História I'm in love with my boss - Capítulo 32


Escrita por: ~

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Categorias The 100
Tags Clexa
Exibições 294
Palavras 5.111
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 32 - Capitulo 32 - Eu desisto


Era como se eu estivesse sonhando. Eu me sentia leve. Meu corpo estava leve, minha mente também. Minha visão embaçada foi se abrindo e pude identificar um lugar conhecido. Me enchi de paz ao me dar conta de que eu estava no lago de minha propriedade em Hamptons, na casa de verão onde minha família costumava ir nos tempos em que tudo estava bem.

Olhei ao redor e pude ver a vegetação verde sob o balançar da leve brisa de verão. O lago estava calmo e o pequeno barco em que eu estava boiava levemente.

- Eu sempre adorei esse lugar. Me traz paz.

Assustei-me ao ouvir aquela voz que eu não ouvia fazia tempo. Sorri ao encarar a figura sentada à minha frente.

- Pai? – perguntei tentando acreditar que meus olhos não me enganavam.

Ele que olhava para o horizonte se virou para mim com aquele velho sorriso amável no rosto.

- Eu me lembro que você também adorava vir aqui, Abelhinha.

Senti meus olhos molhados e meu sorriso se enlanguesceu. Se aquilo fosse um sonho eu não queria acordar nunca mais.

- Nós adorávamos, pai! Eu contava os dias para que o verão chegasse para virmos pra cá. – eu mal piscava para não perder nenhum momento com ele.

- Sim. – ele sorriu. Seu sorriso era tão calmo, me trazia uma paz inexplicável – Passeávamos de barco por esse lago todos os dias.

- E nós mesmos preparávamos o café da manhã. – me recordei com ele.

- Foi um tempo feliz.

- Foi.

Pausei o admirando enquanto ele sentia a brisa em seus cabelos um pouco grisalhos. Mantinha os olhos fechados, como se há muito tempo não sentisse aquela sensação.

- Por que você teve que ir, pai? – perguntei quebrando o silêncio.

Ele virou o rosto e me fitou com o semblante pacífico, algo que eu não via nos últimos anos de vida dele.

- Porque o meu tempo na terra se encerrou, filha. Tudo o que eu tinha para fazer em vida eu fiz. Encerrei o meu ciclo, então não havia mais motivos para que eu ficasse.

- Havia sim! E eu? Sua família? A empresa? Eu tinha tantas coisas pra te dizer, tantas dúvidas... – abaixei meus olhos sentindo meu coração apertado – Você me deixou à frente da empresa e eu não tinha experiência, você tinha que estar lá pra me ajudar, pai. Tem sido tudo tão difícil sem você. – o encarei novamente.

- Você tem se saído muito bem. Estou orgulhoso. – o sorriso carinhoso não saía de seu rosto um segundo sequer.

- Você deveria estar lá para me dizer o que fazer. Eu não estou sabendo lidar com os problemas.

- Você sabe o que fazer, filha.

- Não, eu não sei!

- Sabe sim. Você só precisa ter calma e seguir o caminho certo. Abra seus olhos , está tudo bem na sua frente. Ver e enxergar são duas coisas diferentes. Aprenda a enxergar e todas as respostas virão.

- Eu não queria ter que fazer tudo isso sozinha. Se você estivesse comigo tudo seria tão mais fácil.

- Você não está sozinha, Abelhinha. Você está cercada de pessoas que querem o seu mal, mas acredite, há alguns que só querem o seu bem. E mesmo que você não os veja, quando você mais precisar eles estarão sempre lá para te apoiar.

- Isso não é justo. – suspirei – Seja lá onde eu estou, eu não quero mais voltar. Estou me sentindo tão bem aqui, como há muito tempo eu não me sentia. – o encarei sorrindo – Posso ficar aqui com você?

- Oh, não, querida. – ele disse aos risos como quando eu era criança e dizia alguma bobagem – Você ainda tem muito o que fazer lá. Ainda não está na hora.

- Posso ficar só mais um pouquinho?

- É claro. – ele disse estendendo uma mão para que eu me aproximasse.

Avancei até ele e o abracei. Mantive meus olhos fechados enquanto o apertava como se fosse a última vez, como se aquilo pudesse o impedir de ir embora de novo. Senti os seus braços me envolverem e relaxei sentindo o aconchego do seu abraço.

- Eu não pude cuidar de você por mais tempo, mas saiba que você tem anjos lá fazendo isso por mim.

Senti suas mãos afagarem meus cabelos e foi como entrar em estado de nirvana. Nada mais existia além de nós dois ali, em paz, plenitude. Só eu e a pessoa que eu mais amei e amo em toda a minha vida.

- Eu te amo, pai.

- Eu te amo, filha.

 

Foi como dormir dentro de um sonho. Dormi no abraço do meu pai e acordei de volta à realidade. Meus olhos ainda estavam fechados, mas eu podia sentir tudo ao meu redor. Aquela sensação plena de paz havia ido embora, mas eu me sentia bem mais leve do que antes.

Ainda sinto mãos afagando os meus cabelos, mas não consigo abrir os olhos para ver quem é. Ouço ruídos e barulhos vindos lá de fora. Sinto um cheiro de álcool, desinfetante e anti-séptico invadindo minhas narinas. Ainda sem conseguir abrir os olhos, comecei a focar em meus outros sentidos. Agora ouço um barulho como um bip que soa de maneira sincronizada. Eu reconheço todos esses indícios. Estou em um hospital?!

Comecei a entrar em desespero tentando a todo custo reagir de alguma forma. Meu corpo parece estar morto, mas minha consciência mais viva do que nunca. Os barulhos do bip ficam mais acelerados e tudo o que eu quero é abrir os olhos e saber o que está acontecendo.

Sinto a mão que afagava meus cabelos se afastar e logo tocar a minha mão. Um simples e leve aperto foi suficiente para que eu começasse a me tranquilizar. Logo em seguida lábios macios e úmidos tocaram a minha testa e nesse momento eu pude sentir um perfume adocicado tomar conta do ambiente. Isso foi o suficiente para me acalmar.

Eu não sabia quem estava ali ou o que era aquela sensação, só sabia que era muito bom sentir.

- Vai ficar tudo bem, meu amor. Eu estou aqui. – essa voz doce eu conheço – Me perdoa por ter sido tão estúpida com você. Eu tive medo. E deixei esse medo ser maior do que o que eu sinto por você. – sim, era ela– Mas eu não vou deixar mais. Seja o que for que tivermos que enfrentar, estaremos juntas. Eu nunca mais vou te deixar, nunca mais!

A ouvi fungar algumas vezes. Ela estava chorando.

Será que eu estou tão mal assim? Eu me sinto bem. Mas ela não precisa saber, posso deixar que ela sofra um pouquinho, não posso?

- Eu menti sobre os meus sentimentos por você. – ela sussurrava em meio ao choro – Menti pra te proteger porque eu estava cega pelo medo. Mas agora eu não vou deixar que nada mais separe a gente. Eu vou ser sua pra sempre, Lexa  e você minha!

Nossa, está bem, isso foi... Lindo! Talvez eu esteja sensível demais por conta dos últimos acontecimentos. Ou talvez seja simplesmente o efeito que ela tem sobre mim. Eu não sei, só sei que agora meu coração está palpitando de felicidade.

- Fica bem logo, por favor? Eu não agüento mais dormir abraçada ao Senhor Fofinho desejando que fosse você.

Ainda bem que meu corpo não reage aos meus comandos se não eu teria que me esforçar para não rir. Foi bonitinho ouvir isso, mas também foi engraçado.

- Eu pensei que me afastar fosse o melhor para proteger você, mas eu percebi que não. Você não esteve sozinha todo esse tempo, eu estive te guardando de longe, mas você não sabia disso. Pensou que não tinha ninguém. Eu fui burra! – a ouvi soluçar.

Do que é que ela estava falando? Me proteger de que? Preciso ter uma conversa com ela depois que eu acordar. Será que vai demorar muito pra eu conseguir abrir os olhos?

- Esse acidente serviu para que eu entendesse que eu não posso e nem devo ficar longe de você. A idéia de te perder foi desesperadora! Eu percebi que eu não consigo mais viver num mundo onde você não existe. Eu te amo, Lexa. Eu te amo muito!

Meu coração acelerou num nível absurdo. Ouvir essas palavras de Clarke foi como sentir uma injeção de adrenalina em meu peito. Respirei fundo como se eu buscasse a vida pelo ar e fui invadida por um sentimento que ela preencheu.

Abri meus olhos vagarosamente, sentindo a claridade do sol que entrava pelas janelas me ofuscar. Pisquei algumas vezes e pude ver ela ali, me olhando com surpresa e ternura. Aqueles grandes olhos azuis me observavam atentamente enquanto eu tentava me manter consciente. Um largo sorriso invadiu seus lábios e eu me encantei com a visão. Ela era realmente linda. Se os anjos existem como o meu pai disse, Clarke com certeza é um.

- Oi. – ela disse com os olhos cheios de lágrimas.

- Oi. – minha voz saiu mais rouca que o normal.

- Como se sente?

- Como se um caminhão tivesse passado por cima de mim. – brinquei.

O sorriso em seus lábios sumiu e uma feição preocupada tomou conta do seu rosto.

- Eu vou chamar o médico e dizer que você acordou.

- Não! – eu disse mais alto do que deveria – Não me deixe aqui sozinha. – pedi sem jeito – É que eu não gosto muito de hospitais.

Ela assentiu sem se soltar da minha mão.

- Vou esperar até que alguma enfermeira venha então. – eu sorri em agradecimento.

- O que aconteceu? Não me lembro de como cheguei aqui, talvez eu tenha bebido demais. – acho que estou tão nervosa ao ponto de fazer piadas para quebrar aquele clima ruim. Eu definitivamente detesto hospitais. Não tenho lembranças agradáveis deles.

- Você... Você sofreu um acidente. – ela parecia mais nervosa do que eu – De carro.

Arregalei meus olhos surpresa. Flashes de memória começaram a piscar em minha mente. A última coisa que me lembro é de ter saído da empresa surtada. Eu não deveria ter dirigido.

- Há quanto tempo eu estou aqui?

- Quase dois dias.

- Humm... Eu dormi bastante.

- Parece que sim. – ela sorriu sem humor.

- E foi muito grave? Pela sua cara parece que estou em coma há um mês! O que foi? Eu estou inválida é isso? Eu perdi alguma parte importante do meu corpo? – comecei a me desesperar.

- Não, não! – ela me tranqüilizou – O médico disse que você está bem. Você teve muita sorte de não ter se machucado tanto.

Soltei o ar aliviada.

- Parece que você avançou o sinal vermelho e um caminhão bateu no seu carro. – ela me encarou preocupada – Você foi arrastada por alguns metros e bateu em outro carro. Mas por sorte, ou milagre, não aconteceu nada de grave. Só alguns arranhões pelo corpo e uma pancada na cabeça. O Doutor Kane disse que você vai ficar bem logo.

Eu fiquei em silêncio por alguns minutos tentando assimilar tudo aquilo quando ouvi a porta do quarto ser aberta.

- Ah, você acordou! – um senhor de jaleco branco se aproximou com um sorriso reconfortante no rosto – Isso é ótimo, está se recuperando muito bem.

Eu sorri fraco para ele. Esse deve ser o Doutor que a Clarke falou.

- Eu sou o Doutor Kane, Srta. Alexandra. Futuro padrasto da Clarke. – ele a fitou rapidamente e voltou-se para mim – Como se sente?

- Bem. Só um pouco dolorida. E minha cabeça dói e está um pouco pesada também.

- Não se preocupe, isso é normal. Você levou uma pancada forte, por sorte não aconteceu nada mais grave. Você deve ter um anjo da guarda bem eficiente.

- Acho que sim. – concordei e um sorriso se formou em meus lábios ao me lembrar do meu pai.

- Bem, Alexandra, – ele disse pegando uma prancheta ao lado da cama e a analisando – os seus exames iniciais não acusaram nada grave. Como eu disse foram só alguns arranhões. Você ficou desacordada por quase dois dias, mas essa é uma resposta natural do corpo. A pancada foi realmente forte. O monitoramento indica que está tudo bem com você. Mais tarde faremos novos exames, apenas por precaução, está bem?

- Sim. – assenti – E quando eu vou poder sair daqui? – já estava impaciente para ir embora dali.

- Se os seus exames tiverem um resultado positivo, amanhã mesmo lhe darei alta.

- Amanhã? Eu não posso ficar aqui até amanhã, eu preciso voltar para a empresa, tenho muitas coisas pra resolver e...

- Acalme-se, Srta. Woods, não precisa ter pressa. Veja bem, você receber alta médica não significa que estará liberada para retornar às suas atividades rotineiras. Eu sugiro que mantenha repouso por pelo menos uma semana. Seu corpo precisa se recuperar por completo. Mesmo que não tenha sofrido nada demais, digamos que você está machucada por dentro.

- Doutor, o senhor não está entendendo! – eu já estava alterada – Eu não posso deixar a minha empresa sozinha por uma semana!

- Eu tenho certeza que os seus funcionários cuidarão muito bem de tudo até você retornar. – a tranqüilidade dele estava me irritando – Uma semana de folga lhe fará bem. Pelo que eu soube, uma das causas desse acidente foi o forte estresse que tem passado por causa do trabalho.

- Eu aprendi a lidar com isso. Posso muito bem voltar a trabalhar amanhã mesmo. – cruzei os braços e disse mal humorada.

- Eu não duvido que possa. – ele sorriu pacientemente. Alguém manda esse cara parar de sorrir, por favor! – Você pode, mas não deve. Eu estou aqui para cuidar da sua saúde e como médico responsável por você, vou prescrever uma semana de repouso. E eu estarei de olho em você, Srta. Vejo que a Clarke é uma grande amiga e gosta muito de você, ela não saiu do seu lado um minuto sequer desde que você chegou ao quarto. Sendo assim, eu a deixarei responsável para cuidar que você não quebre o repouso e se cuide até estar totalmente recuperada. Ela será minha informante, tudo bem, Clarke? – ele fitou a loira que assentiu prontamente.

Eu nada disse, apenas concordei com a cabeça. Mas se eles pensam que irão me prender em casa por uma semana estão muito enganados.

Assim que o médico saiu Ivone entrou no quarto para me visitar.

- Menina Lexa! – ela se aproximou com um sorriso aliviado – Que bom que acordou.

- Ainda não foi dessa vez que você se livrou de mim, Ivone.

- Por Deus, não diga uma coisa dessas Srta.!

Eu a fitei achando graça de sua preocupação. A verdade é que eu tenho um grande carinho pela Ivone. Posso dizer que ela é a minha única família nessa vida, já que trabalha em minha família desde antes de eu nascer.

- Eu vou sair para comer alguma coisa enquanto a Ivone está aqui. – Clarke nos interrompeu.

- Ah, o Bellamy está na lanchonete do hospital. Pediu para que você fosse até ele, Srta. Clarke.

- Sim, obrigada, Ivone. – a loira assentiu e saiu nos deixando a sós.

- O que o Bellamy quer com a Clarke, Ivone? – perguntei intrigada.

- Eu não sei, Srta. Talvez queira saber como você está.

Encarei a mulher à minha frente com certa desconfiança. Que assunto que a Clarke e o Bellamy têm? Eles eram tão amigos assim e eu não sabia? Estranho...

 

***

 

Enfim eu recebi alta e já estou chegando em casa. Meus exames indicaram que eu estou relativamente bem, considerando a gravidade do acidente que sofri. No momento eu estou mais preocupada com o meu carro, que teve perda total. Eu gostava tanto dele.

Clarke não saiu do meu lado um minuto sequer. Acompanhou os últimos procedimentos no hospital e agora está ao meu lado no carro, junto de Bellamy que parece ter se esquecido como se acelera um carro. Ele deve estar achando que ainda estou com algum tipo de trauma do acidente. Se eu me lembrasse do momento em que aconteceu, talvez eu estivesse traumatizada mesmo.

Fui recebida em casa por quase todos os funcionários. Até flores ganhei. Abraços e mais abraços carinhosos. Eu poderia viver cercada por pessoas assim. Minha vida com certeza seria muito melhor.

A única coisa que está me incomodando é o fato de estarem me tratando como se eu fosse um bebê recém nascido ou uma inválida. Cheios de cuidados excessivos como se eu não soubesse mais me virar sozinha. Fiz isso a vida toda, não é um simples acidente que vai mudar isso.

- Ivone. – a chamei já sem paciência – Ivone, já está bom! Eu só preciso de um travesseiro aqui e ele está muito bem macio, obrigada.

- Está confortável? Quer mais um cobertor? Posso pegar...

- Ivone! Eu estou ótima, está bem? Só estou aqui porque fui obrigada pelo Doutor.

- Sim, Srta. Qualquer coisa que precise me chame. Eu estarei à disposição. Já tomou seus remédios? A Clarke me disse que...

- Ivone... – suspirei revirando os olhos.

- Está bem. Eu estarei lá embaixo cuidando dos preparativos para o almoço.

- Sim. Pode cuidar dos seus afazeres normalmente. Qualquer coisa eu te chamo, obrigada. – disse por fim vendo a senhora sair pela porta do meu quarto.

Clarke me fitava enquanto eu me ajeitava em minha cama. Me observava preocupada, como se estivesse se segurando para não ir me ajudar.

- Pare com isso. – eu disse quebrando o silêncio.

- Isso o que?

- Pare de me olhar assim como se eu fosse feita de vidro, correndo o risco de me quebrar a qualquer momento.

- Me desculpe. – ela abaixou as vistas – Quero que fique bem logo.

- Eu já estou bem, Clarke. Esses sete dias de repouso são desnecessários.

- O Doutor Kane recomendou e eu prometi que cuidaria para que você cumprisse o repouso.

- Por que está fazendo isso? – a encarei séria – Por que está aqui cuidando de mim, me tratando como se eu fosse um ente querido da sua família?

- Porque você é importante pra mim. Porque eu gosto de você e quero cuidar para que fique bem logo.

Será que se eu ainda estivesse dormindo você diria que é porque me ama? Eu juro que tento te entender, Clarke, mas sinceramente eu não consigo.

- Você não precisa fazer isso, não tem obrigação nenhuma comigo. Eu não quero ser a culpada por você estar perdendo um dia de trabalho.

- Não se trata disso, Lexa. – ela se aproximou e sentou-se aos meus pés, na beira da cama – Não se trata de ter ou não obrigação, até porque eu estou aqui por vontade própria e não por obrigação.

- Pra que? Nem amigas nós somos. Você some, se afasta, diz que não quer nada comigo e agora vem cuidar de mim como se tivéssemos algum laço que nos une.

Ela suspirou fundo e se levantou da cama passando as mãos pelos cabelos em nervosismo.

- Eu não vou discutir com você agora. Você precisa descansar.

- Eu não tenho feito outra coisa a não ser descansar. Já estou bem descansada, dormir por dois dias seguidos fez muito bem pra mim, não preciso descansar.

- O repouso é para a sua recuperação ser mais rápida. Você ouviu o Doutor Kane.

- O seu futuro padrasto?

- Sim, ele é uma ótima pessoa.

- Me pareceu ser mesmo. Fico feliz pela sua mãe.

- Obrigada.

- Quem é ela? – perguntei após algum tempo de silêncio.

- Ela quem? – ela se aproximou novamente parecendo confusa.

- A mulher elegante que estava com você no Peppe’s aquele dia.

Senti o nervosismo em seus olhos. Com certeza ela tinha algo com aquela loira sem graça. Sou muito mais eu.

- Ela é uma amiga.

- Uma amiga? O jeito que ela te olhava não era um olhar de amiga.

- Ela é só uma amiga, não mais que isso, Lexa. Assim como você tem várias mulheres interessantíssimas como amigas, eu também tenho.

- É claro que tem. Eu não sei nem por que estou te perguntando isso. Você não é nada minha, não me deve explicações. Me desculpe pela indiscrição. – a fitei com um sorriso cínico no rosto e a vi bufar irritada.

Confesso que adoro essa minha capacidade de irritar as pessoas. Perturbar mentalmente alguém pode ser um passatempo muito divertido.

- Eu vou entregar para a Ivone a lista com as prescrições médicas que o Doutor Kane receitou. – ela disse se encaminhando para a porta – Os remédios, as quantidades e os horários. Eu já volto.

A observei sair sem nada dizer. Me recostei na cabeceira de minha cama, tentando pensar no que eu faria nos próximos dias para me distrair. Eu me sinto bem, tirando o peso em minha cabeça que ainda incomoda e o corpo um pouco dolorido, eu estou ótima. Vai ser difícil ficar aqui sem fazer nada, ainda mais sabendo do que se passa dentro da empresa.

Peguei meu celular no criado mudo ao lado da cama e rapidamente disquei para a recepção da empresa. Eu preciso saber o que está acontecendo por lá.

- Recepção da Wood’s Corporation, bom dia! – a voz do outro lado da linha ecoou.

- Bom dia, Jasper.

- Srta. Woods?

- Sim. Como vai?

- Ah... Bem, Srta. A Srta. já está melhor? Pensei que estivesse no hospital. – Jasper sempre parecia ligeiramente nervoso quando falava comigo. Era engraçado.

- Eu estou ótima, Jasper. Já estou em casa.

- Oh, isso é muito bom! Fico feliz pela senhora.

- Obrigada. Mas agora eu preciso de um favor.

- O que precisar, estou à sua disposição.

- Preciso que me arranje o número do celular da Lucy.

- Sim, senhora. Só um instante.

Aguardei por alguns instantes e logo o jovem me respondeu, me passando o número da minha secretária.

- Obrigada, Jasper.

- Disponha, Srta. Deseja mais alguma coisa?

- Sim. Não diga a ninguém que eu te liguei e que já estou recuperada. Eu ficarei afastada da empresa durante essa semana, mas pretendo acompanhar tudo o que está acontecendo por aí, sigilosamente.

- Perfeitamente, Srta. Ninguém saberá, fique tranquila.

- Obrigada, Jasper. É bom saber que sempre posso contar com você.

- Eu agradeço pela confiança, Srta.

- Ótimo. Tenha um bom dia.

- Obrigado. Desejo melhoras.

- Obrigada. – eu disse por fim finalizando a ligação.

Desliguei a chamada com Jasper e em seguida disquei para o celular de Lucy. Eu preciso saber como andam as coisas por lá. Mesmo que eu só esteja ficado fora da empresa por essa manhã, não posso facilitar as coisas com o Finn por perto.

- Bom dia, Lucy. Aqui é a Alexandra.

- Srta. Woods? – ela disse parecendo surpresa.

Será que esse acidente foi tão grave assim? Todos estavam pensando que eu estou com o pé na cova?!

- Sim, sou eu. E estou ótima, já medicada e em casa. Ainda não foi dessa vez que eu parti. Mais alguma dúvida?

- Não, Srta.

- Ótimo. Preciso saber como estão as coisas por aí. O que estão aprontando na minha ausência?

- Ah... Bem... – ela gaguejou. Mal sinal – Por aqui está tudo certo, Srta. Tudo aparentemente nos conformes.

- Aparentemente? – não estou gostando disso – O Finn por algum acaso apareceu aí em minha sala alguma vez? Você não deixou ele entrar, não é Lucy?!

- Bem, Srta., é que... O senhor Finn, ele...

- Fala de uma vez, criatura!

- O senhor Finn assumiu o seu lugar na Presidência.

- O que? Ele não pode fazer isso! Com que direito ele assumiu essa posição?

- Parece que ele informou ao Conselho que a Srta. estava acidentada e internada e que não tinha previsão para voltar à empresa e por isso ele assumiria durante a sua ausência.

- Filho de uma ... – respirei fundo. Minha mãe não merecia isso – Lucy, não diga a ninguém que conversamos. Finja que ainda pensa que eu estou internada à beira da morte no hospital, já que é isso que o meu querido irmão quer que todos pensem.

- Sim, Srta. Pode deixar.

- Fique de olho em tudo o que acontecer e me mantenha informada. Eu vou voltar antes do que todos imaginam.

Desliguei sem nem esperar uma resposta de Lucy. Me levantei rapidamente e fui até o guarda roupas buscar uma roupa adequada. Eu vou para a empresa agora mesmo!

Assim que cheguei à porta do móvel senti tudo rodar. Minhas pernas se enfraqueceram e eu tive que me apoiar para não cair. Fechei os olhos e comecei a respirar fundo para não perder os sentidos e no mesmo instante vi Clarke adentrar o meu quarto e correr até mim. Tudo parecia acontecer em câmera lenta. A voz de Clarke soava ao longe, mas minha visão turva não me impediu de ver o seu rosto aflito enquanto ela segurava o meu corpo, me impedindo de cair. O seu rosto delicado e angelical foi a última coisa que vi.

 

- Pai! – eu gritava por socorro enquanto sentia meu corpo afundando naquele lago de águas escuras – Pai! Me ajuda! Onde você está?

O fôlego me faltava cada vez que eu subia à superfície para gritar.

- Pai, cadê você?!

Eu gritava em desespero, mas não tinha resposta. Eu sentia meu corpo sendo puxado cada vez mais fundo para a escuridão. Eu sabia nadar, mas algo me puxava para baixo. Algo me impedia de subir. Me sentia cada vez mais sem forças e sem ânimo para tentar me manter viva. Meu pai não me ouvia. Ele não estava ali como da primeira vez. Ele se foi.

Deixei meu corpo afundar sem relutar. Eu não queria mais tentar, eu havia chegado ao meu limite. Meu pai não estava mais ali para me ajudar. Eu via a luz da superfície se distanciando cada vez mais enquanto me lembrava de tudo o que ele havia me dito. Recordando as suas doces palavras tentando me reconfortar. 

“Você tem se saído muito bem. Estou orgulhoso.”

“Você sabe o que fazer, filha. Sabe sim. Você só precisa ter calma e seguir o caminho certo. Abra seus olhos, está tudo bem na sua frente. Ver e enxergar são duas coisas diferentes. Aprenda a enxergar e todas as respostas virão.”

“Você não está sozinha, Abelhinha.”

“Eu não pude cuidar de você por mais tempo, mas saiba que você tem anjos lá fazendo isso por mim.”

Nesse momento eu senti meus braços sendo puxados para a superfície do lago. Puxei o ar com toda a força que havia em meus pulmões. Senti meu corpo ser carregado até a margem por uma sombra que a luz do sol não me deixava ver quem era.

- Lexa! – aquela voz doce novamente – Lexa, acorda, por favor!

Suas mãos delicadas estavam em meu rosto molhado, me fazendo um carinho que só me dava mais vontade de dormir.

- Lexa, acorda, meu amor. Por favor, não faz isso comigo de novo?!

Seu rosto se aproximou e eu já podia sentir sua respiração próxima. Eu tentava enxergar, mas minha visão estava embaçada demais para identificar quem era.

- Não me deixa, meu amor, não me deixa!

O sussurro dela e seus carinhos me faziam querer acordar para ver quem estava ali. Era tão bom a ouvir, a sentir.

Aos poucos fui recobrando os meus sentidos e meus olhos puderam enxergar o rosto do anjo que me trouxe de volta à realidade novamente. Era ela. Ela ainda estava ali por mim.

- Graças a Deus! – ela suspirou aliviada sem deixar de me olhar, me analisando – Você está bem? Vou chamar o Doutor Kane.

- Não precisa. – eu disse me sentando na cama com dificuldade – Eu estou bem. Foi só uma tontura, acho que me levantei rápido demais.

- Você precisa ter mais cuidado, ainda está se recuperando. – ela repreendeu.

- Que seja. – eu disse fazendo menção em me levantar – Agora eu preciso sair.

- Sair? Você não pode, Lexa! – ela segurou meus braços tentando me manter na cama.

- E quem é você pra me impedir, Clarke? Eu vou sair sim! Eu preciso ir até a empresa, o Finn mal esperou que a minha cadeira esfriasse e já tomou o meu lugar.

- O que? Quem te disse isso?

- Eu liguei pra lá e descobri. Agora me dá licença, eu preciso encontrar uma roupa decente e ir tomar conta do que é meu.

- Lexa, se acalma. Você não pode sair assim, agitada desse jeito.

- Clarke, eu já disse que não precisa se preocupar comigo. Você não é nada minha e eu não sou nada pra você. A quem você quer enganar? O que é que você quer fazendo isso por mim?! – esbravejei e me levantei já totalmente irritada.

- Eu quero você! – ela gritou e eu pude ver em seu rosto que se arrependeu logo em seguida – Será que você não entende isso? Eu quero você, Lexa.

- Não, eu não entendo! Eu não consigo entender você, Clarke! Quantas oportunidades nós tivemos, quantas chances de me ter você teve! Foram muitas e você jogou todas elas fora. Agiu como se não desse a mínima pra mim e agora vem aqui e me trata como se nada tivesse acontecido.

- Eu tive motivos, Lexa. Não foi em vão. Você não sabe o quanto me doeu ter que ficar longe de você. – as lágrimas já escorriam pelo seu rosto incontrolavelmente.

- Eu não sei e não quero saber, Clarke! Eu não quero me encher de esperanças a cada vez que você aparece e me decepcionar depois vendo você ir embora e sumir como se não me conhecesse! Eu cansei disso. Volta pra sua amiga, fique com ela e esqueça que eu existo.

- Não! Eu não posso, eu não quero! Eu quero você, Lexa.

- Mas eu não quero mais! Eu desisto de você, Clarke. Eu... eu desisto.

O nó em minha garganta me sufocava, mas eu tinha que ser forte. Eu não quero sofrer mais uma vez. Minha cabeça latejava tão forte que parecia que iria explodir a qualquer momento. Clarke me encarava com um misto de surpresa e desespero no olhar e eu confesso que aquilo estava me matando por dentro.

- Eu não vou desistir de você, Lexa. – ela disse num fio de voz – Eu te amo! Eu te amo e vou te provar isso. Mesmo que isso me custe a própria vida.

A vi sair pela porta tentando conter seu choro que ecoava em meus ouvidos e aos poucos foi se distanciando.  Me deixei cair sobre a cama novamente e levei as mãos ao rosto já lavado pelas lágrimas que insistiam em cair.

- Me prove, Clarke. – sussurrei à mim mesma – Me prove que ainda vale a pena insistir.

 

 

 



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