História {JIKOOK} Batidas do Coração - Capítulo 17


Escrita por: ~

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens J-hope, Jimin, Jin, Jungkook, Personagens Originais, Rap Monster, Suga, V
Tags Jikook, Kookmin, Namjin
Visualizações 98
Palavras 6.134
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Lemon, Musical (Songfic), Romance e Novela, Violência, Yaoi
Avisos: Álcool, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Oieee... Sei que to demorando pra postar, mas é que minhas aulas da faculdade voltaram, então tempo ta difícil.... Mas quando eu for postar vou tentar atualizar dois capítulos por vez , pra não deixar vcs na mão... 😆😆😆😆

Capítulo 17 - Capítulo 17


Jimin


If I give up on y ou I give up on me

If we fight what’s true, will we ever be.

(The Calling, “Stigmatized”)


Fecho a porta depois que Jungkook sai. Hierim deve chegar em breve.

Vou a passos lentos até a cama de minha mãe e acaricio seus cabelos. Ela continua dormindo, mas cortaram os sedativos. Espero que acorde logo. Deitada assim, ela é uma triste versão da Bela Adormecida esperando por um príncipe que nunca virá.

Caminho até a janela e lá embaixo vejo Jungkook saindo do hospital com o capacete na mão. Meus dedos tocam o vidro frio, que logo fica marcado por minha respiração.

Jungkook se afasta cada vez mais até sumir de vista. Eu me viro para minha mãe. Lanço um olhar para a janela. Seguro sua mão fria. Penso se ela vai ficar bem. Penso se Jungkook vai ficar bem. Quero soltar suas amarras. Preciso soltar as amarras que prendem os dois.

Mesmo vindo de mundos tão diferentes, minha mãe e Jungkook são iguais. Ambos desesperados para mandar a dor para longe, sem perceber a dor que estão causando às pessoas à sua volta.

Meu pai costumava dizer que só sabemos o tamanho de nossa força quando passamos por uma dificuldade. Tenho medo do que vou descobrir até tudo isso terminar, mas não quero abandonar nenhum deles. Sempre fiz qualquer coisa por minha mãe, e não conseguiria me afastar de Jungkook.

Duas batidas na porta e Hierim entra, trazendo um milk shake para mim.

— Como você está? — Ela me dá um abraço forte demais para alguém que parece tão frágil.

— Tentando ser forte. — Bebo um gole do milk shake.

— Lembra que o seu pai dizia que, se a gente tentar com muita vontade, não tem como não conseguir? — ela pergunta, apertando o pingente de cristal de seu colar, presente de meu pai quando ela fez quinze anos.

— Lembro sim. — Dou um sorriso triste.

O pai de Hierim se separou de minha tia quando ela e seus dois irmãos eram crianças. Depois disso, eles nunca mais se aproximaram. É por isso que a opinião de meu pai e de meu avô sempre foi muito importante para ela.

— Sua mãe está fora de perigo? — ela indaga de repente, estreitando os olhos. Sinal claro de que quer verificar se está tudo bem para poder me perguntar outra coisa.

— Está. Tem um caminho complicado pela frente, mas está.

Nós nos sentamos no sofá e ela me examina. Aperta os lábios pensando nas palavras certas, até que não se aguenta:

— Você tá namorando o barman tatuado? — Seus olhos brilham.

— Essa é uma pergunta que eu não sei responder. A palavra namoro nunca surgiu. — Passo a mão por minha roupa enquanto falo, percebendo que amassou bastante ao longo do dia.

— Mas vocês estão juntos?

— Sim. — Um sorriso escapa quando confirmo.

— Ai, caramba! O vovô vai morrer! — Hierim diz e logo percebe que escolheu mal as palavras, ao lembrar que minha mãe está bem ali, apagada.

— Desculpa.

— Tudo bem. Ele vai morrer mesmo. Mas não de um jeito horrível... — Refiro-me à morte de verdade. — Pensando bem, vai ser sim de um jeito horrível. Ele vai ter um treco.

— Isso é ótimo. — Ela suspira de alívio e se joga para trás, me surpreendendo.

— Como é que é? Você quer que o nosso avô morra e depois me mate? Assim, nessa ordem mesmo? Porque é a cara dele vir com uma lição de moral. Ele pode, nós não. Somos crianças indefesas a ser protegidas. — Balanço as mãos, imitando o jeito do vovô de falar.

— Chimchim, você sabe que eu te amo demais, mas o vovô precisa de uma distração.

O segredo. Ela está me escondendo algo. Eu sabia!

— O que você não me contou? — Sou eu que a examino dessa vez.

— Estou namorando há pouco tempo, você sabe, apesar de amar meu namorado loucamente.

— Sim. Mas o Jooheon é engenheiro. — Reviro os olhos. — E o vovô adora ele.

— Adora, mas vai odiar quando souber que, depois de três meses de namoro — ela faz uma pausa dramática que me tira o fôlego —, eu engravidei.

— Ah, meu Deus! — Instintivamente toco sua barriga. — O vovô vai te matar!

— Não, não vai, porque ele vai estar ocupado matando o seu barman! — Ela ri, como se tivesse encontrado a saída perfeita.

— Tonta! Ele é esperto o bastante para matar todos nós! Duas vezes!

Estamos sorrindo abraçados. No meio dessas perdas todas, por mais que o vovô surte e venha com mais um de seus sermões machistas, um bebê é um recomeço, e não existe nada mais lindo que recomeços.

🎸

Taehyung abre a porta do quarto devagar, às seis da manhã. Estou enrolado em uma manta e Hierim em outra. Minha prima está cochilando, após passar a noite toda conversando comigo sobre nossos dilemas, todas as possíveis reações do nosso avô e a esperança de que tudo possa se resolver.

— Trouxe algo pra vocês comerem e roupas pra você — meu irmão me estende um pacote e coloca a mochila no braço do sofá. Ele pega uma cadeira no canto do quarto e coloca na minha frente, depois de dar um beijo na testa de nossa mãe. — Ela passou a noite bem?

— Passou. Ela resmungou algumas vezes. Pensei que fosse acordar, mas acho que era só um pesadelo. Por que você veio tão cedo? Não combinamos às oito?

— Não dava pra dormir. Fico esperando tocar uma musiquinha de terror a qualquer momento. Tá horrível. Acho que você não vai conseguir ficar em casa. Sabe do Kook?

— Ele deve chegar logo — respondo, sem entender o que meu irmão quer saber e preocupado por não ter recebido nenhuma mensagem durante a noite.

— Ele se meteu em uma briga ontem cedo.

— Eu sei.

— O cara não o reconheceu, mas ferrou tudo porque o Kook já tinha socado ele uma vez. Como o pai do cara é bem relacionado, não foi difícil chegar no Kook de novo. — Sua voz é pausada, como se pensasse bem no que pode ou não me contar.

— Tae, me conta, o que aconteceu? — Sinto-me muito gelado de repente.

— Ele foi preso — meu irmão responde e solto um gemido assustado, que acorda Hierim — Calma. Ele não vai ficar lá. Eu estava no bar na hora. Sei que eu devia estar dormindo, mas o Baek me pediu pra ir. Acho que ele já estava esperando algo assim. Foi o cara que causou o acidente, e meu, o Kook tem razão em ter batido nele.

— Eu sei. O que você fez?

— O mesmo que faço quando estou encrencado e não quero, e agora não posso, ligar pro pai. — Ele dá de ombros.

— Ligou para o tio Jayhyun.

Hierim nos observa sem entender, mas continua calada.

— Liguei, mas só ligar não ia adiantar. O tio Jayhyun pode ser bom, mas não tinha como tirar o Kook de lá sem um álibi.

— E aí?

— Aí... — Tae desvia o olhar e isso me apavora. — Eu disse que, quando encontramos a mãe daquele jeito, você ligou pro Kook e ele veio pra cá. Aquela hora — ele engole em seco, acho que se lembrando do pavor que sentiu — foi antes da pancadaria. E não tem como estar em dois lugares ao mesmo tempo, né?

— Mas eu liguei bem depois, e ele nem veio na hora...

— Tô sabendo. Só escuta — ele levanta as mãos, pedindo que eu não o interrompa. — O Baek me disse que, quando eles pararam no estacionamento, o Kook saiu correndo pra te ver, ainda de capacete. Ninguém lá viu o rosto dele, não teriam visto nem que prestassem atenção. O Kook estava de camiseta e só pegou a moto bem depois, de jaqueta. Você sabe como são esses caras de estacionamento. Tão nem aí.

— O Taemin viu quando o Jungkook chegou — Hierim diz o que está explodindo na minha cabeça.

— Não. O Taemin viu o Kook voltando de algum lugar, uma lanchonete, sei lá. Ele não tem como saber de onde ele estava vindo. Ninguém tem. Só a gente sabe.

Olho para Hierim. Não quero pedir, mas estou à beira do desespero.

— Eu confirmo a história.

— A questão nem é essa, não vão perguntar. O tio Jayhyun vai tirar o Kook de lá daqui a pouco e pronto. Cabou essa merda. — Ele coloca as mãos nos meus ombros, tentando me tranquilizar. — Talvez já tenha tirado.

— E o cara que apanhou? Ele não viu o Jungkook?

— Olha, pelo que me contaram do estado dele, ele não teve tempo de ver muita coisa, e os dois frentistas também disseram que não foi o Kook. O que estamos fazendo é errado, mas a justiça falhou com ele, Chim. Não posso deixar o cara se lascar, enquanto o filho da puta que causou tudo é protegido pelo pai rico. Então usei as mesmas artimanhas contra o sistema. Se eles jogam sujo, eu também jogo.

Não consigo conter um tremor ao ver meu irmão tão envolvido nisso.

— Chim, eu odeio mentir pro tio Jayhyun e acho que no fundo ele sabe a verdade, mas eu teria batido no cara do mesmo jeito e não ficaria preso. Você sabe por quê, né? O vô resolveria a situação em dois tempos. O Kook não pode se dar mal só por não ter nascido numa família rica. Ele já tá ferrado. Se ficar preso, não vai sair dessa nunca. A chance do Kook está aqui fora. — Ele sabe muito mais do que está dizendo.

— Você provavelmente salvou a vida dele.

— Não. Eu só impedi que ele ficasse preso. Salvar a vida dele vem agora, e, meu, conversei muito com o Baek nessa madrugada. O Kook tá à beira do caos. O Baek tá apavorado, mas acha que você pode ajudar, Chimchim. Você pode?

Conto a Tae toda a história que Jungkook partilhou comigo. Sei que é algo íntimo que deveria manter em segredo, mas, depois do que o meu irmão fez por ele esta noite, não tem como esconder essa história. Quando termino, Hierim deixa escapar um suspiro e diz:

— Ele está apaixonado. Os dois estão. Eles são como a Bela e a Fera, versão masculina. Só que ele é uma fera nada feia. — Ela segura minha mão, tentando me mostrar que está comigo.

Estou gelado e aflito. Conheço muito bem minha família, e qualquer um que ouvisse essa história diria “Pula fora, é encrenca”, menos Hierim, porque ela sempre teve essa personalidade sonhadora. Não sei o que vai acontecer quando Hoseok souber. E nem quero pensar no que Yoongi vai dizer.

— Não é muito rápido pra você se apaixonar?

A pergunta do Tae é a mesma que martela minha cabeça, perdida em muitas outras. É muito rápido? É muito cedo? É muito arriscado? Podemos mesmo medir um tempo para nos apaixonar?

A resposta parece tão simples, mas não consigo dizer sem usar outra pergunta.

— Você não criou um laço assim com o Baek?

— É, Mas não tô apaixonado. — Ele faz um sinal ao lado da cabeça como se eu estivesse maluco.

— Você entendeu.

— É, entendi. A merda da conexão da morte. É como uma ligação invisível do inferno. A gente tá conectado pela dor, e é mais fácil ficar junto. Cara, é como se ver o outro sofrendo entrasse em conflito com o que a gente sente, e querer ver o outro bem fosse maior do quem quer enfrentar a própria dor. — Tae se recosta na cadeira e se espreguiça, como se o que acabou de dizer fosse uma conclusão óbvia.

— Deve ser assustador e ao mesmo tempo muito seguro se ligar a alguém de forma irreversível porque as dores se completam, como se fizessem parte uma da outra — Hierim divaga, juntando as mãos e entrelaçando os dedos. — É como se estivesse escrito que seria assim.

— Isso foi tão maduro. Da Hierim eu já esperava, agora me surpreendi com você, TaeTae.

— Ué, eu sou maduro! Só tô guardando esse lado pra quando ficar mais velho. Agora é hora de ser moleque — ele imita o jeito do Jungkook de falar e me faz sorrir. — Chimchim, eu gosto do Kook, de verdade. Ele é um cara bem legal por trás daquela pose toda. Sem contar que tô aprendendo técnicas infalíveis com ele. — Ele tenta aliviar o clima. — Digo que são infalíveis porque vejo que o puto aplicou tudo direitinho em você.

— Tae, eu quero ajudar o Jungkook. Não posso desistir dele. Abandonar ele agora seria como desistir de mim.

— Você vai ajudar. — Ele segura minha mão. — E eu tô aqui pro que precisar. É claro que vai dar merda, mas isso já é rotina pra mim. Sempre toquei fogo no mundo, e vai ser um prazer ter meu irmãozinho comigo. Bora enlouquecer a família Park e salvar o cara que poderia muito bem ser um de nós, se a gente não tivesse um ao outro.

Abro a boca para agradecer e ouço um gemido mais alto vindo da cama. Nós nos levantamos correndo e nossa mãe abre os olhos, mergulhada em confusão. Ela tenta mexer os braços, e o choque que se espalha por sua face me faz querer dar um passo atrás, mas Tae me segura.

— Crianças, o que está acontecendo? — Sua voz é baixa, um pouco rouca, pelo tempo que ficou dormindo.

Tae e eu nos entreolhamos. Como contar a nossa mãe que impedimos que ela encontrasse a paz que procurava?

— Você não se lembra, tia? — Hierim fala por nós, do outro lado da cama.

Minha mãe aperta os olhos e balança a cabeça vagarosamente. Um pouco de cor invade seu rosto quando nos encara outra vez. Acho que ela cora de vergonha.

— Podem me soltar? Estou com sede. — Ela desvia o olhar.

É o máximo que vamos conseguir.

— Vou chamar a enfermeira — Hierim diz, saindo do quarto. Ela sabe que poderia apertar um botão e a questão estaria resolvida, mas o clima no quarto assusta qualquer um.

Forço meu corpo a se mexer e encho um copo com a água sobre a mesinha ao lado da cama, depois ofereço a ela, que bebe alguns goles devagar.

Quero gritar, quero chacoalhar minha mãe e perguntar se ela só desejava dormir por mais tempo ou se pretendia mesmo nos deixar, mas a resposta é tão óbvia que tenho medo de ouvir.

A enfermeira entra e dois médicos surgem logo depois. Não reconheço nenhum dos dois. Esta é outra verdade sobre hospitais: quanto mais tempo você passa ali, mais percebe que é difícil encontrar os mesmos plantonistas.

Os três estão focados em minha mãe. Enquanto a enfermeira aplica mais medicação, os médicos a examinam e fazem perguntas. São muitas perguntas. Um deles deve ser psiquiatra.

Minha mãe parece não se importar comigo e com Tae; é como se não significássemos mais nada.

— A senhora vai ficar bem, se quiser ficar — o médico mais velho diz, anotando algo no prontuário. — Como eu disse, a clínica para onde queremos transferi-la é uma das melhores do estado, e a senhora terá todo o acompanhamento de que precisa. Será mais tranquilo se for espontaneamente.

Aperto a mão do Tae. Uma longa discussão vem por aí. Ela jamais vai aceitar ficar presa e vigiada vinte e quatro horas por dia.

— Pra mim tanto faz. Quando eu vou? — minha mãe pronuncia as palavras e nos surpreende.

Tae e eu nos entreolhamos mais uma vez, sem entender. A resposta está bem ali, em seus olhos perdidos. Ela desistiu de viver, então tanto faz ficar em casa, em seu quarto escuro, ou em uma clínica.

Seja lá quem for essa mulher, não tem mais nada nela que eu reconheça.

Sem poder lidar mais um segundo com isso, saio do quarto. Preciso respirar. Preciso me segurar em alguém. Mais do que tudo, preciso de Jungkook. Quero saber se ele está bem e quero que ele me ajude a ficar bem também.

E, quando fecho a porta e olho para frente, Jungkook está ali, encostado na parede, com as mãos no bolso da jaqueta, olhando fixamente para mim.


Jungkook


This place needs me here to start

This place is the beat of my heart.

(R.E.M., “Oh My Heart”)


Chego algemado à delegacia. Segundo o policial me disse, o filho da puta que matou minha família se lembra da tatuagem e não do rosto. O que não diz muito, mas ele é um riquinho filhinho de promotor e eu sou só um cara qualquer.

Encosto a cabeça na parede da cela e só consigo pensar em Jimin. Se eu tivesse me segurado, se não tivesse espancado aquele cara, se não tivesse bebido tanto e me drogado na madrugada passada, nós teríamos uma chance. Agora acabou.

Como ele vai reagir quando souber? O que minha mãe vai pensar? O que vai ser do Baek?

Perguntas. Tantas perguntas e só respostas que me perturbam. Ainda assim, penso em cada uma delas durante as próximas horas. Vou perdendo a noção do tempo conforme ele se esvai pelo ralo, aonde vou chegar em breve.

Passo as mãos no rosto e abro os olhos. Tem um homem parado na frente da cela, olhando seriamente para mim. É ele. O padrinho de Jimin que vi de longe hoje no hospital.

— Vamos. Solte-o — ele diz para o policial que me encara com raiva. — Venha, Jungkook. — Seu tom é duro, diferente do jeito simpático que observei à tarde.

O guarda não entende por que estou sendo solto, e nem eu sei.

Eu me levanto, saio da cela, o padrinho coloca a mão em meu ombro e me guia para fora. Assino a papelada, pego meus documentos e o celular e pronto. Não tenho a mínima noção do que está acontecendo. Ele me acompanha e deixamos a delegacia. Assim, sem mais nem menos. Que porra está acontecendo aqui?

— Tudo foi resolvido e retiraram a queixa — ele me encara enquanto pronuncia cada palavra. — Você tinha um álibi, e o garoto agredido não conseguiu fazer uma descrição clara. Para a polícia, você é inocente. Para mim, teve muita sorte.

Ele recomeça a andar e para perto de um carro. Desliga o alarme, que destrava as portas, e aponta para o outro lado.

— Entra aí — ordena. Sim, ele está mandando mesmo. Na maior.

Não costumo aceitar ordens, mas levo em consideração que estou solto e que ele é o responsável.

Entro sem dizer nada, encosto a cabeça no banco e respiro fundo. Quando o mundo virou de ponta-cabeça e agora sou eu o cara que escapa da polícia por ser bem relacionado?

— Você sabe que eu sou padrinho do Jimin?

— Sei.

— Sabe que ele é como um filho para mim, assim como o irmão dele?

— Sei.

— Sabe que sei atirar? — Troco um olhar com ele, sem saber o que é certo dizer, mas não demonstro medo, até porque não estou sentindo. — Vou ser sincero. Por mim, isso acabaria aqui. Você iria para um lado, ele iria para o outro. Por mim, eu colocaria o Jimin e o Taehyung em um avião para Londres amanhã mesmo, para pôr uma distância segura entre vocês.

— E estaria certo. — Pela cara dele, minha resposta quebrou suas pernas.

— Você gosta do meu afilhado tanto assim?

Não respondo de imediato. Gosto tanto que nem sei se conseguiria falar.

— Acho que é mais do que só gostar.

— Acha?

— Tenho certeza. — É uma certeza que me aquece e assusta, na mesma proporção.

— Você já conheceu o Seokjin, meu filho?

— Já.

— Se ele me dissesse que estava apaixonado por você, provavelmente eu ficaria careca de preocupação, entretanto esse é o Jin. Sempre se metendo em encrenca. Ele aprende assim. Já o Jimin... O pai dele e eu nunca cogitamos que ele pudesse passar pelo que está passando agora com você. O que aliás eu ainda não sei ao certo o que é, mas desaprovo. Não por você ser quem é. Não vejo problema nenhum em ser tatuado ou baixista.

— Guitarrista e baterista — corrijo.

— Guitarrista e baterista — ele repete, levantando uma sobrancelha, como se o que eu disse não mudasse nada. Pois muda, tio. Muda sim. — O problema não é quem você é, mas no que está envolvido. Sabe quem foi seu álibi?

— Quem? — Quero saber desde que ele tocou no assunto. Imagino que seja o Baek ou talvez o Nam.

— O Taehyung.

— O quê? — Seria impossível estar mais surpreso.

— É, ele mentiu. Nem por um segundo comprei a história. Não sou um dos melhores advogados de Seoul à toa. Ele mentiu e envolveu o Jimin. Sei que, se eu ligar para ele, ele vai confirmar a história de que você esteve no hospital o tempo todo. Até o Jin, que nem estava lá, confirmaria. Se bobear, até o Yoongi, lá de Londres, diria qualquer coisa pra acobertar você, só por causa do Jimin e do Taehyung. Só pra tentar aliviar a dor de quem já perdeu demais. Sabe o que isso significa?

— Sei. — Infelizmente, saber não muda o que sinto.

— Você vai se afastar dos dois?

— Posso impedir o Tae de ir na minha casa, mas não vou mentir, não consigo me afastar do Jimin. Eu disse pra ele hoje que só me afasto se ele pedir.

— Pode me garantir que não vai envolver os dois nos seus problemas?

Depois de tudo o que conversei com Jiminie hoje, a resposta é clara.

— Não. Não dá pra ter meio Jungkook. Os problemas vêm comigo. Bagagem.

— Pode me garantir pelo menos que vai zelar por eles, que não vai permitir que entrem no seu mundo? Conheço a sua história. O SungMi puxou sua ficha. É, puxou. Ele vai ser bem menos tolerante do que eu. Sei que você perdeu familiares de uma forma que nem imagino perder. Entendo que tenha se irritado contra o sistema por não ver o garoto atrás das grades. Contudo, agora o sistema está quite com você. Você não merecia sair hoje, e está saindo porque Jimin e o Taehyung conseguem enxergar algo bom em você a ponto de se arriscarem. Por mais que eu queira te manter afastado, a vida já mostrou para aqueles dois que é implacável. Eles aprenderam a ser adultos, e, se qualquer um de nós, os verdadeiros adultos da história, pressionar, eles vão explodir e simplesmente nos ignorar. Não devia ser assim, eles deviam ser crianças protegidas pelos pais, mas o pai deles, Jinyoung não está mais aqui, assim como o seu. Quando perdi meu pai, eu tinha mais de quarenta anos e chorei por dias. — Sua voz fica embargada. — A vida toda passa pela cabeça nessa hora. São coisas bobas a que nos apegamos quando perdemos alguém. — Assinto. Estou emocionado também. — Mas antes de partir ele me moldou, me deixou pronto para enfrentar a vida. Vocês perderam isso. A vida bate e vocês reagem sem preparo, às vezes de forma catastrófica. É automático. Eu sinto muito por você não ter mais seu pai, Jungkook. E sinto muito que o Jimin e o Taehyung tenham perdido o deles. Só não posso permitir que você destrua o que sobrou da memória do Jinyoung. Os filhos eram a preciosidade dele, seu maior orgulho, seu projeto perfeito. Ele foi meu melhor amigo nos últimos vinte e cinco anos, e o mínimo que posso fazer é proteger o que ele deixou.

— Não quero fazer mal a eles. — Passo a mão pelos cabelos, incomodado por não saber se não querer basta e se vou conseguir evitar que eles sofram.

— Então me dê a sua palavra.

— De quê?

— Se perceber que é um risco para eles, você vai se afastar.

— Eu sou um risco — não tenho coragem de olhar para ele —, mas quero deixar de ser.

Sinto seu olhar em mim e me viro para ele. Deixo que me veja como sou. Jungkook, o cara que ferrou com quase tudo, mas que quer muito acertar.

— Não posso te prometer nada, porque não sei o que vai acontecer. Tentei me afastar dele, mas tudo o que eu consegui foi me aproximar mais.

— Talvez você se torne pai um dia, Jungkook. Aí vai entender que, quando os filhos deixam de ser crianças e começam a percorrer caminhos turbulentos, nossa vida se transforma em um caos diário. Reconheço seu desejo de mudar, mas não sou ingênuo. Vou observar vocês de perto e interceder se achar necessário.

— É justo. Obrigado pelo que você fez antes e por agora.

Ele assente, não diz mais nada e dá partida. Fico calado. Se o avô puxou minha ficha, ele tem meu endereço. Observo a madrugada pela janela, querendo chegar logo ao hospital para encontrar Jimin. Depois de tudo isso, só preciso estar com ele.

Não reflito muito sobre as palavras do padrinho. Se eu fizer isso, vou ser obrigado a me afastar de Jimin. É o certo a fazer, mas não consigo. Ainda sou o cara que faz tudo errado. E como resistir quando o errado é ficar com ele?

🎸

Surpreendentemente, Jayhyun não me deixa em casa. Ele estaciona em frente ao hospital, destrava as portas do carro e diz:

— Vá cuidar do Jimin. — Abro a porta e estou quase saindo quando ouço: — Não me lembro se já falei isso, mas você sabe que eu sei atirar?

— Sei. — Eu contenho um sorriso. Ele é um cara legal, não dá para negar. Talvez se eu tivesse alguém como ele, não estaria nessa merda. — Obrigado outra vez.

Corro para o hospital. Ao me aproximar do quarto, dois médicos e uma enfermeira entram, então paro e me encosto na parede, esperando.

Quando Jimin abre a porta, sua aparência triste invade todo o corredor. Ele me vê, aperta os lábios e corre para mim. Posso me acostumar com abrir os braços e depois fechar, mantendo-o comigo.

— Minha mãe acordou. Ela está bem, segundo os médicos, mas não sei como aquilo pode ser considerado “estar bem” — ele murmura, sem tirar a cabeça do meu peito. Aí acho que se dá conta de onde eu estava, porque se afasta e tira uma mecha de cabelo do meu rosto. — Você está bem?

— Estou. Seu padrinho cuidou de tudo.

A porta do quarto se abre e Taehyung sai. Parece preocupado. Solto Jimin e me aproximo dele.

— Moleque! — Dou um tapa em sua cabeça e ele me olha assustado, depois o abraço. — Nunca mais se envolva nas minhas coisas. Obrigado, de verdade, mas não quero que arrume problemas.

— Problemas onde, mané? Tava tudo sob controle. Tudo perfeitamente calculado. — Ele passa a mão na cabeça e sorri. — Você tá bem, Chim? O psiquiatra disse que a mãe pode ser transferida para a clínica à tarde. Ela já está sonolenta outra vez. Quer se despedir antes de ir?

— Não sei se devo ir embora.

— Você vai, sim. Nós combinamos. Vai, dorme um pouco e depois volta. Eu vou ligar para o vô mais tarde e ver se já tá tudo certo com a clínica pra transferência.

Jimin concorda e entra para se despedir da mãe. Sai pouco depois com lágrimas nos olhos e carregando uma mochila. Eu o abraço outra vez.

— Minha tia vem buscar a Hierim daqui a pouco. Acho que vou dormir lá. Não quero voltar pra casa.

Depois de tudo o que passamos hoje, não estou pronto para deixar Jimin ir, então, sem pensar muito, digo:

— Quer ir pra minha casa?

— Quero.

Sorrio, porque adoro suas respostas imediatas.

— Avisa seu irmão e vamos. Estou sem moto, então vamos de táxi. Nada muito diferente do que você está acostumado. — provoco, tocando seu queixo.

— Idiota — ele murmura. Já estou cansado de resistir e roubo um beijo.

🎸

Quando abro a porta do meu apartamento, Baek, como sempre, está desmaiado no sofá. Não deve acordar tão cedo, considerando que só dormiu quando soube que eu tinha saído da cadeia.

Coloco o dedo nos lábios para que Jimin não faça barulho e o guio até o quarto. Seus olhos percorrem tudo e às vezes se voltam para mim. Acho que ele analisa as semelhanças entre mim e a decoração.

No quarto, a guitarra chama sua atenção imediatamente. Ele estica a mão depois recolhe, hesitando. Então caminha para perto de mim.

— Você está bem?

— Tô sim.

— Na delegacia... Eles machucaram você? — Ele segura a borda da minha camiseta.

— Não. Você ficou assustado quando soube o que tinha acontecido?

— Muito.

— Desculpa. E eu não queria que o seu irmão tivesse envolvido vocês também.

— Era o único jeito. — Uma tristeza passa por seus olhos. Ele se preocupa com Taehyung e sua intromissão.

— Mesmo assim.

— Kook, você acha que pode ficar longe de brigas? — Ele envolve minha cintura e deita a cabeça em meu peito.

— Eu não brigo tanto assim. Foram só duas esse ano, e com o mesmo cara.

— Você brigou com aqueles caras na outra noite pra me defender.

— Ah, mas aí não foi minha culpa — sorrio, tocando seu rosto. — Tudo bem, então foram quatro e meia esse ano.

— Você sabe que estamos em fevereiro ainda, né? — Ele se afasta, um pouco zangado. — Não queremos essa proporção aumente, queremos? — ele imita o tom de uma professora de escola, e o imagino de uniforme. Inclino a cabeça e tento, inutilmente, não sorrir para ele. — É sério.

— Eu sei. Sem brigas.

— E, depois que a minha mãe for internada, conversamos sobre o resto.

— Tudo bem.

No táxi, ele me disse que queria tomar um banho quando chegasse, então abro o guarda-roupa e pego uma toalha limpa. Mostro onde é o banheiro e o espero na cozinha. Estou preparando dois lanches na sanduicheira quando ouço o chuveiro ser desligado. Sirvo dois copos de refrigerante. Bebo um gole.

Jimin aparece na cozinha e preciso segurar uma gargalhada quando o vejo usando um pijama azul cheio de ursinhos e pôneis coloridos. Ele cruza os braços.

— Vou matar o Tae. Tenho milhões na gaveta. Milhões! — ele diz e, quando me vê rindo, percebe que ter milhões de pijamas só o faz mais playboyzinho do que estar com esse, então fica mais vermelho. — Minha vó me deu esse pijama. É quentinho.

— Você está bonito — digo, fazendo-o descruzar os braços. — É o primeiro menininho por quem me apaixono. — Dou um beijo rápido em seus lábios e vou para o banheiro, pensando no que deixei escapar.

Acho que Jimin se surpreendeu com a confissão tanto quanto eu, porque nem me xingou pelo “menininho”. Sei que conversamos abertamente antes de eu ir trabalhar e acabar sendo preso, mas uma metáfora não é o mesmo que dizer assim de forma tão direta. Foi tão impactante que esqueci de comer meu lanche.

Ligo o chuveiro e é impossível não pensar em Jimin nu aqui, poucos minutos atrás. No espelho, vejo meu reflexo, mas é ele que habita meus pensamentos.

Balanço a cabeça, com um sorriso frustrado. Incrivelmente não foi para transar que eu o trouxe até minha casa. Só quero cuidar dele e impedir que fique triste sozinho.

Termino o banho, me seco e me enrolo em uma toalha. Não fiz de propósito. Tenho o costume de me trocar no quarto, mas sinto um calafrio ao imaginar a reação dele. Estou perdido. Perdido! Perdido!

Quando entro no quarto e tranco a porta, Jimin está olhando os livros que tenho em uma prateleira. A maioria é biografia de artistas que admiro, e tem alguns do Stephen King. Ele se vira devagar e arregala os olhos ao me ver de toalha, depois pega um livro aleatório e abre.

Estou mexendo numa gaveta, de costas para Jimin, quando deixo a toalha cair e visto a cueca. Quando me movo, percebo que ele está olhando para mim. Ele suspira.

— Será que eu não devia ter ido dormir na Hierim?

— Não. — Tiro a colcha da cama, estendo um cobertor e arrumo os travesseiros. — Você vai dormir aqui, comigo. — Deito na cama e dou dois tapinhas no colchão. — Vem cá.

Jimin demonstra uma hesitação que não conheço. Quase como se não fosse ele.

— Kook... — Ele se senta a meu lado, e, antes que continue, puxo seu corpo e nos cubro, mantendo-o de costas para mim. Sinto sua tensão. Acho que sei o que está acontecendo.

— Tá tudo bem, Jiminie. Tudo bem — sussurro em seu ouvido, enquanto acaricio seu braço.

Não estamos fazendo nada e mesmo assim nunca estive tão envolvido com um homem. Ele segura minha mão e a leva até seus lábios, beijando-a de leve.

— Te quero muito, Kook.

Puta merda! Que ele não sinta a minha ereção. Será que consigo falar sem demonstrar o que está acontecendo?

— Também te quero muito, Jiminie. Até me assusta. E sei o que você quer me dizer.

— Sabe?

— Sim. Não vai ser hoje.

Ele beija a palma da minha mão agora. Puta que pariu! Puta que pariu! Puta que pariu!

— Com a minha mãe nessa situação, eu não vou conseguir... — Ele vira o corpo para mim. Agora eu vou morrer! — ... estar completamente aqui. E você merece que eu esteja inteiro. Ainda mais depois do que você passou. — Ele desliza os dedos pelo meu peito. Quem foi o corno que teve a ideia de dormir só de cueca? Ai, caralho!

Estou pagando por todos os corações que parti.

— Eu não vou tentar nada, Jiminie. Quando te convidei, já sabia que a gente só ia dormir junto.

— Você já “só dormiu” com alguém antes? — Seu

meio-sorriso me encanta.

— Não. E tô quase morrendo aqui, porque o meu pau é um filho da puta miserável que não me respeita. Mas vou sobreviver.

Ele gargalha, a primeira gargalhada que o vejo dar desde que a mãe foi internada. Ganhei o dia, seus olhos se fecham em dois risquinho quando sorri, o deixe tão fofo. Apesar da festa rolando no meio das minhas pernas, que não vai me deixar dormir tão cedo.

Quero desesperadamente beijar Jimin Pelo menos isso... Ah, Deus, só me dá isso.

— Eu estou usando um pijama de menininho — ele zomba.

— E eu tô com medo do que vai acontecer quando eu te pegar pelado.

Deslizo a mão por sua cintura e o puxo mais para perto. Já era. Ele sente.

— Kook — ele diz bem baixinho —, você sabe que está me cutucando, né?

— Ah, menino, não provoca!

Ele ri mais, aconchegando-se a mim.

— Desculpa.

— Não.

— Não?

— Acho que depois dessa vou ter que te beijar.

— É justo. Mas você vai conseguir se controlar?

— Baby, já tô descontrolado desde o banho. — Toco sua nuca, encosto os lábios nos dele e murmuro: — Mas eu dou conta do tranco. Por você, dou conta de qualquer coisa.

Sem resistir mais, eu o beijo. O mais profundo que consigo chegar, o mais demorado que minha sanidade permite, o mais intenso que posso aguentar.

Então o solto com delicadeza. Ele se ajeita perto de mim e me abraça, e faço o mesmo.

— Agora dorme, príncipe

— Príncipe?

— Tô tentando pensar em você como um príncipe encantado, pra ver se meu pau dorme. Um príncipe saberia se comportar numa situação tensa dessas.

— Está funcionando?

— A Chapeuzinho Vermelho é uma príncipe?

— Não, que eu saiba não.

— Então ferrou, porque só penso em te comer.

— O Lobo Mau também não é um príncipe, seu tonto.

Rimos. Apesar de todas as coisas que têm acontecido em nossa vida, tudo o que conseguimos fazer é rir. Ele boceja, relaxado. Seus olhos começam a pesar. Consegui o que queria: cuidar de Jimin.

  E agora, enquanto ele ressona baixinho, sou o cara mais feliz do mundo. Sexualmente frustrado e com uma puta dor no saco, mas feliz.


Notas Finais


Jimin: ( Se eu desistir de você, desisto de mim/ Se lutarmos contra a verdade, ficaremos juntos um dia?)

Jungkook: (Este lugar precisa de mim aqui pra recomeçar/ Este lugar é a batida do meu coração.)


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