História La guerre pour toi - Capítulo 39


Escrita por: ~

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Categorias Once Upon a Time
Personagens Capitão Killian "Gancho" Jones, Cora (Mills), Elsa, Emma Swan, Henry Mills, Regina Mills (Rainha Malvada), Zelena (Bruxa Má do Oeste)
Tags Drama, Emma Swan, Guerra, Once Upon A Time, Regina Mills, Romance, Swan Queen, Swanqueen
Visualizações 213
Palavras 4.826
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Romance e Novela, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Enfim, o penúltimo capítulo e quem narra é Regina.

A música que dá o título a esse capítulo é de Edit Piaf e o link está nas notas finais.

Boa leitura!!!

Capítulo 39 - Adeus, meu coração


- Você ficou louca!

- Não! Não estou e você não vai me impedir!

- Regina, você não passa daquela porta!... Se tentar eu atiro em você!

Zelena falava tão sério que pegou uma pistola na gaveta da cozinha. Gaveta da cozinha? Era Zelena, não é? Eu tive que conter meu riso com aquela cena, ela estava tão nervosa quanto eu.

Meu peito arrebentava em agonia. O sonho que tive com Emma há duas noites atrás deixara-me arrasada e com muito medo. Ela não estava bem e isso era evidente. A única coisa que poderia fazer era voltar à França e procurar pelos remanescentes do meu grupo e por minha alemã teimosa. A todo momento a imagem de Emma caída de bruços numa poça de sangue voltava à minha mente e meu coração disparava. Seu uniforme perdera a cor e seus cabelos cobriam o rosto. Eu não consegui ver o rosto de Emma. Chamei por ela, mas não tive resposta e isso atormentava meu ser de uma maneira brutal.

Zelena continuava a olhar para mim com expectativa, ali do outro lado da mesa da cozinha apontando aquela arma para mim. Realmente ela não me deixaria partir para França e eu não tinha ideia de como fazer isso sem ela. Tantos dias em Saragoça e não via mais nada além do que observava pelas janelas e proximidades do casarão.

- Eu não posso ficar aqui sem notícias... - não contive o choro. Sentei-me e apoiei a cabeça entre as mãos, um desespero tomava conta de todos os meus sentidos, já não podia conter nenhum músculo ou nervo do meu corpo. Doía cada parte dele, doía a minha alma.

Aos poucos minha irmã baixou a guarda. O silêncio era apenas quebrado pelo meu choro ofegante. Zelena deixou a arma sobre a pia e sentou-se ao meu lado. Postou a mão nas minhas costas e estremeci. Meu estado era de tamanho delírio que a calmaria do afago dela tornava-se uma agressão. Passamos um bom tempo assim. Minha irmã não pronunciou palavra alguma, mas ela entendia todos os meus sentimentos naquele momento. Suspirava e, pelo seu jeito de se remexer na cadeira, pensava em formular alguma frase para confortar-me. Logo eu fui cessando o choro e permaneci em silêncio fitando o nada sobre a mesa. Cada nó da madeira daquela mesa antiga era como as trilhas de um redemoinho de agonia.

- Regina... - sussurrou - ... Eu jurei para mim mesma que jamais estaria dentro de um território de guerra. Eu não imaginei que você estaria comigo agora... - suspirou - ... Eu nunca pensei que pudesse perder nossos pais durante o processo mesmo que soubesse dos riscos altos... - senti que minha irmã ponderava sobre a nossa situação e deixei que continuasse - ... E agora estou pensando... - de repente ela parou. Ajeitou as madeixas longas e avermelhadas - ... Eu não vejo sentido em estarmos sentadas aqui, eu tentando impedi-la de voltar e com medo de ir adiante... Regina... - quando tornei meus olhos para Zelena notei que suas órbitas azuis estavam mais cristalinas, marejadas e o que veio depois lançou-me numa profunda tristeza - ... Eu estou com medo... - aquela frase veio chorosa e com tanto desespero quanto o meu. Zelena cedia à sua posição favorável por mim.

- Você não precisa...

- Eu quero. - levantou-se como se tivesse o mundo sobre os ombros - Fiquei tanto tempo acomodada aqui nesse casarão que não percebi que as pessoas mais preciosas da minha vida se foram... - as lágrimas rolaram - ... E eu não quero perder a última delas... - olhou para mim com um sorriso tristonho - ... Não vou deixar que você vá para a França... Não sozinha. - caminhou até a pia e apanhou novamente sua arma - Vamos juntas. Acho que está na hora de conhecer o front e não só ficar nos bastidores levando pessoas para fora dele. - colocou as mãos na cintura e mudou o tom triste para o desespero que chegava a ser cômico - E afinal de contas, se você estiver em apuros eu vou estar lá para proteger você! Eu sou sua irmã mais velha!

O conforto de Zelena foi a única coisa que conseguiu acalmar meus nervos. Não tínhamos tanto contato nos últimos tempos e suas atitude naquela hora trouxeram-me um calor ao coração que pude sorrir para ela com a mais doce ternura e não precisa dizer nada, ela sabia que meu agradecimento estava estampado naquele sorriso e nas lágrimas que rolavam pelo meu rosto.

Era uma mulher cheia de mistérios e surpreendia-me a cada minuto. Logo que decidiu que iríamos juntas para a França, minha irmã colocou-se a preparar a viagem. Roupas, armas, documentos. Ela resmungava todo o tempo em que deixava objetos sobre a mesa da cozinha e depois em cima de sua cama. Eu não tinha muitos pertences ali e restava-me apenas ajudá-la com os seus. Parecia que faríamos uma viagem de férias. Enfim, era Zelena.

Um carro nos fundos do casarão foi a coroação das surpresas que eu tive naquele dia. Havia um automóvel que, segundo ela, seria opção de fuga caso alguma cosia desse errado durante seu tempo na Espanha. Abastecido e pronto para partir a qualquer momento aquele Ford seria nossa condução para a França.

Voltaríamos rumo à Vichy. A princípio resisti a ideia, não queria fazer parada alguma antes de Paris, mas Zelena convenceu-me que lá encontraríamos informações reais ao invés de vagarmos pela capital buscando notícias. Além do mais não estava disposta a ver Daniel novamente, porém, ele era a pessoa certa para chegarmos ao nosso fim. Faríamos um caminho diferente daquele que eu vim para Saragoça, agora iríamos pelo interior e assim até fiquei um pouco mais aliviada para não ter que retornar às lembranças de Emma durante a nossa viagem de fuga.

Partimos logo depois do almoço o que para Zelena era a hora ideal, pois chegaríamos  Vichy à noite em um horário de fácil acesso a Daniel. Eu estava nas mãos dela, não havia outra pessoa mais segura para levar-me onde eu queria estar, mesmo que fosse incerto o final que aquela viagem me traria. Proibi-me ter pensamentos negativos, não era o momento de lamentar ou duvidar de que encontraria Emma segura, eu tinha que ter esperança, mesmo que isso estivesse distante àquela altura da minha vida. Por mais que eu resistisse à tristeza, meu coração apontava a escuridão como caminho da minha felicidade.

Vimos os campos verdes de Villanueva del Gálego e sua arquitetura românica nas igrejas e casas antigas. Ao passarmos por Almudevar eu percebi o quão grandiosa era a história espanhola e seus prédios antigos, aquela cidade tinha ruínas por todas as partes que deixava o lugar com uma aura medieval incomparável. Esse pensamentos artísticos que há muito havia deixado para trás retornavam com um pouco de insistência, talvez uma tentativa de meu subconsciente deixar-me mais leve. Isso era quase impossível de acontecer uma vez que estávamos perto da fronteira e mais uma vez eu teria que passar pelas barreiras e ser analisada correndo o risco de ser presa.

Zelena fez uma parada em Huesca. A cidade tinha um de seus contatos e ela procurou por ele para que uma mensagem fosse enviada em código para Vichy informando Daniel que estaríamos chegando ao anoitecer. Novamente surpreendi-me com a beleza da arquitetura românica, tijolos colocados com esmero dando formas contornadas aos prédios.

- Você deveria ser mecenas, Regina. - minha irmã divertia-se com o assombro do meu olhar sobre os lugares por onde passávamos.

- Eu era até pouco antes da guerra começar... - divaguei - ... Haviam alguns artistas de teatro e alguns pintores que sempre procuravam pela mina ajuda.

- E acabou fazendo deles seus militantes... - ela gargalhou - ... Isso é fantástico!

- Não, Zelena... Não é... - abaixei os olhos - ... Depois da guerra algumas artes ficarão sem representação.

Quando chegamos à Parzan meu coração começou a ficar menor e meu peito dolorido. A paisagem começava a parecer-se mais com o sul da França. A fronteira estava próxima. Zelena garantiu que não haveria barreira alguma naquela região, mas eu ainda estava apreensiva e não gostaria de passar por aquela situação de tensão mais uma vez. Porém, eu teria que dar mais crédito ao que minha irmã garantia. Não havia nenhum alemão ou polícia francesa ou espanhola nas proximidades do Tunnel Aragnouet-Bielsa. Zelena apenas riu vendo que eu olhava para todos os lados tentando conferir se estava mesmo tudo deserto antes de avançarmos pelo túnel.

- Como você é teimosa!

- Você não faz ideia de como é passar por uma barreira de soldados que desconfiam de você o tempo todo.

- Eu disse que não teria nada e aqui estamos. - entramos pelo túnel e avançamos para território francês. Em poucas horas estaríamos em Vichy.

Eu não sei dizer como, mas o sono levou-me dali em pouco tempo. Creio que tenha adormecido antes de sairmos do túnel quase que instantaneamente. Sem sonhos e muito menos pesadelos. Acordei com Zelena parando o carro em um vilarejo próximo a Toulouse. Ela estava com fome e eu também.

As pessoas nos olhavam com desconfiança e fez lembrar-me dos lugares em que passei com Emma levadas por Neal. Diferente. As pessoas naquele lugar olhavam para mim como se soubessem quem eu era. Zelena não atentava-se à isso e procurou logo uma estalagem para que pudéssemos comer algo antes de continuar a viagem que ainda demoraria um pouco. Crianças indicaram-nos em que porta bater e seguimos para uma casa mais afastada do restante das outras e diferente também por ser a maior delas.

Não havia ninguém no lugar quando entramos, mas uma senhora de cabelos brancos veio nos receber com um semblante desconfiado. Ela usava um coque e tinha farinha no rosto. Enxugou as mãos no avental de tecido e cumprimentou-nos de longe com apenas um acenar de cabeça.

- Se quiserem quartos não estamos alugando durante a guerra, terão que ir até Montauban. - seca e sem qualquer expressão de receptividade. Ela olhou-nos de cima a baixo e esperou que falássemos.

- Queremos apenas comer. - disse Zelena usando o mesmo tom da senhora que rapidamente nos deu as costas apanhando uma folha de papel amassada e entregou-nos mantendo a distância.

Não nos importamos com aquela hostilidade. Pedimos logo nossa refeição e aguardamos que ficasse pronta. Sentamos numa mesa pequena e sem qualquer toalha. O lugar era mesmo muito simples. Minha irmã mostrava-se impaciente e bem sabia que não havia gostado do jeito que a mulher havia nos recebido.

- Calma, Zelena. Comemos e vamos embora.

- Não gosto quando agem assim. Geralmente vão lá para dentro e comunicam a presença de estranhos suspeitos. Essas pessoas vivem com medo, Regina. Trocam qualquer informação por dinheiro, proteção ou comida.

Diante daquelas palavras eu não poderia ter outra reação a não ser medo. Os minutos avançavam e eu ficava mais apreensiva quanto à comida que não chegava ou a mulher que estava quieta demais na cozinha. Depois de alguns minutos ouvimos um baque oco e grave. Zelena agarrou a arma que estava no bolso de seu casaco e engatilhou. Meu coração batia na garganta, olhava para minha irmã assustada tanto quanto eu. Era a senhora com uma bandeja nas mãos levando nossa refeição. A única forma de abrir a cancela que separava a cozinha do salão era metendo-lhe um pontapé.

- Isso quase custou sua vida, velha maluca! - sussurrou Zelena observando a senhora caminhar em nossa direção.

Eu começava a perceber mais instinto de sobrevivência em Zelena do que em mim mesma. Ela estava sempre atenta a qualquer movimento e observava os menores detalhes. Eu agradeci em silêncio por ela ser daquela maneira, sentia-me segura com sua companhia. A mulher serviu-nos uma sopa verde com legumes e pão sovado. Esperei que minha irmã se servisse, mas ela apenas olhou para o prato à sua frente e depois olhou para mim.

- Está paranoica! - disse à ela quase rindo de seu aspecto desconfiado para aquela porção de comida - Zelena, calma... - lancei minha mão sobre a dela a fiz-lhe um afago terno. Aos poucos ela cedeu e começou a picar o pão, logo em seguida molhando na sopa. Eu fiz o mesmo. Relaxamos e saboreamos aquela sopa verde que até estava bem gostosa.

Pouco mais de uma hora depois já voltávamos para o carro. A senhora da estalagem não nos disse nenhuma palavra quando pagamos pela refeição, mas sorriu ao ver a gorjeta generosa que Zelena deixou sobre o balcão. Se eu bem entendi seu gesto, poderia ser um prenúncio de não-delação caso houvesse alguém procurando por nós. Eu tenho que admitir que Zelena era bem cautelosa chegando mesmo à paranoia, mas depois de ter enviado a mensagem a Daniel não podíamos arriscar.

Seguimos por Montauban e logo avistamos a entrada de Brive-la-Gaillarde pelos campos verdes.

- Estamos há menos de três horas de Vichy. Brive-la-Gaillarde é outro posto de receptação da resistência.

- Você sabe bem mais do movimento do que eu mesma... - comentei sorrindo sem olhar para ela.

- Querida, você ateve-se ao movimento urbano. Eu estudei as rotas de fuga e interceptação. Estamos em ramos diferentes, mas em equilíbrio de conhecimento. Quando chegarmos a Paris você será a guia da missão.

Não saberia dizer se minha irmã estava correta ao afirmar aquilo. Eu não era a Regina que havia deixado Paris, aliás, eu não era a mesma Regia da noite em que fui presa no teatro junto com August. Muita coisa havia acontecido e confesso ter medo de estar em Paris novamente. Medo de atravessar pelas ruas e deparar-me com a polícia francesa ou um pelotão alemão. Medo de não encontrar nenhum dos meus antigos amigos e isso era fato, pois sabia que alguns tinham sido mortos ou simplesmente desapareceram. Meu medo era chegar lá e recair diante da ausência de meus pais e de tudo o que fazia parte da minha vida antes daquela maldita guerra. O medo assolava meu ser imaginando o que poderia ter acontecido à Emma.

Já estava escuro quando chegamos em Vichy.

Zelena seguiu por uma rua que acompanha o rio Allier. Seguiu adiante até que víssemos poucas casas pela rua, até que sobrasse apenas alguns galpões, comércio menor e pouquíssimas casas espalhadas por um terreno grande em terra batida. Ela entrou por aquele lugar com o carro e seguiu por mais alguns metros até que parou em frente a uma casa modesta em madeira e tijolos vermelhos. As luzes estavam apagadas, mas a chaminé deixava a evidência de que alguém teria feito o jantar. Desligou o motor e observou o lugar com mais demora.

- Chegamos?

- Sim, Regina. - disse ela sem tirar os olhos da casa - É aqui que Daniel mora.

- É seguro estarmos aqui logo na frente da casa? - espantei-me com a calma dela ao falar que era a casa de Daniel, mas não se importou com a minha pergunta  e foi saindo do carro.

- Venha, querida. Ele é acima de qualquer suspeita para o governo de Vichy. Não há vigilância, não há desconfiança. - desceu do carro apanhando sua maleta de viagem e eu a segui para fora do automóvel. Coloquei-me ao seu lado diante da porta de entrada e Zelena bateu. Não demorou muito para ouvirmos passos apressados vindo lá de dentro. A porta abriu-se de uma vez e os olhos brilhantes de Daniel sorriram para nós duas.

- Estava aflito à espera de vocês.

Entramos. Eu ainda estava um pouco sobressaltada por estar ali, não achava que seria seguro, mas também não tinha outra opção. Na verdade eu estava desorientada e aflita por notícias. A sala era bem decorada com estofados escuros, móveis antigos, uma lareira acesa e quadros bem coloridos. Daniel não tinha bom gosto desde sempre, isso eu sabia, aquele lugar fora decorado por outra pessoa. Abstrair. Era o que eu estava fazendo admirando os itens que ele tinha naquele lugar.

- Regina? - sua voz veio de encontro aos meus ouvidos trazendo-me de volta à realidade.

- O que foi? - perguntei distraída e notei que Zelena olhava-me curiosa.

- Está tudo bem?

- Está sim, Zelena. - olhei o redor mais uma vez e depois encarei Daniel - Então, tem notícias de Paris?

- Primeiro vamos jantar e conversamos...

- Não! - exclamei revoltada - Eu não vim aqui para jantar. Quero notícias de Emma!

Daniel lançou-me um olhar terno e depois virou-se para Zelena.

- Vamos jantar. - insistiu ele - Durante a refeição conversamos...

Eu não queria esperar mais. Estava ficando mais nervosa com a calmaria das palavras dele e minha irmã não ajudava muito acatando seu apelo para o jantar. Olhei para ela a fim de repreendê-la, talvez meu semblante estivesse mesmo ameaçador, pois ela compreendeu.

- Daniel, querido, acho melhor irmos direto ao ponto e depois podemos comer...

Ele suspirou. Relaxou os ombros e estendeu o braço apontando para a sala. Seguimos para lá, sentamos os três em silêncio. Daniel ficou de frente para mim e Zelena aconchegado numa poltrona. Nós duas, lado a lado, olhávamos para ele sem desviar a atenção nem por um segundo.

- Bom, eu mantenho contato com Paris através de Anna e Kristoff. Depois que vocês partiram para Saragoça eles retornaram a Paris para tentar reorganizar os grupos... - ele respirava pausadamente - ... Soubemos que Emma esteve em Lyon há dias, Regina.

- E ela ainda está lá? - endireitei o corpo olhando aflita para ele - Como ela está?

- Isso foi há alguns dias, Regina... Pouco antes da prisão ser desativada.

- Montluc caiu? - os olhos de Zelena aguçaram-se como os meus.

- Sim... - Daniel prosseguiu - ... A coronel Schneesturm foi mandada para Paris e todos os prisioneiros enviados para os campos de trabalho.

- E Emma?

- Kristoff encaminhou uma mensagem depois que a prisão foi desativada... - ele levantou-se calmamente e parecia que estava bem desanimado, o que me deixou queimando em desespero. Zelena agarrou-se à minha mão e seus olhos arregalados davam-me mais medo. Daniel foi até a estante atrás do sofá e apanhou um papel dobrado. Veio até mim e entregou-me sem dizer nada. Voltou para sua poltrona e sentou-se.

Soltei-me rapidamente da mão de Zelena e desdobrei aquele papel. Respirava ofegante e tentei firmar a visão para poder ler o que havia nele.

 

Alguns pássaros caíram. O falcão negro está morto, foi encontrado no ninho do cisne. O pardal menor e o cisne desapareceram. Acreditamos que o falcão tenha matado os dois. O pardal vermelho e a cotovia estrangeira estão bem. Aguardamos notícias do ninho do casuar. O conflito está no fim.

 

Eu não conseguia associar nada do que estava ali naquele papel. Meus nervos esgotados não ajudavam em nada na tarefa. Minhas mãos tremiam e eu tentei ler mis de duas, três vezes aquela mensagem. A cada vez que terminava meu rosto ficava mais quente e minhas lágrimas aumentavam. Eu percebia o que aquilo queria dizer, mas não acreditava no que estava lendo. Em palavra alguma.

- Deixe-me ver isso! - Zelena arrancou o papel das minhas mãos e leu mais uma vez - Falcão negro... Cisne... Pardais, cotovia... - olhou para Daniel - ... O que isso quer dizer?!...

- O falcão negro é o codinome que atribuímos ao major Kill Hook, Zelena... Ele era um dos homens mais fortes do general Swan. - Daniel inclinou o corpo para frente e baixou o tom de voz - Regina, mantenha a calma... Kristoff não tem certeza do que aconteceu, só podemos saber que...

- Henry e Emma estão mortos! - minha boca vomitou aquelas palavras envoltas em tristeza de forma involuntária. Eu chorava quieta até que começamos a dar nomes aos pássaros e isso era o que eu mais queria adiar naquela conversa. Levantei-me dali e dei as costas para os dois. Não saberia dizer o que sentia naquele momento. Dor. Ódio. Tristeza. Vazio.

- Daniel, traduza isso, por favor... - replicou minha irmã.

- O major Hook foi morto no apartamento de Emma. Ela e o garoto que estava escondido lá desapareceram...

- E agora estão mortos! - gritei. De repente fui tomada pela ira e não queria mais ouvir suas vozes e nem olhar para eles. Continuei de costas afundando-me cada vez mais no desespero e na tristeza de constatar que havia perdido duas das pessoas mais importantes da minha vida.

O que eu faria agora? Para onde ir, Regina? Eu não sabia o que pensar e como agir. Estava desnorteada e precisando de um refúgio, precisava fugir para longe daquele lugar, daquelas pessoas. Ao mesmo tempo eu sentia vontade de querer morrer. Mais do que antes quando estive nas mãos de Elsa. Aquilo era desumano. Como Emma deixou-se apanhar assim? O que poderia ter acontecido? Eu precisava de respostas, eu precisava constatar que aquilo era realmente verdade.

- O mais importante na mensagem de Kristoff é que a guerra está no fim. O casuar é Hitler. - minha cabeça girava e eu estava muito zonza para assimilar, mas aquela frase infeliz de Daniel encheu-me os ouvidos como um insulto. Como a notícia do fim da guerra poderia ser mais importante do que a perda de Henry e Emma?

- Você ficou louco? - me virei para ele e fui em sua direção agarrando-o pelo pescoço. Zelena tentou impedir-me, mas fui mais ágil - Como consegue ser tão frio?

- Regina, desculpe, mas o fim da guerra é o que importa agora... - ele insistiu na insanidade de suas palavras e eu fui em frente com a minha agressão. Apertei-lhe o pescoço o quanto pude.

- Por favor, Regina, solte ele! - Zelena agarrou-se em meus braços fazendo força para que o soltasse, mas eu não faria isso. Queria matá-lo, talvez melhor do que acabar com a minha própria vida era matar aquele francês insensível e tão cheio de si que se colocava diante de mim. Daniel segurou meus punhos e apertou com toda a força. Aquilo doeu muito, mas não tanto quanto o que doía dentro de mim.

- Eu vou matar você! - senti meu rosto queimar e ele apertou ainda mais meus pulsos. Aliado a isso, a força que Zelena fazia para tirar-me dali foi o suficiente para que eu acabasse cedendo. Creio mais na ideia que minhas forças esgotaram-se tamanha a tristeza que sentia. Do pescoço de Daniel meus braços buscaram o conforto do colo de Zelena. Agarrei-me à minha irmã aos prantos e afundei meu rosto em seu peito sendo envolvida por seus braços carinhosos. Apenas pude ouvir a voz daquele homem afastando-se dali.

- Podem usar um dos quartos desse andar, Zelena. Eu vou subir e vejo vocês pela manhã... Boa noite...

Eu não sei dizer quanto tempo fiquei imóvel nos braços de Zelena, mas lembro-me do quanto seu abraço confortou-me naquela noite terrível. Estava tão apavorada que tremia, mas não deixou-me sozinha nem por um segundo. Depois de um tempo ela conseguiu levar-me para um dos quartos que Daniel havia mencionado. Ajudou-me a deitar e ficou um bom tempo sentada ao meu lado observando-me.

- Você precisa dormir. - eu tentava fazer com que Zelena descansasse. Aquela dor não era dela e parecia que estava absorvendo junto comigo, não poderia deixar que isso acontecesse.

- Eu vou assim que certificar-me que você está bem.

- Eu não estou, Zelena... - algumas lágrimas escaparam e respirei fundo - ... Não deveria ter feito aquilo com Daniel. A guerra precisa terminar para que esse pesadelo acabe... - o choro voltou com mais força - Mas você entende o que eu sinto?

- Não, minha querida... - sorriu desanimada - ... Eu não faço ideia do que se passa dentro de você agora, mas precisa descansar e amanhã pensamos no que fazer... Ainda temos pessoas precisando de nós e naquela mensagem não diz o dia certo da guerra acabar.

Depois de um tempo em que ficou me observando em silêncio, Zelena levantou-se e foi para o outro lado do quarto onde havia outra cama. Não demorou muito para que se deitasse e adormecesse. Eu continuei imóvel na minha cama. Estava longe, num deserto de tristeza. Sentia o vazio completar-me em cada membro, em cada suspiro. Não demoraria muito para que eu me tornasse um nada na escuridão daquele quarto. Com sorte talvez eu desaparecesse assim como Henry e Emma. Emma...

Como foi sucumbir tão facilmente? Foi fácil? O que aconteceu para que você se deixasse apanhar assim? Será que sofreu? Foi rápido? Ah, minha cabeça doía como nunca antes e eu só queria entender o que estava acontecendo. Não teria paz sem que soubesse, de fato, o que havia acontecido.

           

Adieu mon coeur (Adeus, meu coração)

On te jette au malheur (Jogam-te na tristeza)

Tu n'auras pas mes yeux pour mourir... (não terás meus olhos para morrer...)

 

Queria tanto ter estado ao seu lado nesse momento, meu amor. Tentaria impedir que acontecesse, mas se caso não houvesse maneira, eu tentaria fazer com que passasse imperceptível. Ah, como eu gostaria de tê-la impedido de sair de meus braços naquela manhã em Saragoça, Emma!...

 

Adieu mon coeur (Adeus, meu coração)

Les échos du bonheur (Os ecos da felicidade)

Font tes chants tristes (Tornam teus cantos tristes)

Autant qu`un repentir (Como um arrependimento)

 

Arrependi-me de não ter insistido. Jamais poderia contê-la, mas eu tinha que ter tentado mais. Agora estou aqui deitada numa cama em uma casa cujo dono mostrou-se um completo estranho. Não tenho noção do que fazer, ou melhor, não faço ideia do que estou sentindo, são muitas coisas para pensar e doer em mim. Essa dor atravessa meu peito e deixa a latência insistente por todos os meus músculos.

 

Autrefois tu respirais le soleil d'or (Outrora respiravas o sol de ouro)

Tu marchais sur des trésors (Caminhavas sobre tesouros)

On était vagabonds (Éramos vagabundos)

On aimait les chansons (Amávamos as canções)

Ç'a fini dans les prisons (Isso acabou nas prisões)

 

Comecei a lembrar dos momentos bons que tive ao lado de Emma. As conversas cheias de segundas intenções e os olhares famintos lançados. Ela era o sopro de liberdade que veio acalentar meu rosto em dias tão sombrios. O que aconteceu? Por que não tive um instante de loucura antes de todo o mundo cair sobre nós? Eu poderia tê-la levado para longe daquilo tudo e agora estaria viva em meus braços, confortada em meu peito.

Por segundos fechei meus olhos, mas os verdes ofuscantes de Emma invadiram a escuridão e levaram-me para um mar de tristeza que eu jamais havia experimentado. Afundei a cabeça no travesseiro e chorei até que não houvesse mais ar para meu peito saciar-se. Eu queria morrer. Agarrei-me com força nas bordas do cobertor e apertei. Queria tirar o que estava sentindo à força. Eu tive vontade de gritar. Debati-me na cama com ódio. Minha raiva queimava-me por dentro. Deixei o cobertor e segurei minha cabeça entre as mãos ainda deitada na cama. E ainda assim tudo girava ao meu redor.

Não parava. Doía. Apenas dor, ódio e tristeza.

O tic-tac do relógio no canto da escrivaninha do quarto desorientou meus pensamentos. Tempo. O meu estava correndo. O de Emma havia acabado. Eu tentava não pensar, mas as imagens vinham à memória como tortura. Tempo. Eu queria voltá-lo, apagá-lo e depois disso pará-lo. Apenas para ter um minuto ou dois com a minha major novamente. Como naquela manhã em Saragoça, o café da manhã, as carícias, o olhar amoroso de Emma sobre mim. Tempo. Eu teria que buscá-lo de alguma forma. Não poderia aceitar aquilo tudo com a resignação que ia tomando meu corpo à medida que o relógio fazia tic-tac. Não. Eu não cheguei até aqui para ler uma mensagem e chorar e aceitar. Não. Eu tinha que estar nos mesmos lugares que ela esteve nos seus últimos passos. Descobrir o que havia acontecido e, se fosse possível, encontrar seus vestígios.

Levantei-me devagar e observei Zelena. Dormia serena na cama ao lado.

Abri a porta do quarto com cuidado e pus-me a observar a sala. Não havia movimento nenhum e Daniel estaria como minha irmã: em sono profundo.

Corri até o criado ao lado da porta e encontrei as chaves do carro de Zelena.

Abri a porta da casa. Olhei para fora algum tempo pensando em como seria atravessar mais alguns quilômetros até chegar em Paris. Desci as escadas da varanda rapidamente e sem fazer qualquer barulho entrei no carro. Agarrei-me ao volante, enxuguei os resquícios de lágrimas no meu rosto e dei a partida.

Com sorte estaria em Paris em menos de quatro horas e isso me deixaria no coração da cidade luz no meio da madrugada sem saber ao certo o que encontraria ou quem me receberia. Pouco importava. Se Emma estivesse mesmo morta, eu teria a chance de me encontrar com ela onde quer que estivesse.


Notas Finais


Adieu, mon coeure - Edit Piaf - https://youtu.be/SYuPgLeV_rk

Obrigada a cada uma que passou por aqui durante esse longo período de guerra. Agradeço a quem esteve comigo acompanhando essa história de amor entre a judia e a nazista. Confesso que não será fácil colocar ponto final em La guerre pour toi, mas foi uma viagem fascinante com todas vocês ao meu lado!

O capítulo 40 será versão estendida, portanto, ainda tem bastante história pra contar antes do derradeiro "fim"

Vejo vocês em breve! Bjusss


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