História La Camarera - Capítulo 3


Escrita por: ~

Postado
Categorias Once Upon a Time
Personagens August Wayne Booth (Pinóquio), Capitão Killian "Gancho" Jones, Daniel, David Nolan (Príncipe Encantado), Dr. Archie Hopper (Jiminy Cricket), Dr. Whale (Dr. Victor Frankenstein), Elsa, Emma Swan, Ingrid / Rainha da Neve / Sarah Fisher, Lilith "Lily" Page, Mérida, Personagens Originais, Regina Mills (Rainha Malvada), Robin Hood, Ruby (Chapeuzinho Vermelho), Sidney Glass, Sr. Gold (Rumplestiltskin), Will Scarlet, Zelena (Bruxa Má do Oeste)
Visualizações 360
Palavras 5.293
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Orange, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yuri
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Amorinhos, cá estou com o terceiro capítulo da fic.
Lembrando que as músicas citadas não só nessa, como em todas as fics que escrevo, estão na playlist do Spotify que criei.
Espero que curtam essa interação entre a latina e a loira. ❤
Beijos, bom fim de semana e boa leitura

Capítulo 3 - Retribuindo um gesto de gentileza


Fanfic / Fanfiction La Camarera - Capítulo 3 - Retribuindo um gesto de gentileza

A idéia de que o álcool permite esquecer nossas tristezas não passa de um mito popular a mais, exatamente como aquele que sustenta que beber ajuda a combater o frio, quando é bem o contrário: beber provoca a enganosa sensação de calor devido a vasodilatação cutânea que implica, lógico, perda de calor corporal. Tal como é a sensação enganosa da falta de memória, já que as bebidas não são nenhum amnésico. Melhor efeito teria se fosse pedido para que alguém lhe desse uma paulada na cabeça. 

O álcool reduz nossa capacidade consciente para recordar informações como o nome de um amigo, a definição de uma palavra ou onde estacionamos o carro; mas nosso subconsciente aprende e recorda de exatamente tudo, basta um gatilho para acioná-lo.

Swan entregou-se à merecida esbórnia depois de tudo o que passou nos últimos dias. Após as várias cervejas, pediu duas cubas e um hi-fi - até onde ainda estava, de certa forma, sóbria. Depois de um dado momento, tudo ficou escuro e frio demais para que ela se lembrasse de qualquer coisa à não ser das doses lhe sendo servidas. 

Quase doze horas depois... A tela preta se dissolveu. A loira abriu os olhos com demasiada dificuldade, atentando para o fato de ter uma dor imensa no lugar em que ficava a sua cabeça. Ela fechava e abria os olhos diversas vezes para acostumar-se com a claridade, apesar da janela de sua sala estar permanecer com as cortinas cerradas.

Emma ajeitou o corpo como podia no sofá, sentindo certo incômodo dolorido em suas juntas. Em uma tentativa inútil de voltar a dormir, ela puxou o casaco que estava jogado no chão àbaixo de si, cobrindo suas pernas, mas a cola em sua boca não deixava o sono retornar.

- Porra! - Swan lembrou-se vagamente de duas situações que poderiam ou não ter acontecido na noite anterior, e ambas a deixaram completamente consternada e envergonhada - Ao menos estou em casa. Mas, espera! Como foi que eu cheguei aqui? - Um bocejo a fez lembrar-se da enxaqueca que sentia, o que de certa forma a estimulou a levantar e buscar por um analgésico. 

Era óbvio que a mulher sofria de uma amnésia alcólica parcial. Ela conseguiu conversar perfeitamente e agir normalmente durante o período em que esteve alcoolizada, mas depois de um certo tempo, seu cérebro simplesmente deu pane geral. Fatos ocorridos nesse período, nomes de pessoas, partes de conversas sumiram da sua memória, o que talvez fosse melhor, diante do constrangimento que viria com a lembrança. O ruim era saber que uma hora ou outra tudo ficaria esclarecido. 

De cenho franzido, a loira esforçou-se na procura por um medicamento que amenizasse aqueles sintomas tão incômodos. Ela dava passo por passo bem lentamente, segurando a cabeça com ambas as mãos como se a atitude fosse livrá-la do latejar. Ledo engano! O problema todo não estava em caminhar, e sim, em respirar, em estar viva. 

Com muita dificuldade, Swan conseguiu chegar até o banheiro, onde abriu o armário abarrotado de remédios, tentando enxergar um frasco de analgésico. Ali encontrou antitérmicos, antiespasmódicos, relaxantes musculares, uma infinidade de compostos medicamentosos, inclusive ansiolíticos. Mas a droga do analgésico estava ao fundo, dificultando ainda mais a sua vida. A mulher jogou tudo na bancada da pia, finalmente encontrando a embalagem que necessitava. Tomou dois comprimidos de uma vez, com a água da torneira mesmo, passando a observar a bagunça que havia feito em seguida.

"Será que sou hipocondríaca?"

Sim, Emma apresentava quase todos os sinais de que tinha essa doença psiquiátrica, ou talvez tudo o que fazia não era nada mais, nada menos, que o resultado de horas e horas na frente da televisão vendo seriados médicos. 

Para ela, ter uma dor de cabeça era sinal de tumor cerebral, da mesma forma que ter dor de pescoço era meningite. Dores nos ombros ou braços era sinal de ataque cardíaco e dor de costas poderia muito bem ser cancro nas vértebras ou, se for mais em baixo, insuficiência renal. A loira já tinha partido costelas, pernas, dedos e não se queixava, tinha até certa tolerância à dor, mas bastava sentir umas pontadas do lado direito do baixo ventre e pensava logo que era a apendicite que já infectou e seu fim estava próximo: o falecimento. Depois, afinal, eram gases. O cérebro de um hipocondríaco, tal como o de Swan, era uma espécie de batalha campal entre um médico e uma mãe galinha que acha que qualquer espirro é sinal de gripe suína. 

O gosto amargo da ressaca ainda estava ali, fazendo-a quase arrepender-se do que tinha feito. Aproveitando que já estava no banheiro, tirou suas roupas à fim de tomar um banho e quem sabe conseguir livrar-se daquela sensação ruim. Se de tudo não desse certo, ao menos conseguiria melhorar a sua aparência, o seu estado deplorável. 

Enquanto a água caía, Emma pensava de modo à consolar-se, afinal, se existe uma premissa universal sobre lazer, diversão e farra neste planeta atulhado de gente, ela é alcoólica. Não importa em que cenário, com qual ensejo ou trilha sonora sacudam-se os esqueletos, o fato é que a maioria das pessoas já cometeu esse erro, muito mais que uma única vez. Aliás, ela bem conhecia à fundo uma meia dúzia que pecava alcoolicamente todos os fins de semana, arrependia-se, jurava de pés juntos nunca mais embebedar-se, mas na primeira oportunidade…vlau! Ressaquiados outra vez! 

Por sorte a loira não tinha vomitado. Do estômago, eram só mesmo a ânsia e a azia que lhe incomodavam, e a água quente - como supôs - auxiliou com o mal estar. 

Terminado o banho, Swan não esforçou-se mais do que enrolar seu corpo em uma toalha e seguir para a sala novamente. Mal havia posto os pés no cômodo, quando ouviu seu celular tocando Shape Of You - música que até então ela adorava, mas que passou a abominar por notar o quão enjoativa era. Sincronizadamente, seu telefone fixo também deu o sinal de chamada, fazendo-a bufar.

- Eu tinha que me tornar tão requisitada justo hoje? Uni-duni-tê! - A mulher apontava para os aparelhos que estavam em locais distintos, alternadamente, optando pelo celular. 

Assim que aproximou-se da mesa, ergueu o sobrolho esquerdo em surpresa e um tanto quanto em desconfiança, bem como franziu o cenho. Ao lado do telefone estava a chave do seu carro, uma cartela de analgésico e um pedaço de papel dobrado escrito "Para Emma" na frente. A loira ficou tão envolta em sua curiosidade sobre o que era aquilo, que acabou atendendo a chamada sem reparar em quem ligava.

- Oi.

- Emma Marie Nolan Swan, onde diabos você está? - Assim que ouviu seu nome completo ser proferido raivosamente por sua progenitora, Emma afastou o aparelho do ouvido, massageando sua fonte com a mão livre.

- Bom dia para você também, mãe! Como você está? Meu pai? Meu irmão? Eu estou em casa.

- Mas que…que voz é essa, minha filha? E por que deu para mentir agora? 

- Mentir? Não estou mentindo. 

- Então atenda o telefone fixo.

- Se prometer parar de se exaltar…

- Emma! 

- Ok! - A mulher foi se arrastando até onde estava o aparelho, atendendo-o - Satisfeita?

- E onde esteve até agora? Estamos todos te ligando desesperados desde ontem. - A mulher do outro lado da linha parecia deveras nervosa.

- Dormindo, mãe.

- Em qual lugar? Porque ligamos para a portaria e nos disseram que você havia saído de casa. 

- Está falando sério? Qual é o motivo desse desespero todo para me encontrar? Saí, fui comprar comida e bebida, voltei, tomei um remédio para dormir e apaguei. Até onde sei, nada disso é crime e, mesmo se fosse, sou maior de idade e consigo lidar com as consequências dos meus atos. 

- Por que será que eu não acredito? 

- Porque você às vezes é uma pessoa extremamente paranóica. 

- Paranóica, minha filha? Meu coração está despedaçado pensando que algo ruim poderia ter acontecido contigo. Um policial nos ligou ontem, tarde da noite, nos informando sobre o que aconteceu com Killian e dizendo que havia falado contigo. Quando ele comentou que você não tinha chegado no hospital ainda, nossa…Por pouco não permitimos que a polícia fosse atrás de você.

- Que exagero, mãe! Quanto drama! - Swan bufava alto.

- Vai me contar a verdade? Por que não foi ver o Killian?

- Por que eu deveria ir? Quer saber mesmo a verdade, mamãe? - A loira retornou para onde estava o bilhete, tomando-o na destra e indo sentar-se no sofá - Eu não fui e nem vou à hospital algum ver aquele traste. Ele não pensou nem um pouco nos meus sentimentos quando me deixou plantada na porta daquela igreja. Em todos os dias depois disso eu lamentei por ainda estar viva. Por que merda ele resolveu vir atrás de mim? Para terminar o que começou, a minha destruição? Não tenho culpa alguma sobre o que aconteceu, nem responsabilidade, nem obrigação, nada! Estava preocupada comigo? Pois eu estou…bem. Agora, se está me ligando para comentar qualquer coisa que seja sobre esse homem, sinto muito, mas não estou à fim de ouvir. Eu tenho que desligar agora.

- Não! Emma! Filha, espera… - A loira ouviu o apelo da mãe antes de encerrar a chamada abruptamente, meneando a cabeça negativamente. 

Sentindo o latejar novamente em sua cabeça, Swan deixou o seu corpo refestelar-se no sofá ao passo em que cobria os olhos com o braço esquerdo. Após alguns minutos imóvel, em silêncio absoluto, é que a loira recordou-se do papel que segurava na mão esquerda. Suspirando, pôs-se novamente sentada, abrindo o bilhete e lendo as palavras escritas em uma letra torta, disforme, mas até bem caprichada.

"Não sei se você irá se lembrar do que aconteceu, mas espero que sim e que não se chateie comigo. Como percebi que não tinha a mínima condição de conduzir um veículo, te acompanhei de táxi até a sua casa. Juro que está tudo em seu devido lugar, não mexi em nada. Só fiz questão de te deixar em segurança. Sou mulher também e sei o quanto as ruas podem ser perigosas, ainda mais quando o álcool nos deixa mais vulneráveis do que normalmente somos. Bom, a chave do seu carro está aí e tomei a liberdade de deixar alguns analgésicos. Pela quantidade de cervejas e doses que consumiu, acredito que irá precisar. Espero que a sua ressaca não seja tão ruim. Fique bem. Regina. P.s.: A bartender do Roni's, onde você tomou o porre."

Swan não podia acreditar que uma desconhecida tinha feito aquilo. Instintivamente, ela voltou a sua atenção em direção à chave disposta sobre a mesa, em seguida, circundou o ambiente com o olhar. Aparentemente tudo estava em ordem, fora sua própria bagunça. Talvez o que aconteceu nem tenha sido grande coisa para alguns, mas diante de um mundo onde a competição e a ganância deixam as pessoas agressivas, aquele gesto de compaixão poderia ser equiparado à uma arte esquecida nos tempos longínquos e que não se aplicava aos modernos, onde esquecemos de reparar nas dificuldades das pessoas que estão em volta e jogamos a culpa na correria da vida, nos olhos que às vezes estão embaçados pelos nossos problemas e impedem de ver um gesto de gentileza a três metros da gente. 

A loira sorriu passando o indicador direito sobre o papel. Naquele instante ela esqueceu do seu mal estar e esticou o braço para pegar o notebook que se emcontrava no móvel à sua esquerda. Emma precisava retribuir, precisava dizer ao menos um "muito obrigada" para aquela mulher desconhecida. Precisava agradecer por ter sido "salva" quando nem sabia que estava em perigo. Ela digitou o nome do bar no site de busca. Não teve dificuldades em encontrar o número de telefone, por sorte. Swan tentou a chamada uma, duas, três, dez vezes e nada. Foi quando atentou para o fato de que ainda eram 15:00 e provavelmente o lugar não estava funcionando ainda. 

"Sou mesmo uma idiota! Com certeza está fechado. Bom, como terei que ir até lá buscar o meu carro de qualquer jeito, então, aproveito e falo com ela. Mas preciso melhorar minha enxaqueca primeiro."

Pensando assim, a loira esforçou-se um pouco mais dirigindo-se até a cozinha. Ali, esquentou água e preparou uma sopa instantânea. Um alimento salgado daria um sustento maior para o seu corpo reagir ao medicamento e à hidratação que estava fazendo. 

Ainda no intuito de se curar da ressaca, Emma foi até a sua biblioteca particular, escolheu um livro aleatório, e caminhou lentamente até o seu quarto. Recostada na cabeceira da cama, passou a folhear a obra, parando em uma parte o qual lhe chamou a atenção.

"Existirá um dia em que você encontrará uma pessoa deveras especial, completamente diferente do resto do mundo e ambos sentirão uma conexão inegável. Essa pessoa vai olhar para ti e enxergar a sua alma; irá ver quem você realmente é, e não a versão falsa de si mesma que demonstra para os outros. Ela gostará dos seus defeitos, das suas falhas e dos seus costumes. Te aceitará justamente por isso. Essa pessoa te fará querer dormir para sonhar, ao mesmo tempo em que te fará ficar ansiosa para acordar porque ela estará ao seu lado, velando o seu sono. E vai ser lindo quando essa pessoa sorrir ao te ver acordando com os cabelos desgrenhados, o rosto sem maquiagem, os dentes não escovados e mesmo assim fazer questão de dizer o quanto te acha bonita. Ela vai querer te conhecer no momento em que ninguém estiver olhando, que é quando nos libertamos das amarras da normalidade. Vai querer se inteirar de toda a sua vida, dos seus costumes, vai ansiar por te conhecer por dentro e por fora, de uma forma que nem você se conhece ainda. E juntas, aprenderão uma com a outra, melhorando enquanto seres humanos. Vocês irão compartilhar conversas até tarde da noite e aproveitar da companhia uma da outra. Irão compartilhar as suas inseguranças, os seus sonhos. Essa pessoa vai saber que você não é perfeita. Ela vai te ver cometer erros, e vai te perdoar por eles, e vai te amar ainda mais quando precisar de colo. Com isso, ambas irão aprender sobre o passado da outra, suas falhas e, através da sua aceitação, você aprenderá a perdoar a si mesma. Existirá um dia em que você vai encontrar uma pessoa que enxergará um futuro em seus olhos e fará você esquecer todo o passado vivido. E assim, aprenderá que nem todos vão embora quando começam a se aproximar, porque essa pessoa atravessará suas paredes e você vai ficar vulnerável, mas pela primeira vez, isso não vai assustá-la, pois terá alguém segurando a sua mão. Os problemas dessa pessoa se tornarão seus, e você fará qualquer coisa para encontrar uma solução. A felicidade dela será a sua porque ela se tornará a culpada pelo sorriso em seu rosto. Existirá um dia em que você vai olhar para essa pessoa e se perguntar como viveu até aqui sem ela, porque é como se você se sentisse inteiro pela primeira vez. Talvez ninguém irá entender, mas você olhará para essa pessoa como se tivesse esperado a sua vida inteira para conhecê-la."

Ao terminar a leitura do trecho, a loira apenas fechou o livro, largou-o sobre o colchão ao seu lado, limpou as lágrimas que nem sentiu quando escorreram pelo seu rosto e deitou encolhida debaixo do edredom. Ela não queria mais chorar, não queria mais sofrer. A única coisa que queria era que a sua pequena amnésia alcoólica se estendesse para o seu passado. Emma adoraria esquecer tudo o que vivenciou para poder recomeçar do zero. Mas sabendo que isso seria impossível, restou à mulher fechar os olhos e deixar-se embalar por um sono revigorante. 

19:00. O despertar deu-se abruptamente. A loira acordou assustada, afoita, tendo a sensação de que ouvira algum barulho, mas não passava de fruto da sua imaginação, dos seus sonhos. Ao olhar pela janela, viu que o sol já tinha se posto e a noite se fazia iluminada pelas estrelas espalhadas no céu.

"Eu tenho que ir buscar o meu carro e falar com Regina."

Preguiçosamente Swan levantou-se, indo até o guarda-roupa escolher algo para vestir. Não era nenhuma ocasião especial, passava longe disso, mas deveria ao menos parecer decente para tentar tirar uma possível má impressão que deixou por conta da noite anterior.

Usando jeans, camiseta e jaqueta, cabelos soltos com os cachos jogados aos ombros, a mulher seguiu rumo ao Brooklyn. Tão logo o táxi estacionou em frente ao Roni's e ela pôde descer do veículo, verificou que seu carro estava intacto. Aliviada, caminhou para dentro do estabelecimento, encontrando-o vazio, sem nenhum cliente.

Afoita, dirigiu-se até o balcão principal, onde uma ruiva vistosa, organizava alguns copos.

- Com licença. Hã…desculpa incomodar, mas é que estou procurando uma pessoa que trabalha aqui.

- Me desculpe você, mas hoje não abriremos ao público. Não viu o cartaz lá fora?

- Na verdade não reparei, mas é que…bem, eu só queria trocar algumas palavras com essa pessoa.

- Quem? 

- Regina. Adoraria poder falar com ela um minuto apenas. Posso?

- A Regis não chegou ainda. Parece que ela trabalhou até muito tarde ontem e nosso chefe teve um falecimento na família, por isso não abriremos. Na verdade, eu nem tenho certeza se ela vem, já que vamos fazer somente um balancete do estoque. Não é necessário muita gente para isso.

- Sério? - Swan indagou aos suspiros, denotando total decepção.

- Sério. Mas será que posso ajudar? É só com ela? Você é quem mesmo? 

- Ah, não, não sou ninguém. Quer dizer, eu sou a Emma. É que estive aqui ontem e Regina me ajudou com uma coisa. Vim agradecer. 

- Oh, tudo bem. Eu me chamo Zelena, sou amiga dela. Posso tentar falar no seu celular e saber se ela virá hoje ou não.

- Faria isso?

- Claro! Por que não? Sente-se. Já, já falo contigo.

- Obrigada! - A loira sorriu agradecida, retomando seu fio de esperança em fazer algo dar certo naquele dia, pelo menos. 

Ao longe, ela avistou uma mesa que parecia ser perfeita: no canto, mas em posição central, de onde poderia ver a movimentação e esperar pelo seu anjo da guarda. 

Quase quarenta minutos se passaram, e nesse meio tempo, cada vez que a ruiva aproximava-se dizendo que ainda não tinha consigo contato com Regina, seu coração errava o compasso da batida.

"Droga! O jeito vai ser tentar outro dia. Talvez essa Zelena possa me passar o número do telefone dela. Vou aguardar só mais cinco minutinhos…"

Realmente aparecer no Roni's não era a intenção de Mills. Gold ligara mais cedo informando sobre a morte de seu irmão e a dispensando do trabalho. Era mesmo uma lástima, tanto para os familiares, quanto para os funcionários que teriam que sofrer as consequências do mau-humor do chefe. Mas a morena acabou dando de ombros, entregando aquela situação nas mãos de Deus. 

Como precisava comprar alguns itens que faltavam na sua dispensa, aproveitou para sair mais tarde e encontrar com sua amiga, Zel, para saber dos detalhes da audição. Regina torcia muito pela moça, pois além de se gostarem, era uma das poucas pessoas em quem confiava. 

A latina entrou no bar pelos fundos, onde teria acesso direto na cozinha, já que teve preguiça de dar a volta no quarteirão e verificar se a entrada da frente estava aberta. 

- ¡Hola gente! ¿Cómo están las cosas por aquí? - Ela indagou sorridente, marcando sua presença de maneira única, como sempre.

- Muy bien, chica. - Sidney, um dos cozinheiros, respondeu-a.

- Mas vejam só! Aprendeu direitinho! - Mills gargalhava alto. 

Do balcão, a alguns metros dali, Zelena pôde ouvir a amiga, devido ao seu jeito peculiar e espalhafatoso. Sua voz enrouquecida era inconfundível, até mesmo por às vezes ter um tom alto em demasia.

- Emma, ela chegou. Vou chamá-la. - A ruiva avisou, seguindo para a cozinha à passos largos - Mas que guapa! Finalmente cortou o cabelo! Uau! Está simplesmente m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a! - Zel brincou ao abraçar a amiga - Achei que não fosse vir hoje. Estou te ligando há um tempão! 

- Deixei o celular em casa carregando. Vim só para te ver e saber daquele…assunto. - Regina piscou, já sabendo que as aspirações artísticas da outra eram segredo no local de trabalho delas.

- Ah, sim. Depois falamos sobre isso. Tem uma pessoa te esperando lá no salão.

- Me esperando?

- Sim. Ela se chama Emma. Disse que você a ajudou ontem e ela queria agradecer. Foi o que entendi.

- Ah, sim. Deve ser a…como dizem? Crush do Will. Ficou encantado. - Riram - Essa mulher veio aqui, bebeu todas, não tinha a menor condição de dirigir e acabou que sobrou para mim escoltá-la até sua casa. Mas, tadinha, mal conseguia andar no fim da noite. 

- Quem nunca? - A ruiva deu de ombros.

- Eu nunca!

- Sua mentirosa! Vai lá que ela já está esperando há um bom tempo.

- Obrigada!

Quando estava prestes a desistir, a loira teve o lampejo de contentamento com a boa notícia que Zelena deu, e assim abriu um sorriso. Finalmente poderia conseguir o seu intento de retribuir a gentileza gratuita que recebera da garçonete - algo raríssimo nos dias atuais. Ansiosa, começou a tamborilar os dedos na mesa, mas levantou-se de imediato quando avistou a figura da morena atrás do balcão.

- Emma? 

- Oh, Regina… - Swan aproximou-se, um tanto quanto encabulada, com um leve rubor na face - Eu…fiz questão de vir te agradecer pelo o que fez por mim. 

- Imagina! Não precisa agradecer. Como eu disse, sou mulher. Não podia deixar que saísse sozinha naquele estado.

- Ai, Deus! Isso é tão vergonhoso! - A loira sentou-se em uma das cadeiras altas, tampando o rosto com as mãos. 

- Pare! - Mills segurou nos punhos da outra e sorriu ao mirar seus olhos esmeralda - Não trate o fato como se fosse a coisa mais absurda do mundo! É normal encher a cara de vez em quando! 

- Foi a primeira vez que aconteceu dessa forma comigo.

- Que ótimo! Uma experiência para contar aos seus netos. 

- Jamais! Este é um segredo que guardarei a sete chaves. Por Deus! Não me lembro de muita coisa, mas… - Riram - Bom, hã…eu gostaria de saber como posso retribuir. Qual foi o valor do táxi? - Emma foi pegando a carteira e abrindo.

- Não, não, não. De forma alguma. - Mills afastou o braço da outra - Não seria honesto da minha parte aceitar dinheiro. Além de eu não ter te ajudado em troca de algum benefício, você me deu uma gorjeta bem generosa que usei para pagar a condução, já que estava muito tarde e nem tinha mais ônibus para a minha casa. 

- Mas, Regina, é o mínimo que posso fazer. 

- Não. Se quer mesmo retribuir, volte outro dia e se divirta com moderação. - A latina frizou as últimas palavras, fazendo a outra rir.

- Acho que eu posso fazer isso. - Swan mordeu o lábio, desviando o olhar da mulher à sua frente, passando a brincar com um cisco que estava no balcão. Ela não sabia o que era, mas tinha algo em Regina que a intimidava, coisa rara, atípica, já que sua desenvoltura em tratar as pessoas era notável, até mesmo pela profissão que exercia. Poderia ser efeito do constrangimento que se fazia e se faria presente por um bom tempo por conta do porre, mas o fato é que a loira não conseguia encarar a outra por muito tempo

- É…Regina…você vai trabalhar até que horas?

- Hoje eu não trabalho. O bar está fechado e graças à Santa Teresa de Àvila, tirei o dia de folga. Mas por que pergunta?

- Já que não aceitará o meu dinheiro, talvez eu pudesse te levar em casa. Assim conseguirei retribuir seu gesto e você se livra de esperar o ônibus. - A voz suave, porém firme da loira, carregava um tom quase suplicante, o que fez Mills compadecer-se, como se sua companhia fosse um pedido de socorro para a moça.

- Se eu disser "não", você irá insistir, não é?

- Com certeza.

- Está bem. - A latina respondeu após um suspiro profundo - Vou pegar a minha bolsa lá dentro. Espere aqui.

- Sim, senhorita! - Emma ergueu as mãos para o alto como em rendição.

Rindo, Regina retornou para a cozinha, encontrando seus colegas à pleno vapor no trabalho.

- Consegue me perdoar se eu não ficar? - Ela questionou a amiga.

- Imagina! Vamos terminar rápido aqui. Amanhã nos falamos.

- Está bem. Até amanhã. - A morena deu um beijo estalado na bochecha da outra - ¡hasta luego!

- ¡hasta luego! - Responderam quase em uníssono.

Assim que voltou ao salão, Mills franziu o cenho ao encontrar Emma à girar a chave do carro nos dedos da mão esquerda, com um pé do lado de fora e outro dentro do estabelecimento.

- Com pressa?

- Oh, não, não. Só…tomando um ar. 

- Sei…

- Então, vamos para onde?

- É no Brooklyn mesmo, mas do outro lado. Vou te indicando o caminho. 

- Pode digitar o endereço no GPS, se quiser. - A loira entregou o celular para a mulher, destravando seu carro em seguida.

- Ok. Digitando…

- Quer dizer que te dei uma boa gorjeta? - Swan indagou, após colocar o cinto e dar a partida no carro. 

- Não se lembra mesmo? - Regina parecia incrédula.

- De flashs, partes de um todo, e que na verdade não tenho certeza se aconteceu realmente. - Emma mordia o lábio tentando prestar atenção na via e no aplicativo que lhe indicava o caminho - Posso ligar o som?

- Fique à vontade. 

- Foi mais ou menos que $100? - A pergunta veio junto com o embalar de uma versão acústica de Elastic Heart.

- Tem um ditado de donos de bar que diz: "Se for beber para esquecer, pague antes de começar."

- Jura? - A loira desviou o olhar em uma fração de segundos para mirar a mulher ao seu lado - É…meio furada essa frase, pelo menos no meu ponto de vista. Não esqueci o que devia e nem dei o cano. 

- Seu carro estava como garantia. - A latina prendeu o riso.

- Não! Espera! Que história é essa? Pode me contar as merdas que fiz?

- Ah, nada demais. Você dançou macarena, rebolou de uma forma que imaginei que sua bunda estivesse possuída, deu em cima de uma garota e chamou o meu chefe de narigudo. 

- Para, Regina. Que brincadeira de mal gosto.

- Não é brincadeira. Juro! 

- Oh, meu Deus! Eu devia me enfurnar em casa e não sair tão cedo!

- Ai! - A morena gargalhava - Como você é exagerada! É sempre assim?

- Digamos que eu tenha uma veia artística voltada para o drama.

- Bem se vê.

- Regina…posso te fazer uma pergunta?

- Claro! 

- Por que?

- Por que o quê? 

- Por que me levou até em casa? Eu entendi suas justificativas, mas…é que…

- Deixa eu adivinhar…Você não está acostumada com esse tipo de atitude. Acertei?

- Exatamente! Você poderia muito bem ter me colocado dentro de um táxi, somente. 

- E se o motorista fosse um tarado aproveitador?

- Me desculpe. Eu não tenho que questionar, somente agradecer.

- Sabe, Emma, nem imagino os motivos que a levaram a querer tomar um porre. Se é que existem motivos. Eu não te conheço, não faço idéia de como é a sua vida, de como foi a sua criação. Mas eu aprendi, desde pequena, que ninguém pode ser feliz pensando só em si, sendo egoísta, invejoso. A vida traz de volta o que tem no nosso coração, a vida traz de volta o que doamos aos outros. - A latina desafivelou o cinto de segurança quando percebeu a aproximação de sua residência - A vida é mesquinha, triste e solitária para quem não tem luz no coração. E essa luz vem desses pequenos gestos de bondade gratuita e verdadeira. Quando ajudamos, nosso espírito se ilumina, se enriquece. Quanto mais você dá, mais você se multiplica e acaba deixando marcas boas no coração das pessoas. Isso, não tem preço. É indescritível a sensação ao deitar a cabeça no travesseiro quando se chega em casa e se tem a certeza de que fez o certo.

Com o carro estacionado, Swan pôde voltar a sua atenção totalmente para a latina, que parecia ser uma pessoa tão simples e grandiosa ao mesmo tempo. Aquelas poucas palavras proferidas tocaram de alguma forma o coração da loira, como se ele estivesse sendo preenchido por energias positivas. Ao fundo, tocava Just You and I, e todo aquele clima a fez sorrir genuinamente, como há tempos não fazia. 

"Let's get drunk

Vamos ficar bêbados

I'll pour my heart out through my mouth

Meu coração vai sair pela boca

This year's been hard for us no doubt

Este ano tem sido difícil para nós, sem dúvida

Let's raise a glass to a better one

Vamos brindar por um ano melhor

And all the things that we've overcome

E por todas as coisas que temos superado

Are bring home to us 'cause

Vão nos trazer um lar, porque

Me and you we can hold this out

Eu e você conseguimos passar por isso

Only you understand how I'm feeling now

Só você entende como estou me sentindo agora

Yeah

Sim

And I know, I can tell you anything

E eu sei, eu posso te dizer qualquer coisa

You won't judge, You're just listening

Você não vai julgar, você apenas ouve

'Cause you're the best thing that ever happened to me

Porque você é a melhor coisa que já me aconteceu

'Cause my darling, You and I could take over the world

Porque minha querida, você e eu podemos dominar o mundo

And one step at a time, just you and I (Just you and I)

E um passo de cada vez, apenas eu e você (só você e eu)

'Cause you're the only one, who brings light just like the sun

Porque você é a única que traz luz como o sol

One step at a time, just you and I (Just you and I)

E um passo de cada vez, apenas eu e você (só você e eu)

Let's get drunk

Vamos ficar bêbados

We'll reminisce about the days

Vamos falar sobre os dias

When we were broke, not getting paid And taking

Em que estávamos duros, sem salário e viajando 

trips on the weekend

nos fins de semana

When I would drop down to see you

Quando passava lá para te ver

And we would paint the town

E nós pintávamos a cidade

Too many chugs, I'll be passing out

Virando várias doses, eu passando mal

Cause I can never keep up 

Porque eu não acompanho seu ritmo

Now I'm puking open

Agora eu estou vomitando na rua

And I know, I can tell you anything

E eu sei, eu posso te dizer qualquer coisa

You won't judge You're just listening, yeah

Você não vai julgar você está apenas ouvindo, sim

'Cause you're the best thing that ever happened to me

Porque você é a melhor coisa que já me aconteceu…"

"Quem é você? De que planeta você veio?" Swan pensava, ao encarar e observar atenta os detalhes das feições de Regina. 

- Emma? Oi? Está tudo bem? 

- O quê? - De repente a loira foi despertada de seus devaneios pelo tom de voz marcante de Mills - Desculpa. Me distraí.

- Percebi. - A latina ria.

- O que…o que disse mesmo?

- Te perguntei se aceita subir e tomar um café ou um chá. A minha casa é simples, mas a acho bem aconchegante. 

Por um momento Emma pensou em recusar, afinal, eram completas desconhecidas, e ela não fazia idéia do que poderia encontrar. O desconhecido sempre causou certo frisson dentro de si. No entanto, algo parecia "empurrá-la" ao sim. Que mal poderia haver em conversar com aquela mulher? Era apenas uma conversa. Talvez Regina, com toda a sua estranheza atípica, pudesse trazer alguns instantes de alívio para a mente cansada da loira, fazendo com que finalmente conseguisse esquecer as merdas que vinham acontecendo em sua vida. Talvez um café significasse mais que um café. Poderia ser o bálsamo que tanto ansiava.

- Eu aceito, desde que tenha biscoitos para acompanhar.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...