História Intoxicado - Capítulo 1


Escrita por: ~, ~NahuelPuddin e ~TheDana

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jungkook, V
Tags Drama, Featwishes, Kookv, Taekook, Taekookwishes, Vkook
Visualizações 381
Palavras 17.621
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Shoujo (Romântico), Yaoi
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


[Let aqui: PERDOEM A DEMORA!!! Sou atrapalhada mas meu coração é bom, sério!]
Nossa, ainda não acredito que consegui participar de um dos projetos que sou apaixonada. Escrever essa história foi uma das coisas mais maravilhosa que tive, foi um dos temas bem interessantes que vi, e nossa como demorei para me acostumar com os puxões de orelha, mesmo que poucos, que levei do Calebe, eu nunca que imaginei que um dia conseguiria participar mesmo que uma única vez do TKWishes e nem que fosse conseguir escrever com o Calebe até o dia em que vi o jornal anunciando o essa parceria. Então só tenho que agradecer por tudo de bom que aprendi durante esse tempo. Espero mesmo que gostem da história, me sinto muito feliz com o ocorrido e muito empolgada com tudo.
Obrigada mesmo TKWishes pela oportunidade e Obrigada Calebe pelos puxões de orelha e por aturar meus pequenos dramas no decorrer do desenvolvimento do plot, me diverti muito.
O pedido foi feito pela @elkie, espero que goste do que produzimos aqui. <3
Boa leitura

Capítulo 1 - Capítulo Único


Amores, paixões, traições. Sabe? Às vezes, você pode contar nos dedos tudo o que ocorre, mas a vida nem sempre vem com coisas boas. Geralmente as ruins são o que te fazem parar para perceber o quanto é difícil ser amado e é mais difícil ainda confiar em
alguém.

Ao olhar para cima percebeu que naquele instante as nuvens começavam a ameaçar, por um simples momento ou talvez o pior de todos. Ele jamais deveria ter parado para verificar o “bip” de seu celular, não que tal notificação não fosse constante, porém nunca foi de seu feitio mexer em seu aparelho eletrônico no meio da rua. O jovem de corpo bem delineado, curvas definidas, cabelos castanhos em um tom claro e uma pele com um bronzeado totalmente natural deixava muitos com uma certa inveja; como poderia um homem ser tão lindo. Com apenas vinte e dois anos o jovem de um olhar penetrante como a lua cheia, pela primeira vez se deixou levar por uma curiosidade.

E naquele fatídico instante o jovem Kim, pela primeira vez, se viu como o alvo de uma grande bola de neve, seu mundo que um dia fora feliz e alegre, estava totalmente envolto de uma catástrofe que ele jamais seria capaz de prever. Na mente já caótica do moreno, nada parecia ter mais sentido. Ao olhar fixamente para a tela brilhante do celular, ainda assim ele não conseguia acreditar no que estava lendo, nas fotos que estava vendo e o pior, os comentários. Ele se sentia traído, exposto e acima de tudo completamente quebrado.

“Quem me dera ter um desses na minha cama”

"Que horror, parecem dois animais."

"Mas que nojento, como ele tem coragem de pôr a boca ali?"

"Essa é a imagem de dois demônios, é o fim do mundo mesmo."

“Quem nojo, quase vomitei com essa cena. Visão do inferno.”

Quanto mais ele lia, mais ele se sentia enojado. Sua pergunta era como poderia existir pessoas assim no mundo, tão ignorantes que ao menos sabem o que de fato poderia estar acontecendo na vida daqueles que estão no vídeo. Desceu mais um pouco os milhares de comentários que já estavam começando a se acumular.

“Nossa que merda de vida essa de atores pornô, se fosse ao menos uma mulher gemendo. Repugnante”

E como último comentário lido naquele momento, Taehyung se viu discando o número de seu ex-namorado. Aquilo não era algo que o outro deveria ter feito, enquanto o castanho se encontrava totalmente concentrado e apressado na tentativa de falar com aquele que agora o deixou em pedaços, pessoas que passavam ao seu redor começaram a o olhar de um modo diferente. Com nojo.

“Não é aquele cara do vídeo?” foi possível escutar uma voz, mesmo que baixa, de uma mulher que cochichava para a pessoa ao seu lado, olhando descaradamente para Taehyung, esse que se sentia totalmente desconfortável com a situação. Voltou novamente sua atenção ao aparelho em sua mão que continuava naquele mesmo “chama, chama” sem sequer ser atendido. E por fim, as primeiras gotas grossas caíram, a chuva que antes não passava de uma leve garoa, rapidamente se transformou em um temporal, esse que fez Taehyung ficar ensopado em questão de segundos, olhando um ponto fixo qualquer com lágrimas que se misturavam com a água.

Taehyung tentou limpar as teimosas lágrimas, porém de nada adiantava.Traição.

Essa era a palavra que estava fixada na mente de Taehyung, em seus dias felizes, e em suas memórias adormecidas. Tudo parecia voltar como um turbilhão de sentimentos que jamais foram apagados, somente deixados adormecidos em sua caixa de pandora, esperando o momento certo para serem libertados e causar um tufão na vida do moreno.

E aqueles míseros comentários, vídeos e pessoas o olhando e falando de si e até mesmo daquele que não merecia nem ao menos estar em seus pensamentos naquele instante, era quase como comparar o que acontecia dentro dele com uma catástrofe ambiental, totalmente inevitável. Ele havia sido traído pela pessoa que um dia fez juras de amor, que um dia lhe prometeu toda a sinceridade e até mesmo a confiança.

Confiança, a palavra parecia até algo sem total sentindo para o momento e por um segundo sorriu irônico se lembrando de uma frase um tanto que sem sentido que Yoongi o tinha dito quando começou a namorar aquele que agora denegriu sua imagem.”Nunca confie demais, sempre há bens que vêm para o mal”.

Taehyung estava perdido e absorto em pensamentos que nem percebeu quando passou a caminhar na rua e não na calçada; ele tinha consciência das luzes passando por si a uma distância curta, mas ele não sabia por que elas estavam tão próximas.

Até que uma passou próxima demais.

Ele não sabia o momento exato em que ele andou um pouco mais para o lado, ficando quase no meio da rua, assim como ele não sabe quando um carro preto surgiu e buzinou para ele desesperado, muito menos quando Jimin apareceu e o tirou do meio da pista, o abraçando forte e passando as mãos em seus cabelos encharcados.

O mais velho segurava o corpo fraco de Taehyung, sendo que o castanho nem sabia de onde o amigo tinha vindo ou como sabia que ele estava ali, prestes a talvez cometer uma loucura. Na verdade Taehyung já não sabia nem o que estava pensando. Naquele momento tudo o que ele sabia era chorar e Jimin tentava o acalentar, mesmo que isso somente fizesse seu melhor amigo tossir desesperadamente e murmurar frases sem qualquer sentido.

— Vamos para casa, Tae. — Jimin falou baixo, passando o braço pelo ombro de Taehyung e o direcionando caminho à casa.

Após poucos minutos na chuva, que agora estava menos intensa, eles chegaram em um bairro pequeno. Taehyung se encontrava com a cabeça baixa enquanto o seu hyung o segurava firmemente, ambos já se encontravam virando a última esquina, essa que dava de encontro com um pequeno conjunto de pequenas casas. O castanho se encontrava tremendo com o frio, afinal caminharam bastante em baixo da fina chuva, essa que trazia consigo uma brisa leve, porém fria o suficiente para deixar ambos os corpos quase congelados. As roupas molhadas que se encontravam grudadas ao corpos deixavam uma pequena trilha de gotículas pelo chão do pequeno apartamento de Taehyung.

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A ansiedade era palpável, o que era engraçado quando o objetivo de toda aquela mudança era acabar com a ansiedade. Mas como não ficar, pelo menos, animado quando há uma grande mudança em sua vida? Por isso que Jeongguk ria de si mesmo por aquele
momento contraditório.

Sorria sozinho ao entrar naquela pequena comunidade, esperando que pudesse fazer amizade com todos. Precisava sair da cidade grande para diminuir o estresse que estava lhe causando problemas de saúde. O médico disse que uma vida no campo ou em uma cidade pequena seria o ideal. Tirou licença, decidiu mudar, inclusive, de país. Ele sabia um pouco de coreano devido aos pais; por mais que preferisse falar em inglês, agradecia aos pais por terem ensinado a sua língua materna. Não se lembrava de muito, mas o suficiente para se comunicar.

Caminhou pelo lugar e identificou a casa pelas fotos no site pelo qual comprou. Era bonitinha, tinha um pequeno jardim compartilhado com os vizinhos, dois andares e uma arquitetura diferente do que estava acostumado. Não havia nem cercas separando o quintal de uma casa da outra.

Pegou a chave em dos bolsos, agradecendo a sabe-se lá o que por não precisar andar demais. A mochila e as malas pendurados em um corpo cansado pesavam muito mais do que deveria. Passou o mão no cabelo e antes de abrir a porta da casa, respirou fundo para sentir
o cheiro de seu novo lar. Entrou com o pé direito para tudo dar certo e deixou as malas logo ali na porta. Queria explorar a casa quase sem mobília. As caixas com suas coisas estavam empilhadas no lugar onde Jeongguk chamaria de sala, mas pensou melhor e queria ter uma
casa diferente, então poderia ser algo como a cozinha ou o quarto naquele cômodo.

Vida nova, casa nova, hábitos novos; por que não ter uma organização maluca?

Subiu as escadas para ver se tudo estava arejado. Sua mesa estava exatamente lá em cima, de frente a uma janela aberta grande o suficiente para ver uma bela paisagem de montanhas e muito verde. Tranquilo para o seu hobby, estava verdadeiramente satisfeito.

Ao lado estava o banheiro, isso também era perfeito, assim não precisaria ir para muito longe quando precisasse. Talvez construísse algo para colocar seus tantos livros sobre carpintaria; ficaria bem longe da geladeira já que não gostava de arriscar suas folhas perto de líquido.

Quando Jeongguk começava um trabalho, ele ficava dias sem sair do quarto até não poder mais.

Deixou o cômodo e encontrou outro que provavelmente seria o quarto, no qual transformaria em sua sala de jantar. Poderia colocar seus espelhos e porta retratos ali. A visão, a noite, daquela janela aberta, pode ser um clima perfeito para conversa durante um
jantar. Já estava pensando em construir candelabros para apoiar pequenas velas para uma refeição mais agradável e até romântica, caso precisasse. Jeongguk sempre foi focado no trabalho, nunca pensou em relações interpessoais, quem sabe isso não mudasse agora que
estava afastado?

No fim do corredor encontrou o lugar onde ficaria o quarto de hóspedes, era um lugar pequeno para caso recebesse algum amigo dos Estados Unidos ali. Estava pensando em fazer uma escultura para pôr no lugar e não ficar algo sem graça. Gostava de fazer esse
tipo de arte e a maioria ele dava para os outros.

Desceu para o térreo e acabou por descobrir que onde seria a sala, se transformaria em seu quarto. Nos fundos, onde seria a sala de jantar, seria a sala de estar e a cozinha, não tinha como mudar quando tinha bancadas, fogão fixo e armário bonitos. Todos de madeira. Jeongguk gostou deles, mas estava pensando em fazer os próprios.

Sua geladeira e algumas de suas coisas já estavam ali, então já era meio caminho andado para conhecer as redondezas. Precisava conhecer os vizinhos no melhor estilo americano. Claro que as pessoas que já moram no lugar quem costuma fazer uma refeição para os novos moradores, mas sabia que a tradição coreana não era assim, então mudaria um pouco essa forma de boas vindas.

Se tinha uma coisa que ele era bom, graças a sua avó querida, era cozinhar. Jeongguk era muito bom “pilotando” o fogão, sendo capaz de preparar os mais diversos tipos de comida. Coreanas, americanas, italianas, francesas e até as refeições temperadas do Brasil e Sudão.

Por isso estava na hora de começar a preparar uma comidinha deliciosa para conhecer os vizinhos. Estava com sorte, pois a pessoa que contratara para ajudar na mudança era uma pessoa de bom coração e fez compras. Tinha que lembrar de mandar um presente de agradecimento depois.

Mexeu nas caixas atrás de seus objetos de cozinheiro e se apressou em arrumar tudo de modo que pudesse fazer alguma coisa gostosa. Cortou os ingredientes com precisão e tamanho certo. Nunca esqueceria de sua avó, já velhinha, insistindo que cada detalhe é importante, que um centímetro faz diferença, que poucos graus podem acabar com um cozido.

Jeongguk sempre levaria tudo à risca.

Mesmo cansado, sentiu-se relaxado em trabalhar com aquilo. Era impressionante como a mudança era enorme em apenas poucos minutos que chegara ao país. Não só o clima ou a cultura, mas tudo. O ar mais puro, menos pessoas correndo pela rua, mais sorrisos, crianças brincando na rua. Aquilo era resultado de uma cidade pequena, mas Jeongguk estava tão feliz com aquilo, sua vida já estava transformada.

Demorou algumas horas para terminar o Kimchi. O cheiro entregava que o alimento estava saboroso, sabia que tinha ficado perfeito pela coloração. Bateu palmas para si mesmo e pegou o primeiro prato, colocou em uma bandeja de madeira a qual ele mesmo fizera, arrumou um potinho com flores para ficar mais bonito e deixou a casa.

Torcia com todas as forças que não estivesse fedido, não queria passar uma má imagem quando a primeira impressão é a que fica. Bateu na porta levemente e consertou a postura. Não demorou muito para uma mulher baixinha com um sorriso bonito aparecer na
porta. Ela vestia o que parecia um pijama quando o horário era comercial.

— Boa tarde, posso ajudar? — Ela perguntou de maneira simpática quando viu o rapaz em sua frente.

— Desculpe se estou atrapalhando ou incomodando, mas queria me apresentar. Sou Jeon Jeongguk, o novo vizinho. — Ele disse tentando manter-se normal quando, na verdade, estava ansioso para fazer amigos.

— Amor, temos visitas! — Ela gritou dentro da casa antes de voltar-se para o moreno em sua frente. — Muito prazer, meu nome é Dahyun. Eu fico contente que temos um novo vizinho. Espero que não faça muito barulho, nosso último vizinho era um chato porque sempre estava mudando os móveis de lugar! Um absurdo.

— Espero não atrapalhar. — Jeongguk mordeu os lábios, um pouco nervoso com aquilo. Um carpinteiro sempre faz barulho. Teria que arrumar um meio de não perturbar os vizinhos. — Eu preparei kimchi para vocês, espero que gostem.

— Nossa! Já vai conquistar minha namorada, ela ama comer. — Ela disse antes de pegar a bandeja na mão de Jeongguk. — Amor, vem aqui logo!

— Oh, então você é... — Calou-se quando percebeu que estava fazendo uma pergunta pessoal de forma indelicada.

— Lésbica? Sim, acho que sim, nunca gostei de garotos, eu acho. — Ela disse com uma expressão pensativa no rosto. — A Sana foi a única pessoa pela qual me apaixonei, então não sei ao certo.

— E aqui as pessoas aceitam isso? Eu soube que as pessoas aqui da Coreia são muito chatas e intolerantes em relação a isso. — Jeongguk comentou um pouco nervoso com aquilo, não só pelo medo do que elas poderiam sofrer, mas por ter ideia de que gostava de garotos e não o que aquela garota tinha a oferecer. — Eu tenho um pouco de medo em relação a isso.

— Então você é gay?

— Não sei te dizer, nunca beijei um garoto para saber, mas já beijei algumas garotas para saber que não gosto delas. — Jeongguk respondeu com um sorriso envergonhado.

— Ótimo, porque se eu souber que está mexendo com minha garota, eu te dou um socão! — A outra garota apareceu na porta com uma ameaça e passando o dedo na comida preparada por Jeon antes de colocar na boca. — Bem temperado, gostei de você. Eu sou a Sana.

— Sou Jeongguk.

— Bem-vindo, Jeongguk. Se eu fosse você, eu ficaria longe do seu outro vizinho. Ele é um gato, mas está passando por problemas e não recomendo. — Ela acabou levando um tapa da namorada mais baixa. — Ei!

— Não fala assim do problema dos outros!

— Eu estou sendo sincera! Taehyung é um gato, se o Jeongguk se interessar por ele no meio dessa loucura toda, ele vai sofrer a beça.— Sana respondeu antes de pegar uma parte do kimchi no prato. — Se ele não fosse gay, eu investiria mesmo sabendo que gosto de garotas.

— Bom saber disso! — Dahyun afirmou.

— Você sabe disso muito bem.

— E sobre minha pergunta? As pessoas aqui respeitam? — Jeongguk lembrou do que havia perguntado à Dahyun antes de ser interrompida pela namorada.

— Olha, ninguém mexe com a gente. Nessa vila tem mais um casal homoafetivo e eles também são de boas. Apenas dê respeito aos outros e também será respeitado, entendeu? Nada de carinhos na frente das pessoas e muito menos barulhos desrespeitosos durante a madrugada.

— Essa última é mentira. Eu faço essa garota fazer muito barulho. — Sana disse antes de virar de costas e entrar na casa.

— Sana! Volte já aqui! Quero ver se ele ficar trazendo pessoas para gemer na nossa vizinhança! — E a porta foi fechada antes de uma despedida. Jeongguk acabou rindo daquilo. Nunca tinha conhecido garotas tão interessantes, no sentido respeitoso. Achava as americanas tão fúteis, e aquelas coreanas pareciam tão legais.

Ficou feliz em conhecê-las e ainda mais por conseguir entendê-las e principalmente por conseguir falar as palavras corretamente. Bateu palmas para si mesmo e voltou para casa. Precisava conhecer seu outro vizinho que, segundo Sana, era muito gato. Estava ansioso também, não por pensar que poderia acontecer algo, mas porque queria fazer um amigo naquele momento. Tinha certeza que sentiria falta de seus amigos americanos, então tudo que pudesse fazer para “esquecê-los”, mesmo que isso envolva um ato egoísta de trocá-los, faria.

Pegou a segunda bandeija com o kimchi quentinho e caminhou para a casa do lado direito. As cortinas estavam fechadas em um dia tão bonito e tudo parecia escuro do lado de dentro. Provavelmente ele não estaria em casa, mas resolveu arriscar por via das dúvidas. Bateu na porta três vezes e consertou a postura enquanto esperava.

Após dois minutos, a porta foi minimamente aberta, um rapaz com óculos escuros em uma casa escura o atendeu. Jeongguk não entendeu nada, mas resolveu não demonstrar nenhuma confusão.

— Pois não? — Foi a primeira coisa que disse com a voz rouca e baixa.

— Desculpe se estiver atrapalhando algo ou interrompendo. Eu vim me apresentar, sou o novo vizinho. — Jeongguk tentava soar simpático já que o morador continuava escondido atrás da porta. — Meu nome é Jeon Jeongguk. Eu preparei um kimchi para você e espero que...

— Desculpe, mas não posso aceitar sua comida. — Ele disse rapidamente ainda com uma parte do rosto escondida na escuridão de sua casa. — Espero que goste da vizinhança, é um ótimo lugar para ficar. — Quando Taehyung iria fechar a porta, Jeongguk colocou a mão rapidamente nela, quase deixando o prato cair.

— Espere! Você é o Taehyung, certo?

— Você me conhece por causa de... — Sua voz sumiu de repente, como se uma vontade de chorar tivesse o tomado; Jeongguk percebeu isso. — Por causa daquilo?

— Não, eu não sei do que está falando. Eu só falei com as outras vizinhas primeiro e eles falaram que você é muito... — Ele tossiu para falar. — ... Bonito e... Eu queria te conhecer, já que vamos ser vizinhos.

— É um prazer, mas acho que você deveria ir embora. — Taehyung disse antes de fechar a porta de vez. Jeongguk sentiu seu coração apertar, mesmo que não fosse algo incomum. Aquilo não era uma rejeição, mas fazia de tudo para aquilo não acontecer. Sentiu-se abatido.

— Não liga. Sou melhor amigo dele, e ele faz o mesmo comigo. — Ouviu a voz de um lugar distante. — Me chamo Jimin, moro duas casas depois desta. — Se apresentou com um sorriso cativante.

— Ah, Jeongguk. — O rapaz sorriu, simpático. Então direcionou seu olhar para o pote de Kimchi em suas mãos e logo depois para Jimin. — Escuta... Você aceitaria esse Kimchi?

— Aceito se você aceitar a comê-lo juntamente a mim, em minha casa. — O mais baixo entre os dois sugeriu. Jeongguk achou deveras fofo o sorriso do outro e acabou por sorrir junto a ele.

— Não será um incômodo? — Já havia desagradado Taehyung, não queria fazer isso com o outro.

— De maneira alguma! — Jimin o puxou para seguir caminho até sua casa, assustando o acastanhado com tal ato inesperado.

Entre alguns risos um pouco histéricos e algumas empurradas da parte do menor — esse que descobriu ser mais velho que si — logo chegaram à casa de Jimin. Jeongguk tinha de admitir que, assim como seu mais novo hyung era sociável, tinha bom gosto. Mesmo a fachada de quase todas as casas daquele pequeno condomínio serem do mesmo padrão, a do jovem Park se diferenciava pelo fato de conter um pequeno jardim de rosas logo a frente e mais algumas variedades de flores, deixando o local quase como uma verdadeira obra de arte.

Ao adentrarem na propriedade, Jimin guiou o jovem vizinho até sua cozinha. Jeongguk observava atento cada detalhe do local, as cores por dentro da casa não mostravam como se Jimin as tivesse escolhido. A sala de estar continha um piano de cauda branco, sofás de couro negro, em toda a imensidão da casa se encontravam somente duas cores padrões, preto e branco, tirando as pequenas almofadas vermelhas que, ao ver do mais novo, tinham sido escolhidas pelo hyung. A cozinha em estilo americano era bem organizada, e provavelmente seguia esse mesmo padrão em todas as casas. Jeongguk sentou-se à mesa, a pedido de Jimin o qual começou a pegar alguns tipos de acompanhamentos em sua geladeira.

— Amor, onde você estava? — Um rapaz de cabelo negro e da mesma altura de Jimin apareceu na porta da cozinha, olhando fixamente para Jeongguk — Quem é você?

— Amor, esse é o Jeongguk. Um novo vizinho. — Jimin apresentou o mais novo, que fez uma breve reverência ao de fios negros. — Eu estava indo até a casa do Tae e o encontrei.

— É um prazer em conhecê-lo, Jeongguk. Fique à vontade, eu sou Min Yoongi. — Embora as palavras fossem simpáticas, o tom de Yoongi era superior. — Ainda me pergunto o porquê de você ir lá. Sabe bem que ele não quer falar com ninguém. — Cruzou os braços olhando em desaprovação para o parceiro.

— O prazer é todo meu, e... Obrigado. — Jeongguk sorriu, dessa vez um pouco tímido. Afinal, o Min era intimidador só com a sua presença.

— Ele é nosso amigo, Yoongi, e eu me preocupo, não faz mal saber se ele anda se alimentando. — Baixou o olhar, soltando um suspiro. — Pelo menos o TaeTae abriu a porta e conversou um pouco, mesmo evitando contato, achei um avanço.

— Sério? — Yoongi franziu o cenho. — Você é sortudo. — Olhou para o mais novo ali na cozinha com a sobrancelha erguida.

— As vizinhas me disseram que o... Taehyung estava passando por problemas, disseram para que eu não fosse lá, devia tê-las ouvido! — Seu coração doía de algum modo que ele não sabia explicar. Pela primeira vez desde muito tempo se importava com alguém que mal tinha visto por míseros segundos e com tão poucas palavras trocadas.

— Ele nem sempre foi assim... — Yoongi andou lentamente até a mesa, sentando-se em frente ao mais novo que o observava divagar sobre o amigo. — ... Ele já foi uma pessoa alegre, brincalhona e que sempre tinha um sorriso bobo no rosto, mas parece que tem gente que jamais soube valorizar o bom companheiro que tinha, sabe? — O mais velho estava tão imerso em se lembrar dos dias bons os quais tivera junto do amigo e do namorado que ao menos notou seu amado se sentando ao lado.

— Taehyung sempre foi uma boa pessoa, mas de um tempo para cá, com a companhia errada, ele mudou muito. Pelo menos para mim, ele se fechou para o mundo e principalmente para quem mais se importava com ele. — Jimin suspirou.

Jeongguk não sabia o que exatamente estava fazendo, mal conhecia aquele casal, não tinha qualquer afinidade com eles para conversar sobre a vida do seu vizinho que vivia na extrema escuridão, mas ele tinha de admitir estava curioso, afinal ele estava ali para tentar uma vida nova e quem sabe fazer coisas novas. Olhou para os dois à sua frente e percebeu o quanto ambos se encontravam totalmente desanimados, bem diferente de alguns minutos atrás, onde trocavam palavras engraçadas ou algo do tipo.

Percebeu que aquele rapaz que agora se escondia era a causa do sofrimento do casal.

— Sana disse que aconteceram coisas, e no momento em que cheguei na casa dele, ele me perguntou se eu tinha ido lá por causa “daquilo”, o que seria aquilo? — Sabia que estava se intrometendo demais na vida alheia, mas o que podia fazer se nesses momentos sua curiosidade falava mais alto.

— Há algumas semanas... — Jimin dirigiu a palavra ao mais novo, porém a mão de Yoongi chamou sua atenção.

— Não acho que esse seja um assunto para se falar para qualquer um... ᅳ Suas palavras soaram ásperas, porém estavam certas. —  Desculpa, Jeongguk, mas não acho que isso seja algo para ser dividido assim.

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Já em sua casa, Jeongguk tentava arruma-la de algum modo em que tudo ficasse perfeito, a janela de sua sala dava direto para a casa de seu vizinho problemático. Nos poucos intervalos que parava para observar a movimentação da casa alheia, percebeu que era um tanto quanto escasso. O moreno se perguntava se aquele rapaz da casa ao lado ainda estaria vivo ou comendo algo, mesmo depois de conhecer os amigos do rapaz, pôde perceber que mesmo estando preocupados tentavam a todo custo seguir sua vida normalmente.

Sorriu lembrando do momento em que escutou a voz rouca do rapaz quando foi se apresentar, a voz o deixou com vontade de passar o dia conversando com o rapaz, descobrir mais de si e até quem sabe poderiam se tornar bons amigos.

Suave

Sacudiu sua cabeça na tentativa de espantar seus pensamentos sobre a voz e sobre o seu vizinho, voltando a sua quase perfeita arrumação. Olhou para o local onde tinha colocado os moldes para sua futura estante, em sua visão ficaria perfeito um lindo suporte em forma de uma árvore, entre seus hobbies a leitura também se destacava. Além do mais gostava de sempre deixar as duas coisas fora dos padrões, em sua visão, o padrão era chato.

Jeongguk olhou para a janela, a vista para a casa do vizinho e naquele momento achou que estava alucinando ao olhar em direção à grande janela lateral, ela se encontrava coberta com o grosso tecido escuro da cortina, porém algo lhe chamava a atenção, um pouco do tecido dobrado e ali pairava metade do rosto do seu espião.

Desviou sua atenção por uma fração de segundos para o quadro que estava quase caindo de uma de suas inúmeras caixas, e no momento em que voltou a fixar seu olhar onde tinha visto o vizinho o olhar, sorriu minimamente percebendo que já não se encontrava mais ali e a cortina estava como como se nunca tivesse sido tocada.

Estou ficando louco cedo.

Seus pensamentos já estavam ficando absurdos em tão pouco tempo que começava a pensar que fantasmas poderiam de fato existir. E por que não tirar essa dúvida? O moreno não pensou duas vezes antes de jogar seu quadro em qualquer lugar e seguiu para a casa ao lado, não queria se taxar de louco tão cedo, apenas confirmaria se realmente tinha visto algo. Andou vagarosamente pela trilha que seguia em seu jardim até a calçada principal parando ali e admirando ou, melhor, tomando coragem em seguir caminho até seu objetivo. Respirou fundo e voltou a andar.

Parou rente a porta que batera mais cedo.

Relaxa.

Pensou consigo mesmo já levando seu dedo em direção à campainha. Recuou no último segundo, pensando se aquilo era mesmo o certo. Esfregou suas mãos ao perceber que estavam suando antes de bater na porta. Talvez foi um ato mais leve e tranquilo já que fizera o mesmo no dia anterior e funcionou.

Ficou parado ali ainda pensando no que deveria falar, afinal não tinha planejado nada para aquele momento. Respirou fundo, sentindo o cheiro forte que estava aquela casa, o cheiro de alguém que definitivamente não estava se cuidando.

Resolveu bater novamente na porta porque já tinha o feito há alguns minutos e não recebeu nenhuma resposta. Talvez ele precisasse de um amigo, alguém para conversar, por isso apareceu na janela. Mas será que aquele era realmente ele? Ou apenas um fruto de sua imaginação?

Sentiu a mão tremer um tanto nervoso e ansioso. Não recebeu respostas, não ouviu nem movimento na casa. Será que Taehyung se negou a abrir sua porta para si ou ele apenas estava dormindo? Será que estava sendo inconveniente? Um chato? Era a última
coisa que o moreno queria.

Sentou-se ali na varanda, sem saber o motivo de estar fazendo aquilo e passou a olhar para o céu enquanto esperava. Não tinha pressa em montar sua casa, então não tinha por que correr com nada.

Afinal, seu objetivo era seguir a vida com passos de tartaruga.

Nada de correr.

Fechou os olhos, sentindo a brisa fresca passar. Sentia-se tão relaxado. Não tinha essa sensação no corpo há uns três anos o qual foi a última vez que tirou férias. Passou a mão nas coxas e jogou o peso do corpo para trás, deitando ali mesmo.

— Você acha que pessoas do interior dormem em qualquer lugar? — Ouviu a voz conhecida aproximar-se. Sabia que era o vizinho do vizinho do vizinho que morava ali perto. Yoongi sentou-se ao seu lado sem olhar para o rosto do rapaz. — O que está fazendo aqui?

— Eu pensei ter visto Taehyung olhando pela janela para minha casa. Então pensei em tentar falar com ele, mesmo que me sinta meio rejeitado quando ele não abre a porta. — Jeongguk disse ainda com os olhos fechados. — É meio estranho se importar com uma pessoa que nem conhece?

— Depende. Se você for um bom samaritano, pode ser algo normal. — Yoongi respondeu de forma irônica. Jeongguk conseguiu captar isso na tonalidade. — Mas creio que sua preocupação vem de sua curiosidade e vontade de ver o quão gato seu vizinho é. As pessoas sempre tem interesse em alguma coisa.

— Acho que você está tirando conclusões precipitadas. — Jeongguk estranhou aquilo, mas talvez fosse apenas uma forma de mostrar proteção em relação ao seu vizinho Kim Taehyung.

— Talvez. Eu sou uma pessoa de personalidade forte e que não tem medo de falar o que acha. — Yoongi admitiu antes de abraçar suas pernas e continuar olhando para o céu azul. — Mas o fato é que todos têm interesse em alguma coisa, nem que seu interesse seja na amizade dele por algum motivo que desconheço.

— Eu só quero me dar bem com as pessoas a minha volta. — Jeongguk respondeu de forma sincera que, por algum motivo, convenceu Yoongi. — Eu nunca gostei de ver pessoas tristes, desde criança.

— Então é algo seu. — Yoongi sorriu e levantou-se. — Mas se eu fosse você, não tentaria nada agora, não hoje. Eles fariam aniversário de três anos então duvido que ele queira falar com alguém.

— Então por que veio?

— Porque a esperança é a última que morre. Eu sou a única pessoa que Taehyung consegue realmente conversar. Creio que sou mais íntimo que o próprio Jimin. — Yoongi respondeu antes de colocar o ouvido na porta para tentar escutar alguma coisa.

— Creio que seu jeito sincero ao extremo ajuda nisso. — Jeongguk sentou-se novamente para observar o baixinho concentrado em sua ação. — Acho que vou terminar de montar minhas coisas. Estou louco para fazer alguma escultura nova ou preparar algum doce gostoso.

— Se fizer bolo, me chama, eu amo bolos. — Yoongi disse ainda encostado no objeto de madeira. Jeongguk sorriu, estava realmente fazendo amizades. Levantou-se da varanda e deixou aquele espaço da residência de seu vizinho. — Ah, Jeongguk! Terça-feira. Taehyung gosta de torta e crianças. Não se esqueça disso.

Ele entendeu de imediato a fala do rapaz, não sabia os motivos de Taehyung e muito menos a confiança de Yoongi em si. Mas parecia que ele poderia ajudar aquele rapaz de algum modo. Talvez uma pessoa nova na vida do tristonho fosse o que ele precisava para seguir em frente.

Ele estava convencido a mudar aquele quadro todo.

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Uma semana passou rápida para Jeon, que conforme arrumava sua casa, tinha a leve impressão de estar sendo vigiado. No decorrer dos dias cogitou a idéia de trazer seu pequeno sobrinho para uma visita ou até mesmo deixar uma torta na calçada do vizinho, mas sabia que suas idéias eram um tanto quanto desesperadas.

Desde que se mudou, não foi nem uma vez ao supermercado, já que a pessoa que o ajudara com a mudança tinha sido caridosa o suficiente para fazer algumas compras. Sua dispensa basicamente se encontrava com pequenas fagulhas de teias de aranha de tão vazia que estava. Sem pensar muito no que iria comprar, pegou seu casaco, chave e carteira, saindo de casa em seguida; por sorte o mercado não era tão longe, mas no momento em que colocou o pé fora de casa se arrependera de não ter um guarda-chuva. Suspirou e continuou a seguir seu caminho - embora o mais novo soubesse que estava propício a ficar resfriado.

A chuva não era grossa, era calma. Seria um ótimo momento para estar em casa deitado debaixo de um cobertor, assistindo vários e vários filmes. Todo mundo faz isso, mas o Jeon não é todo mundo. Neste momento ele é alguém que precisa fazer compras.

Não demorou muito para chegar ao supermercado. Jeongguk entrou no local logo pegando o carrinho. Direcionou-se ao corredor onde ficavam os principais alimentos a fim de pegar um por um, sempre estudando os preços de cada item. E foi assim até chegar na feira. Só faltavam algumas coisas, a seu ver.

Olhou ao redor, logo mais a sua frente tinha um rapaz que usava boné, óculos e máscara, porém Jeongguk o reconheceu. Seu vizinho. Enquanto pegava os últimos itens, Jeongguk o observava. Seu vizinho não parecia alguém feio, pelo contrário, apenas pelos olhos, sabia que sua beleza era tão única e incomparável; o acastanhado não via necessidade de cobrir um rosto tão belo.

Assim que terminou de pegar seus itens, Jeongguk direcionou-se ao caixa. A mulher que passava suas compras era loira, com traços ocidentais. Bela, Jeongguk pensou. Mas sua atenção não estava nela. Taehyung também passava suas compras a dois caixas após
o seu.

Na visão de Jeongguk não seria errado tentar alguma aproximação, mas e se levasse outro fora? Se bem que o que aconteceu na casa do vizinho quando chegou não foi bem um fora, afinal conheceu os amigos dele, ou seja, alguma força maior estava conspirando ao seu favor ainda. De qualquer forma, por enquanto era melhor deixar do jeito que estava.

Enquanto observava as pequenas coisas a serem pagas, a mulher do caixa a sua frente de modo discreto notou para onde Jeongguk olhava atentamente, e de um modo nada sutil para tentar conseguir a atenção do moreno não segurou sua língua.

— Não olhe muita para aquela aberração, você pode sair como uma das fofocas mais picantes da Internet! — O tom enojado da mulher, que outrora achara bonita, o fez torcer o nariz. Ele não estava conseguindo acreditar nas palavras que saíram da boca da moça.

— O quê você quer dizer com isso? — Sem desviar o olhar de Taehyung, que agora se encontrava de cabeça baixa, olhando em direção a recepcionista que atendia o moreno. Jeongguk não deixaria que algo assim fosse dito do seu vizinho. Não na sua frente.

— É que a um tempo atrás... — O sorriso da recepcionista era cheio de falsa modéstia, o moreno apenas queria que aquela mulher parasse de lhe olhar com desejo. — Algumas coisas acabaram por vazar na internet, e, bem, eu ouvi dizer que o senhor Kim ali é um grande astro de pornô caseiro. — A risada baixa e debochada fizera Jeongguk ficar irritado, mesmo nem conhecendo o vizinho direito, seus próprios pensamentos não o deixavam de lado.

— E por qual motivo cabe a você julgar? — Qualquer um podia sentir o tom áspero do mais novo, na verdade ele estava pouco se fodendo para os modos coreanos. Nunca fora de ficar calado e muito menos alguém que calculava as palavras que utilizava. — Até onde sei, algo vazado na internet não significa que teve total liberdade para ser postado, afinal isso é ilegal. — Suspirou pesadamente. — Você deveria tomar conta da sua própria vida.

— Onde estão seus modos, não pode ser tão grosso assim comigo. — O tom claramente ofendido da mulher, fez o mais novo soltar um riso irônico e a olhar com pena.

— E onde está sua decência? Pelo que notei desde o momento em que entrei aqui, tudo o que você fez foi arrumar o bojo... Ah, me desculpa, seus seios na tentativa frustrada de conseguir minha atenção. Então não me venha falar de modos.

Olhou levemente para a direita e pôde ver Taehyung passar ao seu lado. O universo estava realmente conspirando contra si? Ainda faltava algumas compras suas para passar, olhou de relance o seu vizinho que carregava consigo apenas duas pequenas sacolas, e pelo que pôde notar, era apenas um suco e macarrão instantâneo, sua mente gritava para seguir o rapaz, gritava para falar com ele, mas o que ele podia fazer se sua mente lhe dizia algo e seu corpo simplesmente nem se movia?

Pagou suas compras assim que terminou de passá-las e deixou o estabelecimento. Quando colocou o pé para fora do mercado, percebeu o quão forte estava a chuva. Estava tão focado em Taehyung que até tinha esquecido da tempestade que se formou do lado de fora do estabelecimento. Voltou rapidamente e bufou por ter que esperar o clima melhorar para voltar para casa. As coisas realmente não estavam ao seu favor já que o clima ficou ruim depois da pequena discussão com a caixa. Pela forma como as pessoas olhavam para si, elas concordavam com aquela opinião ridícula. Estava achando que acabaria sendo espancado ali.

De repente, viu o mascarado parado na sua frente, embaixo do guarda chuva com suas poucas compras. Jeongguk ficou paralisado porque não esperava que Taehyung viesse até si. Podia falar tantas coisas que já tinha imaginado, mas naquele momento crucial era como se as palavras tivessem sumido de sua cabeça.

— Você é o meu vizinho barulhento, certo? — Não tinha resquícios de brincadeira em sua voz, então Jeongguk acabou levando isso como uma reclamação. Moveu a cabeça de forma positiva, mesmo sem saber as expressões que ele fazia. — Venha comigo, podemos ir juntos desde que você não fale nada.

Jeongguk nem prestou atenção nessas últimas palavras. Pegou o guarda-chuva e as compras de Taehyung e parou ao seu lado. Aquela era uma boa oportunidade para se aproximar, mesmo que esse não fosse o querer de seu vizinho.

— Não precisa levar minhas coisas.

— Eu faço questão, você parece cansado. — Jeongguk disse antes de começar a andar com o rapaz ao seu lado. Em todo momento, Taehyung ficou com o rosto baixo e o olhar no chão cada vez mais molhado pela chuva. Ele nem se importava de pisar em poças ou de se molhar quando a direção do vento mudava a direção das gotas.

Ele estava destruído.

Jeongguk podia sentir na pele a energia ruim que deixava seu corpo. Ele realmente precisava de ajuda, muito mais do que imaginava.

— Você mora sozinho, não é? — A pergunta parecia ter sido feita para o vento já que Taehyung nem fez menção de responder. — Você está bastante magro, creio que ninguém cozinha para você, eu posso...

— Eu pedi para não falar comigo. — Taehyung o interrompeu de repente, fazendo o mais novo morder os lábios com o acontecido. Acabou ficando nervoso e com medo de irritá-lo.

— Mas é que...

— Desculpe, mas não quero conversar. Me impeça de ser rude e fique quieto, por favor. — Ele disse um pouco mais alto. Respirou fundo e olhou para o lado oposto do mais novo.

— Do que adianta ficar se afastando de mim? Eu nem sei o que aconteceu com você.

— E nem quero que saiba. — A mão de Taehyung abraçou o próprio braço. O que poderia ser um movimento de alguém que sentiu frio, Jeongguk viu como se alguém que precisava de um abraço porque estava prestes a chorar. — Foi uma má ideia te oferecer ajuda.

E de repente, correu dali pelas ruas, debaixo daquela chuva forte. Jeongguk até pensou em ir atrás dele, mas o peso e o guarda-chuva o impediam de seguir aquele ritmo desenfreado. Xingou a si mesmo por ter feito Taehyung chorar, deveria ter apenas ficado calado, apenas a companhia já era mais que o suficiente. Agora tinha feito besteira e não fazia ideia se podia consertar.

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Taehyung sentia o vento frio em sua tez, suas roupas começavam a ficar pesadas. Ele se culpava por ter deixado seu guarda-chuva para trás, se culpava porque agora não teria o que comer e se sentia pior ainda por ter deixado alguém que nem sequer conhecia com uma péssima impressão de si. Não sabia o que esperar do novo vizinho, esse que não parava quieto um segundo do dia. Parou bruscamente ao chegar em frente à sua casa e em uma tentativa frustrada tentou limpar suas lágrimas, essas que se misturavam com os pingos frios.

Sempre se perguntou o que estava fazendo a si mesmo enquanto se mantinha às escondidas de todos os olhares que o julgavam. Sentou-se na calçada de sua casa e encostou a cabeça na porta, a chuva estava começando a ficar leve e o vento frio o fazia pensar em todas as coisas que estavam acontecendo desde a chegada do vizinho quase insuportável até em pegar Yoongi jogado em sua calçada plena duas horas da madrugada.

Suas noites mal dormidas se tornavam frequentes com o decorrer do tempo. Em todas as manhãs se encontrava lembrando das coisas que um dia o fizeram sorrir, se jogava no sofá e fitava o teto na tentativa de esquecer toda uma sessão de eventos que somente o faziam querer se afogar no próprio desespero. As cores que um dia Taehyung transbordou, agora iam com o vento. O sopro da brisa que batia em seu corpo jogado no meio fio da sua casa o fazia sentir pequenos calafrios na coluna e soprava seus cabelo castanho por fora da touca negra. Se lembrava o quanto um dia se sentiu feliz ao lado do ex-namorado, o quanto um dia ele sorriu de forma verdadeira e como ele se sentia feliz em ter todo a sua volta brincando, como ótimos amigos que tinha. Noites frias como essa, além de trazer boas lembranças, elas também carregam consigo uma grande série de sofrimentos.

Após muitos pensamentos sôfregos sobre um passado não tão distante, resolveu, por fim, buscar sua chave no bolso de sua calça que praticamente virou sua segunda pele ᅳ e lá estava ele se culpando por deixar o guarda-chuva novamente para trás. Finalmente a tirou de seu bolso e a colocou na fechadura. Abriu a porta se deparando com o não tão aconchegante vão negro de sua sala, a casa se encontrava mais fria que o normal, culpa da forte chuva que o pegara de surpresa, Taehyung fechou a porta atrás de si e, sem nem mesmo tirar suas roupas, seguiu se jogando no sofá, ligou a televisão em uma busca vã de alguma espécie de programa aparentemente bobo para tentar ᅳ de maneira falha ᅳ animá-lo.

Largou o controle da TV em qualquer canto do sofá ensopado e em movimentos preguiçosos se pôs a sair do cômodo, onde deixou sua televisão ligada e no volume mínimo, as imagens coloridas do aparelho iluminavam boa parte da sala e até mesmo da pequena cozinha em estilo americano. Vasculhou seus armários na falha esperança de encontrar algo comestível; seu estômago reclamava por falta de algum alimento decente, e tudo o que achou foi um pouco de algo que não sabia identificar, aproximou o alimento ᅳ sem um nome específico ᅳ de seu rosto e o cheirou. Confirmou ali que a comida não estava boa, devolveu para o local, pegando em seguida apenas uma pequena garrafa de água, afinal precisava se hidratar.

Ainda com passos lentos, rumou para a sala, desligou a televisão, retirou sua touca molhada e a jogou em qualquer canto. Pouco se importava se iria molhar alguma coisa. Voltou a andar rumo seu quarto enquanto jogava suas roupas encharcadas pelos cômodos onde passava. Taehyung estava tão aéreo no que tinha acontecido que não se importava com mais nada naquele momento. Se perguntava o porquê do vizinho querer conversar consigo, o do porquê dele o ter defendido, afinal qualquer um sentiria curiosidade de saber da "fofoca" que o cercava, todos ali pareciam gostar de falar mal si em algum momento.

Ao chegar finalmente em seu quarto, seguiu até o guarda-roupa, pouco se importando se precisava de um banho quente para retirar toda a impureza que levou ao ficar minutos na chuva, não se importava se iria adoecer ou qualquer coisa do tipo. Já vestido, jogou-se na cama, se aconchegando nela abraçou um de seus travesseiros e tateou o colchão atrás de seu celular.

Ainda atrás de algo para se distrair, procurou as notícias sem nem saber o motivo de fazer aquilo e, ao ver que nada o tiraria da situação, ele resolveu se afundar ainda mais nas memórias antes esquecidas, já que na opinião do castanho, ele não conseguiria sair da prévia depressão, por que não aproveitar mais dela? Sentou-se na cama e ligou o pequeno abajur que continha na cômoda ao lado de sua cama.

Taehyung olhou em volta à procura de um objeto familiar, um álbum de fotos antigo, guardando não só imagens, mas como sensações e fatos que o rapaz tentara excluir da memória, porém que continuavam ali, espreitando sua vida. Na primeira folha ele já estava arrependido de ter começado aquilo, não arrependido de verdade, mas com uma sensação estranha dentro de si, como se estivesse fazendo algo fora da lei.

"Não chore, Taehyung, não fiz por mal"

Ah, como ele queria que aquelas palavras ditas não tivessem lhe sido ditas. Se perguntava o que tinha feito de tão errado para ter recebido tal coisa. Desde o início confiou nas palavras que o namorado lhe dizia. Taehyung nunca que iria imaginar que o homem que lhe disse que amava, que iriam se casar e que adotariam uma criança, faria algo como aquilo. O castanho ainda se sentia traído.

E não estava preparado para confiar em outra pessoa novamente.

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Jeongguk estava sentado em sua mesa de trabalho de carpintaria. Enquanto pensava em seus futuros projetos, esperava a visita especial daquela manhã. Mais do que uma missão secreta, Jeon pediu para seu primo visitá-lo para se verem e conversarem. Por mais que não tenha crescido com ele, eles eram bastante amigos. A extrema infantilidade de Chan não era um empecilho para a amizade dos dois. Na verdade, todas as descobertas sobre si mesmo e as confusões dos hormônios foram todas ajudadas por Jeongguk. Por mais que fosse uma pessoa completamente atarefada sem tempo para nada, sempre arranjava um tempinho para falar com seu priminho coreano pelo Kakao Talk.

E o que mais deixava Jeongguk curioso era como Chan estava namorando mesmo com tanta imaturidade. Ele arranjou um parceiro primeiro que ele e isso era constrangedor. Pensou que poderia fazer um avião de madeira para o primo já que ele amava aquele tipo de coisa, porém Chan chegou muito mais cedo que o combinado. Jeongguk sabia que aquele que batia toda hora em sua porta insistentemente era o primo porque conhecia o jeito agitado da criança. Desceu rapidamente as escadas para chegar até a porta. Como a sua casa já estava toda arrumada, já podia recebê-lo como visita.

Assim que o objeto de madeira foi aberta, o pequeno pulou sobre o mais velho e os dois acabaram caindo no chão. Logicamente o Jeongguk foi quem ficou na pior com dor na bunda e na coluna.

— Jeongguk, Jeongguk, Jeongguk, Jeongguk!

— Você é maluco. — Ouviu a voz de outra pessoa na porta antes de conseguir absorver tudo. Estava começando a ficar sem ar quando seu pescoço foi apertado com força.

— Chan, menos intensidade, mais racionalidade! Você está me sufocando! — Quase gritou para fazer o mais novo se ligar no que estava acontecendo. Logo ele afastou-se do rapaz e voltou a ficar de pé. — Crianção como sempre.

— Minha rola! — Ele reclamou, cruzando os braços e fechando a cara. O moreno riu daquele ato porque era exatamente como de uma criança. Não mudara nada desde que se viram pela última vez há quase dez anos. Seu corpo estava desenvolvido, lógico, porém as manias e rosto infantil permaneceram.

— Eu acho que você deveria ter cuidado com o que fala.

— Ele tem sotaque, você também é estrangeiro? — Jeongguk perguntou antes de voltar a ficar de pé.

— Sim, sou o namorado do Chan, Minghao. Muito prazer. — Jeongguk apertou a mão do chinês pelo o que percebeu pelo nome. Estava impressionado como havia mesmo casais homoafetivos por toda a parte, e ele achando que aquilo era proibido. — Eu só vim trazê-lo. A mãe dele não o deixa sair sozinho porque até hoje ele não sabe atravessar a rua.

— Mentira e mais mentira! — Chan levantou o indicador e entrou na casa. — Já pode ir embora, ninguém te quer mais aqui. — Ele disse de forma dura antes de entrar no quarto de Jeongguk que deveria ser a sala. — Nunca vi um quarto logo na entrada.

— Que namorado carinhoso você tem.

— Eu sofro, mas não posso reclamar. Quando a gente ama, a pessoa não precisa mudar porque amamos até os defeitos dela. — O rapaz sorriu e acenou antes de virar-se para ir embora.

— Até mais tarde!

— O que vamos fazer? — perguntou em voz alta de pé na cama do primo.

— Vamos fazer uma torta, quero que conheça uma pessoa. — Jeongguk, ao invés de ir para o quarto, caminhou para a cozinha.

— Eu gosto de tortas. Vamos fazer diferente da coreana, não é? Você é americano e deve saber fazer coisas muito mais gostosas. — Chan o seguiu com os olhos brilhantes até o cômodo onde o material estava todo distribuído pela bancada. — Eu cheguei mais cedo, mas você já estava preparado.

— Sou tão ansioso quanto você. — Jeongguk disse antes de pegar o livro de receitas que tinha separado entre os vários que ele tinha. — O triste é que não encontrei muitas frutas, mas acho que torta de melancia vai ficar deliciosa.

— Espero que sim. — Chan olhou cada ingrediente com cuidado e atenção até encontrar um saco aleatório ali. — Vamos usar macarrão instantâneo para fazer a torta? Vai ficar ruim!

— Não, essa é parte da minha missão secreta, lembra? Vamos entregar esse saco com uma torta. E aí você só precisa ser você mesmo. — Jeongguk explicou antes de abrir o saco de farinha. — Preparado para fazer a torta?

— Vamos fazer duas? Eu quero levar uma para o HaoHao, mesmo que ele não mereça.

— Claro, vamos começar.

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Torta pronta, compras na mão e uma criança do lado, mesmo não sendo um bebê, Chan poderia sim ser considerado uma criança. Jeongguk suspirou fundo e mentalmente disse um "fighting ", finalmente estava preparado para conhecer formalmente o vizinho.

Jeongguk estava visivelmente nervoso, afinal não sabia como Taehyung iria reagir por estar sendo incomodado de novo por si, só que desta vez o moreno tinha uma boa desculpa para bater na porta do vizinho. Olhou para o primo que andava saltitante ao seu lado e poderia jurar que se o mais novo tivesse algo que proporcionasse algum tipo de barulho ele utilizaria para anunciar sua chegada ao local.

— Hyung, me responde uma coisa. — Jeongguk olhou para o mais novo de modo cético, estava começando a achar que aquela sua idéia era absurda, porém já era tarde demais para mudar de ideia. — Qual seu interesse nesse seu vizinho? — A malícia estava viva no tom de voz do pequeno, não tão pequeno assim, ser humano traquina ao seu lado.

— Qual a relevância dessa sua pergunta? ᅳ Não que Jeongguk fosse uma pessoa extremamente chata na mente de Chan, mas o que custava o mais velho lhe responder uma mísera e sutil pergunta? Bom, sutil a seu ver, pois para alguém como Jeongguk, que o conhecia desde pequeno, sabia que sempre por trás de qualquer pergunta feita pelo mais novo tinha lá sua dose de malícia.

E o mais velho sabia que qualquer coisa dita para seu querido primo naquele momento poderia e seria usado pelo menor em algum momento de sua vida como uma forma de o chantagear, afinal Lee Chan não era alguém que deixava algo passar em branco. Jeongguk suspirou, Chan sorriu do nervosismo do primo e logo voltaram a andar em direção à casa de Taehyung.

Entre pequenos pulinhos e um Jeongguk esbanjando nervosismo sem motivos aparentes, logo estavam rente a porta de um âmbar lindo aos olhos de qualquer um, o tom castanho quase amarelo deixava aquela casa com um ar totalmente sofisticado, o que deixava a entender o bom gosto do vizinho. Respirou fundo e olhou para o primo que já não se cabia de tanta vontade que tinha em aperriar quem quer que fosse naquela casa. Ele sabia que tinha algo por trás daquele súbito desejo de Jeongguk em lhe ver.

— Priminho, porque não tenta acalmar seu coração? Posso ouvir suas batidas daqui. Ah, como está alto. — E quando se menos espera Chan chega com mais uma de suas inúmeras maneiras de deixar alguém mais constrangido do que já está.

— Segura essa sua língua por pelo menos meia hora! — Retrucou o mais velho. Não estava irritado nem nada do tipo, até que estava gostando das provocações que o mais novo jogava para cima de si, mas estava preocupado com o vizinho que somente sabia o nome e talvez algo a mais de sua história conturbada. — Vai fazer as honras ou eu mesmo faço? — O mais velho certamente não queria bater na porta de Taehyung, e por esse motivo esperava muito que Chan aceitasse fazer as honras de atormentar o vizinho.

O sorriso do mais novo confirmando que bateria na porta fez Jeongguk pela primeira vez no dia suspirar em agradecimento. Depois de pouco mais que duas batidas frenéticas na porta amadeirada foi possível ouvir os passos lânguidos se aproximando da porta. Chan se afastou um pouco dando liberdade para ela ser aberta, e lá estava o motivo ᅳ que o mais novo no início desconhecia ᅳ para tal nervosismo do primo.

— Oi, eu me chamo Lee Chan! — Sem nem mesmo deixar o dono da casa proferir algum som, o mais novo simplesmente pulara diante os olhos cansados e inchados de Taehyung. — Nossa, hyung bem que você podia ter me dito que o seu vizinho era um gato. — Se Jeongguk tivesse onde enfiar sua cabeça naquele momento, ele faria sem dúvida nenhuma.

Taehyung se encontrava parado na porta de sua casa sem entender nada do que estava acontecendo, já que novamente o vizinho barulhento lhe aparecia e nesse momento estava acompanhado de alguém extremamente fofo aos olhos do mais velho de todos ali, mas do mesmo modo ele não queria contatos desnecessários com pessoas que não fossem a caixa do supermercado e o rapaz que entregava sua água.

— Ah, o que querem? — Seu tom baixo e sem qualquer indício de animação fez com que Jeongguk chegasse a ponderar se realmente aquilo era uma boa ideia. O moreno estava tão preocupado com coisas não tão banais assim que quase se esqueceu seu quase verdadeiro motivo do por que estava ali.

— Você esqueceu suas compras comigo. — Levantou as poucas sacolas que estavam em sua mão deixando-as expostas para Taehyung.

Aproveitou o momento em que o vizinho cogitava a ideia de pegar ou não as coisas, Jeongguk trocou pequenos olhares com Chan. O mais novo já sabia o que deveria fazer e mesmo não sabendo o motivo do interesse alheio, iria ajudar.

— Tem torta também, você quer? — A barriga de Taehyung reclamou, estava com fome. O som foi audível para os dois impertinentes ali, o que fez o mais novo abrir um largo sorriso em seu lábios, algo que o deixou extremamente fofo. — Então podemos entrar?

O pedido doce do mais novo deixava Taehyung confortável com a situação na qual se encontrava. O pequeno a sua frente se encontrava eufórico e fazia tempo que o castanho não via algo do tipo, mas também como poderia ver se sempre fugia dos amigos e de qualquer aproximação. Ponderou se deveria ou não permitir a entrada dos rapazes, seu estômago clamava por comida e o vizinho acompanhado da criança inquieta tinha o que precisava.

Se afastou lentamente da porta dando passagem para os dois a sua frente. Chan foi o primeiro a entrar, batia palminhas de tão feliz que estava, o que acarretou em um leve sorriso sendo exposto nos finos lábios de Taehyung. Jeongguk observou atento a velocidade em que o sorriso se abriu para o momento em que ele foi fechado. Ele era lindo.

— Então, hyung, você quer comer primeiro ou arrumar esse chiqueiro?

— Garoto, você sabe calar a boca? — Jeongguk certamente tinha errado em pedir para o primo agir normalmente, pelo menos deveria ter pedido para ele controlar os impulsos. — Desculpa, Taehyung, esse garoto é...

Jeongguk esperava que o mais velho ficasse chateado com a falta de papas na língua do primo, mas se surpreendeu ao notar que o mais velho ria com toda a situação. Aquilo motivou Chan a continuar agindo normalmente, mesmo que notando o olhar envergonhado de Jeongguk.

— O que você quer fazer primeiro? — O castanho se escorou na porta, fazia tempo que não fazia tamanho esforço sem se alimentar corretamente. Estava cansado.

— Como você tá pior que mendigo, vamos comer. — Correu até o novo hyung o segurando pelo braço, o direcionou pela sala e o jogou no sofá pulando em cima do mais velho. — Kookie hyung, traz a comida para cá. Deixo com você o trabalho pesado, minha beleza não pode ser desperdiçada com você aí na cozinha.

— Você não deveria respeitar os mais velhos? — Taehyung estava um tanto quanto surpreso pela ousadia do mais novo, mas admitia que era do mesmo jeito que ele quando tinha sua idade.

— Respeito e Jeongguk numa mesma frase não é algo muito bom...— Chan deitou sua cabeça na coxa de Taehyung logo puxando a mão do mais velho para o topo de sua cabeça. Por um segundo o castanho ficou sem ação com o ato repentino do menino, mas logo começou com leves carícias nos fios negros. — ...As vezes acho que ele não tem vinte anos, parece ser burro demais para ser o mais velho de nós. — Redirecionou seu olhar para o dono da mão em sua cabeça e lhe lançou um sorriso cheio de segundas intenções ao notar que o rapaz observava o seu primo, que para o mais novo não passava de um gostoso um tanto quanto burro, arrumar a pequena cozinha. — Gosta do que vê, hyung? — E não demorou muito para Chan mostrar seu lado "Lúcifer".

— Q-quê?

— Não se faça de inocente, eu notei seu olhar para o Gukkie. — Sorriu e logo estalou a língua. — Deveria fechar a boca, hyung, vai entrar mosca. — Provocou o mais velho que somente sabia ficar a cada segundo mais vermelho.

Mesmo não sabendo o que fazer ou como se comportar com a atitude do mais novo, Taehyung optou somente por deixar seu sorriso morrer um pouco, o que não passou despercebido pelo garoto deitado em sua perna, esse que se levantou em um pulo puxando o mais velho para algum canto da casa desconhecida.

Taehyung se perguntava de onde o garoto tirava toda aquela energia. Não demoraram nem cinco minutos andando pelo corredor e subindo a escada de acesso ao segundo andar onde Chan vasculhou porta por porta sem ter autorização para tal coisa até encontrar o quarto do mais velho.

— Nossa, vamos jogar, por favor! — Os olhos do mais novo pareciam brilhar com tamanha intensidade ao ver o jogo em sua frente.

Fazia tempo que Taehyung tinha comprado Overwatch para tentar se distrair, mas eram raras as vezes que fazia tal coisa. Cedeu novamente ao pedido do mais novo e lá estavam os dois se arrumando na cama para jogar uma partida divertida e talvez quem sabe poder se conhecer melhor.

Enquanto Taehyung e Chan se preparavam para uma partida no segundo andar, Jeongguk tentava descobrir onde ficavam as panelas e os pratos, em pequenos períodos de tempo se pegava xingando mentalmente o estado da casa, não conseguia encontrar nem mesmo seus sapatos ali. Escutou os pequenos gritos que vinham do lugar de cima e ficou alarmado, tinha medo que o primo tivesse feito algo, mas não iria se preocupar.

Jeongguk voltou ao seus afazeres, iria arrumar a casa mesmo que não tenha o direito nem autorização para tal coisa. Enquanto o castanho seguia a arrumação no andar abaixo, no quarto Chan e Taehyung se divertiam com um jogo qualquer, o mais velho gargalhava toda vez que o dongsaeng gritava de modo histérico seja por raiva ou por medo,
era divertido.

— Hyung, esse jogo é muito filho da puta — reclamou se jogando no colo de Taehyung que o segurou como se o menino fosse uma criança indefesa. — Vamos fazer outra coisa, hum. — As bochechas infladas e um bico em seu lábios o deixava puramente fofo, sendo que puro era a última coisa existente naquele ser.

— Eu estou com fome na verdade. — Taehyung estava envergonhado por dizer tal coisa, mas era a mais pura verdade.

Chan pulou do colo do mais velho e, de pé, novamente o puxou sem ter permissão, ambos correram pela escada até chegar no destino que o mais novo desejava, a cozinha. Chan largou o pulso de Taehyung no momento em que entraram no campo de visão de Jeongguk, o mais novo olhou malicioso para o primo e sentou-se na bancada de frente para o castanho.

— A gente tá com fome, hyung, tem alguma coisa aí? — O olhar de Chan dizia tudo e Jeongguk conseguiu entender tudo que estava nas entrelinhas.

— Torta. — Jeongguk o olhava com a sobrancelha erguida e os braços cruzados, seu primo sabia que não tinha muito ali naquela casa. Ele queria algo.

— Eu quero sorvete e o Hyung ali também. — Apontou para o mais velho que somente sorriu. Jeongguk rolou os olhos com a fala do primo.

— Vou tirar sorvete do meu cu, só pode — ironizou. — Vamos comer a torta, tô ansioso por ela faz tempo. — Vai comendo sem mim por enquanto, eu vou purpurinar o banheiro. — Em um só dia Chan arrancou mais sorrisos de Taehyung do que Jeongguk tentando conversar com o mais velho em dois minutos com ele.

— Você deveria sorrir mais Tae, seu sorriso é lindo. — O mais velho baixou a cabeça. Era a primeira vez que recebia elogios depois de tudo o que tinha passado.

A confiança é como um castelo de cartas ou até mesmo um copo de cristal, com tão pouco se quebra, porém demora muito para ser reconstruída e mesmo assim nunca será a mesma coisa. E Taehyung ainda não estava certo de devia confiar.

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Jeongguk decidiu descobrir o que estava acontecendo. Pelo estado do próprio Taehyung e sua casa, algo muito sério tinha acontecido, sério o suficiente para destruí-lo emocionalmente e capaz de ficar mal falado pela cidade. Provavelmente foi algo público,
então decidiu começar pelos jornais.

Talvez encontrasse alguma notícia que explicasse tudo. Sabia que Taehyung não era nenhum criminoso, ou acabaria sabendo nos dias que passou ali. Sabia que era algo grave, mas estava torcendo para achar alguma coisa.

Entrou no site do jornal e procurou as notícias dos dias antes de sua chegada. As notícias não eram tão ruins. Não era uma cidade com muitos crimes, então as notícias eram, basicamente, nacionais e não regionais.

Não desistiu e continuou procurando por qualquer coisa que explicasse a tristeza do vizinho. Foi quando a manchete de um deles chamou sua atenção. Primeira página. “Relacionamento exposto, vergonha para a nossa cidade”, era o que estava escrito na manchete. Logo abaixo estava a foto de Taehyung e de outra pessoa que não conhecia e uma foto, a qual parecia mais um print, de uma possível cena pornográfica.

Começou a ler o artigo e tudo fez sentido imediatamente. O fato de não sair de casa, sempre andar disfarçado e não receber ninguém.

Digitou algumas palavras na barra de pesquisa e rapidamente achou o vídeo que não deveria estar na internet. Foi algo viral, pelo menos para os tarados da internet. Ele já estava postado em vários sites e alguns perfis tinham sido criados em “homenagem” a Taehyung com fotos sem roupa, já que a pessoa provavelmente vazou junto com o vídeo.

Logo achou os comentários ofensivos, além da dura crítica em blog local e na própria notícia. Taehyung, além de traído, foi duramente julgado por todos a sua volta. Por isso não deixava ninguém se aproximar. Estava com medo que aquilo tudo se repetisse novamente.

Jeongguk sentiu o coração apertar.

Taehyung foi completamente injustiçado. E pelo jeito que estava agindo, Jeon duvidava que ele estava correndo atrás de seus direitos. Ele podia processar o responsável e fazer com que o vídeo fosse apagado da internet, mas como lutar depois que foi esfaqueado pelas costas pela pessoa que provavelmente amava? Até porque tirá-lo da internet não ia apagar aquilo da mente das pessoas. A sua reputação não voltaria. Nada seria como antes.

Ele apenas queria entender o que levaria a alguém a fazer tal coisa não só com o namorado, mas consigo mesmo. Ele provavelmente foi prejudicado com isso, então por quê? Ele não conseguiria entender, mas agora que sabia de tudo, faria o possível para ajudá-lo a superar esse momento difícil.

Ouviu o celular notificar uma mensagem. Já tinha umas vinte de seu primo exigindo que ele contasse o que rolou depois que foi embora, quase ignorou. Mas percebeu que era de Yoongi. Rapidamente sacou o celular para ver do que se tratava.
[centro]Não sei o que você fez, mas já agradeço.
Ele me deixou entrar e conversar com ele.
Você é o meu herói. [/centro]

Sorriu com as mensagens, não sabia que tinha conseguido aquilo. O dia vergonhoso, o qual, aparentemente, fora normal para Jeongguk, foi enormemente significativo para o seu vizinho.

Jeongguk sorria de modo bobo por algo que nem mesmo fazia sentido em sua cabeça, o simples fato de ter passado o dia com Taehyung e ter tido o prazer de ver o sorriso do rapaz o deixou alegre. O castanho sabia bem que tinha se metido em uma bela confusão, mas ele estava gostando de se arriscar desse modo.

Lembrou-se que tinha pensando em fazer pequenas coisas para ajudar o vizinho, mesmo com tão pouco já sentia-se próximo do vizinho que aos poucos sorria. Jeongguk pegou um casaco qualquer e uma touca, recolheu sua carteira e chaves, iria perguntar se
Taehyung o acompanharia até o mercado.

Saiu de casa com um sorriso no rosto e percorreu o pequeno caminho até a casa alheia, parou rente a porta e ali bateu algumas vezes seguidas e sem receber qualquer aviso prévio de que alguém iria abrir a porta, Taehyung simples abriu sem fazer barulho.

ᅳ Oi, Jeongguk, o que deseja? ᅳ O mais velho não sabia o que esperar do mais novo, notou que Jeongguk era imprudente e muito cabeça dura para deixar alguma coisa quieta. Notou também que quando o mais novo queria algo, ele conseguia.

— Eu pensei em fazer compras pra você, nem venha me dizer que tem tudo que precisa pois eu sei que não tem. — Falou o mais novo encarando Taehyung que apenas o olhou pensando em como declinar aquele pedido.

— Eu tenho comida Jeongguk... — Sua voz era quase um sussurro, Jeongguk teve que se esforçar para conseguir ouvir. TaeHyung estava totalmente indisposto, o que já era de se esperar, e Jeongguk sabia bem o motivo.

ᅳ Eu estou falando de comidas saudáveis, Taehyung. ᅳ Jeongguk ergueu a sobrancelha, poderia não conhecer Taehyung como Yoongi ou Jimin conheciam, mas o pouco que sabia já era o suficiente. — Ou você acha que ficar comendo apenas essas besteiras está te fazendo bem? Você vai acabar ficando doente desse jeito. — Jeongguk olhou o mais velho suspirar em rendição, não havia quem tirasse uma ideia quando ela entrasse em sua cabeça, ele iria ajudar TaeHyung mesmo que tivesse que insistir milhares de vezes para isso.

ᅳ Certo, certo... Eu estou bem em casa, por que não compra as coisas por mim? ᅳ O mais velho sugeriu, talvez não fosse uma má ideia. TaeHyung não sabia das reais intenções de Jeongguk com aquilo mas iria deixar o mais novo o "ajudar" como ele queria. O mais novo sorriu mostrando seus dentes que eram semelhantes a de um coelho, na opinião de Tae uma qualidade que só o deixava mais fofo. Jeongguk ficou feliz que o mais velho havia concordado com parte da sua ideia, despediu-se dele com um breve aceno e apenas de ver aquele sorriso retangular seu dia já havia valido a pena.

Em passos não tão rápidos começou a andar pela rua em direção ao supermercado, não ficava tão longe o que era uma pequena vantagem. Quando chegou pegou um carrinho e entrou alegre no recinto que no momento não havia muitas pessoas, apenas algumas
senhoras simpáticas de uma idade mais avançada.

Começou a andar pelos corredores, pensando no que Taehyung gostaria de comer e em comidas que dessem bastante energia para ele. Jeongguk achava que em toda sua vida nunca tinha sido tão atencioso quanto hoje, não havia pegado nenhuma besteira já que isso era o que TaeHyung mais tinha comido. Passou por último nos corredores onde tinham sucos naturais e pegou alguns sabores que o mais velho iria gostar, conferiu novamente a lista de algumas coisas que definitivamente não podiam faltar naquelas compras e foi para o caixa.

Jeongguk começou a se sentir um pouco desconfortável, enquanto passava suas compras se sentia observado e quando se virou percebeu que uma das caixas o encarava descaradamente e com uma feição um pouco assustadora em sua opinião, ele sabia exatamente quem era aquela garota e não a suportava de forma alguma desde o momento que ela começou a se mostrar um mulher de baixo nível ao falar mal de Taehyung que não tinha nada a ver com o momento naquele dia em questão. Tentou ser o mais discreto possível e fingiu que não apercebeu ali, o que a deixou visivelmente irritada, e pegou suas compras e saiu do supermercado calmamente.

Andou novamente para a casa de Taehyung e quando chegou no local desejado se pôs a bater na porta sem qualquer pudor, e não demorou muito para o moreno atender. Jeongguk se perguntava se ele tinha pés aveludados já que ele era silencioso demais.

Levantou as sacolas as sacudindo animado, tinha certeza que o mais velho iria gostar do que tinha comprado.

— Você foi rápido! — Taehyung deu espaço para o mais novo entrar com as compras. Jeongguk não iria estranhar de entrar no local e encontrar as coisas totalmente bagunçadas, porém não foi o que viu.

A casa do mais velho se encontrava organizada, com piso encerado e as coisas em seu lugar, como se tivesse contratado alguém para limpar. Taehyung parou de andar no momento em que percebeu que sua visita tinha ficado para trás, o que teria sido um pouco diferente se o primo alegre do Jeon estivesse ali.

— Yoongi me ajudou, ele disse que eu não posso viver em um chiqueiro. — Taehyung se mostrava um pouco mais agitado que o normal, o que desencadeou um sorriso involuntário em Jeongguk que apenas continuou a andar até a cozinha. Chegando em seu destino, colocou as compras sobre o balcão e começou a desempacotar. Taehyung observava tudo o que o mais novo fazia e mesmo com um pé atrás em relação ao rapaz, ele tinha de admitir que o mais novo era alguém diferente e cativante.

— Eu não como isso daí.

— Isso daqui. — Apontou para um pequeno saco repleto de legumes e verduras. — Vai fazer bem para a sua saúde. — Balançou a sacola na frente do mais velho que apenas fez uma careta de nojo e bateu na mão alheia. — O que vai querer jantar, hyung?

— Qualquer coisa que não tenha isso daí. — Taehyung disse zombeteiro. Era divertido bagunçar com Jeongguk porque o mais novo se irritava com tão pouca coisa e em tão pouco tempo Taehyung aprendeu muito sobre o castanho bem à sua frente, que
revirava os olhos demonstrando sua revolta.

— Você é muito fresco, e vai comer o que eu fizer. — A ordem era simples, mas Taehyung iria burlá-la.

— Às ordens, capitão.

- 000 -

Jimin o ajudava a levar a mesa para fora enquanto Yoongi estava sentado no jardim em frente a casa de Jeongguk. Já tinha trabalhado demais naquele dia e nenhuma força sobrenatural o faria carregar peso naquele fim de tarde.

— Você não pode ir pegando as cadeiras? — Jimin perguntou depois do pequeno esforço que tiveram para abaixar o objeto de madeira no meio da vila. — Elas são leves.

— Já trabalhei demais hoje. Odeio trabalhos pesados, você sabe. Sou do tipo intelectual. — Yoongi abaixou os óculos escuros e deitou ali mesmo. — Se precisarem de ajuda para montar um quebra-cabeça ou algo assim, podem me chamar.

— Você só me ajudou a cozinhar! E o Jimin também nos ajudou, nem sei por que você está reclamando. — Jeongguk comentou antes de voltar às pressas para dentro de casa. — Se eu soubesse que faria um jantar ao ar livre, eu não teria feito a sala de jantar no segundo andar.

— Vocês, donos de músculos, nunca vão me entender. — Yoongi abaixou os óculos apenas para dar uma boa olhada nos shorts suados e apertados do namorado antes de olhar para a janela da casa do amigo. Percebeu que Taehyung estava ali, rindo de sua ação anterior com o namorado. O mais velho sorriu e acenou.

Fazia tempo que não o via daquele jeito.

Taehyung fez o famoso movimento “eu estou de olho em você” antes de sumir em seu cômodo. Yoongi colocou os óculos novamente e viu os rapazes levando as cadeiras.

— Vocês estão muito lerdos, o sol já está se pondo e vocês não acabaram com isso ainda. — Yoongi resolveu implicar enquanto observava o trabalho dos rapazes. — Vou ter que bater palminhas para vocês irem mais rápido?

— Vou dar com essa cadeira na sua cabeça. — Jimin ameaçou antes de olhar para o namorado. — Não me obrigue a te mostrar o dedo.

— Você sabe que seu dedinho pequeno e fofo não faz nem cosquinha em mim. — Yoongi implicou novamente, e isso o fez ganhar dois dedos do meio. — Você fica tão sexy assim. Vamos tomar um banho juntos quando chegarmos em casa.

— Ele enche seu saco e ainda pede sexo. É um namorado abusado mesmo. — Jeongguk riu da relação dos dois enquanto descansava os braços daquele trabalho.

— É normal. Ele é assim diariamente. Já estou acostumado. — Jimin explicou antes de passar a mão na testa para tirar o suor. — Sorte dele que é muito carinhoso e cuidadoso, porque nem em uma vassoura ele sabe pegar.

— Bom, eu vou tomar banho, ainda tenho que trazer as coisas para cá, só não sei se devo chamar o Taehyung eu mesmo ou deixo que vocês façam isso por...

— Faça você mesmo. Confie em mim. — Yoongi disse após levantar-se da grama do jardim. — E seja romântico, nada de flores.

— Romântico para quê? Vai ser um jantar entre amigos.

— Então quer dizer que você não está interessado nele? — Yoongi deu um selinho nos lábios do namorado e ainda conseguiu ver o rosto de Jeongguk enrubescer com sua fala. — Sabia. Me deve vinte.

— Ok, ele é bonito, admito. Mas não é por causa disso que quero ajudá-lo. Não sou uma pessoa interesseira. — Jeongguk queria deixar isso bem claro para os dois. Não queria ser mal visto pela dupla. — Eu sinto que ele precisa de ajuda e meu coração se aperta ao
vê-lo nessa situação.

— De todos nós. — Ele disse abraçando a cintura do namorado. — Agora, se me der licença, partes minhas vão entrar no buraquinho da felicidade do Jimin enquanto tomamos banho.

— Para de falar isso! — Jimin disse antes de dar um tapa no braço do mais velho. Logo em seguida, perceberam que Jeongguk estava olhando para o horizonte, como se nada estivesse acontecendo ali. — Ele é virgem. Não te devo mais nada.

— Você apostou na minha virgindade?

— Eu pensei que, no país de American Pie, ninguém era virgem depois dos quinze anos. Era uma questão de lógica. — Yoongi disse antes de puxar o Jimin. — Agora me dá licença que o Jimin suado é minha perdição.

- 000 -

Jeongguk estava mergulhado em nervosismo. Ele precisou tomar banho duas vezes, não pelo o que você está pensando, mas costumava suar demais quando ficava ansioso por alguma coisa. Quando essa ansiedade é triplicada porque estava tirando alguém de casa para comer a sua comida, tudo ficava pior quando tinha preparado algo romântico para o convite.

Estava caminhando para a casa do vizinho quando avistou o casal de garotas que morava ao seu lado. Estava pensando em convidá-las também, mas preferiu chamar Taehyung primeiro.

— Oi, meninas. Querem jantar conosco? — Jeongguk perguntou com um sorriso no rosto, acenando para a dupla cuja animação era tamanha que nem perceberam a presença do rapaz ali.

— Desculpe, mas já temos compromisso com minha mãe. — Sana disse, ainda caminhando a passos rápidos com a namorada ao lado. — Vamos dirigir seis horas só para isso. Espero que se divirta mais que nós.

— Você é muito palhaça! — A mais baixa disse enquanto corriam.

Jeon acabou rindo com aquelas duas. Querendo ou não, a atitude estranha das duas o fez relaxar diante daquela situação. Respirou fundo e caminhou até a porta de Taehyung. Passou a mão na camisa, para tirar o amarrotado e bateu na porta.

Passou a brincar com os polegares enquanto esperava. Detestava quando ele demorava tanto para abrir aquela maldita porta. Olhou em volta, procurando alguma coisa que pudesse acalmá-lo quando ouviu as trancas se movendo.

— Pois não? — Taehyung apareceu e sua boca formou um “O” perfeito ao ver o quanto Jeongguk estava arrumado e com uma aparência bastante diferente. — Gostei das mechas rosas. Eu não gosto de rosa, mas combinou com você.

— É bom ver você falando mais. — Jeongguk acabou soltando sem querer. O elogio repentino do mais velho quebrou suas expectativas e o fez acabar com seu plano. Ele parecia um pouco melhor e de bom humor. Isso era bom, mas ele estava tremendo por falhar em seu próprio plano.

Respirou fundo, tossiu e se concentrou.

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Taehyung ficou quieto o tempo todo, ouvindo cada palavra daquilo que estava recitando. Tinha toda uma beleza na formação da sentença e na forma como ele dizia. Era realmente bonito.

— Eu não entendi muita coisa. — Foi a primeira coisa que comentou antes de sentir o coração acelerar novamente. Já tinha visto o quão habilidoso Jeongguk era naquele trabalho de carpinteiro, não imaginava que também era um amante de literatura ocidental.

— Ele fica muito melhor recitado na língua original, o português. Mas não acho que perca sua essência no coreano. — O mais novo disse com um sorriso envergonhado no rosto. Queria fazer uma coisa diferente, mas acabou estragando tudo porque, no fim, ele não entendeu nada. — Ele fala que é o destino do ser humano amar, amar tudo a sua volta. Fala do medo de amar alguém e não recebê-lo de volta, mas no fim, todos estamos esperando para receber nossa dose de amor.

— E por que resolveu dizer essas.coisas tão bonitas para mim?

— Não sei. — Respondeu em meio ao nervosismo. Tinha que parar de dar respostas sem pensar antes. — Eu só queria te chamar para jantar.

— Está me chamando para sair?

— Não...

— Olha, tudo o que me aconteceu foi muito recente. Eu sei que já faz um mês e eu já deveria ter superado, mas ainda não aconteceu. — Interrompeu Jeongguk de imediato.

— Mas eu queria te chamar para um jantar de amigos mesmo. Yoongi e Jimin também vão. Algo completamente descompromissado, eu juro. — Jeongguk explicou rapidamente antes de dar um passo para trás. — Vamos fazer aqui mesmo, veja. — Então apontou para as coisas arrumadas. — Você poderá ir para casa quando quiser, viu?

— Entendo, então você não quer me beijar?

— Eu não disse isso. — Exclamou baixinho e arrancou uma risada fraca do mais velho.

— Gosto da sua sinceridade e percebi que você está me ajudando sem pedir nada em troca. Você me parece uma boa pessoa e não um interesseiro. Então eu aceito ir no seu jantar. — Taehyung respondeu com um sorriso no rosto. — Só peço que espere um pouco. Eu preciso me arrumar também.

— Você está bem bonito assim.

— Obrigado, mas prefiro ficar bem arrumado como você. Só vou tomar um banho e me arrumar. — Ele disse antes de fechar a porta e deixar Jeongguk do lado de fora.

— Ele negou? Se ele negou o convite, eu vou arrastá-lo para fora porque eu não me arrumei a toa. — Jimin apareceu de repente, de braços dados com seu namorado, extremamente arrumado. — Quero que se esse jantar seja perfeito.

— Ele aceitou sim, só foi se arrumar. — Jeongguk respondeu, antes de deixar a varanda da casa do vizinho. — Só queria dizer que ser romântico não me ajudou em nada.

— Não acertamos sempre. — Yoongi deu de ombros e sorriu para o mais novo. — Eu voto em pegar a comida e já colocar na mesa. Estou morrendo de fome e lembrar o que fizemos mais cedo está me matando, até porque nunca experimentei nada daquilo.

— Tudo bem, vamos lá. — Jeongguk voltou a caminhar para sua casa. Com a ajuda dos dois rapazes, toda aquela variedade de comida foi levada para a pequena mesa externa. Com um pouco de maestria e ajuda de outra mesa que pegaram na casa do casal, arrumaram as bebidas e sobremesas.

Quando Taehyung deixou sua casa, completamente arrumado, de forma que nem parecia que passou por dias difíceis. Com boas roupas, maquiado e com a expressão confusa de não saber o que esperar. O trio já estava sentado na mesa, apenas esperando que o Kim se juntasse a eles. Sua mão tremia, seu coração estava acelerado. Estava evidentemente nervoso.

Ainda estava com um passo atrás em relação às pessoas, principalmente Jeongguk
o qual não conhecia. Não sabia se fez o certo aceitando aquele convite, mas estava tão
cansado de sofrer que decidiu se arriscar, queria mudar as coisas.

— Boa noite.

— Que formalidade é essa? — Yoongi perguntou de forma irônica, mas com um leve tom de brincadeira. — Cadê o dongsaeng abusado que eu conheço?

— Está sentado embaixo de você. — Respondeu à altura como faziam antigamente. Riram juntos e Jimin ficou observando os dois como se visse uma coisa linda acontecendo. Estava até com vontade de chorar por ver o melhor amigo agindo daquela maneira. — Hyung, acho que o ChimChim está chorando! — O mais velho não estava, porém queria.

Jeongguk se encontrava calado admirando o quão bela era a cena a sua frente, todos sentados naquela mesa sorrindo como se fossem amigos de tempos e tempos, pelo menos os três mais velhos ali eram e o castanho com recém mechas rosas apenas estava apreciando o momento em que conseguiu fazer aquela pessoa que de início era solitário,
sorrir novamente.

— Jeongguk, pare de babar na comida. Isso é nojento. — Yoongi gargalhava com o mais novo que o olhou sem entender praticamente nada do que acontecia.

— Como?

— Falei para fechar a boquinha, sua baba após encarar o TaeTae está molhando essa maravilhosa comida. — A ironia do mais velha era o ponto chave para fazer um Jeongguk se engasgar com a própria saliva, e deixar um Jimin quase chorando de tanto rir da cara do novo dongsaeng.

Taehyung apenas comia o que tinha na mesa, não ousava se intrometer na conversa alheia como fazia antigamente. Jimin observava o quão distante o amigo parecia, mas somente por ter o castanho ali sorrindo das coisas mais idiotas já ditas por seu namorado e por Jeongguk, já o deixava deveras feliz.

— Tae, tem alguma coisa no seu cabelo. — O rapaz de fios negros com pequenos resquícios de uma tinta azul, realmente estava se empenhando naquela noite para fazer o amigo se divertir.

— Não começa, Yoongi hyung, sua carinha não me engana. — O castanho conhecia todos os truques do mais velho, mas somente por precaução. — Então, me contem as novidades.

— Claro, com todo prazer. — Yoongi maliciou. — Vamos com o que fizemos hoje, Jimin e eu experimentamos algo novo, extraordinário para falar a verdade...

— Não quero saber. — Taehyung cortou o papo que certamente ele já sabia onde iria dar. — Jimin, alguma novidade?

— Ah, mas você quer saber sim. — Yoongi não deixou sequer Jimin abrir a boca para responder o amigo. Jeongguk basicamente se encontrava quase sufocando com a comida de tanto que ria da insistência do mais velho em falar sobre sua intimidade com o namorado para Taehyung. — Então, tudo começou quando você estava paquerando o seu vizinho pela janela e me viu admirando a bela parte traseira do meu namorado...

— E-eu não tava paquerando ninguém, hyung. — O castanho interrompeu Yoongi que apenas direcionou seu olhar malicioso para Jeongguk que agora encarava a face vermelha do Taehyung.

— ‘Tá, você finge que mente e eu finjo que acredito no que diz, agora se você me interromper novamente eu enfio essa cebola na tua garganta. — Jimin olhou para o namorado com reprovação, mas não se pôs a falar nada. Estava claramente gostando do desfecho daquela conversa. — Onde parei? Ah, e então você me olhou como se fosse a coisa mais errada do mundo, acredite, meu caro Taehyung, um dia você também vai apreciar a bela traseira do Jeongguk...

— Yoongi hyung, não me meta nas suas fantasias. — Jeongguk novamente se engasgou, mas dessa vez foi de um modo tão divertido para o mais velho, que ele teria certeza de fazer novamente, estava amando provocar os seus dongsaengs.

— Jeongguk, cala a boquinha. Você dando sua opinião nesta conversa é irrelevante, estou mostrando minha idéia sobre o futuro não tão distante de vocês dois. — Jimin que até agora se mantinha calado apenas observando a tez antes pálida de um e morena de outro se tornar um lindo vermelho, esse que ele tinha certeza que poderia ser visto de longe. — Não me façam jogar aquela garrafa de vinho, então peço que apenas me escutem.

— Amor, eu sei que você quer muito contar como foi transar no banho, mas acho que chega de ameaças de morte hoje, não acha? — Jimin ria da expressão que o namorado fez, era a típica carinha “poxa, amor, não tira minha moral assim “ , porém o rapaz de madeixas rosas não podia evitar achar aquela feição fofa, a ponto de deixar um breve selar nos lábios alheios. — Termine de contar.

— Agora eu não quero mais. — Cruzou os braços como uma criança birrenta faz, deixou um bico se formar nos lábios e simplesmente mudou seu humor, tal atitude desencadeou uma série de risos um pouco altos vindos de Taehyung e Jeongguk. — Tão rindo de quê? Tem algum palhaço aqui?

— Ai, hyung, diz logo o que ia contar. — Jeongguk mesmo não estando curioso, tinha que admitir que o clima estava agradável.

Yoongi sorriu, arrumou-se na cadeira, tomou um gole demorado de vinho e por último sorriu.

— Depois que fomos para casa, eu já cheguei jogando esse delicia no sofá. — Se tem uma coisa em que Yoongi era bom, era em deixar Park Jimin totalmente envergonhado. Taehyung simplesmente gargalhava com a situação em que o melhor amigo se encontrava.

— Não dá... — Yoongi não tinha nem começado a contar os detalhes de sua tão luxuriante hora de banho. — Jimin, como você aguenta esse hyung como namorado? — Jeongguk mal conseguia completar suas frases. — Quem tem um Yoongi como namorado, não precisa de inimigos.

— Jeongguk, como estão suas pernas? Melhor, você corre rápido?

— Hyung, eu lhe aconselho a permanecer onde está. — Jeongguk estava gostando das alfinetadas no mais velho que estava entrando no jogo de quem provoca mais.

— Pelo menos eu admito que o Taehyung é bonito. — Yoongi estava curioso para saber até onde Jeongguk estava disposto a ir. De repente, luzes se espalharam pelo lugar, com certeza era flash de alguma câmera de celular. Uma mulher tirava as fotos enquanto a outra segurava um bloco de anotações.

— O que significa isso? — Jeongguk foi o primeiro a se pronunciar, levantando-se da mesa. Taehyung já levou a mão ao rosto para não ser visto.

— Ué, Taehyung agora é uma pessoa famosa, ele tem que se acostumar com os novos flashs na vida dele. — A mulher com o bloquinho disse antes de aproximar-se enquanto as fotos continuavam a ser tiradas. — Você está pensando em continuar sua carreira como ator pornô.

— Eu nunca quis isso, vão embora! — Taehyung levantou-se e deu uns passos para trás antes de cair no chão.

— Mas apesar das críticas, muitas pessoas gostaram do seu trabalho. Seu corpo, rosto e desempenho na cama podem te levar à fama. Tem certeza que não quer nos dar uma entrevista? Você não precisa responder todas.

— Eu não quero responder nem uma! — Ele disse antes de correr para dentro de casa. Foi quando Yoongi levantou-se, dando uma pancada na mesa.

— Vocês passaram dos limites. Essa vila é particular, vocês não têm permissão para estar aqui. — Disse antes de empurrar a mulher com uma força que não deveria. Jimin precisou segurá-lo para não fazer nenhuma besteira.

— Obrigado por acabar nosso jantar. — Jeongguk disse antes de também ir em direção à casa de Taehyung, afinal ele deixou a porta aberta. Não sabia se as mulheres foram embora ou se Yoongi acabaria preso por agressão, apenas focou no Taehyung deitado no sofá com as mãos sobre os olhos, estava se segurando para não chorar. — Não deixe que aquelas mulheres acabem com a nossa noite.

— Eu não me importo que elas acabem com a minha noite. — Taehyung disse com a voz fraca, olhando para o próprio tapete da sala. — O problema é que ela acabou com a noite de vocês. Isso pode ser duro para mim, eu sabia que isso poderia acontecer quando ele pedia para nos filmar, mas não é justo que essa minha má fama atrapalhe a vida dos meus amigos.

— Não atrapalhou em nada, Taehyung, nada. Eu juro. — Jeongguk sentou ao lado do rapaz e pegou em suas mãos trêmulas. — Eu não me importo que as pessoas falem mal de mim. Na verdade, é até divertido ver o quanto as pessoas são burras. Eu gosto de viver em linhas não tênues. A vida fica menos chata.

— Você é mesmo um daqueles americanos loucos. — Taehyung riu com a forma que ele pensava. Por algum motivo, sentia-se confortável com o novo vizinho, mesmo que fosse um desconhecido. — Obrigado por me apoiar, mesmo depois da forma que te tratei. Ainda tenho medo de confiar nas pessoas.

— E qual é a melhor forma de ganhar a sua confiança? — Jeongguk perguntou, trocando olhares com o mais velho, apenas queria ser seu amigo. Nesse momento, Taehyung aproximou-se e selou os lábios aos dos mais novo. Um selar casto, mas significativo o suficiente para aquecer o coração dos dois.

Taehyung não fazia ideia do que estava fazendo, mas sentia que a melhor forma de melhorar era encontrando outra pessoa. O que era esquisito é sentir que Jeongguk, uma pessoa que conheceu há poucas semanas e ainda tinha certa dificuldade de falar coreano, podia ser a solução de seus problemas.

— Você está ganhando aos poucos. — Taehyung disse antes de levantar-se e parar na frente da porta. — Vamos continuar o jantar? Ainda estou morrendo de fome e creio que Yoongi já expulsou aquelas mulheres daqui.

— Como quiser. — Jeongguk levantou com um sorriso e o acompanhou para o lado de fora para um momento divertido junto com o outro casal.

- 000 -

Jeongguk estava sentado à mesa da casa de Taehyung. Ele segurava uma xícara de café enquanto via Taehyung girar a massa em um pote de forma precisa. Aquela era uma das poucas coisas que conseguia cozinhar bem. Como Taehyung percebeu que Jeongguk amava cozinhar doces, decidiu mostrar a sua especialidade, mesmo que ele lembrasse muito do ex namorado pelas inúmeras vezes que o fez para ele.

— Depois você vai me ensinar como fazer isso. Eu não posso ficar preso aos doces ocidentais. — Jeongguk disse antes de beber mas um gole daquele café quentinho.

— Eu achei as suas massas deveras diferentes, por isso queria te mostrar o que eu sei fazer. — A voz de Taehyung estava tão diferente daquela que costumava ouvir que estava feliz por isso.

— Então mostre-me o Reinaldo cozinheiro que você usa para cozinhar miojo. — Jeongguk brincou antes de passar a ponta do indicador sobre a peça bonita que Taehyung usou para servi-lo.

— Eu não sou bom cozinheiro. Apenas sou uma pessoa que gosta de mimar os outros. Então tudo o que sei fazer é para agradar Nikon ou a pessoinha que quero esquecer. — Taehyung explicou antes de colocar o pote em cima da pia porque a campainha de sua casa tocou. — A gente fala no demônio esfomeado e ele aparece.

— Ele vai nos zoar por estarmos juntos sozinhos na sua casa. — Ele bebeu mais um pouco de café, esvaziando a xícara. Logo levantou-se para pegar mais. — Vou tomar mais café!

— Fica à vontade. — Disse enquanto enxugava suas mãos com o pano de prato. — Você sente o cheiro de bolo de longe, não é Jimin? — Taehyung abriu a porta e se assustou ao ver que não era o amigo ali. — Yugyeom?

— Oi, Tae. Faz tempo, não? — Ele não estava acreditando que ele estava mesmo na sua frente depois de tudo o que aconteceu. Com aquele sorriso aparentemente normal e fofo. — Podemos conversar?

— Eu não tenho nada para conversar com você. — Ele disse com seriedade e a cara fechada. — Como você pode ter coragem de vir até aqui, falar comigo, depois do que você fez?

— Eu vim resolver as coisas. Eu estou muito arrependido pelo o que eu fiz e vim aqui te pedir desculpas. — Yugyeom estava falando a verdade, mas Taehyung estava com tanta raiva que não queria ouvir nada. — Eu sei que você não merecia isso, mas...

— Vai embora daqui! — Gritou com tanta agressividade que o rapaz recuou assustado.

— Tae, algum problema? — Jeongguk perguntou ao ouvir o grito.

— Não, não estou nada bem. — Respondeu batendo a porta com força. Em seguida, com passos firmes, subiu a escada em direção ao seu quarto. O mais novo correu até a porta e encontrou aquele desconhecido chorando com a atitude do mais velho.

— Você foi o responsável por tudo, não é? — Jeongguk perguntou para ter certeza do que está acontecendo.

— Eu só queria pedir desculpas. Eu... — Começou a soluçar em um desespero que ele não entendia. Jeongguk não iria defendê-lo, ele tinha feito merda, mas se ele estava arrependido, Taehyung precisava tentar perdoá-lo. É o primeiro passo para deixar tudo para trás.

— Eu vou falar com ele. Espere aqui. — Jeongguk disse antes de ir atrás do dono da casa em seu quarto. — Toc Toc. — O castanho disse enquanto se encostava no batente da porta.

— Eu quero ficar sozinho. — O mais velho se encontrava totalmente encolhido na cama, as gotas cristalinas rolavam pela bochecha rosada do rapaz. — Eu não entendo o porquê de ele voltar. — Taehyung estava atordoado, estava com raiva.

O mais novo se aproximou de Taehyung, sentou-se ao lado dele e passou de leve a mãos sobre os fios castanhos. O mais velho ao sentir tal carinho repentino se afastou meio receoso, ainda estava ferido e com o aparecimento repentino do ex fez com que as coisas voltassem com tamanha força que todo o pequeno castelo de cartas que estava voltando a se reerguer, desmoronou.

— Sabe, hyung, tem vezes que você deve perdoar para poder se sentir aliviado. — O mais novo continuava a fazer um leve carinho no seu hyung. Taehyung não estava esperando por tal proximidade. — Posso nunca ter passado por isso, mas eu posso tentar te ajudar. Isso se você aceitar.

Taehyung deixava seu choro sair livremente. Relembrar o passado doía, ver o rosto de Yugyeom o fazia querer perder totalmente suas lembranças, queria esquecer daqueles momentos.

Desespero

Raiva

Rancor

Eram três simples palavras que ele agora estava carregando consigo. Em sua mente passava as mais variadas perguntas, e uma delas tinha um significado maior do que qualquer outra coisa "Ele me amou?". Era totalmente inevitável esses tipos de pensamentos, pois naquele momento ele se lembrava das juras de amor, das letras de música, das noites mal dormidas por passarem gemendo coisas totalmente desconexas no ouvido um do outro. Tudo estava presente novamente em sua mente, atormentando-o. Taehyung se perguntava o porquê de tudo se transformar em uma tragédia justo quando as coisas estão ficando boas

Ainda que qualquer pessoa olhasse em seus olhos não seria capaz de ver a tamanha tristeza que estava sentindo, sua garganta doía pelo choro, mas não se comparava a dor que as lembranças lhe causavam em seu coração.

ᅳ Dói, Jeon, está doendo...ᅳ Taehyung abraçava seu próprio corpo e as palavras saíam desconexas, mas Jeongguk entendia que o mais velho estava machucado. ᅳ Eu não quero falar com ele, eu não quero. ᅳ O mais velho se encolhia a cada segundo.

ᅳ Tae, isso só vai te machucar mais. ᅳ Jeongguk passou de leve a mão no rosto do mais velho que apenas fechou os olhos com o contato da mão gélida.

Taehyung se levantou devagar, em pouco tempo sua cabeça já estava pesada. Com os olhos encostados em seu peito e cheios de lágrimas, o mais velho tentava digerir o que escutava do mais novo a sua frente. Taehyung vinha se prendendo muito ao passado e nunca admitiu que aquilo o deixava pior em todos os tipos de situações.

A mão de Jeongguk se encontrava ainda pousada na bochecha de seu hyung, mesmo sendo em tão pouco tempo ele já podia entender tudo o que o mais velho tinha passado e sabia exatamente como ajudá-lo, agora ele só precisava aceitar.

Jeongguk se aproximou cuidadosamente do Kim e com certa delicadeza passou seu polegar em baixo dos olhos dele, deixando-o com as bochechas levemente coradas. Taehyung, que mordia o lábio inferior, já mordia com tamanha força a ponto de sangrar.

Taehyung tinha esquecido o que era ter alguém para o acalentar, tinha esquecido como era sentir o calor de outra pessoa próximo a si. Ele estava tão focado em sua raiva e tristeza que não notou o exato momento em que se aproximou do corpo de Jeongguk e o abraçou fortemente.

ᅳ Eu não quero, eu só quero esquecer... Eu quero que ele vá embora e nunca mais apareça na minha frente. ᅳ Taehyung soluçava as palavras. Uma coisa era certa, ele não estava disposto a perdoar.

— Tae, uma vez minha avó me disse que o ódio é o veneno do ser humano, ele apodrece a alma e a deixa escura. ᅳ Por um instante o mais velho lhe dava devida atenção. — Sabe como se extrai o veneno de cobra? ᅳ Taehyung apenas negou de modo mudo. — Com um pouco de azeite na boca e logo em seguida se suga o veneno da corrente sanguínea de quem foi picado. ᅳ Sorriu. ᅳ E quase do mesmo modo se extrai o veneno da alma, só que no lugar do azeite na boca, você coloca a razão. E no lugar de sugar o veneno, você perdoa aquele que um dia te fez mal.

O abraço que Taehyung dava no mais novo começou a ficar cada vez mais apertado, porém Jeongguk não reclou. Não tinha o porquê reclamar. Continuava com os carinhos no rosto e no cabelo do mais velho, esse que já começava a se acalmar. Jeongguk esperava que de algum modo suas palavras fizessem Taehyung tomar a decisão certa e seguir em frente.

Taehyung levantou seu olhar e com leveza levou sua mão até o rosto de seu dongsaeng e ali selou seus lábios no do mais novo que foi pego totalmente de surpresa. Jeongguk aos poucos cedeu ao beijo calmo e cheio de sentimentos, esses que o mais novo não sabia o que realmente significava para o mais velho.

ᅳ Eu... tento, mas não é porque você falou.

ᅳ Hyung, quero dizer uma coisa antes de você ir lá. Não deixe que somente aquilo que lhe fez mal afetar seu julgamento, afinal você o amou, pense que um dia ele já lhe fez sorrir e utilize isso para seu ato final. ᅳ Jeongguk segurava o mais velho pelos ombros, deixando seu mais belo sorriso passar total segurança para o castanho. ᅳ Como em uma peça de teatro.

Taehyung deixou um sorriso escapar com o pequeno conselho, respirou fundo e, com uma última olhada para jeongguk, que apenas acenou com a cabeça para si como se desse uma permissão ao seu pedido mudo de seguir escadas abaixo, deixou o quarto. Em sua mente passava mil e uma situações sobre o que fazer no momento em que abrisse a porta para seu ex, estava quase desistindo de tudo o que tinha escutado minutos atrás e voltando para seu pequeno casulo.

“Você é forte, coragem, TaeTae” respirou fundo pela última vez naquele dia e finalmente abriu a porta.

— Tae... — Yugyeom se encontrava com os olhos tão vermelhos quanto os seus, ele estava fragilizado. Taehyung o conhecia muito bem, e ele estava longe de ser a pessoa animada e exagerada que costumava ser. Ele também não estava normal. — Eu queria pedir desculpas a você pelo o que eu fiz. Eu sei que deveria ter vindo antes e falado contigo há muito tempo. Eu apaguei o vídeo de onde postei, mas quando eu vi já tinha viralizado. — As lágrimas começaram a descer por seus olhos. — Eu soube que não estava sendo fácil para você superar o término e o que eu fiz, mas eu também sofri. Tive que ouvir piadinhas e aguentar pessoas que achavam que eu era um objeto e que poderiam passar a mão. Esse foi a pior coisa que já fiz na minha vida, eu mereço o que estou passando, mas você não. Você sempre foi tão bom para mim e eu queria te pedir desculpas pelo meu ato impensado.

Calou-se de repente sem saber o que falar. Tudo o que Yugyeom tinha planejado falar por vários dias tinha sido esquecidos no momento que a porta foi fechada na sua cara com os gritos de Taehyung, por isso, decidiu apenas abrir seu coração e dizer tudo o que sentia e o que estava passando.

— Você também fez muito bem para mim durante todos esses anos. — Taehyung estendeu a mão e pegou as do ex namorado. — Eu não quero guardar rancor, mesmo depois dessa besteira que você fez, os momentos bons ao seu lado superam absurdamente esse ato horrível que você fez. Eu não pensava assim até meu vizinho abrir meus olhos agora há pouco, ele quem me convenceu de vir falar com você e ele tinha razão. A raiva e a tristeza estavam me cegando. Todo o sofrimento pode ser superado, mas eu tinha desistido antes mesmo de tentar. — Então Taehyung o puxou para um abraço apertado, quente e carinhoso. — Por isso eu te perdoo. Eu nem imaginava que você estava passando pelo mesmo que eu. Ninguém merece isso.

— Obrigado. — Ele disse baixinho, deixando com que as lágrimas escorressem. Em seguida, o envolveu com seus braços, retribuindo o abraço. — Você é a melhor pessoa do mundo. Eu não deveria ter feito aquilo.

— Agora já passou, esquece isso e vamos seguir nossas vidas, ok? — Taehyung afastou-se e sorriu para o rapaz à sua frente. O ato tocou o coração do mais novo que acabou retribuindo aquele ato. — Tudo isso, um dia, vai cair no esquecimento e tudo vai dar certo.

— Obrigado de novo. — Yugyeom disse antes de passar as mãos nos olhos. — Eu ia conversar com você para ver se havia a possibilidade de reatarmos, mas pela presença de outro garoto na sua casa, creio que é impossível.

— Eu te amo, Yu, mas creio que nosso relacionamento antigo não tem mais volta. — Taehyung foi extremamente sincero e sério. — Mas nada nos impede de sermos bons amigos, afinal éramos isso antes de começarmos a namorar.

— Verdade.

— Agora entre, eu estou preparando aquele bolo que você gosta. — Convidou.

— Tem certeza?

— Toda. — Abriu espaço para o ex namorado entrar. Como Yugyeom já conhecia a casa, ele foi direto para a cozinha, enquanto Taehyung subiu as escadas. Precisava agradecer a Jeongguk pelo belo conselho.

Ele se sentia tão leve.

Entrou no quarto e encontrou o rapaz nervoso, brincando com suas mechas rosas na frente do espelho.

— Acho que foi uma má ideia eu ter feito isso no cabelo, eu estou esquisito? — Quando Jeongguk virou-se, Taehyung abraçou sua cintura e uniu seus lábios aos do mais novo. Dessa vez, o beijo teve direito a tudo, línguas, saliva, calor corporal e até mãos bobas por parte do mais velho. Por mais que o moreno estivesse um tanto envergonhado e surpreso por aquilo, o abraçou com força para unir os corpos e fez o possível para retribuir.

— Obrigado pelo seu maravilhoso conselho. — Taehyung disse assim que o beijo cessou. Por mais que Jeongguk estivesse ofegante, o Kim ainda deu mais três selares rápidos naqueles lábios entupidos de café. — Eu não sei se conseguiria superar tudo isso sem você e sua teimosia.

— Eu vou considerar isso como um agradecimento de verdade. — Disse com dificuldade antes de empurrar levemente Taehyung em um ato instintivo. Jeongguk nunca foi o tipo de pessoa que beijava outras, então, por mais que fosse bom, ainda era estranho.

— E você não está esquisito, eu já disse. Eu odeio rosa, mas ficou ótimo em você. — Taehyung sorriu e pegou a mão do mais novo. — Vamos descer? Eu tenho que preparar um bolo e temos um convidado nos esperando.

— Você o chamou para comer conosco?

— Claro. Quero apresentar meu futuro namorado ao antigo. — Jeongguk encolheu de surpresa com aquelas palavras. Taehyung riu do ato e deu um selinho rápido no rapaz antes de descerem as escadas.


Notas Finais


Foi bastante desafiante escrever essa fanfic com uma pessoa que você não conhece, mas como sabem, eu sou uma pessoa que gosto de desafios. Por azar (ou sorte), eu peguei dois plots cheios de drama e muito conflito de sentimentos, algo que sou péssimo, mas com a ajuda da minha parceira, acho que a fanfic ficou boa. Eu adorei esse projeto do TKWishes, mas admito que deu bastante trabalho. ÇAKNDÇSKNDA Espero que tenham gostado, de verdade, nos esforçamos bastante para tudo ficar perfeito.
Agradecimento à @TheDana por ter participado do projeto, escrito comigo e me aguentado; à Scar por betar a fanfic, Deus sabe como amo essa mulher; e à Daddy May Semhopa pela capa linda maravilhosa, do jeito que eu queria. Obrigado por tudo.
Beijos de um viciado em TaeKook e escravo de SoonHoon,
Nahu


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