História Lanterna dos Afogados - Capítulo 73


Escrita por: ~

Postado
Categorias Matt Bomer, Tom Hiddleston
Personagens Personagens Originais
Tags Bdsm, Bebida, Depressão, Drama, Lgbt, Musica, Poemas, Problemas Psicológicos, Romance, Sexo, Shakespeare, Tom Hiddleston, Transtornos Mentais
Exibições 69
Palavras 6.249
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Crossover, Drama (Tragédia), Festa, Hentai, Luta, Poesias, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


HAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAY MINHAS MARAVILHOSAS! <3
Meu santo Odin, há quanto tempo eu não apareço por aqui. Gente, desculpa mesmo! Como sempre cito nas notas iniciais, todas as vezes que me atraso para postar é culpa da escola. E dessa vez não foi diferente. Final de ano, sabem como é a correria infernal e as provas decisivas D:
Aliado a isso, a dificuldade desse capítulo também me atrasou. A questão é: alter-egos são difíceis.
Enfim, desculpem mesmo pela demora, gente! </3 Espero que ainda haja alguém aqui HAUAHAUAHAUAHAUHA!


"Dane-se minha situação e os jogos que eu tenho de jogar
Com todas as coisas presas a minha mente
Dane-se minha educação, eu não acho as palavras pra dizer
Sobre as coisas presas na minha mente
Eu não quero estar lá quando você estiver caindo
E eu não quero esta lá quando você atingir o chão
Então, não vá embora
Diga o que disser
Mas diga que você ficará
Para sempre e mais um dia
Durante o tempo de minha vida
Pois eu preciso de mais tempo" Oasis - Don't Go Away

Capítulo 73 - Don't Go Away


Fanfic / Fanfiction Lanterna dos Afogados - Capítulo 73 - Don't Go Away

Evidentemente a expressão de susto em meu rosto havia causado dúvidas em Tom.           Ele permaneceu com as pupilas dilatadas, antes proveniente de nosso beijo afoito, mas, naquele instante, era-me capaz de distinguir a nova razão pelo qual ele me fitava. Inerte na impossibilidade de receber uma chamada de Vivian àquela hora da manhã, em pleno sábado pós-natal, me esquivei de seu corpo unido ao meu e corri rumo ao balcão de mármore, em busca do celular.

— Amélia, graças a Deus –sua voz, ligeiramente alarmada, me interceptou. Pude ouvir um suspiro se dissipar do outro lado. — Onde você está?!

Encostei-me à mesa, frustrada.

— Jaime já foi fazer fofoca pra você? –resmunguei. — Não é porque eu não atendo as ligações dele que eu esteja desaparecida ou em perigo.

— Eu não acho que ele esteja em condições de falar alguma coisa. –pausou, abruptamente. Os segundos de silêncio se prolongaram, suscitando-me uma onda de ansiedade forte o suficiente para que o enjoo retornasse a meu estômago. — Estou com Bruna e ele aqui, em meu escritório. Precisamos de você.

— O que você quer dizer com isso? –retruquei, hesitante.

Ela inspirou.

— Ele está na pior crise de dissociação dos últimos anos. Os cinco estiveram em conflito toda a noite, Amélia. Eu realmente preciso tentar acalmar a mente dele, mas a esse nível de conturbação não garanto que a hipnoterapia usual conseguirá controlá-lo. –o timbre passivo lutava para sobressair o nervosismo. Ouvir minha própria psiquiatra, a qual nos vira em nossas piores crises e conseguira lidar com todas elas, perder torrencialmente a sobriedade era como um balde enorme de pânico. — Entendo que você deva estar magoada com ele e que se recusou a contatá-lo nas últimas horas, mas preciso de você usar um método mais agressivo para hipnotizá-lo.

— Mais agressivo? –gaguejei. — Você não está cogitando...

— Sim, terei que injetar um hipnótico diretamente em suas veias. Assim como fiz em suas últimas sessões na clínica.

Mordi o interior de minhas bochechas, em tempo que apalpava a superfície da mesa diante de mim e procurava um assento para me apoiar. Hiddleston, que até então permanecera a certa distância, aproximou-se com preocupação estampada em seu par de íris solidárias.

— Você está bem? –perguntou-me, agachando-se em minha lateral. Assenti, embora meu pescoço se assemelhasse a algo petrificado.

— Por que quer que eu esteja presente? –arfei. — Bruna está aí, Jay confia totalmente nela.

Dra. Vivian aparentou expirar fortemente.

— Não é uma questão de confiança, Amélia. Jaime pediu para que você estivesse aqui, com ele. –havia um riso nervoso ao fundo. — Você sabe o que acontece nas hipnoses, querida, é possível acessar quaisquer respostas que você busca. E ele, finalmente, está preparado para dizer a você tudo o que quer saber. Jaime me fez prometer que se ele perdesse o controle de si, usufruiria dessa condição para fazê-lo contar a você o que ele não é capaz de fazer em consciência.

— Então é isso? Esse é o ato conclusivo dele? –sussurrei, burlando o súbito tremor que se instalara em meu corpo. Ri, descrente. — Isso é uma merda. Não é justo comigo. Eu sofri uma dissociação essa noite, sabia? Vaguei pela cidade como um fantasma sem memória, encarnei uma persona que eu jurei que era uma pessoa real e ao invés de correr para Jay, bati na porta de Tom em plena madrugada porque o maldito italiano havia me afastado mais uma vez. E agora...agora ele quer contar tudo? Você não acha que está tarde demais para isso?

— Céus. –balbuciou entrecortada. — Eu, como ninguém mais, sei que Jaime distorce as situações e é péssimo em relacionamentos interpessoais. Às vezes ele transforma um pequeno problema em um ataque terrorista, apenas porque não sabe contar um pouco do que sente. Essa é a oportunidade para você desconstruir tudo que afeta seus pensamentos em relação a ele, querida. E junto disso, posso ajudá-la com a questão da sua dissociação. Por favor, venha.

Era-me visível a relutância de Dra. Vivian para manter seu profissionalismo naquele momento, em que seus dois pacientes mais atribulados perdiam o controle de si quase simultaneamente. O receio de enfrentá-la e ter em mãos a confirmação que eu, assim como Jay, era dissociativa, travava-me por completo. E a ideia de tentar trespassar a raiva e mágoa que sentira dele no dia anterior para agir de forma contrária, explorando-o, também me agredia intensamente. Essa fusão de pesadelos dos quais não me era palpável confrontar tinha influência o bastante para obrigar-me a negar seu pedido. Entretanto, apesar da coleção de rachaduras que ele criara em mim, meu espírito autodestrutivo pedia por mais. Pedia para que eu fosse até lá, desvendasse seus mistérios e sofresse substancialmente mais por isso.

— Você está em seu escritório, em Londres? Ou esses malucos resolveram correr à Lincolnshire? –retruquei.

Vivian libertou um arfo de alívio.

— Estou em Londres para o réveillon. Pode vir ao meu consultório pessoal. 

Afundei meu dedo no botão de bloqueio, permitindo-me torcer o olhar em imediato em direção a Shakespeare.

— Você se importaria em... me acompanhar em uma sessão realmente muito problemática com Jaime e as cinco personalidades dele e depois tentar desvendar a minha outra personalidade? –pedi, quase inaudível.

O semblante preocupado cedeu lugar para as sobrancelhas arqueadas em um rosto evidentemente confuso. Senti-me idiotamente insensível em pedi-lo para embarcar em tal situação incabível, em tempo que ele permanecera comigo durante toda a noite, em longínquos momentos tão complexos como aquele.

— Se ele não tentar me assassinar enquanto assisto, não vejo problema algum. –gracejou, embora a ameaça tivesse probabilidades reais. — A minha presença tornaria isso mais fácil para você? Notei que sua postura durante a ligação estava retraída.

— Eu acho que depois de ontem, inglesinho, você é o único que pode me ajudar nesse momento.

Tom aquiesceu em concordância, reivindicando meus dedos junto aos seus.

— Estou começando a pagar os problemas que causei a você quando nos conhecemos.

— O carma é uma vadia, Hiddleston.

 

 

 

 

 

 

 

Certamente a minha aparência corroborava para o perfil de pessoas que adentravam o prédio médico onde Vivian mantinha seu consultório. Entre minhas roupas escandalosas que usara durante a dissociação e o conjunto moletom extremamente largo de Hiddleston, a última opção parecia-me menos devastador para uma sessão. Ao apertarmos o botão do andar correto, deparamo-nos com diversos consultórios psiquiátricos em apenas um corredor, um índice ainda maior do qual tinha conhecimento. Sequer relembrava com nitidez a última vez em que pisara aos arredores daquele quarteirão, no subúrbio da cidade, para uma consulta. Dra. Vivian uma vez mencionara que aquele era o seu primeiro escritório e o manteria até o fim de sua carreira, uma vez que o aluguel permanecia o mesmo e ela sequer passava mais de dois dias por semana no local. Lincolnshire ainda tomava a maior parte de seu tempo.

Inequivocamente Tom sustentava um ideal divergente quanto à localização de consultórios psiquiátricos. Assustou-se ao ver o carro de Jay estacionado próximo ao beco que circundava o prédio onde entraríamos. Confortei-o ao detalhar a estrutura física do local de trabalho de Vivian em Saint Henry e o quão interminável eram os limites da clínica em que fora internada.

Isso evitara um grunhido de frustração em minha garganta ao encontrar a lataria vermelha escarlate do veículo estacionado.

— Caso não queira permanecer conosco, eu entenderei se preferir dar uma volta no corredor. –alertei, erguendo meu punho diante da porta de carvalho polido.

Tom resvalou a ponta de seus dedos por minha bochecha esquerda, oferecendo-me um pequeno sorriso encorajador.

— Você me chamaria de louco se eu a dissesse que sempre desejei ver o lado descontrolado daquele cara? –questionou, não esforçando-se em ocultar os traços de humor em sua sentença.

— Estou criando maus costumes em você. –maneei a cabeça, enfim batendo sobre a superfície sólida de madeira.

Um pequeno anexo, com a escrivaninha e alguns gaveteiros de metal nos cumprimentou. A secretária de Vivian deu-nos a impressão que aguardava nossa chegada como se fôssemos o entregador de pizza numa noite de sexta à noite.

— Srta. Santiago? –sibilou, educadamente.

— Francamente, mulher, você leu a minha ficha de admissão em 2002? É Novak. –retorqui, ligeiramente ofendida. O sobrenome me causava náuseas.

— Perdão. –desculpou-se contiguamente. Tom cutucou-me nas costas discretamente, como se repreendesse meu comportamento.

— Ignore. Estou sem meus medicamentos e com uma vontade enorme de arrancar a cabeça do cara que Vivian está tentando hipnotizar. –murmurei, suscitando um ligeiro sorriso da secretária, que por fim deixou-nos entrar. Seu rosto, notável de simpatia que possivelmente era um dos requisitos de sua profissão, congelou conseguinte à entrada de Hiddleston.

— Bom dia. –ele cumprimentou, com os lábios curvados em cortesia.

Ela levou a mão à boca por breves segundos, tão petrificada como uma rocha.

— Bom dia... Sr... Hiddleston... –era visível que ela não esperava dizer aquela frase em algum dia de sua vida. Então, se inclinou para frente em análise descrente. — Eu não estou entendendo o que está acontecendo aqui.

— Eu também ainda não entendi o que está acontecendo, caso isso a faça se sentir melhor. –Tom retribuiu, motejando. — Mas estamos em um bom lugar para entendermos, não?

— Ahn...

— Você lida com loucos e está assustada com Tom. –sibilei.

A cena causou me causou desconforto. Tom, entretanto, aparentava normalidade. Claro, isso sempre acontece a ele. Ótimo.

E, então, percebi que Vivian também não fazia ideia de que o Tom que eu tanto mencionara em nossas sessões, era aquele Tom que brotara mudez em sua secretária.

— Srta. Novak, desculpe! –retomou, confusa. — Acredito que Dra. Vivian esteja precisando muito do seu auxílio. –ainda buscava em vão desviar o olhar de Shakespeare.

— Qual é o problema com vocês, britânicos, em chamar uma pessoa pelo nome dela? –soprei. — Você sabe me informar qual a situação do paciente que ela recebeu? Vivian limitou bastante qualquer detalhe. –retruquei, pouco confiante.

— Eu acho que é mais palpável a senhorita... ver com seus próprios olhos. –limitou-se. — Amélia.

— ‘Síndrome Paralítica Simultânea Hiddleston’. –nomeei, em voz alta. — DSM precisa adicionar isso.

Fiz um rápido agradecimento não verbal pela pequena descontração, antecipando a tensão de retornar à problemática anterior. Reuni ar em meus pulmões numa única inspirada, a qual me fez doer o peito. Inclinei a cabeça através da fresta da porta entreaberta, permitindo-me uma prévia do primeiro ciclo infernal de Dante que me aguardava. Encontrei-me com a visão de Jay encostado, quase aéreo no sofá. Olheiras arroxeadas, em conjunto a hematomas conspícuos lhe contornavam o rosto, esse castigado também por cortes superficiais e uma sobrancelha rasgada. As vestimentas, com manchas rosadas discretas o qual imediatamente arrisquei ser sangue recém-lavado. Engoli em seco, apavorada, abandonando quaisquer vestígios de distanciamento que nutria desde a derradeira vez em que o vira. Ao adentrar no cômodo, Dra. Vivian apressou-se em me recepcionar com sua usual postura de acolhimento. Apercebeu meu intuito de correr à Jay e, com isso, segurou-me num abraço gentil, antecipando minha entrada indiscreta. Seus dedos ergueram meu rosto ao dela, colocando-me em posição de análise psiquiátrica.

— Está tudo bem com você, querida? –perguntou-me, estendendo seus cuidados visuais. Assenti. — Obrigada por vir, apesar das discrepâncias. Sei que não é um bom momento para pedi-la o que pedi, mas entende que eu não o faria se não fosse totalmente preciso.

— Eu sei. –apertei os lábios. Olhei-o por cima de seus ombros. — Como ele está?

— Aéreo. –limitou-se. — Quando Bruna o trouxe, estava em conflito com os cinco. Somente entendi o que ele quis me falar porque falamos disso anteriormente, em sua última consulta comigo. Eu não sei o que ocorreu com ele, mas ele realmente quer dizer algo a você.

— Eu não sei se ainda há algo que ele possa me dizer que me surpreenda.

— Talvez ele apenas acrescente detalhes em coisas que você já sabe. –arriscou Vivian, induzindo-me a concordar.

— Eu espero que não haja problemas em eu ter trazido Tom. –dei um passo ao lado, indicando-o ao centro da recepção, com sua secretária. — Jaime e ele se odeiam, acho que é de seu conhecimento. Mas... eu tive uma noite realmente muito difícil, Vivian, e apenas Tom pôde me ajudar. Eu sinto que estou ficando verdadeiramente insana, sequer tenho controle de minhas ações. –falava com rapidez, brotando uma expressão de conturbação na face de minha psiquiatra. — Eu não... ultimamente eu acredito que estou em colapso.

Vivian acariciou meus ombros, oferecendo-me consolo.

— Vamos dar um jeito em você, também. –abriu espaço, indicando-me o consultório. — Mas vamos lidar com o problemático primeiro.

Assenti, virando-me rumo a Tom.

— É hora de conhecer nossos demônios, Shakespeare. –chamei-o, suscitando um arquejar de sua postura. — Vivian, esse é... você sabe quem ele é.

Dra. Vivian deu-lhe um sorriso cortês, totalmente profissional e pacífico. Cumprimentou-o com gentileza e deixou-o à vontade para adentrar em sua sala.

— É um prazer finalmente conhecê-la. –Tom exprimiu.

— Quando uma garota a apresenta a sua psiquiatra, é um sinal de compromisso. –a doutora brincou.

— Considere isso como um encontro com minha mãe –encarei-a com ternura. — Eu a causei tanto trabalho como uma filha poderia causar.

— Tenho filhos complicados. Uma clínica cheia deles. –Vivian girou os calcanhares, direcionando-se ao perímetro de sua instalação aconchegante. — Eles dois são especiais. Do tipo que causam dor de cabeça até após os trinta anos.

— Percebo. –Tom fechou a porta, empurrando-me sutilmente rumo ao sofá em que Jay se acomodara.

Calcorreei em sua direção enquanto me era incapaz manter o fôlego; quase trêmula, cumprimentei a figura cansada de Bruna próxima à persiana e, com um sopro de coragem, agachei-me em frente a Martini. Circundei seu rosto com ambas as mãos, obrigando-o a me encarar.

Um sorriso lateral ligeiramente animado e encantado me cumprimentou, em companhia ao som de uma risada folgada.

Amélie Poulain –disse, quase em exaltação. — Eles não vão acreditar que você veio, mesmo.

— Jim? –balbuciei, desacreditada.

Ele soprou.

— Ainda me reconhece. –piscou amigavelmente e, em seguida, olhou a si mesmo com desdém. — Ignore os hematomas. Não faz parte de mim.

— O que aconteceu? –questionei.

— Você vai ter que perguntar isso ao Jay. O cara é complicado. –tranquilo, sugeriu. Abruptamente, o azul de suas órbitas se levitaram em direção a Tom, deslocado, ainda à entrada da porta. — Quando Martini praguejou você, não sabia que ele se referia a realmente você.

E então, se ergueu, assustando a mim e a todos os demais.

— Jim, mantenha-se sentado, por favor. Seus pontos irão abrir. –Dra. Vivian alarmou, agindo como uma mãe preocupada. Sem reação, permaneci paralisada.

Pontos?

— Tom Hiddleston. –articulou ele, calcorreando lentamente ainda rumo a Shakespeare. Tom involuntariamente deu um passo para trás. Jim estendeu a mão, em cumprimento. Todos os olhos do consultório se viraram para a cena imprevisível. — Eu tenho que dizer, você foi o melhor vilão da primeira fase do Universo Cinematográfico Marvel.

Hiddleston buscou meu rosto, desnorteado. Assenti levemente, na mesma condição confusa que ele.

— Obrigado...? –balbuciou, devolvendo o aperto amigável. Jim, no entanto, puxou-o para um abraço apertado. Tom arregalou os olhos sobre o ombro do alter-ego de Jay, encarando-nos como se estivesse prestes a ser engolido por um urso.

— Não se acanhe, homem dos abraços. Ele é só outro fã. –Bruna gracejou, julgando eu forçando-se a não registrar o momento em seu celular para chatear Jaime em um futuro próximo.

— Será que devo dar esse abraço ou ele tem uma arma nas costas? –perguntou, em motejo. Sua feição endureceu em seguida. — Ah, meu Deus... isso é...

— Perdão, eu não consegui fazê-lo tirar essa porcaria da calça. –Bruna desculpou-se, ligeiramente humorada.

Grunhi internamente, andejando através do infortúnio da situação. Apalpei a cintura de Jay, tomando posse de sua pistola inseparável. Desarmei-a em imediato, retirando seu carregador em movimento que suscitou um arfo de precaução em Hiddleston.

— Ele usa isso tão naturalmente quanto usa uma carteira. Não se alarme. –Bruna retomou, ciente que de minha boca as palavras haviam fugido.

— Vocês são tão trágico-dramáticos. –Jim murmurou. — Ops, essa coisa aí não é minha.

Sentei-me no estofado, descrente. Dra. Vivian desocupou-se do cargo de telespectadora e vindicou sua usual posição de mediadora dos debates psiquiátricos. De pé, assisti-a perambular pelo consultório com sua expressão impassível, notavelmente cansada.

— Jim, permita que Tom arranje um local para se sentar. E faça o mesmo, por favor. Não é porque você não sente os pontos que eles não existam. Poupe seu hospedeiro de uma infecção. –solicitou, estendendo um sorriso discreto de cumplicidade para mim.

Jim, divertido, acatou sua ordem e se acomodou ao meu lado. Hiddleston, adverso, arranjou-se na poltrona próxima a porta que parecia lhe chamar.

— Ainda essa história de hospedeiro? –desdenhou com tédio.

— O que aconteceu a ele? –insisti, relutando a não dá-lo atenção.

— Não sabemos ao certo. Bruna o trouxe já dissociando, pairando entre suas cinco personalidades simultaneamente. –a psiquiatra informou, de modo que transpareceu que ela limitava-se em detalhes. Não foi necessário pensar duplamente para que eu descobrisse seu motivo.

— Ele é uma pessoa pública, não contará nada o que for dito nesse consultório a ninguém. –pausei. — Tom é muito discreto.

— Eu pensava que vocês inventavam a história de haver cinco de nós. E ontem eu os conheci, mesmo. E a sensação era de... sermos bem próximos, apesar das discussões. –Jim continuava a falar ao relento, incapaz de se silenciar.

Tom piscou sequencialmente, mirando-o de esguelha.

— Acredito que você ficará bem, Amélia. Eu fico honrado que confie seu bem estar a mim, mas essa sessão é destinada ao Martini e todos nós sabemos que ele e eu não somos melhores amigos. –exprimiu.

Balancei a cabeça em negativa.

— Eu quero que você fique aqui. Não é justo que ele me magoe e depois eu tenha que voltar para encará-lo, mesmo sem condições para fazê-lo. –estava ciente do egoísmo presente em meu timbre, porém, ao tê-lo sentado ao meu lado, embora sob outra personalidade, ainda era-me capaz de ouvir a voz rasgada do dia anterior, despejando suas constantes hipocrisias.

— Tudo bem, não vamos discutir. –Vivian interrompeu. — Entendo o seu ponto, querida. E concordo com ele.

— Acredite em mim, depois da conversa do Clube dos Cinco ontem à noite, ele está prestes a querer gritar o que há nesse ninho de pássaros da cabeça dele ao mundo. –Jim ressurgiu, inclinando-se ligeiramente para frente. — Eu não faço a mínima ideia do que aconteceu a ele, só compareci a esse diálogo porque é algo que não posso fugir. E isso é tudo o que eu sei. Martini está enlouquecendo.

Vivian inspirou pausadamente.

— Você entrou em contato com os outros, Jim?

— Você não me ouviu dizer quando afirmei? –replicou. — Michael, David, Mark e Victor? Ah, sim. Nós nunca nos encontramos antes... eu não entendi absolutamente nada do que aconteceu. Aqueles caras são insanos. Sequer cheguei à cidade e eles já se uniram para brigar em uma ponte.  

— Em uma ponte?! –exclamei.

— Não me pergunte como chegamos lá. Fale com a criança. David.

— Como você classificaria esse encontro? –Vivian retrucou em tom elevado, de forma que obrigou-me a desistir de persistir.

— Você já tentou levar alguns gatos para vacinar? Imagine-se a segurar cinco deles, todos irritados, obrigá-los a permanecer no mesmo ambiente enquanto levam agulhadas e a ouvirem os outros gritarem. Foi como eu me senti. –Jim esclareceu entre expressões indelicadas. — Alguém tem um cigarro para me emprestar?

— Nem pense nisso. –sussurrei. Ele ignorou.

— Eu acho que ele quer relaxar um pouco. Por que mais eu viria até aqui? Sou a diversão. Martini precisa de mim. –mostrou-nos os dentes num sorriso largo, indiferente à personalidade sóbria e fechada de Jay. --- Você acha que Loki foi o real criador dos Avengers, numa tentativa desesperada de encontrar um grupo forte o suficiente para combater Thanos, a quem ele deve o Tesseract?

Hiddleston entreabriu a boca, momentaneamente.

— Eu... não sei, na verdade. –disse, inseguro.

Jim maneou a cabeça.

— Seria um ótimo desfecho. Eu escreveria algo assim.

— Talvez seja uma boa ideia. –Tom aquiesceu.

— Martini teria um derrame se soubesse que você gosta do aristocrata. –Bruna comentou.

O alter-ego crispou levemente as pálpebras, em análise rápida sobre a postura acanhada e desajeitada de Shakespeare na poltrona.

— Você tem medo de mim? –interrogou com naturalidade.

Tom soprou um riso nervoso.

— Na realidade eu estou gostando muito de você. –admitiu. — Será que podemos deixá-lo preso nessa personalidade para sempre?

— Não. –Vivian, Bruna e eu rebatemos em uníssono.

— Ele é tão fofo. –Shakespeare gracejou.

Se Jaime ouvisse Tom chamando-o de fofo, haveria um quebra pau desgraçado.

— Ele está há quanto tempo como Jim? –inquiri a Vivian, lidando drasticamente com minha impaciência.

— Cerca de trinta minutos, talvez. Ele dissociava por conta da dor física causada por seus ferimentos. Tratei de seus cortes e apliquei-o uma pomada anestésica, para acalmá-lo um pouco. Jim surgiu nessa ocasião. –justificou, suscitando-me uma angústia interna.

— Ele não havia feito um curativo? –avancei.

— Ele os costurou em meu sofá, com uma agulha de primeiro-socorros e uma garrafa de vodca para limpar os cortes. Ele é a porra de um açougueiro, Amélia. –Bruna noticiou, sutilmente desgostosa.

— Por que ele não procurou um hospital?! –arfei, dando-me conta instantaneamente que meu questionamento era estúpido. Arrependi-me em imediato. — Ele ao menos disse quem o causou isso?

--- ‘Fratelli, flagelli’. –pronunciou.

‘Ira de irmãos, ira do diabo’, o bendito ditado italiano.

Torci o pescoço para Jim, obrigando-o a revidar sua atenção para mim.

— Você tem certeza que não sabe o que aconteceu? Em sua conversa com eles, na ponte, não mencionaram nada? –tentei, delicadamente.

— Eu não mentiria para você, Amélie. –confirmou. — Tudo o que pude identificar no diálogo foi que Martini havia feito algo pela irmã. Eu nem sabia que ele tinha uma irmã!

— Catarina? Eles conversavam sobre Catarina? –afligi-me, engolindo em seco. 

— Sim, algo sobre vingança, planos a serem concluídos, família. –balançou a cabeça, em tempo que apertava o semblante. — Discutiram a seu respeito, depois. Ele realmente estava mal. Julgava que não a merecia.

Fechei as mãos em punhos, verificando o suor frio instalado em minha pele. Gaguejei, porém sem palavras. Jim, inerte em silêncio sepulcral, estendeu o braço a Dra. Vivian e arrastou as mangas de sua camisa até o cotovelo.

— Eu não concordo com a maioria das bobagens que Martini diz, pois sei que ele não é tão ruim como aparenta ser. Ele só é... complicado. –suas orbes encontraram-se com os óculos da psiquiatra. — E se ele quer dar um basta nessa confusão, eu apoio decididamente essa causa. Odeio transtornos.

Dra. Vivian aparentava surpresa com o pedido inesperado e tão sólido de Jim, que em todo o tempo de hipnoterapia, apenas surgia como um momentâneo turbilhão de leveza que Jay era incapaz de sentir. Bruna sustentava nos lábios uma curva sutil, quase cortês, de um sorriso satisfeito. Como melhor amiga de Jaime, era-me certo que ela sabia mais do que falava. E como amiga daquela peculiar mulher, compreendia que ela pretendia que apenas seu amigo falasse o que havia apreendido em si por tanto tempo.

E Tom, ainda fixado à poltrona com semblante de arquejo e desassossego, assistia-nos como se fôssemos parte de uma peça teatral da qual ele aguardara muito para o desfecho.

Fechei os olhos, atribulada.

— Por que não David? Por que David não está aqui, em seu lugar? –arrastei-me, perpetuando-me incrédula com Jim.

O alter-ego apalpou minha mão com seu braço livre, firmando um segurar cúmplice.

— Eu já disse, sou a diversão. Ele cansou de fazê-la se entristecer, Amélie.

Meu canal respiratório doeu em aperto, alertando-me que uma onda de choro buscava se apunhalar pelas costas. Em repugno, engoli-o com aspereza e sacodi a cabeça em concordância, negando acesso às lágrimas.

— Você acha que está preparada para me ajudar nessa hipnoterapia, querida? –Dra. Vivian perguntou-me de tom sutil, sem quaisquer vestígios de cobrança ou expectativa. O modo médico-maternal que ela sempre dedicava a nós. Consenti, rapidamente. — Certo. Vou buscar o Amobarbital.

Dra. Vivian levantou-se, distanciando-se em direção a seus armários de medicamentos, na ala oposta do consultório. Em questão de poucos segundos retornou, trazendo em mãos o hipnótico cristalino e uma seringa que me causou arrepios.

— Posso ajudar em algo? –a voz rouca e apreensiva de Tom preencheu o cômodo, quebrando nossa calmaria dramática. Vivian sorriu pequeno.

— Segure-o firme enquanto aplico a droga. Pode fazer isso? –interpelou a psiquiatra.

— Apenas mantenha essa arma distante dele que tudo ficará bem. –Hiddleston se arqueou, calcorreando em nosso rumo. Deu-me um ligeiro olhar acolhedor e acarinhou meu ombro com cuidado, de forma que quase fui capaz de ouvi-lo sussurrar ‘vai ficar tudo bem’ em meu ouvido.

— Acredite, se ele quisesse por um fim em você, já teria o feito. –Jim sibilou humoradamente.

— Eu nunca pensei que seria a camisa de força de alguém. –Tom comentou, sagaz. — Muito menos desse brutamontes disfarçado em um terno Armani.

Vivian vestiu suas luvas de borracha, massageando uma pequena bola de algodão embebedado em álcool sobre a pele pálida de Jay.

— Ele ficará ligeiramente bobo quando eu acordá-lo da hipnose e você terá que vigiá-lo até o efeito se dissipar. Não importa quais as coisas que ele diga durante a sessão, terá que se comprometer que ficará aqui. –disse, olhando-me profundamente. Anui, dando-lhe certeza. — Ótimo. Segurem-no bem.

Ela mergulhou a agulha em suas carnes, injetando a substância e suscitando-o um solavanco ríspido de dor. Entrelacei minha mão sobre a sua enquanto o assistia franzir o cenho em reação à droga; Tom mantinha-o paralisado da maneira que era-lhe possível e Bruna, essa ciente do procedimento, deslocou uma almofada até o sofá em que estávamos para que Jay repousasse sua cabeça durante a sessão.

Em questão de segundos seu corpo deixou de apresentar protestos, assim permitindo-se relaxar torrencialmente. Seus ombros, relaxados, decaíram. Sua atividade nervosa indicou passividade, tão indiferente ao controle de si que assim que Hiddleston o soltou, encostou-se em meu tronco em fadiga. Auxiliei-o a se deitar no sofá, então abandonando-o sozinho no divã improvisado. Sentei-me ao lado de Tom, no sofá oposto. Vivian, com seu caderno de anotações no colo, reivindicou o assento mais próximo de seu paciente. Envoltos de um manto de silêncio incorruptível, Dra. Vivian iniciou uma sequência de estímulos auditivos cujos eu não os entendera desde a primeira vez que a vi fazer, há muito tempo atrás.

Era como dar asas a cobra. Martini incapacitado de mentir ou ocultar quaisquer fossem seus pensamentos. Quando enfim preparada, Dra. Vivian colheu ar aos pulmões.

— Quando eu bater palmas, quero que apenas Jaime me responda. –anunciou ela, posicionando as mãos. Quando o fez, seu corpo permaneceu paralisado. — Você está sob o controle de minhas sugestões. Não se sinta receoso em acatá-las, não irei exigir que ultrapasse os limites que impomos na última sessão. –avisou, sóbria. — Vamos começar com perguntas simples e avançaremos de acordo com suas respostas. Posso iniciar?

— Sim.

— Diga seu nome de batismo, a sua data de nascimento e onde nasceu.

— Jaime Ignazio Valachi, 26 de outubro de 1983, Roma, Itália. –pronunciou, fazendo-me prender o fôlego.

— Valachi? –Tom sussurrou, como se reconhecesse o sobrenome. Meu rosto frisou.

— Apenas assista. –sibilei.

— Por qual razão você não usa seu nome verdadeiro, Jaime? –prosseguiu a doutora.

— Tive que adotar o sobrenome da família de meu padrasto logo que saí da Itália, para que as famílias rivais a Cosa Nostra não me rastreasse até Lincolnshire.

Hiddleston agarrou meu antebraço em reação imediata, julgando eu interligar o sobrenome de Jay com a organização criminosa. Seus olhos refletiam incredulidade.

— Bom. O processo deu certo. –Vivian dirigiu-se a nós. — Ele não diria tais coisas em consciência.

— Ele é um Valachi?! –Tom se inclinou, balbuciando sem voz.

— Você reconhece esse sobrenome?! –retruquei, descrida.

— The Valachi Papers! A máfia italiana! –controlando-se para não erguer o timbre, gesticulava exasperadamente. — Ele é da família de Joe Valachi, o primeiro traidor da Cosa Nostra. Você não conhece o livro? O filme?

Neguei abruptamente, entreabrindo a boca para rebater, porém, indignada, desisti.

— Você é um fã da máfia, agora?

— Eu sou um fã do DeNiro! Máfia absolutamente está no meu currículo!

— Essas reações estão invertidas quanto ao que eu imaginava que seria. –Bruna elucidou, ao canto.

— Inacreditável. –rangi. Vivian, observando-nos com uma das sobrancelhas arqueadas em expressão censuradora, induziu-nos a manter silêncio.

— Você é familiarizado com o nome Joe Valachi, Jaime? –questionou ela, dando andamento a nosso debate.

— Ele era primo de meu avô. –revelou. — A família ruiu após a traição de Joseph. A Interpol e o FBI caçaram todos os nomes da família na América e reduziu os componentes substancialmente. A Cosa Nostra jamais depositou sua confiança nos Valachi, novamente. Até meu pai assumir o cargo de consiglieri, na década de 70.

— Você já sabia desse detalhe, Amélia? –a psiquiatra questionou-me, tendo meu aceno positivo.

— Os Valachi querem que Jaime assuma o cargo quando o pai se aposentar. Como primogênito de Alero, ele tem o direito disso, porém, seus transtornos o afastaram dos negócios. O tio dele, Fabrízio, mencionou que a família quer causá-lo um trauma eficaz o suficiente para que Michael tome controle de sua consciência. –citei com dificuldade, esforçando-me a remeter a maldita noite de terror onde descobrira tal informação. Busquei a mão de Tom, entrelaçando-a involuntariamente ao instinto de medo que se instalou em meu interior. Ele, tão confuso quanto incrédulo, pedia-me explicações em cada fitada que me oferecia. Eu, impossibilitada, também pedia desculpas de forma não verbal.

— Onde você estava na noite passada? –a doutora inquiriu, arrastando sua caneta de aparência elegante sobre o caderno de anotações.

— Em um cassino, no centro de Londres. –disse, direto.

— Você estava jogando pôquer, como frequentemente fazia? –retornou.

— Não.

— O que você estava fazendo, Jaime?

Ele se remexeu.

— Atraindo os empregados de meu pai para uma armadilha.

— Foi onde você se feriu? Como isso aconteceu?

— Sim. Os obriguei a permanecer em uma sala privada, no andar superior do prédio. Um deles foi estúpido ao falar algo grosseiro sobre minha irmã e nós lutamos. –pausou, subitamente. — Ao término disso, encontrei-me com Vincenzo. Eu já o esperava.

Um arfo de ansiedade protestou em meu corpo. Ao pronunciamento do nome de seu irmão filho da puta, interliguei o acontecimento com o fatídico caso que ele tivera com Olívia, sua namorada.

— Ele o esfaqueou?

— Sim, e me baleou de raspão.

Tom engoliu em seco ao meu lado, sendo-me capaz de ouvi-lo.

Isso tem que ser uma pegadinha. –rogou ele, quase inaudível.

— Eu o conheço bem. Sei que não permitiria que qualquer um o atingisse dessa forma. Por que o deixou avançar, Jaime? –inquiriu.

— Porque preciso manter uma aparência fodida para convencer minha família que não estou me voltando contra eles. Eles só conhecem o Jaime atingido. O primogênito louco. Tenho que permanecer assim aos olhos deles.

— E por que você precisa fazê-lo?

— Para que eles não desconfiem que estou planejando uma reviravolta nessa maldita história. –soprou irritado. — Você sabe disso. Eu a contei.

— Amélia não sabe dos detalhes e, na última sessão que tivemos, entramos em consenso que da próxima vez ela saberia o que está acontecendo.

Jaime apertou o cenho, irreverentemente desconfortável e mal humorado. Sua feição conhecida me trouxe aconchego por alguns segundos.

— Ela não merece tamanho desgosto. Já suporta o suficiente para duas vidas. –murmurou. — Ela não...

— Ela precisa saber o que você está passando, Jaime. O que você sempre passou e o que prende dentro de si. –afirmou.

Jay libertou o fôlego como um sopro de rendição.

— Eu não quero magoá-la mais uma vez.

— Você não é você se não me magoar, cretino. –sibilei em baixa voz, sem quaisquer vestígios de irritação. Era como um pedido indireto para que ele prosseguisse.

— Eu acho que ela está bem crescida e aguenta algumas mágoas. –disse a psiquiatra.

Jaime permaneceu de lábios crispados, como se lutasse internamente contra o impulso corrupto de despejar a nós a verdade. Sua coluna se arquejou em angústia, induzindo-me a puxar meus fios de cabelo em nervosismo.

— Ele está angustiado, Vivian. –tremulei, recebendo a confirmação de sua parte. — Deixe-o livre. Eu sei que ele faz tudo isso pela irmã dele. Não é necessário deixá-lo assim...

— Amélia, acalme-se. –ditou, passiva. — É absolutamente palpável essas alterações de humor durante a sessão, você sabe disso. Não deixe suas emoções ultrapassarem o limite, agora.

Hiddleston segurou meu pulso com delicadeza, obrigando-me a mirá-lo em êxtase.

— Confie na sua psiquiatra. –pediu.

— Você a conhece como ninguém jamais conheceu. Sabe que Amélia não irá abandoná-lo por esse motivo do qual esconde. Ela já viu suas piores faces, Jaime. –Vivian cedeu, conseguinte. Reposicionou seus óculos, em aparente desgaste físico. –Ela não é mais a garota fragilizada que você prometeu proteger na clínica.

— Eu sou um criminoso! –padeceu. -- Eu fiz muita merda em nome de minha família para sustentar a aparência de lealdade para eles; fiz coisas das quais ela não me perdoaria se soubesse ofegou, ríspido. — Ela não precisa de alguém como eu tão próximo a ela.

Seu peito em movimento inquieto subia e descia incansavelmente, prolongando sua respiração curta e ofegante. Gotículas de suor irrompiam de sua testa, grudando alguns fios de seu cabelo ao redor de seu rosto. A expressão de contrição e tortura suscitava-me uma reviravolta estomacal, um suplício em vê-lo tão exposto, tão incapaz de reagir.

— Respire fundo, Jaime. Deixe que suas emoções saiam, pare de aprisioná-las dentro de si. Livre sua mente desse peso. Permita-se sentir.

— Sentir o quê? Dor? –repugnou, entre um riso entristecido. — Não há nada de bom em mim. O que mais me resta sentir? Desprezo por mim mesmo?

— Você não pode pensar que não há nada de bom em você. –Vivian sobrepôs, também afetada. Finquei meus dedos com firmeza, cedendo ao ímpeto de libertar minhas lágrimas. — Por que você imagina isso?

Desejei poder correr até Jay, tirá-lo daquele inferno, acordá-lo de uma vez por todas, mesmo que isso significasse permanecer sem as respostas que ele tanto me ocultava.

Vê-lo odiar a si mesmo fez-me parar de odiá-lo por mentir para mim.

— Eu não sinto o mínimo remorso por todos os filhos da puta que matei desde que entrei nesse maldito jogo –rezingou, dissipando seu timbre rosnado obstinado. — Eles assassinaram minha irmã! Catarina não tinha nada a ver com essa família miserável! Ela era só uma garota... uma garota que não merecia... morrer.  

Algo dentro de mim parecia ter se partido. A tribulação carregada em sua voz, fusionada com o desgaste emocional e o maior trauma de sua vida, sobrepostos, tornando-o tão fragilizado e quebrado fazia-me inquirir mentalmente a respeito da quantidade de horrores que ele guardava dentro de si e se recusava a compartilhar.

— Por que ele escondeu a existência de Catarina de mim por tanto tempo? –questionei à Vivian, embargada. — Por que ele nunca... me contou sobre ela antes?

A psiquiatra maneou a cabeça em movimentos de consenso, aceitando minha pergunta em sua grade.

— Por que nunca disse a ninguém a respeito de Catarina? –interrogou paulatinamente, obrigando-me a discorrer do controle. Aproximei-me, embora permanecesse a uma distância segura para não quebrar sua hipnose. Bruna, ignorando seus costumes interpessoais, acompanhou-me até o carpete diante do sofá onde jazia Martini.

Ergui a atenção a Hiddleston, que, sem preocupar-se em ocultar seu espanto e comoção com a cena que assistia, encarava Jaime com fixação cautelosa. Incapaz de esconder sua natureza tão humana, encontrei-me com seu par de íris umedecidos, talvez em receio, medo, surpresa ou simplesmente tristeza pelo o que ouvia.

Jay ainda não respondera a pergunta de Vivian. Os sonidos de seu ciclo respiratório curto e descompassado, a fadiga de seu corpo e as emoções que tomavam o controle de seus nervos eram as únicas notas audíveis naquele cômodo parcialmente iluminado. Corroía-me a noção de conhecê-lo há quase quinze anos e ter enfrentado tamanhos fantasmas de sua vida e ainda assim apenas ter sabedoria de Catarina tão recentemente. Machucava-me vê-lo dizer que não me merecia, apenas por ter dado fim na vida de alguns monstros de sua família e a sua presunção de imaginar que eu iria odiá-lo por isso. Eu jamais o odiaria por buscar vingança por sua irmã. Por ter se vingado das mesmas pessoas que o haviam transformado naquele ser tão repleto de dor e de rachaduras irreparáveis. Ele tinha o direito de fazê-lo e eu não fazia parte da turma da qual aguardava por uma justiça limpa e saudável. Ela não existia. Ela não se adequava a nós. Não nos salvava das mãos das pessoas que destruíram nossas mentes. Eu seria hipócrita em portar-me como alguém de falsa esperança e acusá-lo de ser um criminoso quando, em meu intrínseco, sabia que ele havia sido moldado pelos verdadeiros culpados.

— Eu não suporto a ideia de me referir a ela como algo do passado, isso me faz perceber que ela realmente está morta. Sou incapaz de pensar em Catarina como um cadáver frio debaixo da terra ou que ela tenha morrido tão cedo e não teve a oportunidade de vivenciar pequenas coisas que a faria sorrir como uma louca por dias, como ouvir os novos álbuns do Foo Fighters ou assistir Dave Grohl cantar junto de Joan Jett. Ela não esteve aqui para me ver apaixonado por uma garota, não esteve aqui para me aconselhar, me ajudar a crescer e me ensinar a ser um homem melhor. Ou ter me ajudado a escolher um anel de noivado mais bonito e um discurso mais romântico para o pedido de casamento. Ela sequer conheceu a mulher da minha vida. –pausou, arfando silenciosamente enquanto sustentava um pequeno sorriso tristonho em seu rosto agitado. — Sou impossibilitado de falar sobre ela sem que seja obrigado a vê-la morrer diante de mim, mais uma vez. Ou de pensar em quantas coisas maravilhosas ela deixou de fazer. Se ela estivesse viva, eu não seria esse fodido, quebrado, repleto de escuridão. Se ela estivesse aqui, eu não teria que cantar cada uma das novas canções do Foo Fighters em seu túmulo, como se ela realmente pudesse me ouvir. Eu não quero relembrar diariamente que ela está morta e que eu também morri com ela e me tornei... isso.

 


Notas Finais


Pobre do Tom que tá em uma posição tão confusa e WTF da vida que acha que o Gugu vai pular da porta e gritar TELEGRAMA LEGAAAAAL ou que alguém tá zoando com ele. Várias marimbas pra ele segurar.
E pobre da Amélia, que mal se recuperou de uma dissociação e já caiu nas confusões que o italiano arruma.
A transição de Jay para Jim é uma coisa que eu coloquei no meu top 5 de piores coisas que já inventei de escrever na vida. E o próximo capítulo tem David, e vocês vão conhecer à fundo a origem de cada alter-ego.
(Alguém já pensou que 'Jay' e Tom se abraçariam algum dia??) HAUAHAUAHUAHAAUHAUA

Obrigada @liliccanela por me ajudar tanto nessa parte do humor <3


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