História Jovem e Apaixonado - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Drama, Romance, Yaoi
Visualizações 29
Palavras 8.384
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Romance e Novela, Yaoi
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Capítulo Único


Os céus estão gritando algo que ninguém pode ter. Os mares estão chorando por uma lua pratiada que intimida o fogo caótico da superfície. As nuvens despejam diamantes desgastados sobre os tetos dos que dizem serem felizes. Jason enxerga a alma inflamada através das lágrimas.

Mesmo antes de chorar para a amiga, Jason já vinha se sentindo horrível.

Ele estava lendo o mesmo parágrafo fazia um tempo, era seu livro favorito, mas mesmo assim não conseguia se concentrar. Derrotado, suspira e bota o marcador de página, fechando o livro.

O que há de errado comigo? Pensou. Ele vem se sentindo deprimido desde o levantar, não fora fácil, mas mascarou e seguiu o dia, relevando o sentimento amargo.

Dominado pela dúvida e tédio, Jason passou os olhos pelo quarto desarrumado, pela TV que estava sintonizada num canal aleatório, embora não prestasse atenção no que passava já que não fazia questão de assistir nada, apenas tinha de mante-la ligada.

Num olhar passageiro pela cama percebeu que o celular estava com a tela ligada graças a chegada de notificações. Num movimento preguiçoso, ele puxou o aparelho com o pé até o encontro das mãos.

— 3 notificações, recorde pessoal — zombou de si mesmo. Ele não estava supreso e muito menos animado com aquilo, nunca fora muito interessado por redes sociais. Encarou as mensagens e uma delas era de Charlie, apenas leu pela barra e ignorou.

Charlie é aquele tipo de amigo que está sempre com você mas nunca está presente. Jason revirou os olhos, não queria resolver mais outro problema pelo rapaz. Não hoje.

As outras duas mensagens pareciam ser mais interessantes: Lizzy, sua melhor amiga, tinha mandado um "oi". Aquilo o fez sorrir involuntariamente, ele as vezes se impressiona com a capacidade da amiga em aparecer sempre nas horas certas.

E a outra era de Caio, o menino que ele vem gostando faz um tempo, secretamente claro, quando se trata de Jason o simples se vai além do complicado. O outro perguntava algo relacionado ao seminário que aconteceria na segunda, mas Jason não fez questão de prestar atenção, não estava no clima para qualquer coisa que envolvesse Caio.

Sem pensar duas vezes, ele abriu a conversa com Lizzy, escreveu o que queria dizer várias vezes mas apagou, insatisfeito, é melhor expressar o aperto de forma direta. Pensando assim, ele não responde a mensagem e liga para a garota.

— Hey Jason, o que foi? por que não respondeu a...

— Lizzy... — interrompeu Jason de uma forma um tanto apelativa. — É normal ser jovem e se sentir perdido?

Lizzy não era nem um pouco mais velha ou experiente que Jason, mas ele precisava ouvir o que ela tinha a dizer, sempre ajudava.

— O que foi dessa vez?— questionou Lizzy, que não aparentava estar muito supresa, como se aquilo não fosse uma situação imprevisível e muito menos que estivesse sendo enfrentada pela primeira vez. — Foi Caio?

Jason hesitou por um momento.

— Não...Eu não sei o que é dessa vez — as palavras saiam como um cuspe, como se ele estivesse fazendo esforço para dize-las. — É que eu só acordei me sentindo muito perdido, sem rumo, vazio.

— Eu entendo, Jason. É normal se sentir assim as vezes, aposto que você só está tendo um mal dia, amanhã estará tudo nos eixos de novo.

Lizzy é amiga de Jason desde o ensino médio e a amizade que eles têm é uma das coisas que ele tem mais orgulho. Ela é uma garota radiante de cabelos da cor do mel, pele branca e recheada de sinais, olhos de esmeralda e corpo atlético, sem contar com seu senso de moda invejavel e ser uma excelente poeta. Jason acredita que qualquer um possa se apaixonar por ela. Menos ele, claro.

— Talvez você esteja certa, talvez seja passageiro mas... — Jason soava perdido, nem ele sabia o que estava dizendo. — Eu cansei de me sentir assim, Lizzy, cansei de verdade.

— Assim... como? — a voz de Lizzy revelava

preocupação.

— Me sinto um alien — disse finalmente. — Meu corpo só me deixa para baixo, luto contra meu próprio vazio no meio dessa confusão, meus pais exigem de mim algo que eu não posso oferecer, eu quero alguém para amar mas sequer me amo...

—Jason...

— Eu tento me olhar na câmera frontal e me sentir bem ao tirar uma foto, mas não dá, nunca deu, isso me persegue a anos, pensei que quando crescesse... — ele hesitou e o silêncio tomou conta por alguns segundos, Lizzy não falava mais nada, ela só ouviria o que ele tinha a dizer, essa era a chave. — pensei que as coisas mudariam, errei de novo.

O silêncio perturbador voltou, nenhum dizia nada, Lizzy tentava processar e achar respostas para tudo que o amigo disse, ela odiava vê-lo assim.

— Jason, seu maior inimigo é você — disse por fim, quebrando o silêncio. — Você tem que sair desse quarto, dessa bolha que criou, se divertir um pouco, conheça pessoas, converse com elas, faça amigos! saia desse lugar deprimente.

Sem nenhuma resposta do outro, ela continua.

— Você passa o dia trancado no quarto, lendo ou escrevendo livros enquanto se lamenta por não ter achado alguém ou não merecer ter — a voz de Lizzy falha por um momento, mesmo que o necessário devesse ser dito, ela não queria ser rude com o amigo de longa data. — Nada vai mudar se você não permitir que mude...

Ela ouve soluços na outra linha, Jason estava chorando.

—Jason?! Você está bem?! Desculpa, eu não queria te machucar,só estava tentando...

—Sabe Lizzy — Disse entre soluços—, você está certa, eu sempre soube disso... mas nunca tentei fazer algo. É que...

Jason corta sua frase e fica em silêncio, Lizzy entende como uma deixa mas antes que pudesse começar, ele a interrompe.

— É que é mais facil se render ao desânimo ...do que amar a si mesmo — disse em tom frio e pálido.

Por poucos segundos que se seguiram, a leve chuva era tudo que se podia ouvir já que Lizzy pareceu precisar de um tempo para digerir as palavras secas de Jason.

— Escute Jason, você deveria tentar, eu sei que é difícil, mas é muito chato perceber que todos vêem uma galaxia desconhecida nos seus olhos exceto você — a voz de Lizzy soava doce como o aroma de uma flor. — Bebê, o mundo é todo seu, vá domina-lo.

— Sua lábia poética não vai me conquistar dessa vez — Jason disse em um tom sarcástico e mais alegre, fazendo Lizzy rir — Queria ser como você, Lizzy, sempre alegre e radiante.

— Não fale assim, vou ficar vermelha — brincou Lizzy.

— Ah, pare, você tem uma vida boa, tem o próprio negócio na sua loja de cupcakes...

— A loja não é minha.

— Uma casa própria, mora em LA, tem um namorado que te faz feliz, é bonita, talentosa... — Continuou Jason, enquanto enrolava os cabelos castanhos com os dedos, os olhos ainda marejados mesmo que não estivesse mais a chorar — Você é livre, Elisa! Eu sou inseguro e fraco, meu corpo é cheio de defeitos, ainda não terminei a faculdade que nem sei se é o que eu realmente quero fazer, sem contar com a pressão e com o fato de eu ainda morar na casa da minha mãe... okay, ela raramente fica aqui na cidade por conta do trabalho e tudo mais, mas...

— Jason! Preste atenção — Advertiu Lizzy, séria — Primeiro, não me chame de Elisa, você sabe que eu não gosto; Segundo, pare de comparar sua vida com a dos outros, seja autêntico e livre para se desenvolver; e por favor, pare de se cobrar tanto, você só tem 19 anos...

— Você fala como se fosse mais velha.

— Ai — respira fundo, Jason estava impossível —, o que eu quero dizer é que você tem que esquecer o que tem que fazer, e começar a fazer o que _quer_ fazer. Saia hoje, faça o que sempre quis fazer, se não der certo, é apenas mais um dia, amanhã tente algo novo.

Jason hesitou em responder, como se estivesse pensando.

— Eu não sei... e se...

— Não, nada de e se — Intercedeu Lizzy. — apenas faça. Não se preocupe, bebê.

Jason fora vencido, não tinha outro argumento, e ele deve confessar que ficou entusiasmado com a proposta da amiga.

Antes que se arrependesse —o que aconteceria mais cedo ou mais tarde— aceitou o "desafio".

— Okay, Lizzy. Você venceu — sua voz demonstrava um falso desapontamento. — Eu vou tentar sair e, hum, me divertir um pouco.

— Me diz quando é que eu perco — os dois riram. — Mas sério, estou orgulhosa por tentar, você sabe que...

A conversa é interrompida com alguém chamando Lizzy fora da linha. Jason não conseguiu escutar, a voz estava longe e abafada.

— Okay, já estou indo — Lizzy disse para a voz e Jason conseguiu ouvir. — Jason? Eu preciso ir, tivemos problemas na loja e ai...

Jason percebeu que ela estava tentando não ficar irritada, ele conseguia sentir que a menina ficou chateada com algo, vai ver fora mais um assalto na loja, Jason até se acostumou com as vezes que Lizzy o ligava desapontada quando coisa do tipo acontecia.

— Tudo bem, vá la — disse serenamente, passando conforto para a amiga — Eu tenho coisas para resolver, até mais, Lizzy.

— Até Jason, fique bem. E, Ah! — acrescentou. — Não ponha tanta pressão em si mesmo como costuma, tentar já é o suficiente quando se é jovem.

— Não se preocupe, bebê — Ele encerra a conversa e jura ter ouvido uma risada de Lizzy antes de terminar a ligação.

{...}

— O que diabos eu acabei de fazer? — Jason joga o celular no peito e encara o teto do quarto por um tempo, pensando no que ele acabara de ouvir e no que acabara de aceitar.

Se senta na cama e geme, se arrependendo de ter aceitado as propostas de Lizzy. Ainda estava deprimido e sabia que algo deveria ser feito, se jogar na cama e chorar não resolveria nada.

Se levanta com pouca disposição, sai do quarto e pega uma toalha que estava pendurada de mal jeito na janela da sala e entra no banheiro, fechando a porta com força, jogando sua toalha e camisa para qualquer lugar.

Fica parado encostado na porta por um tempo, pensando em tudo. Ele não queria sair com o objetivo de beijar todos os garotos da cidade...

tá bom, talvez um.

Mas não era prioridade, ele só queria se divertir um pouco, sair pela cidade e ser um pouco mais feliz e aberto. Ele sabia o que iria fazer, pois já pensara nisso várias vezes, embora nunca tivera um nível de coragem relevante.

Jason corre os dedos pelo cabelo repleto de cachinhos e se olha no espelho.

— Pelo menos meu cabelo está bonito — disse tentando se animar.

O elogio não resolve. Infelizmente, espelhos não refletem apenas as partes do corpo que gostamos, e Jason teve que lidar com isso por anos. O reflexo do seu corpo magro e pálido sempre fora seu calcanhar de Aquiles. Não importa o quanto tentasse, o quanto torcesse para ter um físico mais forte, no final do dia ele sempre se deparava com a mesma silhueta assombrosa.

Minutos se passam com os olhos de Jason congelados em seu tronco fino e esquelético, a amargura da alma intensifica até chegar na língua, provocando um gosto tão ruim que tem que segurar as lágrimas.

Ao se aproximar do espelho para ficar cara-a-cara com si mesmo —o que era um grande desafio—, ele passa os dedos pelas pequenas sardas espalhadas abaixo dos olhos e no nariz.

"Nem são tão feias assim" Pensou, tirando os óculos e deixando-os na pia.

Depois de gastar bastante tempo tentando lidar com cada parte do seu corpo, Jason termina de se despir e se joga na banheira, destruído. Cai sentado nela, ficando com suas pernas de fora e deixando alguns cachos de seu cabelo molhados graças impacto com a água.

Sua cabeça ainda não está presente, talvez em marte, talvez viajando num vácuo, fora desse corpo e bem longe desse planeta. Ele prende o olhar fixo na parede, mas sem consciência de que está fazendo isso já que está concentrado em um milhão de problemas que orbitam em sua jovem mente.

Perde o foco dos pensamentos quando percebe as manchas no canto inferior da parede marcados pela umidade presente. E é nesse momento que ele associa sua casa com seu corpo: cheia de defeitos, frágil, simples e com manchas. Sim, manchas. Jason não tem o hábito de sair falando sobre o assunto com todos, mas ele tem algumas manchas espalhadas por partes específicas do corpo, é uma das suas maiores vergonhas e um dos motivos de estar sempre coberto por vestimentas quase que por inteiro.

Não são algo chamativo, mas aos olhos de Jason é anormal, não sabe o motivo de tê-las, porém se recorda delas desde que se entende por gente.

E sem perceber, ele não está mais analisando as tais manchas na parede, e sim as dele, presentes quase que imperceptíveis na junta da perna. Jason esfrega os dedos no local em tentativa inválida de tentar apaga-las como se fossem sujeira.

Bufa desapontado e muda de posição, se aconchegando na banheira e dando o primeiro mergulho.

Submerso, passa as mãos pela cabeça e se imagina com alguém, em um momento tranquilo e romântico, apenas para aliviar o sufoco emocional, sempre funciona. Jason e um menino criado pelo mesmo, dentro de um Volkswagen Apollo numa noite estrelada nas margens do lago da cidade , o principal ponto turístico e o lugar preferido de Jason no mundo.

Ele e o garoto estavam com uma das mãos dadas, conversando sobre os planos da faculdade enquanto comiam pipoca de queijo e observavam o lago. Com sorte conseguiam ver o pular de um peixe ou um morcego voando próximo ao carro, ficava muito escuro à noite, mas vale à pena.

Jason projeta uma ilusão com muita riqueza, uma vez ia ao lago com frequência, passava muito tempo lá, apenas ele, o carro e a paisagem. Às vezes para descontrair,as vezes para se inspirar à escrever ou até mesmo os dois.

A cabeça de Jason nem latejava mais como minutos antes, mas com a necessidade de ar, ele emerge da água bufando, furtivo por oxigênio, passara mais tempo submerso do que imaginou. Esfrega o rosto com as mãos ainda respirando com intensidade e se sente finalmente acordado. Sua mãe costuma dizer que banhos lavam a alma, talvez ela não esteja tão errada.

Terminando o banho, ele põe os óculos e sai do banheiro com dificuldade graças a porta emperrada, precisa puxa-la com força para poder abri-la. Ao sair, ele percebe o silêncio e o vazio da casa, mesmo que pequena ainda consegue ser friamente solitária.

Ele passa pela cozinha e fecha as janelas para diminuir o frio, nisso enxerga a chuva que já estava fina e fraca, quase que no seu fim, e corre para o quarto, passando pela sala de estar escura — A lâmpada queimara mais uma vez, Jason já havia desistido de insistir nela—. Estava atrasado, não teria a noite toda para disfrutar a cidade, no dia seguinte não haveria aula, mas ficar até tarde andando de carro por aí não estava em seus planos.

Quase que vestido por inteiro — com seu típico All Star e calça jeans skinny clara — ele analisa o guarda-roupa, pensando em qual camisa deve ir. Tinha que escolher algo ao nível da noite: Nada muito velho mas não tão elegante.

Puxa os cabides e desarruma o guarda-roupa, nada parecia ser digno da ocasião. Cansado de procurar, ele bufa frustrado,pegando seu moletom preferido que estava jogado na cama. Usou no dia anterior, mas quem saberia, não é?

Põe o moletom e se olha no espelho, o mesmo e antigo espelho, mas havia algo de diferente. Jason se sentia mais... bonito.

Era assim quando usava moletom, a auto-estima tocava as nuvens. Talvez fosse seu amor pela peça ou apenas uma crença semelhante à sorte. De qualquer forma, aos olhos do Jason, ele era o melhor dele vestindo seus moletons.

Principalmente esse, que era seu favorito entre todos, azul marinho e sem nenhuma estampa além da logo da marca, com bolsos generosos na área do abdômen e tecido confortável, perfeitamente simples mas sem perder sua essência.

Sorri para o seu reflexo.

— Até que não está tão ruim — Diz para si mesmo.

Mais um olhar confiante para o espelho e vai em direção a pequena mesa no seu quarto, a fim de achar as chaves do carro. Bagunça os livros que nela estão até ouvir o barulho de chaves chacoalhando, pegando-as e indo até o carro.

Antes que pudesse se esquecer, manda uma mensagem para Lizzy, a amiga precisava estar ciente de que Jason estava se esforçando, sem contar com o quanto ela ficaria feliz em saber que ele estava seguindo seus conselhos.

Envia a mensagem e antes que Lizzy pudesse ver, ele desliga o celular e o joga na cama, trancando o cômodo e saindo, um tanto contente, de casa.

Cobre a cabeça com as mãos para impedir que as finas gostas de chuva que aindam restam cair sobre ele. Abre o carro com um pouco de pressa e entra, em alívio. A última coisa que ele queria era pegar um resfriado graças a um chuvisco.

Ao ligar o carro, ele sorri, é difícil acreditar que chegou tão longe, talvez dessa vez dê certo. Seu coração ja está acelerado, mas não vai parar agora. Liga o rádio, dá uma última checada na casa e ajeita o retrovisor do seu Fiat 147, saindo da calçada e indo às ruas.

O carro é uma das paixões de Jason, prata, pequeno, confortável e com um toque nostálgico. Ele sempre está mais arrumado que a própria casa de Jason, aos olhos dele, é o seu próprio Olimpo.

Digirindo sobre as luzes da cidade, ele tem tempo de sobra para apreciar a paisagem urbana. Não é como se tivesse algo novo dela, mas isso sempre acalmava Jason.

Ele passa passa pelas ruas do bairro, era possível ver as montanhas cinzentas esculpidas no horizonte da cidade. E olhando mais próximo, ele estava cercado por casas simples e semelhantes uma das outras, com suas paredes pintadas de cores pastel e com seus telhados perfeitamente triangulares. Nos seus jardins, uma grama tão verde que poderia cegar alguém , flamingos de plástico ou outra decoração do tipo espalhados, plaquinhas de "bem-vindo" fincadas perto da janela, cerquinha branca como algodao, e de vez em quando uma casinha de cachorro ou uma mangueira de cor fluorescente enrolada de qualquer jeito no chão.

As ruas estavam desertas e caladas, Jason se pergunta se estão dormindo, o que o assusta um pouco já que são apenas 19hrs.

Chegando no centro da cidade, o clima é outro. Casas totalmente diferentes umas das outras, prédios universitários bem ao lado de estabelecimentos comerciais, paredes pichadas, barulho constante do trânsito, pessoas com o celular nas mãos ou conversando enquanto andam apressadas pelas calçadas ocupadas pelas mesmas. Ruas movimentadas e ricas de cores, sejam elas vindo das luzes noturnas da cidade, sejam vindo dos carros ou até mesmo dos altos semáforos espalhados por todo lugar.

Jason não costuma ir muito ao centro da cidade, logo ele chega a se assustar com o clima agitado do lugar, mas conseguia ser bom. Ele passa com o carro quase parando pelas ruas, não pode perder nenhuma parte dessa obra de arte feita pelo homem, é um lugar tão rico que desperta sua vontade de escrever.

Jason escreve desde seus 15 anos, as primeiras não podiam ser vistas como algo grande, mas as mais recentes brilhavam feito ouro. Ele escrevia sobre tudo, sobre todos, era só imaginar ou se inspirar de lugares específicos que o enredo vinha até ele sem esforço. E desde que escreveu sua primeira história, decidiu que seria escritor, mesmo que seus pais esperassem que ele fosse advogado, como muitos da família.

E foi assim que parou na faculdade de direito, seu dom literário o beneficiou e chegou onde muitos desejam chegar, exceto ele. Jason só fazia essa faculdade pelos pais, ele não se interessava muito, até gostava pois sempre as aulas ampliam seu vocabulário e dão mais histórias para ele escrever.

Jason estaciona numa esquina onde tinha uma loja de conveniência, saíra tão eufórico de casa que se esqueceu de comer. A chuva se fora e as nuvens deram espaço para a lua e as estrelas no céu. Jason entra pela porta de vidro que faz um pequeno sino bater ao abri-la e se dirige às estantes. Não encontra nada interessante, então pega um suco de caixa e uma barra de cereal aleatória. Paga e saí do lugar, fazendo o sininho bater novamente.

Dentro do carro, ele come enquanto observa o movimento da cidade de longe. Não aguenta e pega um bloquinho de notas que estava guardado no porta-luva, não era a primeira vez que Jason tinha uma boa ideia em um local aleatório, então tinha esses bloquinhos espalhados em todo lugar. Escreve uns cinco parágrafos até uma batida vindo de trás da rua interromper os pensamentos de Jason.

— Mas que diabos... — Jason vira numa mistura de frustação e curiosidade para onde o som parecia vir, jogando o bloquinho e seu lápis no banco de passageiro e contendo os próprios questionamentos ao se deparar com o lugar de qual a batida vinha.

Era uma balada extremamente colorida por fora.New Wave, escrita com letras exageradamente enroladas e feitas de Néon. Tinha uma fila desorganizada recheada de adolescentes e até mesmo adultos no lado de fora, Jason estava boquiaberto. Dois seguranças de terno parados nas laterais da grande entrada coberta por uma cortina de leds coloridas administrativam-a.

Jason não sabe por que, mas ele queria entrar lá, isso o admirava pois não era um garoto de festas, todavia, algo o chamou atenção e ele precisava ir. Não estava nos seus planos da noite, e o que ele faria lá? dançar? Não, Obrigado, Pensou.

Mesmo com mais contras do que prós, ele apanha a carteira, sai do carro e vai em direção da boate adolescente.

A fila não estava tão grande, esperou pouco, mas pareceram ter sido horas, era o único que estava desacompanhado, o que o deixou um tanto intimidado. Antes que pudesse desistir sua vez chegou, ele paga o ingresso e entra, deixando seu queixo despencar no chão coberto por confete.

O lugar era os anos 80 no século XXI: Disco balls espalhadas pelo teto, piso feito de cerâmica xadrez, paredes ou eram de um padrão de cores exageradamente fortes ou eram recheadas de leds e neon, não havia nada preto e branco além do chão, tudo e todos estavam coloridos da cabeças aos pés. A maioria das pessoas não estava caracterizada com a década, algumas aqui e ali com cabelos volumosos, perucas coloridas, meia arrastão, lycra ou jaqueta jeans sem manga.

Jason não sabe o que pensar, estava abismado com tudo aquilo, era bom demais para ser verdade. Ele passa os olhos que brilhavam pela boate, não haviam pessoas vomitando ou fazendo indecência uns com os outros, parecia uma formatura de ensino médio, claro que dos anos 80.

— Lizzy iria delirar se estivesse aqui — brinca equanto admira o local pela milésima vez.

"Girls Just Wanna Have Fun" tocava e servia perfeitamente como trilha sonora para a boate. Jason não sabe o que fazer primeiro, até o mini bar no canto inferior a direita era caracterizado, um enorme rádio retrô com discos como cardápios. Os garçons eram algo engraçado de ver: roupas coladas e coloridas com disco balls coladas no topo do boné.

Jason decide se sentar lá para apreciar melhor o local. Se repreende por não ter trago seu celular ou o bloco de notas para escrever, ali era perfeito para uma história oitentista.

Sentou-se no bar do lado de algumas pessoas que estavam ocupadas com suas bebidas, mas ele não se importava, o foco era encontrar algo para escrever. Um garçom veio até ele e perguntou o que queria segurando seu bloco para anotar o pedido, Jason sabia o que queria.

— Eu quero seu bloco de papel — Diz como se fosse o pedido mais comum do lugar.

— Mas, senhor... — O garçom fica tão surpreso que nem sabia o que dizer.

— Ah vamos, eu não usarei tudo, me dê pelo menos umas 10 folhas — insiste, ele não perderia essa oportunidade, quando que voltaria à esse colorido paraíso?

— Tudo bem, vamos fazer assim — diz o garçom, vencido — Você faz o pedido e eu te dou quantas você quiser.

— Fechado! — Jason pareceu uma criança numa loja de doces.

O garçom não fala nada, apenas dirigiu os olhos para o cardápio que já se encontrava nas mãos de Jason.

— Ah claro, o pedido. Bem, vamos ver... — Jason analisa o cardápio tentando não rir, o garçom tentava ser sério mas ficava impossível com aquela roupa — Vou querer um suco de maracujá com couve.

— Somente? — questiona o garçom com um ar triunfante.

— Sim — responde Jason enquanto admirava o cardápio de disco.

O Garçom se retira e Jason tem mais um tempo a sós com o lugar. No canto superior à esquerda tinha um grande espelho, que se estendia da extremidade da parede até a porta do banheiro feminino, esse que ficava ao lado do masculino, no fundo da boate. Haviam umas meninas conversando enquanto retocavam os cílios com o rímel e checavam os lábios.

No centro da festa, pessoas dançavam, conversavam e riam, de vez em quando alguém tropeçava na pessoa que estava atrás mas só diziam algo e continuavam a festejar. Adolescentes e Adultos no mesmo lugar, apenas a fim de se divertir, Jason estava maravilhado.

O garçom volta com o suco, algumas notas em branco e uma caneta, os olhos de Jason Brilham.

— Tome, se alguém perguntar — ele checa a área ao redor, se aproxima mais de Jason e fala um pouco mais baixo — Não diga que fui que te dei, seria um problema.

— Okay, não se preocupe —Jason responde e assiste o garçom se distanciar.

{...}

Jason não contou quanto tempo passou escrevendo, mas escreveu bastante, então supôs que durou muito. Mais um gole no seu suco e quando ia escrever foi interrompido por um empurrão:

— Opa, me desculpa, não te vi — disse um garoto com os olhos tão assustados que Jason jurou que qualquer hora eles poderiam cair.

— Não, imagina, eu que estou te atrapalhando dançar — respondeu suavemente, levantando-se da cadeira e supondo que era hora de ir.

— Ei, para onde está indo? Fique, eu não estava dançando... Nem sei direito onde estou — Falou o rapaz enquanto olhava para o local.

—Como assim você não sabe? veio com quem? — A curiosidade de Jason fez com que ele se sentasse e ouvisse o que o outro tinha a dizer.

— Bem, eu vim para cá porque não queria ficar em casa, foi a primeira festa que eu achei e entrei, acho que não foi uma boa ideia... — explicou enquanto coçava a cabeça, desconfortável.

—Ah, eu entendo bem como é... — respondeu Jason.

—Entende? — perguntou o garoto e pela sua expressão, se arrependeu em seguida.

— Sim, eu estava na mesma hoje, não queria ficar em casa e... — Jason encarou o menino que ainda estava em pé na sua frente, ele tinha olhos azuis, cabelo castanho e curto penteado para o lado, físico mediano, não era magro, nem gordo, mas não chegava a ser atlético, alto, um rosto marcado pelo o que um dia teve espinhas—mas ele achou que isso o deixava bonito— uma calça jeans, All Star de cano longo e camisa vermelha simples com algo escrito em francês. Ele parecia ser legal, mas o que realmente surpreendeu Jason foi o que ele propôs para o garoto em seguida:

— Hey, senta aqui então, você nem me falou seu nome.

Jason riu, mas riu de nervoso. Por que ele disse aquilo? Sequer conhecia o rapaz, e se o garoto não estivesse com vontade de conversar? Ele queria fugir, mas seria ainda pior.

— Ah, claro! — o menino parecia realmente feliz, esbanjou um enorme sorriso enquanto se aconchegava na cadeira ao lado de Jason e fez o outro perceber o quanto ele ficava bonito sorrindo. — Meu nome é Lucas, prazer.

— Prazer, Lucas — ele estendeu a mão para Jason.

Jason o cumprimentou, vermelho, isso não costumava acontecer sempre.

— Meu nome é Jason, você não acha esse lugar incrível? Olhe para tudo isso, é tao nostálgico, poderia morar aqui.

Lucas hesitou, como se estivesse formulando a melhor resposta possível.

— Eu acho diferente, nunca tinha vindo aqui, na verdade... nunca tinha vindo em uma boate. — respondeu Lucas, corando.

— É minha primeira vez também, pensei que seria pior, mas esse lugar é mágico.

Lucas riu, a maneira que Jason falava do lugar era engraçado.

— É sério! — disse Jason entre risadas , indignado com a reação de Lucas — Os anos 80 foram o ápice da humanidade.

— Se você diz ne, eu prefiro os dias de hoje — deu de ombros — Pelo menos é tudo mais avançado.

Jason assentiu, mesmo que nao concordasse, não seria nada bom começar uma discussão por causa disso. E um silêncio agonizante dominou os dois, Jason não sabia o que fazer, suas mãos estavam suando.

Olhou para Lucas, parecia estar mais calmo, observava o lugar com atenção. Ele é realmente bonito, pensou. Virou-se depressa quando Lucas se direcionou à ele, torceu para que o outro não o tivesse visto admira-lo com o olhar, o que pareceu acontecer. Lucas não falou nada, apenas sorriu, jason o observava pelo canto dos olhos.

— Ei, o que você estava fazendo? — perguntou Lucas, quebrando o silêncio que matava Jason aos poucos, mexendo seu suco com o canudo, quando ele pedira o suco? — Digo, quando eu esbarrei em você.

— Eu estava escrevendo, acho que você percebeu meu amor pelos anos 80— revirou os olhos, fazendo Lucas sorrir — Acabei me inspirando.

— Nossa, você escreve?! Posso ler? — Lucas parecia uma criança entusiasmada.

Jason Hesitou, não costumava mostrar as obras que escrevia, a única que lia era Lizzy, e, as vezes, sua mãe quando o visitava.

— É que... Eu não sei se... — disse Jason a Lucas, confuso se deveria ou não mostra-lo.

— Ah, tudo bem então... — Respondeu de forma esquivada.

—Ei, não fique assim — Jason se sentiu culpado por ter respondido daquela forma para o garoto. — Eu só estou com receio, Lucas,vai que não gosta.

—Aposto que vou.

— Então tome — Jason ri da insistência do de olhos de pérola e puxou as folhas de papel do bolso do moletom, algumas estavam amassadas e com a escrita terrível, mas Lucas não pareceu se importar.

— Desculpe mas...onde começa? — perguntou Lucas, evitando olhar para Jason, corou de vergonha.

Jason ri do garoto e põe as notas em ordem.

— Pronto, agora você pode ler.

Enquanto Lucas lê as notas, Jason fincou os olhos no rosto do garoto a fim de decifrar sua expressão, estava ansioso para a reação que ele teria.

Lucas lêu com calma, passava as folhas com cuidado, como se elas fossem feitas de vidro e pudessem quebrar com um toque. Jason analisava qualquer movimento, o mais simples que fosse. Mais próximos um do outro, Jason conseguia enxergar cada característica física, os grandes e tímidos olhos de monstro do garoto, o braço com cicatrizes pequenas, como se caísse da bicicleta constantemente, as mãos grandes e as unhas bem coradas, o cabelo penteado de um modo perfeito mesmo que fosse pequeno, os poros no nariz que o deixava mais fofo, o biquinho que fazia quando não entendia algo que lia, ele era uma graça. Jason nem se impediu de corar pelo garoto, hoje à noite ele se deixaria levar.

Ao terminar, Lucas pôs as notas nas mãos de Jason, fechando-as sem solta-las e disse:

— Você escreve incrivelmente bem.

Jason não sabia de corava, se agradecia, se soltava as mãos de Lucas, se corria para o banheiro para vomitar, ou se morria ali mesmo.

— Ah, m-muito... muito obrigado — gaguejou tentando manter a postura.

Lucas soltou as mãos de Jason, fazendo-o ficar um pouquinho decepcionado.

— Nós precisamos brindar sua criatividade — sugeriu Lucas. — O que você quer?

Jason ainda estava paralisado, seu corpo estava sendo atropelado por um milhão de sentimentos ao mesmo tempo. Lucas estala os dedos no seu rosto, e Jason volta à boate.

— Ah sim, bebida — respondeu Jason um tanto perdido. — Eu quero uma limonada.

— Ótima escolha — disse Lucas enquanto olhava as opções no cardápio. — Vou querer o mesmo.

Eles pedem as bebidas e conversam sobre as obras de jason. Os minutos voam e o garçom interrompe o diálogo botando os copos entre os dois.

— Obrigado — Jason e Lucas disseram em uníssono.

O garçom assentiu para eles e se retirou.

— Mas então, onde estávamos? — perguntou Lucas enquanto puxou o copo para perto de si. — Ah é, faculdade. Você está fazendo faculdade de direito, certo?

— Sim, mas eu não estou muito empolgado com a ideia — responde Jason, pegando um canudo da bancada no balcão.

— Por que? Direito é um ótimo curso, não é qualquer um que consegue.

— Eu sei... Mas sei lá. Prefiro escrever — falou Jason, olhando pro copo de limonada.

— Entendo, Jason. Nem sempre temos um apoio acadêmico vindo dos pais — disparou. — Mesmo que você não tenha isso, faça o que quiser, seus pais não vão viver a vida por você, se um dia quiser mudar e fazer algo novo está tudo bem. Afinal, tentar ja é o suficiente quando se é apaixonado.

Jason fez uma careta com a última coisa que o rapaz disse, não era como se repreendesse o sentimento, ele era um amante do amor afinal. Ele estava mais é surpreso com o tipo de definição que Lucas aplicou, ele tinha acabado de conhece-lo, como poderia arriscar desvendar como Jason se sentia por dentro?

E Lucas apenas conseguiu rir da reação azeda de Jason.

— O que foi? — perguntou ainda rindo.

— Apaixonado? — Jason arquiou uma sobrancelha em pura provocação.

— E não é? não minta, Jason. Consigo ler nos seus olhos.

Ah, você consegue, Pensou. Jason encarava o menino tentando captar qualquer sinal de fraqueza, qualquer coisa que ajudasse a decifrar o que o menino queria dizer, o único problema era que ele parecia confiante o bastante com suas palavras para tropeçar.

— Posso saber por quem? — desafiou.

— Por quem eu não faço mínima ideia — disse simplesmente, e levou o indicador ao lábio, como se estivesse escolhendo as melhores palavras para serem ditas. — Eu diria pelo o que.

Jason não poderia estar mais confuso, O que o garoto queria dizer com aquilo tudo? Ele não conseguia entender.

Em pura dúvida e curiosidade, apenas lançou-lhe um olhar furtivo por respostas e esperou que Lucas respondesse.

— Eu me refiro à sua paixão pelas coisas que a vida te entrega — explicou. — Você ama escrever, e aparentemente é fascinado pela década de oitenta, sem contar com todas as coisas que você ama e eu não sei. Você não precisa se considerar apaixonado somente quando o assunto é uma pessoa que realmente goste. Existe o amor pela vida. Você pode amar fazer algo em específico para relaxar, ou a música, a arte, o estudo, o mundo, um lugar que você se sinta bem. Há diversos tipos de paixão, e você com certeza é um garoto apaixonado.

Com os grandes olhos tão arregalados assim, Jason parecia ter um par de lua cheia no rosto. Poderia esperar qualquer coisa, que Lucas dissesse que ele estava apaixonado pelo garçom, ou por um menino da faculdade, ou até aquela mulher com um grande laço rosa na cabeça e que dançava como se tivesse bebido toda a bebida da festa. Tudo menos essas palavras de diamante. Ele se sentia inspirado novamente. Apaixonado pelas coisas que o fazem se sentir bem... Não parecia ser uma ideia tão ruim.

— Uau, da onde você tirou isso? — Perguntou, com uma das mãos no peito.

— Aprendi com o tempo — respondeu com um sorriso largo gerado pela reação do outro. — Passei um bom tempo sem dar atenção para o que eu realmente queria, era guiado pelo gostos dos outros, até que me senti envenenado por tudo isso e passei a ouvir mais o que eu quero fazer.

— Você parece bem confiante sobre o quer — riu de leve. — suponho que já esteja fazendo faculdade.

Lucas assentiu.

— Bem, meus pais queriam que eu fosse médico, mas estou cursando fotografia. — sorriu e em seguida olhou para o copo de limonada, tirando o canudo vermelho e dando um gole.

— Fotografia é incrível! Tem tantos lugares bonitos na cidade, passei por diversos hoje, isso por que não andei muito... Você ja viu o lago daqui? Ele é simplesmente... — Jason cortou a frase quando vê que Lucas está rindo dele— Ei! por que você está rindo?! É sério!

— Eu sei que é — Respondeu Lucas, batendo as mãos no peito, provavelmente se afogou de tanto rir — É que você fica engraçado quando está empolgado.

Jason cora e ri, sem graça.

— Obrigado?

— Talvez — ri Lucas. — Vai de cada um.

— Hum, eu vou ao banheiro — Jason estava confuso, era muita informação para ele. — Sabe, limonada demais.

Ele se retirou e conseguiu ouvir a risada de Lucas. Vai em direção ao banheiro, passou pelo grande espelho e pelas pessoas que continuavam a dançar.

Entrou no banheiro, jogou água no rosto e perguntou para si mesmo:

— O que está acontecendo?

Ele não sabia responder, horas atrás estava no quarto chorando no telefone para Lizzy, perdido e se sentindo uma aberração perdida e solitária, um alien sem ter um mundo para pertencer. E agora, simplesmente tinha encontrado um garoto gentil, bonito e legal numa boate adolescente oitentista. Sem contar que o tal garoto estava enchendo o ego de Jason com elogios... era muito para ele. Mas ele não iria arregar, talvez não tenha achado um namorado ou apenas alguém para bejiar a noite toda até esquecer o próprio nome, mas sim um amigo, e isso fazia seu coração pulsar rápido como se tivesse milhões de cavalos correndo dentro de si.

Ele estava com o olho congelado no espelho, como costuma fazer quando está pensando e vê o reflexo do banheiro nele, se dando conta de que o lugar não perde a magia da boate. Cada parede era pintada de uma cor: a qual ficava a porta, era azul néon, a que os boxes ficavam era um rosa extremamente forte, as das pias e espelhos, na esquerda, eram verde limão, e a do fundo era laranja com pôsteres da Madonna, Michael Jackson, Prince, Cindy Lauper e o espaço que sobrava era coberto de pichações com letras de músicas. No teto, algo que Jason nunca imaginaria ver em um banheiro: Um globo de luzes girava com lentidão recheando o lugar com feixes de cores diversas. Os boxes eram a única coisa simples, o que fez Jason rir, a boate é bem diferente do que ele costuma frequentar.

Uma última checada nele mesmo e saiu do banheiro, torcendo para que Lucas não tenha desistido de esperar e ido embora. Os olhos furtivos pelo rosto de Lucas moviam-se rápido como suas pernas. Ele enxergou o outro no celular, sentado com os braços apoiados no balcão do bar, no mesmo lugar.

Jason respira em alívio, talvez tenha criado afeto cedo demais, talvez. Ele estava prestes a cutucar as costas de Lucas quando impediu-se, o menino estava lindo naquela posição, com os olhos de céu estrelado presos no jogo do celular, ele parecia tão intimidado pela festa, tão sozinho, Jason teve que se segurar para não abraça-lo. Iria atropelar tudo, odeia isso.

Balançou a cabeça para se conter e chama a nova e inesperada companhia :

— Hey, demorei muito?

— Não — respondeu Lucas, pausando o jogo e tirando os olhos do jogo. — Na verdade, sim... demorou sim.

Os dois riram e Lucas corou mais uma vez. Como alguém pode corar com tanta facilidade e tantas vezes e ainda assim conseguir ser fofo? Perguntou-se Jason.

— Desculpa, o banheiro é mais atraente do que eu imaginei, você sabe como eu sou, não é? — perguntou Jason, entrelaçando os dedos de uma mão com a outra.

— Eu imagino, Jason — concordou — Para mim seria apenas mais um banheiro, principalmente agora que estou verde de fome.

— Por que não pede algo? — falou Jason apanhando o cardápio mais uma vez — Deve ter algo aqui...

— Ah não se preocupe — Interviu Lucas. — Já pedi, para nós dois na verdade.

Jason arregalou os olhos, completamente surpreso. Por que Lucas estava sendo tão meigo com ele? Mal se conheciam, ele nao conseguia entender e isso o frustava. E se só estivesse iludindo Jason pois não queria ficar sozinho? Ele não queria acreditar, mas a dúvida dava espaço para a paranóia.

Pare, disse Jason para si mesmo. Ele não poderia se permitir estragar tudo, não hoje, não com Lucas.

— O que foi? Não me diga que está sem fome — questionou Lucas com uma expressão irônica.

— Ah não, só estou surpreso, já está meio tarde para comer e eu...

— Ah, vamos, é apenas uma janta — Lucas fez biquinho. Okay, essa era a nova fraqueza de Jason, ele sentiu o coração derreter e se recompor umas três vezes.

— Tudo bem então, apenas uma janta — quem corou dessa vez foi Jason, murmurando a última parte.

Aos olhos de Lucas, aquela noite estava sendo uma montanha Russa para seu coração tímido, saíra de casa por impulso apenas para esquecer dos problemas, e acabou encontrando o menino mais lindo que já vira. Olhos negros como a noite, cabelos encaracolados como os galhos de uma videira, sardas no rosto como estrelas no ceu, e os óculos, que eram a cereja do bolo. Era muito para ele.

— Hey, onde você está? A comida chegou? Lucas, vai esfriar. Você sabe como comida fria é ruim. — Jason balançava as mãos no rosto de Lucas, quando não era um, o outro desempenhava o papel de estar com a cabeça nas nuvens.

Jason se perguntava no que o garoto estava pensando, os olhos estavam colados no seu rosto, o que o deixou um pouco desconfortável, mas gostou, pelo menos tinha aquelas grandes bolas azuis olhando para ele.

— Ah me desculpe, estou um pouco lento, deve ser sono — respondeu Lucas.

Jason encarava o que Lucas havia pedido,frango com salada. Parecia uma escolha delicada, como se ele tivesse passado um tempo escolhendo. Sem saber o por que, Jason se deu conta que Lucas não estava com ele por interesse ou só para ter uma companhia na festa, ele estava por que realmente queria.

Terminando de comer, Jason sorri para Lucas, assistindo-o comer.

— Estou feliz por te conhecer.

— O que? Ah, eu também — Lucas parecia que iria vomitar toda salada e frango que havia comido. — Gostei de você.

— Digo o mesmo, sabe — o coração de Jason batia tão rápido que jurava que uma hora ele quebraria suas costelas e saltaria do peito — Antes de vir para cá, eu estava me sentindo muito deprimido, perdido e...

Jason hesitou, ao notar o silêncio, Lucas o encarou com uma sobrancelha levantada.

— Feio, me sentia feio — disse Finalmente — Esse lugar e... você me fizeram bem.

— Hey! Você não é feio — ddvertiu Lucas, olhando fixamente para Jason. — Não sei como conseguiu chegar a esse tipo de conclusão.

—Ah, Lucas, as vezes não é fácil sabe?

— Eu sei, mas ei! não fica triste, você não é feio... nem um pouco — Lucas corou feito um tomate. —Vamos falar de coisa boa.

— Obrigado, Lucas. Acho que posso dizer o mesmo sobre você. — Respondeu Jason, com seu coração nas nuvens. — Você ainda não me disse por que veio para a festa...

— Ah sim, acabei esquecendo. Bem, o clima em casa não é muito bom, meus pais vêm brigando com frequência e essa noite eles descontaram em mim... sabe, a história de ser médico. Acabei que não aguentei e saí pela cidade, a boate me chamou atenção e aqui estou.

— Nossa, deve ser horrível... Mas veja pelo lado bom, você está aqui, não é? — Sorriu Jason

— E com você.

— É, e comigo — Jason não gosta de apressar as coisas, mas ele sentia que queria Lucas só para ele, ia além do explicável.Será se há uma forma de convidar alguém à te amar?

Mas antes que pudesse resolver se faria ou não, o celular de Lucas toca.

— Alô? Oi... Oi mãe — a voz de Lucas saía fraca, como se toda sua alegria tivesse sido engolida pelo celular — Sim, eu sei... É, tá bom mãe...

Jason se virou para a pista de dança, estava desconfortável, ele não ouvia o que a mãe de Lucas dizia, mas conseguia ouvir a voz escandalosa de longe, abafada.

— Pode deixar mãe... estou indo. — o coração de Jason para de pulsar rápido e quebra, em mil pedaços, ele sabia o que viria. — Tá bom, tchau.

— Está tudo bem? — Disse Jason intimidado e desapontado.

— Sim, bem... A gente passou mais tempo aqui do que eu poderia contar — ele apanhou o celular, ligou e mostrou para Jason — Jason, são mais de 3 da manhã.

— 3 HORAS?! Deus eu preciso ir — Jason arrumava os óculos com pressa, tremendo.

— Sim, eu também, foi bom te conhecer... Quando posso te ver de novo?

— Não sei... — respondeu , triste — Eu...

— Próxima semana, no mesmo dia, no mesmo horário, topa? — Lucas forçava um sorriso, escondendo a tristeza.

Jason coçou a cabeça, pensando. Ele sentia uma confusão emocional trovejar nele mesmo naquele momento, por um lado não queria se entregar a um compromisso que acabou de sair do forno. Contudo, por outro lado, tudo que queria era motivos para reencontrar Lucas.

— Claro que sim, te vejo aqui então, até a próx... sábado, Lucas — passou as mãos pelo cabelo e abriu um sorriso.

— Até Sabado, Jason. — Lucas se levantou depressa e antes que Jason pudesse protestar algo, ele deposita um beijo em sua bochecha, sorrindo logo em seguida e se despedindo de Jason com uma piscada enquanto sai do local.

Depois se certificar que Lucas saiu, Jason desabou no balcão, com o rosto fervendo, com a cabeça fritando e o coração pulando na mão.

Ele não conseguia acreditar na noite que tivera e com quem passou ela. Isso estava além de qualquer plano ou sonho de Jason, qualquer história que ele ousou escrever.

Era demais para sua cabeça, ele deveria agradecer à Lizzy pela sua possível melhor noite da vida. Pensando nisso, ele se recorda do horário e olha em volta, não haviam mais tantos adolescentes na boate, a música estava mais baixa e o lugar estava bem mais vazio.

Ele se levantou e pagou o garçom, esse que disse que Lucas ja tinha feito, e ele sorri pela milésima vez na noite, pensando no garoto de olhos do universo.

Saiu da boate apressado, correndo até à esquina onde seu carro estava, era muito tarde para andar calmamente pelas ruas. Ele entrou no carro e encostou a cabeça no volante.

— Olha o que você me fez fazer, Lizzy. — disse para si mesmo, rindo.

Dá partida no carro e vai em direção ao seu real destino, o destino que traçou antes de sair de casa, mas a boate o atrapalhou.

Ele dirige tranquilamente pelas ruas vazias, com apenas a presença de um carro aqui e ali, semáforos e portes de luz. Estava tão feliz que dirigia assobiando, observando as montanhas no horizonte.

Saindo do Centro da cidade, ele entra numa estrada que termina em um lago. Sim, aquele lago. Era aqui o lugar que Jason planejou vir. Ele sairia de casa, passaria pela cidade e viria para o lago pensar, escrever um pouco e relaxar.

Riu ao estacionar o carro bem próximo da margem do lago, pensando em tudo que fez nessa noite, Lizzy enlouqueceria assim que soubesse.

Saiu do automóvel, deixando apenas os faróis ligados e admirou o lugar, dessa vez não escreveria, tinha história demais para pensar quando fosse dormir. Jogou algumas pedras no lago, molhou os pés, de vez em quando rindo de tudo.

Passou um tempo deitado no capô do carro enquanto olhava as estrelas, até que uma ideia um tanto peculiar surge em sua cabeça :

— Nunca tomei um banho aqui... — disse em voz alta para si mesmo, estava sozinho, não importava — Acho que hoje...Acho que é perfeito.

Ele tira as roupas ao som da melodia dos grilos, com a grama verde sob seus pés, rodeado de árvores e de frente para o grande lago.

Vestido apenas com a roupa de baixo, ele põe seu pé na água escura do rio, olhando mais uma vez para lua, depois para o carro, e mergulha.

Submerso, lembrou-se do dia que tivera: Ele deprimido no quarto, depois conversando com Lizzy e sendo convencido, na banheira insatisfeito com seu corpo, saindo de casa e observando as variações da cidade, encontrando a boate, se apaixonando por ela... E ele, Lucas. Sorri ao lembrar do garoto, ele pensa em tudo que pode acontecer e como contaria para a amiga, para a mãe... como seria dali para frente. Mas dessa vez ele se deixaria levar, sem precipitações, sem medo, afinal tentar já é o suficiente quando se é jovem e apaixonado.

Sendo assim, ele emerge da água e olha o céu estrelado e dominado pela grande lua cheia, dizendo para si mesmo em sua cabeça:

— Não se preocupe, bebê.


Notas Finais


Pra você que chegou até o final, muito obrigado, significa muito pra mim. Eu escrevi essa fic faz um tempo e ela significa muito pra mim, espero que tenha sido o suficiente para te agradar e desculpa por qualquer errinho.

Your loving, ryan.


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