História Infernal - Capítulo 30


Escrita por: ~

Postado
Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Amor, Anjos, Apocalipse, Casamento, Deathfic, Demonios, Deus, Diabo, Drama, Família, Ficção, Humanos, Inferno, Jornada, Mitologia Cristã, Morte, Paraiso, Pecado, Política, Religião, Revelaçoes, Romance, Tensão, Vida
Exibições 15
Palavras 3.875
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Artes Marciais, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Ficção, Hentai, Magia, Misticismo, Romance e Novela, Sobrenatural, Terror e Horror, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Canibalismo, Cross-dresser, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Suicídio, Tortura, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Olá, nenéns! Como vai a vida? Espero que bem! Gostaria de agradecer às pessoas maravilhosas que têm comentado, amo muito vocês! Eu poderia falar muito aqui, mas tenho me sentido um pouco antissocial esses dias, então vou deixá-los ler em paz...

Capítulo 30 - Capítulo 15 - Ódio (parte 2)


Fanfic / Fanfiction Infernal - Capítulo 30 - Capítulo 15 - Ódio (parte 2)

A crueldade é um dos prazeres mais antigos da humanidade.

- Friedrich Nietzsch

 

Os dias se estendiam com letargia, cada um em infinitas horas que, tinha entendido depois, realmente ultrapassavam as vinte e quatro horas habituais. Aaron tinha passado muito de seu tempo evitando Eve, oficialmente fazendo do corredor sua posição fixa, sem nunca entrar no quarto onde ela dormia. Quando saía, ele se permitia momentos inteiros enterrado na cama ou tocando as paredes do banheiro, porque o cheiro dela se impregnava em cada centímetro daquele lugar.

Não ia cair, não ia se permitir enganar. Eve não o queria daquela maneira pelos motivos certos, apenas pela influência de Asmodeus e suas crianças. Estaria tímida, teria uma vergonha não arrependida de seus atos tão promíscuos se pudesse pensar direito. Não seria certo fazer o que ela lhe pedia, não enquanto não tivesse certeza, não enquanto não fosse completamente ela.

Estava no quarto agora, simplesmente ligado aos detalhes esculpidos na madeira que formava o rodapé do cômodo. Os padrões eram trançados e perfeitos ao se sobrepor daquela forma. Já tinha decorado cada canto, as imagens e formas e cada substância ali estavam gravadas em sua mente graças a sua torturante rotina.

Estava no quarto há quinze minutos, e ela retornaria no fim daquela hora.

Não via Harris há certo tempo. Ele simplesmente sumiu, deixando uma cama desarrumada e seu uniforme de Guarda para trás. Dois dias depois de descobrir sobre Harris, Aaron foi atrás de Taume para relatar o sumiço do outro invejoso, e o quarto dela também estava vazio. Com toda a sorte, viu sua sombra descendo o corredor com dois homens e uma mulher sorridentes, os mesmos de seu primeiro dia ali.

— Taume! — Tinha chamado, vendo-a girar e olhá-lo por um momento antes de ser levada pelo grupo luxurioso. Sua dinamicidade explícita numa conversação que parecia esquecê-lo.

Aaron tinha se apressado para alcançá-los, puxando o ombro da irada e mirando fundo em seus olhos. Percebeu que estavam cobertos, como se com indícios de uma catarata, por uma fina camada que mais parecia luz alaranjada. Taume estava sorrindo e o abraçou apertado.

— Aaron, que saudade, amigo! — Disse, se afastando. — Esses são Dustin, Siena e Miguel. Gente, esse o Aaron.

O rosto de Aaron não se contorceu como queria, nem palavras deixaram sua boca para questionar naquele instante. Contudo, a falta dessas ações não anularia a sua percepção da forma estranha como a irada agia, com um sorriso mais aberto do que nunca e uma ação letárgica e sempre móvel, como se fosse impossível fixar-se em apenas um lugar.

Talvez Taume não notasse, mas o invejoso via as posturas ameaçadoras dos três. Via suas mãos tomando os ombros e os braços da irada para afastá-la de Aaron. E, quando deu um passo à frente, em sua plena intenção de acordar a garota de seu transe, eles a puxaram ainda mais atrás. Se aquilo não era suspeito, não sabia dizer o que seria.

— Luxúria não é o melhor Pecado? — Perguntou ela. — Tudo aqui é maravilhoso.

Seu corpo se inclinava para trás, entregando-se aos luxuriosos. Um deles beijou seu ombro, a outra abraçou sua cintura enquanto o último sorria sua vitória. Aaron se afastou, confuso com aquele comportamento, pois agora eles também se mostravam diferentes, agressivos e defensivos com Taume. Com sua presa.

— Irada, onde está Harris? E para onde você está indo?

— Ei! Você não pode saber disso ainda — Riu ao falar alto. — Asmodeus disse que você e Eve ainda têm que fazer algumas coisas antes disso. — E pôs-se a sussurrar então: — Aconselho que o façam. É muito bom.

Aaron tinha sorrido forçado enquanto se afastava, vendo Taume ser levada por Inferiores silenciosos e fatais, querendo ser levada. Não podia fazer coisa alguma por ela, não agora. Mas precisava saber aonde ia e saber se Harris também estava lá, precisava convencer Eve a sair daquele lugar. Precisava tirar todos dali.

Então os seguiu, vendo seus corpos dobrando cada esquina e seguindo cada metro com vastidão. Num corredor, o mais longo deles, Aaron escondeu-se atrás da parede mais próxima para que a luxuriosa, a mais desconfiada, não o visse segui-los. Contou até dez, ouvindo os passos se afastando, mas, quando voltou ao corredor, este parecia três vezes menor e, ao tomar a única passagem que poderia, viu apenas um beco sem saída.

A confusão se espalhava em sua mente juntamente à raiva e, em um momento de reflexão, Aaron viu as paredes em seu singelo movimento, fechando seus caminhos para o invejoso e não lhe dando escolha a não ser voltar ao quarto que lhe fora dado pelo Quinto. Seu punho encontrou o concreto que o limitava num soco, o dedo mínimo tremendo por uma insignificante dor que lhe ajudava a superar a frustração.

O sorriso de Asmodeus aumentava a cada dia de agonia que Aaron passava.

Isolado e confuso, num Pecado perigoso como o veneno mais doce e doentio. Estava prestes a explodir e sentia a observação pesada dos luxuriosos reprimi-lo toda vez que se negava a se juntar a eles. A tensão da solidão e a perseguição e a culpa por deixar sua Protegida tão sozinha quanto si mesmo, ignorando-a por seu próprio bem. Bem este que não parecia compreender.

Deveria estar sozinho. Era o que todos diziam.

Não estava.

— Aaron! — A voz de Eve ecoou pelo corredor. Parecia distante, mas, quando ele se virou, estava até um tanto próxima. Na soleira da porta.

— Eve? O que está fazendo aqui? Devia estar aprendendo a Iludir…

Eve o estava beijando. Os lábios dela sobre os lábios dele, as mãos em seu rosto, puxando-o para baixo de forma tão diferente. Sem pensar, ele a agarrava pela cintura e a beijava de volta, sentindo-se pressionado contra a parede pela pequena garota que, aparentemente, era muito forte. Aaron simplesmente se esqueceu de onde estava e de tudo o que o fazia ter dor de cabeça — de Harris, de Taume, de Asmodeus, de Ian.

Porque as pontas das longas unhas que o arranharam e o gosto em sua boca — como uvas — eram novos; a ousadia que ele nunca pensou que viria da parte dela, mesmo sob o efeito de Luxúria. Era bom senti-la tão perto depois de tanto tempo sozinho, mas não era a mesma coisa. Era angustiante não poder ignorar seus temores, mas tinha algo errado, e ia além do que imaginava.

Então ele a afastou por mais de um instante. Queria dizer que não, que não era certo e que devia parar, mas ela se empurrou novamente nele e Aaron teve que a segurar firmemente para que não se mexesse enquanto sorria tão debilmente. Os olhos com pálpebras pesadas e o corpo se movendo lento em uma música inaudível. Lembrava Taume, horas antes quando a viu no corredor. Lembrava Harris, dias antes quando chegaram.

Ele franziu o cenho quase que imediatamente e observou-a bem por alguns segundos. Eve parecia irritada em um instante, contudo isso logo sumiu, como se nunca houvesse pintado seus olhos. Olhos estranhos e turvos. Estava bêbada? Drogada? Não entendia aquelas reações de seu corpo, aquelas emoções em seu rosto, aquelas palavras escapando por sua boca.

— Aaron — Sussurrou. Sua voz estava estranha, rouca e falhada. Como se estivesse prestes a chorar. — Por favor, me beije. — Pediu baixinho beijando a palma de sua mão e ele teve que se segurar para não fazer o que seu rosto pedia. Somente puxou sua mão de volta antes que ela pudesse deixar a palma e subir até sua boca.

— Eve, o que… — Ela se inclinou mais uma vez e mais uma vez o beijou. Qual o problema dela?! Ele lhe deu um empurrão e ela se chocou contra a parede do corredor, porque o quarto já parecia tê-los expulsado.

Um gemido de dor escapou baixinho de seus lábios e ele, inexplicavelmente, não quis ajudá-la como o fez em toda sua vida quando a via machucada. O rosto dela virado para os pés, a parte inferior das costas na parede para que a superior se inclinasse, ela parecia prestes a se encolher, como um feto, de encontro a uma porta desconhecida.

— E-eu fiz algo de errado? — A voz… realmente estava estranha. Um estranho familiar, cada vez mais familiar. — Por-Por que você não me quer, Aaron?

O rosto dela se ergueu, os olhos marejados e verdes. Não era Eve quem correra até ele, que o beijara e que implorara para que ele a beijasse de volta. Claro que não. Se sentia até um tanto idiota por não ter notado antes: o modo de agir, a voz, o gosto de sua boca, suas expressões e a forma como ele mesmo não se sentira naturalmente propenso a protegê-la quando sentiu dor.

Ele passou uma mão pelo rosto e andou de um lado para o outro em inconsciência. Agora que sentia um pouco mais de razão em si podia imaginar tudo de imbecil que fizera nos últimos minutos. O Primeiro. Maldição. O próprio Primeiro tinha dito a quem quisesse ouvir que Aaron devia ser mantido longe de Eve. O invejoso nem mesmo devia estar ali com ela, devia estar apodrecendo em uma cela do Oitavo Círculo, a mando do Diabo em pessoa.

Ele sabia que o único Mestre que não ia contra sua relação com Eve era Asmodeus, e somente porque o bastardo queria que ambos cedessem aos seus comandos. Sabia também que nem todos dentro de um Pecado são mais leais ao Mestre do que ao Conselho dos Oito. E se alguém tivesse visto a suposta princesa com ele?

Já podia sentir as lâminas cortando seu pescoço. Alisou-o, nervoso.

Aaron sentia a mente pulsar enquanto os pensamentos continuavam a correr por seus neurônios. Talvez o sangue correndo tão rápido por sua cabeça quisesse sair, talvez fosse por isso que apertava a ponte do nariz com tanta força, para que não começasse a ter um sangramento nasal repentino.

A garota na parede contrária voltava ao seu estado natural e vê-la somente o deixou mais ansioso. A postura tensa e o cabelo verde escuro escorrendo pelas ombros e peito pequeno demais para as roupas que não mudaram. Pareciam as roupas de Eve, uma calça jeans e um casaco que nela ficaria perfeito, mas em Envya era simplesmente largo demais.

— O que você fez, Envya? — Gritou irritado — Será que não pensa?! Esses mimos de nova Guardiã derreteram o seu cérebro? E se alguém nos visse? O que você acha que fariam com a Eve?

— Eu… Eu só queria ficar com você! — Ela sussurrou quase chorando com o estresse. — E eu não me importo com o que vai acontecer a ela! Só quero que você me queira.

— Então o que você acha que aconteceria a mim se alguém nos visse? Você é louca? Eu poderia ser banido para o Nono Círculo!

As lágrimas tomavam o rosto pálido da Inferior enquanto a chuva de gritos dele se derramava nela. As mãos de Aaron corriam pelo rosto e pelos cabelos, e ele soltava suspiros pesados a cada passo quando não sabia mais o que falar. Vez ou outra ele a encarava com uma raiva latente, porque não importava o quão irritado estivesse, não podia passar dos limites.

— Por que você gosta tanto dela? — Perguntou explodindo de ciúmes — O que ela tem de especial? O que eu preciso fazer para você me olhar como olha para ela?

O silêncio se instalou por longos minutos. Ele simplesmente não sabia como responder. Não havia resposta. Não havia nem mesmo verdade nas perguntas, havia? Porque não gostava tanto assim de Eve. Porque ele não via coisa alguma de especial nela. Porque Aaron não olhava para Eve de forma diferente. Não.

Mas por que ter sido Envya ali o decepcionara tanto?

A respiração exacerbada dele ainda não se estabilizara, e não o faria enquanto o medo, o desespero, a consciência tardia e tantas outras emoções o atingiam em peso. No entanto, o som de ar não era descontrolado a ponto de deixar o ambiente menos desconfortável enquanto tentava descobrir o que dizer a ela. Aaron estava horrorizado. Era verdade? Não podia ser verdade.

O que tinha que fazer para que Aaron a amasse? Nada seria suficiente.

— Nada. — Ele respondeu. — Absolutamente nada.

Ele se aproximou dela apressado, rude até, e tomou-lhe a boca entre os dentes, tentando ao máximo beijá-la para sentir como se sentia com um simples toque de Eve. E a outra não o negava, apenas se movia sob ele, não tanto como ela o faria já que Envya era mais alta. As mãos daquela garota tinham pegadas firmes e desesperadas, não era contraditório como ela seria. Era simplesmente certo demais, fácil demais, chato demais.

Então a empurrou mais uma vez. Ela não era o bastante e já sabia disso antes mesmo de tentar. Tinha que ser outra. Outra mais baixa, mais conflituosa e hesitante, mais quente sob suas mãos, mais inocente, mais poderosa, mais viva, mais Eve. Nada seria o bastante se não fosse Eve.

— Aaron… — Ela disse ainda ofegando, seus dedos, esticados na direção dele, tremiam ao tentar tocá-lo.

— Vai embora. Você não serve.

Estática.

Estava tão cansado de lidar com sentimentos como paixão.

Ela se arrastou, tateando as paredes atrás de si, sem nunca soltar seu olhar dele, estupefata e magoada, mas ele não a olhava de volta. Aaron se escorava na porta atrás de si, a maçaneta fria contra sua mão, como se fosse abri-la. Envya foi embora e mais tempo do que ele gostaria pareceu se passar até que Eve voltasse. E ela tinha uma expressão sombria e um sorriso falso enquanto andava até ele, sem encará-lo.

Aaron, de alguma forma, conseguiu ter certeza de que era mesmo Eve daquela vez. E, quando ela o olhou, havia algo por trás de seus olhos que não estava ali antes. E ele poderia perguntar, mas não o fez. Estava confuso demais para pensar naquele instante, então somente abriu a porta e inclinou a cabeça enquanto ela entrava no quarto e o deixava para trás.

A porta fechou sem som, e Aaron deslizou suas costas na lisa pintura salmão até se sentar no chão. O relógio de pulso dizia que a eterna hora terminaria em cinco torturantes minutos. Que era igual a trezentos segundos. Trezentos segundos que Eve teria sozinha num quarto, esperando por ele do outro lado.

Riu, porque talvez não estivesse assim tão cansado…

Aaron encostou sua cabeça na porta, os ouvidos atentos para uma resposta que jamais chegaria se não a chamasse. Queria que Eve saísse, o puxasse para dentro com ela e lavasse de seu corpo tudo aquilo que não fosse dela. Porque o gosto de Envya se impregnava em seus dentes com um amargo ridículo e a ideia de seus toques o deixava cansado e irritadiço. Não era para ser assim.

Chamou-a, baixo, sabendo que acima de tudo deveria continuar lutando. Contudo, ela não respondia. Na verdade, nenhum som era emitido além daquelas paredes, não importava o quanto se esforçasse para ouvir. Silêncio, vazio. Até um baque, alto e surdo como cair. De repente era o medo que vinha traiçoeiro pelos cantos enquanto se levantava apressado, empurrando a porta num estrondo para ver um pequeno corpo despencado próximo à cama.

— Eve — Disse mais uma vez, seus olhos esbugalhados e as mãos girando-a, livrando seu rosto de cabelos para poder ver sua face pálida e inexpressiva além de uma linha fina e escura que escorria de seu nariz e outra, semelhante, fugindo pelo canto de sua boca.

Sangue.

Piscou, diversas vezes. Puxou-a em seus braços, percebendo a cabeça tombar em inconsciência, os braços deslizando sem forças em direção ao chão de onde ele a tirava para deitá-la no colchão. Leves tapinhas em seu rosto deveriam ser o suficiente para acordá-la, certo? Então por que não funcionava? Por que não funcionava?

Aaron lambeu os lábios enquanto buscava toalhas no banheiro para limpar o sangramento que vinha incansável por suas vias respiratórias. Ficava repetindo “Vamos” como se ela pudesse responder de seu sono profundo, sabendo que sua voz seria suficiente para o acalmar por um tempo.

Agonia, agonia e dor e medo porque a tinha visto crescer, porque a tinha protegido por toda sua vida, porque ela era importante, porque a tinha deixado sozinha, porque ela não estava acordando. Não estava! E ele tremia e apressava-se de volta ao corredor, metendo seu corpo para fora ao desatar de gritos em sua garganta:

— Alguém? Ajuda!

Ninguém respondia, mesmo que repetisse suas palavras e batesse em cada porta do corredor e berrasse o mais alto que podia. Ninguém estava disposto ou autorizado a respondê-lo, não quando criava uma inimizade crescente com tantos moradores e até com o líder daquele Pecado. Contudo, não podia parar. Não quando sua Protegida estava sangrando sobre aquele colchão e não acordava e ele não sabia o que fazer. O que fazer?

E, depois de sentir sua garganta falhar, finalmente disse, baixo ao admitir sua derrota por desespero:

— Asmodeus.

E o Demônio veio.

— Que confusão está tramando agora, invejoso?

— Sem tempo. — Cortou-o com rudez. — Eve desmaiou, está sangrando e não acorda.

Asmodeus pôs atrás seu robe enquanto andava apressado de volta aos aposentos onde Eve permanecia desacordada. Seu rosto paralisado como mármore e cortado pelo sangue mais escuro do que deveria estar. Seu corpo imóvel e quase sem respirar com um de seus braços estirados para fora da cama evidenciando as veias azuis aparentes e, se não fosse loucura, diria que estavam mais finas do que o normal. A imagem foi o suficiente para o Quinto perder a paciência.

— O que diabos você fez? — Sussurrou em fúria ao pressionar dois dedos no pescoço de Eve. — O que nós fizemos… — Murmurou mais para si dessa vez, com seu rosto em terror ao perceber o que realmente estava acontecendo.

Afastou suas mãos dela automaticamente.

— O que? — Aaron chamou. — O que houve?

Não havia tempo. Asmodeus se levantou para sair dali o mais rápido que podia, sem se importar com o Inferior que estava deixando para trás ou suas perguntas infindáveis. Porque apenas não. Não podia aceitar o que estava se desenrolando naquela trama e não aceitava a queda de tantos planos sob sua vigência. Precisava ter um jeito.

Adiantou-se pelos corredores em direção a uma sala que raramente usava. A sala de longa mesa, com oito cadeiras e paredes em puro branco que havia em cada Pecado para situações como aquela. Situações perigosas como aquela. Porque tudo estava fugindo dos planos novamente, todas as linhas e todas as pretensões eram ameaçadas por aquela singela imagem de Sua Alteza desacordada e sangrando sobre uma cama.

Uma vez lá dentro, sua língua poética desenrolava versos que não imaginaria ter de usar tão cedo, pequenas e poderosas frases, o suficiente para invocar o Conselho dos Oito imediatamente. Somente desejava não precisar dizer tais palavras. Somente desejava não sentir o temor que aquelas frases traziam.

 

“O Fogo purificador não queima

Pois as almas sofrem em nosso lugar.

Por instar chame os Caídos

Para que os Demônios ouçam falar. ”

 

Logo, as figuras dos outros seis Mestres Pecadores se prostravam a sua frente, estava em uma das pontas, já que tinha sido ele quem os invocara. Todos ou outros estavam posicionados em seus assentos, seu Pecado indicando quão próximos estariam do Primeiros que emergia, por último, em seu trono à outra ponta da mesa com uma expressão de desconfiança, raiva e desapontamento que, ainda assim, não se focava em Asmodeus.

— O que está acontecendo, Asmodeus? Por que nos chamou? — Disse Lilith, a Segunda, sentada à direita do Diabo. — Melhor ser importante. Orgulho está se preparando para a chegada de Sua Alteza e eu não preciso de mais interrupções!

Leviathan bufava enquanto Azazel tinha seu semblante mais tristonho em eras. Belphegor, Belzebu e Mammon, avulsos a tamanha comoção sentimental. Engoliu em seco, reverenciando seu Primeiro em toda a sua amplitude antes de começar. Começava a temer por seu Pecado pela primeira vez, agora que a ira do Diabo poderia se voltar contra ele. Que aqueles olhos não se levantassem, era o que suplicava.

— Irmãos, há um problema. É sobre Sua Alteza Infernal. — Ergueu-se, as pontas dos dedos embranquecendo por apoiar parcial peso do corpo sobre elas na mesa, vendo todos os outros a se inclinar em sua direção com seus olhos preocupados e cautelosos. — Ela está viva… Por enquanto.

Um momento.                    

Lilith tinha seus lábios mais separados que o normal para instantes de silêncio. Azazel pressionava seus olhos em lamentações que já temia. Leviathan permanecia impassível, visto que aquele momento não estava sob sua tutela. Mammon prostrava seu choque em seus olhos arregalados, a Demônio perdia um tesouro antes mesmo de o ter. Belzebu engasgou, com suas papas formando ondas abaixo do queixo em suas preparações ao protesto que seguiria. Belphegor fitou-o, lento demais para mostrar qualquer emoção.

— Viva? — Gritou Lilith. — Você deixou uma garota viva entrar no Inferno, Leviathan?! Tínhamos combinado que ela morreria antes de passar pela Trilha!

— Aposto que isso foi trabalho do seu protégé, Quinto. — Resmungou Mammon. — Sempre soube que aquele menininho era fraco.

A voz do Quarto se alterava em respostas, mas parecia surda para Asmodeus. Estava aturdido, entalado e entupido pela exposição, a vergonha e o medo. Apenas algumas frases eram necessárias para causar o caos no Inferno, mas a ordem precisava de muito mais. E o silêncio viria, sabia que sim, e não gostava de imaginar o que ocorreria quando viesse.

— O que vai acontecer com ela? — Acordou-o Azazel, mais manso do que qualquer outra imagem que Asmodeus tivera antes dele, enquanto Leviathan defendia-se dos ataques da Segunda e da Sexta. — Ela está bem?

Asmodeus só conseguiu encará-lo, sem dizer as palavras que o Terceiro já imaginava. Não. Eve não ficaria bem e era só uma questão de tempo até tudo correr a fatalidades. Engasgou, prestes a responder diplomaticamente quando Belzebu reclamou:

— Isso é um absurdo! A sua regência será altamente prejudicada por uma falha como essa, Asmodeus!

Como é? Pensou, indignado.

— Não é culpa minha se o invejoso não matou a menina. — A raiva queimando em si por tal acusação o fazia sentir enjoado. — Culpe ele! — Então apontou para o centro de outra discussão acalorada do outro lado da mesa.

O Primeiro esteve calado até então, em um silêncio tão profundo que superava a preguiça indulgente de Belphegor. Até que se levantou, e todos os outros calaram suas berrantes discussões.

O ar preso em seus pulmões queimava enquanto se tornava puro dióxido de carbono. O medo em seus corações crescia enquanto o rosto de Lúcifer tomava luz, seus olhos heterocromáticos focando-se em Asmodeus com o mais puro ódio. Os outros seis derrubaram suas visões em submissão, seus corpos voltando às cadeiras enquanto o Primeiro destruía o Quinto com sua ira.

Atravessou a sala, seus dedos correndo pelos ombros de todos que se sentavam do lado esquerdo da mesa, gerando arrepios amedrontados em Azazel e Mammon, e retirando Belphegor de sua indiferença num toque. Atingiu Asmodeus enfim, sua proximidade assemelhando-se em intensidade ao terror que o Quinto sentia.

— Bem, — Começou com sua voz profunda como o próprio abismo. Seus olhos venenosos forçavam a vontade de Asmodeus, faziam-no ajoelhar cada vez mais baixo, lentamente, até ter seu corpo deitado inteiramente em terra. Pisou-o, sentindo os músculos do corpo magro sob seus pés. Humilhá-lo não seria suficiente para conter seu ódio, mas valia a pena. — Acho que teremos que resolver isso, não?


Notas Finais


He is so bad, but he does it so well...
Até a próxima!
Beijinhos.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...