História Knock it on 5th floor {2jae} - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias Got7
Personagens JB, Youngjae, Yugyeom
Tags 2jae, Got7, Jaebum, Smut, Yaoi, Youngjae
Exibições 135
Palavras 13.109
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Escolar, Slash
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Aloha cutiepies! Finalmente finalizei esta oneshot, que por acaso, me deu muito gosto em escrevê-la por ser relativamente diferente das demais.
Estou agora a começar a trabalhar numa drabble/oneshot fluffy de Jookyun para quebrar a monotonia, já que eu prefiro fanfics cutes ahfafsga e quando terminar essa, vou começar a escrever outra do mesmo otp e a ideia é totalmente diferente, believe it.
Palavras que possam não entender:
Autocarro - Ônibus
Telemóvel - Celular

Espero que gostem!

Capítulo 1 - I love your crazy


Segunda-feira 

Todas as segundas-feiras era sempre a mesma coisa; Uma correria imensa por toda a sua habitação à procura do seu coelho anão fêmea, Ayame. Ele percorria tudo o quanto era um canto inusitado para o animal de quatro patas se ter escondido. Bichanava o seu nome, abanava uma cenoura com o objetivo de atraí-la mas nem isso deu resultado. Todos os domingos, durante a noite, o coelho fazia um chinfrim imensurável e na manhã seguinte, nunca estava na gaiola. Mas naquela manhã, parecia até que a criatura se tinha evaporado. Com certeza ela tinha escavado um buraco e fugido, porque se não estava nem dentro do fogão, dentro de casa não estava. Tirou uma banana do cesto das frutas e colocou os seus três cadernos e o estojo sobre o seu antebraço, apressando o passo até à porta. Reviu mentalmente se não se tinha esquecido de nada e quando teve a confirmação de que não, não se tinha esquecido de nada, abriu a porta e em seguida, trancou-a. Teve que ir pelas escadas, visto que o elevador estava avariado, e o facto de morar no 5° andar, atrasava-o ainda mais. Tentava descascar a peça de fruta, segurar o seu material escolar e correr pelas escadas abaixo, tudo ao mesmo tempo. Não estava a funcionar muito bem, sendo que, quase que por um triz, iria cair estatelado no chão. Ao fim de tantos degraus, tinha chegado finalmente à portaria. E lá estava ele. O filho do porteiro. A substituir o lugar do pai… A razão da maior parte do seu constrangimento matutino e vespertino.  

Caminhou a passos vagarosos até ao jovem moreno, que, por estranho que parecesse, ainda não tinha notado a sua presença. O olhar do mesmo estava direcionado para o seu colo, mas o balcão impedia a visão do estudante de concluir o que ele estava a fazer, visto que ele estava sentado. 

– Hm… Bom dia, senhor Im. – Anunciou cortesmente. Assim que, a sua voz fora proferida, sentiu um arrepio a corroer-lhe a espinha dorsal quando os olhos negros e profundos recaíram sobre si.  

– Bom dia, menino Youngjae. – Cumprimentou-o no mesmo modo, educado, mas com uma entoação diferente na palavra “menino”. – É para guardar as suas chaves?  

– Sim, isso também. Mas eu queria perguntar-lhe se não viu por aí um coelhinho com uma pelagem cor de mel e umas faíscas brancas… – Expôs o assunto, descrevendo as caraterísticas físicas do seu animal de estimação, e receou que ele não o tivesse visto.  

– Estás a falar deste bichinho aqui? – Perguntou, mudando o pronome de tratamento para um mais pessoal e ergueu o seu corpo alto da cadeira giratória. Contornou o balcão, dando a visão panorâmica das suas roupas um tanto alternativas, porém, aquele estilo acentuava-lhe na perfeição; Um hoodie cinzento, umas skinny jeans pretas e umas Dr. Martens bordô. Ele tinha um grande senso de moda, definitivamente. Na palma da sua mão estava Ayame, – Deveria ser para ela que as atenções do porteiro estavam focadas segundos antes. – e ele afagava o seu pelo com a outra mão livre.  

– Ayame! – Proferiu o nome do animal entusiasmadamente e saltitou até eles os dois, colocando sobre os cadernos, a fruta que estava quase a terminar de comer. – Eu hei-descobrir como é que tu fugiste da gaiola e de casa. – O rapaz de cabelos acinzentados dialogou com o animal doméstico, ou por outras palavras, monologou, já que o bicho nunca lhe iria responder. 

– Talvez haja alguma frincha ou buraco por onde ela tenha escapado. – A voz intensa e grave do único filho do porteiro do prédio, sugeriu. 

O dono do coelho subiu um pouco do seu olhar, dando de caras com os olhos do outro já incididos sobre si. Assentiu com a cabeça e prosseguiu:  

– Tem razão! Tenho que verificar isso quando voltar… Seria muito abuso meu se lhe pedisse que deixasse a Ayame em minha casa? – Questionou, diminuindo o volume da sua voz, pois considerava ousadia a mais esmolar aquele favor. – É que eu já estou a ficar muito em cima da hora para chegar à faculdade e… 

– Com certeza, não me custa nada. –  Interrompeu-lhe o discurso e o outro sorriu minimamente com o feedback. – Vai! – Apressou-o. – Ou pretendes chegar ainda mais tarde?  

– Muito obrigado! – Depositou-lhe a chave na palma da mão – E ambas se resvalaram ao de leve, provocando um atrito bom. – e reverenciou-se com gratidão. Agarrou no seu pequeno almoço e encaminhou-se até à entrada do prédio. 

– Ei, Youngjae! – Aquele que tinha sido implícito naquela interjeição, olhou sobre o seu ombro, enquanto dava uma dentada na fruta. O que tinha clamado o seu nome já estava no terceiro degrau, a brincar com o pelo de Ayame. – Tu comes bananas todos os dias? 

Youngjae paralisou completamente. Os seus olhos piscavam incredulamente com aquela inquisição que ele sabia que não tinha nada de apropriado. Engoliu com alguma dificuldade o último pedaço que tinha trincado e as suas bochechas fervilhavam. Recusava-se a ficar ali mais um minuto, e, portanto, deu meia volta e saiu disparado dali. Jurou que tinha ouvido uma risadinha proveniente de Im, mas não fez caso, correu para não chegar ainda mais tarde à estação. Pelo caminho aproveitou para depositar a casca da banana no caixote do lixo e correu o máximo que pôde para não perder o metro, que parava neste momento na paragem onde ele o apanhava todos os dias. Eram 6h30, tinha passado meia hora desde que ele tinha despertado e ele já se tinha exercitado mais do que costumava fazer nas aulas de educação física. Como ele odiava correr para não perder o metroComo ele odiava correr

Mesmo que ele já estivesse sentado e confortável, ele continuava arfante, tentado de alguma maneira normalizar a sua respiração. O seu rosto estava avermelhado não só pelo esforço físico que tinha feito, mas também ao recordar-se daquela pergunta inapropriada, questionada pelo porteiro. Todos os dias ele dizia-lhe algo do género, mas mesmo já estando acostumado com isso, ficava sempre envergonhado. Youngjae alojara-se naquele prédio – Bastante mais acessível que os demais. – há um ano, com o propósito de economizar dinheiro para as propinas da sua faculdade de artes. O edifício estava localizado nos subúrbios da cidade, e por isso é que também vivia mais afastado de onde estudava. Desde cedo que soube que queria cursar artes, e, com imensa devoção, conseguiu entrar no curso e agora estava a meio do segundo semestre. Recostou a sua cabeça no vidro e fechou os olhos, descansando-os. Ele tinha que passar quase uma hora no transporte e depois tinha que ir de autocarro, todavia, era uma viagem de cinco minutos. 

 
 

O garoto de vinte anos corria desvairadamente pela escadaria do ensino superior. Só lhe restavam dois minutos para a aula começar e ele já sentia que aquele início da manhã estava amaldiçoado. Ele nunca chegava atrasado e queria permanecer desse jeito; Pontual. A sala onde teria aula agora, ficava no segundo piso, contribuindo para o seu atraso. Avistou um perfil semelhante ao do seu melhor amigo. – Não pôde precisar isso, visto que, a sua visiva estava turva, devido à sua demonstração de maratona. – a sair da sala, juntamente com a vasta turma. Abrandou o passo e parou à frente daquele que sim, era mesmo o seu melhor amigo. Vergou a sua coluna e as suas mãos foram de encontro aos seus joelhos sendo que os seus cadernos e estojo estavam segurados debaixo do seu braço. Inspirava e expirava para conseguir ao menos falar algo. 

– Caro Choi Youngjae… – O de cabelos platinados enunciou, cruzando os braços. – Lamento dizer-te isto mas… – Realizou uma pausa dramática e Choi olhava para cima, já com a respiração quase controlada. – A aula de hoje foi alterada para amanhã porque a professora teve uma emergência. Ou seja, gastaste as tuas energias em vão.  

– O quê? – Inquiriu-lhe e enrijeceu o seu corpo imediatamente, procurando no rosto do rapaz alguma pitada de brincadeira. Mas não. Ele estava a falar a sério. – Não me acredito que me matei de preocupação para isto, para chegar aqui e a Sr. Cho Soo não vir. Só comigo mesmo. – Lamuriou-se. 

– Pois é, meu amigo, a vida tem destas coisas. – Kim Yugyeom riu anasalado e rodeou-lhe o pescoço, dando-lhe umas palmadinhas no seu ombro. – Vens comigo à máquina automática de café?  

– Vou. Aproveito e tiro um café para mim também, e uma barra de chocolate, pois estou esfomeado. – Explicou, à medida que os dois amigos começavam a vaguear pelos corredores enormes e desprovidos da típica aglomeração de alunos habitual. Haviam alguns, no entanto, eram da sua turma. – Ou eles pensavam que sim. Numa turma com cem alunos, eles não iriam fixar cada pessoa. –  

A sorte deles é que em cada piso, tinha uma máquina automática de venda, poupando-lhes o sacrifício de andar a subir e a descer caso só houvesse uma e num local específico. Enquanto Yugyeom aguardava o copinho de plástico sair da máquina, Youngjae estava indeciso entre três variedades de chocolate e essa indecisão prolongar-se-ia caso o seu amigo de cabelos platinados não tossicasse para o tirar do seu mundo onde as dúvidas reinavam. Deu-se por vencido e optou por discar o número dezassete no equipamento, retirando um Twix de caramelo; Um dos seus favoritos. Volveu-se para o lado, e Kim tinha nas suas mãos dois cafés. Um ele já bebericava, e o outro ele estendeu-o a Choi que agarrou na bebida e respondeu com um “Obrigado”.  Sentaram-se no banco de madeira nitidamente polida que ficava junto das engenhocas automáticas e acostaram-se no mesmo.  

– Porque é que hoje chegaste tão em cima da hora? – Yugyeommie – Como o que estava sentado ao seu lado o denominava muitas vezes. – perquiriu, observando-o de esguelha.  

– A Ayame decidiu comportar-se como a Dora e deu em aventureira. – Suspirou em descontentamento. – Procurei-a pela casa toda e nada, no final das contas, ela estava na portaria. – Relatou, fechando os olhos ao deliciar-se com o caramelo e biscoito da sua barrinha de chocolate. 

Youngjae relembrou-se do sucedido após ter achado o seu coelho e as suas maçãs-do-rosto carminadas denunciavam-no para qualquer um. Mastigava vagarosamente a última tira do doce e os seus olhos apreciavam o chão exageradamente limpo.  

– Porque é que estás tão corado, hun? – A voz adocicada de Kim soou interrogativa. 

– Hm, nada. – Redarguiu e o seu camarada arqueou a sobrancelha seriamente. – Pronto, okay. Foi o Jaebum. – Foi sincero na resposta pois não adiantava omitir aquilo do seu melhor amigo. –  

– Ui, o que é que ele te disse desta vez? – Encestou o copo de plástico no caixote do lixo e festejou ao acertar, mas logo se recompôs quando Youngjae o repreendeu com o olhar.  

– Hoje ele foi muito mais ousado… Eu estava a comer uma banana e ele disse: “Tu comes bananas todos os dias?”. Eu fiquei tão mas tão envergonhado, céus… 

O mais novo gargalhou escandalosamente e bateu palmas. Parecia uma autêntica colegial… 

– Mas tu tens que agir também. Tu gostas dele! 

– Eu não gosto dele! – Adiantou-se a afirmar. – Só o acho bonito. Só isso. Não é por achar uma pessoa bonita que quer dizer que goste dela.  

– Se ele se mete contigo já há meio ano ou qualquer coisa assim… É porque gosta de ti, correto? Se não, já teria desistido faz tempo… Ao ser rejeitado tantas vezes.  

– Não se trata de rejeitá-lo, mas não é a dizer aquelas coisas que me vai conquistar. – Deu de ombros e balançou os seus pés como uma criança. 

– Olha que eu acho que é! – Exclamou divertidamente e recebeu uma pancada dada de mão aberta na sua nuca e gemeu. – Au, pra que é que foi isso? – Buscou saber, massageando a zona do pescoço. 

– É para aprenderes!  

 
 

Era 13h30, segundo o seu relógio. A manhã tinha-se esvoaçado sem ele se dar conta, e agora, benzia-se e rezava diante da porta do prédio, mentalizando-se para os comentários que provavelmente se seguiriam. Pisou no hall com o pé direito – Talvez assim tivesse um pouco de sorte. – e entrou. Limpou a sujidade do seu calçado no tapete e inconscientemente, a sua atenção foi relanceada para o balcão e maldita a hora em que o fezmesmo que sem pensar. A vista do outro já estava sobre si, a sua expressão era indecifrável, porém, a sua cara era extremamente agraciada com tamanha beleza. Gradativamente foi-se aproximando do mobiliário que os separava e para aliviar a tensão, estralava os dedos incessantemente.  

– Bem vindo de volta, menino. – Saudou-o, como sempre fazia. – Queres as tuas chaves? – Interrogou-lhe, virando-se para trás e do chaveiro alcançou a chave do 5° direito. Balançou a argola – Que pendurava o objeto de bronze. – no seu dedo indicador e abandonou o seu posto, posicionando-se a lado do mais baixo. O dito cujo sentira-se imensamente constrangido e atónito, não compreendendo o porquê de ele ter ido para a sua beira.  

– Quando me pediste para colocar a Ayame em tua casa, eu decidi agir por conta própria e fiscalizar algum sítio por onde ela pudesse ter fugido… Espero que não te importes. – Desvendou e continuou a discursar. – E bom, eu descobri a raiz do problema.  

– Oh, a sério? – Narrou interrogativamente. 

– Sim. Posso acompanhar-te e mostrar-te por onde é que ela tinha fugido? – Um sorriso floresceu no seu rosto e o outro pestanejou desacreditado com o seu gesto gentil. 

– Acho que sim. – Retrucou incerto e controlou-se para não encher de beijos aquele rostinho tão adorável, conquanto, tão misterioso. Para prevenir uma atitude tão impulsiva como essa, foi diretamente para as escadas. Começou a subi-las e escutou as pisadas atrás de si e arrependera-se amargamente por ter feito aquilo, pois, sentia-se a ser despido com os olhos e não é como se ele fosse a Ayame e que tivesse aonde se esconder. Pulava dois degraus à frente para reduzir o tempo de chegada ao seu lar e na sua mente comemorou quando viu a porta do seu apartamento ao final do corredor Youngjae parou de andar porque era 

o mais velho que possuía a chave. O mesmo ultrapassou-o e os seus ombros rasparam-se parcialmente. Im fitou-o de relance, provando que os seus rostos estavam demasiadamente próximos e virou-se novamente para a porta e introduziu a chave na ranhura da fechadura e girou-a duas vezes, empurrando a porta e cedendo-lhe espaço para poder entrar e ele assim o fez, ainda reticente. Até o ruído do trinco a ser fechado o assustou.

– Era aqui. – Afirmou, andando até ao pequeno sofá. Arregaçou as mangas e exerceu pouca força para o arrastar. Choi contemplou os bíceps do outro em movimento e engoliu em seco, para piorar, ele agachou-se muito lentamente, fazendo com que as suas calças evidenciassem bastante as suas coxas e nádegas. Mordeu o interior da sua bochecha e lutou o máximo que conseguia para não pensar cenas impuras, mas nem essa sorte teve. Aquele que estava naquela pose nada aconselhável a pessoas com pouco autocontrole, tinha que fazer uma questão impertinente e que veio abalar aquilo em que o estudante se negava a pensar.

– Estás a ver este buraco aqui…? – O que tinha os fios de cabelo tingidos estava prestes a perder a sua sanidade com aquelas palavras metricamente insinuosas. – Bem, já não dá para ver pois eu cimentei-o, – Libertou um riso abafado e deu continuidade ao que estava a dizer. – mas tinha aqui um pequeno buraco, só que a Ayame foi escavando um maior e foi por aí que ela fugiu, suponho. – Alegou, olhando para cima. Ele sabia que o estava a provocar ao estar daquele jeito.

– Muito obrigado, não precisava de se dar ao trabalho. – Constatou o morador do quinto esquerdo.

– Porque é que ainda me tratas por tu? Temos praticamente a mesma idade. – Esticou as pernas que estavam dobradas, levantando-se.

– Nós não temos tanta confiança para nos tratarmos por tu. – Encolheu os ombros e deu um sorriso amarelo.

Andou um bocado para trás quando o outro se acercava dele. Entreabriu os lábios quando os seus cabelos foram bagunçados propositalmente por Jaebum.

– Até amanhã, Youngjae. – Despediu-se dele e o jovem só se apercebeu de que estava em transe quando ouviu a porta a bater.

Foi um belo começo de semana

 

*

 

Terça-feira

Estaria provavelmente no seu sétimo sono, se não tivesse sido acordado com os barulhinhos do coelho fêmea a brincar na gaiola. Suspirou insatisfeito e verificou as horas no relógio digital da mesinha de cabeceira; Onze e meia da noite. Ele deveria retomar o seu sono, porém, ele tinha-se dissipado um pouco ao ter sido acordado. Detestava ter o sono tão leve como tinha. Destapou os seus edredons de cima dele e procurou os chinelos com os próprios pés, calçando-os quando os encontrou. Foi-se arrastando até à porta entreaberta do seu quarto e esquivou-se por ela. Antes de fazer o trajeto que pretendia, fez um desvio para o pequeno quarto do lado seu para verificar como estava Ayame… E ela parecia bem mais divertida e energética do que o próprio dono, mas não era de se esperar muito, qual é a pessoa que está animada após ter sido acordada? Depois de ter a confirmação que ela estava feliz a comer a sua folha de alface, voltou aonde se pretendia dirigir; Cozinha. As suas pálpebras fechavam-se involuntariamente e até foi contra a parede do corredor por conta disso mesmo. Dobrando a quina da mesma divisão da casa, adentrou na cozinha, sem ligar a luz e a sola dos seus chinelos resvalavam no chão. A sua vontade era de estar a dormir, sendo que, tinha que acordar às 6h. Jornadeou até à ao armário e teve que se colocar em pontas dos pés para conseguir alcançar um copo. Abriu a torneira e encheu-o até à metade, tragando o líquido em seguida, muito rapidamente. Quando planeava pousá-lo no suporte próprio para copos, uma sombra estranha e duvidosa surgiu na pia, o que de imediato lhe suscitou dúvidas. Retornou atrás para poder ligar o interruptor e ver do que se tratava, quando andou de novo até à pia, o que se sucedeu em seguida foi tudo muito efémero. Um grito e um barulho estridente ecoaram naquela divisória. O grito fora emitido pela voz aguda de Youngjae e o barulho fora repercutido pelo estilhaçar do copo no chão.

Irracionalmente, saiu dali à velocidade da luz em direção à porta principal. As suas mãos tremelicavam e isso só dificultava o processo de destrancar a fechadura. Ele grunhia em desespero, pontapeando a porta por não a conseguir abrir. Quando uma pequena brecha de claridade reluziu, ele finalmente conseguiu abandonar aquele local que o estava a sufocar. As luzes do corredor acendiam-se automaticamente à medida que ele corria desnorteado. Só não caiu, por pouco, pelas escadas abaixo pois segurou-se no corrimão. Começava a ficar zonzo de dar tantas voltas nas escadas. Quarto andar. Terceiro andar. Segundo andar. Primeiro andar. Rés-do-chão. Foi quando ele pisou nos últimos degraus, que tinha chegado à portaria. Ele ainda lá estava. Im ainda lá estava. A respiração descompassada de Choi era o único som que se destacava naquele silêncio infernal. Os olhos curiosos do porteiro analisaram-no de alto a baixo e o que era analisado acompanhou-o também com o olhar. Imediatamente percebeu o porquê; Ele estava em tronco nu, envergando apenas umas calças de moletom vermelhas. Se fosse numa situação normal, ele estaria envergonhado, mas aquela situação não era uma situação normal. 

– Youngjae? O que é que se passa? – O rapaz alto aligeirou-se a ir até ele, deixando a papelada que estava a preencher para último plano. – A vizinha do 5°D ligou para o telefone da portaria a dizer que ouviu um grito e… – Não terminou de transmitir o que pretendia transmitir quando fixou a sua visão no rosto amedrontado do pequeno. Fora um processo lento, mas ele assistiu a cada lágrima do outro a acumular-se devagar em toda a sua esclerótica, marejando-lhe a linha-de-água. As lágrimas rolaram pelas bochechas, uma por uma, sem pararem. – Por favor, tenta dizer-me o que é que se passou. Estás-me a deixar preocupado! – Pediu, colocando-lhe as mãos nos ombros e apertou-os levemente.

Im fora apanhado desprevenido quando sentiu os bracinhos de Youngjae ao redor da sua cintura, a agarrarem-na com uma força extrema. O rosto dele fora afundado no seu peito e o moreno entreabriu os lábios, surpreendido, mas sem pensar duas vezes, retribuiu o abraço. A sua mão direita quente e áspera contrastou com as costas gélidas e macias do rapaz transtornado. Ele sentiu o outro a arrepiar-se em baixo da pele da sua palma e as lágrimas salpicaram-lhe a sua sweatshirt azulada. Por sua vez, a sua mão esquerda, empurrou ainda mais e cuidadosamente a cabeça de Choi contra o seu corpo. Fez círculos no couro cabeludo – Matizado de cinzento com reflexos esverdeados. – dele.

– Youngjae, o que é que se passou? – Questionou, ponderadamente.

– E-Eu vi… F-Foi uma a-ar… – Balbuciou, com uma voz trêmula e embargada.

– Foi uma…? – Incentivou-o a continuar. Jaebum queria saber o que o tinha deixado o seu pequeno naquele estado tão angustiante.

– F-Foi uma a-aranha. Na c-cozinha. – Revelou, com alguma dificuldade, mas o maior conseguiu entender o que lhe tinha sido dito, mesmo que o timbre da voz dele estivesse a ser obstruída pelo o tecido da sua camisola.

– E tu tens medo de aranhas, Young? – Inquiriu, suavemente e a resposta fora um assentimento. O homem de vinte e dois anos tinha o queixo repousado no topo da sua cabeça e sorriu minimalista. Sorriu não porque aquele acontecimento tinha graça, mas sim porque naquele instante, aprendeu a fragilidade que ele emanava, a falta de proteção que ele tinha e a insegurança que os seus próprios medos lhe causavam. – Senta-te ali na minha cadeira. – Jaebum afastou-o cautelosamente e encarou-o. – Eu vou tirar a aranha de lá. – Garantiu-lhe e Youngjae enfrentou-o. Nos seus olhinhos predominavam uns raios avermelhados mais sobressaídos, correspondente ao facto de ter chorado desalmadamente.

Sem aviso prévio, o que detinha uma face com traços fortes e um maxilar vincado, levou os seus dedos à bainha da própria camisola e puxou-a para fora do seu tronco, erguendo os braços para cima, para auxiliar na remoção da mesma. Choi esbugalhou o olhar, alarmado. Os seus ombros só relaxaram ao ver que ele tinha uma camisola interior.

– Toma! – Forneceu-lhe a sweatshirt para as mãos e o mais baixo aceitou-a. Quando a teve nas mãos, sentiu o quão quentinha ela estava, devido ao calor humano do porteiro. – Veste isto ou se não apanhas um resfriado. – Alertou-o. Com os polegares, acariciou as suas bochechas, limpando as marcas das lágrimas que já tinham secado. Distanciou-se por completo dele e foi lançado para as escadas, correndo de forma prudente nos degraus.

Youngjae, como já era de se esperar, corou e vestiu a camisola, sentindo a sua pele arrepiada, mais aconchegada. Jaebum ia o mais depressa que lhe era permitido, visto que, havia uma lei que proibia o barulho a partir de uma determinada hora. Quando ao longe vislumbrou a porta escancarada do apartamento do aracnofóbico, deu pisadas ainda maiores e apressadamente entrou na sua habitação. A sala de estar estava toda escura, mas um fio de iluminação por detrás do pilar que sustentava uma parte da casa, atraiu a sua atenção e ele foi até ele e fintou-o. Deparou-se com a luz da cozinha acesa e sem mais delongas, foi à procura da razão do colapso do inquilino. Ao aproximar-se da pia, algo que cintilava no chão tornou-se no seu foco principal; Cacos de vidro.

Para evitar acidentes ainda maiores, decidiu procurar por algo de cartão onde pudesse inserir os vidros. Como era lógico, o primeiro local onde vasculhou foi no caixote do lixo, encontrando uma embalagem de leite esvaziada. Num ápice, alcançou-a e recolheu caquinho por caquinho e pô-los um por um no empacotamento. – Com muita precaução, para não correr o risco de se cortar ou de ser o causador de um Choi Youngjae magoado futuramente por ter deixado escapar um vidro. Pousou o pedaço de cartão sobre a pia e a sua próxima missão era investigar onde estava o que originou o choro inconsolável do que estava na portaria; A aranha. Procurou no local onde Young a tinha visto e nada. Procurou-a atrás da porta e nada. Procurou também debaixo da mesinha ali situada e nem sinais da criatura. Só depois de mais longos e contínuos dois minutos, é que foi dar com a amiguinha a passear sobre os discos de fogão. Ela não era muito grande, mas para uma pessoa com aracnofobia, aquilo deveria ser o cúmulo do enormíssimo.

– Ai era aqui que tu estavas… – Articulou, formando uma espécie de concha com a sua mão e depositou-a lá. – Tu não tens vergonha de teres assustado o Youngjaemmie e de me estares a tornar insano por eu estar a conversar com uma aranha? – Censurou-a e enfiou-a no pacote do leite. Vincou bem a entrada, deixando-a moderadamente celada e desligou a luz daquele cômodo, contudo, quando se maquinava sair daquela habitação, priorizou deixar as luzes da sala ligadas porque quase de certeza que o garoto iria rer medo de entrar.

 

O que utilizava a camisola de Im, balançava as suas pernas na cadeira giratória da portaria. Brincava com os seus dedos, enquanto o outro, – Que já tinha deitado os cacos fora e sem que Youngjae se apercebesse, tinha libertado a aranha, mesmo que lhe tivesse dito que a tinha esborrachado com a sola dos sapatos. – cirandava de volta dele, arquivando alguns ficheiros nos dossiers.

– Youngjae, não era melhor tu ires dormir? Já é 0h10 e tu tens aulas muito cedo. – Aconselhou-o, pois sabia que ele era muito exigente com horários.

O que tinha sido explicitado na pergunta, ergueu o seu queixo, mirando-o. Jaebum poderia morrer ali mesmo quando ele fez um beicinho manhoso.

– Eu tenho medo de entrar no apartamento agora. – Murmurou quase inaudivelmente.

– Queres que eu entre contigo? Já não tem lá aranha nenhuma, acredita em mim! – Afagou-lhe o ombro em modo de compreensão.

Abanou a cabeça afirmativamente e Jaebum surpreendeu-o quando elevou o seu corpo pequeno e frágil. Enlaçou as pernas curtas de Choi em torno da sua cintura e firmou as suas mãos nas suas coxas. O mais novo, instantaneamente, rodeou o pescoço chamativo do moreno. Enterrou a ponta do seu nariz na pele quente dele e inspirou o odor perfumado da mesma, arrepiando-o. Dobrou a beira do balcão e carregar Youngjae era tão fácil, ele era demasiado leve, grande parte do seu peso deveria ser proporcionado pelas pernas gorduchas. Transportou-o com destreza pelas escadas e depois de uns prolongados cinco minutos já sentia a sua respiração pesada a embater contra si. Entrou na casa dele e procurou pelo quarto do garoto. Abriu uma porta logo no início do corredor e enxergou, sem muita precisão, uma cama de solteiro desfeita. Deitou-o muito precavidamente no colchão e aconchegou o lençol e o édredon nele. Afastou a franja dele que lhe cobriam os olhos e sorriu. Observou-o durante mais alguns minutos e depois foi embora, mas ainda foi a tempo de escutar num murmúrio arrastado:

– Obrigado, Jaebummie.

 

*

 

Quarta-feira

– Estás a querer dizer-me que ele te levou ao colo até à cama? – O loiro praticamente gritou para quem quisesse ouvir.

Shiu, Yugyeom. Fala baixo! – Pediu, dando-lhe uma reprimenda. – Tu sabes do meu pavor a aranhas… Achei que ia morrer ali mesmo. – Suspirou ao recordar-se da noite anterior.

– Ao menos tiveste alguém para te ajudar. – Yugyeom bagunçou-lhe os cabelos e com a sua mão puxou-lhe o rosto, pregando-lhe um beijo na bochecha. – Coitadinho do meu Youngjaemmie.

– Para de brincar. Eu senti-me mesmo mal. – Reproduziu um biquinho nos lábios e o mais novo rendeu-se, elevando as mãos no ar.

– Peço desculpa, hyung. Tens razão. – Retorquiu, abraçando o seu melhor amigo de lado e deitou a sua cabeça no ombro do mesmo. – O menino Choi precisa de muitos miminhos, não é mesmo? – Gargalhou.

Acenou concordante e caiu na risada também, todavia, uma gargalhada mais contida, porque estava dentro da sala. Normalmente o seu riso era absurdamente escandaloso, atraindo todas as suas atenções para si. Ele, o seu melhor amigo e o resto da turma cessaram as suas conversações quando começaram a escutar do lado de um ecoar de saltos altos no chão do corredor. A porta fora aberta e a mulher de cabelos longos e pretos adentrou na enorme sala. Min Cora. A professora com dupla-nacionalidade; Americana e coreana e que leciona filosofia. Todos os alunos e alunas – Com a exceção de alguns. – ficavam sempre embasbacados com ela. Primeiro, ela deveria ter perto dos quarenta e cinco anos e aparentava ter trinta; Segundo, a sua figura delgada e esbelta chamava a atenção, comentava-se também que em tempos tinha sido modelo; E terceiro, ela era conhecida por três motivos: A sua franjinha reta acima da sobrancelha, os seus saltos altos e as suas saias-lápis. Ela colocou a sua mala na cadeira e desejou bom dia à turma. Abriu o típico livro de ponto, começando a fazer a chamada e só após uma meia hora é que terminou.

– Hoje, vamos relembrar o que é o empirismo. – A Sr. Cora anunciou e circunvalou a secretária, encostando-se com os braços cruzados de frente para os alunos. – Como vocês devem ter abordado há dois semestres, empirismo é uma teoria filosófica que crê nas experiências humanas como únicas responsáveis pela formação das ideias. Alguém me sabe dizer quem foi o principal teórico do empirismo? – Indagou. Muita gente colocou a mão no ar, porém, a palavra fora concedida a Yugyeom:

– John Locke. John Locke foi um filósofo inglês e foi o principal representante do empirismo. Ele acreditava que todos nós somos folhas em branco e que todo o conhecimento que nós temos, vai sendo adquirido com a experiência e com o tempo. Houve também outros filósofos de renome, que defendiam o empirismo, tais  como: Aristóteles, Francis Bacon, etecetera. – Replicou detalhadamente e fora felicitado pela resposta acertada e completa.

– Andas a estudar. – Youngjae sussurrou, dando-lhe uma cotovelada e gargalhou baixinho.

– Isto é básico, Choi Youngjae. – Revirou os olhos e libertou uma risadinha também, mas logo se endireitou, prestando atenção à sua aula favorita, enquanto Youngjae… Bem, enquanto Youngjae tentava pescar algo de filosofia.

Três longas horas de filosofia se passaram e o rapaz permanecia do mesmo jeito que tinha entrado; Sem entender rigorosamente nada do que era explicado. Nem com os apontamentos escritos no caderno e a lê-los até ao mais ínfimo pormenor ele conseguia absorver algo.

– Yugyeommie… – Clamou carinhosamente entrelaçando o seu braço no do mais alto.

– O que é que me vais pedir? – Ele retorquiu olhando-o de viés, por cima do ombro, à medida que caminhavam pelas escadarias da faculdade.

– Podias dar-me uma ajudinha com filosofia? Tu és tão bom nisso… – Idealizou um rostinho como o Gato das Botas, só lhe faltando ronronar.

– Eu gostava muito de te poder ajudar, só que eu já tenho planos…

– Eu pensava que os amigos se ajudavam mutuamente, mas afinal, enganei-me. – Desprendeu-lhe o braço.

Kim grunhiu em frustração e Choi deu pulinhos e bateu palminhas de alegria.

– És o melhor amigo de sempre!

– Claro, claro. És um chantagista do pior, isso sim. – Yugyeom expôs e o outro riu. Riu como costumava fazer; Espalhafatoso e despreocupado.

– Mas que planos eram esses? – Interrogou, enfiando as suas mãos no bolso do casaco. Era inverno e o frio fazia sentir-se, e nem que se estivesse o mais agasalhado possível, o frio infiltrava-se no corpo de cada um. Ambos tinham o pescoço aconchegado num cachecol quentinho e um capuz felpudo a cobrir as suas cabeças.

– Ia ter com uma pessoa. – Respondeu sem pormenorizar muito.

– Ui, quem é ele? – Saltitou ao chegarem na paragem do autocarro.

– Youngjae… Não é por tu seres gay, que quer dizer que eu tenha que ser só para não te sentires sozinho.

Aish, que rude. – Sentou-se no banquinho e entreteve-se a balançar os pés gelados, mesmo tendo umas botas calçadas.

– Desculpa, hyung. – Colocou-se ao seu lado e despenteou-o.

– Estás desculpado! – Sorriu levemente.

Estavam à dez minutos a aguardar pelo transporte e nesses dez minutos Yugyeom estava vidrado no telemóvel. Choi tentou coscuvilhar o que ele tanto digitava, porém, ele sempre movia o aparelho eletrónico de maneira a que o outro não conseguisse ver o que ele digitalizava no ecrã tátil. O autocarro finalmente apareceu e uma pequena viagem de cinco minutos foi o tempo necessário para saírem na estação do metro, cujo estava a chegar naquele exato momento. Deram uma corrida e graças ao karma, conseguiram chegar a tempo de entrarem no transporte. Enquanto um tirava algum tempo para dormitar e relaxar, o outro não se desvencelhava do eletrónico, sempre atento a outra notificação.

– O que há de tão interessante nesse telemóvel, posso saber? – Yugyeom sobressaltou-se, pois, julgava o outro adormecido.

– Credo, Youngjae. Que susto. – Confessou, depondo a sua mão direita sobre o seu coração que palpitava mais forte devido ao susto.

– Estás tão desligado do mundo, que nem reparas que estou acordado… Mas quem é ela? – Desencostou o rosto do vidro da janela, confrontando-o.

– É uma amiga de infância do meu primo… – Revelou enrubescido e o mais velho produziu um guincho extasiado, assustando-o de novo.

– Aquele teu primo muito fofinho tailandês?

– Sim. Esse mesmo… Nós temos falado há alguns meses. Só que ela tem namorada... – Suspirou lamentavelmente e de cabisbaixo.

– O QUÊ? – Proclamou num grito histérico, suscitando alguma das atenções para eles. Não seria Choi Youngjae se não fosse um grito histérico. – Uma namorada? Tu és masoquista?

– Eu não escolhi isso… – Disse, dissaboroso. – Mas ela é bissexual, não sei se… – O outro intrometeu-se no seu discurso deprimente, interrompendo-o:

– Ah, afinal sempre há uma pequena chance! – Exclamou. A sua expressão facial modificara completamente. De repente, tornou-se mais sério e focado em algo. Petrificado, esfregava as suas mãos uma na outra, maleficamente.

– Youngjae… O que é que queres dizer com isso? – Interrogou, amedrontado.

– Eu? Nada, nada

 

Após quase uma hora dentro do transporte público, a terem conversas sem nexo, darem conselhos inúteis e fazerem piadas sem piada, chegaram à estação que ficava relativamente perto do prédio de Youngjae. Apesar de ser um prédio nos arredores da cidade, era apresentável e agradável à vista.

– Já não vinha aqui há imenso tempo. – Yugyeom manifestou-se, enquanto os dois olhavam para os dois lados, verificando se podiam atravessar a passadeira e quando o comprovaram que nenhum veículo se aproximava, atravessaram.

– Há meio ano, basicamente. – Informou, ajeitando o livro e o caderno debaixo do seu braço.

– Pensando nisso… Hoje vou finalmente conhecer o famoso porteiro…

Shiu, fala baixo. Estamos aqui à porta e ele tem ouvidos de tísico. – Advertiu-o e recompôs-se. Kim riu interiormente com o facto do seu melhor amigo negar o que não tinha negação.

A porta enorme do prédio estava aberta, como seria de esperar, afinal, se havia um porteiro, não fazia sentido as portas estarem fechadas. Yugyeom entrou em primeiro lugar para que o mais baixo se conformasse que teria de enfrentar o outro após aquela madrugada vergonhosa. Quando entrou, deparou-se com algo pouco usual; Um homem debruçado – Que aparentava ter não muito mais que vinte anos. – sobre o balcão, enquanto que por sua vez, Im apontava para alguma coisa que ambos encaravam com imensa atenção. Tanta atenção que nem repararam na chegada dos dois jovens. O porteiro sorria largamente e o outro gargalhava baixinho. Youngjae, tão indignado com aquele aparato todo, nem se apercebeu que o seu caderno e o seu livro de filosofia escorregavam do seu braço, acabando por se espalharem no chão, conquistando os olhares de todos sobre ele. Colocou-se de cócoras para recolher os materiais e Yugyeom ajudou-o, mas a sua vontade era de rir como se não houvesse amanhã porque estava na cara, nas paredes, no teto e no chão que Choi estava enciumado.

– Boa tarde, menino Youngjae. – Saudou aquele que era o filho do verdadeiro porteiro daquele prédio, mas que Youngjae, na sua cabeça, intitulava como: “Filho, mas não do porteiro e sim de outra coisa. Como assim retomamos ao menino Youngjae?”. Ignorou completamente aquele olhar de falsa simpatia e seguiu reto. Ia ao rumo das escadas mas Yugyeom disse que poderiam ir pelo elevador, já que havia lá uma folha a decretar: “Em funcionamento”. O de estatura mais baixa andou em passos largos em direção ao seu amigo e agarrou-lhe no pulso, puxando-o até ao elevador. Carregou no botão para abrir as portas do ascensor e num segundo elas abriram-se. Empurrou o loiro lá para dentro, pressionando o número cinco e em seguida no botão para fechar a porta. Dentro da caixa metálica o ar amuado e frustrado de Youngjae eram uma anedota hilária.

– E não gostas dele…? – Yugyeom inquiriu e em míseros segundos fora mirado com um olhar mortífero.

– Tu importas-te de te calar?

– Ai, hyung. Porquê tão bruto?

– Desculpa, dongsaeng. Estou irritado. – Confirmou aquilo que toda a gente já tinha percebido.

– Pois, já deu para ver. – Decidiu parar os seus comentários antes que o mais velho o estilhaçasse ali mesmo.

O percurso até ao seu andar foi feito muito mais rapidamente do que quando era feito pelas escadas e louvou por isso. Gritou aos quatro ventos: “Ainda bem que tenho uma chave suplente.” E abriu a porta da sua casa brutalmente. Kim afastou-se ligeiramente, temendo levar com a porta na cabeça.

– Tem calma, Youngjae. Para quê tanta agressividade? – Indagou, fechando a porta e seguiu-o até à sala.

– Não estou agressivo! – Exclamou irritado. – Vou ver se a Ayame precisa de mais comida. Volto já.

Yugyeommie acomodou-se no sofá da sala e abriu o seu – E o de Choi. – livro e caderno de filosofia, enquanto aguardava pelo seu melhor amigo. Por sua vez, Youngjae trocava a água e colocava mais feno na gaiola do seu animal de estimação. Acariciou-lhe o pelo suave e colocou-a de novo na gaiola, abandonou o quarto de arrumos e viu que o seu amigo pro em Filosofia já lia algumas coisas.

– Tão apaixonado por Filosofia… – O jovem não tão pro por aquela disciplina, disse e sentou-se no tapete, encostado ao sofá.

– Tão apaixonado pelo Jaebum… – Implicou com o seu amigo de longa data e arrependeu-se amargamente de ter dito aquilo.

– Kim Yugyeom… Tu queres apanhar com uma voadora na porra dessa cara? – Levantou-se rapidamente e pegou numa das almofadas do sofá, acertando-lhe em cheio. A vítima ria descontroladamente e o outro ria-se também. Pôs-se sobre o corpo do mais novo e prendeu-o com as pernas em volta da sua cintura. – Tão lindo, mas tão inoportuno… Não tens vergonha? – Aproximou o seu rosto muito de repente ao dele e sorriu ao vê-lo desviar o olhar.

– Youngjae… Eu não sou gay, por isso, sai de cima de mim. – Nem por um momento a voz doce dele quebrou ao fazer aquela afirmação.

– Yugyeommie… Por favor… – Fez a carinha mais fofinha que podia e roçou a ponta do seu nariz no dele, que o olhava profundamente. – É só um beijo. Não és gay por causa disso.

Youngjae pretendia continuar o discurso moral, mas fora impedido quando uma mão encostou-se no seu rosto e os lábios quentes de Yugyeom tocaram nos seus. Admirou-se com aquela sua atitude, mas sorrira. Fechou os olhos devagar e deixou o seu corpo deitar-se sobre o dele, sendo aconchegado de lado, nos braços compridos do mesmo. Choi ponderava se mordiscava ou não o lábio dele, mas arfou quando Kim tomara essa mesma iniciativa. Afagava a bochecha aveludada do aloirado e a mão do último, respetivamente, fazia carinhos no fundo das suas costas. Foram apartando o ósculo pouco a pouco e com risadinhas calorosas.

– Continuo hétero! – Foi a primeira coisa que Yugyeom proclamou.

 

Depois da hora do lanche e depois de Yugyeom ter dado o seu melhor como explicador, este fora para casa e o mais velho acompanhou-o até à entrada do prédio. Estavam todos felizes e contentes… Todos, exceto Jaebum, que os fuzilava descaradamente sobre o balcão. E seria naquele momento que Youngjae iria dar-lhe a provar do seu veneno.

Dongsaeng, obrigado por me teres explicado tudo. A tua ajuda foi preciosa, apesar de me teres deixado exausto. – Sorriu malevolamente para Kim e este sacou o que ele estava a tentar fazer. Bagunçou-lhe os cabelos e sussurrou no seu ouvido:

– O que é uma mamba preta perto de ti? – Deu as costas e desejou-lhe um “Até amanhã”. Youngjae voltou para dentro do elevador, sem ao menos confrontar o outro. Mas ele sentiu o olhar negro do outro a perfurar a sua pele como se o quisesse esganar. “Ops.” – Pensou o rapaz e gargalhou, regressando para casa.

 

*

 

Quinta-feira

As aulas da manhã tinham passado num piscar de olhos e a semana estava prestes a terminar, o que Youngjae agradecia completamente. Ele gostava da sua vida e gostava da forma que ela se desenrolava, porém, esta era muito monótona e era um tanto desmotivador em alguns dias. Aquele dia tinha sido, talvez, o mais puxado de toda a semana. Apresentações orais, trabalhos para entregar, trabalhos para fazer, marcações de testes. Era por isso que o banho que ele iria tomar em seguida lhe iria retirar um enorme peso dos ombros. – Ou pelo menos era isso que ele achava –. Retirou toda a sua roupa e adentrou no chuveiro um tanto pequeno. Abriu a torneira para o lado quente e aguardou um minuto ou outro para que a água aquecesse minimamente. Molhou todo o seu corpo e quando se preparava para ensaboar, a água ficou gelada como um iceberg e um grito ecoou pela cabine do chuveiro. Saiu numa velocidade atroz dali debaixo e vestiu o seu roupão. Quando a ficha caiu, ele percebeu que teria que ligar para Jaebum para que fosse mudar a botija do gás ou que arranjasse outra solução. Definitivamente não estava nos seus planos direcionar-lhe a palavra, mas ou era isso ou morria de hipotermia. “Ao menos ainda não tinha posto o gel de banho” – Matutou, procurando um lado positivo, se é que havia algum naquilo tudo. Abandonou a casa de banho e seguindo pelo corredor, chegando até à sua sala. Tinha encharcado e patinhado o chão todo e isso só o enfureceu mais. Agarrou no intercomunicador e discou 1524, o número da portaria. O barulhinho enervante do lado da linha tirava-o do sério e quando se preparava, fora atendido.

《Tem uma boa noite. Sempre que precisares de alguma coisa, chama-me.》– A voz tão conhecida do porteiro soou e o mais novo arqueou o sobrolho em incompreensão.

– Muito boa noite menino Youngjae. Em que posso ser útil? – O timbre vocal parecia mais frio e distante e Choi notou isso, optando por participar do mesmo joguinho dele.

– Houve um imprevisto e o gás acabou. Será que há algo que o senhor Im possa fazer? – Deu ênfase no título honorífico só para deixar claro que não ia deixar barato.

– Para isso é necessário eu ir aí.

– A porta está aberta. – Retorquiu e depositou o intercomunicador no seu sítio. Foi até à porta e deixou uma pequena frincha aberta.

Um minuto. Dois minutos. Três minutos. (…) quase dez minutos se passaram e só ao fim desse tempo, é que ele ouviu o elevador a ascender e alguns grunhidos. Ele deveria estar a carregar a bilha do gás e isso exercia um grande esforço físico. Youngjae observava tudo pela brecha da porta e quando o outro se aproximava da mesma, o mais baixo abriu a porta.

– Está aqui a… – À medida que subia a sua visiva até ao inquilino, as palavras iam cessando, tanto que ele se esqueceu de continuar o que estava a dizer. Os cabelos do seu morador favorito estavam bastante húmidos, fazendo com que as gotículas escorressem pelas suas têmporas e morressem no seu tórax. Jaebum engoliu em seco com aquela visão dos céus e prosseguiu. – Está aqui a botija do gás. Posso mudar a outra e colocar a nova?

– Ah, claro que sim. Muito obrigado. – Gratulou e cedeu-lhe espaço para ele poder entrar na sua residência.

– Vou ser o mais rápido possível para o menino não estar muito mais tempo exposto ao frio. – Declarou, rolando a botija no chão até à dispensa, onde ficavam todas as bilhas daquele prédio. O mais novo corou, mas ao mesmo tempo conseguia sentir a frieza nas suas palavras.

 

– Mais uma vez, muito obrigado. – Reverenciou-se e Jaebummie desviou o olhar quando teve uma visão ainda mais generosa do peito de Choi. – Vou tomar um banho antes que constipe.

– Sem problemas, é o meu trabalho. Se me dá licença. – Fez também a reverência e quando ia dar meia volta para se ir embora, alguma coisa o impediu… A mão macia e fria de Youngjae agarrou suavemente o seu pulso. Ele queria sorrir em resposta àquele ato inesperado, mas o máximo que fez, foi olhá-lo sobre o ombro, mantendo a sua expressão carrancuda.

– Espera… Fica aqui. Eu vou só tomar um banho e volto já. – Firmou o seu olhar esperançoso nos olhos de Jaebum.

– Desculpe, mas eu tenho mais que fazer. Tenha uma boa noite. – Ia virar-se mais uma vez mas fora coibido, de novo.

– Por favor, Jaebummie. – Desenhou um beicinho nos lábios e fez os seus típicos olhinhos pedinchões para conseguir algo.

O mais velho amaldiçoava-se a ele próprio por ser tão fácil de convencer e amaldiçoava o outro por ser tão convincente. Ainda para mais, apelidou-o de Jaebummie. “Esta criatura está a fazer um jogo comigo. De certeza.” – Pensou com os seus botões. – Desculpe, mas eu tenho mesmo muito trabalho e…

Youngjae pendurou-se como um coalinha no seu braço e gemeu num ronronado ou algo parecido a um gatinho manhoso. Ele esfregava a sua bochecha gorducha na camisola de lã do mais alto e o mesmo não resistiu, tendo assim que acariciar os fios molhados daquele bebezinho.

– Okay. Porque é que queres que fique aqui? – Interrogou e queria gritar quando o outro lhe soltou o braço, dizendo: “Não me soltes, idiota.”

– Tu eras bom a filosofia?

– Relativamente…? – Respondeu retoricamente com as sobrancelhas franzidas. – Porquê?

– Podes ajudar-me?... Eu não sou nada bom em filosofia. – Admitiu envergonhado e fitou o chão. “Porquê tão fofo?” – Os pensamentos apoderaram-se mais uma vez da cabeça do moreno.

– Posso. Mas vai tomar banho enquanto eu vou fechar a porta do prédio. – Afirmou mais sorridente.

– Obrigado, Jaebum hyung. – Mantivera-se perplexo quando a sua bochecha fora beijada e o autor do beijo corria aos risinhos até à casa de banho. Chacoalhou a sua cabeça e apressou-se a sair do apartamento do outro para ir fechar o prédio e também a portaria. Ele desejava que um dia pudesse deixar aquela vida que ele nunca almejou para ele, porém, com o seu pai hospitalizado há meio ano, não havia muito o que pudesse fazer, tinha que se sujeitar àquela vida… Estava feliz por o elevador já estar em funcionamento, poupava-lhe imenso tempo. Aquilo que ele fazia em dez minutos por demorar cinco a chegar lá a baixo, fazia agora em quatro minutos pois demorava dois. Quando regressou ao lar do jovem, fechou a porta e jornadeou até ao sofá, sentando-se lá. Na mesa estavam espalhadas imensas canetas, sublinhadores, em conjunto com um livro e um caderno pautado. Pegou no livro e folheou-o, sorrindo genuinamente ao perceber que Youngjae estava a estudar o empirismo, um dos seus temas favoritos quando andava na faculdade.

– Gostas do empirismo? – A voz graciosa e familiar de Choi atraiu a atenção de Im, que se viu cada vez mais fodido com um rapaz a caminhar lentamente pelo corredor, a secar os seus cabelos com uma toalha, – Bagunçando-os ainda mais. – usando umas calças pretas de moletom e uma camisola fina de manga comprida com uma ligeira transparência no tecido.

– Adorava. Na verdade, qualquer tema de filosofia me interessava. – Replicou nostálgico. Sentiu o sofá a afundar levemente quando o outro se sentou.

– Qual era o curso em que estavas?

– Jornalismo… – Sussurrou, lendo as citações sábias de Aristóteles no manual do outro.

– Estou a ver que preferes as letras aos números! – Gargalhou baixinho e o outro examinou-o de soslaio.

– Sempre preferi. Nunca fui bom a envolver-me com números. Tirava sempre a pior nota da turma. – Riu disfarçadamente e Youngjae fez o mesmo.

– Tu congelaste a tua matricula, certo? – Jae acenou em afirmação e Young continuou. – Porque é que não a descongelas e voltas à faculdade?

– O meu pai ainda está hospitalizado… Não quero falhar-lhe.

Oh, entendo. É uma pena. Mas quem sabe um dia, não é? – Mostrou as suas presinhas perfeitamente reluzentes e alinhadas e o outro sorriu só por o ver sorrir.

– Sim… Quem sabe um dia?... Mas bom, no que é que queres que eu te ajude?

– Podes explicar-me, de uma maneira geral, o que entendes por empirismo? É que particularmente eu não entendo nada. – Como já era normal, Choi corou violentamente.

– Claro. Vou tentar ser o mais objetivo possível. – Tossiu fracamente para aquecer a voz e começou a sua explicação. – O empirismo é, como deves saber, uma teoria do conhecimento, ou por outras palavras, uma vertente da filosofia. E o que é que essa teoria alberga? Essa teoria alberga que todo o conhecimento que nós temos vai sendo adquirido com a experiência ao longo dos anos…

– Oh, como quando a nossa avó nos diz que nós não sabemos nada da vida, e que só temos sabedoria quando temos a idade delas? – Youngjae interferiu, talvez inocentemente, e Jaebum riu em assentimento.

– Sim, é quase isso, mas com umas breves diferenças. Para Locke, o impulsionador do empirismo, o conhecimento produz-se em duas etapas. Primeira:  A da sensação, proporcionada pelos sentidos; Segunda: A da reflexão, que basicamente sistematiza o resultado das sensações.

– Eu nunca vou compreender isto. – Articulou exasperado.

– Tem calma. Claro que vais, isto não é muito difícil. Vou tentar explicar com exemplos. – Arrancou uma folha do caderno de argolas e mostrou-a. – Esta folha, não tem nada escrito. Agora imagina que tu és esta folha. Sem nada escrito, sem nada registado. Simplesmente uma folha em branco. – Alcançou uma caneta de tinta preta e começou a fazer traços e rabiscos aleatórios. – Pensa que a tua vida está uma autêntica confusão por coisas que tu vivenciaste. Como é isso que tu sentes, é isso que vais transpor para este papel. Nele, estás a gravar o teu conhecimento de coisas vivenciadas, que resumidamente são sensações.

– Acho que já percebi… Mais ou menos… Mas acho que já estou a entender. – Pendeu o seu pescoço um pouco para o lado para poder visualizar melhor a beleza de Im.

– Vês como conseguiste?! – Esculpiu um sorriso nos lábios e o mais baixo sentiu o seu estômago a revirar de nervosismo. – Bastou um exemplo simples para entenderes.

– Isso é porque tu explicaste de uma maneira que eu conseguisse perceber. – Deu de ombros e brincou com os seus dedos finos.

Se Jaebum não se conhecesse, diria que tinha ficado tímido com aquela declaração e riu nervoso.

– Nada disso. Não me custou nada. Mas agora acho que está na hora de eu ir andando, amanhã tens faculdade, necessitas de descansar.

– Não vás! – Antecipou-se a dizer e recompôs-se seguidamente. – Quero dizer, fica mais um pouco. Queres chocolate quente? – Mudou de assunto antes que aquilo ficasse num silêncio constrangedor e sem retorno.

– Não devia aceitar, mas vou fazê-lo porque já não bebo um há muito tempo.

– Não te vais arrepender e sabes porquê? Eu faço o melhor chocolate quente das redondezas! –  Ergueu-se do sofá e saltitou até à cozinha.

– Ai sim? Porque é que dizes isso? – O mais alto seguiu-lhe as pisadas até à outra divisão da casa.

– Já vais ver o porquê. – Garantiu e começou a cantarolar.

– Precisas de ajuda?

– Não, obrigado. Chocolate quente é a minha especialidade. Senta-te aí e aguarda a divindade dos céus que vais provar. – Apontou com o seu dedo indicador para a pequena mesinha com duas cadeiras e que ficava no cantinho da cozinha modesta.

O rapaz assim o fez e aproveitou a deixa para o poder observar mais proximamente. O outro gingava o seu corpo conforme solfejava alguma música aleatória. Colocou-se nas pontas dos pés para chegar à prateleira mais alta para retirar duas canecas e outra coisa que Jae, pelo pouco que conseguiu enxergar, era um saquinho azul com uns desenhos infantis. Sem que o de cabelos tonalizados de esverdeado se dê-se conta, Jaebum levantou-se silenciosamente da cadeira e foi pé-ante-pé até ele e posicionou-se mesmo rente ao corpo do mesmo, contendo o riso.

– Está quase pronto! Só mais um pouquinho e… Prontinho, já está! – Virou o seu corpo e por um triz não virou as duas canecas também. – QUE SUSTO! – Bravejou e o moreno segurou na caneca que iria ser derrubada e riu alto com a cara assustada de Youngjae. – És parvo? Quase que entornava isto por cima de ti! Querias que te queimasse, é?

– Desculpa, Youngjaemmie. – Lamentou-se e encarou a caneca repleta de ursinhos e corações como padrão externo. – Marshmallows? – Fitou-o ridiculamente feliz. – Eu amo marshmallows.

– De verdade? Eu também. E fica muito bom no chocolate quente. – Certificou. Sorriu ao ouvir o ruído de aprovação por parte do mais velho, após este tragar um pouco do conteúdo a escaldar.

– Isto está ótimo. Tinhas razão quando disseste que fazias o melhor chocolate quente das redondezas. – Proferiu, degustando o sabor do chocolate.

– Eu sei disso. Vamos nos sentar? – Questionou, já fazendo o caminho até à mesinha de vidro.

– Não. – Deu um passo em frente e enlaçou o seu braço na cintura torneada dele, trazendo o seu corpo para trás e o do outro em conjunto. O mais alto ficara encostado na pia com Choi no seu braço esquerdo e o mesmo se contraiu com aquela proximidade descarada. – Fica aqui comigo. – Murmurou, descansando o seu queixo na curvatura do pescoço dele. Extremamente perto do ouvido do morador, mastigava vagarosamente um dos três marshmallows que tinham sido postos por Youngjae na bebida, germinando calafrios por todo o corpo do mesmo. Reprimindo uma resposta para aquilo tudo, o seu olhar focou-se no chocolate quente que tinha confecionado minutos antes. Enquanto isso, Jaebum certificava-se que provocava o outro com os seus barulhinhos lentos de mastigação. Sorte a de Youngjae que não tinha misofonia e aquilo não o irritava minimamente. Até muito pelo contrário.

Carinhos circulares eram realizados na sua barriga – Que infelizmente a camisola finíssima não impedia de sentir o toque quente de Im através dos seus dígitos. – e ele confinou-se a bebericar o chocolate. De momento, autoflagelava-se cerebralmente por o ter convidado para tomar a sua especialidade.

– Acho que está na hora de ires embora, hyung. Como disseste, amanhã tenho faculdade e eu tenho que acordar cedo. – Proclamou na tentativa de o persuadir a deixar a sua casa.

Hm. Mas já, dongsaeng? – Raspou a ponta do seu nariz no pescoço imaculado do declarador daquela ordem camuflada de afirmação.

– Sim, já. – Desemaranhou-se do braço forte dele e tirou a caneca de Jaebum da mão do mesmo e depositou-a na pia, junto com a sua. – Vá, adeusinho. Vai dormir. – O rapaz mais velho renunciou àquele conforto que era tê-lo nos seus braços e fora praticamente empurrado – Pelas costas. – dali para fora.

– Manda cumprimentos meus à Ayame. – Exprimiu-se, já fora da porta do hall.

– Sim, sim. Serão entregues. Se me dás licença… – Premeditava fechar a porta, mas de novo, outro acontecimento o incapacitou de o fazer. A mão de Jae agarrou virilmente no seu queixo e narrou as seguintes palavrinhas:

– Ah… Dorme bem, docinho. – Beijou o canto dos lábios de Young e velozmente deu de costas até ao elevador.

É. Ele iria dormir. Ou tentar fazê-lo.

 

*

 

Sexta-feira

O suposto era Youngjae ter-se enfiado na cama e ter adormecido logo. Mas não foi bem assim. Revirou-se dezenas de vezes na cama; Levantou-se três vezes durante a noite para ir brincar com a Ayame; Tentou ler um livro. Mas de nada adiantou. Foi uma típica noite de insónias. Encontrava-se no metro com a cabeça encostada no vidro, a tentar dormir. Com os earphones nos ouvidos, tentava deixar-se embalar ao som de uma nova música que tinha descoberto no Spotify. Na sua mente repetia as imagens de há meia hora e o ridículo que foi só para conseguir sair do prédio de forma a que o outro não o visse; Primeiramente, ao invés de ir pelo elevador, foi pelas escadas. Segundamente, aproveitou que ele estava de costas a organizar uns papéis e foi de gatas até à entrada do edifício. Bem caraterístico de Choi Youngjae. Abria e fechava os olhos de cinco em cinco e minutos para não correr o risco de acordar numa paragem desconhecida e chegar atrasado à aula de Geometria Descritiva A. Quase mais meia hora se passou e ele abandonou o transporte, correndo para a paragem do autocarro. – Que graças aos deuses ficava mesmo em frente à estação. Verificou o horário e faltavam apenas dois minutos para o transporte público dar as caras.

 

Começou a cantar a música que ouvia naquele exato momento em alto e bom som e não se preocupava uma décima com os olhares alheios e críticos.

Mama, just killed a man. Put a gun against his head, pulled my trigger now he’s dead… – Reproduzia as notas graves, as notas agudas, fazia tudo o que aquela música maravilhosa tinha. Tudo isso enquanto subia a escadaria interminável da faculdade e em direção ao segundo piso.

– Quase que te conseguia ouvir a cantar em minha casa. – Uma voz particularmente conhecida de Youngjae apanhou-o de surpresa.

– Credo, assustaste-me, Yugyeom!

– Minha culpa, minha culpa… Mas porque é que estás tão animado? – Questionou, e como já era um ato comum, entrelaçou o seu braço no pescoço dele.

– Animado?... Estou totalmente o oposto disso. – Suspirou e deitou a sua cabeça no ombro do melhor amigo, à medida que subiam as escadas.

– Oras, porquê? – Brincou com o lóbulo da orelha do mais velho e desviava-se dos outros estudantes.

– Foi uma longa noite…

– NÃO ME DIGAS QUE… – Travou os dois corpos e a sua boca estava mais aberta que uma porta de avião à espera dos passageiros.

– Que o quê? – Levou alguns segundos até Choi entender o que ele queria transmitir. – NÃO! Por quem me tomas? – Diminuiu o volume da sua voz, visto que, toda a gente os olhava.

– Tu de santo só tens a cara mesmo… Por isso, não sei não. – Assobiou, mirando o teto.

– Desde quando ficaste assim tão atrevido?

– Desde que me desvirtuaste antes de ontem à tarde. – Gargalhou ainda mais ao ver a sua cara de quase assassino.

– Realmente, tu hoje estás impossível. Eu pedi-te para me beijares e tu é que o fizeste. Eu só fiz o pedido. – Retorquiu rispidamente e continuou a andar, deixando Kim para trás.

– Ei, hyung. Não fiques chateado. – Alcançou-o pelo braço e abraçou-o sem de repente e rapidamente fora correspondido. – Eu estava a brincar contigo.

– Desculpa. Eu tive insónias e estou muito mal-humorado. – Respondeu abafadamente por conta do hoodie preto de Yugyeom contra a sua boca.

– Não faz mal. Agora temos que ir para a aula, mas depois contas-me tudo.

Youngjae assentiu e ambos deram uma corrida para não demorarem mais tempo, ainda por cima o professor da disciplina não perdoava atrasos.

 

Três horas de um inferno e tanto, e a aula de Geometria tinha sido dada como concluída. Toda a gente estava feliz, exceto Yugyeom que estava chocado e histérico com o que o Choi lhe contado, esquecendo por completo que estavam no seu intervalo de dez minutos.

– Puta que pariu, Youngjae. Ele quase que te beijou… Ai o espertinho… – Fez um ar pensativo e sorriu um tanto malévolo.

– Nossa senhora, Kim Yugyeom. Quem é que te anda a corromper desse jeito? Tu eras um amor de menino.

– Eu ainda sou um amor de menino, hyung. Olha! – Encheu as bochechinhas de ar e fez um rostinho insanamente fofo. – Youngjae sorriu e teve que concordar com as suas palavras. Apertou as suas bochechas gorduchas e um sorriso abriu-se no seu rosto quando um ruído adorável fora produzido pelo dongsaeng.

– Tu és um amor, todavia, continuas corrompido.

– E o Jaebum, ainda não te corrompeu?

– Outra vez isso? Não, não corrompeu nem vai corromper. – Declarou irredutivelmente.

– Veremos até quando. – O loiro piscou-lhe o olho e Youngjae revirou os olhos.

– Hoje queres ir lá a casa ver algum filme ou algo do género?

– Vais-me fazer chocolate quente com marshmallows também? – Atiçou-o mais ainda. Adorava vê-lo irritadinho.

– Porque raio é que eu ainda te conto as coisas?

– Porque não tens mais amigos e eu sou o melhor?

– Ui, claro que sim. – Replicou ironicamente. – Mas queres vir ou não?

– Sim. Pode ser. – Aceitou o convite e desbloqueou o telemóvel, sorrindo magicamente.

– Opa, o que é que tu viste aí? É a tal rapariga?

– Sim. Eu perguntei se ela gostava de sair amanhã e ela respondeu-me que sim.

– Yugyeom, o garanhão! – Expulsou uma gargalhada e o outro fez o mesmo. – Vá, vamos para a aula que a professora já vem ali ao fundo.  

 

– Não se esqueçam do trabalho que eu vos pedi para trazerem para a semana que vem! – Park Ji-Yoon, a professora de desenho, relembrou de novo aos alunos sobre o trabalho que tinha pedido e explicado no decorrer da aula. – Tenham um bom fim de semana! – Desejou aos alunos, enquanto arrumava os seus pertences na mala. Os mesmos desejaram um bom fim de semana e começaram a abandonar a sala enorme.

– Finalmente, sexta-feira! – Yugyeom esticou os braços em felicidade.

– A quem o dizes. Já não via a hora desta semana acabar. – Youngjae suspirou em alívio. – Vou chegar a casa, jogar-me no sofá e de lá não saio mais.

– Já sabes que filme vamos ver?

– Pulp Fiction? – Sugeriu Choi, enquanto deixava o estabelecimento escolar com os cadernos debaixo do braço, como sempre.

– Já vi esse umas três vezes…

– O peixe grande?

– Já vi e não gostei.

– Psycho?

– Nem pensar. Eu não gosto desse tipo de filmes.

– Até agora ou já viste, ou já viste e não gostaste, ou então não queres ver porque tens medo. Resolve isso porque eu quero ver um filme.

– Que culpa tenho? – Kim indagou inocentemente, agarrando na alça da sua mochila.

– JÁ SEI! – Declamou extasiado.

– O quê?

– Vamos ver o Frida! Adoro esse filme e é dos meus favoritos. – Afirmou contentíssimo e sentou-se num dos bancos da estação.

– Sim, pode ser. Já ouvi falar mas nunca tive oportunidade de ver… – Anuiu com a cabeça. – Já sabes o que é que vais desenhar para o trabalho?

– Não faço a mínima ideia. “Desenhem de forma abstrata, algo ou alguém que vos represente.” – Youngjae citou as palavras da professora e fez uma feição reflexiva.

– Acho que tenha uma ideia do que vou fazer mas ainda não sei se vou com isso avante. – Admitiu, olhando para a linha de cima, de onde vinha o metro que eles pretendiam.

– E o que é que é isso?

– Surpresinha…

– Agora até fiquei com medo. – Riu baixinho e gritou “Heureca” quando avistou o metro.

– Não é nada que meta medo. Não te preocupes. – As portas do transporte abriram-se e estes deixaram entrar primeiro quem já se encontrava lá à espera há mais tempo.

– Juro que não faço ideia do que vou desenhar… – Exclamou. No lugar onde se pretendia sentar, Yugyeom sentou-se primeiro e Youngjae só para não deixar barato, sentou-se no colo dele.

Hyung, o que é que tu estás a fazer? – Perguntou com os lábios soabertos, espantado com aquela atitude inesperada.

– Quem é que te mandou roubar o lugar para onde eu ia? – Focalizou o seu olhar no dele e aproximou a sua boca do ouvido dele. – Agora vais aguentar comigo até a casa… E toda a gente vai pensar que somos namoradinhos… – Sussurrou, controlando-se para não cair na risada ao ver a face dele a ficar branca como cal.

Yugyeom centrou-se no seu aparelho eletrónico, tentando abstrair-se das provocações visíveis por parte do seu melhor amigo, tais como: Chamá-lo de “amorzinho”, pendurar-se no seu pescoço enquanto esfregava os seus cabelos na sua bochecha, ou então beijava-lhe a sua têmpora ao mesmo tempo que fazia carinhos na sua nuca.

– Importaste de parar com isso, Choi Youngjae?

– Com o quê, amor?

– Se eu não soubesse que gostas do Jaebum, até acreditava que gostavas de mim e que querias o meu corpo nu… – Entrou também no jogo de provocações dele.

– Eu não gosto do Jaebum. E o teu corpo nu? Um bocadinho de por favor. – Respondeu sarcasticamente.

– É que estás a roçar-te todo em mim, só me dás motivos para acreditar nisso…

– Eu não vou sair daqui só para te fazer a vontadinha. Nunca. – Sorriu vitoriosamente e voltou a cantar muito baixinho a Bohemian Rhapsody.  

Como habitual, quase cinquenta minutos de viagem se passaram e agora eles corriam pelo passeio como verdadeiras criancinhas. Na verdade, Yugyeom fugia de Youngjae que o perseguia como se não houvesse amanhã.

– Agora percebo porque é que nunca ponderaste ir para a faculdade de desporto. – Clamou, arfante. – Não corres nada! – Gargalhou o máximo que conseguia, já que correr lhe retirava uma grande parte do ar.

– Ai, Kim Yugyeom, quando eu te apanhar tu vais ver! – Sempre que apressava o passo, parecia que o outro aumentava o triplo da velocidade.

– Boa sorte com isso! – Vociferada aquela instigação, vislumbrou a porta do prédio de Youngjae e não pensou duas vezes e correu lá para dentro. Nem se deu ao trabalho de ver se se encontrava lá alguém, simplesmente colocou as mãos no joelho e tentou buscar todo o ar que lhe faltava.

– APANHEI-TE! – A voz de Choi soou e numa fração de segundos Yugyeom sentiu um peso sobre as suas costas.

– Credo, Youngjae. Sai de cima de mim antes que eu morra aqui mesmo.

– Estás-me a chamar de gordo? – Interrogou horrorizado com aquilo que tinha acabado de ouvir e saltou das costas do loiro. – Escuta aqui, tomara tu teres este… – Foi travando as palavras quando se deu conta que os olhares de duas pessoas incidiam sobre ele e Yug. O de Jaebum e o do homem do outro dia. O moreno fuzilou-o com desprezo e voltou o seu olhar para aquele que estava perante si. Indignado com aquele ato de quem ontem quase o beijava, virou o rosto e jornadeou até ao elevador, e o seu amigo fez o mesmo.

– É preciso ser-se muito descarado. – Foi a primeira coisa que declarou quando as portas do elevador se fecharam. – Ontem quase que me beijava e agora está ali OUTRA VEZ – Reforçou o “outra vez”. – com aquela lagartixa e despreza-me. Ainda dizes tu que ele gosta de mim? Nem em sonhos. O que ele quer é usar-me e deitar fora. Mas ele está muito enganado se pensa que eu vou permitir uma coisa dessas. É mesmo um otário e não…

– Youngjae, acalma-te, por favor. É óbvio que ele estava com ciúmes.

– Ciúmes do quê? Não inventes. – Replicou, saindo do elevador quando chegou ao quinto andar.

– Ciúmes de te ver comigo. És mesmo cego. Ele é daqueles que ignora uma pessoa quando tem ciúmes. Só o conheci anteontem e já percebi isso.

– Claro que é isso. – Explanou, ironicamente. Por outro lado, Kim encolheu os ombros e fechou a porta atrás de si.

– Por isso é que quiseste ver aquele filme não foi? Sabias que eu ia chorar. – Yugyeom secou as suas próprias lágrimas, saindo do elevador.

– Claramente. Adoro ver como és uma florzinha de estufa. – Deu-lhe um cachaço na nuca e este retraiu-se. De relance viu o porteiro focado em qualquer coisa, mas não fez caso e foi acompanhar o mais novo até à porta do prédio.

– Quê? Que florzinha de estufa? Não sou florzinha de estufa… Já tu… Não se pode dizer o mesmo.

– Mau, já estivemos a falar melhor!

– Foste tu quem começaste, sua lontra. – Yugyeom esquivou-se de um futuro beliscão e riu.

– Estás a chamar lontra a quem, seu elefante?

– Chega! Quero manter a minha postura de universitário de vinte anos. Estar neste bate-boca não me favorece nada. – Informou, recompondo-se num instante. O mais baixo encarou-o com um ar de desacreditado. Abraçaram-se e despediram-se, mas não sem antes Youngjae lhe desejar boa sorte para o dia seguinte com a rapariga com que Yugyeom iria sair. Voltou a entrar no prédio e estranhou que o moreno não estivesse na portaria, sendo que estava lá minutos antes. Seguiu o seu percurso até ao elevador e premiu o número cinco. Viu a contagem crescente a esvoaçar enquanto o diabo esfregava um olho e adentrou em sua casa, já que tinha deixado a porta encostada. Fechou a porta e quando rodou sobre os seus calcanhares apanhou outro grande susto naquela semana.

– O que é que tu estás aqui… – Por muito que quisesse, não conseguiu formalizar a sua questão. O seu corpo fora puxado pelo pulso, como se fosse uma criança que não queria ir embora da loja, e fora empurrado contra a parede mais próxima. – Olha lá, mas o que é que pensas que… – O outro calou-o com um estalo dado fracamente, somente para ele parar de tagarelar.

– Tu gostas de brincar comigo, não gostas? Deves ter-te divertido imenso esta semana. Riste-te muito às minhas custas, hun? – Interpelou friamente, com os seus olhos numa cor de grãos-de-café incididos nos de Choi.

– Eu ou tu? Tu é que me dizes aquelas coisas. Quase que me beijas e depois andas nas conversinhas com outros bem na minha frente! – Cruzou os seus braços e cravou o seu olhar no do outro, sem se deixar intimidar pela diferença de alturas. Os braços de Jaebum estavam de cada lado da cabeça do mais baixo, com as mãos repousadas na parede branca.

– Quem é que anda a trazer amiguinhos para a sua casa? Não sou eu, com certeza.

– Pois não, tu nem esperas para chegar a tua casa. É logo ali na portaria para toda a gente ver. Já pensaste em cobrar dinheiro a quem passa e vê tu aos sorrisinhos com aquela lagartixa? Ias fazer imenso dinheiro.

– Estás a falar do Jinyoung? – Desprendeu uma risadinha nasalada, e flexionou o sobreolho.

Own, que fofinhos. “O Jinyoung.” – Imitou a sua voz, imensamente irritado. – Sabes o que é que tu és? Sabes? Um porteiro de meia tigela. É isso que tu és. Agora sai daqui, sua lagartixa versão um. – Deslizou o seu corpo e escapuliu por entre o vácuo dos braços dele.

– Porteiro de meia tigela? Lagartixa versão um? – Entreluziu um sorriso galhofeiro e volveu-se para a trás, a ponto de o ver com um rosto de quem não estava para brincadeiras. Tão lindo.

– Sim. Agora sai daqui para fora, sua ratazana de esgoto. Estúpido. Idiota. Pascácio. Otário. Lorpa. – Ele iria continuar a rever o seu vocabulário mental com os nomes mais ofensivos para lhe chamar, contudo, os seus olhos arregalaram-se quando as mãos geladas de Jaebum agarraram as suas maçãs-do-rosto, a ponto de o deixar a parecer um peixe-balão.

– Ficas tão bonitinho desse jeito. – Asseverou, e o seu hálito a com aroma a mirtilo chegou, rapidamente, às narinas de Youngjae, comprovando aquela proximidade infernal.

– Larga-me, seu ogre. – Na tentativa falha de se desenvencilhar daquelas mãos, Im roçou os seus lábios carnudos nos do seu dongsaeng. O de cabelos acinzentados segurou carinhosamente nos pulsos daquele que quase espremia as suas bochechas.

– J-Jaebum… – Expeliu num murmúrio ingênuo, mas que para o mencionado no arfar, entendeu aquilo de uma forma demasiado sensual.

– Não faças isso… – Mordiscou o lábio inferior dele. A resposta que ele imaginara fora muito melhor, Youngjae tivera a iniciativa de o beijar muito calmamente. Por vezes sugava a sua língua e lambia o lábio dele, e noutras vezes ouvia-se o som da saliva na boca de ambos.

Era a vez do inquilino de o afastar e o puxar bruscamente. Arremessou-o contra o sofá, e esse sustentou o seu peso nos seus cotovelos, sorrindo ladino.

– Sabes… Eu é que posso reclamar… Tu vens-me provocando há meio ano e agora decidiste em dar uma de macho alfa… – Informou, pausadamente, sentando-se com as pernas de cada lado da cintura dele.

– Pelos vistos está a dar resultado… – Constatou e depositou as suas mãos nas coxas dele, cobertas pelas skinny jeans brancas.

Shiu, está caladinho. – Ordenou e o mesmo obedeceu. – Hoje, eu descobri uma música e acho que a devias ouvir. – Com aquela ideia fisgada, rebolou propositadamente só para retirar o telemóvel do bolso das calças. Observou-o e este mastigava o lábio levemente. Desbloqueou o lockscreen e foi até à sua playlist, reproduzindo a música I Love Your Crazy da artista Jasmine V, e logo atirou o aparelho para cima dos seus cadernos de desenho em cima da mesa.

A batida calma e lenta soou e ele não perdeu e rebolou mais uma vez o seu corpo na região pélvica do que estava deitado.

You woke up in daze I’m still amazed by how fast you changed. Can’t it be the other you’s gone away?

Começou a levantar a costura da sua camisola vagarosamente e o outro grunhiu frustrado pela sua demora. Balançou os seus cabelos quando a camisola já se encontrava num canto qualquer da sala e o outro quase que o devorava com o olhar.

I know no one is perfect, perfect’s impossible. Baby I’m not tryna seem impossible, I just need satisfaction.

Desabotoou as suas calças justas e foi preciso sair do colo de Jaebum, todavia, não demorara muito tempo para se sentar. Naquela altura, o submisso humedeceu os lábios com a visão maravilhosa dos boxers pretos a marcarem loucamente as coxas do mais novo. Acercou-se do ouvido dele e cantou o trecho seguinte da música:

I think you’re worth it. You think I’m worth it? – Segredou o mais arrastado que conseguia e o outro gemeu inaudivelmente. – Hyung, estás com tanta roupa… – Fez uma carinha de cachorrinho abandonado e levou as suas mãos ao seu hoodie vermelho e Jaebum arqueou as suas costas para o ajudar a retirar aquela maldita peça de roupa. As mãozinhas de Choi tatearam o abdómen notoriamente trabalhado do porteiro, por sua vez, a ponta dos dedos do moreno deslizavam pela espinha dorsal do outro, causando-lhe arrepios.

Monday you’re mad. Tuesday you’re sad. Wednesday you’re perfect. Thursday you’re bad

– Y-Youngjaemmie… – Gemeu sofregamente.

– Eu disse para estares calado e é isso que vais fazer. – Começou a massagear o membro do outro por cima das calças, e Im, deleitado em prazer, puxou-lhe os cabelos para descontar essa onda prazerosa que se apoderava dele. – Personality changing like crazy. Friday you’re crazy… – Cantarolou contra os seus lábios, desapertando-lhe as calças. Desceu-as sem pressa alguma e trincou o interior da sua bochecha ao ver os seus boxers azuis tão, ou mais apertados do que os dele.

D-Dongsaeng… Estás a ser muito m-malvado comigo…

– Será que também não o foste durante meses para comigo? Hun? –  Sem que o outro esperasse por aquilo, retirou-lhe o traje íntimo que restava. – Tu és tão lindinho, Jaebummie hyung… Pena teres-me atiçado durante este tempo todo… Realmente uma pena… – A sua mãozinha pequena agarrou no seu membro com firmeza, mexendo a sua mão esporadicamente.

– Y-Youngjae… ​P-Porra, não me tortures… – Pedinchou, com os olhos cerrados.

– Quem diria que há pouco parecias um verdadeiro macho man… Atiraste-me contra a parede e tudo. Bem agressivo… – Os seus movimentos foram aumentando progressivamente, mas não até ao ponto de o fazer sentir prazer extremo.

– P-Por favor, d-dongsaeng

– Por favor o quê? – Questionou, dando um apertão na sua glande latejante.

– Caralho, Youngjae… Cai logo de boca… – Murmurou num gemido desesperado e a sua boca entreabriu-se ao sentir a cavidade bucal quente e macia do outro no seu membro. E a maior loucura não foi essa, mas sim quando ele começou a cantar contra o seu falo a tal música que estava no modo loop, proporcionando-lhe uma vibração estupidamente deliciosa. Sem controle das suas ações, a sua mão forçou a cabeça do outro, para que esse acelerasse os movimentos e ele assim o fez durante mais uns minutos.

– B-Babyboo… – Alcunhou-o de uma maneira fofa e Youngjae logo o olhou com um sorriso. – Estou q-quase lá… – Dito isso, o outro fechou os olhos e aligeirou-se no que fazia e não tardou nada para que ele sentisse a sua boca com o sêmen suave do seu hyung e engoliu aquela textura, talvez agradecendo por Jae levar uma vida alimentar saudável, não tendo que engolir um gosto horrível. Quando afastou os seus lábios do pénis dele, um ‘pop’ fora escutado e Choi limpou os resquícios no canto dos seus lábios, sem nunca quebrar o contato visual com o outro. Deixou o sofá e caminhou até à mesa, e o outro olhava-o confuso. Abriu uma das gavetas da mesa e de lá colheu um pacotinho prateado. De volta ao colo do outro, proferiu:

– Abre-o. – Pôs o pacotinho na frente dos dentes de Jaebum e ele fê-lo sem hesitar. Com toda uma técnica que nem o mais velho possuía, ele esticou o preservativo e inseriu-o no membro rijo do dito cujo. Espalmou as suas mãos no peito definido do mais alto. Jaebum segurou no seu falo e Young, com o maior dos cuidados, foi descendo o seu corpo e mordeu os lábios daquele que estava debaixo do seu corpo ardente.

– Estás bem, babyboo? – Inquiriu preocupado, e acarinhou o seu ombro ao ver os olhinhos do seu amor marejados.

Hm hm. Isto já passa… – Beijou os lábios macios dele para se distrair da dor.

Levou pelo menos dez minutos para que ele se acostumasse razoavelmente ao mal-estar inicial. Cavalgou duas vezes, muito devagarinho e grunhiu de dor.

– Q-Queres parar?

– Não vou parar na melhor parte.

Im corou e auxiliou-o nos movimentos que se tornavam mais fáceis do que inicialmente. Apertava e esbofeteava as nádegas fartas de Youngjae só para ouvir os gemidinhos dele e para que este se apressasse ainda mais no que fazia.

– Tu és tão gostoso, Youngjaemmie. – Soluçou e afincou os seus dedos na cintura dele.

– E-Eu sou? – Cavalgou muito mais, sentindo as gotículas de suor a escorrer por todo o seu corpo. Aumentava as cavalgadas e diminuías, só para ter o prazer de o ver a revirar ao olhos. – T-Tu estás a g-gostar, Jae? – Perguntou ofegante.

– S-Sim. Tu és b-bom demais...

Youngjae começava a fraquejar devido ao seu cansaço e por estar prestes a atingir o seu auge.

– Jaebummie, eu não aguento… – O seu hyung gemeu demasiado alto, chegando ao seu clímax, só que Choi continuou durante mais uns minutos, até que alcançou o seu orgasmo e caiu exausto sobre o corpo transpirado e prontamente fora abraçado.

– I think actually I love your crazy… – Arrematou o final do refrão da música, regulando a sua respiração.

– Tenho sono, Youngjaemmie… – Murmurejou contra os cabelos dele.

– Então dorme, hyung. – Gargalhou, aconchegando-se mais nos seus braços.

– Não te importas?

– Não. – Confirmou e puxou a manta que ficava no braço do sofá. Desdobrou-a e ajeitou-a para que cobrisse ambos os corpos sujeitos ao frio.

– Fazes carinho no meu cabelo? Por favor? – Fez um biquinho desnecessário, já que Youngjae aceitaria de caras.

– Faço sim, honeybun. – Pousou a sua mão nos cabelos negros de Jaebum e começou a fazer um cafuné lento, de modo a que ele adormecesse. Quando isso aconteceu, e o viu ali vulnerável e frágil, com a sua respiração serena e adormecido, não só percebeu que não estava ninguém na portaria, que ao vizinhos deviam ter ouvido tudo, mas mais importante, que talvez ele já tenha encontrado alguém que o represente, para desenhar de forma abstrata o trabalho de desenho que ele tinha que entregar.


Notas Finais




Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...