História Illogical - Star Trek Spirk One-Shot - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Star Trek
Personagens Dr. Leonard "Magro" McCoy, James T. Kirk, Spock
Tags Angst, Bones, Conforto, Depressão, Fluffy, Hurt/comfort, Jim Kirk, Kirk/spock, Leonard Mccoy, Oneshot, One-shot, Romance, Sci-fi, Slash, Spirk, Spock, Star Trek
Exibições 110
Palavras 4.314
Terminada Sim
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Ficção Científica, Fluffy, Romance e Novela, Sci-Fi, Slash
Avisos: Homossexualidade, Spoilers
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Olááá, como vocês estão? Espero que bem. Essa é a primeira fic que escrevo sobre Star Trek, por favor, sejam bonzinhos comigo.

BOA LEITURA!!

SUGESTÃO DE MÚSICA: FIX YOU - COLDPLAY

Capítulo 1 - Illogical (capítulo único)


James Tiberius Kirk sempre foi uma pessoa intensa.

Não há dúvida disso. Uma pessoa do tipo “08 ou 80”, alguém disposto a qualquer coisa para fazer aquilo que acha certo. Sempre dominado por seus sentimentos, um pouco inconsequente e com alta tendência a ceder por pura teimosia aos menores desafios, disposto a entrar em uma briga onde está clara em desvantagem. Jim não acredita em situações onde não há ganho, um otimismo baseado unicamente em sua necessidade de se superar constantemente, extremamente influenciado por sua intuição.

Spock, pelo contrário, foi criado para considerar sentimentos uma fraqueza a ser superada.

Metade humano, metade vulcano, Spock não teve uma infância fácil. As outras crianças o empurravam até a borda, na intenção de extrair dele alguma reação emocional considerada extremamente estúpida pelo restante de seu povo. Eventualmente, eles conseguiram. Foi quando Spock decidiu seguir o modo vulcano de ser, abdicando de seus sentimentos. Ele nunca conseguiu se livrar totalmente deles, para falar a verdade. E a verdade sempre foi a única coisa que o vulcano pôde falar: seu povo não mente, jamais. Não podem mentir. Então Spock se agarrou ao pensamento lógico e racionalista, atingindo níveis de excelência acadêmica que chamavam a atenção de qualquer um. No entanto, bem lá no fundo, nas entranhas de sua parte humana, ele se sentia sozinho, e a frieza de sua parte vulcana o assustava.

Sua colisão com James T. Kirk não foi nada senão explosiva.

O humano, tão influenciado por seus sentimentos, era nada mais do que um tolo aos olhos de Spock. Seu comportamento guiado pela intuição não poderia ser mais ilógico, e, ao trapacear no seu teste, Kirk testou os limites da paciência do vulcano.

Spock ainda se lembra do fatídico dia quando a denúncia que fizera contra James fora analisada. Ele se lembra de conseguir ver dentro dos olhos de Kirk o quanto suas palavras o feriram, e de como se sentiu estranhamente afetado pela ideia de tê-lo machucado de alguma maneira.

Depois houve o incidente com Nero e a morte de Amanda. Spock poderia facilmente ter matado James quando perdeu o controle de suas ações. Porém, algo lá dentro, em seu íntimo, o impediu.

E então Kirk o salvou da morte dentro daquele vulcão, arriscando-se por ele. Após perder seu posto como Capitão da USS Enterprise graças ao relatório feito por Spock, James disse que ele jamais entenderia por quê Kirk voltara para o salvar. No entanto, o vulcano eventualmente entendeu, quando teve que assistir seu Capitão e agora melhor amigo morrer sem poder fazer nada, e em seguida foi tomado pela necessidade de vingar sua morte.

Mas Jim sobreviveu, e a intensidade das reações emocionais que ele sempre provocou em Spock continuava intrigando o vulcano.

Não é lógico que, mesmo quando as possibilidades de seu Capitão sair são e salvo de uma missão são maiores do que incríveis 90%, Spock continue se preocupando e exigindo que Jim tome todos os cuidados possíveis. Exigindo que Jim o leve consigo a cada uma dessas missões, para que Spock possa manter uma vigilância constante caso algo saia errado.

E, um ano após o início da missão de cinco anos da Enterprise, Spock está ainda mais preocupado com Jim. Ele consegue ver a saúde de James declinar consideravelmente, seu sorriso habitual lentamente desaparecendo. Além da experiência de quase morte, o assassinato de Pike nunca foi superado pelo jovem Capitão, e Spock sabe disso.

Então ele toma a decisão de falar com McCoy. É a decisão lógica a se tomar, considerando que Leonard é o médico pessoal de Jim.

- A que devo a honra de sua visita, Spock? – Leonard o cumprimenta com seu sarcasmo habitual enquanto os dois conversando em seu escritório.

- Eu gostaria de ver os registros médicos do Capitão, Dr. McCoy. – o vulcano responde, ainda parado com as mãos atrás das costas e sua expressão ilegível. – Tenho suspeitas de que sua saúde esteja se deteriorando graças ao dano emocional causado por acontecimentos passados.

- Oh, finalmente alguém percebeu também! – McCoy exaspera jogando os braços para o alto. – Aquele idiota teimoso precisa conversar com alguém sobre o que está acontecendo. Quer dizer, nós somos amigos... Não, somos melhores amigos, e, merda, o garoto não vai abrir a boca para dizer nada!

Depois de Jim, Spock considera Leonard McCoy a pessoa mais influenciada pelos sentimentos que ele conhece. Claro, os sentimentos do médico geralmente envolvem medo, revolta, raiva, desagrado e impaciência, mas o vulcano sabe que, por trás de toda essa carranca, McCoy esconde o que os humanos chamam de “um coração mole”, e muito amor e preocupação por Kirk.

- Considerando que ambos somos amigos do Capitão e estamos dispostos a ajudá-lo, sua recusa por ajuda é altamente ilógica.

- Nem tudo no mundo se baseia em lógica, Spock. – Bones revira os olhos. – Os sentimentos humanos são “altamente ilógicos”, como você diz. A depressão costuma ser ainda mais ilógica.

- Depressão, Dr. McCoy? – Spock pergunta arqueando as sobrancelhas. Leonard sabe que, para um vulcano, essa é uma enorme expressão de preocupação. – Como médico, acha que o Capitão pode estar sofrendo de um distúrbio psicológico grave?

- Sim, Spock, eu acho. Tenho alguma experiência profissional com distúrbios psicológicos.  – McCoy suspira. – E, caramba, o chame de Kirk, Jim, ou qualquer coisa. Não é como se essa fosse uma conversa profissional.

- Eu garanto que essa é uma conversa profissional, doutor.

- Achei que vocês vulcanos não mentiam. – Leonard arqueia as sobrancelhas, cruzando os braços sobre o peito.

- Sua proposição está certa, Dr. McCoy. Vulcanos não mentem.

- Mas aparentemente mentem para si mesmos. – Bones bufa, impaciente. – Olha, eu sei que gosta dele. Sei que gosta muito dele. E eu também estou preocupado, okay? Essa é uma conversa pessoal, e tudo bem que você esteja tão preocupado assim com ele. Só não está tudo bem em você tentar se enganar.

- Como seu Primeiro Oficial, é meu dever zelar pela saúde de meu Capitão. – Spock respondeu cordialmente. – E não entendo suas insinuações de que eu estou enganando-me. Isso seria ilógico.

- Caramba, Spock, você é humano também, não é? Tudo bem ter sentimentos e agir de maneira ilógica de vez em quando. Você me tira do sério com esse seu jeito certinho, mas parece que Jim gosta disso. Parece que ele gosta de você assim como você gosta dele. – Leonard diz se reclinando contra sua cadeira. – Tente falar com ele, fazê-lo se abrir. Mas, pelo amor de tudo que é sagrado, vá com calma, okay? Use sua metade humana para falar com ele, se é que ela ainda está aí.

Spock se limita a assentir, antes de sair do escritório de McCoy. As palavras do médico ainda ecoam em sua mente desconfortavelmente. O vulcano sabe, em algum lugar dentro de sua mente, que Leonard está certo. De alguma maneira incompreensível para sua lógica, Spock está se enganando, mentindo para si mesmo. É aterrorizante pensar que isso é possível mesmo com sua incapacidade de mentir.

Ele também está surpreso que Jim ainda não falou com McCoy sobre seus problemas. Kirk e o médico têm sido amigos deste que entraram para a academia da Frota Estelar, realmente melhores amigos, e, baseando-se no esquema de relações humano, é ilógico que James ainda não tenha confiado a Leonard seus segredos.

A proximidade entre McCoy e Kirk é outro fator que intriga ao vulcano. Um estranho desconforto brota no fundo de sua mente sempre que ele se dá conta de que o médico sabe tudo sobre Jim, e sempre que vê os dois juntos, quando o vulcano se dá conta de como James parece totalmente relaxado para ser quem realmente é ao lado de Leonard. A parte humana de Spock acha esse sentimento aceitável, mas sua parte vulcana pensa exatamente o contrário.

Jim sempre despertou a parte humana de Spock, fazendo-a ferver, arrancando as mais intensas reações emocionais do ponto mais profundo de seu âmago. Isso o assombra mais do que deveria, perturba seu tão perfeito autocontrole. É como se Jim fosse fogo, e Spock, gelo, sempre tão perto de derreter quando próximo demais das enormes e quentes chamas de Kirk.

Spock balança a cabeça, afastando seus pensamentos. Ele irá conversar com Jim, e irá tentar “ir com calma”, assim como sugerido pelo Dr. McCoy.

(...)

Após o final do turno Alfa, Spock assiste Kirk levantar da cadeira do capitão, e lentamente fazer seu caminho para fora da ponte. Seus passos são lentos e pesados, quase como se apenas andar fosse uma atividade que requere mais energia do que Jim tem disponível.

Não é difícil para Spock alcançá-lo e começar a acompanhá-lo.

- Capitão, eu gostaria de convidá-lo para uma partida de xadrez em meu quarto, senhor. – o vulcano disse cordialmente, propositalmente omitindo sua intenção de conversar sobre o estado mental de James.

- Xadrez, Spock? – Jim questiona com a voz cansada. – Minha cabeça está cheia demais para jogar xadrez hoje.

- Que tal poker, Capitão? – Spock insiste.

- Poker? – James arqueia as sobrancelhas. – Achei que você não gostasse de poker, Spock. Sabe, você nunca gostou de blefar, sempre disse que é como mentir. No entanto, tenho que admitir que você tem a melhor poker face que eu já vi. Isso deixa Bones louco.

- Você tem razão, Capitão. – o vulcano admite. – Porém eu estaria disposto a seguir as regras do jogo se isso significar que poderemos passar um tempo de qualidade juntos.

- Então você quer passar um tempo comigo? Uau, bem inesperado. – Jim expira audivelmente. – Tudo bem então. Podemos passar na ala médica e chamar Bones também, com certeza ele está precisando de uma boa partida de...

- Na verdade, Capitão... – Spock o interrompe. – Eu preferiria que pudéssemos fazer isso a sós, se não houver oposição de sua parte.

- Hm, caramba, okay. – Kirk responde surpreso. – Sozinhos, então.

Spock conseguia sentir a tensão emanando de Jim. Parecia ilógico o Capitão estar tão tensionado simplesmente pela ideia de estar sozinho em um quarto com o vulcano. Por outro lado, a parte humana de Spock sabe que essa reação não é tão inesperada assim, dadas às condições.

Spock não pode deixar de notar o quanto o andar de Jim se tornou rígido desde o incidente onde Khan assassinou Chris Pike. Seu balançar habitual, jovial e despreocupado, estava ausente deste então, como se cada passo fosse milimetricamente calculado para demonstrar o máximo de controle e liderança possível. Até mesmo a forma de falar de Kirk mudou, se tornando mais frio e técnico, as piadas e comentários atrevidos cada vez mais esquecidos em um passado distante, os sorrisos escondidos atrás do autocontrole forçado.

Enquanto andam em silêncio, Spock constata, com surpresa, que sente falta do antigo Jim, aquele totalmente humano e que o desafiava.

Quando finalmente chegam ao quarto, Spock se dá conta de que não tem um baralho para jogar poker. Jim pede que ele espere um minuto, e entra em seu quarto, ao lado do de seu Primeiro Oficial, para buscar suas próprias cartas.

A breve visão que Spock tem do quarto de Jim ao observar a porta abrir e fechar o faz refletir. Ele nunca entrou no quarto do Capitão, nem durante as partidas de poker ou xadrez que os dois eventualmente jogam e, que, inclusive, se tornaram ocasiões raras com o passar do tempo. O quarto de uma pessoa é seu lugar mais íntimo, mais pessoal, um reflexo de quem é. Spock jamais deixou alguém entrar em seu quarto, nem mesmo Uhura. Quando ainda estavam juntos, eles iriam passar algumas noites juntos no quarto da tenente, mas nunca no seu.

Quando Jim retorna, o baralho em uma das mãos, e uma garrafa de whisky na outra, Spock inclina a cabeça em confusão.

- Achei que seria bom se relaxássemos um pouco. – Jim se justifica.

- Meus meios de relaxar costumam se restringir a meditação, Capitão. – Spock diz impassível. – Nenhum deles envolve o consumo de álcool.

- ‘Tá, eu bebo então. – Kirk dá de ombros, e ambos adentram o quarto.

James parece hesitante ao se sentar na beirada da cama, jogando o baralho sobre os lençóis, a garrafa de whisky ainda firmemente presa entre seus dedos. Spock não pode deixar de notar as grandes olheiras envolvendo os olhos de Kirk, e como os ossos de suas bochechas parecem mais salientes, como se a pele do rosto do jovem Capitão tivesse afundado consideravelmente. Pela lógica, Spock conclui que ele não esteja nem dormindo, nem se alimentando direito.

- É sempre quente assim aqui? – Jim pergunta para quebrar o silêncio, enquanto retira a tampa da garrafa de bebida.

- Sim. Devido à minha natureza vulcana, sou consideravelmente mais sensível à temperatura do que os humanos.

- Ah... Eu não sabia. – Kirk diz simplesmente, bebendo um gole de bebida. – Onde vamos jogar?

- Na verdade, Capitão, o jogo pode esperar... – Spock começa. – Minha principal motivação para trazê-lo até meus aposentos era ter uma conversa franca sobre como está se sentindo.

- Como assim? Estou me sentindo bem. – Jim diz enfatizando o último termo, mas o vulcano consegue ouvir a falsidade em sua voz.

Ele observa James rir nervosamente, e beber mais alguns goles de whisky. “Ele está desconfortável, faça-o ficar menos desconfortável”, a mente de Spock diz.

- Bem não é aceitável, Capitão. – o vulcano diz seriamente, ainda de pé em frente ao jovem. – Segundo minhas observações, o senhor parece estar sofrendo de algum tipo de distúrbio emocional em consequência de acontecimentos passados.

- Você mentiu para me trazer aqui. – James constata com os dentes cerrados, olhando para o chão.

- Não, senhor. Vulcanos nunca mentem. – Spock aponta. – Eu apenas omiti minha principal intenção em trazê-lo ao meu quarto.

- Isso é o mesmo que mentir pra mim. – Kirk diz se levantando rapidamente e andando até o outro lado do quarto para colocar a garrafa de bebida sobre a mesa presente no quarto. – E não há nada que eu possa dizer a você, não que você fosse entender de qualquer maneira, é algo que eu não consigo transformar em palavras e você nem gostaria de ouvir...

- Jim... – Spock o interrompe. – Por favor... Eu estou preocupado...

O vulcano nota como o som do apelido de James proferido por seus próprios lábios faz o humano se calar e se virar para encará-lo. É estranho para Spock admitir qualquer tipo de sentimento, inclusive preocupação, e falar isso em alto e bom som o faz questionar o que ele não faria por James T. Kirk.

Spock descobre que gosta de como “Jim” soa em seu tom de voz, e de como é fácil e agradável de pronunciar. Foram poucas as vezes em que ele chamou seu Capitão pelo apelido, e jamais havia parado para pensar sobre isso. O vulcano raramente trata alguém pelo primeiro nome, e chamar Kirk por seu apelido o faz sentir um nível de intimidade totalmente ilógico, dado o fato de que praticamente todos o chamam de Jim. A falta de lógica, no entanto, não faz o sentimento aparentemente bobo ser menos gratificante.

- Eu não sei o que é, Spock. – Jim admite, se apoiando contra a mesa. – Só sei que é aterrorizante, e me consome aos poucos. É solitário e triste. Eu tenho pesadelos onde eu o vejo morrer, onde eu revivo minha experiência de morte. Eles não me deixam dormir, eu não consigo comer. Eu estou tentando ser forte, Spock, ser forte pela minha tripulação, ser forte para não ser afastado da Enterprise. É difícil, sabe? Sinto que estou sendo engolido por isso. Eu ainda tenho calafrios sempre que ouço o som dos phasers, sempre que escuto gritos. Eu não consigo chegar à menos de cinquenta metros do setor de energia onde tudo aconteceu. Parece que estou me afogando.

Como se apenas o discurso de Jim já não tivesse sido o suficiente para multiplicar sua preocupação exponencialmente, o tom da voz do jovem capitão foi ainda pior. Era doloroso, mas frio, como se algo estivesse quebrado dentro dele, como se suas emoções tivessem sido neutralizadas. Era terrivelmente assustador o quão profundamente Kirk estava ferido, e fazia a parte humana de Spock querer gritar e se vingar de cada dos que danificaram seu Capitão de alguma maneira.

Isso o assustou, a constatação do quão longe ele iria por Kirk. Vingança não é algo bem visto pelos vulcanos. É uma reação altamente emocional de raiva e rancor, não muito lógica. E aí estava Jim, fazendo Spock questionar sua lógica novamente.

- Você consegue me entender, Spock? – James pergunta escondendo o rosto com as mãos. – Eu não consigo fazer você entender, Spock, mas é terrível. Ninguém consegue entender. Você principalmente, com toda essa coisa de lógica. Eu não consigo verbalizar isso e ninguém pode entrar em minha mente e saber como é.

O leve tremor na voz de Jim é evidente, e Spock simplesmente sabe que ele está chorando. Isso faz seu coração doer, não importa se é metade vulcano ou não. A ideia de ter Kirk chorando bem à sua frente é demais para ser suportada. Jim está arrancando de Spock uma reação emocional novamente, como sempre faz.

- Eu posso, Jim. – o vulcano diz se levantando e se aproximando de Kirk.

- O quê? – James questionar, retirando as mãos do rosto e o encarando com seus enormes olhos azuis molhados e avermelhados.

A visão faz algo dentro de Spock se apertar e se remoer. As trilhas molhadas deixadas pelas lágrimas nas bochechas de Kirk são dolorosas, mas não tão dolorosas quanto o olhar quebrado e ferido no fundo dos olhos do jovem. Isso literalmente dói. Apenas olhar para o quão machucado Jim está o machuca também.

- Eu posso fundir nossas mentes, Jim. – Spock esclarece com o tom de voz bem mais suave do que o normal. – Posso entrar em seus pensamentos, entender o que está ocorrendo. Posso aliviar sua dor. Isso, no entanto, estabeleceria um laço entre nós.

- Faria isso por mim, Spock? – Jim questiona quase em um sussurro.

- Eu me pergunto o que eu não faria por você, Jim.

Spock é surpreendido pela mão de Jim na sua, fazendo um suave contato. Uma onda de eletricidade atravessa o corpo do vulcano, mas Kirk parece totalmente alheio ao que acabou de fazer, ao que esse gesto significa. Spock está perplexo pela singeleza do ato. James acabou de beijá-lo à maneira vulcana, e é tão sincero que faz com o vulcano queira chorar. É ilógico, ele sabe, mas não parece errado.

Spock levanta sua outra mão e posiciona os dedos nos pontos exatos, fecha os olhos, e se concentra...

A primeira coisa que ele percebe é que é extremamente frio na mente de Jim, muito mais frio do que o esperado. É um frio aterrorizante que congela sua espinha e faz calafrios percorrerem seu corpo. A segunda coisa é o escuro angustiante, que impede Spock de ver um palmo além de seu próprio nariz. É uma escuridão sufocante, daquelas que roubam seu ar e o fazem sentir claustrofóbico como um animal preso em uma caixa pequena e fechada.

O silêncio é outra coisa que não agrada Spock. É intimidante, como uma companhia indesejada, como um inimigo à espreita em sua própria mente, que se espalha por todo lugar, assustadoramente à espera de seu primeiro deslize, tornando o ar pesado e difícil de respirar.

Se o silêncio não era agradável, os gritos que vieram do nada assustaram o inferno fora de Spock. Alguns eram apenas gritos incompreensíveis de dor, alguns claramente eram semelhantes a voz de Pike, implorando pela vida. Alguns deles falavam coisas ruins sobre Kirk, coisa que com certeza o faziam se remoer por dentro o tempo todo.

Quanto mais fundo Spock mergulha na mente de Jim, mais ele sente medo e preocupação pelo rapaz. O vulcano pode sentir a solidão, a desesperança, a tristeza avassaladora. Ele tenta limpar o local de algum modo enquanto explora as profundezas da mente de James.

Em algum momento, a escuridão disforme reflete memórias. A morte de Pike, a morte do próprio Jim. Alguns cenários são claramente criados pelo subconsciente de James, mas não são menos assustadores. Cenários esses onde Jim não conseguia salvar Spock da morte no vulcão, onde Kirk assistia Chris morrer lentamente, até mesmo alguns onde ele presenciava a morte do próprio pai. O vulcano tenta se livrar de alguns desses, por mais difícil que seja.

Algumas memórias deixam Spock surpreso. A rejeição da mãe de Jim, uma mulher que não suportava olhar para o rosto do próprio filho porque este a lembrava demais de seu marido morto. Frank, o padrasto violento. As crianças más da escola, as amantes que o deixaram, o irmão ausente. Tudo isso triste, e solitário.

Em algum ponto, a escuridão se transforma em um jardim, repleto de árvores secas e uma palheta de cores escuras e mortas, com uma enorme quantidade nuvens bloqueando o sol. Spock tenta andar, procurando por um ponto favorável, algo que não esteja tão afetado pela fumaça cinza que parece consumir toda a felicidade.

“Oh, Jim, onde você está?”

O vulcano se atreve a ir mais longe, cada vez mais fundo no subconsciente de James. E então, de repente, ele vê um ponto onde há, pelo menos, um pouco de luz.

O cenário muda de repente, e Spock se encontra em uma praia, ainda um pouco nublada, mas nada comparado à escuridão do estágio inicial. As memórias que passam pelo vulcano são doces, quase felizes, se não fossem seu estado tão deteriorado e apagado. Spock se reconhece em um monte delas. A nave está lá, parece ser uma parte importante de quem Jim é. Bones também. E Pike, muito vivo na memória de James. E até mesmo Chekov, Sulu, Uhura, Scotty...

Alguma coisa se acende dentro de Spock quando ele percebe que é parte essencial desse pequeno santuário de calma na mente de Jim. Isso o aquece e o dá forças para aprofundar a conexão.

Spock desvia os olhos da água calma, e enxerga, alguns metros à sua frente, sentado na areia, a figura de Jim, cabisbaixa e perdida. Isso o perturba. Não é bom que Kirk esteja envolto por essa pesada aura azul, com resquícios da fumaça cinza flutuando ao seu redor. O vulcano se aproxima cautelosamente, até estar frente à frente com James, e se ajoelha na areia.

“Oh, Jim, eu entendo agora. Vamos reconstruir isso aqui. Não precisa mais temer, eu estou aqui e eu não irei deixá-lo. Só precisa pegar minha mão, e sairemos daqui.”

Esse Jim, fruto do subconsciente de Kirk, parece mais jovem, mais amedrontado, e lentamente ergue seus olhos para encontrar os de Spock.

“Faria isso por mim?”

Spock quase ri da pergunta, se não fosse a seriedade da situação. Então ele apenas estende sua mão, respondendo:

“Eu não sei o que eu não faria por você, Jim.”

E então, a mão de Kirk encontra a sua em um aperto forte, e o vulcano é trazido de volta à realidade.

Spock pisca algumas vezes, tropeçando para longe de Jim. Sua mente se sente estranhamente incompleta longe da de Kirk, e ele está muito perto de perder o controle de seu lado humano. Seus olhos estão marejados, o vulcano consegue sentir isso, e consegue sentir também o olhar de James sobre ele.

- Muito ruim? – Jim pergunta em um sussurro.

- Eu não posso mentir para consolá-lo, Jim. Não posso dizer que não é tão ruim quanto eu esperava que fosse. – Spock admite. – No entanto, uma parte de mim quer desesperadamente oferecer-lhe conforto emocional de alguma maneira, e estou falhando em controlá-la. Tudo o que posso dizer é que estarei aqui com você, o ajudarei a passar por isso, iluminarei sua mente.

Jim se aproxima novamente, suspirando.

- Você me faz sentir bem, Spock. – James constata. – Seja lá o que você fez, me fez sentir completo, feliz, acolhido e... Amado. Você me faz sentir bem de uma maneira que nunca me senti antes.

- E você me faz sentir, Jim. – o vulcano responde sem quebrar o contato visual. – Você provoca as mais profundas reações emocionais que já experimentei, reações estas que seriam consideradas altamente ilógicas por qualquer vulcano. No entanto, sendo metade humano, eu entendo que os sentimentos são frequentemente isentos de lógica, principalmente o amor. E isso me traz à maior e mais fascinante constatação de toda minha existência: eu te amo, James T. Kirk, sempre amei.

- Eu também te amo, Spock.

Novamente, a mão de Kirk faz contato com a sua, e o vulcano suspira audivelmente, sentindo uma onda de sentimentos indefinidos o balançar. Jim quebra a distância entre eles, conectando suas bocas.

Spock não se lembra de alguma vez na vida ter tido uma resposta emocional tão intensa a apenas um beijo. Jim tem gosto de whisky, menta e de amor. É como se, depois de anos à deriva, Spock finalmente tivesse encontrado seu lar, exatamente ao lado de Kirk. O jovem é sua fraqueza, sua força, sua esperança, a exceção à toda sua lógica perfeitinha.

Quando eles finalmente quebram o beijo, desesperados por ar, e Jim se aninha nos braços no vulcano, uma simples palavra escapa pelos lábios de Spock antes que ele possa segurá-la:

- T’hyla...

(...)

Eventualmente, Jim finalmente aceita falar com Bones sobre o que está acontecendo em sua mente, e, gradativamente, as coisas começam a melhorar.

Spock está ao seu lado, claro, e o recém iniciado relacionamento o traz segurança e felicidade. Ele está voltando a ser seu antigo eu, feliz e confiante, e isso influencia a atmosfera ao seu redor.

Eventualmente, as reações que Jim causa ainda provocam espanto no vulcano, mas isso é algo com que Spock aprendeu a lidar, assim como os constantes beijos vulcanos roubados nos momentos mais aleatórios do dia por James.

Jim ainda tem dias ruins quando as coisas não estão indo bem, mas agora sabe que, aconteça o que acontecer, seus amigos estarão ali, Spock estará ali, sempre ao seu lado, seu Primeiro Oficial, seu amigo, seu irmão, seu amante...

Seu T’hy’la.


Notas Finais


E aí? Espero que tenham gostado do one-shot que fiz com tanto carinho. A ideia me ocorreu de repente, para tentar animar uma amiga, e como Spock/Kirk é um dos meus OTP's, era a ideia perfeita, pois também me permitia explorar um pouco a ideia de Spock tendo uma luta interior entra seu lado humano e seu lado vulcano.

*T'hy'la: termo vulcano que significa "amigo, irmão, amante"; a outra metade de sua alma.

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OBRIGADA POR LER! BEIJOS!

VIDA LONGA E PRÓSPERA!


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