História Instituto Mayfroyd para garotos especiais. - Capítulo 28


Escrita por: ~

Postado
Categorias Originais
Visualizações 49
Palavras 4.793
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Colegial, Drama (Tragédia), Escolar, Lemon, Romance e Novela, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 28 - The Great Party


Edward se olhou no espelho, esperava Vince sair do quarto. Havia botado um suéter justo e discreto, porém que ressaltava seus olhos esverdeados. Claro, ele não fazia noção disso. Não tinha como saber o quanto a sua presença mexia com o psicológico de Vince, mas não de uma maneira ruim. Ele sofria de uma maneira terrível demais para se nomear. Vince estava apoiado do outro lado da porta com as costas contra a madeira. Ele olhava de modo solitário para o basculhante do banheiro, uma pequena fresta de luz entrava entre os vidros. O dia estava ameno, um pouco luminoso e quente o suficiente para uma volta pelo quarterão. Pelo menos essa havia sido a recomendação da Dra. O'Nara. Edward estava esperançoso após as últimas sessões de terapia, os pais de Vince estavam também orgulhosos dos pequenos avanços. Vince ainda não falava muito, algumas monossilabas e meneios com a cabeça. Não se deixava ser tocado por muito tempo, mas já não repelia instantaneamente qualquer tentativa de contato. Mesmo assim, nada que exigisse muito corpo.
Vince fechou os olhos e respirou o vapor do banheiros por mais alguns segundos, o coração batia muito forte, tinha medo que Edward poderia estar escutando do outro lado do quarto. Olhou para o corpo magro e pálido no espelho embaçado, a toalha nos ombros magros parecia gigante perto do corpo frágil.
Edward checou no relógio mais uma vez, estava ficando preocupado com a demora, mas havia prometido que não o apressaria. Estava tão nervoso quanto Vince, mas não podia demonstrar. Até agora sua postura era de pura calma, analisava as situações com o máximo de imparcialidade para que pudesse chegar em uma conclusão benéfica para Vince. Porém estava ficando sem tempo, pra falar a verdade, não lhe restara nenhum. Com a subita volta das aulas, não teria a semana extra para ajudar no desenvolvimento de Vince para o julgamento. Não sabia qual seria a reação dele de o ver ir embora, se quer de saber que ele teria de ir. Vince estava melhor com os pais, mas Edward sentia que ele se portava mais relaxado ao lado dele. Não gostava de ter esse peso todo em seus ombros, toda essa responsabilidade psicológica, mas assim como sua mãe havia dito em uma de suas conversas por telefone, Vince era como um bebê aprendendo a andar de novo. A dependência era desgastante, mas assim que os primeiros passos fossem dados, o resto seria uma evolução rápida até que não precisasse mais segurar sua mão.

Vince saiu do banheiro totalmente vestido. O cabelo ainda úmido caía sobre os olhos que encaravam o chão. A roupa estava folgada, dando a ele um ar infantil. Edward pensou em abraçá-lo, mas apenas fez menção para que fossem andando. Desceram as escadas sem trocarem nenhum olhar, ao chegar na sala apenas Brandom estava lá para desejar-lhes um bom passeio. Edward abriu a porta da frente e sentiu uma lufada de ar fresco atingi-los. Saiu para o jardim, mas não conseguiu puxar Vince consigo.

- Vamos lá, já conversamos sobre isso. - Disse de forma encorajadora, mesmo sabendo que a conversa não passara de um monólogo.

Vince não se mexeu. Encarou o exterior como se visse a beira de um precipício. Voltou alguns passos para trás com a respiração acelerada. Edward respirou fundo e passou a mão pela cabeça.

- Precisamos fazer isso agora. - Coçou uma sobrancelha nervosamente. - Não temos muito tempo e você sabe disso.

Vince continuou a andar pra trás, dando uma rápida olhada para Edward.

- Olha, eu prometo que vai ser uma volta só. Eu não posso desacatar as ordens da Dra. O'Nara. - Sem nenhuma resposta de Vince, Edward deixou o corpo desmontar na escada, sentando de costas para ele. Suspioru forte e ficou olhando para a rua que não fazia a menor noção do que estava acontecendo ali naquela casinha afastada da calçada.

Ficaram assim durante longos minutos. Vince via Edward ali sentado, sem saber se estava desmotivado ou apenas sem ideias. Ele queria sair, ele queria deixar seus pais felizes, queria vencer aquilo. Ele sabia que era o certo a se fazer, sabia que seria o ideal. Estava sim um tanto orgulho do de si de conseguir levantar a cabeça todo dia, porém ainda sim tinha muitos problemas que não sabia como resolver. Tentava se forçar andar para frente, mas seus olhos marejavam com a menor lufada de ar. O terror o captava e paralisava seus membros. Sentia-se mal por ver Edward se esforçando tanto  e depois se frustrando. Ás vezes queria que fosse embora para poder ser um fracasso sozinho, porém depois não conseguia se imaginar sem ele do seu lado. Acordar e saber que ele estava no quarto ao lado era extremamente reconfortante, e pela primeira vez em muito tempo havia conseguido dormir sem pesadelos.
Tudo isso contribuía para a confusão mental de Vince, não havia notado que estava ficando a muito tempo sem respirar e só lembrou de fazê-lo quando pontinhos pretos apareceram na visão.

- Você está pesando demais. - Uma voz acolhedora sussurrou-lhe o ouvido. Vince virou para trás e viu Brandon em seu roupão gigante e caneca fumegante de café. - Sempre ficava com essa expressão quando estava aflito quando era criança. - Ele disse com um riso quase cômico. - Querido, o mundo não vai te engolir. Não agora, não enquanto estivermos aqui, ok? Olhe para o seu... Amigo. Concentre-se em alguma coisa nele, sei lá. Não pense no resto, lembra do que O'Nara disse? Um passo de cada vez.
Vince balançou a cabeça um pouco envergonhado. A voz de seu pai era tranquilizante, porém seus músculos doíam a menor menção de movimento.

- Como era aquela múscia mesmo? A que você tocou no aniversário da sua avó. - Perguntou como se estivesse distraído.

- Chopin.... Nocturne. - Disse em um sopro.

- Bom, você levou algumas semanas para gravar a partitura, não é mesmo? Tente repassar isso na sua cabeça. Faz algum tempo que não escuto aquela música de qualquer jeito. Desde que sua avó morreu.

Vince assentiu com a cabeça.

- Ela adorava aquela música. - Ele disse casualmente, antes de voltar para a cozinha.

Vince fechou os olhos e deixou o corpo relaxar. Imaginou que seus dedos estavam posicionados sobre a haste e o violino. Com movimentos quase imperceptíveis das postas dos dedos, começou a tocar a música em sua cabeça. Num momento estava na sua sala, no outro na antiga casa espaçosa de sua avó. Tinha quinze anos, um terno um pouco grande demais para ele. Havia ganhado o novo instrumento a pouco, presente da mesma avó que agora homenageava com uma de suas músicas favoritas.
Voltando ao presente, seus dedos tamborilavam na calça, olhos fechados por um momento. Dois passos vagarosos para frente. Edward levantou a cabeça e viu Vince do seu lado, absorto em seus próprios pensamentos. Piscou por um momento depois levantou agilmente, quase se desequilibrando nos próprios pés de espanto. Vince então passou por ele, como se tivesse esquecido de sua presença. Edward o acompanhava, sem entender o que estava acontecendo. Chegaram até o portão, o que fez Edward se virar preocupado para trás em busca de alguma pista do que fazer. Estavam sozinhos agora na calçada, o ar frio estava fazendo as bochechas de Vince corar, mesmo assim ele ainda estava absorto em seus pensamentos. Claro, podia perceber o mundo a sua volta, mas cada vez que a consciência beirava demais a realidade os ombros se retraíam e os paços ficavam mais bambos. Vince tinha o coração acelerado, tentava se concentrar agora em sua própria respiração, com forme se afastavam sem coração batia mais acelerado.

- Fazia algum tempo que o sol não saía por aqui. - Edward comentou sem muita esperança de começar uma conversa.

Vince olhou para cima, na direção das nuvens que se dissipavam. Por vez ou outra se pegava tentando imaginar com o que os contornos das nuvem se pareciam. O sol deixava suas silhuetas douradas e o contraste com o corpo cinzento mais visível.

- Vince!! - Edward gritou.

O rosto do menino voltou-se para frente de supetão, percebendo que estava na rua, a dois passos da calçada. O capo do carro vermelho avançava sobre ele como uma onda perto demais para tentar fugir da correnteza. Os faróis apagados pareciam olhos zangados de uma besta qualquer a encará-lo com certo sarcasmo.
Não pode tomar nenhuma atitude, não tinha tempo. O sinal estava aberto e ele como um fantasma parado na faixa de pedestre. Fechou os olhos de adianto protegendo-se da dor em reflexo. Um puxão para trás o fez cair de costas, mas não sentiu nenhum baque de frente. Ficou sem ar, a visão embassada. Um borrão vermelho e estridente passou por sua visão e foi embora com a buzina ainda chiando ao longe. As pessoas pararam para olhar, Vince não fez força para levantar, apenas ficou encarando o nada enquanto a respiração voltava ao normal.

- Você está ficando louco? - Edward estava diferente. Olhos extremamente agitados, peito inflado e um rago na camisa. - Você  realmente quer morrer?

A pergunta fez Vince esboçar alguma reação. Seus olhos tremeram, o corpo começou a se mover para levantar. Edward continuava gritando, sem lembrar em nada seu jeito discreto.

- Você não pode fazer isso comigo, Vince, não agora! - Com ambas as mãos agarrou a gola do garoto puxando-o para cima. - Acorda! Pelo amor de Deus apenas acorda! - Os olhos de Edward suplicavam. - Volta pra mim.
Vince estava mais assustado que nunca, a expressão de Edward o pegara de surpresa. Edward soltou a roupa de Vince e com agilidade o abraçou bem apertado. Um parto que sufocaria qualquer pessoa, porém Vince sentiu-se aconchegado. Um abraço que poderia ser embaraçoso em outra circunstância, mas no momento era exatamente o que ele precisava, como se o corpo de Edward moldasse em volta do seu em um abrigo quente e seguro.
Edward tremia e não sabia como tinha perdido a noção das coisas. Quando puxou Vince para trás viu que o mesmo não fazia nenhuma resistência, se quer havia tentado desviar. Era como se o piloto automático de Vince o estivesse guiando para qualquer lugar, e se por acaso topasse com a morte, seria mera coincidência.

- Você não tem esse direito... Eu não vou deixar. - Edward murmurava para si mesmo.

- Obrigado. - A voz baixa e tremula de Vince se fez ouvir ao pé do ouvido de Edward. - Obrigado.

Edward apertou os braços ainda mais e deixou sua cabeça descansar nos cabelos revoltos de Vince. Demorou a perceber que ele não afugentara seu toque.

Demorou a perceber que o mesmo o puxava para perto.


...

Patrick estava confuso. William não tinha motivos para se encontrarem secretamente, mas como as coisas com ele nunca eram do jeito mais simples, também não achou nada improvável. Pegou o celular pensando em mandar mensagem para ele, essa coisa de bilhetinhos não fazia muito seu feitio e Patrick não estava com humor para mistérios. Começou a escrever, porém também pensou que poderia ser alguma surpresa, um presente de despedida. Sorriu para si mesmo, não esperava algo assim de William, com certeza seria um tanto surpreendente. Guardou o aparelho e olhou em volta, não tinha noção de como seus cílios densos e boca entreaberta chamavam atenção no salão. Faltava pouco tempo para o horário mencionado e já sentia-se empolgado. De qualquer forma, a festa não estava despertando seu interesse, não tinha a finalidade e fazer contatos e bem provavelmente passaria a maior parte do tempo em algum canto comendo canapés, fingindo estar interessado na orquestra.

Checava o celular ansiosamente. Quando finalmente a tela mostrou o horário desejado, disparou para uma das saídas laterais do salão, que cortava caminho até o local indicado. A noite estava começando a esfriar, Patrick meteu as mãos nos bolsos e diminuiu as passadas para não se demonstrar muito ansioso, mesmo que seu coração palpitasse mais rápido. Já era um fenômeno normal de seu corpo reagir dessa maneira perto de Will, mas o garoto parecia nunca se acostumar.

Virou para um caminho sinuoso de pedra muito mal iluminado. Em face aos últimos acontecimentos no instituto ficava decepcionado de ver que o descaso continuava em alguns aspectos. O cheiro da mata viva fazia Patrick se acalmar, gostava daquela sensação fresca de estar em lugar aberto, sobre o céu nu e vegetação viva.

Aproximando-se não viu ninguém. A fonte estava lá, com suas luzes ligadas e o ladrilho da parte interna reluzente. O ar frio fez Patrick se arrepiar pela primeira vez. Ao fundo ainda podia ouvir a música do salão, porém quase indistinguível. Parou em pé a uma distância pequena da fonte, mas não perto o bastante para que a água pudesse respingar no terno caro. Olhou em volta, mas o silêncio era absoluto. Começou a se preocupar.

 

Uma silhueta se virou por trás dele, fazendo Patrick girar em seus pés e encarar, com certa decepção, Neil Richardson parado a sua frente.

- O que significa isso? - Patrick perguntou sem muita emoção na voz.

- Tenho certeza que um convite formal da minha parte não seria aceito por você.

- Não mesmo. - Patrick o encarou com uma mistura de raiva e receio. - O que quer comigo? Vai me bater também? Seu irmão vai aparecer aqui a qualquer momento para acabar com a minha raça e “recuperar a honra da família”? - Disse em tom irônico se afastando de Neil. - Estou cansado disso, não vou participar de mais um dos seus jogos doentios.

Neil mordeu o lábio, pouco consternado.

-Vim sozinho. Não quero causar mais problemas. Minha própria vida já está miserável o bastante, não pretendo estender esse prazer à vocês. - Ele parecia tenso, olhos cansados, mas bem atentos ao redor.

 

-Eu não tenho absolutamente nada para falar com você, Neil. Sinceramente acho que já acertamos o que tinhamo de acertar.

- Não estou aqui por você, Whitehead.

 

-Então vá falar com Will! - Patrick estava sem paciência. - Agora se me der licença, tenho uma festa para ir.

- Marysa tem se encontrado com o meu pai.

Patrick parou de andar e se virou para trás.

-Ela tem o visitado com mais frequência ultimamente. Eu sei que ela não está na lista de afetos de Will, e depois da piora do pai dele, sinto que essas visitas não são meramente a base de negócios.

-Do que você sabe? -  Patrick perguntou com a voz dura.

-Eu sei que eles tem se visto. Apenas isso.

-Então ela está tendo um caso com o seu pai?

-Não posso afirmar nada. - Neil estava sendo mais cauteloso. - Desde o nosso último… Incidente, fui cortado indeterminadamente dos negócios da família. Não estou mais a par de nada.

-Então como sabe disso? Como sabe se essa informação é ao menos relevante?

Neil estreitou os olhos e cerrou os punhos. Patrick por sua vez cruzou os braços mostrando que não se intimidava mais com a postura dele.

-Porque antes de você chegar, eu era o confidente de Will, se lembra? Eu sabia sobre as tragédias pessoais dele, e sobre os negócios da família. - Neil se aproximou mais - Era em mim que ele confiava.

 

-Exatamente. Até você o provar o contrário, não é mesmo?

 

Neil parecia ter levado um soco no estômago. O sorriso cínico de Patrick o fez se recolher e respirar fundo.

 

- Eu fui injusto com William. Eu sei disso. Eu fui ...Fraco. - As palavras arranhavam sua garganta. - Preferia mil vezes está tendo esta conversa com ele, mas ele não quer me ver ou falar comigo. - Arfou. - Não o culpo.

 

Patrick ainda o encarava com ar ressentido. Podia ver que Neil estava longe de estar bem, mas não conseguia sentir pena dele nesse momento.

 

-Ele realmente gostava de você, Neil. Will chegou até o extremo por sua causa. E olha como tudo acabou, não é mesmo.

 

-Eu sei - Disse de cabeça baixa. - Tenho noção do mal que causei. E não tem um dia que passe que eu não queria voltar atrás e ter agido diferente. Mas Patrick… As coisas estão mais difíceis do que você pode entender. Sua visão de mundo ainda é muito limitada.

 

-Você ficaria surpreso. -Arqueou uma sobrancelha.

 

Neil o encarou e piscou um pouco incrédulo.

 

-Está ficando cada vez mais parecido com ele.

 

-Deve ser a convivência. - Deu de ombros.

 

Neil piscou ainda mais confuso.

 

-Então vocês estão…

 

Patrick não respondeu.

 

- Bom, não fico tão surpreso. O interesse de Will por você era nítido. Nunca entendi.

 

Patrick revirou os olhos.

 

-Vai usar isso contra ele?

 

- Claro que não. Como disse, não quero mais causar danos a vida dele. É tão difícil assim aceitar isso?

 

-Vamos lá, Neil, você nunca foi conhecido por ser uma pessoa altruísta.


 

-Eu amei William. Não da forma que ele queria ou do jeito que ele esperava, mas eu o amei. Nossa história foi extremamente complicada e não espero que entenda. No final estávamos nos destruindo e o que tínhamos já não era suficiente para ele. Mas eu não queria que as coisas acabassem daquela maneira. Eu nunca quis ser um fardo pra ele, e isso me consome. - Um barulho estranho tirou a concentração dos dois, que ficaram alarmados por algum momento. - De qualquer forma, eu já disse o que tinha pra dizer. Marysa tem se encontrado com o meu pai e não acho que estavam apenas renegociando dívidas. Mas não posso dizer mais nada pois não quero comprometer a minha família nesse assunto.

 

-Então porque está me contando isso?

 

-Porque não quero que a última memória que William tenha de mim seja de um soco na cara.

 

Patrick o encarou por mais um tempo.

 

- Vou dar o recado.

 

-Obrigado, Patrick.

 

Patrick foi se retirando com a imagem de Neil em um semblante mais aliviado, mas a mesma postura fina de sempre.

 

-E Patrick.

 

Ele se virou.

 

-Eu não pude fazer o Will feliz, mas sei que você fará melhor.

 

Patrick se permitiu um sorriso cortes. Mas antes que pudesse retomar o seu caminho, uma dor lacerante atingiu sua nuca, junto com a imagem do mundo se embaçando a frente. Caiu com o rosto na pedra fria do chão. Manchas coloridas piscavam a sua frente enquanto o resto se desenvolvia em câmera lenta. A pancada pulsava dolorosamente, os olhos lutavam para se manter aberto, os braços fraquejaram quando tentou levantar.

 

Neil, não teve tempo de tentar ajudá-lo, mãos ásperas o agarraram por trás segurando seu pescoço com força. O ar faltou. Olhos esbugalhados procurando por rostos que não se revelavam. Viu Patrick caído no chão desacordado. Tentou se debater, mas outra figura entrou em seu campo de visão, e com um soco bem mirado, Neil foi arremessado para o lado, caindo dentro do chafariz. Não conseguia se levantar ,queria buscar ajuda, mas a última coisa que viu foi o tom escarlate da água.

 


 

William começou a se preocupar. Fazia um pouco mais de uma hora que não via Patrick, várias mensagens enviadas para o telefone dele sem qualquer resposta. Talvez não quisesse se despedir de novo, poderia ter ido para o dormitório por não ter conseguido se enturmar. Balançou a cabeça, sabia que não era aquilo. A festa estava extremamente monótona. Fora alguns investidores que vieram prestar as condolências por Marcus - o que incomodava Will saber que seus parceiros de negócios já consideravam seu pai um cadáver frio sob a terra- tinha seus assuntos importantes para tratar com o tão detestável anfitrião da festa, porém este parecia não estar em nenhum lugar para ser visto.

 

-Acho extremamente conveniente o fato de que Leonel não está ao alcance da minha visão. - Will sorveu mais um pouco de champagne.

 

Donavan descansava um dos braços sobre o balcão de bebidas.

 

- Com certeza ele vai te evitar por mais tempo. Não quer assumir sua parte do acordo. Eu não entendo porque vocês e os Richardsons se odeiam tanto, mas não pode ter sido só por causa de um romance colegial.

 

William deixou a taça sobre o balcão e ajeitou o paletó, um gesto mecânico que geralmente indicava impaciência.

 

-Digamos que os assuntos comerciais que temos não os deixam na melhor vantagem no momento. O que não é culpa nenhuma do meu pai, já que Leonel sabia no que estava se metendo quando recorreu a minha família por ajuda. - William se repreendeu mentalmente por estar falando demais daquele assunto. Tinha que aprender a ser mais profissional mesmo com seus amigos. Não podia deixar aquela informação vazar.

 

Quando voltou a Londres e resolveu assumir seu lugar nos negócios, não pensou que teriam tantos assuntos inacabados para lidar. Claro que Marysa tinha participação naquela bagunça. A mulher não sabia gerir as posses, por mais instruída que fosse, lidava com as coisas de acordo com os seus interesses pessoais, o que transformou o trabalho de Will infinitamente mais complicado.

 

A música foi cessando vagarosamente e um holofote surgiu no centro do palco rodeado de cortinas vermelhas. Uma voz grave anunciou que um comunicado oficial aconteceria, para que todos dessem uma salva de palmas para Leonel Richardson. William revirou os olhos. É claro que haveria um discurso.

 

As pessoas aplaudiam enquanto Leonel adentrava em um smoking perolado, elegante com toques escuros. O cabelo penteado para trás de forma jovial e um sorriso que cativava o mais inocente dos contribuintes. Com um quê modesto, fez sinal para que os aplausos cessassem. Agradecendo aos presentes, limpou a garganta enquanto encarava o salão com falsa surpresa.

 

- Primeiramente gostaria de agradecer a todos que puderam comparecer aqui essa noite. Como sabem, o instituto Mayfroyd, este magnífico legado fundado pelo meu avô, é o lar de mais de oitocentos alunos de idades variadas, que procuram o conforto da nossa instituição por um aprendizado qualificado e segurança para seus futuros. O instituto tem uma longa tradição de cuidar de gerações, assim como seus filhos estão sob nossos cuidados agora, a maioria de vocês já estiveram um dia. - Leonel fez uma pausa, como se encarasse olhos conhecidos procurando verdade em suas palavras. - Sempre fomos preocupados em oferecer o que há de melhor para esses garotos, assim como o meu avô, sou um homem extremamente disciplinado e preocupado com o que podemos passar para nossos filhos nessa batalha difícil que é se tornar um homem no mundo de hoje. Nossos resultados não mentem. - Ele andava casualmente pelo palco como se estivesse em algum tipo de TED talking, comandando o lugar. - Nossos alunos sempre se saem acima da média de acordo com o censo nacional. Temos uma taxa de aprovação nas universidades trinta por cento maior que os outros colégios da região. Sem falar na fila de matrícula. Mas não estou aqui para falar de números. Não preciso. Basta olhar para vocês, famílias bem sucedidas com uma história que cruza com a nossa. Pessoas que confiam seus bens mais preciosos a nós: Seus filhos.

 

William estava enojado. Gesticulou para o homem no bar recebendo outro copo. Não saboreu a bebida, apenas queria que o tempo passasse mais rápido para que não precisasse mais ouvir aquele tipo de baboseira. Ao mesmo tempo não tirava os olhos de Lionel. Não o perderia de vista, essa noite conversariam e as coisas seriam acertadas de forma a não deixar erros. Sabia que finalizando essa dívida, teria uma margem bem grande para começar o seu próprio legado nas indústrias do pai. Era assim que planejava conseguir o respeito merecido, as pessoas saberiam do que é capaz.

 

- Essa última semana foi marcada por uma tragédia horrível. Eu, como pai fiquei absolutamente devastado. Tivemos um dos nossos eventos de maior prestígio manchado pela brutalidade de alguém que não aprendeu uma das mais fundamentais lições do instituto, e por causa de seu coração ruim feriu um de nossos queridos alunos. Espero que a justiça seja feita nesse caso, espero que esse garoto tenha a chance de se recuperar. É claro que após a confusão nossa taxa de transferência disparou, e eu não culpo nenhum de vocês. Temem pela vida e segurança de seus filhos, assim como eu temo pelos meus. Esse episódio me abriu os olhos para o que poderia ser uma falha de nossa instituição. Então, após as investigações tomei a decisão de organizar esse evento com o intuito de mostrar a vocês nossas ideias para a modernização de nosso sistema de segurança, e para dar a minha palavra de que nenhum incidente como aquele voltará a acontecer sob a minha vigia. Mais uma vez, a presença de vocês aqui é extremamente essencial já que são mais que convidados, mas sim os futuros investidores dessa magnífica instituição acadêmica que, espero eu, ainda veja mais de suas gerações andando pelo campus. Muito obrigado, espero que tenham uma noite formidável.

 

Os aplausos e assobios inflaram o local. O homem desapareceu por trás da cortina, mas William sabia que agora ele teria que fazer contato com os melhores investidores em potencial. Ou seja, quanto mais grana no bolso, maior o sorriso cortes de Leonel. Tudo que precisava era esperar por mais alguns minutos antes de encontrá-lo casualmente apertando as mãos com o gerente do banco nacional.  Revirou os olhos, estava cansado e irritado com o sumiço de Patrick. Não queria dar nenhuma bandeira ao sair para procurá-lo, mas o que raios estaria fazendo? Tinha muito o que conversar com ele ainda, claro nada para aquela noite, mas de alguma forma estranha agora não conseguia se acostumar com sua ausência.

 

Pensou em Edward, o no que ele pensaria de toda aquela palhaçada. Na verdade, a ausência dele também era ruim para William. Não o via a muito tempo e sabia que as condições de Vince estavam se agravando, por mais que quisesse ajudar, não sabia até onde seria deixado contribuir.

 

-Esse homem consegue me surpreender a cada vez que o vejo. - Donavan disse com olhar focado no palco vazio. - É como se ele saísse de um programa de auditório ou algo assim. Um papagaio mecânico. - Pensou por um momento. - Eu assistiria um programa com um papagaio mecânico.

 

-Acredite, se esse homem é algum animal, está mais para um parasita. Daqueles que infestam a sua casa antes que você se dê conta, e então a única solução que sobra é botar fogo em tudo.


 

Donavan estreitou os olhos. Queria fazer perguntar alguma coisa, mas antes que verbalizasse, as luzes do local foram todas acesas de uma só vez, a música interrompida e as portas do salão interditadas por homens fardados. As pessoas se espremeram umas nas outras, William correu os olhos mais uma vez pelo salão e não encontrou Patrick, o que o deixou ainda mais alarmado. Andou entre as pessoas sem avisar Donavan, procurou entre os alunos mais novos e até perto do palco. Nesse meio tempo, Leonel foi forçado a aparecer de onde quer que estivesse se escondendo e ir diretamente falar com o chefe de polícia. Quando se aproximou da entrada principal, pode ver bem ao longe, quase no portão de chegada do instituto, luzes vermelhas que manchavam o céu.

 

-Isso não está bom. - Will murmurou para si mesmo.

 

Passando entre corpos tensos, com um pouco de dificuldade, William conseguiu se esgueirar para a passagem onde o cordão policial começava. Bem ao lado de Leonel - que não estava nem um pouco focado na presença de William no momento - conseguiu absorver algumas das palavras que o homem alto de distintivo brilhante falava.

 

- O local está isolado Mr. Richardson. Ninguém pode deixar o recinto. A investigação ainda está em andamento, mas precisamos que venha conosco. Trata-se de um incidente extremamente sério e não queremos causar alarde.

 

Leonel estava catatônico. Encarava o policial, mas não conseguia reagir. Seu maxilar tremeu algumas vezes antes que conseguisse cuspir algumas palavras.

 

- Eu não entendo. Deve haver algum engano. - Disse com a voz falhada.

 

-Por favor, Mr.Richardson, não queremos preocupar as pessoas aqui dentro, não é mesmo? - A voz do policial era calma, mas a frieza em seus olhos faziam William pensar em coisas horríveis.

 

-O que está acontecendo? - Perguntou para um outro homem fardado que ajudava a guardar as portas.

 

-Por favor senhor, mantenha a calma e não tente sair do recinto. Logo logo um oficial virá explicar a situação.

 

William não se conformou.

 

-Meu amigo sumiu faz mais de uma hora. Estou procurando por ele, pode pelo menos me dizer se tem alguma informação?

 

O policial suspirou forte mas se virou para William.

 

-Patrick Whitehead.

 

O homem conversou algo com uma policial que segurava o rádio perto da boca.

 

-Vocês estão juntos?

 

William fez que sim.

 

-Venha comigo, por favor.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...