História Ígneo - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Seventeen
Personagens Lee Jihun "Woozi", Seungcheol "S.Coups"
Tags Jicheol
Exibições 51
Palavras 7.058
Terminada Sim
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Famí­lia, Fluffy, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


bu 2.0

PRESENTE PRA MAIS QUERIDA E MAIS AMADA CHOI EIRIN AAAAAAAAAAAA PARABÉNS ANJA ESPERO QUE GOSTE DESSE FLUFFY JICHEOL. ♥

eu sei que muitos dos leitores de cárcere, assim como a maioria do spirit, gostam muito de jeongcheol. mas essa fic é dedicada pra eirin, a maior entusiasta de jicheol que você respeita. além disso, sou muito mais jihan e jicheol.......... eu prefiro escrever algo que me faça confortável do que escrever algo apenas para agradar o público de cárcere. me desculpem, mas deem uma chance a essa história se vocês puderem. ♥

Capítulo 1 - As chamas dele; as minhas ondas.


Em geral, vê-se na saudade o sentimento de separação e distância daquilo que se ama e não se tem. Mas todos os instantes da nossa vida não vão sendo perda, separação e distância? O nosso presente, logo que alcança o futuro, já o transforma em passado. A vida é constante perder. A vida é, pois, uma constante saudade. Há uma saudade queixosa: a que desejaria reter, fixar, possuir. Há uma saudade sábia, que deixa as coisas passarem, como se não passassem. Livrando-as do tempo, salvando a sua essência de eternidade. É a única maneira, aliás, de lhes dar permanência: imortalizá-las em amor. O verdadeiro amor é, paradoxalmente, uma saudade constante, sem egoísmo nenhum.

— Cecília Meireles, “Da Saudade”.

 

 

Jihoon odiava que se atrasassem.

Achava que talvez pudesse ter relação com o mapa astral um pouco confuso. Era sagitário, mas bem próximo de escorpião. Mas tinha um quê de áries e um pouco de gêmeos também. E com essa coleção de zodíacos fortes, odiava de todo coração que se atrasassem.

Não seria diferente com o barista atrapalhado. Teria metido a mão sem seu rosto se não fossem os dois orbes grandes que lhe olharam frustrados e apologéticos, quase implorando por desculpas. Foram-se novecentos e vinte mililitros de café gelado em sua recém-comprada camisa branca, além de um copo com o logo da loja jogado em seu colo e um cubo de gelo que acertou em cheio seu expresso. Foram três lavagens na mão para que a mancha saísse; mas o barista de rosto escultural continuou em sua cabeça, mesmo depois que a mancha já havia desvanecido.

Ele tinha tudo para sair do estabelecimento em um do que seus colegas chamariam de “o maior mau-humor da história de Lee Jihoon”, mas não saiu. Pelo contrário, acabou voltando para o escritório de camisa manchada e sorriso no rosto. Isso graças às desculpas inacabáveis do tal barista, que repetia explicações mal formuladas entre desculpas arrastadas. A expressão era impagável: as sobrancelhas franzidas e os olhos arregalados deixavam o homem com uma aparência similar a de um filhote. Batia os longos cílios enquanto murmurava mais justificações não requisitadas por entre os lábios fartos e avermelhados.

Acabaria aceitando, de maneira evidentemente rude, as desculpas do outro. Mas de coração mole, aceitaria também quando o outro lhe oferecesse uma nova bebida e sentasse a sua frente, prolongando as desculpas enquanto tagarelava sobre seu dia. Descobriria, então, que Seungcheol adorava falar sobre tudo que lhe apetecia. Falava sobre o tempo, sobre trabalho, sobre flores, clientes, cafés, amores, e tudo que desse tempo de dizer. Não tinha pressa em falar, apenas queria falar, e por isso acabava gastando as palavras enquanto Jihoon apenas o encarava confuso com tudo o que dizia.

E Jihoon não era necessariamente alguém quieto, mas perto do mais velho, com certeza tinha certa destreza em manter-se sem falar uma palavra sequer. Talvez fosse o caso de atribuir a culpa a Seungcheol, que deixava pouco tempo para que soltasse uma onomatopeia ou outra, ou uma questão curta sequer, mas preferia não deixar para o outro homem toda a culpa disso. Ele acabou gostando de ouvir Seungcheol falar.

Não seria a primeira nem a última vez que veria o outro derrubar tudo o que levava aos clientes em suas roupas e no chão. Voltaria, uma semana depois, ao novo café que abrira em frente ao seu escritório, apenas para ver, mais uma vez, Seungcheol desculpando-se por seu precioso café perdido. Mas, pelo menos, ele era bom nisso. O hábito semanal de Jihoon aos poucos passaria a ser diário, e com um pouco mais de abertura as palavras incansáveis de Seungcheol, passaria a sentar-se no balcão, ao invés de na usual mesa perto à janela. Eventualmente, barista lhe serviria o café com um pequeno vaso com uma única flor dentro; mimo este que, segundo ele, era só pela fidelidade de Jihoon ao café.

Os colegas de escritório fariam dele piada, com seus suspiros arrastados e olhares de lado para o relógio. Em certo ponto, passara até a levar consigo o lanche que trazia de almoço até o pequeno estabelecimento do outro lado da rua, com as mãos pequenas envolta do pote recém-esquentado enquanto esperava o farol. Seungcheol abriria um daqueles sorrisos que só ele sabia mostrar; a arcada dentária era perfeita, a boca de moldura para o brilho dos dentes e os olhos grandes se espremendo em duas pequenas meias-luas. E Jihoon faria questão de conter o sorriso e manter a pose séria, mesmo que quisesse sorrir da mesma maneira para ele.

Seria um daqueles poucos dias em que Jihoon ficara acordado até mais tarde, entre papéis de casos diversos e energéticos, no qual acabaria deixando de lado sua passagem pelo café. Seungcheol ficaria impaciente, reclamando vez ou outra para o menino alto da cozinha sobre a rara falta do mais baixo, o que renderia algumas piadas sobre sua própria altura e sobre o que guardava a sete chaves com o colega de trabalho: quiçá estivesse, todos os dias, ansioso um pouco demais para ver o outro. Ousou demais, naquele dia. Colocou o copo de café em uma travessa pequena de papelão e se dirigiu a passos largos pela rua até o majestoso prédio de advocacia. Exigiu que pudesse entrar e quase passou a força pelos seguranças, que não esperavam a força do homem. Deveria agradecer a pouca altura que tinha que o tornava razoavelmente inofensivo aos olhos dos outros. O disfarce era bom quando necessário. Mas sabia que podia usar da força se necessário; e uma coisa que ninguém por ali deveria querer era ver Choi Seungcheol, um leonino exemplar, perder a cabeça.

Foi até o décimo terceiro andar, passou por diversas salas com nomes desconhecidos até encontrar a porta que queria. Ela tinha uma cor escura, de um marrom quase negro, e nas letras em metal prateado lia-se o nome daquele que queria encontrar. Bateu algumas vezes, mas não esperou ser recebido. Entrou com um sorriso no rosto, pronto para ser recebido com alguns xingamentos, mas acabou se deparando com uma cabeleira loira sob uma pilha de papéis. Jihoon tinha a cabeça apoiada sobre os antebraços, e a franja comprida cobria parte dos olhos pequenos. Deixava escapar um ronco baixo por entre os lábios, e deixava os papéis sobre seu rosto um tanto quanto molhados. Seungcheol riu.

Jihoon acordaria alguns minutos depois para encontrar o café a sua frente e um pequeno bilhete que lhe ofendia tanto quanto fazia seu coração amolecer. Prometeu então que se lembraria de não dormir mais por perto de Seungcheol. Mas Jihoon tinha o costume de não cumprir suas promessas a si mesmo, especialmente as que estavam relacionadas com Seungcheol. Ele também prometeria a si mesmo que não se deixaria encantar pelos olhos grandes, que se escondiam atrás da franja louro-escura, nem pelo sorriso fácil. Seria apenas uma das promessas que deixaria de cumprir.

Logo Jihoon passava noites em claro no apartamento espaçoso pensando no barista que o cativara tanto. Andava pela sala, descalço na superfície gelada de concreto queimado, com seus passos seguindo sempre o mesmo caminho que já faziam. Rodava entre os móveis de madeira escura e o sofá de couro branco, até finalmente decidir pegar o violão e dedilhar uma nova junção de notas, sempre as escrevendo no pequeno caderno de capa preta que levava consigo para todo lado. Depois se dirigiria ao quarto, tentando ignorar a bagunça que se formava e se jogando desajeitadamente sobre a cama, entre travesseiros e cobertas bagunçadas sob o colchão. Jihoon desaparecia ali, e só teria vontade de sair novamente às oito da manhã, quando já era hora de correr em direção ao café.

Com Seungcheol não era diferente. Ele chegava no trabalho as cinco em ponto, abria o café e começava a tagarelar sobre o mais novo com o garoto da cozinha, que já tinha perdido boa parte da pouca paciência que tinha somente nas primeiras horas da manhã. Dali para frente, Seungcheol esperava o horário do mais novo, encarando a porta por longos minutos até o sino já tão conhecido soar e anunciar a chegada de Jihoon.

E seria num dia de muita coragem e bom humor reunido que Jihoon convidaria Seungcheol para sair, e não o contrário. Acabaria fazendo o mais velho engasgar com um pequeno gole de água, arregalar os olhos a ponto de fazê-los parecer que estavam saltando do rosto e ficar, por alguns minutos, sem palavras. Jihoon acabaria se arrependendo do que disse, e correria o mais rápido possível de volta para o prédio da firma de advocacia. Já sentado na confortável e cara cadeira que possuía, se enfiaria entre as diversas papeladas acumuladas para não lembrar-se mais daquilo.

Acordou com uma folha de papel colada ao rosto, o cabelo mais bagunçado do que suportava e um pequeno pacote de biscoitos à sua frente, com um singelo bilhete onde lia-se: “Desculpe, era pra eu ter dito aquilo antes de você, eu estava planejando a tanto tempo... Me surpreendeu. Mas eu aceito sim!”. Havia um número de telefone escrito numa caligrafia bonita sob as letras do bilhete, o que fez com que ele sorrisse para si mesmo. Descobriria um dia que Seungcheol era sempre o último a falar as coisas. Talvez pudesse culpar sua característica de leonino modelo, que raramente descia de seu pedestal para dizer qualquer coisa.

Sairiam naquela semana mesmo, para um restaurante caro demais para Seungcheol e barato demais para Jihoon, o que faria com que Jihoon se oferecesse para pagar tudo tantas vezes quanto pudesse, mas, mesmo assim, terminasse pagando apenas o serviço. Mas, no final, combinariam de ir a lugares mais simples em futuros encontros. E pensar no futuro era, com certeza, uma tarefa difícil para Seungcheol, que sentia o coração palpitar no peito com a palavra.

Jihoon perdeu a conta dos encontros, mas Seungcheol os deixava anotados, com data e horário, num caderno que guardava na primeira gaveta do criado-mudo ao lado da cama. Ele tinha anotado ali tudo que se referia a Jihoon: do dia que derrubou café nele, ao que o visitou em seu escritório, todos seus encontros, o primeiro abraço que demorou um pouco demais, o primeiro beijo. Jihoon não se lembrava dessas datas com precisão, mas tinha tanto apreço por elas quanto Seungcheol. Mas nenhum dos dois tinha coragem o suficiente para descarregar o peso que levavam junto ao coração.

Nenhum dos dois precisou dizer nada, na verdade. Talvez fossem os olhos, expressivos demais, e as mãos trêmulas que falaram por eles em meados de maio. Talvez fossem os lábios desesperados durante a noite que parecia não acabar no apartamento de Jihoon. Era final de primavera, mas as flores entre eles estavam apenas começando a desabrochar.

Eles não tinham alianças bonitas, nem camisetas que combinassem. Não tinham uma música só deles, nem um local específico que significasse muito. Mas não precisavam de muito para se declararem completamente apaixonados. Foi rápido, necessitado; os dois precisavam de amor, desesperadamente. E aquele relacionamento foi tudo que os dois precisaram, por muito tempo. Entre risadas e canções, viveriam em harmonia.

Demorou até que achassem a primeira pedra no caminho, uma pedra que, no começo, pareceu maior do que o que poderiam superar. Foi muito orgulho ferido, tanto para o leonino quanto para o sagitariano. Os segredos que guardavam em suas gavetas foram, aos poucos, sendo descobertos um pelo outro. E quiçá seja esse o problema, que nenhum dos dois foi capaz de dizer algo antes que o outro descobrisse. Não se sabe exatamente se por vergonha ou orgulho, mas dentre os segredos infinitos, escondiam algo mais precioso: seus sonhos.

Para Seungcheol, Jihoon era um advogado bem sucedido de uma firma, e era isso que sempre seria. Para Jihoon, Seungcheol era um barista bonito que amava acordar cedo e fazer cafés. Mas ninguém é simples assim; simplesmente se é complexo. E dentro da gaveta de Jihoon, Seungcheol achou um caderno com letras e composições inacabáveis. Já dentro da gaveta de Seungcheol, Jihoon achou uma infinidade de histórias de todos os tipos.

Em meio aos sonhos já esquecidos e pequenas brigas, algo parecia ter tomado forma. Um sonho maior, que era combinado entre os dois. Realizariam, um dia, seus sonhos em conjunto.

Demorou cerca de um ano e meio para que juntassem suas economias o suficiente; Jihoon vendeu o apartamento grande no centro da cidade e foi morar um Seungcheol num bairro simples, em meio aos filhotes que o leonino quisera adotar. Depois de se demitir do café, se despedindo com dor no coração do ajudante da cozinha, e de ver Jihoon entregar o envelope pardo na portaria do prédio grande, saíram em busca de algo muito maior do que sucesso profissional ou simples comodidade: eles buscavam felicidade.

Foi a primeira vez que Seungcheol mostrou o que escrevia, especialmente para alguém desconhecido. Tinha certo aperto no peito e borboletas no estômago, mas Jihoon estava lhe esperando do lado de fora. E, não importa qual fosse o resultado, ele sempre estaria lhe esperando do lado de fora. Foram em mais de uma dúzia de editoras até que alguém finalmente visse o que Jihoon via nos textos de Seungcheol: um talento a muito escondido.

Jihoon também mostraria suas letras e composições pela primeira vez em uma grande empresa. Mas ao contrário de Seungcheol, seria logo admitido como produtor musical. Eles viveriam assim, desde então. Entre o barulho do teclado de Seungcheol e os dos acordes de Jihoon, os latidos dos cachorros e os miados baixos do gato recém-adotado. Era uma vida simples, mas singela. Carregava toda a felicidade do mundo naqueles sessenta e três metros quadrados.

Mas Jihoon odiava que se atrasassem. Talvez não fosse o zodíaco, mas sim o número de vezes que Seungcheol o deixara esperando. O mais velho, definitivamente, não era bom com horários. Já tinham mais de 6 anos de relacionamento, e ainda não conseguia marcar de sair com o mais velho sem que acabasse esperando por, no mínimo, uma hora. Seungcheol era esquecido, e Jihoon já havia descoberto de que esse era o motivo de ele escrever tudo que gostaria de lembrar.

Queria perdoá-lo, mesmo que o orgulho fosse muito. Sabia que aquele dia era especial; estava lançando o último livro de sua coleção, num total de seis exemplares, e havia uma grande festa. Seungcheol tinha se tornado bom com discursos, ou talvez sempre tinha sido; não sabiam, antes Seungcheol se delimitava a perguntar qual o tipo de café que seria e se gostaria de levar a nota fiscal. Hoje, dava grandes discursos, agradecendo a editora que crescera junto com ele e a todos os fãs de seu trabalho, que estavam fielmente na biblioteca municipal sempre que o autor revelava o próximo livro. Passaria horas e horas assinando livros naquela noite, talvez tempo o suficiente para que perdesse a noção do tempo.

Mesmo que tivesse ido ver o discurso bonito de Seungcheol sobre a grande jornada que fora escrever aquela série de livros, havia saído mais cedo. Poderia pedir para que ele assinasse seu exemplar mais tarde, já que tinha a sorte de ter o escritor para si no resto do tempo. Combinaram de jantar em comemoração: um lugar caro, diferente do que costumavam ir. Um daqueles parecido com o que foram em seu primeiro encontro. Naquela época, pagaria com folga os quatro dígitos da conta do restaurante, já que na conta bancária caíam mais de cinco dígitos mensalmente. Hoje, com o pequeno salário de produtor, dividia a conta com Seungcheol, que também não ganhava demais. Mas, diferente daquela época, hoje tinha algo muito mais valioso do que o que guardavam no banco. Eram verdadeiramente felizes.

Mas nada mudara, de verdade, entre eles. Eram já dez e meia e o restaurante estava para fechar, quando percebeu uma cabeleira loiro-escura, cor que reapareceu nos fios de Seungcheol depois de anos, correndo para dentro do estabelecimento. Usava uma camisa rosa, com a gola meio amassada e alguns buracos que se escondiam. A calça jeans era um pouco apertada, mas Jihoon acabara descobrindo, depois de anos de relacionamento, que ele tinha certa dificuldade em conseguir calças de seu tamanho. Tinha uma bolsa de couro a tiracolo, e abanava as mãos em sua direção enquanto explicava a um dos atendentes que precisava encontrar alguém. Passou as pressas entre as mesas até chegar onde Jihoon se encontrava, já suando e um pouco ofegante.

– Você já pediu? – ele pulou qualquer desculpa esfarrapada de porque estava atrasado. Jihoon sabia que se atrasaria, mesmo que mantivesse uma esperança forçada de que, um dia, ele ainda chegaria a tempo de não fazê-lo passar pela vergonha de pedir uma mesa para dois, mesmo estando sozinho. Jihoon apenas acenou com a cabeça e chamou o garçom, pedindo para este trazer os pratos que já estavam prontos. – Eu ‘tô varado de fome.

– Eu imagino. Autografou bastante?

– Mais do que eu queria. Olha. – mostrou para ele a mão direita, levantando-a e parando-a perto do rosto de Jihoon. O mais novo viu o dedo médio e indicador com os calos proeminentes um tanto avermelhados, como se estivessem desesperadamente pedindo por uma pausa. A mão tremia um pouco também, talvez devido ao trabalho que tivera, segurando a caneta enquanto realizava o mesmo movimento repetidas vezes. Jihoon sorriu; sabia que aquilo era só reflexo do trabalho bem realizado de Seungcheol. Mesmo assim, aproximou mais o rosto da mão alheia e deixou um selar breve sobre os dedos.

– Vai melhorar. – as poucas palavras de Jihoon e o gesto simples fizeram com que Seungcheol desse o seu melhor sorriso da noite. Foram fotos demais, autógrafos demais, pessoas demais. Finalmente, depois de mais de cinco horas do lançamento, podia ouvir a voz doce de Jihoon com clareza, sem o barulho e cliques de máquinas fotográficas ao fundo.

Comeriam com calma naquele dia. Sem pressa para chegar em casa, sem pressa para começar outro dia. Simplesmente sem pressa, por que finalmente não era necessário ter pressa. Jihoon era assim, no final. Odiava que chegassem atrasados. Mas, talvez, apenas para Seungcheol, pudesse abrir uma exceção. Afinal, Jihoon não conseguia odiar nada no outro.

 

 

Assim que se entrava pela porta principal, o papel de parede florido azul claro era a primeira coisa que se percebia. Ocupava apenas uma parede pequena, mas as flores em tons pastel de azul se sobressaíam dentre as tantas paredes brancas do apartamento pequeno que Jihoon e Seungcheol dividiam. O papel de parede foi de escolha de Jihoon, mas Seungcheol acabou se apaixonando pelos tons claros tanto quanto o outro. Nela estava pendurada uma grande fotografia em preto e branco do casal e dos dois labradores grandes, além do pequeno felino que não passava de alguns meses de vida. Nessa mesma parede penduravam-se os casacos que tantas vezes jaziam esquecidos ali, junto das bolsas e sapatos.

Isso tudo ficava ao esquerdo da porta de entrada, enquanto o lado direito era de uma parede off-white e tinha uma grande porta marrom que ocupava quase metade de sua superfície. O material da porta era de cortiça por fora, e nessa mesma área colocavam fotos, bilhetes e tudo que queriam. A porta na verdade escondia a lavanderia embutida nas prateleiras, além da entrada para o banheiro pequeno de azulejos azuis. Tinha espaço para três toalhas, apesar de serem apenas em dois. A área do chuveiro tinha azulejos um pouco mais escuros e menos vibrantes, e uma pequena prateleira embutida na parede ficava sob a pia de mármore branco.

O hall de entrada era pequeno e logo se colocava os pés na sala, com um piso de madeira marrom-clara, de aparência quase orgânica. Uma parede grande com livros extensos e cadernos de rascunhos ocupava a parede à direita. Nela, não só a série de livros que Seungcheol publicara, mas muitos outros também que faziam daquele canto dos pequenos metros quadrados quase sagrados para eles. Um pequeno sofá cor de carmim, de apenas dois lugares, ficava encostado na parede do banheiro; acima dele, um grande quadro que ganharam na rua. Um homem generoso pintou em aquarela o casal e seus arredores, e os dois acabaram se apaixonando tanto pela pintura quando pela gentileza do senhor; mesmo que, de certa forma, ele parecesse um tanto louco. No mesmo sofá jaziam almofadas coloridas em tons quentes de laranja, amarelo e marrom. Uma luminária pendia do teto e ia quase até a mesa de centro, que ficava logo em frente ao sofá.

Do outro lado da sala ficava uma mesa verde-escuro com quatro cadeiras brancas ao seu redor. Ela era retangular e não muito espaçosa, mas cabiam os dois ali confortavelmente. Sob a mesa, um pequeno buquê de flores que era trocado semanalmente por Seungcheol, além de uma fruteira grande e que sempre tinha, no mínimo, tangerinas como seu conteúdo. Do lado da mesa, as camas dos dois labradores e do gato se misturavam entre as cobertas dos animais.

Logo à frente da grande estante ficava a cama dos dois: ela era uma espécie de beliche, onde a parte de baixo servia de armário. Havia uma pequena escada próxima as prateleiras que guardavam suas roupas, e entre a cama e as prateleiras, um pequeno espaço aonde aproveitavam o centro oco para colocar alguns cabides. A cama era grande e espaçosa, com cobertores e edredons brancos lhe cobrindo. Havia diversos travesseiros, todos utilizados por Seungcheol; Jihoon utilizaria travesseiros, mas preferia apoiar a cabeça no namorado pela noite. As prateleiras ao lado de onde dormiam também embutidas na complexa estrutura da cama, continham bens preciosos como os fones de Jihoon, a lapiseira e caderno favoritos de Seungcheol e o computador do casal.

Ao pé da cama um vidro espesso os separava da cozinha. Era moderna, mas aconchegante. Tinha uma pequena árvore em um vaso logo em sua entrada, e toda sua bancada era de cimento queimado. Tinha forno, fogão e micro-ondas, e os armários eram todos bem escondidos entre a madeira clara. Passavam pouco tempo ali e raramente faziam comida eles mesmos, mas tinham uma pequena dispensa e todos os utensílios de cozinha em ordem.

Era uma casa pequena. Não passava dos trinta e seis metros quadrados; mas tiveram que reforma-la quando Jihoon mudou-se definitivamente para lá. Seungcheol havia explicado que aquele quarto era, na verdade, um antigo closet. Hoje, cabia muito mais do que algumas roupas caras ali, cabia toda a vida dos dois. A reforma foi demorada, com mais de seis meses de duração, e foi entre brigas e um cansaço imenso que os dois observaram, aos poucos, um lar se erguer.

E a vida dos dois no pequeno apartamento era simples e combinava com a casa. Tinham pouco, apenas o necessário, e acabavam passando pouco tempo ali. Abriram mão da televisão, de qualquer aparelho caro, e mantiveram na casa à maneira deles. Claro que, como toda casa, tinha lá seus problemas. A primeira infiltração foi a que deu mais dor de cabeça; para Jihoon, porque Seungcheol mal sabia o que uma infiltração era. Apesar da aura de homem da casa, Seungcheol raramente cuidava de qualquer coisa por ali que não fosse a comida dos animais, enquanto Jihoon fora quem instalou todo o circuito elétrico e cuidava dos canos estourados, chuveiros queimados e tantas outras coisas. Nenhum dos dois tinha comprometimento específico em cuidar da casa, apenas o faziam juntos aos poucos. Cada um fazia um pouco e eles iam se completando e completando o lar que haviam criado.

Mas Seungcheol era um pouco mais alto, um pouco mais forte, e gostava de se gabar um pouco disso. Jihoon culpava totalmente o lado leonino do outro; vez ou outra tentava concertar aqui e ali sozinho, e acabava falhando miseravelmente. Acabava emburrado, com os lábios em um bico grande, dizendo para Jihoon que não tinha o que fazer naquela casa e que o mais novo poderia guia-la sem a sua presença. O mais baixo não se importava muito com o que dizia; apenas mandava-o buscar as pesadas caixas de compras no carro que dividiam. Seungcheol era o único que tinha boa vontade e fome o suficiente para subir cinco andares de escada com tantas caixas. Porque no fim, Seungcheol era único.

A primeira lâmpada que tiveram que trocar também rendeu boas histórias. Nenhum dos dois era grande o suficiente para alcançar a lâmpada da cozinha apenas subindo em uma das cadeiras da sala; e, apesar de parecer óbvio, eles tentaram mesmo assim. Empilharam móveis e praticamente os escalavam, mas de todo o jeito, era difícil alcançar o bulbo que ficava tão além de seu alcance. Mas não desistiriam tão facilmente; pegaram o pequeno banco vermelho que ficava próximo ao balcão da cozinha, e foi carregando Jihoon nas costas que subiram. A combinação deu tão certo que trocariam lâmpadas da mesma forma por meses até que tivessem tempo e dinheiro para comprar uma escada nova.

Caíram das escadas, tropeçavam saindo do banheiro, esbarravam nos cachorros e tudo que tinham direito. O apartamento era pequeno, mas isso não os impedia de bater o dedo mínimo do pé em cada esquina da casa. Também sempre batiam os cotovelos nas prateleiras que não eram embutidas. Não podiam culpar a casa ou o design; eles apenas eram estabanados demais.

Mas eram mais pontos bons em morar por ali do que ruins. Apesar da falta enorme que lhe fazia um elevador, Jihoon aprendera a lidar com os dez lances de escada que tinha que subir até o quinto andar. O prédio era singelo, não tinha parquinho nem piscina, mas ficava num bom lugar. Era arborizado, cheio de pequenas lojas, casas e cafés pela rua. E os dois conheciam de cor as ruas dali; eram, vez ou outra, arrastados de lá para cá pelos cachorros, ou apenas tinham que ir procurar o gato que se escondia na vizinhança.

O café na frente de casa estava sempre cheio. O Lazy Sue não era franquiado, e a dona era extremamente exigente com o que servia. Tinham poucos funcionários; dentre eles, o menino que trabalhara com Seungcheol. Apesar de terem continuado amigos, ele quase nunca dava as caras no balcão, e apenas aparecia quando outro garoto, da mesma idade, chegava esbanjando seu inglês fluente. Seungcheol achava engraçado o menino espiando da porta da cozinha o bonito mestiço que sempre se sentava perto do balcão. Comentava com Jihoon toda quarta-feira, dia de folga para os dois, sobre os casais ali. Talvez fosse uma mania estranha dos dois, mas viviam observando alguns casais ali.

Além do menino da cozinha e sua paixão pelo estrangeiro que raramente aparecia, um casal de chineses sentava perto deles. Entendiam pouco de chinês, na verdade quase nada, e gostavam de imaginar do que os dois tanto falavam. O mais alto parecia poder tagarelar por horas a fio, enquanto o outro vez ou outra revirava os olhos e suspirava, soltando um comentário ou outro sobre o que dizia. Jihoon dizia ter pena do mais baixo, que parecia sempre sem paciência para o que o namorado dizia. Seungcheol tinha pena do outro (talvez por entendê-lo um pouco melhor).

Mas nenhum casal lhes era tão familiar quanto o que entrava ali pontualmente as dez e meia da manhã. Eles eram altos o suficiente para fazer com que Seungcheol tivesse medo de se aproximar, e bonitos o bastante para chamar a atenção não apenas dos dois, mas de todos ali. Pediam sempre a mesma coisa, e passavam no mínimo duas horas ali conversando; riam alto, falavam palavrões, contavam histórias que quem estava em volta tinha dificuldade em acreditar que eram verdades. Jihoon não achava que eram um casal, mas Seungcheol parecia ter certeza do fato.

O mais alto tinha a pele bronzeada e um sorriso fácil, enquanto o outro tinha a pele clara e a expressão quase sempre séria. Ele tinha os olhos frios e Jihoon sempre agarrava mais a própria bolsa quando o via. Nenhum deles sabia explicar exatamente o porquê, mas era uma aura assustadora que lhe envolvia. Mas o outro lhes parecia extremamente simpático e caloroso, sorrindo mesmo quando o clima parecia tenso demais para seus sorrisos largos. Eles não combinavam como o resto dos casais ali; eram água e óleo, pareciam nem estar no mesmo mundo.

Os dois sentavam próximos à janela, numa mesa de madeira escura, um a frente do outro. Nessa mesma janela havia alguns vasos de flores de onde, vez ou outra, o mais sério entre os dois arrancava uma ou outra e colocava entre os fios do cabelo maltratado. Fazia o mesmo, em seguida, com o outro. Um funcionário vinha lhes dizer que não podiam fazê-lo mais, e mesmo que o mais alto lhe oferecesse um sorriso e desculpas baixas, podia ver o mesmo funcionário sair dali assustado. O olhar que o outro na mesa dirigia à ele era intrigante e, definitivamente, de dar medo. Mas eles observavam de qualquer jeito. Gostavam demais daqueles momentos singelos compartilhados entre todos ali, e podiam ficar horas apenas observando os outros indo e vindo pela rua e pelo pequeno espaço do café.

O café lhes era conhecido, próximo, familiar. Passavam horas ali, sentados, apenas na presença um do outro, e, para ambos, Seungcheol e Jihoon, era esse um dos momentos que mais gostavam. Ainda sim, era difícil saírem juntos. A vida de casal não era exatamente nem vida nem de casal com a rotina que levavam.

As folgas nas quartas eram muitas vezes preenchidas por páginas de livros ou de músicas a serem escritas. Jihoon era produtivo até demais, enquanto Seungcheol tinha prazos de entrega curtos demais. Ambos ficavam enrolados em seus devidos trabalhos, mesmo que ainda na companhia um do outro. Jihoon apoiava o computador no sofá e se encolhia sobre o estofado, colocando os fones de ouvido e entrando no seu próprio mundo; mas de vez em quando era chamado a atenção por Seungcheol, que se sentava à mesa com seu computador para trabalhar em um novo capítulo. Gostava de ouvir o namorado cantar, mas era facilmente desviado de seu trabalho pela voz doce que tanto gostava de ouvir.

Aquela não seria uma quarta-feira comum. Seungcheol estava cansado de autografar livros na noite anterior e teria um mês de folga até começar a escrever seu próximo projeto, enquanto Jihoon estava finalmente tirando suas merecidas três semanas de férias. A própria palavra férias era tão estranha para os dois que não soava real, levando em conta que demorariam semanas para se acostumarem ao novos não-horários. Não tinham horário para comer, para acordar, para fazer coisa qualquer. E, sendo extremamente disciplinado como Jihoon era, continuaria mantendo a rotina de acordar, dia após dia, pontualmente às sete e meia da manhã.

 Demorariam, também, a arranjar coisas para fazer. O tédio não era exatamente comum entre os dois, que preferiam dizer que estavam apenas procrastinando. Nada era realmente tedioso quando estavam juntos, mas também gostariam de exercer atividade qualquer. Naquelas férias, viajariam até Daegu, em visita a família de Seungcheol, e depois seguiriam em viajem para Busan. Era extremamente longe da capital agitada, mas Seoul não deixaria tantas saudades. Apesar de gostarem da vida na cidade grande, preferiam a calma do interior, e por isso pretendiam se mudar para um lugar mais rural. A vida próxima a grandes plantações ou a bancos de lama poderia soar insuportável para muitos, mas para eles era ideal.

Nas férias, iriam muito ao cinema. Pelo menos duas vezes por semana, nem que fosse para ver os mesmos filmes. Jihoon pediria apenas uma água mineral, enquanto Seungcheol encheria os bolsos de doces enquanto levava um grande balde de pipoca e o maior refrigerante que tivessem. Frequentariam alguns parques, mas ainda cada um sem seu pequeno universo: enquanto Seungcheol corria em volta do lago e malhava nos aparelhos colocados ali, Jihoon lia um livro antigo sob a sombra de uma árvore. Mas, pelo menos, teria motivo para rir, mais tarde, quando Seungcheol reclamasse das dores incessantes nos músculos.

Continuariam indo ao café e encontrando quase todas as mesmas pessoas. Tinham esse combinado de, todos os dias, tomarem café da manhã juntos as nove e quinze no Lazy Sue, que ficava na mesma rua do prédio em que moravam. Era um combinado quase bobo, mas que seguiam religiosamente. Jihoon pedia um expresso curto e um par de torradas com manteiga. Seungcheol pedia um chocolate quente, um cappuccino, panquecas, uma taça com salada de frutas, dois ovos, salsichas, waffles, um sanduíche natural, bacon, três pedaços de bolo, pães e frios variados e, para acompanhar Jihoon, um par de torradas com manteiga. Jihoon acabava se perguntando como o mais velho sequer conseguia almoçar depois de uma refeição daquelas.

Mas aquela quarta-feira era diferente. Jihoon acordou pontualmente às sete da manhã, sem a necessidade de um despertador, e passou por cima do mais velho com cuidado para não acordá-lo – tarefa essa que não era exatamente simples, já que o ronco alto indicava claramente que Seungcheol ainda demoraria a acordar. Desceu a escada que levava à cama e encontrou o gato ainda filhote no pé da cama, os olhos grandes encarando Jihoon. Abaixou para alcança-lo e com uma mão só o levantou até que ficasse em seu colo.

– Você está com fome, não é? – acariciava o pelo macio enquanto falava baixo, começando a andar em direção ao armário em que guardavam as rações. Depois de servir a comida para o bichano e deixa-lo no chão para comer, se apressou em colocar também o prato dos dois labradores que ainda dormiam. Seungcheol tinha um carinho enorme pelos cachorros, carinho esse que Jihoon acabara nutrindo também, mesmo que não fosse muito fã do barulho enorme que faziam quando o casal finalmente chegava em casa, nem da bagunça que vez ou outra encontravam no apartamento pequeno.

Mas se fosse para agradar Seungcheol, o faria com um sorriso no rosto. Andava pela cozinha a passos lentos procurando cada um de seus ingredientes. Tirou o bolo do forno que havia preparado ontem, enquanto Seungcheol passava na academia, e cortou dois pedaços grandes, colocando-os em um prato quadrado. Ligou o forno, cortou algumas framboesas e colocou na panela quente com açúcar mascavo, depois jogando um pouco da cobertura recém-preparada sob os pedaços de bolo cortados. O resto colocou em uma jarrinha pequena. Pegou uma toalha colorida sob o balcão da pia e começou a arrumar a mesa, colocando aos poucos o que ia preparando.

Logo a mesa estava cheia. Ao lado do bolo uma tigela grande com diversas frutas vermelhas cortadas. Havia também duas grandes jarras de suco, cada uma com um conteúdo: uma delas, a de líquido vermelho, era um suco de melancia natural que preparara naquele mesmo minuto, enquanto a outra, que trazia um líquido alaranjado, era o suco de laranja da marca preferida de Seungcheol. Também havia um pequeno bule com café posto sob a mesa, acompanhado de duas xícaras pequenas e a garrafa de vidro com leite. O ovo mollet tinha recipiente próprio, e segundo Jihoon, estava no ponto perfeito. Um prato com frios também enfeitava a mesa, logo ao centro dela. No prato de cada um, um pão francês esquentado recheado de queijo quente e presunto.

Sabia que, mesmo se não o chamasse, Seungcheol acabaria acordando com o cheiro bom que exalava da cozinha. O mais velho tinha um olfato maravilhoso quando se tratava de comida, conseguindo adivinhar o que a vizinha do andar de cima cozinhava todos os dias. Ainda sim, subiu com cuidado até a cama e se sentou em sua beirada, enquanto olhava para Seungcheol, que ainda dormia. Ele roncava alto, babava um pouco pelo canto da boca, mas continuava charmoso. Jihoon se aproximou e deixou um selar carinhoso em sua bochecha, enquanto sussurrava próximo ao ouvido: – Está na hora de acordar, dorminhoco.

Seungcheol deixou que a boca se curvasse em um bico, e puxou o edredom branco para que cobrisse o rosto. O leonino era manhoso de manhã, mas especialmente na hora de ser acordado. E Jihoon não era do tipo paciente; mas aquela manhã era especial. Deitou novamente ao lado do outro e o abraçou por cima do cobertor, e quando percebeu que o outro continuaria naquela posição, preferiu dizer em tom baixo palavras que ele sabia que o convenceria a sair daquela cama.

– Eu fiz comida.

Foram três simples palavras, que apesar de serem tão parecidas com os melosos “eu te amo”, foram capazes de fazer Seungcheol se mover de maneira mais brusca e desesperada, coisa que qualquer outra frase que não falasse de comida não seria suficiente para fazer acontecer. Gostava de dizer para Jihoon que a maior prova de amor que ele podia lhe oferecer seria dividir com o mais novo sua comida; o que ele o fez, algumas vezes, mas sob alguns protestos e reclamações.

Já virado, de frente para Jihoon, Seungcheol retribuiu o beijo de antes com um pequeno ataque destes, o que o fazia com frequência. Os despejava por todo o rosto do outro, sorrindo entre cada um deles e fazendo com que Jihoon apertasse os olhos pequenos. O mais novo os reviraria depois, fingindo irritação, e se moveria de volta à mesa do café da manhã, esperando Seungcheol o acompanhar. O cotovelo já estava apoiado sob a mesa, e a mão servindo de apoio para a própria cabeça, enquanto via o outro descer da cama apenas em suas calças. Abaixou para pegar uma camiseta e percebeu o olhar do outro.

– Eu andei malhando, você reparou? – foi um tanto quanto debochado o modo como falava, olhando para o outro sentado à mesa. Levantou a sobrancelhas e lhe lançou um sorriso daqueles baratos, quase conquistadores; Jihoon odiava e amava esses sorrisos. Os amava porque, assim como todos os outros, era insuportavelmente charmoso e bonito. Mas também os odiava, pois diferente dos outros, era um sorriso barato que lançava a qualquer um com quem quisesse flertar. O fazia recorrentemente, apenas para ver Jihoon apertar os olhos e xingar baixinho, indícios de um ciúme que já transparecia.

Mas Jihoon não era fácil de ser enganado. Seungcheol percebeu logo de cara, quando o conhecera, que seus flertes e cantadas não funcionariam com ele. Quiçá fosse culpa da personalidade desconfiada de tudo, com mil e um motivos para não acreditar no primeiro homem que lhe dedicasse palavras bonitas. O comentário não fez com que Jihoon desviasse os olhos; mas ergueu a sobrancelhas, e um sorriso nasceu no canto dos lábios enquanto dirigia a Seungcheol, novamente, palavras afiadas. – Eu reparei que seu ego anda maior, não sabia que estava malhando ele. De resto está tudo igual para mim.

O olhar ofendido que Seungcheol lhe direcionou foi o suficiente para que Jihoon caísse na risada e acordasse os dois labradores, que começariam a latir e correr pela casa em busca dos potes de comida, vez ou outra atrapalhando o felino filhote quando tropeçavam nele. Jihoon ordenou que Seungcheol andasse logo ou os ovos que havia preparado com tanto carinho estariam logo frios demais; e, no final, quem colocava ordem na casa era Jihoon. Seungcheol apenas obedeceu, agarrando a primeira camiseta branca que podia para vestir e correndo em direção à mesa já posta, com diferentes comidas já preparadas e prontas para serem devidamente devoradas pela boca nervosa de Seungcheol e seu estômago insaciável.

Começou pelo sanduíche, passou rapidamente pelo ovo e logo já estava com um pedaço de bolo de cada lado da boca, com os lábios sujos numa mistura da massa escura de chocolate e cobertura avermelhada de framboesas. Jihoon tinha apenas alguns pedaços de frutas espalhados pelo prato, e saboreava um de cada vez, no seu tempo. Depois brigaria com Seungcheol até que ele comesse as benditas frutas; o mais velho tinha esse horror a elas, como se fossem lhe causar algum mal. Acabaria encarando o teto enquanto ouvia o sermão comprido de Jihoon sobre a sua saúde.

Naquela mesma manhã levariam os cachorros para passear em suas coleiras. Na verdade, os cachorros levariam Seungcheol para passear, o puxando com força entre as ruas do bairro pouco movimentado, enquanto Jihoon andava alguns passos atrás com o felino de apenas alguns meses de vida no colo. O mais velho era péssimo em controlar os dois labradores de porte médio que teimavam em pular em qualquer pessoa que passasse na rua, além de implicar com qualquer outro animal que vissem na rua. Mas eram tão gentis quanto os donos; vez ou outra, algumas crianças os cercavam e passavam a acariciar o pelo macio dos animais, que latiam e miavam alegres.

Andaram até o parque da Independência, no distrito vizinho ao deles, Seodaemun. Estava quente, era meados de abril, mas a rua que sempre visitavam continuava maravilhosa. Preferiam o chão coberto de folhagens em tons quentes ou a neve que repousava sob as folhas das árvores, mas assim estava bom. Foi Seungcheol que achou aquele lugar, por onde poucas pessoas passavam e podiam deixar os dois labradores a solta. Sentaram-se no banco simples de madeira, Jihoon ainda com o gato nos braços, e ficaram olhando os cães correr enquanto conversavam sobre qualquer coisa.

Qualquer coisa mesmo. Jihoon se lembrou das aulas de álgebra e de como nunca fora bom nelas, enquanto Seungcheol dissertava sobre naves espaciais e seres extraterrestres. Quem olhasse de fora achava que não conversavam, que eram dois monólogos distintos; mas eles se ouviam. Foi numa pequena pausa, de alguns segundo, que Seungcheol sentiu vontade de conversar sobre algo que nunca haviam falado antes. Não passava ninguém na pequena ruela do parque quando Seungcheol se pronunciou, com a voz baixa: – A gente podia se casar.

Apesar de ser um momento corajoso do mais velho, Jihoon riu. Não ria dele, apenas ria. Seungcheol o olhou da cabeça aos pés, sem entender o porquê da risada. Jihoon permitiu que o sorriso permanecesse no rosto enquanto respondia de maneira simples.

– Nós já somos casados.

Seungcheol era como fogo. Tudo queimava com ele, de maneira fugaz e ardente. Talvez por isso nunca tivesse reparado que o que Jihoon dizia fazia sentido. Talvez fosse porque se Seungcheol era fogo, Jihoon com certeza era água. Eram jovens, aproveitavam a vida o quanto queriam e tinham lá sua liberdade. Mas ao mesmo tempo caminhavam juntos e traçavam uma jornada apenas deles. E mesmo num relacionamento ígneo como o dos dois, conseguiram encontrar o equilíbrio quase perfeito que se balanceasse entre o quente e o frio. Um amor que queima como chama, mas nada destrói.

 

 

Não me amole com o morno, com o mais ou menos ou o meia-boca. Nem perca seu tempo. Se é pra brincar de amor, que seja irracional, intenso, doentio.

— Priscila Andreza.

 


Notas Finais


chegou a ikonic [emoji piscando]

primeiro, quero parabenizar a anja @choavevo que faz aniversário hoje!! eirin, você é importante demais pra mim e essa história é apenas um pequeno pedacinho de tudo que você merece. infelizmente eu não tenho tempo nem dinheiro pra te dar o mundo todo, mas espero que essa jicheol curtinha te faça abrir um daqueles sorrisos que só você tem, e que só mostra com as arrobas já citadas, seu namoradinho seungcheol e o casal da nação jicheol... enfim, PARABÉNS AAAA!

agora vamos lá. essa fic é do mesmo universo de cárcere, alguns devem ter percebido. o resto fica no ar, mas se você gostou dessa fic e gosta de meanie, confere cárcere também!! pra quem veio de lá, espero que tenha gostado desse extra prolongado. o jihoon e o seungcheol não vão aparecer em cárcere pq o foco é na relação do wonwoo com a liberdade e com o mingyu, maaaaaas eles fazem sim parte do mesmo universo. pra quem não pegou, também: o menino da cozinha é o seungkwan, apaixonadíssimo pelo vernon que esbanja seu inglês fluente no balcão dçkgjdgjds o casal chinês é junhao porque sim eu sou muito junhao trash.......... e o outro casal é meanie sim, porque eu amo meanie.........

eu ainda tenho alguns projetos no forno. tenho uma outra meanie planejada para depois do final de cárcere, e ando pensando bastante em um plot que iria muito bem com verkwan. pra quem gosta de ikon, eu to planejando uma double b e uma junhwan também, mas isso acho que só ano que vem!! fiquem ligadas meninas [emoji de lupa]

enfim se gostaram deixem seu like, se inscrevam no canal e adicione esse vídeo aos seus favoritos............... quer dizer................... comentem aí o que acharam.............

com amor,

miro (ɔ◔‿◔)ɔ ♥


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