História I'm Dying - Capítulo 1


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LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Drama (Tragédia)

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Capítulo Único


Deixe-me te explicar como é morrer. É algo lentamente rápido, sabe? Digamos, é como aquele filme do qual você estava louco para assistir. Você decora cada nome, aproveita cada música, se delicia de absolutamente cada momento, mas quando vê, está saindo do cinema.

Não me lembro muito bem do que pensei na hora que senti meus ossos quebrando contra o asfalto, provavelmente estava pensando o quanto voar era legal. Pena que eu ainda estava aprendendo, e não usava para-quedas. Pois é, eu caí feio. 

Admito que morrer em parte é algo muito diferente e do qual você aprende muito. As pessoas dizem 'aproveite sua vida enquanto há tempo' ou 'vida só tem uma' mas sinceramente, nos últimos minutos da minha vida, aprendi que posso voar, que existem nuvens brancas que sabem falar "Grave; Cirurgia; Celular e Pais" e que acima de tudo, a Nike estava com 50% de desconto, só hoje! Vi o rapaz com a sacola da loja quando ele e o turbilhão de canelas e pernas se juntaram em um círculo, encarando a garota que gritava, morrendo lentamente no chão.
Claro, eu nem parecia uma garota. Meu crânio estava tendo um filho com o chão e minha perna havia decidido dar uma viagem e visitar sua prima lá em Nárnia. Percebi também que haviam vários garotos em volta, provavelmente mais garotos me notaram nesse péssimo momento sem maquiagem da minha vida, do que em toda ela.

Foi como um salto, aqueles olímpicos, mas o meu foi maior. As nuvens sumiram, e acho que fui pro céu.
Argh, absolutamente não, o céu não tem esse cheiro.

Não consigo abrir os olhos, espera... eu ainda tenho olhos? Nessas horas você faz uma espécie de jogo mental, sabe? Conta ovelhas, jogo da memória, para ver se está tudo no lugar... pelo menos no meu subconsciente. 

Esqueci de fazer a lição de Química. Isso seria uma boa desculpa na escola? "Não fiz por que estava morrendo". É, talvez o professor apenar me mande para a diretoria, ou para o hospital... ou para um cemitério. 

Nem tive tempo de comprar o perfume que eu queria, e isso é trágico. Talvez eu nunca saiba se o Daniel queria algo comigo a não ser uma noite de balada, como havia sido até hoje.
Ah, e as viagens! Não é algo muito digno de se pensar. Sou um tanto materialista, e minha amiga me dizia que era genética. Tal mãe, tal filha.

Falando na minha mãe, ela provavelmente está em uma de suas reuniões. Sua mente está focada no que está dizendo, e em como influenciar seus clientes à comprar o produto de sua marca de roupas. Obviamente não está pensando na filha que está atualmente morta, atropelada ao tentar ir para a escola. Provavelmente um desalmado bêbado ocasionou minha falta... eterna.

Como as pessoas iriam reagir? Provavelmente achariam que é uma pegadinha. Sempre tive raiva disso, brincadeiras estúpidas. Quase tão estúpida quando cobra-cega. Ganhei uma ótima cicatriz quando estava brincando, em meus 7 anos, e dei de cara com a parede. Dólares e Dólares gastos em maquiagem para cobrir meu nariz, que ódio. 

Costumo falar muito quando estou com medo, pois é, admiti. Quem diria, eu, a garota mais orgulhosa que o mundo conhece, estava admitindo um defeito dela. Ah, mas faça-me o favor, ninguém vai lembrar disso em meu enterro. Se quer vão lembrar de mim, vão apenas chorar, jogar terra encima do caixão como se dissessem 'tirei meu fardo' e voltarem para suas casas. Haverá três dias de luto, e então, a vida se segue.
Não quero ninguém depressivo para o resto da vida por minha causa, além do mais, eu nem queria que minha própria mãe tivesse que enterrar a filha.
Ah, estou sendo carinhosa. Só morrendo mesmo pra acontecer.

Escuto vozes, bem, eu acho que isso é ouvir. Me sinto tão deslocada, que é como se eu fosse um bebê, saindo do forno agorinha.
Bom, é o contrário.
Eu estou morrendo.
Uma vez, li em uma revista médica que quando o susto é muito grande, você nem sente dor. Acho que eles dizem isso para disfarçar o real motivo: a vítima está tão ferrada que o corpo nem se dá trabalho de reclamar.
Ah, e não, eu não estava lendo a revista de medicina por contra própria. Não tinha opções. Obviamente. 

Escuto uma gazela cantando, acho que fui eu. Meu grito saiu como um acorde tão desafinado como quando eu estava aprendendo a tocar violino, aos 6 anos. Como eu lembro o que é uma gazela e não consigo diferenciar as vozes reais e as vozes da minha cabeça?
Minha mãe sempre esperou de mim aquelas filhas bem sucedidas, super dotadas, cheia de talentos.

Eu não era uma fracassada, óbvio, eu fazia as melhores panquecas de Nova York e ninguém podia negar. Eu já estava pronta para casar.
Estava.

Agora, minha preocupação não é qual roupa usar, é se minha cara está deformada o suficiente para justificar o porquê que escuto vozes dizendo 'Meu Deus', 'A glândula literalmente explodiu', ou 'Eu pago uma cirurgia plástica só por pena'.

Ah, por favor, não preciso de pena, não agora. Estou literalmente morrendo, e mesmo que sobreviva... bem, ainda não fiz planos.
Eu nem sabia que iria morrer, quanto mais sobreviver.
Eu não quero isso. Tinha tantos planos, tantas metas. Isso me foi roubado, como um pirulito de uma criança! Sinto um vazio, será que estão tirando meus órgãos?
A morte não é uma escolha, afinal...
Silêncio.
Não me importo se é real, ou aquela afirmação sobre minha glândula afetou minha audição... Não importa... é paz.
Então, isso é morrer.
Você desliga.
Queria sobreviver para contar a experiência...
'Como é morrer?'
É bom...
Não sei se estou achando bom porque as últimas coisas que senti e ouvi foram tão ruins que afetou minha sanidade, mas é bom.

Obrigado mãe, por estar sempre ausente, sem você eu não seria independente.
Obrigado pai, por me deixar, sem você eu não iria aprender como não chorar.
Obrigado Daniel, pelas festas e por me mostrar que ninguém é de fato fiel.
Ah, e obrigado por entender minha falta, Professor de Quimica. Eu estava ocupada morrendo.

Com amor, uma pessoa parada no tempo.



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