História Into The Dead - Capítulo 41


Escrita por: ~

Postado
Categorias Fifth Harmony
Personagens Ally Brooke, Camila Cabello, Dinah Jane Hansen, Lauren Jauregui, Normani Hamilton, Personagens Originais
Tags Camren, Fifth Harmony, Romance, Terror, Zumbis
Visualizações 222
Palavras 6.828
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Crossover, Ficção, Orange, Romance e Novela, Saga, Shoujo-Ai, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência, Yuri
Avisos: Bissexualidade, Canibalismo, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Olá, meus amores! Cheguei finalmente com a explicação para as paradas que estão acontecendo! Sim, eu sei que prometi dois capítulos para uma pessoinha aí, mas... hoje eu não estou me sentindo bem, então teremos apenas este aqui.
Quero dedicar esse capítulo para duas leitoras especiais e que, surpreendentemente, são mãe e filha! Fiquei super feliz com essa notícia! Estão no coraçãozinho gelado da autora ♥
Quero também dizer que eu achei uma autora de fic tão sádica como eu... e olha, ela me deu umas ideias bem loucas... kkkkkkkkk
Mas, mesmo super feliz com o amor que vocês estão me passando, eu sei o quê vocês realmente querem: CAPÍTULO. Então... toma aí, walkers!

Boa leitura e me perdoem pelos erros!

Capítulo 41 - Capítulo 41


Fanfic / Fanfiction Into The Dead - Capítulo 41 - Capítulo 41

LAUREN PDV

Quando falamos de um Apocalipse Zumbi a primeira coisa, óbvia, que vem a nossa mente são os mortos-vivos. Pessoas correndo, pessoas sendo devoradas vivas, sangue, tiros, gritos e morte.

Essa, com certeza, é a primeira imagem que lhe vem à cabeça.

E na frente desse item eu coloco um X, porque de fato essa parte já passou.

A segunda parte, racionalmente, são pessoas tentando se defender e se proteger em locais seguros. Pessoas estocando comida, água e armas.

Mais um X nesse item.

A terceira parte, infelizmente, são as pessoas sobreviventes duelando entre si para ter aquilo que restou na face da Terra.

Mais um X.

Porém, há alguns tópicos que as pessoas não param e questionam. E eu, honestamente, entendo que não há tempo ou psicológico para pensar tanto em uma realidade tão caótica. Mas isso não faz com que esses tópicos desapareçam.

Eu, sinceramente, nunca me questionei o que aconteceu, por exemplo, com os zoológicos, com os aquários, com as indústrias que necessitavam de pessoas, com as empresas que monitoravam barragens e outras situações que necessitavam de acompanhamento. O que aconteceu com essas coisas que necessitavam de pessoas, o tempo todo, tomando conta? Pois, obviamente todas fugiram ou morreram.

O que aconteceu, por exemplo, com os hospícios, com os hospitais, com os... manicômios?

Os pacientes, que eram ditos perigosos para a sociedade, morreram? Tornaram-se zumbis? Conseguiram... liberdade?

Um Apocalipse não é apenas sobre os mortos... mas também sobre os vivos.

É um caos.

E eu estou vivendo nele.

 

*Music On* (Do You Really Want To Hurt Me (Denmark + Winter Re:Imagined))

Cientificamente falando, a visão é sentido responsável por cerca de 80% de nossas entradas sensoriais. Em outras palavras, ela toma para si muito da interpretação do cérebro perante aquilo que o cerca.

Mas, quando esse sentido é tirado de nós, os outros quatro se afloram, justificando o porquê dos cegos terem os outros sentidos sensoriais tão desenvolvidos.

Mesmo com os olhos não vendados, eu, nesse exato momento, encontrava-me presa no interior de um quarto totalmente banhado pela escuridão, o que fazia minha audição e o olfato se aguçarem.

Ao fundo eu conseguia escutar o arranhar agourento de unhas contra madeira. Estava grave demais e ríspido demais para ser o arranhar das patas de um animal, então, de duas uma: ou era um zumbi ou era um humano.

Eu conseguia também sentir a carniça forte e, por causa da minha ampla experiência de dois anos em meio a um Apocalipse Zumbi, sabia que se tratava de carne humana.

Se o medo não estivesse apertando tanto o meu estômago, ao ponto de sentir vertigens, eu estaria faminta. Meu corpo já dava sinais de falta de banho por causa do cheiro forte. Eu sentia minha pele imunda, até porque estava em um lugar imundo.

Para manter-me sã, eu tentava ter pensamentos positivos.

O primeiro deles: pelo menos não tinha uma música alta tocando ao ponto de me deixar louca.

O segundo: eu já estava ali há muito tempo, tanto que perdi a noção dos dias. E, se eles não haviam me matado ainda, era porque estavam esperando algo ou alguém.

O terceiro: por mais faminta que eu já tenha dito que estou, eles me traziam comida constantemente. E isso me deixava bem confusa, porque da última vez que estive nessa situação isso não acontecia.

Eu era uma prisioneira, isso é óbvio.

Apenas minha mão esquerda estava presa, por uma algema, a um cano grosso no canto de uma sala que cheirava a madeira velha e naftalina. Eu estava assim, certamente, para que conseguisse pelo menos arrastar com a mão direita a bandeja que era jogada até mim com pães embolorados. O pulso esquerdo já estava vermelho e irritado, quase na carne viva devido às inúmeras vezes que tentei, com puxões, me soltar dali.

Tinha também quase a plena noção que um corredor passava logo à frente. Eu ouvia passos e, às vezes, alguém abria a porta – o que acontecia por meros segundos e por causa do clarão externo eu não conseguia ver muita coisa – me analisava por longos segundos e então fechava a porta outra vez.

Nas piores madrugadas eu escutava gritos.

Gritos agonizantes que me deixavam apavorada.

As pessoas gritavam como se sofressem uma dor terrível, como se algo rasgasse seus corpos, como se algo estivesse as matando.

E o que me mantinha sã? A ponto de não entregar-me às vozes que estava a um fio de dominar minha mente tão fraca?

A imagem de Camila.

Nas poucas vezes que consegui dormir, eu sonhei com ela.

Sonhei que ela estava viva e me acolhendo em seus braços. Que o seu cheiro tão característico bailava ao redor e que seu calor me mantinha segura. Quase conseguia sentir seus dedos brincando com o meu couro cabeludo como ela adorava fazer. Quase sentia o sabor de seus lábios contra os meus, quase conseguia ouvir o tom melodioso da sua voz, quase conseguia sentir sua presença.

E isso durava até que eu acordava outra vez e os gritos, a carniça, os passos ressurgissem.

E com eles as imagens das mortes.

A morte da minha irmã Taylor, a morte de Troye, a morte de Alessia, a morte de Keana, a morte de Regina, a morte de Simon.

Imagens que corroíam minha mente e deixavam-me cada vez mais à beira de um precipício de autodestruição, que eu tinha a plena noção, que não voltaria mais.

E dessa vez eu não teria alguém para dar a mão e me salvar.

Porque a minha heroína estava morta.

Basicamente, ali, parada em meio ao escuro e frio que me fazia arrepiar diversas vezes no dia, eu precisei me acostumar com o nada.

Eu já havia acordado ali após ter sido encapuzada e apagada com uma pancada.

Eu havia sido esquecida ali.

Ou melhor...

Eu queria ter sido esquecida ali.

 

Um barulho estrondoso ecoou no corredor, fazendo-me tencionar por completo. Institivamente, com minha audição aguçada, eu ouvia os passos pesados se aproximarem cada vez mais.

O medo de eles entrarem ali decididos a fazer algo comigo dessa vez voltou com grande intensidade, o que gerou uma fisgada de dor em meu peito por causa do meu coração acelerado.

Mas, ao invés disso, eles passaram direto e eu ouvi barulhos como se alguém lutasse contra eles.

- NÃO! – um tom grave masculino ecoou, angustiado. – NÃO! ME SOLTEM! SEUS DESGRAÇADOS, ME SOLTEM! NÃO! POR FAVOR, NÃO!

Um barulho de porta se fechando ressurgiu, com um estrondo. Os gritos do homem ficaram mais abafados, além de seus tapas contra a madeira, indicando que ele havia sido preso também dentro de um dos quartos próximos.

O que mais me assustava era que, em todo aquele tempo, eu não ouvia nenhuma conversa além dos gritos agonizantes na madrugada.

As pessoas que moravam ali não falavam.

Nem uma palavra.

Permaneci então em silêncio por um tempo tão grande que não soube contar. Foram horas, mas não sabia ao certo.

Eu muitas vezes dormia para tentar fazer o tempo passar e conseguir escapar, quando os sonhos eram bons, para um universo onde apenas existia eu e Camila.

E eu estava em um sonho muito bom quando fui, aos poucos, resgatada à consciência.

- Me ajude... – sussurro angustiando ao fundo me fazia acordar. – Por favor, eu sei que tem alguém aí... me ajude...

Engulo um grunhido por causa da posição desconfortável em que eu me encontrava. Meu corpo já reclamava daquela posição sentada, com um pulso preso ao cano no chão.

Mantive-me em silêncio por mais egoísta que isso soe.

Ainda existia uma mínima esperança que se eu me mantivesse quieta, em um “bom comportamento”, eles iriam me soltar.

Um tempo passou e outra vez eu não soube dizer se foram minutos ou horas.

- Você sabe o que é isso aqui? – a voz ressurgiu em meio ao silêncio agonizante. – Eu sei o que é isso aqui... – ele se auto respondeu e eu pude sentir escárnio em sua fala. – Você quer ouvir uma história? – perguntou, retoricamente, já que me mantinha em silêncio em meio à escuridão. – Eu costumava ser um jornalista. Não se você sabe, mas... estamos no estado de Arkansas, mas aproximadamente na região sudeste...

“Wow... eu estava tão longe de casa assim?” minha voz interna me questionou.

- Eu sou daqui. – o cara continuou sua conversa sozinho. – Consegui me manter perto de casa, felizmente. Eu fiz Jornalismo na Universidade daqui. E... – ele hesitou, divagando. – Para me formar... eu precisei fazer meu TCC e eu decidi inovar. Decidi fazer sobre um assunto polêmico. E viajando no histórico das regiões do estado eu encontrei essa vilazinha abandonada. Você pelo menos tem uma mínima noção de onde está, certo? – me perguntou outra vez e eu não respondi. – Isso é um manicômio!

Eu engoli seco, com minhas entranhas apertando automaticamente.

- Eu descobri em pesquisas, não tão dentro dos padrões, que... – ele fala, pigarreando. – Isso aqui havia sido esquecido pelo Governo dos Estados Unidos da América. Na época da Segunda Guerra Mundial esse lugar estava completamente lotado de pessoas... às vezes nem eram realmente psicologicamente doentes. Eles simplesmente jogavam aqueles que se opunham ao Sistema aqui dentro e lhes proporcionavam situações terríveis. E foi assim que os experimentos ilegais surgiram. Os médicos daqui, mesmo depois da Guerra e beirando a década de 80, usavam pacientes para serem cobaias em experimentos ilegais, algo sobre quererem achar a cura do câncer. Tudo era fachada nesse lugar. Do nada pacientes desapareciam ou eram encontrados mortos no meio da floresta, mas, magicamente, o assunto era abafado para que não fossem pedidos exames para descobrir as causas da mortes. E com o Estado ignorando isso, as experiências perduraram até o final de 2005... até que tudo foi descoberto pelo Governo da época. Eles mudaram os médicos e prometeram que melhorariam a situação dos pacientes, que tanto sofreram por anos. Mas, bastou o Governo mudar outra vez, que o lugar fora esquecido de novo. Eu me formei em 2008 e até aquele momento nenhum registro de experiência novamente fora notado. Mas, eu não me senti saciado com essa história. Eu fui atrás de mais, eu queria saber sobre essas vítimas. E eu descobri que os pacientes desses médicos nunca mais foram os mesmos. Eles se tornaram mais psicologicamente afetados. O único refúgio que eles encontraram foi na religião. A vizinhança, que se resume basicamente à vilazinha próxima, ao descobrir o que acontecia aqui tentou os curar com Deus. Rezaram inúmeras missas aqui de fora, jogaram crucifixos pelas janelas. Tudo isso para “curá-los” da loucura que era proveniente da falta do Senhor.

Ele parou de falar por alguns segundos ao perceber que havia se empolgado demais.

Ouço seu suspiro pesado.

- Minha teoria? – disse, com um tom meio angustiado. – Os pacientes loucos tomaram esse lugar após o início do Apocalipse Zumbi. E... pelo que vi, a paixão pela religião se tornou obsessiva. E... infelizmente.... – ele hesitou, fazendo-me esperar. – Eu tenho quase noventa por cento de certeza que estão armando um sacrifício... para que Deus termine com o Apocalipse, já que eles possivelmente pensam que seja um castigo. Quero dizer... – ele dá uma risada baixinha, meio desesperada na verdade. – Essa última parte eu escutei um deles falando.

A bile já amargava minha garganta enquanto minha mente imaginava cada cena descrita pelo homem. Isso explicava as marcas que eu vi nos braços deles, as queimaduras, os crucifixos, a sujeira, o olhar psicótico.

Mas, o que mais me atormentava era: “Por que eles sabiam o meu nome?”.

E então, mais que automaticamente, as teorias começaram a surgir na minha cabeça nublada.

Seria eu o sacrifício?

- Sabe... – ele falou após alguns segundos em que o silêncio perdurou. – Você tem a noção que eu estou escutando a sua respiração meio acelerada, não é?

E então só assim que percebo que estava hiperventilado.

Fecho os olhos, por mais escuro que tudo já estivesse, e tentando mandar minha mente para outro lugar.

Outro lugar em que as vozes não a dominassem.

- Você está b...

- Só cala a boca! – eu rosno sem ao menos notar.

- Ok... – a voz surgiu ao fundo, meio assustada com meu tom rude. – Só quero dizer que é bom saber que você realmente está aí e que eu não estava louco...

- Só cala a boca e me deixe tentar respirar! – eu ralho em meio às lufadas de ar que saíam por minha boca.

- Me desculpe... quando estou nervoso eu começo a falar muito. – ele se justificou.

O ar que parecia queimar meus pulmões foi aos poucos sendo expelido e, apenas uma mísera parte da minha calma voltou. Minha respiração normalizou e longos minutos depois eu já me sentia um pouco melhor. Mas as lágrimas já se acumulavam em meus olhos, mesmo abertos vendo apenas escuridão.

- Meu nome é Shaun Ross. E o seu?

- Isso importa?! – pergunto, sendo rude de propósito.

Eu iria morrer ali mesmo, porque deveria me tornar amiga de alguém?

- É claro que importa! – o homem me retrucou. – Ainda somos humanos civilizados, pelo menos eu acho. Qual é o seu nome?

- Lauren Jauregui... – eu exalo em um suspiro cansado.

- Oh... é um prazer, Lauren. – ele disse educadamente. – Há quanto tempo está aqui?

- Eu não tenho a mínima ideia. Talvez algo próximo de cinco dias...

- Cinco dias? – o tom preocupado de sua pergunta me deixou bem apreensiva.

- Por que a surpresa?

- Eu não acho que comentei... – ele recomeçou seu monólogo. – Mas... eles acham que estão na Terra para purificá-la. Eles fizeram isso com o meu amigo! Eles chamam o assassinato de “Dar Misericórdia”, pois acham que assim estão libertando a alma da pessoa do martírio que assombra a face da Terra.

- E... – murmuro, ainda sem entender.

- Lauren... – Shaun murmura, sério. – Você deveria estar morta! Eu sou apenas uma questão de tempo! Sabe... eu sou albino! E eles ficaram bem surpresos ao me verem e eu acho que é porque nunca viram alguém com essa cor de pele. Mas, como disse, é apenas uma questão de tempo até que percebam que eu sou normal e venham me matar. Você por acaso também é albina?

Por meros segundos eu pude ouvir a voz da Dinah me caçoando e respondendo que sim.

- Não. – respondo, ainda mais confusa.

- Você tem algo de especial para eles?

- Não.

Shaun então pigarreia e fica um silêncio que só poderia significar péssimas coisas.

A expectativa queimava minhas entranhas.

- Shaun... – eu o chamo após os segundos torturantes. – Só fale de uma vez o que você está pensando...

- Isso não é uma coisa boa, Lauren... – a preocupação em sua voz era palpável.

- Você acha que eu sou o sacrifício? – pergunto com um fio de voz.

- Eu não sei... – ele exalou. – Mas você tem que possuir algo para eles te manterem viva.

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Noite de Quinta-feira, 12 de Outubro.

 

- Nós temos que escapar daqui! – a voz de Shaun bailou no silêncio.

Possivelmente um dia havia se passado ou, talvez, umas vinte horas.

Shaun era um típico tagarela. Certamente ele usava do seu falatório como escapatória para o medo que o corroía. O jornalista já havia me contado toda a sua vida, a sua paixão pela profissão que escolhera, o porquê de amar Investigação. Havia relatado como costumava ser antes do Apocalipse, como sobreviver até ali – o que era basicamente ele vivendo em uma casa minúscula com comida enlatada. Ele era órfão e estava sozinho antes mesmo do mundo virar um caos.

Eu, sinceramente, me questionava como uma pessoa aparentemente tão indefesa... sobrevivera até ali.

Em relação aos loucos do manicômio, eles já haviam vindo ao meu quarto três vezes me alimentar enquanto Shaun não recebera um mísero grão de comida, fato este que apenas reforçava nossa teoria.

Sim, eu era o sacrifício.

E eles estavam me engordando como um animal para o abate.

Chega o momento na sua vida, principalmente na minha conturbada, que eu já não conseguia raciocinar com clareza o porquê de tudo aquilo apenas acontecer comigo.

Talvez essa fosse a minha sina. Talvez esse fosse o meu Destino.

Os pensamentos já me torturavam há horas.

Por que eu?

Por que eu?

Talvez eu fosse A Escolhida, como Shaun disse ao tentar me acalmar horas antes.

O problema era que eu nunca acreditei em Destino. Eu nunca acreditei nisso por que não faz sentido contradizer o livre-arbítrio.

Eu faço meu próprio Destino, porque ações são reais.

- Por que a pressa? – eu dou uma risadinha de escárnio. – Está tão gostoso esse SPA.

- Eu tenho uma nova teoria... – ele murmura.

Eu reviro os olhos, bufando audivelmente.

- Suas teorias nunca são teorias. Você é esperto demais para apenas criar uma hipótese. Tenho a leve impressão que as suas “teorias” estão noventa e nove por cento verdades... – eu resmungo.

- Ignorando seu humor ranzinza... – Shaun continuou, quase acostumado comigo. – Eu acho que sei o porquê de eles estarem esperando algo para fazer o sacrifício.

- Hum... – ronrono, indicando que estava ouvindo.

- Eu tenho quase certeza que a próxima sexta-feira, dessa semana, é uma sexta-feira 13. E também será Lua Cheia.

Eu dou outra risadinha de descrença, por mais nervosa que estivesse.

- Ah, e você acha que o Jason e um lobisomem vão duelar e...

- Lauren, eu estou falando sério! – o albino me interrompe, sério. – Lua Cheia sempre foi o marco de rituais! Eles acreditavam que o satélite consegue influenciar no humor das pessoas e se encontra mais iluminado possível, sendo a ocasião perfeita para comunicar com Entidades. Para muitas pessoas, o número 13 pode até significar sorte, para outras, principalmente para os religiosos, é o dia em que Jesus foi crucificado. Na sua última ceia estavam 13 pessoas sentadas à mesa, sendo o Judas o último discípulo a chegar.

Eu engulo seco, agoniada.

- Então o que você está querendo me dizer é que o Sacrifício pode acontecer nesta madrugada... amanhã... – digo, sentindo meu coração martelar. – Qualquer dia...? Até porque não sabemos ao certo em que dia estamos!

- Sim, é exatamente isso que estou querendo dizer... – Shaun completou e eu conseguia filtrar o medo em sua voz.

Mordo meus lábios ao sentir o queixo começar a tremer e as lágrimas queimarem minhas órbitas aterrorizadas.

 

- Então te respondendo... Sim, nós precisamos sair daqui! – rosno, quase entrando em desespero. – Já tem alguma ideia em mente?

- Você sabe me dizer como é a pessoa que lhe traz comida?

- Como assim?

- Se é mulher ou homem, magro ou gordo, forte ou fraco?

- Shaun... – eu exalo, com escárnio. – Eu não consigo ver nada além de uma silhueta quando eles abrem a porta!

- Por mais zonza e cega que esteja pela escuridão, você precisa se lembrar de como era a silhueta!

- Eu... – hesito, tentando me lembrar da forma do corpo que era borrada em minha mente. – Eu acho que é magro! E cheira suor e urina...

- Sim... havia um magrelo... ele e mais outro me empurraram para cá. – Shaun murmurou. – Ele é muito fraco. Acho que você consegue!

- Consigo o quê?! – pergunto, confusa.

- Acerte-o na garganta, Lauren! Você tem uma mão livre! Provavelmente eles não chegam tão perto, mas você tem que fazer isso! Se você der uma pancada certeira na garganta ele vai ficar sem ar o tempo suficiente para você pegar as chaves na cintura dele!

- Como eu vou...

- Se vira, Lauren! Merda, alguém está vindo!

A voz de Shaun se tornou um mero sussurro assim que passos pesados ecoaram no corredor longo.

Meu coração saltou em questão de momentos e eu tentei regular minha respiração para mandar oxigênio para meu cérebro. Sem ar eu não conseguiria pensar sobre pressão.

E como esperado a porta do meu quarto foi aberta, com as dobradiças enferrujadas arranhando pela falta de óleo. O clarão repentino cegou-me outra vez, o que me obrigou a virar o rosto para o lado por causa da ardência em minha retina. Geralmente era esse o tempo gasto pela silhueta que vinha até mim: aproveitava minha zonzeira, colocava o prato há poucos metros de mim, dava meia volta e fechava a porta com um estrondo.

Mas dessa vez, mesmo com os olhos semicerrados e ardendo, eu virei o rosto para frente.

- Ei... – eu falo baixo, por mais que já houvesse tentado fazer isso.

Eu já havia gritado com ele, o xingado, implorado em meio ao choro, mas ele nunca fazia nada. Apenas dava-me as costas e saía do quarto.

- Eu sei porque estou aqui! – eu falo, sentando-me sobre meus calcanhares.

Pisco com rapidez para tentar me acostumar com a claridade, sentindo as lágrimas acumuladas no canto dos olhos.

Entretanto, felizmente, a silhueta parou e seus passos cessaram perto da porta, indicando que ele ficara estático.

- Vocês querem fazer um sacrifício, não é? – continuo a falar, engolindo seco o medo na minha garganta.

Aos poucos minha visão se acostumou com a claridade. Ao fundo eu pude ver que a pintura da parede era branca e estava trincada. A silhueta masculina estava parada perto da porta de madeira também branca e o movimento dos seus ombros indicava seu diafragma trabalhando.

O silêncio logo veio, não sendo absoluto apenas pela existência da respiração chiada do individuo. Ela era ritmada, mas pelo chiado indicava que ele talvez tivesse algum problema nos pulmões.

- Sim. – a resposta veio simples, mas áspera. Ele também não se virou, mantendo-se com a mão na maçaneta. – E você é perfeita para isso!

Talvez o cara tivesse apenas uns vinte e poucos anos, mas seu corpo estava tão debilitado que encontrava curvado para frente. Além que, o timbre de sua voz, era tão arrastado quanto o de uma pessoa velha.

- Por quê? – pergunto, franzindo o cenho.

Eu precisava fazê-lo voltar, pois agora meus olhos miravam o molho de chaves preso em seu jeans.

E devagar o indivíduo se virou para mim, deixando-me ver a pele cheia de marcas de seu rosto. Além da sujeira acumulada, existiam hematomas e queimaduras que marcavam todo o seu lado direito do rosto, indicando talvez uma possível punição.

Era nojento olhar para ele e eu precisei ter controle para não fazer uma careta.

- Você é saudável, fêmea, forte e... – a cada palavra que dizia, ele dava um passo na minha direção de forma ameaçadora, fazendo-me encolher. – Acima de tudo, uma impura! Você é uma assassina!

- Como sabe disso?! – gaguejo, apavorada.

- Conversamos com o psicólogo... – o rapaz ladeou a cabeça, olhando-me de forma psicótica. – Depois de algumas brincadeirinhas que fizemos com ele... – um sorriso nasceu em seus lábios secos. – Ele nos contou que você já havia matado várias vezes antes. Mais que qualquer um no grupo.

Ele agora já se encontrava perigosamente perto de mim, ao lado do prato que tinha pão embolorado e um molho estranho.

A carniça de sua essência corporal era ainda pior dali.

- Você é uma Impura e, além disso, se relaciona com o mesmo sexo! Pecadora! – ele praticamente rosnou a última palavra com nojo.

Bastou ele dizer aquilo para que a raiva brotasse sobre o medo, tornando-se uma emoção mais eficiente. Por toda a minha vida aqueles tipos de comentários me atormentaram, incriminando-me por dar a amor a uma pessoa do meu sexo.

Com um tiro de coragem por causa da raiva e um movimento rápido, eu ergui meu punho já fechado em direção de seu pescoço, atingindo em cheio na traqueia.

O homem engasgou com o músculo fechando-se institivamente, o sufocando-o. Ele começou a tossir e tentou dar passos para trás, mas eu estiquei minha perna e lhe dei uma rasteira no calcanhar, fazendo-o cair com tudo.

O choque com o chão fora tão forte e certeiro em sua nuca que o rapaz apagou imediatamente.

Mesmo com a algema machucando meu pulso, eu me estiquei o máximo que consegui e puxei o molho de chaves em seu cinto. O barulho da pancada fora alto o suficiente para propagar no corredor vazio, o que me dava meros segundos antes que alguém surgisse.

- Lauren?! Lauren?! Você conseguiu?! – ouço a voz preocupada de Shaun.

- Sim! – eu respondo enquanto tentava a primeira de quase quarenta chaves que existiam ali.

Meus dedos tremiam, dificultando meu ato.

- Você precisa ser rápida! – ele estava desesperado. – Por favor, venha me soltar também!

- Eu vou, espere! Mas cale a boca ou vão nos achar! – rosno, enfiando a terceira chave no buraco da algema.

Felizmente na sexta tentativa eu ouvi o “Crack” e o metal se soltou de meu pulso, libertando-me.

Levanto já estabanada e corro até a porta que continuara semiaberta. Graças a uma janela fechada por grades, mas com vidros transparentes, eu pude perceber que era final da tarde.

Os raios de sol já haviam perdido muito de sua intensidade para a noite que se arrastava.

- Lauren?! – Shaun me chamou, desesperado.

Tento procurar por sua voz que propagava pelo corredor grande. Ali era gelado e medonhamente longo com diversas portas pintadas de preto. No canto das paredes acúmulos de sujeira eram vistos, pedaços de pano e coisas orgânicas que o meu inconsciente temia que fosse vísceras humanas.

Mas eu preferia pensar que não fosse, mesmo com o cheiro forte.

- Lauren! Aqui!

Sigo a voz do rapaz e por intuição tento uma porta. Sorte ou não, com a primeira chave que eu tento a maçaneta girou, abrindo-a.

Corro até o homem agachado no canto do quarto. De fato ele era albino, chegando a ser até meio assustador de se olhar. A pela era totalmente branca e os pelos, os cabelos tinham um tom amarelado âmbar. Os lábios eram carnudos e olhos claros.

Agacho-me ao seu lado e tento a mesma chave que eu abri a minha algema.

Funcionou.

Ele logo se coloca de pé e, juntos, saímos correndo de seu quarto.

- Obrigada! – Shaun sorri, sendo possível ver a total gratidão em seus olhos.

- De nada! Agora vamos sair daqui!

Nós dois então começamos a correr próximos à parede e evitando que nossas silhuetas aparecessem através das janelas. Paramos apenas quando chegamos ao final do corredor, que terminava em uma interseção com outro.

Aquele ali era sem luz, deixando que as outras portas e outras interseções se tornassem caminhos perigosos. Na verdade, todo o restante do lugar se encontrava em completa escuridão, com as persianas e cortinas grossas tampando qualquer raio de sol que tentasse passar por ali.

Eu inspiro fundo e com Shaun na retaguarda me infiltro na escuridão, ouvindo meu coração bater tão rapidamente que ecoava em meus ouvidos.

Com meus olhos acostumados eu podia ver algumas estantes de madeira, cadeiras, mesas, pedaços de moveis quebrados pelos corredores abandonados. O chão era repleto de papeis amassados e rasgados, além, claro, de manchas escuras que logo deduzi ser sangue.

Continuamos a seguir pelo corredor e para me guiar usei a parede de tijolos brancos. A textura arranhava a pele da minha mão suada por causa do nervosismo. Às vezes viam-se buracos de balas indicando um possível confronto quando os pacientes tomaram aquele lugar.

E então, quando barulhos de passos ressurgiram ao longe, meu corpo congelou por completo.

Minhas pernas travaram, fazendo Shaun que estava trás chocar-se contra minhas costas.

Pressiono meu dedo trêmulo contra os lábios, ordenando para que ele não fizesse nenhum barulho.

Ele, mais rápido do que eu imaginava, me agarrou pela mão e me puxou na escuridão. O albino surpreendentemente havia visto uma porta aberta e assim que me empurrou por ela, a fechou com cuidado para que nem um barulho fosse feito.

Aquele cômodo fedia.

Shaun se distanciou apenas para abrir um pouco da persiana e os últimos raios solares do dia atravessaram o vidro transparente da janela.

A noite estava caindo com a Lua Cheia chegando.

E quando Shaun se aproximou de mim outra vez, precisou colocar uma mão sobre a boca e segurar um grito assim que avistou a prateleira cheia de cabeças arrancadas, que estava disposta à nossa frente.

Os olhos ainda estavam abertos e nas bocas havia mordaças, essas que certamente evitaram que eles gritassem quando foram degolados. Eram homens, mulheres e incrivelmente até crianças.

A bile amargou minha garganta e eu apenas consegui girar o rosto, com o líquido azedo escapulindo por minha boca.

- Merda... – ouço Shaun resmungar, fazendo uma careta.

Eu ainda estava meio zonza pelos vômitos quando o albino outra vez me agarrou pela mão e começou a me puxar em direção da porta. Não podíamos perder tempo, caso contrário, notariam que havíamos fugido.

O rapaz me guiou pelo corredor enquanto eu recobrava minha total consciência, pois, minha mente me condenava com as imagens traumatizantes da minha irmã tendo o seu pescoço cortado na minha frente.

Aquele lugar havia fodido com o resto do meu psicológico.

Passávamos por mais e mais corredores abandonados. Víamos quartos com grades em frente às portas, víamos cadeira de rodas deixadas nos cantos, víamos marcas de mãos. E, com o pouco de luz que tínhamos de algumas janelas abertas em determinados quartos, víamos as inúmeras e intermináveis cruzes presas às paredes.

Quando finalmente chegamos a uma porta no final do corredor e a abrimos, percebemos que havíamos entrado nos fundos de uma antiga capela.

Diferente de todo o resto do outro lugar, este estava limpo. Por mais que papeis estivessem também espalhados por todos os lados e os moveis bagunçados, aqui, no pequeno escritório, não continha sangue.

Paramos de correr e usamos alguns segundos para recobrar as respirações irregulares.

- Há algo errado... – Shaun sussurrou, com o olhar preocupado. – Onde está todo mundo? Será que eles estão distraídos com alguma coisa?!

- Eu não sei, mas talvez isso seja o sinal para continuarmos antes que eles brotem do nada... – respondo, cuspindo para o lado o resto amargo da minha boca.

O albino assentiu com a cabeça e outra vez começou a caminhar à frente. Enquanto ele caminhava até o extremo do cômodo onde havia uma porta, eu comecei a analisar os papeis abandonados sobre uma mesa com um computador antigo.

Pego um papel que me chamou a atenção por conter um símbolo de “tóxico”, conhecido pela caveira.

Meus olhos aos poucos foram se arregalando ao ler o conteúdo.

- Eles estão tentando fazer a cura. – eu balbucio, ainda lendo.

- O que?! – Shaun virou-se para mim.

Eu ignoro sua pergunta retórica e me aproximo dele apontando para uma determinada parte do parágrafo.

- Isso aqui não são medicamentos ilegais usados para drogas? – pergunto, encarando o jornalista que lia o papel.

- Como você sabe disso?! – ele ergue o olhar para mim, meio cético.

- Digamos que na faculdade eu gostava de usar coisas ilegais... – dou de ombros. – Eu conhecia um cara. Wesley. Ele era um traficantezinho meia tigela, mas, uma vez, me apresentou quem produzia. Isso aqui... – digo, apontando para os itens. – Isso aqui é coisa perigosa!

- Isso é coisa de nanotecnologia, Lauren... – Shaun murmurou, voltando a ler. – Alguma coisa sobre proteínas e...

- ME AJUDEM!

O albino foi interrompido pelo pedido desesperado que vinha do interior da igreja.

Nós dois ficamos estáticos, esperando o barulho repetir.

- Me ajudem, por favor!

Eu e o rapaz nos entreolhamos.

Ele suspirou e dobrou o papel, colocando-o no bolso de trás de sua calça jeans suja. Indico com a cabeça em direção da porta e ele vai à frente, segurando a maçaneta para logo girá-la e abrindo devagar.

Espio para o interior da nave da igreja e outra vez fechei os olhos ao deparar-me com diversos corpos espalhados. Porém, dessa vez, eles estavam embrulhados em sacos plásticos brancos, com nuvens de mosquitos zunindo acima deles.

Inspiro e expiro com lentidão para diminuir a ânsia de vômito causada por meu estômago já sensível. Felizmente, o lugar estava tecnicamente sem sinal de vivos.

Shaun escancarou mais ainda a porta e adentramos na nave da igreja.

Bastaram dois passos para que mais uma cena traumatizante surgisse aos meus olhos.

Niall, em cima do altar da igreja, estava com os braços e pernas presos a uma roda de carroça, semelhante a uma crucificação. Os pulsos pingavam sangue, os braços estavam arranhados e vermelhos. Mas, o mais intenso, era seu abdômen que estava exposto.

Em sua pele branca, na barriga, marcas feitas com lâminas formavam a palavra “Judas”.

Eram cortes tão profundos que as fibras musculares estavam avermelhadas, expelindo sangue lentamente, mas de forma torturante. Bolsões estavam formados abaixo dos olhos do psicólogo que já se encontrava pálido e sem forças.

Ele havia sido comparado a Judas por ter dito informações sobre nosso grupo.

Institivamente me aproximo dele com a intenção de soltá-lo.

- Lauren... – ele sussurrou baixinho ao conseguir forças para erguer a cabeça. – Não... não faça isso!

- Shhhhh... – murmuro, tentando com as mãos trêmulas a retirar um grande prego grosso e pesado que estava penetrado na mão de sua mão direita, o prendendo na roda. – Eu vou te soltar... – gaguejo, com os olhos lagrimejando.

- Não... não você! Você precisa f-fugir! Eles querem uma fêmea para o sacrifício. Vão dar a sua alma para tentar se livrar do Apocalipse. Você precisa ir! – ele implorou, ofegante. – Vai! Vai!

Eu hesito, olhando-o sem saber o que fazer.

Niall estava sufocando no próprio sangue por causa da hemorragia interna.

- Lauren, vá! – Shaun surgiu do meu lado, afobado. – Eu o tiro daqui! Vá! Sem você eles não vão conseguir fazer essa loucura! Vá! Estarei logo atrás de você!

Metade de mim, a parte que prezava por minha sobrevivência, gritava para que eu corresse.

Mas, a outra parte, a que prezava por laços afetivos, gritava para que eu continuasse ali e os ajudasse.

- Logo atrás de mim, certo?! – eu pergunto mesmo sabendo que isso não era verdade.

- Sim... – ele Shaun afirma com a cabeça.

Engulo seco e devagar começo a dar passos para trás. Corro pelo corredor desviando dos corpos envolvidos pelo plástico. Os mosquitos me atrapalhavam, fazendo-me balançar os braços para tentar livrá-los do meu rosto.

Antes de empurrar as portas da igreja eu olhei para trás vendo Shaun tentando retirar os pregos das mãos de Niall, com o psicólogo gritando de dor por causa dos músculos que estavam grudados no metal.

Empurro as portas e passo por entre a fresta, deparando-me com um pátio banhado pelas penumbras do cair da noite. Percebo então que o lugar por completo era formado por quatro prédios e uma capela. As janelas estavam quebradas, as árvores mortas e o poço que existia ali estavam aos pedaços. Acima dos telhados eu conseguia ver as copas das árvores, sinalizando-me que eu me encontrava no meio da floresta.

Isso estava fácil demais...

Onde estavam aqueles desgraçados?!

Mas, mesmo com meu inconsciente gritando que havia algo de errado, eu continuei a descer os degraus da capela.

Analiso o formato da construção e tento deduzir para onde estava saída.

Começo então a correr por entre as penumbras geradas pelos prédios até que cheguei à entrada do segundo prédio. Eu precisaria passar por dentro dele até o primeiro prédio e assim, felizmente, achar a saída.

Empurro a porta com delicada e mesmo tentando evitar isso, o barulho das dobradiças enferrujadas ecoou pelo lugar.

Paro, xingando os quatros ventos.

Espero alguns segundos e ao ver que nada acontecera continuo a adentrar no corredor escuro.

Estar sozinha agora apenas piorava a sensação aterrorizante do medo.

Dou passos calculados, passando pelas portas escancaradas de quartos totalmente brancos e cheios de camas bagunçadas onde os pacientes costumavam dormir.

Eu sabia que as coisas estavam fáceis demais.

Eu sabia que nutrir esperanças servia apenas para frustração.

Eu sabia que no momento que eu pensasse que conseguiria... algo daria errado.

E assim aconteceu.

Quando eu pensei que finalmente poderia sair daqui com vida, eu comecei ouvir passos. Girei meu corpo e não vi nada além da escuridão no final do corredor.

Mas meu instinto gritava que alguém me observava naquela escuridão fria.

E isso apenas teve confirmação quando comecei a ouvir respirações pesadas.

Eles estavam ali.

Perto.

Muito perto.

Me observando. Divertindo-se.

Giro meu corpo em milésimos de segundos e antes mesmo que percebesse minhas pernas já davam tudo de si para jogar-me para frente. O ar havia se perdido em meus pulmões e meus olhos arregalados tentavam ver qualquer coisa em meio à escuridão, tentavam achar qualquer coisa para salvar-me das pessoas que corriam atrás de mim.

Elas riam diabolicamente e assoviavam, com o barulho de seus passos contra o chão.

Viro em um corredor com minhas botas escorregando na poeira. Apoio-me na parede para recobrar o equilíbrio e outra vez recomeço minha corrida, ainda mais desesperada.

Eu não sabia para onde corria.

Eu não sabia para onde estava indo.

Eu apenas sabia que precisava fugir.

Viro em mais dois corredores e após quase um minuto correndo eu adentrei na penumbra dentre duas estantes grandes e geladas.

Segurei minha respiração ofegante com todas as forças dos meus pulmões e tentei ouvir acima das batidas enlouquecidas do meu coração.

Nada.

Nenhuma respiração pesada.

Nenhuma risada.

Esperei por mais meros segundos antes de colocar a cabeça para fora, checando.

Ao ver que não estava mais sendo perseguida recomecei a correr tentando fazer o mínimo de barulho possível.

Assim que avistei uma porta aberta decidi entrar nela.

Fechei a mesma com cuidado e dei passos para trás, me distanciando da porta.

*Music On* (Happy Together – SPiN)

E então a sensação de perseguição retornou outra vez.

Minha mão pressionava com força minha boca, buscando evitar que qualquer ruído desesperado escapasse por meus lábios. Minha garganta queimava e se fechava automaticamente a cada espasmo proporcionado pelo medo que consumia o meu corpo. Lágrimas quentes ardiam meus olhos, escorrendo por minhas bochechas sujas.

Meus pulmões pareciam estar em combustão e eu queria, como queria, respirar para livrar-me daquele fogo infernal.

Mas se eu fizesse um mísero barulho estaria morta.

Olho ao redor procurando por algum meio para fugir, mas o pequeno banheiro onde eu estava escondida tinha apenas uma janela cheia de grades grossas no alto da parede lateral.

O lugar fedia a fezes, urina e carniça humana.

Os azulejos brancos estavam manchados por líquidos escuros e continham marcas de mãos por todos os lados. Meus olhos já eram tão acostumados com a escuridão que pude perceber o vaso sanitário com pingos de sangue e rachaduras na base. A pia estava cheia de algum líquido, provavelmente esse que fedia.

Meu estômago embrulhava tanto que eu conseguia sentir a bile vir até minha garganta.

Minhas entranhas contraíam pela mistura de medo e vontade de vomitar.

E então, em meio ao silêncio absoluto do lado de fora, eu comecei a escutar os barulhos de passos.

Fecho meus olhos com força e tento segurar a vontade súbita de chorar. Minhas pernas tremiam, bambas. Meu peito subia e descia com rapidez, com o medo consumindo.

Tudo o que se passava em minha mente era que eu iria morrer.

Eles me pegariam e iriam fazer a mesma coisa que fizeram com as dezenas de corpos que vi na nave da igreja.

Não fuja de nós, minha criança. Vamos dar-lhe misericórdia!

Mordo o interior da minha bochecha para não grunhir em desespero. Instintivamente eu dei passos para trás, querendo me distanciar o máximo daquela porta de madeira que me separava deles.

Vamos libertar seu espírito. Utilizaremos de sua carne para um bem maior e iremos libertar seu espírito para que possas ser livre em sua nova vida.

As lágrimas escorriam com mais intensidade por minha bochecha.

Eu estava desarmada e sem nenhuma chance de sobreviver.

Um soluço angustiante ficou preso na minha garganta enquanto eu sentia meu coração batendo desesperado. Cada batida zunia no meu ouvido. Cada espasmo me estremecia.

O medo me corroía como um ácido sulfúrico.

Camila.

Sofia.

Eu nunca mais as veria.

Eu nunca mais veria a mulher da minha vida.

Os passos se tornaram ainda mais audíveis indicando que se aproximavam perigosamente de onde eu me encontrava.

Eu era uma presa indefesa sendo caçada. Meu predador se aproximava lentamente e iria me achar.

E então os passos pararam.

Meu queixo começou a tremer e choro doloroso latejou por dentro das minhas vísceras. A esperança havia acabado e minha mente gritava alto: “Você está morta!”.

“Você está morta!”.

“Você está morta!”.

Logo a maçaneta mexeu, sendo girada vagarosamente e o ar acabou dentro dos meus pulmões.

A porta foi aberta e os barulhos das dobradiças enferrujadas ecoaram pelo lugar sombrio e vazio.

Meus olhos marejados e arregalados focaram na figura à minha frente.

- Não adiantou fugir, minha criança. Esse é o seu destino.

As figuras atrás da principal seguravam velas vermelhas em mãos. As chamas bailavam pela escuridão e criavam penumbras que iluminavam seus rostos sujos com expressões neutras, tranquilas. Os pares de olhos me estudavam, analisando tudo de perto.

A figura principal então deu um passo à frente com um sorriso gentil nos lábios.

Um grito desesperado rasgou a minha garganta quando suas mãos vieram na direção do meu rosto tampando meus olhos e cegando-me por completo.

“Você está morta!”.

“Você está morta!”.

“Você está morta!”.


Notas Finais


~voz da autora~ CHEGUEI, TO PREPARADA PRA ATACAR
QUEM AÍ QUER FINALMENTE O DESFECHO DESSE QUENGARAL?
PRÓXIMO CAPÍTULO TEM FACA, PORRADA E BOMBA!

Preparem os coletes!

Beijos de luz, walkers!


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