História João - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Niilismo, Vida
Exibições 6
Palavras 5.961
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Recomendo não compreender a simbologia. Tem alguns erros, não planejo em corrigi-los, a preguiça rouba o melhor da minha pessoa.

Capítulo 1 - Capitol Único


De tudo que se fez por baixo desse céu, pouco realmente me importa. Começar uma história com um pouco de niilismo moderado é sempre bom, pelo menos no conjunto relativamente pequeno de coisas que eu digo serem importantes para mim. Ai esta minha tragédia obnóxia que me enche de puro ódio pela psique humana; O fato de eu me sentir culpado por fazer-me de vitima em decorrência dessa mesma preocupação, que todos os dias cria monstros e humanos. Verdadeiros monstros e seres humanos, ambos mitos criados pela, mais uma vez, odiosa, psique humana. 

O azul desse céu, e, esse verde do meu quarto. Tenho me trancado aqui frequentemente; não só devido a minha recém descoberta misantropia, mas também pelo meu recém-achado amor pelo género humano. Por que afinal, qual é a diferença? Para amar a humanidade, como quem ama um bom livro, é necessário odia-la o suficiente para se distanciar da mesma. Eu fujo muito para esse espaço abstrato de quatro paredes, fugiria mais se pudesse. Fico aqui o dia inteiro, só saio por comida ou pelo meu pai, o que acontece umas duas, três, vezes por dia. Tenho saído mais essa semana, a pedido do dever… ou seja, escola e socialização. É incrível como falar com pessoas pode ser extremamente demorado, depende muito de qual tipo de conversa eu estou tendo, se é algo que abrange as grandes questões da vida, muitas vezes não há tempo para uma conclusão, caso contrario, eu fico mais ou menos mal-humorado. Existem momentos, como o em que estou agora, que sinto como se nunca mais eu fosse rir até o fim de meus segundos, mas o sentimento é fraco para realmente me impedir, mesmo se minhas risadas vierem acompanhadas de uma lágrima. Eu rio bastante aqui dentro, tento me manter distraído com todo tipo de entretenimento, de um manga japonês sobre amor entre garotas à síntese gramatical alemã.

Não me masturbo muito, para falar a verdade clara e pura, indo direto a questão, quando o faço, faço-o a noite como remédio para insônia. De vez em quando me sinto culpado por olhar sites pornográficos, eles são em sua maioria muito sexistas e, francamente, tenho medo de viciar-me naquele lixo; é interessante notar, no entanto, que esses sites são um ótimo catalogo de todo tipo de perversão humana, e de fato ensinam para o observador sóbrio um ou dois vislumbres sobre o que se passa debaixo da mascara que o mundo, demasiado humano como é, insiste em usar. Eles gostam de vender essa ideia mesmo: a ideia de que por baixo dessa aparência pura e bondosa, existe esse desejo pungente por sexo e prazer que impulsiona todo o desenvolvimento. Não sei se discordo ou concordo, embora haja algo nessa teoria para se amar e odiar. Para se amar, tem-se esse desespero adorável, à moda Freud, de esconder-se. Para se odiar, existe essa falta de sentido em buscar algo tão fugaz, mas -pressupondo que a felicidade seja apenas um coquetel de neurotransmissores- talvez todos os objetivos sejam à mesma moda. Não estou advogando o hedonismo, justamente porque isso também me parece sem sentido. Uma vida fundamentada em apenas prazer desconhece a própria insatisfação que prazer traz consigo: aquele vazio que chama o sono e a inércia.

Posso parecer meio antiquado a alguns com o que estou prestes a dizer, mas mantenha em mente que eu tenho apenas quinze anos: prazer sem amor é só chato. Amor preenche você com esse sentimento de calor por dentro, que a mera lembrança o invoca em mim agora mesmo, eu gosto muito dessa batida irregular e, as vezes, acho que isso é a verdadeira felicidade. Mas essa maravilhosa emoção duradoura que chamamos de amor, infelizmente também, seja com a morte, o divórcio, ou outra coisa a ver com dinheiro, acaba.

Pensando em antiquadez, por toda minha vida foi assim; o que é novo, para mim, serve, quase sempre, de passagem para o que é velho. E eu me sinto velho nesses momentos de reflexão no papel, e meu falar lembra o velho, meu gosto remete ao velho, ao esquecido, ao deixado de fundo. Peguei isso com minha família, como todos os velhotes inocentes e obnóxios do mundo como eu. 

Minha primeira paixão na vida, por influencia de meu pai com seus filmes de sua juventude, foi dinossauros. Eram dinossauros dia e noite, eram desertos triássicos e florestas cretáceas que recheavam os doces de meus sonhos, eram vidas livres e vidas mortas lembradas apenas pelos ossos, eram criaturas tão cheias de luz que eram para mim como unicórnios são para as garotinhas com mania de princesa. Toda paleontologia marcou-se em mim para sempre como nostalgia da infância, não que eu fosse um grande estudioso da arte de desvendar mundos passado, eu mal sabia ler e escrever. Viu!!! Até o que eu chamo de infância tem por natureza algo extremamente velho! É para rir ou não?

Depois dos dinossauros vieram os alienígenas, e com os alienígenas veio o medo. Devia ter sido mais-ou-menos nessa época que minha mãe começou a ter ataques de pânico logo antes de meu pai chegar em casa; não que meu pai batesse nela, eles só brigavam bastante, e falar que eles brigavam é um pouco longe da realidade, só um deles brigava. Isso não quer dizer que eu ressinta meu patriarca. Como boa prole, que sou, seria ingrato da minha parte, eu amo o velho, mas não há como negar suas falhas com minha mãe. As falhas que ele teve comigo são outra história. Fora dos papeis não existem heróis nem vilões.

Continuando. Não sei se o medo veio por causa de documentários sensacionalistas que foram assistidos enquanto procurava documentários da vida selvagem e dinossauros, ou  simples excesso de televisão. Mas quando veio, nem eu entendia. Era medo de tudo, medo de vento, medo de chuva, medo de céu cinzento, medo de gente, medo de alienígenas me abduzindo, medo até da própria sombra. Tinha medo do mar por causa de tsunami, e medo da terra por causa de terremoto (esse passou rápido quando descobri que o Brasil estava no centro de uma placa tectônica). No medo também há algo para se amar e odiar. É verdadeiramente amável as distancias que as pessoas caminham por causa do medo, e como outras pessoas as ignoram por causa do medo. E é verdadeiramente odiável o medo de rejeição mundial.

Por falar em rejeição, quem não sentiu rejeição amorosa? Devo incluir este incrível tópico porque todo adolescente é completamente obcecado por ele, e eu sendo um Lao-Tsé auto-proclamado, vejo-me obrigado a falar do assunto. Eu, neste momento do tempo, estou apaixonado por uma linda e francamente incrível Abelha, que é minha namorada. Mas eu entendo do platonismo romântico que muitas almas sofrem. Antes devo dizer que, talvez devido a minha idade: estou mais confortável falando sobre masturbação do que sobre rejeição amorosa. 

Bem… havia essa garota, que eu odiava alias, pela qual eu tive uma longa e duradoura queda. Até hoje não sei dizer se era amor, a Abelha diz que foi um tipo de amor. Acho que começou assim que vi a primeira qualidade genuína dela, todo o resto me parecia mascara, mas falar isso, descobri recentemente, não acarreta a relacionamentos duradouros. Eu havia tido quedas ao longo de minha vida, mas essas eram mais inspiradas em propagandas de seguro de vida do que sentimento autentico. Ela talvez tenha sido meu primeiro contato com o mundo do desejo amoroso, mas eu era inocente, como ainda sou suponho, então demorou um tempo para eu perceber. E mesmo quando percebi, adivinha quem veio? Meu eterno e trágico-cômico camarada, o medo!!!!

A qualidade que notei foi um tanto superficial. Ela era boa na matemática. Engraçado, quando fiz a OBM (olimpíada brasileira de matemática), eu cheguei em terceiro lugar na escola e ela em quinto, apesar de eu ter chutado praticamente todas as perguntas. - A Abelha fingiu estar indignada quando soube, só para arrancar algumas risadas desses lábios secos que também fingem ser velhos.- Um dia notei mais um algo interessante, ela tinha um sorriso bonito. Depois um rosto. Depois uma risada. Depois um jeito bonito. Foi nessa época que comecei a amar o amor e a odia-lo ao mesmo tempo. Ela, diferentemente de mim, era bem versada no que diz respeito às relações interpessoais; ela era muito mais simpática que eu, e eu achava isso bonito também. O resto da história é como muitas outras histórias. A diferença está apenas no formato. Mas antes eu sofri um acidente. Cansei, continuo depois.

Voltei ao papel -. Que aliás não é papel, escrevo no pages do computador.- Hoje eu não saí do quarto de novo. Ouvindo Debussy e sentido pena de mim mesmo desde acordar. O que é a felicidade? Alem de uma distração, e, não seriam todas as virtudes e iniquidades do mundo distrações? Distrações do que é verdadeiramente inexplicável e incompreensível na vida… Falaram-me duas mulheres distintas em tempos distintos um perfeito diagnostico de todos os meus problemas: eu penso demais. Talvez conhecimento seja o gatilho do pecado, se o de fato é? Não sei. Não sei como não sei se sei o que é o saber.

Eu tenho essa mania de fingir-me intelectual, embora conscientemente duvido que o seja. Seria só arrogante demais afirmar isso nessa idade, ou em qualquer outra idade. Mais arrogante ainda é escrever esse texto, não tenho muita esperança que um dia eu vou ter coragem de mostra-lo a alguém. Se, você leitor, não é eu, peço apenas que maneja com cuidado a minha vida pessoal, também seja honesto em relação ao que pensa; conselho que vale para toda vida.

Eu gosto de escrever, minha Abelha diz que manjo o suficiente para virar escritor, mas eu não sei. Há dias em que sinto a vocação, outros que não. Não acho que eu tenha muita veia para as artes, apesar de gostar bastante de musica e literatura. Minha última paixão tem sido a filosofia, eis o porquê de alguns termos e referencias. Por muito tempo fingia-me cientista, e até hoje tenho certo carinho pela área, mas o fazia mais pelo meu pai do que pela minha pessoa como toda criança faz, suponho. O estranho é que, até certo ponto, eu estava ciente disso. A sede por explicação esta na família; pai e mãe são químicos, apesar de nenhum deles aplicar o conhecimento; talvez meu pai, mas esses dias eu nem sei mais no que ele trabalha, e com os eventos recentes desisti de descobrir.

Eu ia falar do acidente, não? Aconteceram dois desses, ambos acompanhados de crises existenciais e casos amorosos cujas diferenças fundamentais não consigo mais distinguir. Aconteceu na BRA-101 sentido Ubatuba, dia vinte-nove de dezembro de dois mil e quinze. Estávamos indo passar uma semana na praia, acordei como acordava todos os dias nas férias, sentindo-me (perdoem meu latim) como um enorme pedaço de merda -. Vai ver eu sou mais parecido com Holden Caulfield do que eu pensava.- Mas meu humor melhorou ao levar as malas para o carro, lembro de  ter tirado uma foto do porta-malas cheio e manda-la para meus amigos com alguma mensagem do tipo “pé na estrada”, única coisa que eu realmente me arrependi naquele dia. Existe algo para se amar e odiar em redes sociais, para se amar tem a quantidade de tempo que as pessoas passam nelas, é fascinante; para se odiar tem-se uma ilusão de contato humano misturado com um narcisismo característico, que sozinho é digno de uma admiração e de um desprezo.

Enquanto carregava as malas até o carro na garagem do prédio, notei uns respingos no chão que obviamente eram de sangue, veio-me a lembrança de quando meu cachorro começou a sangrar pelo chão de madeira da casa, uma unha dele tinha quebrado fora. Então - com a estranha esperança de assistir um animal ferido - comecei a seguir o rastro com as olheiras até notar que o sangue jorrava do meu dedão do pé. Fiz um curativo e partimos. É um tanto aleatório dedicar um parágrafo inteiro a um evento tão irrelevante em relação a tudo que se seguiu. Justificarei essa aleatoriedade dizendo que a vida real contem uma gama de acontecimentos inúteis que não refletem diretamente na trama principal.

Existe a possiblidade que meus pais tenham brigado durante o percurso. Mas a memória esvaece com o tempo. Na jovem velhice o tempo deixa de fluir em apenas uma direção, torna-se desconexo com os eventos precedentes -colocando os anos fora da cronologia- fazendo qualquer avaliação exata do ocorrido uma mera especulação. Não acho absurda a possibilidade que muito do que foi escrito aqui foi sonhado, e apenas depois virou fato, a medida que o que é escrito normalmente é sempre verdade para alguém. Aonde mais podem perambular tais contradições ambulantes, se não nos reinos dos sonhos e nas províncias da terra?

Estava lendo esse livro, muito interessante alias, A Era das Maquinas Espirituais, por Ray Kurzweil, é um grande ensaio argumentativo que fala a respeito das possíveis alturas que a tecnologia computacional pode atingir no século XXI. Uma das minhas muitas paixões que persistem até os dias de hoje: a inteligência artificial e o neo-humano. A ideia de transcender os limites impostos pela natureza através da tecnologia, e, em decorrência, ascender para um estado existencial mais elevado. Existe muito que pode, e deve, ser discutido a respeito do assunto. E estou um pouco entusiasmado e aterrorizado com esse prospecto de imortalidade, talvez até uma quase onisciência. Não existe, no entanto, muito para se amar ou odiar, pois em uma era tão avançada, como esta, sentimentos imperfeitos, como estes, desaparecerão; e eu amo e odeio esse vinculo de indiferença e afeição. Afeição pelo sofrimento exorcizado, e indiferença pelo que chamo de humano.

Pausa para o banho.

Meu banho durou dois dias. Onde eu estava? Não importa. Histórias reais ocorrem simultaneamente, é um erro vê-las de forma cronológica. Não sei se estou com muita vontade de reclamar da existência hoje, belo velho que eu sou. Esses dias eu quase cedi a tentação, a tentação de finalmente cruzar aquela ponte obscura para a outra margem desconhecida; não estou me referindo ao suicídio, embora houve um evento há muito tempo atrás. Falo da comum tentação de questionamento rigoroso do que não se questiona por medo de abalo mental. Quem sabe quão sano eu seria se não fosse pelos bons dogmas hipsters que me incubem de uma necessidade de festejar a minha originalidade? Sarcasmo esta difícil hoje, nem um pouco sutil. Eu parcialmente odeio escrever o que penso, pois sempre há a possibilidade que algum leitor mais critico me veja pelo que realmente sou: um moleque se achando um escritor.

Desculpem por favor a minha fragilidade. Não devia ser assim sabe? O mundo é um lugar grande, onde florestas puras se estendem até o fim do céu, mares vermelhos dançam com algas amarelas, a musica dos pássaros me faz ver o reflexo do solo cheiroso da chuva, as estrelas caídas dentro de alvenaria criam memórias brilhadas.

Não existem muitas verdades nessa vida, as que de fato possuem algum nível de verdade normalmente são apenas sonhos. Eu sou um sonho, um sonho sem sonhador, correndo por vales oníricos distorcidos pelos pesadelos da realidade. Um resumo adequado para a vida de cada ser humano. Quando se é jovem desconhece-se muito daquilo que compõem o mundo, tem-se uma visão mais pura e menos pervertida sobre as intenções dos homens do que a minha.

Sou apenas sonho por ser apenas memória. Um longo fio de conexões de causa e efeito que mostram-se claramente na minha mente, mas incoerentes no que diz respeito aos detalhes. Uma lembrança confusa de um ontem, que me faz hoje.

Se vou escrever uma retrospectiva do meu ano, ou de qualquer evento que tomou lugar nessa minha curta estadia mundana, é bom avisar ao bom leitor que nada do que é dito aqui foi real, nada mais do que um sonho, uma sombra de uma sombra, uma interpretação divina do medíocre, e uma interpretação medíocre do divino. Tudo sendo um mergulho na água turva, onde tudo que se vê é inconclusivo, onde sempre há a suspeita de monstros.

Mas quem sabe? Quem pode me dizer sem um momento de hesitação o quão verdadeira é minha tese? De qualquer forma é bom começar dizendo, também, que se otimismo for sua resposta ao que aqui esta escrito, eu lamento te informar que otimismo não muda nada, não muda o mundo, não evita as tragédias da vida, muito menos faz algo para seu bem-estar. Na minha humilde opinião, otimismo é um sintoma de ignorância seletiva ao sofrimento alheio; ele é confortável, seguro, conveniente, uma ferramenta para impedir a mente de ver o que há de horroroso, e belo, no bicho humano.

Mas sendo confortável, e eu sendo apenas humano, recomendo que você faça o maior esforço possível para o ser; simplesmente melhora sua qualidade de vida. Eu, no entanto, acho divertido o prospecto de lentamente enlouquecer, então é isso que farei.

Agora deixe, deixe de lado um pouco essas reclamações filosóficas mais mal intencionadas do que um rapaz em busca de perdão. Vamos lembrar a história que aqui estava sendo contada. Faz tempo que não venho ao papel, sinto muita falta, então devo tomar cuidado quando for embrulhar minha alma nessas paginas de pura alvura para não esmaga-lo até uma pasta avermelhada no processo.

Estava deitado nos assentos traseiros do carro, lendo o livro que mencionei. Não lembro se meus pais estavam conversando, ou qual musica naquele momento tocava no rádio do carro - embora tenha a vaga impressão de ter sido algo do Clube da Esquina -. Lia essa passagem, a história de um sonho de um velho, homem de ciência toda sua vida, fisico, especializado nos quânticos gatos de Schrödinger. Era um sonho de morte, presságio de um futuro indesejado. Sonhou com o seu fim, um colapso a um abismo ocorrido no topo de uma montanha. Morreu em um acidente de alpinismo. O que ele descreveu daquele sonho não me lembro, muito menos do que senti no momento, mas sei da existência de um fascínio, não mórbido, uma espécie de comtemplação ampla da queda livre, do desabar, do desmoronar.

Enquanto essa existência flui-a pelo meu corpo, senti um solavanco. Senti meu peso aumentar, meu corpo pendeu com violência para traz, o chão capotava sobre o teto, em suma foi momentâneo, um forte empurrão para me fazer doer o pulmão que durou menos de um segundo.

Agora vem a parte difícil de acreditar, minha primeira reação foi uma piada. Fomos, eu, minha mãe, e meu pai, arremessados -, durante o transito, o mais inesperado dos momentos - para fora da estrada por um motorista distraído, e minha primeira reação ao meu primeiro grande contato com a morte foi, sem sombra de dúvida, uma piada. É realmente uma pena que meus compatriotas não entenderam, certeza que meu pai olhou feio para minha mais humilde pessoa quando fiquei lá rindo feito idiota. A grande piada, talvez só compreensível para um verdadeiro velho, foi está, - a simples pergunta-,: alguém morreu?

Se eu dissesse que não estava em choque, e apenas irritado porque havia perdido a pagina em que me encontrava, tenho razoável certeza, que absolutamente nenhum ser humano nessa terra surpreendentemente crédula acreditaria.  Por isso não vou dizer nada. Mas se eu, por acaso, fosse comentar na impossível possibilidade de eu ter me sentido dessa maneira, sugeriria uma suposição tal que, o tédio de uma vida cética leva, um indivíduo muito irresoluto consigo, a procurar piada onde não há nenhuma, - ou melhor -, a não ignorar piada no que se tem prazer em levar a sério.

Depois saí do carro, escalando o assento para fora, não havia capotado - afinal. Havia apenas sido jogado para fora da pista, e só não capotou devido a uma pedra impedindo que tombássemos clareira abaixo, mais de alguém comentou conosco como o carro voou pelo ar, como uma bola de futebol chutada da cobertura de um prédio, em queda perpétua por um instante.

Talvez as lástimas do pensamento binário façam-se mais presentes nos momentos em que todas as fundações desmoronam, quando se vê o mundo desprovido das lentes ideológicas, cuja onipresença em nossos modos de pensar devia ser mais notada. São naqueles instantes familiares, e ao mesmo tempo desconhecidos, em que as distancias entre as dicotomias resumem-se a zero. Percebendo-se a convoluta massa de perspectivas que formam nossa história de ninar, nosso sonho compartilhado. O porquê disso esta longe das minhas mãos.

As historias da juventude, não é mesmo? Para fazer amigos costumava mostrar minha barriga, achava que se vissem o quão magro eu era gostariam de brincar comigo - era uma criança engraçada, via muita televisão, muitos shows americanos… Chegava a sentar cerca de oito horas no sofá, circulando entre documentários do mundo animal e animações de criaturas antropomórficas. Maior parte das minhas memórias como criança eram desse tipo característico de tédio, formante de um ser humano dormente.

Perder-se no cotidiano, o que mais procuramos nas nossas finitas ambições? Poder ter descanso da mente, não confrontar a triste realidade do descanso; tempo e tédio para observar os rasgos no fabrico. Rasgos demasiado desconfortáveis, demasiado irritantes para permitir uma ignorância seletiva da condição de existir. Todos nós ignoramos algo: um pensamento pervertido ou nojento, uma contradição relativa as nossas crenças e ao nosso comportamento, um desvio com o que não se permite questionamento. Prometo que não foi minha intenção rimar. 

Isso não só se aplica as velhas tradições que agora encontram-se no fim de seu ultimo suspiro; aplica-se, também, aos valores hipócritas do novo mundo que procuram desfazer-se com o antigo. Valores que endeusam a si mesmos, negando que o velho não distorce a sua clareza da situação. Dizer que o racismo manifesta-se somente nas instituições e sistemas, e com reformas poderia se ignorar o peso da questão, é agradável de se pensar. Como a nova geração consertara todos os erros e preconceitos de suas antecessoras, sem fazer falsos julgamentos, sem pecar a sua parte. Essas reformas tem de ser feitas, esses preconceitos abolidos, mas é importante reconhecer que o racismo é tão presente hoje como na época da escravidão, e que só com o tempo ele vai desaparecer. O velho esta morrendo, mas não sem marcar o novo.

Mas quais valores não são hipocrisias? A própria essência de um valor representa uma crença absoluta sobre o mundo, que não pode ser discutida, uma fundação em qual se constrói uma conduta ética. Tais fundações não se baseiam em pensamento rigoroso, mas sim intuição e suposição. Com isso se conclui que toda conduta ética requer uma certa quantidade de fé, o que faz de um código de leis nesse conjunto uma mera escolha, como um produto na prateleira do super mercado. A existência de fatos morais sobre o que é certo e errado, torna-se então, mais uma personalização, a maneira de criar uma personalidade a base de traços já predefinidos pela cultura, sem nenhum desvio do que é considerado humano. Uma forma de escolher quem você quer ser ao contrario de realmente ser quem você é.

E eu talvez siga essa escolha escrupulosamente, na televisão, nas propagandas, e nos filmes, escolhi a minha personagem -  meu papel no meu drama pessoal. Nisso penso que neguei quem sou, e glorifico aquilo que me tornei, vitimizando minha pessoa nos sonhos onde finjo ser alguém. Uma aspiração ao sofrer, invés de reconhecer a culpa de uma vida fácil e sortuda. A culpa que se torna meu calvário, um martírio pelo qual reconheço poder sonhar para sempre em grandiosas batalhas entre bem e mal - enquanto o vazio inimaginável não se contenta com tais vãs dicotomias.

Somos todos reféns do nada, o incompreensível nada, a qual todos nós, sem excessão marchamos. Em sua presença todas nossas preocupações desaparecem em partículas de sombra, para nunca mais voltar da profunda névoa.

 

Pulei uma linha, melhor maneira de indicar um novo capitulo para fora da escuridão no qual me encarcero. Não é bom se manter por dentro desse abismo. Não foi a toa que Nietzche avisou sobre como o abismo também encara fundo dentro de você. A algo para se amar e se odiar nisso. Para se amar há a liberdade de todas as crenças anteriores, e  de todas as crenças futuras. Para se odiar, bem, não é muito difícil achar algo para sentir-se frustrado com, dentro desses cantos obscuros da mente.

Mais de uma vez, mais de uma vez em minha vida eu fui o monstro. O idiota, cego e egocêntrico, que se achava um Deus entre homens, quem não foi? Quem, em todo seu tempo terreno, pode afirmar que não teve acessos de auto-importância e fingida benevolência à fim de sentir-se sobre as pessoas comuns? Um dia, em uma idade que precede o eu de hoje, comprei uma briga que não era minha, e machuquei gente com isso. Recuso-me a falar mais do assunto, pois lembrar da podridão dentro de vossa mercê não traz a tona mais nada do que pensamentos subversivos.

Já fui muito chutado, assim como chutei muita gente. Machuquei pelo prazer de machucar, e, no processo, perdi a fé de inerente bondade na minha pessoa. Cheguei a conclusão de que para me tornar alguém melhor, se não por nascimento, seria por força e censura. Vejo agora que não fui tão ruim, considerando a grande ruindade que existe nesse mundo, e me culpo demais por algo tão inconclusivo como a moral. De qualquer forma, sempre me vi como alguém nem mal nem bom, ou pelo menos finjo que sempre me vi assim. É fato consumado que é mais fácil pensar mal de si mesmo, do que pensar algo neutro, ou até mesmo bom. Concordo que “fato consumado” talvez seja um exagero, mas a mensagem permanece: na luz do estranho, sempre se enxerga o mau.

Conscientemente, duvido que o bom ou o mal existam. São histórias de ninar, para apaziguar os nervos antes de mergulhar no entorpecer da urbanidade. Mas aprendi lições valiosas a respeito do assunto, existem certos atos onde apologética é muito difícil de construir. Talvez dai venha a crença em fatos morais: na descrença em desculpar atrocidades.

Esconder-se é sempre mais fácil. Quando tem visitas é o que sempre procuro fazer, fechar a porta do meu quarto e me prender nesse mundo de quatro paredes. Visitas te lembram das tragédias, e fazem esquecer as comédias. As enfermeiras sempre estão em casa, e elas são mais difíceis de ignorar, são pessoas boas, que fizeram de ajudar o próximo um ganha-pão, mas no meu estado costuma-se preferir a solidão - ela é, na maioria das situações, o melhor bode expiatório, e a melhor distração. Falar é doloroso demais, reconhecer o que aconteceu sempre é doloroso.

Ao tentar dar consolo, muitos, lembram o que não se quer lembrar. O esquecimento é uma dadiva de Deus sobre esta terra, pois se para sempre tivéssemos as nossas oníricas lembranças de dias passados quem, nesse mundo infestado, conseguiria continuar marchando?

 

Uma vez, há muito tempo, sonhei que tinha parado de marchar,

e por motivos estupidos, decidi que talvez fosse melhor parar de sonhar.

 Foi há muito tempo, em uma época primeva e inexplorada, que não ousarei relembrar.

 

Não queria que virasse poema quando escrevi, mas hoje por algum motivo escrevo em rimas. Rimas que nascem sem muito esforço nem muita intenção. Vai ver é tudo memória, tudo ilusão, nada aconteceu e tudo foi apenas alguma milagrosa fantasia.

Esqueci de falar do segundo acidente, aconteceu em maio pelo que me lembro, e eu não estava lá para testemunha-lo.

Houve uma briga em casa. Minha mãe me falou pela primeira vez que queria se separar do meu pai há cinco anos atrás, e ela decidiu finalmente abrir os papeis. Meu pai, pediu para ela esperar um pouco, para que ele pudesse se acertar com o advogado, ela consentiu. Dois dias de briga constante e meu pai decide ir para Campos de Jordão, na casa de um amigo, fugir um pouco de tudo.

Ele acabara de voltar de uma viajem de quinze dias da Africa do Sul, fora fazer uma trilha de ciclismo famosa dentro de uma competição. Ele costumava fazer esse tipo de viajem de vez em quando, ele me convidou para ir junto, mas eu não podia faltar na escola - engraçado, quando comecei a escrever esse texto não havia ido para escola há uma semana.

Minha mãe falaria algo de como ele havia nos deixado mofar em casa para seguir o hobby do ciclismo, mas eu não o culpo, muito menos ela. Meu pai sempre foi, pelo menos um pouco, ausente; fosse pelo trabalho ou pelo ciclismo, mas quando havia tempo ele ficava conosco. No fim, acho que a grande questão entre eles foi o conflito entre minha mãe, um tanto impulsiva demais, e meu pai, seu tanto prudente demais, enquanto os pés delas andavam sobre o céu estrelado, os pé dele andavam esses campo verdejantes. Ambos tem suas próprias versões esotéricas do mundo, minha mãe espiritista e umbandista, meu pai, algo dentro dessas linhas mas um pouco menos afiliado com as entidades de ambas as religiões. Religião é um assunto conflituoso na nossa família, eu sendo ateu, e minha mãe grande crente. Nos dias do hospital, esse era o tema de briga mais conveniente, a impotência, que sentíamos, diante da situação normalmente se expressa em algo do tipo, como um ventar de ar quente para fora de um prédio em chamas.

Minha mãe dizia que ela e o pai haviam falhado em me ensinar espiritualidade, irritava-me bastante com isso. Conseguimos sair dessa briga há alguns meses, foi bom quando chegamos a um entendimento. Eu ficaria com minhas crenças, e minha mãe as crenças dela, não existe solução mais simples quando se esta em família. Ao tratar de povos deve ser diferente, mas para os esperançosos deixarei um "quem sabe?”.

Meu pai me ligou naquela quarta, pouco antes da hora em que costumo dormir. Minha mãe já tinha me contado a velha história dentro do carro no caminho para casa. Senti dentro de mim algo que consigo apenas descrever como massa crítica, um efeito bola de neve, onde finalmente tudo chegara a um ponto insustentável. O desabar de uma torre de madeira, que com a erosão do tempo, finalmente apodrecera, desmoronando sobre o próprio peso.

Ele me parecia menos articulado que o normal; repetia o mesmo assunto varias vezes, tropeçava nas silabas, engolia palavras… Sempre foi um sujeito que cuidava de transmitir seus pensamentos da maneira mais agradável e coesa possível. Conversou comigo pela primeira vez sobre o relacionamento dele com minha mãe, contou-me seus vários motivos por resolver sair de casa pelo feriado, falou-me como nada iria mudar independente do que acontecesse. Foi a ultima vez que ouvi a voz dele antes do acidente.

Juro que havia algo de profético em suas voz, talvez uma pré-cognição da sequencia de eventos que se seguiu, talvez minha memória foi responsável por uma distorção estranha no passado. 

No dia seguinte, fui para o cursinho. A aula foi longa e demorada, muito informativa, sentei em em um sofá na sala de visitas. Enquanto folheava um livro sobre pássaros, meu celular tocou. Minha mãe chorava no outro lado da linha.

Meu pai fora atropelado andando de bicicleta por um carro, na estrada entre Campos de Jordão e Santo Antonio do Pinhal. Eu fiquei lá, incapaz de compreender o que acontecia. Eu fiquei lá, imobilizado, enquanto meu mundo caía.

Memórias dolorosas, memórias dolorosas. Coisas que não tenho prazer em lembrar. Os relatos sobre os ferimentos eram confusos, suponho que eu estava confuso demais para compreende-los. 

Mama foi até Taubaté, no hospital onde seu marido dormia. Chamou um táxi, para que eu conseguisse chegar em casa. Eu gosto de taxistas, por muitos motivos, sendo uns por ter tido um avo na área, outros por ter tido boas conversas. Penso que taxistas tenham muito tempo para refletir. Imagino que a maioria dos passageiros não tenta muita conversa, e com algum Chopin consegue-se ignorar boa parte da poluição sonora da cidade, - então há alguma paz, um relativo oásis de calma em um deserto caótico. O mundo correndo no passo do pensamento.

Conheci um taxista há um tempo atrás, ser humano mais simpático nunca vi. Não sou do tipo que sabe conversar, nunca fui, mas o fulano tinha o dom, cheguei a conversar bastante com ele sobre minha timidez, e problemas da vida em geral. Aquela conversa me fez ver como eu era indiferente, achando que só eu merecia um bom dia, ou um boa sorte, mantendo as sufocações do cotidiano esmagadas no espaço apertado do coração.

Existe um pouco mais na vida do que o silencio. E não é solitária e majestosa comtemplação que te guiara para os vales inóspitos do conhecimento, mas sim, boas conversas mundanas, sobre coisas muito humanas.

Entrando no taxi permaneci quieto, exceto na hora de dizer meu destino e pagar. Devo ter pensado em muitas coisas, no pai, na mãe, como seriam os próximos dias, como seria se meu pai morresse, quão insignificante era minha mais importante tragédia, quantas palavras eu gostaria de ter dito… Devo ter pensado em muitas coisas, no entanto, faz muito tempo, e a pegada dos pensamentos que passaram por baixo do meu crânio já foi lavada pela chuva.

Ao sair do taxi, lembro de ter tido uma pequena conversa com um homem sem casa. Pediu-me, que se por acaso eu encontrasse um tal de Ziguinho, para avisa-lo que um homem o procurava na esquina. Nunca soube o nome do homem que falou comigo, ele ainda vive na minha rua, dormindo debaixo da cobertura do restaurante na esquina, sempre o vejo conversar com alguém que não esta lá, sempre gesticulando para o alto a fim de esclarecer uma duvida de um ser inexistente. Desde o momento que o vi pela primeira vez tenho vontade de conversar com ele. Perguntar seu nome, ou sua história, sobre qual assunto estava conversando, o que ele escreve tão apaixonadamente nos cadernos que conseguiu na vizinhança, tenho muita curiosidade, talvez oferecer para ele uma muda nova de roupas, ou um chuveiro na minha casa… Algo para fazer a vida dele mais fácil.

Uma vez, no calado da noite, estava lendo um livro, relaxando no meu quarto, quando ouvi um grito. Já havia passado da meia noite, mas eu não estava com sono, muita insônia desde o acidente. Era o homem da esquina gritando, xingava algum lixeiro que havia rido dele, talvez tentado jogar o seu cobertor no caminhão. Ele assombrava a noite com puro ódio, um velho chorando de pura raiva contra tudo, gritando: “Eu to morrendo, to morrendo por que não tenho comida, eu to morrendo de fome, seu filho-da-puta”. 

Aquela noite eu não dormi.

Três dias antes do acidente, minha mãe decidiu se separar do meu pai. Ele, sem falar para ela ou para mim, trancou o que podê das contas da minha mãe, e fez um plano a fim de conseguir a custódia sobre mim, tirando tudo da minha mãe.

Perdoei ele, foi a primeira coisa que fiz ao ouvir o ocorrido da minha mãe ensopada em lágrimas. Ela pedia desculpas por não me poupar do sofrimento, por não me poupar dessa desgraça desnecessária, por ser tão fraca a ponto de não achar coragem em si para mentir como meu pai mentiu. Perdoei ela também. Talvez o fiz por saber que todos os seres desse mundo procuram duas coisas: redenção, e um falso martírio para oferece-la.

No fim concluo que meu niilismo moderado no inicio foi uma pequena mentira, eu me importo com muitas coisas, muitas pessoas, muitos personagens que crio para mim mesmo - da criança assustada, ao velho triste -, assim como me importo e tenho fé nas fantasias e retrospectivas que invento.


Notas Finais


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