História Lembranças - Capítulo 21


Escrita por: ~

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Categorias Orange Is the New Black
Tags Vauseman
Exibições 395
Palavras 5.040
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Estupro, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Estou quase terminando de postar os capítulos que estavam prontos. Yay!

Capítulo 21 - P.S I love you.


Ao ver Ariel correr do quintal onde estava com ela e Piper, com as lágrimas nos olhos e todas aquelas palavras de ódio em direção a sua mãe – que definitivamente não combinava com a menina -, Alex sentiu certo aperto em seu peito quase insano e que ela jamais saberia explicar o motivo ou a intensidade, apenas que nunca tinha se sentido daquela forma.

Não gostava de ver a menina mal, mas vê-la chorando, foi como uma tortura. E de fato, enquanto subia as escadas em busca da pequena, pensava que trocaria fácil ser torturada desde que Ariel parasse de chorar. E talvez, fosse naquele momento, apenas naquele momento, contra todos os planos que tinha feito e a vida que tinha planejado tão meticulosamente antes de entrar no carro com Nicky e Anne em São Francisco para voltar para Fresno, que Alex finalmente tivesse percebido que tinha se tornado mãe de Ariel também. E com isso, também percebeu por fim, o verdadeiro significado daquela palavra.

De certa forma, Alex entendia o que Ariel estava sentindo. Diane nunca mentiu sobre seu pai, pelo contrário, a verdade saiu dos lábios de sua mãe era sempre tão crua, que ela, em alguns momentos, sentiu vontade que a advogada tivesse mentido sobre o pai. Ao mesmo tempo, embora a verdade fosse cruel, saber a verdadeira história sobre John Vause, a fez crescer muito, e saber que se não conviveu com o pai, não era por falta de oportunidade, mas porque ele optou que fosse dessa forma. Para Alex, e talvez também para Ariel, era muito melhor saber a verdade, por pior que ela fosse, do que viver na imaginação, a imaginação sabia ser cruel da sua própria forma também.

Assim que encontrou a porta de Ariel fechada, Alex bateu timidamente na madeira escura. Como era de se esperar, não houve resposta. Inspirou profundamente, tentando unir para si todas as palavras que precisava dizer a Ariel e então girou a maçaneta um pouco hesitante, deixando que o rangido que se seguiu denunciasse por si só sua chegada.

A pequena loira estava sentada no peito da janela, com o nariz encostado ao vidro. Ela não se virou para ver do que se tratava, mas Alex pode ver seus olhos azuis curiosos a encararem pelo reflexo do vidro, e os pequenos ombros subirem e descerem em um suspiro quase aliviado por não ser Piper.

Percebeu que ela também não chorava mais, só parecia um pouco perdida, talvez confusa com o bombardeio de informações daquela manhã.

Como a mãe, Ariel era forte. Já tinha percebido aquilo algumas vezes. Mesmo quando levava um tombo, ralava seus joelhos ou por manha, ela sempre engolia o choro e se fazia de forte. Alex sempre considerou aquilo uma qualidade das duas, no entanto, naquele momento era um pouco perigoso.

A morena ficou parada no meio do quarto, encarando as costas de Ariel. Não queria iniciar a conversa, conhecendo-a como conhecia, sabia que ela precisava, sozinha, achar seu momento certo para começar a falar. E ele chegou apenas alguns minutos depois:

 

— Se veio a mando dela, pode dar meia volta – ela ameaçou de onde estava, sua voz estava um pouco chorosa.

 

Alex relaxou com aquela deixa e sentou na ponta da cama, alisando o cobertor do Toy Story favorito da pequena.

Observou um pouco o quarto em sua volta, Piper tagarelou em uma noite que tinha feito de tudo para não deixar o quarto da filha parecido com o seu antigo quarto e mesmo não conhecendo o antigo quarto da mulher, Alex podia ver que ela tinha feito um bom trabalho.

O quarto não tinha nada das cores definidas socialmente como sendo de meninas. Pelo contrário, era azul, com algumas flores de papel vermelhas coladas na parede que estava encostada a cama. Havia alguns livros enfileirados em uma pequena estante de madeira, perto da janela que ela estava sentada. Do outro lado da grande janela com cortina de peixes desenhados, Alex fez uma pequena tenda de cobertores que mantiveram permanentemente e que mais tarde Ariel intitulou como “forte oficial permanente”. Tudo tinha tanto a cara de Ariel. Até mesmo o cheiro de jasmim que a garotinha exalava, podia se sentir no quarto.

Por fim, olhou em direção a cortina de peixes e deixou que as palavras saíssem dos seus lábios:

 

— Não vim a mando dela, vim só saber se queria ver um filme comigo.

 

A garota de cabelos loiros virou imediatamente para Alex, perplexa e ao mesmo tempo aliviada por Alex não ter tocado no assunto de imediato. E imediatamente a morena se sentiu aliviada por ter seguido o caminho certo.

 

— Veio até aqui me pedir para ver um filme com você? – perguntou com certa incredulidade na voz.

— Por que não? Apesar de eu não conhecer meu pai direito, foi uma das poucas coisas que ele me ensinou, que filmes podem nos ajudar quando estamos tristes.

 

A informação sobre John saiu de propósito, queria que naquele dia, Ariel a visse como uma amiga que a entendia, que sabia exatamente como era crescer sem um pai ao seu lado. E quando viu a menina caminhar até ela, com uma faísca de curiosidade no olhar, soube que sua estratégia tinha dado certo.

 

— Que filme nós vamos ver? – indagou ela, sentando-se do outro lado da cama

— O que quiser, até mesmo My Fair Lady pela milésima vez.

— Ninguém te mandou me apresentar o filme! – exclamou, defendendo-se da acusação de obrigar Alex e Piper a ver aquele filme com ela incansáveis vezes todos os domingos.

 

Alex não quis fazer Ariel descer até onde Piper estava, um encontro das duas naquele momento seria desastroso, então desceu para buscar o filme e seu computador na sala. Quando estava colocando seu pé no primeiro degrau da escada para voltar ao seu objetivo, ouviu Dakota avisar do outro lado da sala que Piper tinha saído e pedido para avisar que fora para o hospital.

Naquela ocasião, ficou feliz e até aliviada por sua noiva ter decidir ocupar sua cabeça com o seu tão adorado trabalho e fugir um pouco de toda aquela situação que conseguia sair do mal ao pior em uma velocidade assustadora, não ficou preocupada ou achou aquilo estranho. Mas deveria.

Voltou ao quarto de Ariel munida com a caixa do DVD em uma mão, e o computador na outra e logo as duas se aconchegaram uma nos braços da outra na pequena cama de Ariel e começaram a ver o filme.

Por um tempo, assistiram em silêncio, mas logo Ariel começou a cantarolar as músicas, baixinho, se mostrando um pouco mais tranquila. Com um tempo, Dakota apareceu na porta e levou para as duas uma tigela com pipocas e caramelos, do jeito que Ariel gostava. E com um tempo e toda aquela atmosfera de conforto em volta dela, a menina se sentiu a vontade para finalmente começar sua enxurrada de perguntas:

 

— Por que nunca me falou sobre seu pai?

— Não me dou muito bem com ele, quero dizer... Quer mesmo ouvir essa história?

 

Dentro do abraço de Alex, Ariel concordou com a cabeça enquanto mastigava um dos caramelos.

 

— Quando eu tinha a sua idade, eu voltei da escola em casa, em uma manhã de outono de clima tão ameno quanto o que está lá fora e de repente, meu pai não estava – contou – Fiquei tão confusa quando não vi mais as coisas dele espalhadas pela sala, ele tinha uma coleção de tacos de beisebol que sempre ficava exposta na sala e que não deixava nem eu mesma tocar, e de repente, ela não estava no lugar que costumava ficar. Corri até seu armário e as roupas dele também não estavam, nem mesmo seus sapatos. Algo me dizia que aquilo não era normal, mas quis acreditar que ele só tinha viajado e esquecido de se despedir de mim. Fiquei sentada no sofá, ainda com minha mochila nas costas, batendo os joelhos, ansiosa, esperando minha mãe chegar do trabalho e me explicasse para onde meu pai havia ido sem se despedir de mim. E ao ouvir minhas perguntas, ela ficou tão confusa quanto eu. Mais tarde, minha mãe explicou que ele tinha sim viajado, mas que tinha viajado com outra mulher, que os dois se apaixonaram e iriam viver longe de nós duas a partir daquele momento, mas que ela sempre estaria ao meu lado, não importava o que fosse acontecer.

 

Precisou de um minuto para que Ariel retivesse toda a informação e fizesse a pergunta seguinte:

 

— Você ficou triste?

— Muito – Alex confessou – por dias, eu achei que se fosse boazinha e fizesse tudo corretamente, ele não voltaria e ele nunca voltou, então eu chorava. Mas logo, percebi que minha mãe não tinha a menor intenção de descumprir com sua promessa, eu me senti melhor sabendo que sempre a teria ao meu lado, mesmo que ele estivesse longe.

— Pelo menos ela não mentiu para você – Ariel comentou rapidamente.

 

Alex se remexeu na cama, apertando um pouco mais o corpinho pequeno da menina em seus braços.

 

— Ari, sua mãe não mentiu achando que te faria mal... Ela queria seu bem, só achou que assim seria melhor e não foi. Você sabe como ela é, ela jamais faria algo para te magoar, você é a vida daquela mulher. Ela enlouqueceria sem você e todas as suas falas sobre o Discovery.

— Eu sei – suspirou a menina, surpreendendo Alex com sua resposta – Sei que ela não queria meu mal, sei que ela queria me ver bem e tudo isso. Mas não anula em nada o que aconteceu, mães não deveriam mentir para os seus filhos. Você preferia que sua mãe tivesse mentido? Apenas dito que seu pai tinha viajado ou morrido na guerra?

— Não, não preferia. Eu entendo você, Ari. Mas sua mãe sempre teve um pai em casa e seu avô, bem... É um máximo. Você não sabe, mas sua avó era meio louca, sempre fazia sua mãe competir em competições de criança, queria que ela ganhasse títulos e coroas todos os finais de semana, coroas de miss, títulos de dança, e seu avô a defendia de tudo aquilo. Enquanto todos a viam por sua beleza e os títulos, ele a via como uma filha. Essa é a imagem que ela tem de um pai, ela não sabe como é crescer sem pai e como agir nessa situação, ela decidiu seguir pelo lado mais fácil, o lado que ela achou que você não sairia magoada. Além disso, acho que você é muito pequena para entender certas coisas...

 

Naquela hora, Ariel se enfureceu. Ela se sentou na cama e encarou Alex com os olhos semicerrados, odiava ser chamada de criança, mesmo que fosse uma.

 

— Então porque sou uma criança precisam mentir para mim? – disparou, entredentes.

— Não foi isso que eu disse, Ari. A questão não é propriamente você, mas ele...

 

Alex só percebeu o que estava dizendo quando ouviu as palavras da sua voz, rapidamente parou de falar, mas era tarde demais, Ariel já tinha percebido que tinha algo de errado.

 

— Qual o problema com meu pai? – quis saber rapidamente.

— Não há nenhum problema com seu pai – mentiu da melhor forma que conseguiu, não era justo com Ariel que ela não pudesse fazer o juízo de valor sobre seu pai sozinha.

— Você não gosta dele – ela adivinhou, apenas observando os olhos de Alex.  

 

A morena suspirou e se sentou na cama, sabendo que aquela conversa seria mais difícil do que ela tinha suspeitado quando bateu a porta.

 

— Não, não gosto dele, é verdade – ela decidiu que era melhor trilhar o caminho da sinceridade – mas eu tenho meus motivos e não são os seus motivos, você pode gostar dele ou não. Eu não posso influenciar sua opinião sobre ele, não é justo com você, quero que saiba sozinha se gosta ou não dele.

 

Ela mordeu a boca, um gesto nervoso que tinha roubado de Nicky, e que receberia a censura de Piper se ela estivesse ali.

 

— E se eu não gostar dele? – a pergunta saiu tímida dos seus lábios.

 

Alex sorriu daquela vez.

Mesmo Brad sendo todos os palavrões que ela pensava que ele era, não via como ele não podia não amar Ariel. Aquilo era humanamente impossível. Desafiava qualquer espécie de ser humano a não gostar dela. Quando ela sorria, era impossível não sorrir junto. Não conseguia não rir das suas piadas infantis e ao mesmo tempo adultas, das suas tão prontas informações sobre qualquer coisa. E se ele não fosse gostar dela, ele não era, em definitivo, um ser humano.

 

— Eu duvido que ele não vá gostar de você, minha querida dama – Alex se inclinou, beijando a testa da menina.

— Vi no Discovery que os leões matam os próprios filhotes para que não tenham sua própria prole – ela tagarelou.

— Você vê esses programas demais. Minha mãe sempre dizia que televisão demais pode queimar os neurônios.

— Mito – a menina rebateu – vi no Discovery também.

— Bom, o único problema vai ser se ele gostar dos Rolling Stones, nem eu vou conseguir defender.

— E se ele gostar da Dora?

— Dora é o fim! Você pode voltar para casa correndo.

 

As duas caíram em gargalhadas que ecoou pelo quarto. Alex já sentia sua barriga doendo, quando Dakota bateu na porta, em seguida colocando seu rosto por uma pequena fresta.

 

— Nicky e Lorna estão lá embaixo, na sala, esperando por vocês – a mulher avisou de onde estava.

— Tia Lor! Tia Nicky! – Ariel gritou animada, correndo até a porta, até parar de repente, e virar-se de volta para Alex, com uma piscadela, dizendo: - eu te disse que elas iam namorar, não disse? Eu nunca erro, mãe Al.

 

E assim, ela sumiu pela porta.

Alex se levantou da cama, e seguiu por onde a pequena passou, descendo as escadas e encontrando Lorna e Nicky na sala. Ariel já se revezava em abraços nas duas tias, sem saber a quem abraçava com mais força. Ela sorriu observando a cena. Absolutamente, era impossível não amar aquela menina.

Lorna estava com seu uniforme escolar ainda, ela estava terminando seu último ano no Julia’s e usava o mesmo uniforme que por anos, Alex considerou ridículo e se envergonhou de ter usado, mas vendo-a ali, parada, sentiu um pouco de nostalgia dos dias fugindo pelo muro dos fundos com Piper.

Lorna era a única irmã de Piper e a quem a loira tinha um enorme carinho e proteção. Por vezes, Piper falava do quão preocupada estava com a morena por ela ainda estar em casa e ouvir as cobranças e expectativas de Mary diariamente. No entanto, Alex sempre via algo diferente em Lorna, algo mais selvagem e independente. Ela tinha cabelos curtos, castanhos e a boca sempre com um bico quando estava pensativa ou insatisfeita, sempre ria alto e largamente, falava ao seu próprio modo. Pequenos sinais que Mary jamais admitiria que Piper fizesse. A irmã de Piper não parecia ser alguém que seguiria as cobranças de Mary. Lorna era independe, fazia suas próprias piadas sujas, tinha seus próprios palavrões, ditava suas próprias regras, não se prendia a ninguém. E se não fosse tão jovem, Alex até concordaria com a ideia de Ariel de junta-la a Nicky.

 

— O que fazem aqui? – Alex perguntou, ouvindo seus passos na escada de madeira.

— Eu estava vindo te ver e encontrei essa menina no meio do caminho pedindo carona a estranhos, veja se pode, Alex, nós, na nossa época, éramos apenas jovens inocentes em busca de uma faculdade legal para sermos as chatas que somos agora. Não tinha nada de bebidas, sexo e drogas, nem carona nas estradas. Veja o perigo disso! – Nicky respondeu, apontando para Lorna que piscava sem parar tentando parecer inocente, com seu famoso bico nos lábios.

— Já disse o quanto o último ano é uma merda? – a morena tentou se explicar, praguejando.

— Lorna – Alex repreendeu, com um sorriso de quem ainda não conseguia acreditar naquela sua visão de mãe censuradora de palavrões.

— Eu quis dizer... Cocô – a morena corrigiu, rindo para Ariel.

— Tudo bem, vou fingir que sou apenas uma criança que assiste a Dora nesse momento e não contar nada a nenhuma das minhas mães.

 

As três mulheres riram da menina. Em seguida, Nicky se aproximou de Alex, perguntando:

 

— E onde está Piper?

— Foi no hospital – Alex lançou um olhar de aviso, tentando alerta-las do risco de trilhar naquele assunto.

— Nós brigamos – Ariel explicou – Tia Lor, você sabia que minha mãe competia por títulos e coroas?

— Eu estive em muitas competições dela, mas sempre dormia. Era tudo tão chato! – ela mostrou a língua fazendo uma careta – tinha umas meninas que pareciam uns espantalhos de tão maquiadas. Menos na de dança, algumas das apresentações da Piper eram muito bonitas. Sua mãe era muito boa.

 

Logo, Ariel arrastou Lorna para um canto no sofá, forçando-a a contar tudo que sabia sobre as competições de Piper, sobre as cobranças de Mary e como Piper se sentia com toda aquelas expectativas sobre ela. E quanto mais Lorna falava, mais a menina tinha perguntas. Por sorte, Dakota estava para ajudar nas informações da pequena pesquisa de Ariel sobre a mãe. Talvez aquela fosse sua forma de ver o motivo de Piper ter escondido sobre o pai, saber um pouco de como fora sua vida, a ajudava. 

Percebendo que ficaram para trás, Alex e Nicky recuaram e foram até o jardim, sentando no degrau de frente para a rua. A loira acendeu um cigarro e ofereceu a amiga, que negou.

Precisava mesmo parar, ela disse a si mesma.

Ficaram quase um minuto em silêncio, observando Nicky soltar a fumaça do cigarro pela boca.

 

— Brad? – Nicky indagou de repente, mas não precisava de muito para saber ao que ela se referia.

— Sim, ele. Quer visitar Ariel agora. Piper precisou contar tudo... Você nem imagina a confusão de tudo isso. Gritos, choros, promessas de ódio...

— Ele é tão filho da puta... Ainda consigo ficar chocada – ela comentou, jogando o corpo para trás.

— Não me lembra, que só de pensar nisso começo a pensar em aceitar o cigarro.

— Admiro nossa fé, já devíamos tê-lo matado e enviado para os tigres em algum zoológico, pelo menos de almoço ele deve servir, ou não... A carne deve ser um pouco podre.

— Pior é ter que falar dele com neutralidade para a Ariel,

— Admiro a sua fé mais do que a minha – a amiga disse, finalizando.

 

Nicky segurou seu cigarro com a ponta dos dedos e em seguida começou a morder a boca sem parar. Alex reconheceu de imediato o pequeno gesto que Ariel imitara mais cedo. Sua amiga sempre que fazia aquilo quando queria contar algo a ela, mas não sabia por onde começar. Fora assim da vez em que bateu o carro de Alex em um poste em São Francisco, completamente bêbada. Ou quando contou que estava namorando uma moça chamada Amanda, que tinha conhecido em um bar, mas que era stripper e envolvida com tráfico de drogas, também que ela era de uma seita que dançava nua em um bosque e bebia sangue de carneiro. E naquela vez, sentia que não era nada que envolvesse uma namorada estranha ou um carro, parecia ser algo um pouco maior.

Rapidamente, Alex se inclinou para trás, apoiando-se nos braços. Esperou um pouco, inspirando fundo, tentando se preparar para o que viria a seguir, antes de perguntar, sem rodeios:

 

— O que houve?

— Sua mãe me contou algo hoje – ela disse vagamente, parecendo um pouco arredia, em seguida, suspirou, tomando coragem para continuar: - ela viu que Anne está no banco de testemunhas do Brad.

 

Alex riu. Sua risada saiu tão alta, tão cheia de escárnio e intensa que sentiu levemente sem ar e precisou segurar um pouco a barriga. Não havia outro modo como reagir àquela notícia que não rir. Ainda conseguia se surpreender com Anne tão bem quanto conseguia com Brad. Os dois pareciam funcionar perfeitamente juntos, uma combinação diabólica, encomendada pelo próprio Demônio.

Não tinha voltado a falar com ela desde que romperam o noivado e Alex agradecia por Nicky ter aberto seus olhos antes que cometesse aquele erro. Apesar de todas as idas e vindas, todos os problemas, ela estava feliz e apaixonada ao lado de Piper. Não conseguia ver nenhuma daquela felicidade em Anne.

Só voltou a encontrar a antiga noiva apenas uma vez, as duas se encontraram para definir como dividiriam as coisas que possuíam em São Francisco. Alex deixou que ela ficasse com o carro, com os móveis e tudo mais que quisesse, desde que deixasse o apartamento. Quando Anne a questionou o motivo de ela desejar tanto o apartamento, Alex foi sincera ao responder que tinha planos de mudar-se para lá com Piper e Ariel. Na hora, Anne tentou parecer neutra, porém Alex podia ver que estava queimando por dentro. Por isso, não se chocava tanto em saber que ela ajudaria Brad a retirar Ariel e Piper. Para Anne, tudo era pessoal.

 

— Acha que foi ela que disse a Brad que Ariel existia? – Nicky soltou a suposição junto com a fumaça.

— Ela mesma disse aquilo na festa para ele, aquela piada ridícula. Não acho que ela tenha ido atrás de mais informações, mas tenho certeza que se prontificou a ser testemunha assim que soube do processo. Isso é tão...

— Anne – a loira completou.

— Não quero que Piper se preocupe com isso, o problema de Anne é comigo e não com Piper, eu mesma vou resolver isso.

— Cuidado com o que vai fazer. Essa história é uma mina de guerra, a gente nunca sabe ao certo onde pisar sem explodir nada.

 

Alex pensou um pouco naquilo, contudo, não chegou a considerar. Estava decidida a falar com Anne e fazê-la desistir daquela vingança que beirava ao ridículo e infantil.

Piper já tinha coisas demais para se preocupar, além disso, aquela afronta era a Alex e não tinha em nada a ver com Piper e Ariel, elas não mereciam ser prejudicadas por um ódio que não era direcionado a elas.

Faria de tudo para proteger sua família.

 

— Às vezes, eu não me reconheço – refletiu a morena, endireitando os óculos para enxergar melhor as crianças pedalando em suas pequenas bicicletas na rua – ando me emocionando com uma criança de seis anos,

— Quase sete – Nicky rebateu, tentando fazer uma imitação da voz de Ariel, que saiu estranha e desengonçada.

 

As duas riram, antes que Alex pudesse continuar:

 

— Se alguém me dissesse que eu ia virar mãe nessa idade e em uma viagem, eu morreria de rir e cá estou, disposta a tudo por Piper e Ariel.

— Eu fico feliz por você ter colocado finalmente seus óculos – Nicky a cutucou.

— Graças a você.

 

Sua melhor amiga fez uma careta, torcendo a boca.

 

— Não gosto quando nossa conversa fica gay assim.

 

Alex deixou sua risada sair, cutucando Nicky de volta.

 

— Ariel acha que você vai namorar a Lorna.

— A menina deve ter dezesseis anos ou menos, Alex... Sei que não sou uma santa, mas não sou uma pefodila – ela fez a voz de Ariel no final, referindo-se a vez que a menina errou a palavra.

— Ela é bonita, apesar de ser da altura da minha cintura, vocês iam ficar bem juntas... – Alex argumentou entre risos.

— Porra! Você também quer que eu seja uma pefodila!

 

As duas riram por horas juntas sentadas naquela varanda.

Logo, Lorna e Ariel juntaram-se a elas. Passaram aquele dia juntas, conversando e trocando informações. Nicky contou o que sabia sobre Piper, assim como Alex. Todas as perguntas de Ariel teriam sido respondidas se a menina não fosse uma fonte inesgotável de curiosidade. Quando começou a anoitecer, Nicky e Lorna se despediram. Lorna pediu que avisasse a Piper que ela tinha passado para dar um beijo, mas que não a encontrou.

Dakota serviu o jantar e Ariel e Alex comeram na mesa da cozinha, entre cada vez mais perguntas.

 

— Meu pai gostava dos concursos que minha mãe participava? – foi uma de suas perguntas, enquanto Alex olhava atentamente se ela estava comendo toda a porção de brócolis no seu prato.

— Ele nunca foi vê-la – foi Dakota quem respondeu – sua avó nunca deixou que ninguém além da família fosse vê-la em uma competição, dizia que tirava a sua atenção.

— Ela é meio megera, não é? – a pequena avaliou, dando uma garfada no seu pedaço de brócolis.

 

Dakota e Alex acharam graça do comentário. Megera era bem a palavra que definia Mary, achava até que a palavra tinha sido criada apenas para Mary.

Alex ainda se lembrava do dia em que se plantou na frente casa de Piper, assim que ela partira, decidida a só sair dali com notícias, e Mary perguntou se elas eram namoradas, Alex, achando que colocaria Piper em maus lençóis, logo respondeu que era só uma amiga. Mesmo assim, a mulher debaixo dos seus óculos escuros de grife, disse que a filha não se envolvia com lésbicas e que era melhor que ficasse longe, Piper estava feliz onde estava e não precisava dela. E apesar de ver os olhos verdes de Alex se encherem de água, a mulher entrou em casa, jogando os curtos cabelos pretos para trás.

 

— Ela é muito exigente apenas – a morena tentou amenizar.

— Acha que vai perdoar sua mãe? – a dúvida partiu de Dakota.

 

Ariel mastigou, pensando bem nas palavras que diria em seguida.

 

— Sou difícil. Talvez eu não seja Ari para ela por um bom tempo.

 

Alex sorriu.

Olhou para a porta, encarando a pintura desbotada, estudando um pouco a típica porta de classe média que devia estar em todas as casas daquele bairro, as três almofadas de madeira e a maçaneta de bronze.

Era estranho Piper estar tanto tempo longe de casa, ela pensava. Ela geralmente não costumava ficar tanto tempo no hospital. No início da noite, ela sempre aparecia, parecendo cansada e cheia de coisas para contar sobre seus pacientes. No entanto, já estava ficando tarde e ela ainda não tinha voltado. Tinha começado a chover forte, podia se ouvir os trovões tremendo a casa inteira, não gostava de imagina-la lá fora.

Pensou em ligar para a noiva, mas achou melhor fazer aquilo depois que Ariel fosse dormir, não queria preocupa-la desnecessariamente.

Pediu que Ariel subisse, tomasse um banho, escovasse os dentes e a esperasse de pijamas na cama. A menina resmungou, tentou fazer birra para ver um pouco mais de televisão, mas logo terminou aceitando e fazendo tudo que Alex pedira.

Contou a mesma história de sempre para que ela dormisse e até a ouviu cantando uma música de My Fair Lady até cair no sono. Beijou sua testa e saiu do quarto, entrando em seguida no quarto que dividia com Piper.

Assim que abriu a porta, encontrou Piper com uma camiseta antiga e desbotada de uma banda de rock que Alex usava para dormir, com os cabelos molhados, deitada na cama, de bruços e com os braços abertos como águia. Estranhou aquilo na hora, mas ficou feliz que ela estivesse bem.

Com cuidado, ela engatinhou na cama e beijou o rosto de Piper, a mulher sorriu assim que sentiu seu toque. Alex logo observou alguns arranhados vermelhos em seus braços.

 

— O que houve nos seus braços?

 

Piper se espreguiçou, puxando Alex para deitar-se com ela e encolhendo-se no seu corpo. Parecia uma criança em busca de consolo. Sem saber o que fazer, Alex a abraçou, tentando demonstrar um pouco de todo aquele amor que guardava.

 

— Uma criança teimosa hoje no hospital, ela não gostava muito de médicas loiras – a voz de Piper saiu com um sorriso, mas algo no som da sua voz soou um pouco vacilante e não convenceu Alex por completo.

— Não vejo como alguém possa te odiar.

— Ariel me odeia – ela gemeu baixinho.

— Ela não te odeia, você só não é mais Ari para ela.

 

A loira riu, parecendo agradecida pela pequena piada desanuviar o ambiente.

 

— O que eu faria sem você na minha vida, Alex?

— Absolutamente nada.

 

Ela levantou a cabeça e encostou seus lábios sobre os de Alex, olhando-a no fundo dos olhos.

 

— Absolutamente nada – ela repetiu, ainda com os lábios encostados nos da morena.

— Eu amo você – respondeu, olhando fundo nos olhos de Piper.

— E eu amo você mais ainda, Vause.

 

Alex ficou um pouco com Piper, em seguida, tomou banho e deitou-se com a noiva, aproveitando um pouco daquele frio e da atmosfera de carinho que estava no quarto para dormirem juntas, abraçadas e trocando longos beijos apaixonados, e pequenas declarações de amor sussurradas em meio aos trovões.

Acordaram no meio da madrugada com uma mão sacudindo-as. Levantaram em um pulo, mas logo viram que era Ariel, agarrada ao Raposo, a pequena raposa de pelúcia de Alex a tinha presenteado. Ela parecia aterrorizada e com o pulo que deu em seguida quando ouviu um trovão as duas mães souberam o que era. Piper indicou o meio da cama para que ela sentasse, evitando uma conversa, com medo que aquilo intimidasse o pequeno gesto de paz de Ariel.

 

— Isso não significa que eu seja Ari para você, mãe – a menina cochichou, bocejando em seguida.

 

As duas riram baixinho em seus lugares.  Observaram a menina até que ela adormecesse e sua respiração ficasse mais lenta e sossegada. Por fim, Piper olhou Alex por um breve momento. E por esse breve momento, Alex percebeu que Piper tinha um novo segredo.

No dia seguinte, quando acordou, não pensou em segredo. Observou Piper e Ariel dormindo abraçadas. Tão bonitas, tão suas... Sentia todo aquele amor sair por todos os seus poros.

Levantou da cama e tomou um banho demorado. Precisava falar com Anne e impedir que tudo aquilo acabasse. Não sabia o que faria se alguém machucasse aquelas duas. Ou se alguém a afastasse de sua família.

Antes de sair, ela puxou um papel da gaveta da cômoda e escreveu um pequeno bilhete:

 

Piper,

Estou indo em Fresno, não quis te acordar. Por favor, cuide da nossa família. E quando digo nossa família, quero dizer você e Ari (lembre que ela não é Ari para você ainda, mas não se preocupe, eu já passei por isso, você vai se sair bem). Quando voltar, vou te encher com todo esse amor que você deixou que entupisse minhas veias.

 

Alex

 

Ps: I love you

 

 

E enquanto dirigia para Fresno, Alex só conseguia pensar em duas coisas: no amor que sentia por sua família e no novo segredo de Piper. Não sabia dizer como, mas sentia que aquele novo segredo a partiria ao meio. 



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