História Inimigos Íntimos - Capítulo 20


Escrita por: ~ e ~LadyIchijouji

Postado
Categorias Digimon
Personagens Cody Hida, Davis Motomiya, Joe Kido, Kari Kamiya, Ken Ichijouji, Koushiro "Izzy" Izumi, Mimi Tachikawa, Sora Takenouchi, Taichi "Tai" Kamiya, Takeru "T.K." Takaishi, Yamato "Matt" Ishida, Yolei Inoue
Tags Ação, Adolescentes, Angst, Colegial, Digimon, Drama, Insanidade, Kaiser, Kaiseryako, Kenyako, Luta, Miyako, Releitura, Romance, Sequestro, Síndrome De Estocolmo, Tortura, Tragedia
Visualizações 112
Palavras 7.243
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Colegial, Comédia, Drama (Tragédia), Ecchi, Famí­lia, Ficção, Hentai, Luta, Mistério, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Spoilers, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oieeeeeee gentey!
Tudo bem com vocês? Estavam com saudades de nós?
Demos uma folguinha na semana passada, foi aquela loucura, mas estamos de volta, para alegria de vocês!
Wow, estamos muito felizes em ver que estão gostando muito da nossa fic, ficamos cada vez mais motivadas a mostrar para vocês tudo o que temos em mente. Muito obrigado por gostarem!

Buenas, o capitulo anterior foi o encerramento da primeira fase de II, antes de entrarmos na segunda fase, creio que algumas coisas precisam ser esclarecidas a vocês, como a divulgação dos segredos abalou demais com os digiescolhidos, teremos fillers mostrando como lidaram com as consequências e os julgamentos das pessoas, mostrando que não foi somente a Miyako quem sofreu.

Iniciamos pela primeira vitima, Yagami Hikari, com seu comprometedor segredo, fazendo todos ficarem de boca aberta, afinal, quem imaginaria que a doce Kari gosta de pessoas do mesmo sexo?!
Nunca pararam para pensar: e se ela não gostasse de ser ter esse rótulo de garota perfeita?! Queria ser apenas uma garota normal, sem todo aquele tratamento especial que as pessoas lhe davam, sem toda aquela perfeição doentia que esperavam dela.
Não tinham ideia, de que na verdade estava quebrada por dentro, jamais imaginariam o que realmente se passa em sua mente e coração, todos os seus questionamentos e aceitação de quem realmente era. Sua alma precisava de reparos e cirurgia.
Quando achou que tudo estava perdido dentro de si, uma luz surgiu em seu caminho e iluminou a sua vida, tornando os seus dias mais felizes; até aquele momento, jamais havia sentido esse tipo de sentimento por qualquer garoto, como foi pela sua professora de educação física. Hikari se viu em um novo mundo, conseguindo se aceitar e não trancando mais os sentimentos dentro de si.

Aviso: Contém Yuri, se você não se sente a vontade lendo esse tema, peçamos encarecidamente que pule esse capitulo.
Musica do capitulo: Pretty Hurts - Beyoncé

Beijos e até mais!

Capítulo 20 - Flashback filler: Yagami Hikari - A Luz que te cega


A beleza machuca

Evidenciamos o que temos de pior

A perfeição é a doença da nação

A beleza machuca

Evidenciamos o que temos de pior

Tente reparar algo

Mas você não pode reparar o que não consegue ver

É a alma que precisa de cirurgia

[Pretty Hurts - Beyoncé]

 

Pov Hikari

É correto dizer que tudo neste mundo possui dois lados? Tolo é aquele que espera só coisas boas vindas do outro, afinal são as imperfeições que nos fazem evoluir, são as falhas que nos fortalecem, a constante busca para corrigir nossos defeitos, a persistência, a redenção. Não são estes fatores que devem constar no nosso histórico de vida?

Ao menos é assim que as coisas deveriam ser, mas não é como realmente são. As pessoas são imperfeitas, mas estão sempre buscando a perfeição nos outros, procuram exemplo de país, exemplo de família, exemplo de aluno. As pessoas escolhem em terra, humanos normais para se espelharem, para cultuar, para moldar uma armadura de ilusões, projetar seus sonhos, idealizar suas fantasias.

Meu nome é Yagami Hikari e tenho 15 anos. Posso dizer que tenho uma familia feliz, amorosa e que cuida de mim, até em exagero. Meus pais formam um casal feliz, se dão muito bem e nossa casa apesar de não ser luxuosa, nos proporciona todo conforto necessário para viver. Meu irmão mais velho, é o que poderia se chamar de melhor irmão do mundo, ao contrário de muitos irmãos que se implicam e quase se matam, sempre nos demos muito bem.

No entanto, eu nasci com a saúde muito frágil, adoecia com facilidade, ficando constantemente sob os cuidados do meu irmão, em uma fase onde minha mãe teve que trabalhar fora. Creio que isso o tenha tornado super protetor, não somente ele, mas nossos pais também.

Essa imagem de fragilidade podia ser muito conveniente às vezes, comecei a me acostumar com as pessoas cuidando de mim, querendo me proteger  aquilo era confortável, mesmo quando eu não precisava, sempre tinha alguém, um coleguinha de escola, uma vizinha prestativa. Eu era tão pequena, tão frágil,  tão fofa, delicada, como eles diziam. Mesmo na minha inocência infantil eu comecei a tirar proveito disso.

Chegou em um ponto em que eu não estava feliz com isso, não me sentia feliz comigo mesma e com a forma como agia, sendo privilegiada no colegio e tratada sempre como o cristalzinho. Eu queria ser mais que isso, sabia que tinha potencial para algo maior, algo importante e então aconteceu o acampamento de verão do meu irmão, aconteceu Tailmon e o Mundo Digital.

Eu ja tinha tido contato com um Agumon antes, mas não tinha certeza se foi real, afinal crianças da minha idade possuem imaginação fértil, mas agora era diferente, era um mundo cheio daquelas criaturas e com mais crianças. Era real e não tinha tempo para eu continuar sendo um cristalzinho protegido. Com esse pensamento eu me superei e consegui dar forças para Tailmon lutar.

Ao lado de Tailmon eu senti a luz pela primeira vez, ela nunca me viu como algo frágil a ser protegido, me viu como uma parceira, me olhou como igual, me fez sentir capaz, me fez agir como uma heroína e eu abri meu coração para ela, ela abriu o dela para mim e nossa ligação se tornou uma das coisas mais valiosas que  eu possuo na minha vida.

No geral, eu ainda continuava sendo vista como a garotinha frágil, ninguém poderia saber sobre nossas aventuras no Mundo Digital. Nossa missão acabou e fomos mandados de volta para nossas casas e mesmo quem sabia de algo, nunca mais mencionou o assunto.

A vida seguiu naturalmente, peguei amor por fotografia, quando estava fotografando eu me sentia diferente, uma espectadora captando o momento então me dei conta de que me sentia assim em relação a tudo incluindo minha propria vida.

As mãe das minhas colegas de escola gostariam de ter uma filha como eu, porque eu não era aventureira, não negligenciava regras. A verdade é que eu não tinha as redeas de nada na minha vida, eu sei que aos onze anos isso não importa, mas para mim importava. Eu me sentia tão vazia, aquele gosto de ter sido útil no Mundo Digital, só aumentava minha certeza de não ter serventia alguma no meu próprio mundo.

Uma angústia secreta crescia dentro de mim, havia dois lados, como as pessoas me viam, como eu queria ser vista, mas como eu merecia ser vista? Parece estranho falar que uma criança tenha depressão, mas aos onze anos eu não entendia o proposito da minha existencia.

Eu precisava lutar contra aquele sentimento, tudo estava lá para mim, uma família amorosa, condição financeira razoável, uma cama quentinha para dormir, comida para comer, banho para tomar, condições de estudar. Porque tanta angústia, tantos questionamentos? Eu era só uma criança.

Quando só a fotografia não me consolava ou distraia mais, entrei no grupo de dança e foi uma ótima decisão, a dança me fazia sentir mais leve e livre, me jogava em um mundo diferente e eu me dediquei ao máximo. Minha família ficou ainda mais orgulhosa, a boa filha que gostava de fotografia, agora gostava de ballet também, nunca poderiam imaginar que  eu estava tentando encontrar uma forma de vencer aquela depressão que tentava me abater, aquela sensação de não prestar para nada.

Por um tempo pareceu funcionar muito bem, me enturmei com as garotas do grupo de dança e comecei a receber uma atenção diferente dos garotos, cartinhas, presentes, mas nada daquilo me deixou feliz. Minhas colegas comemoraram, algumas até sentiram inveja e nada fizeram para esconder, entretanto aquilo não surtiu efeito nenhum para mim.

Me sentia cada dia mais vazia, mais para baixo. Eu tinha tudo e talvez fosse por isso mesmo, as coisas eram fáceis demais, quis dançar e dancei, quis fotografar e assim foi, tudo que eu queria vinha para mim sem o mínimo de esforço, parecia que a vida também tinha instinto de proteção por mim, o universo me considerava incapacitada de lutar pelas coisas que eu queria.

Me julgue como quiser, mas ter tudo e não ter mais com o que sonhar é muito frustrante, pode levar alguém á loucura, parece um monte de besteiras, não sou mal agradecida ou algo assim, sou alguém que se sente vazia e incompleta, não é como se eu emitisse alguma luz, mas como se eu necessitasse dela.

Os dias foram assim, vazios e repetitivos, da escola para casa e de casa para escola, a impressão que eu tinha era de que havia duas rochas pesadas amarradas nas minhas pernas, ninguém a minha volta podia ver o quanto minha caminhada era torturante e eu nem queria que vissem, seguia a procura da luz no fim do túnel. Porque eu estou aqui? Porque nasci? Se todos os homens nascem com livre arbítrio porque eu não pode escolher existir ou não? Estudar, crescer, se casar e ter filhos, envelhecer e morrer e tudo isso para que? Qual o sentido?

De repente algo inesperado aconteceu, duas coisas na verdade, no mesmo dia em que Takeru-kun começou a estudar na mesma escola que eu estudo, oniisan foi para o Mundo Digital e de lá enviou um e-mail com pedido de ajuda, finalmente eu pude reencontrar Tailmon, era horrível que o Mundo Digital estivesse em perigo, mas ao mesmo tempo era maravilhoso estar ao lado dela novamente.

Eu já não era uma garota normal esperando para repetir o ciclo normal da vida, eu era uma guerreira do Mundo Digital e alí, ao lado dos meus companheiros de batalha, libertando aquelas criaturas, dando forças para Tailmon, eu realmente me sentia útil, importante e parte daquele vazio que  me corroía foi preenchido a cada dia.

Então chegou a adolescência e todas as coisas dentro de mim pareciam reviradas de cabeça para baixo, eu estava feliz? Em partes estava, era uma guerreira, dava o melhor de mim, tinha Tailmon ao meu lado e ela me divertia e fazia companhia, tinha amigos, família amorosa, mas…

Algo dentro de mim não se encaixava, eu não era normal, talvez não fosse seguir o ciclo natural da humanidade. Como posso explicar? A cada dia mais os garotos se declaravam para mim, diziam que eu era fofa, mas a verdade é que nenhum deles me interessava, nada daquilo na verdade, no começo eu era muito nova, mas aos quinze anos meu corpo já estava despertando para muitas coisas, porém, nada era relacionada aos garotos.

Eu tinha bons amigos, mas o jeito dos garotos, o cheiro deles, o porte, nada disso me atraia em nada. Vulgarmente comparando, é como pessoas que gostam de cachorros grandes e robustos, que babam e fazem cocos enormes e alguém que prefere cãezinhos fofos, pequenos, que se pode pegar no colo, fazer carinho, dar banho. Eu preferia os cãezinhos.

Eu sei, parece estranho, é estranho, me senti tão perdida quando me dei conta, mas eu estava ali em meio a todas as minhas colegas de escola, de grupo de dança, cada uma com seu perfume, os cabelos esvoaçando, as curvas dos corpos, as lingeries coloridas, as sonoridades dos risos, era como seu eu estivesse em meio a um campo florido ou um pomar de frutas.

O aroma delicado exalando das peles sedosas me fazia salivar, meu corpo se arrepiava, se aquecia, os mamilos erigeciam, eu  ficava hipnotizada com cada contorno dos corpos das minhas colegas, cada uma com sua beleza diferente. Meus olhos analisavam atentamente cada detalhe, os rostos, o pescoço, colo, os ombros, braços, a delicadeza das mãos, o movimento dos seios enquanto se agitavam de um lado para o outro, o conjunto perfeito, cintura, quadris e pernas, e quando estavam de costas… Cada detalhe parecia uma obra de arte.

Não tinha como comparar, os garotos não tinham toda aquela magia, eles eram tão ogros, bobos, desengonçados, serviam somente como amigos, imaginar a mão desajeitada de um rapaz pelo meu corpo me enchia de asco, mas imaginar o  contato suave e macio de uma pele sedosa e perfumada, uma voz feminina sussurrando meu nome… Kami! Isso me fazia entrar em êxtase.  

No dia em que aceitei essa verdade foi como se tivesse levado uma facada, não estava preparada para ser isso, eu já tinha tantos questionamentos. Antes ja haviam acontecido coisas estranhas no meu corpo quando dormia com minhas amigas, normalmente eu demorava a pegar no sono, ficava sentindo o perfume do quarto, dos cabelos delas, sentia vontade abraçá-las, mas eu ignorei isso.

Todas saíram do vestiário e eu fiquei lá sentada, engolindo a verdade sobre mim, eu era… Eu sou… Realmente não consigo falar isso, não posso aceitar. Meus pais não me criaram para ser assim e não seguir o ciclo, levar a desonra para o nome da nossa família.

A partir daquele momento eu tomei uma decisão, tinha que sufocar aqueles sentimentos. Era errado demais, ilógico, biologicamente incorreto, eu estava doente? Talvez precisasse orar, ir em um templo e pedir para Kami me curar, eu faria qualquer coisa. Era algo só meu, não tinha como contar para Tailmon nem para ninguém.

A vontade de me esconder era tanta que comecei a ser ainda mais observadora nas conversas, eu já não era tão participativa, mas ao descobrir a minha anomalia, achei melhor me manter mais a margem, sempre me controlando, temendo que qualquer palavra em falso pudesse me expor.

Devido a isso eu fiz coisa de que não me orgulho, como alimentar as esperanças dos meus admiradores, sim, foi feio, mas eu estava desesperada, precisava me manter segura e deixar no ar minhas respostas os fariam querer lutar por mim, como era o caso de Daisuke, talvez eles imaginassem que eu estava confusa, mas um dia aceitaria. As cartinhas, os presentes, o pedestal em que me colocavam era minha fuga, minha máscara, o que me mantinha protegida.

Não precisava muito para manter as esperanças deles, bastava um sorriso iluminado com uma luz que cegava qualquer razão, afinal a luz nem sempre serve só para o bem, se fosse assim os mosquitos não cairiam em belas armadilhas de luzes fluorescentes. Sim, na vida tudo tem os dois lados é importante saber disso, o mais honrado dos seres humanos pode ser cruel para sobreviver.

Tudo é exatamente como a Miyako-chan havia escrito em uma matéria para o site. Os homens da nossa sociedade são cegados pela sede de dominar e submeter. Não sou burra para não perceber isso, eu pareço tão fraca, tão calada, tão “esposa perfeita” bela, recatada e do lar, mal sabem eles que meu recato está no nojo que eu sinto ao pensar no toque de qualquer homem no meu corpo, sou calada porque muitas coisas a esconder e ser pequena não me faz tão frágil

Eles veem o que querem ver, desenham na minha aparência o que sonham e por este erro merecem ser enganado, vão me idealizar eu me aproveitando disso ou não. Eu me sentia indignada, mas ao mesmo tempo usava aquilo a meu favor. Me sentia mais livre ao lado de Tailmon, junto a ela eu era a criança que um dia fui e eu sabia que ela percebia algo errado, mas não ousava perguntar, como se estivesse esperando o momento certo.

Estava tudo bem na minha tentativa de ser uma garota normal, com um pouco de sorte talvez fosse somente uma fase e eu ficasse normal, mas não, uma coisa aconteceu no começo das aulas, uma pessoa na verdade, Misuho Higuma, nossa nova professora de educação física

Misuho-sensei era o tipo de professora que fazia os meninos esperavam ansiosamente pela educação física, alta e de formas avantajadas, olhos azuis expressivos, lábios finos e rosto triangular, mais do que isso ela era hiperativa, animada, alegre, quebrava as regras e fazia uma aula divertida, muitas vezes bateu de frente com a direção por não seguir a programação e conseguiu provar que embora seus métodos fossem outros os resultados eram os mesmos. Ela era inovadora, ousada.

Comecei a admirá-la e confesso que eu não era a única garota a fazer isso, as meninas a viam como um exemplo, mas ela nem se preocupava e divertia, estava sempre relaxada, brincalhona, completamente contagiante, como uma música que entra na sua cabeça e você não consegue parar de ouvir.

Me acostumei a admirá-la de longe, da minha humilde posição de apenas mais um de todos os seus alunos, até o dia em que eu machuquei o pé durante o treino com o grupo de dança e ela nem perguntou nada e me pegou nos braços, me levando para a enfermaria.

Eu fiquei sem reação, aquilo era tão incrível que eu não tinha mais certeza se estava sentindo dor, ela conversava comigo, mas eu respondia a esmo, entorpecida pelo momento, estávamos tão próximas, ela era linda e eu era uma boba que não conseguia abrir a boca para dizer nada que fizesse sentido.

Quando chegamos na enfermaria, a enfermeira responsável já havia ido embora e a porta estava trancada. Misuho-sensei não teve dificuldades nenhuma em arrombar a fechadura, ela era incrível.

Entramos e ela me colocou sobre a maca e começou a remexer no armário, enquanto falava sem parar, agitada como sempre é. Fiquei observando seus cabelos rosados, presos em um rabo de cavalo alto. Milhares de pensamentos tomaram a minha mente, tinha que avisar ao pessoal que não poderia ir ao Mundo Digital naquele dia, mas ela não se calava e eu fiquei com vergonha de pegar o celular.

Ela se sentou ao meu lado e começou a fazer o curativo, embora fosse hiperativa, excessivamente animada, seu toque era gentil, falava sobre coisas corriqueiras como os passos de dança ou jogos dos garotos.

Eu queria mais que aquelas trivialidades, queria saber sobre ela, o que faz quando não está na escola, de que filmes gosta, quais livros, as comidas preferidas, as músicas, coisas que a irrita e sem pensar em nada eu comecei a fazer perguntas e ela as respondeu com alegria e gentileza.

Misuho-sensei era bem mais do que um corpo, um rosto bonito, uma bomba de energia e agitação, ela tinha gosto por filmes musicais e ballet, dança em geral, chegou a fazer parte de uma importante grupo de dança, mas veio para Odaiba ser professora porque a avó estava internada aqui em uma clínica para idosos com doenças degenerativa.

Ela poderia estar dançando, se apresentando nos palcos pelo mundo a fora, mas deixou tudo para ficarem perto da avó que a criou. Foi a primeira vez que vi a sensei tão séria, a forma como ela falou, não com arrependimento, mas deu para ver que seu sonho era estar em um palco se apresentando, mesmo assim ela dá o seu melhor como nossa professora.

Me senti mal por ter feito ela contar tudo aquilo, acabei me desculpando, mas ela disse que estava tudo bem e quando percebemos a noite já havia caído e fora o segurança nos eramos as únicas na escola. Ela me ajudou a me levantar e me deu uma carona até em casa. Naquele dia levei bronca do meu irmão e dos meus amigos, até mesmo da Tailmon, mas quando expliquei direito todos entenderam.

Eu poderia ter ligado para eles, enviado mensagem, mas estava fascinada pelo momento, a oportunidade de ter a Misuho-sensei somente para mim, sem ter que disputar sua atenção com as outras garotas, sem ter que ficar disfarçando minhas reações. Foi naquele dia também que acabei descobrindo que ela morava há duas quadras da minha casa.

Por algum tempo eu me perguntei o que fazer com aquela informação. Tínhamos gostos incomuns, sim, mas não era fácil conversar com ela, não havia tempo ou privacidade, queria poder conversar a sós com ela. Não precisava de mais nada, só falar sobre filmes, livros, músicas, sobre receitas, roupas ou o que ela quisesse, mas só com ela, sem tanta gente por perto, entretanto eu não podia bater na porta dela do nada e fazer uma visita, ou talvez pudesse.

Eu sempre fui prudente demais, calculista, pensei mil vezes antes de agir, sempre fui contida, mas não dava mais para ser assim e depois daquela conversa que tivemos na enfermaria, algo pareceu mudar entre nós, talvez fosse ilusão da minha cabeça de adolescente. Por ter essa “anomalia” acabei lendo muito sobre psicologia e estudei sobre o tipo de pessoa que pensa que a outra está interessada por ela, mas é uma ilusão de sua mente.

Mesmo cheia de dúvidas, em um sábado eu fiz uma torta saborosa, me arrumei e peguei uns filmes musicais que tinha na minha coleção, deixei Tailmon na casa do Takeru-kun, era melhor pois Natsuko-san já sabia sobre os Digimons. De lá eu segui para a casa dela, milhares de coisas passando em minha mente. Se ela estivesse com um namorado, não teria problemas, afinal era só uma aluna visitando sua professora, mas eu preferia não ter que pensar na possibilidade dela ter alguém.

Durante o percurso eu tive muito tempo para me arrepender e desistir, muitas vezes quase fiz isso mesmo. O que eu estava fazendo? Mesmo que ela estivesse mesmo me dando mais atenção, isso não queria dizer que ela fosse igual a mim, que tivesse o mesmo problema, mesmo assim minhas pernas seguiram como se tivessem vida própria e quando me dei conta ja estava parada em frente a porta de sua casa.

Apertei firme a alça da minha bolsa, minha mão estava parada a caminho da campainha, mas a coragem não vinha, então me surpreendi com sua voz, atrás de mim.

— Hikari-san? Que surpresa! — Era ela, estava chegando em casa agora, vestia uma calça preta e uma blusa social branca, a roupa era bem básica, seus cabelos  estavam soltos, chegando abaixo da cintura.

— Misuho-sensei! Eu… — Não dava para usar a desculpa de estava passando aqui perto, afinal eu tinha a torta e ou filmes, para me desmentir. — Quis lhe fazer uma visita, se não for inoportuna?

— Claro que não. Como não conheço quase ninguém nessa cidade, eu muitas vezes me sinto sozinha, será ótimo que me faça um pouco de companhia. —  Declarou sorridente e se aproximou abrindo a porta e me dando passagem.

Eu estava em êxtase apenas por estar alí, na casa dela, organizada do seu jeito, logo me deparei com a parede decorada com vários quadros das apresentações de ballet e musicais os quais ja havia participado, sobre sua estante havia alguns troféus com bailarinas ou sapatilhas de ouro, prata e bronze.

— Eu sinto muito… — Então eu entendi o quanto tudo aquilo significava para ela.

— Tudo bem. É por uma boa causa. — Sorriu enquanto se dirigia para a pequena cozinha estilo americana e abria a geladeira, pegando um jarro de suco. — Já fiz uma bela história nos palcos, acho que é hora de ficar quieta em casa e ver o agito pela TV.

— Não fale como se fosse uma velha! — Acabei soltando, mas como uma brincadeira.

— É porque já não sou nenhuma garotinha. — Me entregou o copo com o suco. — Você gosta de pizza? Sai cedo e não tenho nada pronto, então posso pedir uma para nós.

— Bem… Você parece bem nova para mim, acho que para o colégio todo. — Dei uma risadinha e ela ruborizou levemente. — Ah, eu trouxe uma torta. — Ergui a sacola entregando-a.

— Ah, que gentileza. — Ela pegou sorridente.

— Se refere a te achar nova ou sobre a torta? — E eu realmente não estava me reconhecendo. Kami o que eu estava fazendo?

Ela apenas sorriu e abriu a sacola, levando-a para a bancada.

— Hmm! O cheiro é muito bom.

— Espero que o gosto também esteja. — Brinquei e ambas sorrimos. — Eu trouxe alguns filmes clássicos musicais da minha coleção. Eu pensei… Se você quiser, talvez nós…

— Claro. Hikari-san, que amor da sua parte, saiba que eu nunca recuso um bom musical, com boa comida e boa companhia. Vamos assistir sim.

E de repente lá estava eu sentada ao lado da pessoa mais fascinante que já conheci, ambas comentando sobre nossas cenas preferidas, fazendo críticas, como todo bom fã exigente, faz, meu coração estava a mil e as borboletas se agitavam no meu estômago.

Infelizmente eu não pude ficar por muito tempo, ainda deveria buscar a Tailmon e ir para casa cedo e assim fiz, mas fui convidada a voltar outras vezes e aceitei o convite. Cada visita nos tornava mais próximas e eu sempre ficava ansiosa pelo próximo sábado. Ao lado dela eu não me sentia anormal, ela parecia saber como me sentia em relação a ela e parecia se sentir da mesma forma, confesso que perdi muitas noites de sono me perguntando se não era minha imaginação.

Não importava muito se era imaginação ou não, estar com ela me fazia bem, admirar seu cheiro, seus gestos, o som da sua voz, seu ritmo acelerado de viver. Misuho-sensei me mostrava tantos vídeos e fotos sobre suas apresentações, cada vez eu conhecia mais sobre ela e deixava que ela soubesse mais sobre mim. Óbvio que nada de dizer que eu era uma guerreira do Mundo Digital.

Tailmon sabia que algo estava diferente comigo, brincava sobre meus suspiros e sorrisos, mas nunca invadiu meu espaço com perguntas que eu não saberia como responder, quando eu lhe dava o silêncio ela me devolvia um olhar que dizia “o importante é te ver feliz” sempre nos entendemos sem precisar de muitas palavras.

Um certo dia, uma noite quente de sábado, dia no qual a visitava, estávamos ensaiando alguns novos passos de dança, para serem incluídos na coreografia das líderes. Devido ao calor, usávamos roupas curtas, eu vestia uma regata preta e uma saia de malha, enquanto que ela usava um cropped colorido e uma bermuda jeans. Misuho afastou o sofá e enrolou o tapete, retirou a mesinha de madeira, colocando-a em um canto bem afastado da nossa improvisada pista de dança e ligou o som, pondo uma música com ritmo bem caliente, da cantora Beyoncé.

Ela caminha em direção ao interruptor e apaga as luzes, deixando apenas as do abajur, na penumbra; enquanto que caminhava de volta para onde lançamos, os seus quadris e braços se mexiam conforme o ritmo da música, parecendo uma dançarina de dança do ventre, só lhe faltava aqueles véus para se movimentar e um para tapar metade do seu rosto.  

Parecia tão despreocupada dançando, que nem se deu por conta que eu a olhava completamente hipnotizada, pela sensualidade que aqueles movimentos eram executados. Tentei imitar tudo o que fazia, balançava os meus quadris, mas não conseguia fazer do mesmo modo sensual que o dela, parecia que faltava alguma coisa para chegar naquela forma.

Então a faixa acabou e começou outra que nos fez gritar de empolgação, sabe aquele tipo de música que quase todas as garotas deste mundo já dançaram? Pois é, quase um hino, vibramos e começamos a dançar, me senti tão livre e divertida, deixei meu corpo se entregar ao ritmo e juntas cumprimos a coreografia com afinco, nos divertindo, curtindo o momento, contagiadas pela magia da dança, jogando nossos cabelos e quadris.

Deslizamos para o chão, seguindo a música e acabamos parando tão próximas, de frente uma para outra e ela parecia ainda mais linda, com os cabelos desgrenhados, as bochechas coradas e um pouco ofegante, com um sorriso, mas tudo pareceu sumir da minha mente, a melodia, o som, o ambiente a nossa volta, o chão sobre nossos corpos, só ela importava, só o perfume que seus cabelos exalavam, me senti atraída como imã e quando me dei conta já estava selando nossos lábios.

Misuho-sensei visivelmente entrou em choque, confesso que também me surpreendi comigo mesma, com o que tinha feito, mas já havia dado aquele passo e não podia voltar atrás, estava prestes a recuar e ir embora procurar um buraco para me enfiar para sempre, quando senti suas mãos vindo para o meu rosto o segurando suavemente, o  beijo foi aprofundado e nossas línguas se chocaram, foi doce, suave, mas cheio de energia, contagiante como a música.

Permanecemos naquele contato até que o ar nos faltasse e quando nos separamos eu não sabia o que fazer, se me desculpava ou saia correndo, a impressão era que fogos de artifício estouraram dentro de mim, mas estava com medo do que ela diria. Ficamos nos olhando sem reação, mas antes que algo fosse dito o meu celular tocou e me dei conta que deveria ter passado da hora de voltar para casa.

Me levantei atordoada e atendi o celular, respondendo a esmo as perguntas da minha mãe, minhas pernas estavam trêmulas. Desliguei o aparelho e me despedi pegando a minha bolsa, não pensei em me desculpar, não pensei em nada, minha cabeça não estava funcionando. Nem dei tempo para que ele respondesse algo e corri para a porta.

Naquele dia eu não consegui dormir, estava tão encantada e preocupada, havia dado o meu primeiro beijo e tinha sido na minha professora. Kami, o que os meus pais e amigos pensariam se soubessem disso? O que todo mundo da escola pensaria? Ah, dane-se as opiniões alheias, foi bom demais, eu podia fechar os olhos e reviver aquele momento eternamente. Como seria na escola? Como eu olharia pra ela?

A ansiedade me consumiu durante o final de semana e na segunda eu esperei para vê-la, mas ela não foi e nem na terça, quarta e quinta, não queria parecer suspeita, mas fiquei com medo de que pudesse ter sido por minha causa ela tivesse se demitido, embora sabia bem que precisava do emprego para pagar a clínica da avó, não resisti e acabei perguntando na secretaria, descobri que na segunda a sua avó havia falecido.

Infelizmente naquela sexta eu fui ao Mundo Digital e demoramos muito na missão, não pude ir ver como ela estava. Sábado, como de costume eu fui visitá-la e ela não estava, no domingo passei em sua casa novamente, mas tudo estava trancado, eu estava preocupada, sua avó era a única pessoa que ela tinha na vida e com seu falecimento agora Misuho-sensei estava sozinha.

A semana começou e nada da professora aparecer, no refeitório meus amigos conversavam sobre várias coisas, tanto da vida escolar quanto relacionadas as loucuras de Kaiser e Koushiro-san falava sobre a necessidade de ensinarmos um código de comunicação aos Digimons da resistência, Miyako-san sugeriu uma formação de voo, Iori-kun atentou para o fato de que nem todos os Digimons podem voar e assim começou uma discussão, na qual eu deveria estar envolvida, mas não conseguia.

Naquele dia após as aulas eu me despedi de Tailmon e pedi que ela fosse para casa e não se preocupasse comigo, segui para casa da Misuho-sensei e bati a campainha várias vezes, quando ela não abriu a porta eu usei um grampo de cabelo para arrombar a porta, sentia que algo estava errado. Eu tinha razão, a casa estava toda revirada, os quadros e decorações quebrados pelo chão e eu corri, chamando por ela, indo em direção onde aparentemente era o quarto.

Misuho-sensei estava sentada no chão, vestindo um pijama de manga comprida, com as pernas dobradas, abraçada aos joelhos, seus cabelos desgrenhados e a sua volta uma bagunça de caixinhas de sucos e chás, pacotes de salgadinhos e doces.

Fiquei parada estarrecida com a visão, a chamei algumas vezes, mas ela pareceu não me ouvir então me ajoelhei e a abracei, com isso ela começou a chorar copiosamente, não sabia o que dizer, sua pele estava ardendo em febre. A levei para o banheiro e liguei o chuveiro na temperatura morna, a deixando no banho.

Voltei para o quarto, arrumei a cama, troquei os lençóis e procurei uma camisola para ela, dava para ver que estava delirando. Assim que a ajudei a sair do banho e se vestir, liguei para Joe-san para saber como baixar uma febre muito alta.

Fiz todo o procedimento da maneira que me foi explicada, por sorte encontrei algum anti-térmico guardado em uma maleta de medicamentos. Ela não demorou muito adormecer e eu aproveitei o tempo para limpar toda a bagunça e deixar a casa em ordem. Fiquei imaginando como deve estar sendo traumatizante para ela, perdeu a única pessoa que tinha na vida. Segundo Joe-senpai, sua febre pode ser emocional.

Liguei para minha casa para informar que estava cuidando de uma amiga que estava com febre e minha mãe me apoiou, em seguida fui para cozinha averiguar o que tinha nos armários que desce para fazer uma boa refeição. Quando ela acordasse provavelmente precisaria se alimentar.

Preparei a refeição devo ter levado aproximadamente uma hora para fazer isso deixei tudo pronto de forma que quando ela acordar só precisaria esquentar,  seguir para o quarto averiguando sua temperatura que por sorte parecia ter baixado bem. Me sentei ao seu lado e fiquei olhando a dormir achando incrível como uma pessoa podia me despertar tanto sentimentos, ela não era só um corpo como os garotos da escola via,  era especial,  talentosa,  amorosa,  possuía um brilho próprio.

E finalmente quando ela acordou, estava fraca e um pouco confusa, não deixei que falasse e fui buscar a refeição que havia preparado, no começo ela foi arredia, alegando que não queria dar trabalho me mandando ir para casa, mas quando viu que eu não iria fazer isso e deixá-la ali sozinha naquela situação, acabou se comportando e comendo o quanto conseguiu, depois conversamos.

Conversamos sobre tudo, sobre o abandono dos seus sonhos, a perda da sua avó,  e a nova vida que agora esperava, mas não usamos  mencionar aquele beijo. Quando deu o meu horário nos despedimos e ela me agradeceu imensamente.

Durante o resto da semana eu voltei para vê-la, ela tinha conseguido um bom tempo de licença e durante esse período eu não a deixei sozinha, inclusive neguei e algumas vezes emissão para o Mundo Digital. Sei que deixei meus amigos com dúvidas, mas eles não foram invasivos insistindo em saber os meus motivos.

E em um sábado como de costume deixei minha parceira com o meu melhor amigo,  preparei uma torta deliciosa, escolhi alguns filmes da minha coleção, me arrumei e seguir para casa da minha professora, amiga e talvez…  eu estava confusa, aquele beijo não sai da minha cabeça, é óbvio que respeitei seu período de fragilidade, mas não dava para continuar agindo como se nada tivesse acontecido, até aquele dia eu me achava a coisa mais anormal do mundo, não me interessa se existem várias garotas assim eu não queria estar inclusa entre elas, mas depois daquele beijo… Tudo Mudou... Eu já não me importava mais em ser rotulada, em ter que lutar para ser aceita no futuro, só precisava saber o que ela pensava e sentia a respeito.

Quando cheguei em sua casa ela já parecia estar muito melhor, tinha mudado a decoração, feito um corte novo de cabelo que ele caiu muito bem, não tirou no tamanho,  Mas deu um formato  bonito. Conversamos, assistimos aos filmes e de repente o assunto morreu, eu sabia e ela também estava na hora de falar sobre aquele beijo.

A conversa não foi muito diferente do que eu imaginava que seria, não deveria se repetir por sua posição como minha professora, e ela se desculpou por ter deixado acontecer, porém eu insisti saber se ela havia gostado. Não precisava acontecer novamente, mesmo que fosse doloroso eu poderia tentar esquecer aquilo, mas tudo que eu precisava saber  era se ela também tinha sentido o mesmo que eu senti.

Então ela ficou desconfortável, seu rosto corou, também senti um enorme desconforto e temia que a resposta fosse é pior,  mesmo assim eu estava disposta a sair por aquela porta e nunca mais voltar, esquecer todos os bons momentos que passamos e deixar que ela seguisse sua vida, mas ela começou a chorar e me declarou que tinha gostado tanto quanto eu.

Eu deveria simplesmente ter ficado feliz com essa resposta e parado por aí, era perigoso para ela, mas eu não pensei no momento, não pensei em nada, só me deixei levar pelo que eu senti e assim acabei repetindo o que tinha feito naquele dia e selando nossos lábios em um beijo.

Mas dessa vez estávamos no início da tarde, minha mãe não ligou para nos interromper, não havia nenhum barulho, um ruído sequer, que pudéssemos trazer de volta a razão, então aprofundamos o beijo. Sua boca era macia e deliciosa, senti sua língua lentamente deslizando pela minha, enquanto suas mãos envolviam o meu corpo, elas eram quentes, causando-me arrepios por toda minha pele.

Ondas de choque me abatiam, eu não queria parar, mesmo que precisasse, não pararia, necessitava demais desse contato. Suas mãos deslizaram suavemente pelos meus cabelos, acariciando-os, eu me senti tão pequena e protegida em seus braços, não queria estar em outro lugar.

Nossos corpos se aproximaram, de forma que nossos seios se atritaram, os dela eram tão fartos e macios, muito além dos meus pensamentos e expectativas. Quando  me dei conta já estávamos deitadas sobre o sofá e ela estava por cima de mim, eu queria sentir mais do seu calor, da sua pele macia, sua boca gostosa, quando nossos lábios se separaram ela desceu uma trilha de beijos pelo meu pescoço, mordiscando minha orelha voltando a percorrer em direção ao meu colo.

Não consegui conter os gemidos, sua boca, seu hálito quente contra minha pele, suas mãos passeando pelo meu corpo, aquilo deveria ser estranho, não deveria ser tão bom, mas era maravilhoso, tanto que minha calcinha já estava encharcada. Senti uma de suas mãos deslizando pelas minhas pernas e chegando em minha intimidade, acariciando-a sob o tecido e aquilo me gerou um misto de sensações.

Eu retribui as carícias a altura, minhas mãos se aventuraram em cada curva de seu corpo, minha boca explorou a textura de sua pele, apreciando seu sabor. Fomos tomadas por algo inexplicável, nada era estranho ou errado. Estavamos somente as duas iluminadas pelas cores rosadas da tarde, nossas roupas se desmanchando feito neve ao sol, eu perdida em toda fomosura de suas curvas.

Minha mente girava, inebriada, meu corpo se deleitava ao sentir-se explorado pelos lábios gentis e curiosos de Misuho, sem pressa, doce, fazendo a minha pele se arrepiar a cada canto desvendados, pescoço, colo, seios, barriga…

Seus beijos pararam ao chegar a uma área sensível e ela me olhou como se pedisse a minha permissão, só consegui assentir com a cabeça, para em seguida experimentar uma das melhores sensações de toda a minha vida. Sua língua acariciava toda extensão da minha vulva, misto a leves beijos e sugadas, tão suaves quanto no momento em que trabalhou pelo meu corpo e aquilo era… Kami, era maravilhoso demais. Quando senti minha cavidade íntima sendo penetrada, foi estranho a princípio, minhas pernas se contrairam automaticamente por puro instinto, mas aos poucos fui me acostumando, relaxando, me entregando a todas aquelas caricias que eram proporcionadas, era algo tão íntimo e ainda havia um certo constrangimento, mas eu não queria que parasse.

Não tinha mais controle sobre os meus atos, minha boca se abriu, gemendo palavras desconexas, era tudo tão intenso, meu corpo inteiro queimava, o baixo ventre ardia, ansiava por libertação. De repente, senti todo meu mundo girar e tudo ficar em branco, toda aquela agitação se acalmar e ir morrendo aos poucos, como se tudo adormecesse de uma hora para outra. Eu estava ofegante, assim como ela. Tudo era louco e anormal demais, mas maravilhoso, não me importo com nada e a puxei para um beijo, não me incomodei em sentir meu gosto em sua boca, mesmo que aquilo parecesse tão pervertido, não era.

Depois de tudo aquilo eu não sabia como me comportar e era nítido que ela também não. A princípio nós conversamos e decidimos esquecer o que houve, para o bem de ambas. Nos vestimos e nos despedimos, mas como esquecer? Não tinha como, foi tudo muito impulsivo, rápido, mas foi marcante e intenso e aquelas sensações ficavam me perturbando.

Tentamos seguir em frente e esquecer, mas eu voltei a bater em sua porta e ela me recebeu, mal a porta tinha sido trancada e já estávamos nos beijando, sem pensar em certo ou errado, no risco do que estávamos fazendo nos entregamos como da primeira vez, mas dessa foi muito mais intensa e eu também quis explorar cada canto de seu corpo com meus lábios.

Depois deste dia não conseguimos manter distância e nos encontrávamos todos os sábados, Tailmon sabia que estava acontecendo algo, ela me mostrava isso da forma como me olhava, mas continuava sem invadir meu espaço, enquanto eu pensava em formas de contar para ela.

Com o tempo eu comecei a ver aquilo que eu chamava de anomalia, de uma forma diferente e até mais respeitosa, afinal era o que eu era e assim eu estava feliz. Mesmo lutando tantas batalhas e enfrentado problemas típicos da adolescência, eu me aceitei dessa forma, o problema era saber se minha família e amigos me aceitariam, um dia, quando eu tivesse a coragem de contar a verdade.

Eu fui burra tirando fotos minhas e enviando para Misuho, eu sei que fui, mas foi um momento, eu queria brincar com ela, nós já tínhamos intimidade para isso, nunca imaginei que alguém fosse hackear meu sistema, como poderia prever?

No dia em que fui exposta, me senti tão humilhada, vi pessoas que me admiravam me olhando com nojo como se eu fosse uma cadela sem valor. Oniisan brigou para me defender, eu não sabia o que fazer e nem para onde correr, estava em desespero, mas sobretudo eu tinha medo de que minha relação com a sensei fosse revelada.

Tive que passar por uma humilhante conversa com meus pais e a direção, orientação da escola, quando cheguei em casa ouvi mais, eu sabia que eles tinham razão, que foi burrice, falta de compostura tudo o  que eu fiz, então só me calei, me desculpei, não tentei nada em minha defesa pois não havia o que tentar.

No silêncio do meu quarto, fechei a porta e joguei minhas costas contra a mesma, me deixando deslizar até o chão, não conseguia pensar em nada, só chorar. Pela manhã a maior preocupação era as atitudes estranhas da Miyako-chan, agora meu mundo tinha caído.

Tailmon, timidamente, chegou perto de mim, seus olhos estavam tristes e curiosos. A vida dos humanos é bem mais complicada do que comer, dormir e batalhar para defender seu mundo eu só não sabia como explicar isso a ela, então a abracei forte e deixei minhas lágrimas correrem lavando minha alma.

Durante uma semana eu fiquei em clausura, sem contato com nenhum dos meus amigo e nem com ela, Taichi tentou parecer indiferente ao ocorrido, mas era nítido que estava muito abalado, tive oportunidades de chamá-lo para conversar, mas não tive coragem e assim apenas nos esbarramos pela casa, em busca de comida. Eu deveria ter contado tudo de uma vez, mas deixei a semana passar e então…

Então no início da próxima semana, lá estava eu pronta para aguentar os risos e o olhar de julgamento de quem, até pouco tempo, se declarava para mim, das garotas que dizem querer ser como eu, mas o pior estava por vir e veio, minhas conversas com Misuho-sensei, fotos nossas na casa dela, tudo foi exposto e julgado e eu não sabia o que fazer, como agir.

Fui encaminhada para a sala da orientadora e não vi para onde Misuho-sensei foi levada, estava muito preocupada com ela, lá fora Taichi batia nos garotos que falavam besteiras, para piorar uma briga grave se iniciou entre Yamato e ele, vi de relance pela janela. Kami, a escola está um inferno. O pior aconteceu… Os alunos estavam em polvorosos, sendo difíceis de controlar, muitos outros segredos íntimos haviam sido expostos, quando vi a polícia chegar meu coração apertou.

Arregalei os olhos ao ver minha professora sendo levada por dois policiais, sendo algemada como se fosse uma criminosa, não consegui mais ficar quieta e manter a calma, aquilo era injusto, ela não me obrigou, não me persuadiu, eu quem procurei por ela e precisava fazer alguma coisa, a orientadora tentou me deter na sala, mas não consegui e eu sai correndo pelos corredores, empurrando quem via pela frente e descendo as escadas, Taichi e Yamato, que eram levados para a detenção, começaram a correr atrás de mim, preocupados, chamando meu nome.

Eu não vi mais nada em minha frente, comecei a gritar o quanto era injusto e que estavam cometendo um engano. A professora estava evidentemente arrasada, com o rosto corado e marcado pelas lágrimas, ouvindo acusações de todos os tipos. Quando estava a poucos passos de distância do carro da polícia, a colocaram no banco de trás e a porta se fechou, os policiais entraram e deram partida, meus joelhos perderam a força e se dobraram de forma que cai sentada sobre as pernas, arrasada, desmascarada em frente a escola inteira e ainda vendo aquilo acontecer com a pessoa que eu amo e por minha culpa.

Taichi chegou correndo e se ajoelhou ao meu lado, me abraçando, enquanto Yamato parou do nosso lado, eu sei que estar perto é sua forma de dar apoio. Logo a orientação chegou, coisas sem sentido foram ditas, explicações pedidas, meus pais chegaram, não me importei com a desonra para a família ou para o meu nome, nem com a maldita opinião ou aceitação do resto, só conseguia chorar por ela.

Este foi o meu castigo, a luz nem sempre é de tudo boa, ela pode atrair e queimar, pode cegar, tenho usado a minha da pior maneira, tenho me escondido nela para não encarar a verdade, mas agora tudo veio a tona, tudo está perdido.


Notas Finais




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