. — Onde está meu sócio e sua mãe? Faz tempo que não a vejo, deve continuar bonita! Ah, eu estava brincando sobre o gramado, essas cadeiras modernas de hoje em dia podem subir montanhas, não é mesmo? 

Só ele riu da sua piada. Justin ficou apenas o olhando com cara de paisagem. Emily falou um “pai” baixinho e ele parou de rir. Percebeu que foi o único a achar graça e falou sem jeito que ia cumprimentar Pattie e Rick. 

— Me desculpe pelo meu pai, Justin — Emily falou quando ele se afastou. — Ele quando está muito empolgado, fala... Hã... Besteiras.

— Tudo bem — Justin murmurou. — Já conheço o senso de humor dele.

— Que bom! — olhou dele para mim. — Onde está o patriotismo? — apontou para um broche no seu peito. Ele tinha a estampa da bandeira dos Estados Unidos. — Ah, me esqueci que você não é americano. O que me faz lembrar que o dia da independência do Canadá foi há três dias atrás. Então, feliz dia da independência para os canadenses!

— Você é muito prestativa, Emily. Obrigado — Justin falou rindo.

Eu estava pasma. Tinha me esquecido completamente que Justin era canadense e que 1 de Julho era a data de comemoração dos canadenses. O pior era que ele nem tinha me falado. Devia estar chateado ou magoado.

Emily disse que ia chamar sua irmã Abigail para vê-lo e se foi.

— Antes que eu pergunte porque essa tal de Abigail vai ficar tão contente ao te ver, quero me desculpar por não saber sobre 1 de Julho — falei o olhando sem jeito. Justin riu. — Sério, me desculpe...

— Não tem problema, Bryce, você não precisa saber os feriados do Canadá só por minha causa.

— Por que não me falou?

— Porque não é de tanta importância assim.

— Justin, você veio até a Virgínia comemorar a independência dos Estados Unidos por minha causa. Isso com certeza tem importância para mim. 

— Mas não para mim — suspirei. — Se lembra que você disse que sou quase um nova-iorquino? — apenas assenti. — Talvez eu esteja começando a me tornar um mesmo.

— Isso significa que vai torcer pelo meu time de beisebol agora?

— Não exatamente. Vai ser divertido ver sua cara quando seu time perder o jogo e o meu levar a melhor.

— Você gosta de competir, não é mesmo? — falei rindo.

— Um pouquinho...

— Está bem. Agora, quem é Abigail?

— Irmã mais velha da Emily, filha do Robert e minha ex-namorada.

— Sua... Sua ex? — minha voz tinha saído mais aguda.

— É. Namoramos quando eu estava na faculdade — deu de ombros como se isso não significasse nada.

— Ela é loira também? — perguntei, me perguntando se ela era uma das suas ex-namoradas que Pattie tinha me mostrado as fotos.

— Bem, um pouco — rolei os olhos. — Por quê?

— Nada... Vamos para a mesa.

Ele não disse nada, deixou que eu empurrasse sua cadeira sem protestar. Jonny tirou uma das cadeiras e o coloquei em frente à mesa. Robert ainda estava ali, enchendo Pattie de elogios. Lauren tinha pego o celular e tirava fotos dela mesma.

— Sabia que isso é coisa de pobre? — perguntei com ironia, me sentando ao seu lado. Ela abaixou o celular e me fuzilou. — Por que não se ridiculariza mais e tira uma foto tomando champanhe espumante?

— Por que você não cala a boca, Bryce? — ela perguntou irritada. Mas já estava guardando o celular. — Não vejo problema em tirar algumas fotos. Estamos em um lugar histórico — apontou para o palácio a nossa frente. — Você é a pessoa que queria pintar as unhas de vermelho e azul.

— A filha do homem que está dando esta festa está usando um broche com a estampa da bandeira. Acho que o seu vestido deve custar uns cinco mil dólares.

— Isso é diferente.

— Só porque não sou eu usando, não é mesmo?

— Claro que não!

— Vou fingir que acredito — um garçom me ofereceu uma taça de champanhe e eu a peguei. Dei um farto gole sem hesitar.

— O que está fazendo?! — Lauren perguntou chocada. — Bryce, você se esqueceu que está tomando remédios? Não pode beber!

— Me esqueci... — ela abriu a boca. — Tomei vinho no avião... 

— Você é mesmo louca.

— Não me trate como se eu fosse uma criança.

— Você que sabe as sua vida. Depois não diga que eu não avisei.

Ignorei suas palavras e terminei de tomar o champanhe. Quando Robert se foi, Pattie perguntou a Lauren e Matt o que estavam achando. Lauren falou empolgada que queria muito conhecer o palácio por dentro. Ficou um pouco triste quando Rick falou que talvez não fossemos entrar. Eu apesar de não conhecer, não via mesmo necessidade de entrar. O lugar por fora era lindo. Na mesa tinha um tipo de guia que contava a história do lugar. Falava sobre suas plantações também. Achei interessante quando vi no final do folheto que no fim da tarde fariam uma pequena demonstração de como era feito o vinho antigamente. Eu sabia que os camponeses esmagavam as uvas com os pés e que até hoje essa tradição ainda é mantida em algumas regiões. Mas não era o tipo de coisa que se via todos os dias, principalmente vivendo em Nova York.

Me empolguei mais ainda quando uma banda de rock clássico chegou para animar. Talvez os ricos não fossem tão tediosos como eu pensei. Em poucos minutos eles montaram seus instrumentos no palco que fora improvisado e começaram a tocar. Então me senti em uma festa. Rick comentou que Robert optará por esse estilo de música porque a maioria dos presentes eram jovens, amigos de suas filhas.

Quando a banda começou tocar Last Nite, me levantei e disse que tinha que ver de perto. Justin e Jonny me acompanharam para perto do palco. Fechei os olhos e comecei a balançar minha cabeça na batida calma daquele rock.

— Pensei que você só gostasse de músicas de adolescentes de hoje em dia — Justin falou rindo. Abri os olhos e o encarei.

— Eu já te falei que sou versátil — falei dando de ombros. — Oh, Baby, don't feel so down — cantarolei.

Fiquei o olhando enquanto cantava. A música acabou e tocaram you only live once da mesma banda. Pedi para que eles ficassem ali comigo, pois eu tinha uma paixão secreta por The Strokes.

— Oh don't don't don't get out — cantei, ficando de frente para Justin e colocando as mãos nos seus ombros. Ele fingiu que ia se afastar rindo.

Coloquei o pé esquerdo no apoio para os pés da cadeira e pus as duas mãos sobre os seus ombros. Fechei os olhos, balançando a cabeça e cantando.

— Você já está bêbada? — ele perguntou rindo.

— Oh Men don't notice what they got — foi minha resposta para ele que riu mais.

Eu não estava bêbada. Nem tinha bebido tanto, apenas estava feliz. Queria lhe passar um pouco da minha felicidade. Deslizei os dedos por sua nuca e ele fechou os olhos.

— Não estou bêbada — falei me inclinando um pouco.

— Talvez não...

Ri e continuei dançando e cantando. Quando a música acabou, voltamos para nossas mesas e então conheci Abigail.

A principio não entendi quando uma mulher aparentando ser mais velha que Justin se levantou da cadeira e correu até nós. Ela se inclinou e abraçou Justin que retribuiu.

— Como é bom te ver, Justin! — ela falou. — Nem acreditei quando Emily me falou que você tinha mesmo vindo!

Fui tomada por espasmos de ciúmes quando ela passou a mão nos cabelos de Justin, os arrumando. Eu só conseguia olhá-la de cima a baixo. Não era mais bonita que Carol ou as ex-namoradas de Justin, mas ela era muito, muito sensual. Tinha lábios carnudos, os olhos mais verdes que os do pai e uma pele muito alva. Os seus cabelos tinha um corte moderno, chegava à altura dos ombros e era de um loiro avermelhado como os da Nicole Kidman. Usava um vestido azul que ia até os joelhos, com as costas a mostrar. Era todo de renda.

Justin um pouco recuperado da surpresa, falou que era bom vê-la também e me apresentou como sua namorada. 

— Papai me falou que você tinha se divorciado de Carol — ela falou depois de me olhar por segundos com desdém. — Não acreditei mais ainda quando disse que sua nova namorada era uma de suas enfermeiras.

Talvez estivesse no sangue de Justin se atrair por esse tipo de gente. Talvez eu também fosse esnobe e não sabia.

— Bryce é mais que uma simples enfermeira e minha namorada — Justin falou me olhando. Sorri. — Ela é especial.

— Que romântico — dessa vez ela não disfarçou o desdém. — Espero que esteja feliz, Justin. Você merece.

— Eu estou muito feliz.

— Que bom... Venha, quero te mostrar o lugar!

— Eu não acho que seria... — ela o interrompeu:

— Apropriado? — ele apenas assentiu. — Claro que é. Não te vejo há muito tempo e quero saber como você está.

— Como pode ver, não sou mais o mesmo...

— É claro que é. Vamos! — me olhou. — Se você não se importar, é claro...

— Não, por mim está tudo bem... — consegui falar, mesmo por dentro gritando que ela não podia simplesmente aparecer do nada e arrancá-lo dali. Acho que eu estava enganada quando pensei que o feriado na Virgínia seria agradável. Tudo o que eu queria era voltar para Nova York e ter Justin e sua atenção apenas para mim. Ela não podia ressurgir do passado e agir como se fosse a dona da laranja toda.

— Viu? Ela não se importa — ela falou olhando para Justin que me olhava pensativo.

— Eu não sei... — ele falou por fim.

— Pode ir — falei engolindo a bile que subia por minha garganta. — Vai...

— Tudo bem — ele falou a Abigail sorriu triunfante. — Mas não vamos demorar.

— Claro — se colocou ao meu lado atrás dele e tive que me afastar para que não pisasse no meu pé. — Tenho tanta coisa para falar! Sua filha é linda...

Ela se afastou o empurrando. Fiquei apenas os vendo se afastar cada vez mais quando alguém pigarreou na mesa. Olhei para todas. Nem tinha percebido que tinham ouvido e visto tudo. Me sentei ao lado de Matthew e fiquei com o olhar perdido.

— Posso beber champanhe? — ele perguntou cinco minutos depois.

— Nem pensar! — falei.

— Estou brincando, apenas perguntei para ver se você estava ai.

— Ah...

— Mas o suco de Dekopon que eles estão servindo é maravilhoso — me mostrou a taça que tinha um líquido amarelo.

— Ah...

— Não ligue para aquela mulher, ela é uma vaca — o olhei chocada e depois para todos na mesa. Estavam distraídos conversando e por sorte não tinham ouvido as palavras de Matt.

— Matt, isso não é coisa que se fale! — o repreendi, mesmo no fundo pensando que se houvesse uma palavra para definir Abigail Hernandez, vaca se encaixava perfeitamente.

— Eu ouvi o que ela falou sobre você ser enfermeira dele. E daí? Você é mais bonita que ela.

— Você acha? — minha insegurança no momento estava falando tão alto que eu precisava ouvir aquilo novamente, mesmo que fossem palavras ditas por um garoto de catorze anos.

— Sim. Se eu fosse Justin, mandava ela pastar. Quando vocês não estavam aqui, só falou dela mesma e que não acreditava que ele tinha trocado Carol por uma enfermeira qualquer. Ai quando Lauren falou que era a sua irmã, ela ficou toda sem graça e tentou passar chantilly no bolo que tinha feito.

— Ela é ex dele...

— Não me surpreende.

— Por quê não?

— Ricos têm um péssimo gosto — deu de ombros.

— Você não sabe do que está falando — tomei a taça da sua mão e bebi um pouco do suco. — Vai ficar tudo bem... Ela nunca mais vai vê-lo e as coisas vão continuar como estavam. Eu não preciso me preocupar com isso, não é?

— Você precisa? — me assustei com Lauren que tinha pulado uma cadeira e se sentou ao meu lado.

— Que susto, Lauren! — exclamei.

— Se assustou por que te peguei conspirando com um moleque de catorze anos? — olhou com deboche para Matthew. Ele fez menção de lhe mostrar o dedo do meio, mas segurei sua mão a tempo. — Ela é bonita, mas nem tanto. E como Justin está perdidamente apaixonado por você, duvido que dê bola a ela.

— Ela é ex dele.

— Uol por essa eu não esperava!

— Mas isso não muda em nada, muda?

— Não faço ideia — deu uma batidinha no meu ombro. — Já são três da tarde, hora do seu remédio.

Assenti e peguei a bolsa de Merrin que eu tinha colocado no braço da cadeira de Matthew. Peguei a cartela de comprimidos e extrai um. Olhei pela mesa, a procura de água. Como não achei, peguei uma taça de champanhe e o bebi para ajudar o comprimido descer.

— Bryce, você está louca?! — Lauren exclamou tomando a taça da minha mão, mas já era tarde. — Está querendo se matar?!

— Droga, eu... Estou um pouco distraída...

— Um pouco?! Ciúmes te causa desordem mental agora?

— Não estou com ciúmes!

— Vem comigo — se levantou e me puxou pelo braço.

— O que está fazendo?! — tentei me soltar, mas ela já me puxava.

— Você precisa por isso para fora antes que aconteça alguma merda.

A segui calada, me sentindo uma idiota.

As pessoas podiam entrar no palácio para usarem o banheiro e foi para lá que Lauren me levou. Trancou a porta quando a fechou. Me encostei na parede e deslizei até me sentar no chão.

— Bry, o que você está fazendo?! — Lauren perguntou já tentando me fazer levantar. 

— É isso que todos pensam? — perguntei.

— O quê?!

— De mim e Justin... Acha um absurdo um cara como ele estar comigo, uma pobre...

— Caso você não tenha se lembrado, ele não está em condições de exigir nada.

— Porque ele não anda...

— Er...

— Então por isso ele gosta de mim? Acha que não vai encontrar uma pessoa melhor...?

— Bryce...

— Se ele andasse nem me olharia, não é? — deixei com que uma lágrima caísse.

— Acho que a loucura que você fez já está fazendo efeito...

— Eu não sou ninguém se me comparar a elas, Lauren. Não existe outra explicação para isso. Você precisa ver o jeito que ela me olhava. Como se eu fosse um inseto. E agora estão por ai passeando e conversando. Provavelmente ela vai questioná-lo por ele gostar de mim e só por eu não estar perto, ele vai dizer que não sabe. Talvez ela até o convença de que eu não sirvo para ele e... E ele... — não consegui terminar, uma crise de soluços me atingiu. Comecei a chorar e engasgar enquanto tentava concluir a frase.

Lauren ficou de joelhos e me abraçou.

— Não diga isso, me amor... — falou acariciando os meus cabelos. Segurei no seu vestido, tentando encontrar apoio. As minhas mãos que tremiam como o resto do meu corpo. — Você é linda. E se fosse por achar que não conseguiria ninguém, ele não teria largado Carol para ficar com você.

— Acho que ela o quer, Lauren... Achei que fosse a única que não me importava com as condições dele, mas não...

— Por um mundo por mais pessoas como vocês e Carol então.

— Lauren — choraminguei.

— Me desculpe. Ela pode até querê-lo, mas é de você que ele gosta. Vamos, você precisa se aclamar.

— E se ele não me quiser mais? E que se tudo que ele precisava era de uma pessoa que o visse como era por dentro e fosse do seu círculo social? Eu sou tão estúpida que não o deixo me levar para almoçar em restaurantes caros.

— Você está chapada, Bryce, para de falar besteiras.

— Ele pode não me querer mais por causa da epilepsia...

— Bryce! — segurou o meu rosto e me balançou. — Pare com isso!

— Só pode ser isso...

— Está bem, já chega — apertou minhas bochechas e me forçou a abrir a boca. Quando tentou colocar os dedos na minha garganta, a empurrei. Ela caiu sentada e me fuzilou. — Você está sendo patética! Era Justin quem devia estar inseguro por ter alguém como você e morrer de medo de te perder! Sei que vai dizer que estou sendo preconceituosa, mas não me importo. Você gostando ou não, essa é a realidade. Tá cheio de gatos lá fora!

— Não me importo com isso, quero apenas Justin!

— Isso já é obsessão, Bryce! E se ele de repente perceber que só está atrasando a sua vida e querer terminar tudo? Você vai ficar se debulhando em lágrimas e achando que ele terminou tudo porque você “não pertence ao círculo social” dele?!

— Eu não sei o que farei se isso acontecer...

— Você vai seguir em frente. Viu só? Isso em parte é um dos problemas que vejo dessa relação. Você se sente inferior a ele, mesmo sendo ele quem precisa de alguém para limpar o seu traseiro. Você não passava por isso namorando o Charlie.

— O Charlie... Eu queria tanto que ele estivesse aqui. Talvez eu não estivesse me sentindo assim. Ele me entende melhor que você. Eu preciso dele.

— Ele está a oito horas de distancia, então se conforme comigo. Agora tente se aclamar antes que tenha um ataque aqui!

— Tá bom... — respirei fundo. — Isso não faz o menor sentido.

— Que bom que você sabe.

— É... Ele gosta de mim e pronto — ela se levantou e me estendeu a mão. — Você está completamente certa.

— Ótimo. Agora lava esse rosto. Terei que refazer toda a sua maquiagem.

Deixei que ela me ajudasse a lavar o rosto e refazer a minha maquiagem. Agora já calma eu percebi que não estava falando coisa com coisa.

Voltamos para a mesa e Justin ainda não tinha voltado. Tentei manter a calma e interagir com todos na mesa. Merrin se cansou de ficar no colo de Pattie e quis ficar andando entre as mesas. Fiquei surpresa quando Matthew se levantou e disse que ficaria de olho nela. O observei seguindo Merrin para onde ela ia por uns cinco minutos. De repente ele a pegou no colo e apontou para algo no céu. E isso bastou para que eu voltasse a ficar feliz.

— Você quer ver como os nossos descendentes faziam o vinho antigamente? — Jonny perguntou do outro lado da mesa. O olhei e percebi que falava comigo.

— Como?

— Vai começar a brincadeira — apontou para uma direção e eu olhei. Vi que tinha colocado uma caixa de madeira do tamanho de uma piscina de armação só que rasa. — Não é bem um lagare, mas você poderá ter um pouco de ideia. Vem ver. 

Se levantou e o segui até a caixa de madeira. Ela estava cheia de uvas.

— Oh, meu Deus — falei. — Isso é muito legal!

— Com certeza deve ser legal — Jonny falou rindo. — Você quer fazer?

— E eu poderia? 

— Se eu pedir ao Robert, sim.

— Por favor! 

— Tudo bem.

— Mas só vou se você entrar comigo — falei segurando a sua mão. 

— Eu não vou fazer isso, Bryce. 

— Vai ser divertido! Por favor...

— É assim que você conseguiu convencer Justin a sair de casa e vim para a Virgínia? — fiz um beicinho e assenti. — Que droga. Está bem.

— Eu sabia que você não ia fazer essa desfeita!

Ele riu e disse que ia falar com Robert para nos deixar fazer a demonstração. Esfreguei as mãos e olhei para todas aquelas uvas.

Justin Point Of View 

Abigail me contou tudo o que tinha acontecido na sua vida desde que tinha finalmente se formado na faculdade de designer. Teve um breve relacionamento com um homem que ela acabou descobrindo que tinha uma família na Itália. Depois disso desistiu de qualquer tipo de relacionamento e dedicou sua vida ao trabalho. E agora com trinta e dois anos decorava casas de pessoas famosas. Todo o tempo ela falou dela, e isso me fez lembrar porque terminei com ela quando estava cursando o último ano da faculdade. Nunca me importei com a nossa diferença de idade. Até gostava de namorar uma mulher mais velha que eu cinco anos, era um relacionamento maduro. Mas ao longo do namoro, vi que os nossos interesses eram diferentes. Eu gostava de sair com o pessoal da faculdade, enquanto ela preferia passar as noites de sábado em casa vendo um filme. Eu gostava de lugares agitados e ela de lugares calmos. Então vieram as brigas e o sentimento não pôde superar as diferenças. Tinha sido algo intenso, mas não era um relacionamento que eu me lembrava sempre, afinal tive outros. E agora ali a ouvindo falar apenas de si, percebi o quanto eu era cego e só tive parceiras vazias.

 Tinha muita sorte de ter encontrado Bryce. 

— Até onde você vai levar tudo isso? — Abigail perguntou de repente, me tirando dos meus pensamentos. — Ela é muito bonita, mas acho também que é muito jovem. Quantos anos tem? Vinte?

— Vinte três.

— Ainda é uma criança. Não que eu ache que você seja velho, mas há uma pequena diferença entre vinte oito anos e vinte e três. Cinco anos, como nós, lembra? — apenas assenti. — E você viu que não deu certo.

— Bryce é diferente. Às vezes ela tem comportamentos infantis, mas é bastante madura para idade. Tem responsabilidades e sabe tomar decisões importantes.

— Você fala como se a admirasse...

— Ela me inspira — sorriu sem jeito. — Foi muito bom te ver, Abigail. É melhor voltarmos — dei ré na cadeira.

— Espera! — exclamou segurando os braços da minha cadeira. — Eu estava pensando que podíamos voltar a nos ver. Como amigos, é claro. Estou morando em Miami, mas sempre vou a Nova York. Quem sabe nos vemos de vez em quando? Pattie me falou como você anda solitário ultimamente...

— Ela disse isso? — perguntei irritado. 

— Não com essas palavras, mas acho que foi o que ela queria dizer. Ter apenas a companhia da sua namorada adolescente não te fará bem. Precisa sair com pessoas diferentes. 

— Bryce não é uma adolescente — ela estava começando a me deixar irritado. Tudo o que falava desde que começamos a conversar, tinha que que se voltar para Bryce. Eu já tinha a perdoado quando assim que nos afastamos, falou que Bryce estava comigo por interesse, mas não podia admitir que falasse mais alguma coisa. — Ela é jovem e isso é bem diferente. A companhia dela me faz bem.

— Não estou dizendo isso, Justin. Você não acha que estou tentando fazer sua cabeça, acha? — não respondi. — Não vou aparecer depois de dez anos e tentar mudar o percurso da sua vida. Acredite quando falo que quero apenas ser sua amiga. Sei que não terminamos bem, mas ambos somo maduros agora. Podemos lidar perfeitamente com a situação.

— Eu não acho que você esteja tentando fazer isso... Se não me quis mais antes, por que vai querer agora?

— Acha que esse é o problema? Você está em uma cadeira de rodas?

— Esse é todo o problema da minha vida agora — ela mordeu o lábios, mas não disse nada. — Acho melhor voltarmos. 

— Claro... Posso te ajudar?

Pensei em recusar, mas a cadeira se movia mais lenta no gramado. Apenas assenti e deixei que ela me empurrasse.

Quando nos aproximamos do local que a festa acontecia, ouvimos risadas e bater de palmas. Olhei para Abigail que deu de ombros.

Não tinha ninguém na mesa e Abigail falou que deviam estar assistindo a brincadeira. Apontou em uma direção e vi que quase todos estavam em torno de algo. Não precisei pedir para que ela me levasse até lá, ela já estava me empurrando. Pediu um pouco de espaço e pude ver o que todos olhavam. 

Bryce e Jonny estavam esmagando uvas com os pés em um tipo de caixa de madeira. Ela segurava a barra do vestido para que ele não levantasse enquanto sapateava gargalhando. Jonny tinha tirado o blazer e dobrado as barras da calça. Estava rindo como ela, ambos numa felicidade indescritível. Ela quase escorregou, mas Jonny a segurou a tempo. Ela gritou para que ele não a soltasse e ele segurou as suas duas mãos. Ficaram rindo olhando um para a cara do outro. O meu olhar foi para os pés de ambos, assim como todo os olhares.

E o que eu senti foi algo que passava de dor. Era como se alguém estivesse pressionando os meus pulmões com as duas mãos. Eu não conseguia nem respirar. A minha visão ficou embasada e foi com custo que consegui olhar para Bryce e Jonny.

De repente Jonny escorregou e caiu, puxando Bryce. Ela caiu por cima dele, rindo. Isso só fez com que a dor no meu peito aumentasse. 

Bryce falou que para ela já tinha dado e um rapaz a ajudou se levantar e sair da sujeira que eles tinham feito.

O seu vestido não tinha sujado tanto, ao contrário da roupa de Jonny. Ela arrumou os cabelos e de repente os seus olhos encontram os meus. O seu sorriso sumiu aos poucos e eu não entendi o motivo. Pigarrei e forcei um sorriso. Ela devolveu o sorriso, não muito segura. 

Caminhou até mim e parou a minha frente.

— Você viu? — perguntou. 

— É, eu vi... — consegui falar.

— O Jonny falou que se eu dependesse disso para sobreviver, estava ferrada. 

— Acho que você se saiu bem. Até a hora que caiu e todos quase viram a sua calcinha — eu não consegui guardar as palavras. Elas saíram ásperas. 

Os olhos de Bryce abaixaram e não havia mais nenhum vestígio do sorriso nos seus lábios.

— Eu... — começou, mas se calou. Fechou os olhos por alguns segundos e me e encarou. Agora eles estavam frios. — Eu não me importo.

— Eu devia imaginar. Você me pareceu bem feliz enquanto estava encima do meu irmão.

— Por que está falando desse jeito comigo, Justin? — perguntou com os olhos marejados.

 Seus olhos acinzentados estavam como o mar em um dia de chuva. Por um segundo me arrependi das minhas palavras e pensei em implorar para que ela me perdoasse, mas o meu orgulho não me deixou voltar atrás.

— Você ainda me pergunta? — falei friamente. — Quer que eu me levante e aplauda de pé o seu showzinho?

Os seus lábios tremeram como os de Merrin toda vez que ela ia chorar. Isso partiu o meu coração em pedaços. Entretanto eu também fiquei magoado por vê-la fazendo com Jonny algo que eu nunca poderia fazer um dia. Assim como não pude realizar a vontade de jogá-la na cama e fazer amor com ela, no dia que falei que queria fazer isso e tudo o que ela me disse foi “algum dia”. Talvez fosse impressão minha, mas ela me pareceu mais fria depois desse dia, tanto que nunca mais tocamos no assunto. Fiquei me perguntando se ela tinha vergonha de mim.

— Você é um babaca — Bryce falou por fim e ficou me fuzilando com os seus olhos cheios de lágrimas. 

— Você estava aí, Justin? — Jonny perguntou se aproximando junto com Pattie que ria. — Espero que ninguém tenha filmado e... — se calou e olhou para Bryce que ainda me encarava. Os seus ombros tremiam. — Está tudo bem, Bryce?

Bryce não respondeu. Abraçou a si mesma e ficou me olhando com os olhos suplicantes.

— Querida, você está bem? — Pattie perguntou a olhando preocupada. Também não teve resposta.

Não demorou para Lauren aparecer e perguntar a mesma coisa. Mas ela não respondeu, apenas ficou me olhando com os olhos cheios de lágrimas em um estado catatônico. Eu estava começando a ficar preocupado. Tinha feito algumas pesquisas sobre epilepsia e em uma delas li que às vezes quando a pessoa está prestes a ter uma convulsão, fica catatônica por alguns segundos. 

Mas então ela piscou e se afastou sem dizer uma palavra. Lauren me olhou e depois correu atrás dela.

— O que aconteceu, Justin? — Pattie perguntou me olhando desconfiada.

— Nada — falei.

— Como nada?! Ela estava quase chorando!

— E por que acha que eu tenho alguma coisa a ver com isso?

— Por que você não teria? — Jonny falou friamente.

— Se está tão preocupado, vai perguntar a ela. Quer saber? Me deixem em paz.

— Também não precisa isso, Justin — Abigail perguntou e só então me lembrei que ela ainda estava ali ao meu lado. 

— Isso inclui você também — falei friamente e sai dali.

Voltei para a mesa e não vi nenhum sinal de Bryce e Lauren. Um garçom passou com uma bandeja com taças de champanhe e eu pedi uma. Bebi em um gole e tentei manter a calma. O sangue circulava rápido em minhas veias e minha pulsação estava acelerada. Eu estava começando a sentir falta de ar. Ótimo, tudo o que eu menos precisava era me sentir mal tão longe de casa. Pattie voltou para a mesa junto com Matthew e Merrin. Não olhei para nenhum deles. Queria ficar sozinho e remoer a besteira que tinha feito.

— Olha, eu não sei o que aconteceu, Justin, mas acho que aqui não é muito apropriado para vocês terem um desentendimento — ela falou escolhendo as palavras.

— Mãe, agora não — foi minha resposta seca.

— Poderia me dizer o que aconteceu?

— Tudo.

— Como assim tudo, querido?

— Ela... — parei de falar quando Bryce surgiu com Lauren e se sentaram do outro lado da mesa.

Ela me olhou e não vi mais nenhum vestígio de lágrimas nos seus olhos. Pattie se esqueceu de me e foi se sentar ao seu lado, a enchendo de perguntas. Ela tentou sorrir e disse que só não estava se sentindo muito bem. Deu a desculpa que estava com os olhos cheios de lágrimas porque teve uma crise alérgica do perfume de alguma pessoa que passou por ela. Pattie não pareceu acreditar, mas também não fez mais nenhuma pergunta. E Lauren ao lado dela, me fuzilando com os seus olhos tão  parecidos com os de Bryce.

Eu já estava mais calmo e começava a me arrepender por minhas palavras. Queria me desculpar, mas não queria o fazer na frente de todo mundo, seria como admitir o meu erro. Mas eu tinha errado. Pensei em algo para falar, porém a julgar pela forma que ela me olhava, não seria uma boa ideia. As minhas chances caíram por terra quando Jonny e Rick também regressaram agora na companhia de Robert. Começaram a conversar de forma animada e tudo o que eu conseguia fazer era olhar para Bryce.

— Eu estava falando com Rick sobre ainda estar esperando você aceitar o trabalho no Novo México — Robert falou me despertando do meu devaneio. O olhei sem entender. — Claro que já contratei um outro engenheiro, mas as obras vão começar em Outubro, o que lhe dá tempo o suficiente para mudar de ideia.

— Acredito que não voltarei atrás — falei secamente. 

— O futuro é incerto, Justin — Rick falou. — Talvez você acabe mesmo mudando ideia. Mas não vamos falar sobre isso agora, estamos em uma festa, não em uma reunião de negócios.

Robert riu e logo mudou de assunto. 

Bebi um pouco mais de champanhe e tentei criar coragem para falar com Bryce. Vi a oportunidade quando a banda começou a tocar mais uma música do The Strokes. 

— Você quer ir lá? — perguntei sem jeito.

Ela me olhou por alguns segundos, parecia estar assimilando as minhas palavras.

— Não — falou de forma ácida.

— Tem certeza...?

— Você não viu que ela não quer ir? — Lauren perguntou irritada. A olhei. — Devia respeitar ao menos isso.

Não soube o que falar. Ela tinha todos os motivos para estar com raiva de mim. Todo mundo fingiu que não tinha reparado o diálogo e eu tentei ter paciência para levar aquilo até o fim. Já estava de saco cheio e tudo o que eu mais queria era voltar para Nova York. A ideia ter ido até a Virgínia apenas para me desentender com Bryce, não tinha sido uma das melhores.

Talvez as coisas voltariam a ser normal quando voltássemos para Nova York. 


Notas Finais


Como nem tudo são flores...
Não sei quem vai ficar do lado do Justin ou não, mas meio que teve os seus motivos. Não é fácil para ele por mais que para muitos isso não significa nada.
Essa cena do Jonny com a Bryce, vi em um clipe e fiquei tão apaixonada que tive que colocar kkkk seria mais bonitinho se fosse o justin no lugar, mas infelizmente as condições não permitem. Aí como sou do mal, resolvi criar toda essa trama para Jryce ter o seu primeiro desentendimento 😈👿👿👿
Não vou prometer que irei postar logo porque não é justo com vocês, mas farei um esforço para conseguir. Principalmente que eu eu estou cheia dr ideias para o próximo capítulo 😍😍😍😍 então vamos ver. Ah farei o possível para postar antes do natal kkkkk
É isso. Espero que tenham gostado e não esqueçam de me dizer, pois é importante!
Beijos e até o próximo ❤😙😍


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...