História Lembranças - Capítulo 20


Escrita por: ~

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Categorias Orange Is the New Black
Tags Vauseman
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Palavras 5.770
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Estupro, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 20 - Cidadão Kane.


Se você dança com o Diabo, o Diabo não muda; ele muda você” era o que a avó de Piper sempre resmungava pelos cômodos da antiga casa de campo que morava no sul da Califórnia. Aquele ditado nunca fez muito sentido na cabeça de Piper, sempre achou que o que a velha se referia a sua própria infelicidade.

Elizabeth Chapman tinha sido uma das mulheres mais bonitas de Fresno, considerada por muitos uma referência em elegância. Piper se lembrava de, quando era criança, ter achado uma foto no porão da sua casa em que sua avó estava sentada no sofá, usando um elegante vestido listrado, com os curtos cabelos pretos perfeitamente alinhados, junto a brincos impecavelmente escolhidos para combinar. Ela segurava uma xícara de chá de porcelana cara e tinha um olhar etéreo para a câmera, algo que a deixava ainda mais bonita e um tanto misteriosa.

No entanto, após a morte do marido, Elizabeth se isolou em uma casa o mais distante possível de toda a sociedade de Fresno. E aos poucos, a mulher retratada naquela fotografia antiga sumiu, dando lugar a uma velha resmungona e ranzinza.

Ela não saía da casa nem mesmo para visitar sua única filha, Mary. E mesmo criança, Piper sentia um pouco de pena de Mary, ela colocava as filhas dentro do carro uma vez por ano para visitarem a avó. E em todas aquelas visitas, Piper observava como sua mãe tentava, em gestos quase desesperados, um pouco da atenção e carinho sempre ausentes em Elizabeth.

Mesmo pensando que podia não passar de rabugice, Piper sempre pensava sobre aquele ditado e tentava entender seu verdadeiro significado. Parecia significar muito mais do que um resmungo de uma velha solitária. No entanto, não esperava que aquele fosse o dia em que a frase finalmente faria sentido para ela.

Acordou naquela manhã se sentindo preguiçosa. Espreguiçou-se, esticando todo seu corpo pela cama e coçou os olhos com as costas das mãos. E um sorriso meio bobo brotou em seus lábios ao perceber que tinha um novo anel em seu dedo. Um tímido raio de sol escapou pela janela e correu até seu dedo, refletindo no belo diamante que estava ali e formando um arco-íris pelo teto.

Olhou para o lado, buscando Alex, e não encontrou sua noiva, apenas o seu lado da cama perfeitamente arrumado, como ela sempre deixava ao acordar. Já podia imagina-la arrumando Ariel para a escola no andar de baixo e falando sem parar sobre aqueles assuntos que pareciam nunca ter fim entre as duas. Antes de dormir, ela e Alex tinham combinado de contar naquela mesma manhã para Ariel sobre o casamento, queriam que ela fizesse parte daquele momento e também porque temiam ouvir mais uma bronca dela por tentar esconder algo dela. Não tinham medo da reação da menina, sabiam que a pequena loirinha adoraria saber que Alex ficaria para sempre, oficialmente.

Mesmo com toda sua falta de sorte, Piper sentia que não era azarada por completo. Tinha sorte de ter alguém como Alex na sua vida, completando-a, sendo todo aquele apoio que precisava. Conversaram a noite inteira sobre tudo, principalmente do que aconteceria com aquela ameaça de Brad à espreita. Alex mostrar todo seu apoio e o quanto aquela situação a incomodava, não apenas porque afetava Piper, mas porque ela realmente amava Ariel e se preocupada com ela. E mesmo que ainda não concordasse com a decisão de Piper de não revelar nada sobre o estupro, ela respeitou.

Não, não era uma azarada, repetiu a si mesma mentalmente. Com todos aqueles encalços, ela tinha o amor verdadeiro ao seu lado e estava pronta para enfrentar Brad e todo seu exército de advogados no tribunal.

Movida por sua pequena alegria matinal, vestiu seu robe verde esmeralda e desceu as escadas quase bailando com os pés descalços. Ao chegar ao último degrau, parou, sentiu o cheiro de bacon espalhado por toda a casa. Ela fechou os olhos e se permitiu ser consumida lentamente por aquela gordura, sentindo um pouco de culpa por ser uma médica que geralmente restringia o bacon na dieta dos seus pacientes.

 

— Piper? É você? – ouviu a voz de Dakota vir da cozinha, tão doce e materna como sempre era.

 

Piper flutuou até onde sua mãe postiça estava cozinhando e sentou-se na bancada, apoiando os cotovelos no mármore frio e o rosto nas mãos, de um modo que deixasse seu anel totalmente a vista para Dakota.

 

— Onde está Alex? – Piper perguntou, tentando parecer casual.

 

A mulher estava de frente para o fogão, mexendo em alguma coisa na frigideira quando se virou para responder:

 

— Foi com Ariel at... – ela parou, olhando diretamente para a mão de Piper com o anel.

 

A loira piscou várias vezes, tentando se fazer de desentendida.

 

— Qual o problema, Daks?

 

Dakota desligou o fogão e soltou a panela que segurava em qualquer lugar em seguida, voou até onde Piper estava, puxando sua mão para conferir se estava mesmo vendo corretamente. Sua boca se abria e fechava, tentando encontrar palavras para dizer, mas nenhuma saía, apenas alguns sons estranhos e suspiros, muitos suspiros.

Piper jogou sua cabeça para trás soltando uma risada.

 

— Oh meu bom Deus! – Dakota finalmente conseguiu dizer – você vai se casar, menina?

— Não se minha mãe não permitir.

 

Os olhos negros de Dakota ficaram confusos com o comentário e uma pontada de ressentimento, mágoa ou ciúme apontava no fundo.

 

— Não sabia que era importante a opinião de Mary... – foi reticente, incapaz de controlar o ciúme que sentia da mãe biológica de Piper.

 

Sempre soube que Dakota tinha ciúmes da sua mãe, sempre que o assunto surgia, escapando da boca de Lorna ou Carl, a mulher sempre se distanciava ou mudava de expressão. Mas Piper não se referia a Mary, mal pensava nela, muito menos nela como mãe. Mary era uma lembrança tão distante que ficava no fundo da sua cabeça, em um baú empoeirado que não tinha o menor interesse em abrir.

Em todos aqueles anos, tinha descoberto o verdadeiro significado da palavra mãe. Tinha descoberto com Ariel que o amor de uma mãe era irracional, capaz de qualquer coisa para a proteção do filho. Diferente do que Mary considerava como sendo uma boa mãe, levando-a em todos aqueles concursos e tentando mostrar através de todas aquelas tiaras o seu valor, ser mãe estava em coisas pequenas, como da vez em que Ariel pegou catapora e ficou aborrecida porque tinha pintinhas pelo corpo, Piper foi até seu quarto e pegou uma caneta, encheu seu corpo com pequenas pintinhas pretas e voltou para o quarto da filha, ouvindo-a rir levemente.

E para sua sorte, percebeu que tinha uma mãe bem ao seu lado.

Piper se espreguiçou mais uma vez, deixando a tensão e o ciúme de Dakota preencher um pouco o espaço.

 

— Na verdade, não estou falando de Mary. Estava falando da minha verdadeira mãe... – fez um último suspense que durou meio segundo, antes de finalizar: - Você.

 

A mãe postiça de Piper ficou ainda mais confusa, mas logo seu rosto foi ficando neutro e então se formando em uma emoção genuína. E mais uma vez, Piper teve certeza que estava diante da sua mãe. A mesma que iria com ela provar o vestido de noiva em alguma boutique e choraria assim que a visse de branco.

Levantou-se do banquinho e deu a volta até onde Dakota estava para abraça-la e demonstrar que falava sério.

Foi então que a mesma mulher que foi sua rocha por todos aqueles anos, se desmanchou em lágrimas. Ela chorava tanto que seu corpo tremia. Piper riu baixinho e segurou seus ombros para encara-la. Ela mal conseguia olhar a loira nos olhos, seus tão intensos olhos pretos estavam imersos em água.

 

— Sempre achei que soubesse que tinha uma filha loira perdida – disse em um tom quase de brincadeira, mas sabia que Dakota entenderia que estava falando sério

— E eu sempre quis ter uma filha como você – ela revelou em meio as suas lágrimas.

 

Aquele foi o momento dos olhos de Piper marejarem e caiu nos braços de Dakota mais uma vez, pedindo um pouco daquele carinho que ela sempre estava pronta a dar. Não imaginava como destino podia tê-la presentado com uma mãe melhor do que aquela, que apenas com um abraço, conseguia transmitir todo seu amor.

Naquele mesmo momento, a porta de entrada se abriu, anunciando a chegada de alguém e as duas limparam as lágrimas, tentando se recomporem, antes de virarem para conferir quem era.

Da porta, Ariel e Alex as encaravam, segurando suas sacolas de papelões nas mãos, sem entender o motivo de todo aquele choro, e Piper riu de suas expressões.

 

— Ariel não teve aula, a professora dela está doente – Alex explicou, com olhar desconfiado.

— Catapora – a menina completou. – Por que estão chorando? – Ariel quis saber, com uma forte dose de curiosidade na voz.

— Contei uma coisa a Dakota agora – foi tudo que Piper disse.

— Por que não olha para o dedo da sua mãe? – Alex disse a pequena, dando um empurrãozinho de leve no seu ombro para encoraja-la.

 

Com passos decididos dignos de uma investigadora policial, Ariel atravessou a sala e foi até sua mãe, puxando sua mão para conferir o que tinha de diferente. Ela parou assim que viu o anel de noivado.

 

— Você podia ter presenteado minha mãe com uma hamster que eu chamaria de Sandy e dá um anel? Você já foi mais inteligente, Alex.

 

As três mulheres da casa explodiram em gargalhadas, deixando a menina confusa. Alex se aproximou dela, colocando as sacolas de compras na bancada, e se ajoelhou para ficar na sua altura, segurando um dos seus braços antes de explicar o que realmente significava aquele presente que dera a sua mãe.

De onde estavam, Piper e Dakota se inclinaram na direção das duas, curiosas para ver que palavras a morena escolheria usar para contar sobre o noivado.

 

— Ari, eu não dei esse anel à toa... – começou, parando para procurar palavras ideais – Ele significa que eu quero viver para sempre com ela. Com vocês duas, quero ficar para sempre na casa de vocês e quero que depois, quando sua mãe terminar a residência, vocês duas possam ir para São Francisco, para o seu quarto com vista para as pontes. Isso se você também quiser me ter na sua vida.

 

Ariel pensou por um minuto no que tinha acabado de ouvir.

 

— Você quer casar com ela?

 

Alex concordou com a cabeça. Então Ariel virou-se para sua mãe e perguntou em um tom quase inquisitório:

 

— E você aceitou, não aceitou?

— Não deveria?

 

Ela levou mais um minuto para responder.

 

— Isso significa que eu finalmente posso te chamar de mãe? Treinei “mãe Al” para te chamar. O que acha? – ela perguntou, simplesmente, a Alex, como se tivesse ficado melhor de um resfriado e quisesse a permissão para finalmente tomar um sorvete.

 

A sinceridade e simplicidade daquele pedido fez com que Alex titubeasse de onde estava. Estava acostumada com a Alex durona, a mesma que sempre se intitulou como uma rebelde, a mesma que tinha sido seu porto seguro todos aqueles dias e sempre se surpreendia ao vê-la demonstrando seus sentimentos, mas naquele momento, viu uma Alex totalmente diferente. Havia tantos sentimentos em seu olhar que Piper nunca saberia definir quais eram exatamente. No entanto, um se destacava, e esse ela sabia definir exatamente qual era. Amor.

Havia um amor tão puro no olhar de Alex para Ariel, um amor sem qualquer maldade, sem qualquer interesse. Naquela hora, percebeu que tinha mesmo sorte por ter Alex na sua vida, não só porque ela era seu apoio, mas porque ela amava Ariel como amava uma filha mesmo. Tinha de fato, adotado a menina de todo seu coração. E era aquilo que Ariel era para ela e também era aquilo que a menina queria ser.

Ela puxou a loirinha para um abraço, que não entendeu direito o motivo de toda aquela emoção, apesar disso, aceitou o abraço feliz.

Alex estava pronta a dizer alguma coisa, porém o telefone tocou, impedindo-a. Piper olhou para Dakota, mas a mulher nem correspondeu o olhar, virou de volta para seu fogão em uma ordem silenciosa para que fosse atender.

Marchou até o telefone, amaldiçoando em seus pensamentos quem quer que fosse e estivesse atrapalhando aquele momento. Atendeu o aparelho já bufando, no auge da sua impaciência.

 

— Piper? – a voz do outro lado a chamou – sou eu, querida. Diane. Como você está?

 

Um frio percorreu a espinha de Piper, no mesmo momento.

 

— Aqui está tudo bem. Aconteceu algo?

— Na verdade sim – ela respirou alto no fone, esperando alguns segundos antes de finalmente bombardear com a notícia: - querida, eu liguei para o advogado do Brad para tentar entrar em algum acordo, mas foi em vão. E, bem, ele quer uma visita.

— Visita? – Piper quase gritou, e percebendo que estava perto da filha, ela caminhou até o quintal e fechou a porta para que pudesse expressar a raiva que sentia começar a correr pelas suas veias – ele não pode fazer isso, pode?

— Desculpa pelo que vou dizer agora, mas... Ele é o pai... E se você impedir, só vai te trazer mais problemas na frente do juiz. Demonstre que você está agindo com bondade

 

Piper jogou o telefone para longe, ciente de que tinha sido grossa e mal educada com sua sogra. Pediria desculpa a Diane mais tarde quando estivesse mais calma. Naquele momento, só queria gritar toda a fúria que sentia. Contudo, nem isso ela conseguia.

Sentou no degrau que antes tinha sido palco da sua revelação a Alex e afundou sua cabeça entre os joelhos. Quis chorar, mas nem mesmo chorar ela conseguiu. Tudo que ela conseguia era sentir aquela raiva que não sabia onde descontar.

Aquela era a primeira – e provavelmente única – vez que não sentia raiva de Brad, sentia apenas de si mesma. Mais uma vez, tinha caído em uma armadilha dele e a enraivecia saber que tinha caído nela tão ingenuamente.

Não tinha mais como escapar, precisaria contar a sua filha toda a verdade sobre seu pai e sobre como mentiu, e inventou aquela história tão bonita e cheia de firulas. Já podia pressentir que Ariel não reagiria bem a nada daquilo. Ela detestava mentiras, mesmo as pequenas em filmes ou livros, por aquele mesmo motivo ela preferia ver documentários a desenhos animados, e essa qualidade da filha sempre trouxe orgulho a Piper, mas que no momento, ela preferia que não existisse.

Na época que inventou aquela história, Piper não pensava que sua vida mudaria tanto, as coisas tinham sido iguais por anos, não havia muita perspectiva de mudanças. Ariel só tinha cinco anos e perguntava dia e noite sobre porque não tinha um pai como as outras crianças da escola. No começo, tentou se esquivar, mas não houve como escapar no dia em que ela chegou chorando porque era o dia dos pais na escola e ela não sabia quem era seu pai. E como dizer a filha que seu nascimento, apesar de todas as coisas boas que trouxe, veio de algo que lhe causou dor? Como dizer a uma criança que o pai dela era um monstro? Decidiu, então, que era melhor criar um pai, um bom pai que ela teria orgulho de contar sua história aos amiguinhos da escola. E ela adorava aquela história, por anos, foi sua favorita.

A angustiava saber que precisaria revelar a Ariel que nada daquilo era verdade, que ela tinha um pai vivo e respirando, que a partir daquele momento queria não só conviver com ela, como sua guarda integral. E o que mais a irritava era não ter ideia de como faria nada daquilo.

De repente, sentiu uma mão sobre seus cabelos, acariciando-os levemente. Por algum tempo, a dona da mão disse nada e Piper a agradeceu por aquilo.

Levantou a cabeça e encostou-se a Alex, inspirando seu perfume e pedindo que com aquele aroma viesse a coragem necessária para entrar em casa e fazer o que precisava fazer.

 

— Alex... Como vou contar a verdade para Ari? – indagou em um suspiro cansado

— Ele quer vê-la?

 

Piper não respondeu. Não conseguiria confrontar aquilo ainda.

 

— Se eu pudesse o mataria lentamente, pessoalmente – Alex respondeu com uma fisgada de raiva em sua voz.

— Eu te ajudaria – se divertiu um pouco com a imagem e aquilo a ajudou a relaxar.

— Já pensou em usar aquela faca que a Dakota usa para cortar o peixe? Nós podíamos começar o corte por baixo pelos órgãos sexuais. Eu faria, porque não tenho conhecimentos médicos ia fazer tudo ser mais doloroso.

— Meu pai tem uma arma.

— Arma é muito rápido, Sunshine.

 

Mesmos sem querer, Piper desatou a rir e esfregou seu rosto no pescoço de Alex, tentando agradecer por estar ali.

 

— Se sua mãe tivesse mentido para você sobre seu pai... O que faria?

— Ia me poupar algumas decepções. Não sei se lembra, quando éramos adolescentes, ele tentou me procurar. Bem, eu o procurei, um tempo depois de você sumir e por alguns anos foi divertido estar com ele, mas então ele sumiu e me largou novamente. Casou-se com uma nova mulher e me esqueceu de novo. Minha mãe podia ter mentido, evitaria todas essas desapontamentos. Mesmo assim, eu prefiro a verdade. Algumas decepções na vida são inevitáveis, mesmo que você queira, não pode evitar que Ariel sofra as dela. Eu também odeio que o senhor Cidadão Kane esteja por perto, mas...

— Fico pensando... E se eu tivesse contado a verdade desde o começo? Ou, melhor... E se eu tivesse sumido para valer mesmo? E se eu tivesse olhado para trás naquele dia em que ele me jogou no carro? Se eu não tivesse ido até Fresno? E se... – soltou o ar, frustrada.

— Piper, não adianta ficar pensando no seu passado, pensando no por que ou no que faria diferente, no que aconteceu, no que não aconteceu... Ou você vai ter mil passados e nenhum futuro.

 

No mesmo momento em que ouviu aquilo de Alex, a porta que separava o quintal da casa rangeu e alguns passinhos curtos se aproximaram das duas mulheres.

 

— Mãe? Você está bem? – Ariel perguntou, sentando-se entre Alex e Piper

— Estou, meu amor. Desculpe ter saído daquela forma, eu estava resolvendo uma coisa com sua avó Diane

— Que coisas?

 

Piper olhou para Alex pedindo um pouco de apoio e a morena retribuiu o olhar.

 

— Querida, lembra quando te contei sobre seu pai? – Piper tentou começar.

— Sim. Você sabia que meu pai era um soldado, mãe Al? Ele morreu na guerra – a menininha repetiu a história em um tom que combinava orgulho e admiração.

 

Com o braço, Piper passou em volta da filha, puxando-a mais para perto.

 

— Quero que me escute com atenção – pediu, delicadamente e a pequena assentiu – há alguns anos, quando eu conheci seu pai, eu morava em Fresno... Ele era meu namorado na escola e muitas pessoas queriam que ficássemos juntos. Mas eu não sabia se o amava, não da mesma forma que amo a Alex. Eu vivia triste pelos cantos até que conheci a Alex e ela me fez muito, muito feliz. Seu pai e eu então brigamos, tivemos uma briga muito feia. E eu senti muita raiva dele. Então, eu me mudei para cá, desejando esquecer tudo – Piper precisou tomar um pouco de ar – e nunca mais soube dele, ele também nunca me procurou. Então quando você começou a me fazer perguntas... Eu só pensava em como não deixar que você sentisse a mesma raiva que eu tinha dele. Por isso, eu disse que ele era um soldado... Na verdade, ele se chama Brad e se casou com uma garota que era minha amiga na escola, o nome dela é Hannah. Os dois moram em Fresno e há alguns dias, estão querendo conhecer a menina maravilhosa que você é.  É por isso que tenho andado tão aborrecida pela casa... Tenho medo que ele me roube de você e que a gente brigue mais uma vez...

 

Fez-se um silêncio e a cada segundo, Piper sentia que estava prestes a enlouquecer,

Não fazia ideia do que se passava na cabecinha de Ariel naquele momento. Tentou escolher as melhores palavras que conseguiu para explicar aquela história e torcia para que Ariel acabasse perdoando-a.

A menina se levantou e olhou a mãe no fundo dos seus olhos. Piper ouviu seu coração partir-se ao meio quando percebeu as lágrimas no rosto da filha e como ele tinha ganhado um tom vermelho. Como uma mãe, odiava ver sua filha chorar. Mas aquilo... Aquilo a quebrou. As lágrimas tinham sido causadas por ela.

Se levantou na mesma hora e tentou se aproximar da filha, mas ela recuou.

 

— Você mentiu para mim! – a menina disparou

— Me desculpa, querida... Eu só queria fazer o que fosse melhor para você

— Só porque você não gosta dele tinha que mentir para mim? Você é uma mentirosa! Você sabe que eu odeio mentiras e foi a maior mentirosa de todas! Eu te odeio!

 

Ela empurrou Piper e correu o mais rápido que pode para dentro de casa, sumindo.

 

Porra! – Piper brigou afundando seu rosto nas próprias mãos, pedindo um pouco de sanidade.

 

Sentiu as mãos de Alex sobre seus ombros e um sussurro calmo e contido:

 

— Vou falar com ela... Fique calma. Vai ficar tudo bem.

 

A loira percebeu que estava sozinha e se sentiu sendo engolida por uma avalanche de sentimentos ruins. Raiva, tristeza, dor, todos tinham sua vez.

O que mais a deixava irritada era saber que tinha causado dor a sua própria filha, não havia nada mais desesperador do que aquilo para ela. Preferia enfrentar leões a ver sua filha magoada.

Recordava-se perfeitamente da promessa que fez a si mesma, desde o dia em que viu Ariel pela primeira vez, que cuidaria bem dela, que nada de ruim atingiria as duas. E naquele momento, parecia que um cometa estava vindo à direção de sua casa e não havia nada que Piper pudesse fazer para impedir a destruição. E o que era pior, ela já sentia os reflexos da destruição antes mesmo dela acontecer definitivamente.

Estava se sentindo cada vez mais engolida por todos aqueles sentimentos, principalmente a ira. Uma ira tão forte que a estava cegando.

Olhou para sua frente. Era um dia ameno, fazia sol, mas não estava quente, podia sentir uma corrente de vento frio atravessar seu corpo. No entanto, se sentia tão quente que até achou que pudesse estar queimando. A raiva explodia em seu corpo.

Precisava fazer alguma coisa, disse a si mesma. Não podia se permitir ser afetada daquela maneira por aquele meteoro e não fazer nada. Precisava ser uma mãe e proteger sua filha. Não podia deixar que ela fosse magoada. Não se permitiria mais sentir nada do que estava sentindo.

Com passos decididos ela subiu até seu quarto e jogou algumas roupas, sapatos de salto, algumas maquiagens e seu perfume mais forte numa bolsa que costumava carregar suas mudas de roupas para o hospital. Em seguida, tomou um banho demorado e usou seu sabonete favorito. Vestiu seu uniforme do hospital e desceu, deixando para Dakota o aviso de que estava indo trabalhar e voltava mais tarde.

Entrou no carro e se inclinou para pegar seu frasco de calmantes. Mas, assim que tocou o frasco, ela desistiu. Precisava sentir aquela raiva ou não conseguiria fazer o que estava prestes a fazer. E começou depositando tudo aquilo no acelerador.

Em menos de vinte minutos estava na divisa da sua cidade com Fresno. Parou em um ponto deserto da estrada e travou as portas. Vestiu o vestido azul que tinha separado e o casaco por cima. Puxou a viseira e usou o espelho para fazer sua maquiagem. Mesmo que não usasse tanta maquiagem, conseguia se lembrar, exatamente, da forma como se maquiar para os concursos. Passou uma sombra forte nos olhos e usou uma forte camada de delineador. Finalizou com um batom vermelho que tinha ganhado de Lorna no Natal e nunca tinha usado. Soltou seus cabelos loiros da mesma forma como fazia quando era adolescente, da forma que Mary mais gostava, para moldar seu rosto. Parecia a mesma Piper de antes, a miss, a campeã de danças, a senhorita perfeita com seus trezentos e setenta e nove troféus.

Jogou a bolsa de lado e continuou a estrada.

Algo no fundo da sua cabeça dizia sem parar para que ela interrompesse o que estava fazendo, mas ela ignorava com toda a força que tinha. Defenderia sua filha daquela vez, era o que dizia àquela parte de sua cabeça. Cumpriria sua promessa e ninguém a impediria.

Estacionou o carro na frente do prédio mais bonito de Fresno, se recusou a verificar o nome que dizia na placa, não podia perder a coragem. Tirou sua aliança e guardou dentro da bolsa, não queria que Alex estivesse com ela naquele momento. Não naquele momento, pelo menos.

Calçou os sapatos de salto e deu uma última espirrada de perfume no seu pescoço. Estava pronta.

Desceu do carro e andou rapidamente até o prédio, ouvindo seus passos pelo piso do hall. Ignorou uma recepcionista que começou a perguntar sem parar o que ela era e o que queria, a mulher até tentou segui-la, mas Piper foi mais rápida. Conhecia aquele prédio perfeitamente, sabia exatamente onde ficava o elevador e o andar que queria parar. O prédio inteiro refletia o luxo e como aquela empresa ia bem.

Assim que as portas do elevador se abriram, uma secretária ruiva, de pernas grossas e o maior par de seios que Piper tinha visto na vida, avançou nela com as mesmas perguntas que a recepcionista. E da mesma forma como tinha feito com a recepcionista, Piper a ignorou. Caminhou decidida em direção ao seu objetivo e abriu a porta, vendo o belo escritório com uma janela de vidro enorme que ela podia ver toda cidade. Havia uma bela estante de livros antigos em um lado e no outro um grande sofá de couro. No centro, uma mesa de vidro com duas cadeiras na frente e uma cadeira de couro preta virada para a janela. Era tudo tão grandioso, que Piper se sentiu ligeiramente diminuída.

 

— Oh meu Deus, essa mulher chegou aqui agora e ignorou totalmente minhas perguntas – a secretária se apressou em se explicar – Desculpe-me incomodá-lo, eu tentei dizer que estava ocupado... Vou chamar a segurança agora mesmo

 

A cadeira de couro preta se virou em direção a Piper e a secretária revelando o causador de todo o meteoro.

Ele pareceu surpreso ao ver Piper, mas devia começar a imaginar o que ela fazia parada ali e então sorriu de um jeito que beirava o cinismo.

Piper já podia sentir suas pernas tremendo, exatamente como tinha acontecido no encontro anterior dos dois. Juntou todas as suas forças e tentou se lembrar de toda a raiva que sentia para continuar ali e não correr para o banheiro vomitar, como sempre fazia quando o assunto era ele. Tentou se lembrar do rosto de Ariel e que estava fazendo aquilo apenas por ela.

 

— Está tudo bem, Stephanie, Eu a conheço – a voz de barítono dele dispensou a mulher.

 

Mesmo contrariada, a mulher saiu, deixando os dois sozinhos.

 

— Quando acordei essa manhã, tudo que eu menos imaginava ter era um encontro com você, P.

— Eu também – ela disse, tentando não deixar sua voz vacilar – e, por favor, não me chame de P. Piper. Use Piper

— E a que devo a honra, Piper? – ele repetiu seu nome, com uma calma e cinismo que a enervou.

 

Ela jogou os cabelos para trás, tentando demonstrar que ainda tinha o mesmo encanto de antes, que ele em nada a tinha afetado, mesmo sabendo que no fundo, ainda sentia o mesmo nojo, asco, consumindo-a completamente assim que sentia os olhos dele em cima dela.

Apontou para a cadeira na frente da mesa dele e ele assentiu. Caminhou até a cadeira com os passos dignos de uma miss e cruzou as pernas assim que sentou.

Brad não disfarçou a forma faminta como devorou suas pernas com os olhos e mesmo achando que era impossível, ela sentiu mais um pouco de nojo.

 

— Vim conversar sobre Ariel. Minha filha – ela frisou a frase final.

— A filha que você me escondeu todos esses anos? Qual é, P... Piper – corrigiu, apenas para testar a paciência dela – como pode esconder de mim que eu tinha uma filha adorável?

—  Por favor... – ela massageou suas têmporas – não seja cínico. Está me irritando um pouco. O que realmente te fez ir atrás da minha filha? Seja sincero, você não precisa inventar mentiras para mim que sei exatamente a pessoa abominável que você é.

 

Ele fez um beicinho e apoiou os cotovelos em sua mesa de vidro.

 

— Assim você me magoa. Sempre nos divertimos tanto juntos.

— Brad... Por favor. Pare... Só diga.

 

Brad pigarreou e se arrumou na cadeira.

 

— Meu pai está pensando em me lançar como candidato a senador nas eleições do ano que vem e preciso mostrar que sou um homem bom. O que sempre fui, mas você sabe... As pessoas gostam de ver famílias, gostam daquela imagem. Ao que parece, Hannah não é capaz de me dar um filho, então, naquele dia, Anne mencionou que você tinha uma filha... E como você é lésbica... E naquele outro dia nos divertimos um pouco, eu fiz alguns cálculos. Mas só virou mesmo uma opção quando passei de carro pelas ruas de Fresno uma noite e vi você, um casal de velhos e aquela sua namorada lésbica de quase dois metros passeando com a garotinha. Piper, você acredita que fui tomado por aquele sentimento de pai para filho?

 

Controlou sua vontade de avançar nele e deferir todos os golpes que fantasiou mentalmente. Não o deixaria pensar daquela vez.

 

— O que você quer para nos deixar em paz?

 

O homem na sua frente gargalhou da sua proposta como se ela estivesse oferecendo conchas em troca de ouro. Mas ela manteve sua expressão categórica e ele percebeu que falava sério. O homem encostou as costas na cadeiras e cruzou os braços sobre o peito, pensativo.

Brad sempre tinha sido um garoto bonito na escola, metade das garotas na escola dariam tudo que tinham por uma noite com ele. Muitas a invejavam por tê-lo namorado, coisas que ela jamais entendeu o motivo.

Ele era tão... Tão...

Era fato que Brad tinha feições dignas de um modelo, que conseguira preservar depois de todos aqueles anos. O nariz bem esculpido, o queixo quadrado, as grossas sobrancelhas castanhas em cima dos olhos azuis penetrantes que ainda conseguiam fazer Piper se sentir levemente amedrontada. E naquele momento, tinha deixado uma barba crescer, deixando-o um pouco mais velho.

Podia imaginar o motivo da secretária dele ser tão bonita e do motivo dela se sentir tão contrariada ao deixar Piper sozinha na sala com ele.

Assim como Piper, Brad sempre levou sua beleza como uma arma para conseguir o que queria. E ali, dentro de um terno feito sob metida, mesmo com tudo que tinha feito a ela, ele ainda tentava jogar seu charme sobre ela. 

Se ele soubesse que a única coisa que despertava nela era repulsa se conteria no jogo que tentava fazer, pensava Piper, penosamente. 

 

— Fique de pé – ele disse em tom de ordem.

— Como?

 

Não tornou a repetir.

E como se fosse um robô obedecendo ao comando dele, Piper se levantou, alisando seu casaco marrom em um gesto nervoso. 

Brad deu a volta pela mesa e se encostou do outro lado, fitando-a.

 

— Você ainda está muito bonita, o tempo não te mudou como mudou Hannah.

— Obrigada. Mas, por favor, me diga o que quer para me deixar em paz, não tire minha filha de mim. Você não a ama, eu sim. Ela é só uma criança, deixa-se em paz. Se quer fazer uma maldade, a faça contra mim, não ela.

 

Brad se desencostou da mesa, deu um último passo que o separava de Piper, e pousou seus dedos nos lábios dela. No mesmo momento, Piper foi engolida por um desejo forte de sair correndo dali, misturado a uma ânsia de vômito e um medo.

Fechou os olhos, sabendo que estava prestes a enfiar um punhal no próprio peito e lembrou-se que estava ali por sua filha e se fosse necessário aquilo, ela o faria, até mesmo com deleite. 

Sentiu a barba de Brad roçar em seu pescoço e seus lábios sugarem o lugar com certa violência. A mão dele a explorava por dentro de seu casaco, tocando-a com voracidade. Ela tentava segurar a ânsia de vômito que sentia, assim como os gritos que começavam a ficar presos em sua garganta.

Em um súbito momento de racionalidade, Piper abriu os olhos e viu seu reflexo pelo vidro da janela. Tudo que conseguia ver o rosto de uma mulher que estava vendendo sua própria alma ao diabo. Automaticamente, empurrou aquele homem repugnante dela e imediatamente sentiu o peso do seu ato. Ele podia destruí-la em menos de cinco segundos, roubaria sua filha sem nenhum peso, o único bem precioso que ela tinha.

Mas Brad não parecia com raiva, ele parecia vitorioso e soltou uma risada de escárnio para ela. Naquele momento, Piper percebeu que ele não faria nada do que ela pedisse, nem mesmo se ela tivesse continuasse deixando-o tocá-la. Ele já tinha tudo planejado e não se importaria em roubar sua filha dela. Ele não tinha coração, ela já devia saber.

Começou a arfar e recuou em passos incertos.

 

— Nos vemos no tribunal, P. Prometo que vou deixar o dia de hoje como um segredo nosso, assim como você quis deixar aquele nosso segredinho sujo no passado.

 

Aos tropeços, ela saiu do escritório. Podia ouvir a voz da secretária de Brad ao longe, mas ignorou. Correu até o elevador que para sua sorte estava aberto, assim que as portas se fecharam, ela apertou todos os botões para pará-lo no andar. No mesmo momento em que sentiu o baque da parada, encostou-se à parte com o espelho do cubículo e deixou seu corpo escorregar até o chão. A partir daquele momento, todas as lágrimas que não conseguiu expelir, saiam em um choro descontrolado. Os gritos que ficaram presos em sua garganta, agora saíam sem intervalos. Passou as mãos pelo rosto tirando toda sua maquiagem, sem se importar se ficaria borrada.

Sentia-se humilhada, suja. Sentia-se tola. Como podia ter sido tão tola? Como podia mais uma vez ter caído na armadilha dele?

Com suas mãos se movendo desesperadas, ela tirou o casaco e o jogou. Arranhava seu corpo seu parar, querendo tirar aquela sujeira que ela sentia ter impregnado em sua pele.

No mesmo momento, lembrou-se do ditado da sua avó e soube de imediato o significado que refletiu por tantos anos. Ela mais uma vez tinha dançado com o Diabo e mais uma vez, ele a tinha mudado.

 



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