História Lendas - Os Equívocos do Tempo (Interativa) - Capítulo 2


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Artes Marciais, Aventura, Comédia, Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Saga, Steampunk, Suspense, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Canibalismo, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Boa Noite.
Antes de lerem, gostaria que soubessem algumas coisas:
1º - O foco da história estará nos personagens que vocês me enviaram, mas este capítulo apresentará elementos importantes para o enredo.
2º - Quero saber o que acham sobre o tamanho do capítulo, pois o escrevi pensando na espera de duas semanas pela qual vocês têm que passar.
3º - Gostaria que comentassem nos capítulos e me dissessem como estou me saindo, pois além de me motivarem a continuar estarão me ajudando a melhorar minha escrita e o resultado dos capítulos.
4º - Caso tenham quaisquer dúvidas sobre este capítulo, fiquem à vontade para perguntar.

Desculpem-me por quaisquer erros.

Capítulo 2 - Capítulo I


Boa Leitura!

 

| Capítulo 1 |

“Precisamos de mais dinheiro para as perucas do Imperador!”

 

     Em mais uma noite a Lua mostrava toda a sua autoridade agraciando algumas pessoas que passavam pela rua com a visão de sua forma mais poderosa. O Olho Cego, como os antigos a chamavam, estava totalmente aberto iluminando a noite e assistindo tudo com muita atenção. Se tentassem se esconder daquela enorme orbe estonteante “falhariam com sucesso”, pois ela nunca perderia de vista seu objeto de foco. Assim, não havia como enganar a noite quando a Lua estava cheia e bem disposta no firmamento do céu junto de todas as suas filhas nobres, as estrelas. Entretanto, sempre havia aqueles que não tinham para onde voltar quando o toque de recolher soava e aqueles que simplesmente o ignoravam. Logo, procuravam abrigo nos becos e vielas do império tentando fazer com que o Olho não visse suas situações miseráveis dignas de pena. Era como se eles se sentissem envergonhados por não poderem agradar o olhar da Lua quando esta punha sob o império a luz prateada.

     A mesma Lua que fazia seu rotineiro passeio pelo firmamento havia presenciado o assassinato ocorrido na floresta. Como de costume, ela se manteve calada, pois como qualquer ser nobre ela não deveria se importar com as ocorrências das vidas inferiores. Por isso, continuava olhando de cima e sempre arrogante.

     Na mesma noite em que o ataque ocorreu na floresta, os conselheiros imperiais haviam convocado os líderes de cada classe do Império para uma reunião onde seria entregue a eles a lista com as medidas preventivas do Imperador. Era basicamente uma lista em que constavam as medidas que deveriam resolver o problema econômico do império. Os líderes, que também procuravam como melhorar a situação que estava prestes a prejudicar suas casas, prontamente aceitaram, pois pensaram que o Rei finalmente havia parado de olhar para seus sapatos afivelados e feito algo de útil.

     Eles haviam sido convocados para ficar a par de todas as indicações da lista o quanto antes, pois aquilo parecia ser algo grande e complicado e precisaria de toda uma atenção e análise. Toda via, o responsável pela entrega da lista estava terrivelmente atrasado. Os movimentos da Lua pelo firmamento denunciavam o tempo de espera pelo qual os líderes passavam fazendo com que um dos que estavam presentes na sala de reuniões se ausentasse para procurá-lo:

- Mas onde está Maphin? Onde está aquele moleque com as Ordens? – Targan Rukandor, o Grande General, repetia incansavelmente enquanto andava de um lado para o outro na sala de reuniões. Era um homem robusto com um semblante duro, com sobrancelhas grossas e que naquele momento estavam indicando uma expressão raivosa e impaciente, porém a passagem do tempo estava estampada em seus cabelos, barba e bigode castanho-escuros nos quais mechas grisalhas se estendiam como um prenúncio da chegada da velhice aos 60 anos. No entanto, o próprio General sabia que ainda podia aguentar muitas batalhas - Quem foi ingênuo o suficiente a ponto de confiar tal tarefa ao garoto? – Com sua voz grave e sonora o guerreiro denunciava que sua paciência escassa já havia se esvaído por uma peneira. Todos já estavam reunidos naquele salão por dolorosas e corrosivas horas.

- Pelas mãos de Galesh! Tu não podes sentar e aguardar a chegada do mensageiro calado? – Sidá Cardênia, a Grã-Feiticeira, demonstrava seu descontentamento pela impaciência de seu Líder em Armas - Pelas barbas de Ushian! Todos nós estamos irritados por aquele delinquente juvenil ter nos passado a perna e nos deixado aqui vendo o tempo passar. Entretanto, todos nós estamos calados tentando evitar badernas desnecessárias como essa! – Sidá tomou fôlego e ajeitou os cabelos curtos e ruivos– Pelos Pés de Kapul! Pelas vestes de Barrek! – a Grã-Feiticeira jogava impropérios e ofensas para todos os lados.

     Diferente de Targan, e feiticeira não apresentava mechas grisalhas mesmo tendo uma idade aproximada a do general. Talvez fosse alguma magia que rejuvenescesse seu corpo superficialmente, ou apenas o fato de que cabelos ruivos não ficam grisalhos com a velhice, mas sim acobreados. O fato era que a mulher, mesmo tendo muita experiência, nunca havia deixado de ser vaidosa. Oras, a velhice não viraria uma doença degenerativa se fosse bem cuidada e havia sido isso mesmo que a feiticeira havia feito. Sempre andava com vestidos chamativos, espartilhos, um leque de seda, o cabelo curto e ruivo muito bem penteado e suas inseparáveis garras metálicas, “unhas” de metal muito bem trabalhado que se assemelhavam a garras e que a feiticeira usava como se fossem anéis nas pontas dos dedos. Por elas Sidá canalizava sua magia.

- Oh, pelos calções de Meredith! Ah, pelo perfume vencido de Zéphira! - um dos integrantes da reunião, que se encontrava apoiado no parapeito da janela da torre até aquele momento, finalmente perdeu sua paciência e, gesticulando exageradamente feito uma princesa pedindo socorro, voltou a zombar da feiticeira - Pela peruca despenteada do Imperador! O que será de nós? – à medida que o corpo ia se aproximando da lamparina em cima da mesa de reuniões, suas curvas femininas, seu corpete, calças, botas, cintos, casaco e capuz de couro e linho e seus cabelos cor de mel que não estavam descobertos pelo capuz iam se tornando nítidos e coloridos. – Eu sei o que será de você, sua tagarela metida, se não calar essa boca agora! – Narcy Perikratus, a Matriarca do Clã Sombra da Lâmina, disse ironizando e zombando da aparência alterada de Sidá – O que você acha de parar de agir contraditoriamente? Não quer ser um bom exemplo? E como ousa chamar meu aprendiz de meliante delinquente? Se ele resolveu viver sob minha guarda é porque quer contribuir para o império e não o contrário! – Narcy puxou uma cadeira e se sentou apoiando seus pés em cima da imensa mesa de reuniões onde estavam dispostos muitos pergaminhos, penas, mapas e a lamparina, que era a única luz que iluminava a torre naquele fim de noite.

- Dessa vez devo concordar com a jovem. Estamos aqui há somente alguns minutos, então como vocês podem perder a paciência tão rápido? – Liturgo, o Alto-Sacerdote, resolveu se pronunciar. De todos, ele era o único que não estava impaciente, mas sim sério. Parecia estar muito preocupado com algo e estava totalmente alheio à situação na sala de reuniões. Todos na sala ficaram incrédulos com a fala do homem  alto e moreno que se vestia para todas as ocasiões com sua roupa de clérigo.

     Seus cabelos, de todos ali, eram os mais longos por causa do tempo, mas ninguém sabia, pois sua cabeça estava sempre envolta por um turbante que apenas não escondia sua face, em que a venda para olhos cegos sempre esteve para esconder suas orbes sem conteúdo. Sua barba não era muito extensa, mas era a única completamente branca, cujos fios eram presos por uma faixa prateada igual a que ele tinha presa ao seu pescoço, símbolos do sacerdócio.

     Após meditar por mais alguns segundos e aproveitando que todos ainda o olhavam continuou:

– Devemos esperar o quanto tivermos que esperar, pois são as ordens que recebemos.

- Eu sempre estou certa, meu caro amigo “Pontífice”. – Narcy pegou uma pena, molhou-a na tinta e começou a rabiscar qualquer coisa em um dos pergaminhos que estavam em branco dispostos em cima da mesa – Maphin pode até ser um dos novos integrantes do meu clã, e eu entendo que vocês nunca confiem em ninguém da minha classe, mas decidi que ele merece uma chance, pois tem poten... - a Matriarca foi interrompida bruscamente.

- Ah, então foi você! Como ousou dar missão de tal importância para um mero aprendiz? Você por acaso é burra? – Targan mirou seus olhos cor de cinza na ladina que parou o que estava fazendo, levantou a cabeça e devolveu o olhar com a mesma intensidade.

- Ah, sim, eu sou burra. Eu, por acaso, esqueci os soldados do posto avançado nas Terras do Norte sem comida e sem água? Eu, por acaso, perdi nossos territórios recém-conquistados lá, pois nossos soldados já tinham adoecido ou morrido de fome naquele inverno amaldiçoado? – Narcy se lembrou da lendária falha do Mestre de Armas. Não se importava com o quão rudes e venenosas suas palavras saiam, pois deveria devolver a “gentileza” de seu colega à altura. – Nós que nos refugiamos sob a sombra da lâmina fazemos um pacto de sangue com todos os integrantes para caso algum soldado queira dar uma de espertinho. O sangue dos traidores está vinculado ao Sagrado Templo do Império. Ou seja, aquele que desafiar a Matriarca, terá, além da fúria dos outros refugiados da Sombra da Lâmina, a ira de Deuses e Demônios em suas costas. Nós também estamos com a família dele. Apenas se for frio e insensível o suficiente ousará arriscar a vida de seus irmãos.

- É realmente uma bela armadilha para lâminas enferrujadas, Senhorita Perikratus. A alma da pessoa ficaria perdida para sempre? Eu não gostaria de ser um dos seus subordinados. – Sidá ajeitou seu cabelo e arrumou suas vestes a fim de despistar qualquer indício de que tenha perdido a calma e dado um ataque histérico – No entanto, e se esse garoto for insensível feito você? E se o pirralho abandonasse tudo sem se importar com as consequências de perder sua alma pela eternidade e fugisse com os segredos de seu Império para conseguir um bom cargo e uma boa vida em outro reino... Exatamente como a matriarca de seu clã? – A feiticeira fitou Narcy com seus costumeiros olhos entre abertos e desconfiados. Suas costas estavam totalmente encostadas no apoio traseiro da cadeira deixando, assim, Sidá com uma postura ereta, uma posição desafiadora. – Caso estas informações vasem, todos os reinos rivais saberão de nosso deplorável estado econômico. Com essa crise nós não conseguiríamos arcar com as despesas bélicas e muito menos com a proteção das muralhas.

- Não garantiremos guerra alguma mesmo com todos os nossos movimentos muito bem planejados! – Targan depositou seu martelo e seu escudo no chão com um estrondo – Tudo por causa daquele animal desprezível do Imperador! – O guerreiro retirou seu elmo e suas luvas. Após, passou as mãos calejadas por sua barba e seus cabelos. Parecia estar se lembrando de algo ruim que acontecera- Na queda do Posto Setentrional... Meus homens... – o líder em armas respirou fundo e continuou – Não enviei suprimentos por causa de negligência. Nós já tínhamos a quantia certa para comprar e enviar os mantimentos, mas o Imperador... Ele resolveu cortar gastos do exército para arrecadar fundos para sua “Celebração de Caridade”. Deu uma festa em que todos os convidados deveriam doar dinheiro para a entidade do Império, esta que deveria, após a celebração, distribuir o dinheiro arrecadado para os necessitados do Reino. No fim, nosso Líder apenas usou o dinheiro para pagar as despesas da festa. Ele não gostou de eu ter ficado questionando-o sobre a verba que iria para a caridade e me ameaçou dizendo que me expulsaria do império. Ordenou-me que nunca mais falasse sobre aquilo de novo. – Targan segurou a parte superior do encosto da cadeira enquanto olhava para a parede.

- Sinto muito pelos seus filhos, General. – Sidá disse enquanto abaixava sua cabeça em respeito à memória dos filhos de Targan.

     Narcy se surpreendeu com os fatos antecedentes à queda da bastilha. Nunca ninguém havia lhe falado sobre os verdadeiros motivos da derrota nas Terras do Norte, nem mesmo seus espiões. Para mostrar que se arrependia dos seus últimos atos a matriarca apenas se manteve calada encarando a chama da lamparina, que mesmo pequena conseguia iluminar parcialmente o salão inteiro. Após alguns minutos de contemplação Narcy levantou a cabeça decidida a se desculpar por seu equívoco ao falar do que não sabia, assim como uma líder deveria fazer. Entretanto, foi interrompida por Targan que, como numa tentativa de arrastar as lembranças de seus filhos para o fundo de um baú velho, se pronunciou:

- Tâmisa e Kadu eram ótimos. Não guardo ressentimentos e nem mesmo memórias ruins dos dois. Mesmo com a morte de Milena os dois foram uma benção e vieram para me arrancar do poço sem fundo que é a tristeza e a amargura. A única coisa da qual me arrependo é de não ter confrontado o imperador mesmo sendo ameaçado. Nunca me perdoarei até que consiga me vingar dele.

     Mais alguns minutos se passaram e todos continuaram quietos, pois a tensão havia se estabelecido no ar. O Grande Olho já havia ido se deitar do lado leste do império após ter desfilado por todo o céu junto de suas filhas dando, assim, espaço para o Senhor da Aurora iniciar seu trajeto seguindo o rastro do astro anterior. O céu já não estava interessante como a noite estrelada. Estava borrado, manchado com variados tons de rosa, vermelho, amarelo, laranja. Cores fortes, que tentavam se tornar maioria no céu, mas que depois se uniriam para formar o grande mar azul que receberia o Sol como se fosse o tapete vermelho da realeza.

     O silêncio no interior da sala foi quebrado por um barulho de passos apressados subindo as escadas ficando alto até que chegaram à porta da sala de reuniões. Lá eles estacaram e, como se estivesse se recompondo de uma grande corrida, a pessoa controlou a respiração ofegante antes de abrir a porta e seguir com passos firmes até à imensa janela, que ficava bem do lado da mesa de reuniões, e abri-la por inteiro como se estivesse esperando algo acontecer. Todos olharam o homem que estava prostrado na janela e vidrado no céu, sem muita surpresa, pois eram normais ações assim vindas dele.

- Markus, o que você está fazendo debruçado aí feito um idiota? – Nercy não pôde deixar de comentar sobre a posição estranha na qual o caçador estava. Parecia que ele iria se jogar dali a qualquer momento.

De súbito, o rapaz subiu na beirada da janela e começou a balançar os braços como se estivesse querendo chamar a atenção de alguma coisa que estivesse no céu. Ele continuou assim por alguns segundos até que se jogou para o lado rapidamente para que não fosse acertado pela enorme águia que entrou feito um jato pela janela, largou o pergaminho que estava em suas garras em cima da mesa e saiu da sala para poder desacelerar e voltar mais devagar para pousar no apoio da janela onde seu mestre estava.

- Parece que você não consegue ver os vidros das janelas ainda não é, Percy? – o caçador disse acariciando a cabeça de sua águia- Espere, o que é isso em seu bico? – disse tocando nos fios negros – Maphin lhe atacou por acaso? – Markus disse olhando com raiva para Nercy que devolveu seu olhar com a mesma intensidade.

- Seu pássaro esquizofrênico atacou meu subordinado?!

- Quer dizer que você agiu igual um louco e quase caiu da janela dessa torre para chamar a atenção do seu pássaro vesgo? - Targan comentou sobre a atitude do rapaz interrompendo a discussão entre ele e a ladina.

- Todas as aves têm dificuldades em identificar vidros. Imagine que a fortaleza cheia de janelas e vidraças onde nós estamos é muito confuso e perigoso para elas. – Sidá levantou-se de sua cadeira e caminhou até a frente da grande janela onde a águia e Markus estavam – Não obstante, mesmo que seja para o bem de sua águia você não pode ficar se balançando em cima do parapeito de uma janela. É muito perigoso! – A feiticeira disse dando uma bronca no rapaz que abaixou a cabeça envergonhado.

- Desculpe-me por minha imprudência, minha senhora. Não tornará a ver mais atitudes desse tipo vindas de mim. – O caçador levantou a cabeça e foi até o pergaminho que o pássaro havia deixado cair na mesa. Ele tomou em mãos o recipiente trabalhado em ouro em que o pergaminho estava e o abriu retirando de lá as ordens. - O motivo de minha ação foi o fato do Imperador ter proibido que meus animais frequentassem ou mesmo entrassem nos recintos reais. Era necessário que eu fizesse isso, pois Percy achou o pergaminho do mensageiro e eu tive que voltar para cá o mais rápido possível, se não ele não conseguiria nos entregar.

     A última frase dita por Markus pareceu acordar Liturgo de seus devaneios. O Sacerdote levantou de sua cadeira tossindo um pouco e foi até o rapaz que estava com o pergaminho na mão:

- Pois está em boa hora. Bom trabalho, jovem! Agradeça a sua águia... Percival, não é mesmo? Agradeça a ele por mim. Agora não percamos mais tempo, pois o Imperador já deve estar muito impaciente enquanto nos espera em seu palácio. Por favor, rapaz. Leia-o para nós.

Markus desenrolou o pergaminho cuidadosamente e pôs-se a ler a letra extremamente bordada do escrivão real:

- “Ordens Imperiais! O Grande Imperador convida todos vocês para se juntarem a nós nessa grande competição pela coroa!”

- O quê?! – todos disseram ao mesmo tempo, pasmos pelas palavras que Markus havia lido no pergaminho.

- Markus, não é hora para brincadeiras! – Nercy disse.

-Dê-me aqui o pergaminho, garoto! – Targan falou pegando o pergaminho da mão do caçador e tornando a ler descrente do que havia acabado de ouvir.

- “O Rei apontará aquele que trouxer mais riquezas ao império, como seu sucessor! Não percam tempo. Afiem suas lâminas, se equipem com suas armaduras e preparem suas flechas para a Grande Competição Pela Coroa! – O líder em armas leu o último trecho dando ênfase nas últimas palavras - O aventureiro que se acha bom o suficiente para conseguir o trono deverá preencher o formulário à seguir e entregá-lo no dia do início da competição para efetuar sua inscrição! O Grande Imperador ordena que você humildemente dê um pouco do seu tempo para preencher os seguintes espaços”!

- Nosso Imperador inventou isso? Ele que é um corrupto sem vergonha apontará seu sucessor baseado nas quantias de tesouro que este lhe trouxer? – Sidá estava achando aquilo extremamente engraçado e suspeito – Nunca achei que ele chegaria a este ponto, mas, realmente, é uma boa tática.

-Acho que foi o melhor que ele conseguiu pensar, pois ele já é velho. Isso deve ser um devaneio de uma pessoa senil. Não pode ser sério! – Targan bateu na mesa com seu punho cerrado fazendo com que tudo que estava em cima tremesse.

- Pelo o que eu sei você, Sidá e Liturgo têm idades aproximadas à do Imperador. O que lhe faz pensar que ele não está falando sério? – Nercy retrucou. Agora ela se encontrava de pé apoiada com as mãos na mesa para conseguir ver o pergaminho que estava nas mãos de Targan, logo a sua frente – Mesmo no pouco tempo em que eu estou aqui já o vi fazer coisas mais incabíveis do que essa. Além do mais ele diz aí que apontará seu sucessor. Óbvio que o Imperador não abriria mão de seu poder enquanto em vida.

- Ainda assim é loucura deixar um Império inteiro e a vida de milhões de pessoas que moram aqui nas mãos de alguém só por que trouxe extensos tesouros. – Markus replicou, incrédulo com as decisões do Imperador – Isso é desumano. É perturbador!

- Perturbadora é sua falta de fé no Imperador. Você não pode prever o futuro para saber o que acontecerá e não pode ler mentes para saber o que ele planeja. – Liturgo tomou a palavra. Ele parecia um pouco bravo pelas palavras que caluniavam a imagem do Imperador – Talvez dessa vez ele queira se redimir. Não ouviu que há um formulário para a inscrição dos participantes?  Ele deve estar planejando escolher a pessoas com o perfil mais adequado para sucedê-lo. Continue lendo, General. Vejamos o que o Imperador quer.

- Nome e Idade. – Targan continuou a ler o pergaminho - Aparência, personalidade, gostos, desgostos, pontos fortes, fraquezas, medo ou fobia, história, manias, objetivo de vida, como tomou conhecimento sobre a competição, classe, poderes e armas que utiliza.

- Por que, raios, ele deseja saber de todas estas informações? – Sidá disse batendo as unhas na mesa de reuniões – A maior parte dessas perguntas poderia ser ignorada facilmente! Quem em sã consciência perguntaria as manias de alguém, a história e os objetivos de vida? O Imperador só pode estar louco!

- Lembre-se do que eu disse anteriormente, senhora Cardênia. – Liturgo disse calmamente para Sidá. Ele alisava sua barba com a mão direita após ter voltado a se sentar – O Grande Rei procura se redimir. Está tentando conhecer as pessoas para escolher um sucessor correto.

Targan leu o resto do formulário em voz alta para silenciar o sacerdote e a feiticeira. Após terminar colocou o pergaminho em cima da mesa para que os outros que não haviam entendido alguma parte pudessem ler e discutir.

- Ou ele tem grande ódio pelos caçadores, ou odeia animais. – Markus tomou a palavra – Como ele ousa limitar o número de animais que os caçadores poderão trazer? O real ponto forte de um caçador é sua ligação com seu companheiro!

- Você realmente achou isso um absurdo? – Nercy tornou a falar olhando para Markus. Ela estava de braços cruzados enquanto falava, mas depois apontou para um trecho no formulário e começou a ler acompanhando com o dedo – “Caso você seja um ladino, preencha os espaços à seguir. Se não for apenas ignore: Você é um espião de outro reino tentando se infiltrar no Império?”! Isso foi uma indireta à minha ordem, não vê? Ah, mas eu vou acabar com a raça dele quando tiver a chance. – Nercy cerrou o punho e bateu na mesa.

- Há! Há! – Sidá riu cinicamente – Mais direto impossível. Isso é vergonha alheia. Pelo poder de Azurí, que horror! Vergonha alheia está tão fora de moda!

- Não acredito que ele realmente ache que essa frase manterá espiões afastados. O império ficará infestado de infiltrados e ladrões. Todos os ladinos, sem exceção, devem estar rindo de nós agora. – Nercy colocou a mão na testa, fechando os olhos com impaciência e incredulidade – No entanto, devo concordar com o penúltimo termo. As pessoas sairão se matando por aí para roubar os tesouros de outros participantes. Os únicos além do rei que ganharão algo com isso tudo serão os ferreiros, estalajadeiros, coveiros e prostitutas!

Liturgo aparentava não estar aguentando mais as asneiras e blasfêmias que “caluniavam” a imagem do Grande Imperador. Ele se retirou calmamente da sala com a desculpa de que ainda deveria receber vários fieis no Templo Central e já estava muito atrasado para a primeira celebração. Após, se despediu de todos ali presentes e saiu. Depois de sua partida foi como se a tensão tivesse ido embora com ele, pois todos os outros guardavam suas reais opiniões e ideias que não podiam expressar na presença do sacerdote que com certeza os delataria para o Imperador.

- Finalmente nos livramos dele. Fica mais difícil cansá-lo a cada reunião. Essa tática de agredir os princípios e ouvidos dele é realmente muito boa. Há! Há! – Targan riu.

- Não fale tão alto ainda, General. – Markus o repreendeu sussurrando- As paredes desse palácio têm ouvidos e esses ouvidos sempre estão acompanhados de bocas fofoqueiras! Ele deve ter deixado alguns guardas vigiando a sala de reuniões discretamente a mando do Imperador.

- Vocês leram aquilo? Ele permitiu a entrada de animagos! – Sidá exclamou sussurrando e animada, mudando de assunto– Nunca antes isso havia sido permitido, pois as pessoas são extremamente preconceituosas. Em todos esses anos nunca tive a oportunidade de falar com um ou ao menos ver um deles. Achei que todos haviam sido mortos por causa das perseguições que a igreja e os outros magos faziam. Eu realmente nunca entendi o porquê de tudo isso, mas poderei tentar mudar a visão das pessoas sobre eles! – Sidá disse animada – Liturgo nunca gostou que eu pesquisasse sobre tais coisas e eu sei que ele sabe algo a respeito, porém não há mais livros sobre o assunto. Ele ordenou que todos fossem queimados e o Rei permitiu! Aquele corvo! Aquele abutre! Aquele pavão permitiu!

- Acalme-se, minha senhora. – Markus disse - Nosso foco agora é encontrar a pessoa mais adequada para se tornar o Imperador a partir das fichas. São nossas únicas esperanças para mudar a situação do reino e de todas aquelas vidas que estão morrendo com a peste! Não sabemos ao certo a intenção do Imperador ao produzir convites com formulários assim, e não podemos rejeitar a ideia de ser uma cilada. Talvez ele esteja armando uma grande emboscada para nos pegar no flagra conspirando contra esse governo!

- Todavia, e se não for uma arapuca? E se o Rei tiver colocado tudo aquilo nos convites por nenhum motivo aparente? Como faremos para ter acesso a tais fichas? Os conselheiros nunca deixariam elas chegarem às mãos de terceiros. E se as conseguirmos, como saberemos se as pessoas não estarão mentindo sobre as coisas que escrevem nos formulários? – Targan indagou.

- É provável que o Imperador solicite sua força militar, general, para manter a ordem dentro de nosso território e para a proteção pessoal. Acho que ele contratará meus assassinos e espiões para ficarem de olho em todos os participantes. Selecionarei os integrantes de meu clã que são totalmente fieis a mim para roubarem algumas fichas, ficarem atentos a quaisquer movimentos do Imperador e vigiaremos nossos participantes escolhidos. Contudo, tudo o que nós fizermos por baixo dos panos deverá ser planejado cuidadosamente para que ninguém desconfie. Todas as nossas reuniões serão secretas. – Nercy declarou seriamente com seus cotovelos apoiados na mesa e suas mãos enluvadas unidas na frente de seu rosto.

- Para alguém cego, Liturgo é muito esperto. – Sidá começou a falar – Não que eu esteja associando falta de inteligência às pessoas com deficiências visuais, mas desde que perdeu esse sentido ele ficou muito mais perceptivo e “observador”. – disse ironicamente - Será muito difícil fazer com que ele não desconfie de nada sendo que ele nos traiu no momento em que nos impediu de destronar o Imperador. – ela parou um pouco e olhou para o céu vendo que o Sol já estava quase no ponto mais alto – Devemos encerrar esta reunião agora. Se permanecermos mais algum tempo aqui eles com certeza desconfiarão de nós. Vejo vocês na audiência com o Imperador amanhã, meus caros. – Antes de sair Sidá ajeitou o chapéu, que tinha um véu na frente, em sua cabeça e pegou seu leque – Tomem cuidado, amigos. Principalmente você, meu jovem. – disse apontando com a garra metálica do dedo indicador para Markus – Tome juízo e não fique mais se balançando no parapeito das janelas!

E assim saiu da sala de reuniões abanando-se com seu leque enquanto desfilava com um andar gracioso. Acenou e sorriu para os guardas, que guardavam a porta da sala de reuniões, como se não tivesse acabado de sair de uma reunião comprometedora. Um dos guardas não pode deixar de ficar encabulado com o sorriso que a Grã-Feiticeira o dirigiu, pois mesmo que a mulher tivesse muita experiência não havia perdido a graça jovial dos traços e o corpo esguio de uma moça na flor da idade.

     Todos os outros também se despediram e começaram a se arrumar para sair. Targan colou novamente os equipamentos que havia tirado e pegou seu escudo e sua espada se retirando logo após e deixando assim Nercy e Markus sozinhos. Os dois pegaram seus pertences, apagaram o fogo que persistia aceso na lamparina e antes de sair Markus disse para Percy, sua águia, esperar os dois no pátio do palácio. Quando chegaram aos jardins, o caçador estendeu o braço com a proteção para garras de aves a fim de que a águia ali pousasse. Nercy, aproveitando que os dois estavam reunidos, começou a falar sobre o sumiço de seu subordinado:

- Agora preciso que seu pássaro me leve para o local onde atacou Maphin. Darei uma bronca no garoto, pois esta ave deveria estar pelo menos com uma asa quebrada por atacar um assassino. – Nercy disse olhando ameaçadoramente para a águia que respondeu com um guinchado agudo e um bater de asas quase como se quisesse dizer “Eu não me importo, garota. Posso ir pra cima de você quando eu bem entender!”.

- Percival. - o caçador repreendeu a águia – Quando foi que você ficou tão abusado? Vamos. Guie-nos até onde encontrou o mensageiro. É de extrema importância que nós cheguemos a ele o mais rápido possível.

     Markus levantou seu braço incitando o pássaro a alçar voo. A águia tomou altitude e guinchou lá de cima indicando que os dois deveriam segui-la a partir dali. Os dois sabiam que nunca alcançariam a águia a tempo se fossem a pé, então foram até o estábulo, pegaram seus cavalos e passaram a seguir o pássaro até a floresta.

     Seguiram o a águia por mais algum tempo até que chegaram à floresta, mas ainda assim tiveram que adentrar mais. Quanto mais adentravam mais as árvores ficavam próximas umas das outras e atravessá-las com os cavalos estava difícil. Os dois desceram e amarraram suas montarias em uma mesma árvore e continuaram a pé. Até a luz do Sol tinha dificuldade em passar pelas altas copas das árvores, e estas copas também dificultavam a visão que os dois tinham do pássaro que os guiava mais acima. Só conseguiam se guiar pelos guinchados que a águia soltava, pois ela também não conseguia enxergar o caçador e a ladina com todas aquelas folhas que dificultavam sua visão.

     Um tempo depois chegaram a um local onde as árvores não estavam tão próximas. A ave desceu dos céus num rasante e quase acertou a ladina.

- Que pássaro mais petulante! Ele fez isso de propósito! – Nercy disse enraivecida. Markus pôs-se a rir, mas não por muito tempo, pois sua ave havia parado mais a frente em um galho e estava observando alguma coisa no chão.

     Os dois chegaram mais perto e á medida que se aproximavam um odor putrefato subia. Markus ficou horrorizado com a visão do corpo em decomposição a sua frente. O cheiro era tão insuportável que o rapaz não pôde evitar levar as mãos ao nariz e a boca os cobrindo e mantendo longe do contato com aquele cheiro pútrido e todos aqueles insetos que agora usavam o corpo como casa, alimento e antro de reprodução. Aquele, supostamente, deveria ser Maphin pelos cabelos negros que restavam na cabeça extremamente frouxa cuja nuca estava repleta de insetos. O corpo estava mais magro que o normal e agora parecia apenas um saco de ossos e carne sem vida, um saco de batatas infestado de larvas e insetos antropófagos.

- O que aconteceu com esse cara? Ele está todo acabado, hein. – Nercy disse rindo – Ele deve estar aqui há bastante tempo.

- Como pode ser tão insensível com um dos novatos da sua ordem? Você ri ao ver o estado do corpo do garoto? – Markus perguntou repreendendo a atitude da mulher.

- O quê? Este não é Maphin!

- Mas os fios de cabelo no bico de Percy eram negros e ele só pode ter atacado o portador das ordens para nos levar o pergaminho como fez!

     Nercy estacou. Risos já não podiam mais ser ouvidos saindo de seus lábios.

- Você ainda tem algum fio de cabelo com você?

- E por que eu guardaria os fios de cabelo de um homem? Ainda mais de um subordinado seu? – Markus debochou – Deve haver algum fio preso no bico de Percival ainda. Deixe-me ver. – Após, o caçador assoviou para a águia a fim de que ela pousasse em seu braço. O pássaro desceu e o rapaz analisou seu bico retirando o resto dos fios negros que ali estavam – Tome, são os que restaram. – disse estendendo o braço e os mostrando para Nercy.

     A ladina os analisou de perto ainda em silêncio.

- Maphin era loiro. Loiro dos olhos azuis. – ela disse ainda descrente de que aquele era seu aprendiz – Só há um jeito de termos certeza de que não é um engano. – Nercy disse enquanto caminhava até o corpo.

- Você não vai tocar nele, não é? É a cena de um crime! – Markus disse, mas já era tarde demais.

     A ladina havia pegado a cabeça que estava com a face voltada para a terra pelos cabelos e a levantou podendo assim ver os traços do rosto masculino e reconhecendo ali naqueles olhos pálidos, assim como os lábios, contornos e nariz o rosto do seu jovem aluno. Aquelas cavidades não haviam sido poupadas pelos insetos que também colocaram seus ovos na boca do rapaz. Nercy olhou para tudo aquilo e se sentiu extremamente mal. Não estava sentindo nojo ou enjoo com aquela visão, pois já teve visões piores. Nunca imaginara que veria um de seus subordinados, um de seus amigos, naquele estado. Sentiu-se extremamente impotente e inútil, pois era um dos símbolos de poder daquele reino e não podia deixar que aquilo continuasse acontecendo.

     Nercy depositou a cabeça no chão fazendo com que dessa vez as costas do garoto estivessem voltadas para a terra. Deu as costas ao cadáver e passou a andar de um lado para o outro com as mãos na cabeça. Retirou seu capuz violentamente e lançou-o ao chão chutando-o irada logo em seguida.

- Já é a sétima vez esse ano que um soldado aparece morto sem explicação alguma! Sem contar com as pessoas do reino cujos desaparecimentos já chegam à casa das dezenas! – Nercy exclamou – Nem pela peste, nenhuma briga de bar, nenhum inimigo, nenhum suicídio! Nenhum motivo!

- Entendo que se sinta frustrada por não ter conseguido resolver nenhum caso até o momen... – Markus tentou dizer, mas foi interrompido pela ladina.

- Outro fator semelhante em todos os casos é o fato de não haver nenhuma testemunha presente na hora da morte. Que grande coincidência, não é?! Nenhuma em nenhum dos casos... – Nercy respirou fundo, como se não estivesse rodeada pelo odor fétido e levantou a cabeça para soltar o ar e abrir os olhos – Maphin não fará parte dos casos arquivados. Na verdade, não deixarei que mais nada do tipo aconteça com nenhuma pessoa deste reino. – disse virando-se para Markus com as mãos nos quadris – Não vejo sinais de luta, mas há muito sangue perto daquelas outras árvores a alguns metros de nós. – Nercy disse apontando com a cabeça. Markus olhou para a direção e foi até lá para observar melhor a cena.

- Há realmente muito sangue aqui. – o caçador disse se agachando - Talvez o corpo tenha sido deslocado até ali pelo seu assassino ou tenha se arrastado até lá por conta própria antes de morrer. – Markus disse com sua mão direita em seu queixo. Olhou ao redor e notou os pedaços de pele que ainda restavam – Não parece que esta cena tenha relação com a morte de Maphin, pois esta pele é de algum animal. – o rapaz pegou um pedaço que estava perto de si e o examinou – Não tenho certeza de que animal possa ser, mas checarei quando voltar para o pavilhão dos caçadores. – e por fim se levantou com a amostra ainda na mão.

- Acho que tentaram disfarçar o acontecido. Deveria ter um corpo bem aqui, mas foi retirado. – Nercy tornou a olhar para o corpo de Maphin – Toda via, por que não esconderam o corpo do garoto? Além disso, o corpo está mais leve do que o normal. É como se alguns órgãos tivessem sido retirados. Não vejo as adagas dele em lugar algum e como, raios, os cabelos dele ficaram negros?!

     A ladina desviou seu olhar para o nada enquanto pensava. Os dois passaram um bom tempo em silêncio com Nercy em seus devaneios e Markus examinando os restos de pele. Ao final de sua inspeção pelos arredores, o caçador concluiu que nada mais poderia ser feito naquele momento, mas uma hipótese martelava em sua cabeça.

- Você acha que isso é algo do tipo que o rei faria ou algo que os seguidores dele fariam?

- Não creio que o Imperador perca seu tempo ordenando que pessoas sejam perseguidas e assassinadas, pois deve estar preocupado demais comendo seus doces ou penteando o cabelo. Acredito que algum reino vizinho saiba da atual situação de nosso reino, tenha espiões infiltrados aqui e esteja tentando nos desestabilizar. Talvez eles soubessem que o mensageiro iria até o outro lado do reino para nos entregar o convite e, então, o emboscaram. No entanto, assassinos não deixariam rastros e isso – Nercy disse apontando para o corpo com a mão enluvada – vai totalmente contra o que os espiões são treinados para fazer. Além disso, nenhum pararia para pintar os cabelos dele com carvão.

- Realmente... – Markus concordou.

- Avisarei o General e pedirei que esta área seja isolada para que meus subordinados possam inspecionar o local minuciosamente e tentar encontrar as adagas e mais sinais ou pistas que indiquem o assassino. Mandarei que levem o corpo para as catacumbas a fim de que ele seja examinado mais cuidadosamente pelos sacerdotes. Depois ele poderá ser limpo e finalmente estará pronto para a visita de sua família que com certeza desejará vê-lo antes que seja enterrado. – Nercy disse enquanto voltava para o local onde haviam amarrado seus cavalos – Vamos.

     Enquanto caminhavam juntos a ladina se lembrou da reunião que haviam tido mais cedo. Havia algo que precisava discutir com o caçador.

- Liturgo anda muito estranho ultimamente. Durante a reunião de mais cedo percebi que ele estava extremamente concentrado em algo. Parecia preocupado e sua feição estava séria. Ele nem ao menos percebeu que já estávamos reunidos há muitas horas. Não se importou com a invocação dos Deuses que Sidá fazia e ele sempre fica enfurecido, pois os dois não compartilham dos mesmos Deuses e crenças. – Nercy falava confusa – Pareceu-me que nem estava ouvindo quando o General começou a dizer suas reclamações e frustrações sobre o Imperador e Liturgo simplesmente não tolera quando falamos mal do Rei. O que mais me chamou a atenção é que ele também não fez nada no momento em que falei sobre o ritual pelo qual os iniciantes do meu clã devem passar. Ele apenas ignorou tudo, pois era como se não estivesse ali conosco. Durante a reunião eu desejei saber ler pensamentos, pois aquelas atitudes de Liturgo não são comuns.

- Você está se preocupando demais, Nercy. Se ele não reclamou sobre nada é melhor para nós que evitamos discussões desnecessárias com ele. Ainda precisamos descansar para a audiência que teremos com o rei amanhã. Deixe as investigações nas mãos de seus subordinados agora e descanse, pois sinto que amanhã o dia será pior.– Markus disse bocejando – Ficamos realmente muito tempo entretidos com o planejamento na sala de reuniões que só percebi que era tarde após o aviso de Sidá. E aqui aconteceu o mesmo enquanto estávamos examinando a cena, pois o Sol já está se pondo. – o rapaz ajeitou sua aljava de flechas em suas costas.

- Falando na Grã-Senhora, achei curioso o modo como ela lhe trata desde que chegamos a este reino. A feiticeira o trata com tanto zelo e alegria que cheguei a pensar que talvez ela tenha algum interesse em você. Talvez a idade da mulher não tenha aquietado outros desejos. – Nercy disse com um sorriso malicioso.

- Não fale besteiras. Uma mulher feito Sidá já é evoluída demais para ainda se interessar com relacionamentos amorosos! – Markus disse.

- Está chamando a Grã-feiticeira de velha, Markus? Que coisa feia! Onde está o garoto polido com o qual eu trabalho? – a ladina caçoou.

- Você sabe que eu não quis dizer isso. Na verdade, acho que ela me vê mais como um filho, pois está sempre cuidando de mim. Está sempre preocupada comigo e tudo mais. Hm, eu nunca ouvi nada sobre os filhos de Sidá. Acho que ela nunca veio a ter filhos.

- Isso me lembra da discussão que tive com Targan mais cedo enquanto lhe esperávamos. - Nercy recordou-se cabisbaixa – Sabia que os dois filhos deles morreram por causa do Imperador? Eu não sabia e reconheço que não deveria ter aberto minha boca para falar do que eu não sabia corretamente.

- Morreram por causa do Imperador? Deve ter sido terrível! Espero que Sidá não tenha tido algum filho que veio a falecer desta maneira... Poderia me contar sobre os filhos do General?  Ele ainda não confia muito em nós, certo? Levaríamos um tempo para descobrir se não fosse tal mal entendido.

     Nercy começou a narrar os fatos e já havia terminado a história quando ela e o caçador chegaram aos cavalos. Após ouvir tudo Markus começou a rir copiosamente da situação em que a matriarca havia ficado mais cedo. Os dois cavalgavam lado a lado e o rapaz comentou, em meio aos risos, que adoraria ter visto a cara da ladina naquele momento, mas teve seus risos interrompidos pelo belo chute que quase o derrubou de seu cavalo.

     Os dois voltaram para a cidade cada um para suas respectivas casas. A matriarca alertou os integrantes de seu Clã no momento em que foi recebida na irmandade e depois foi até o batalhão do exército onde avisou a Targan, que observava o treinamento de seus soldados, que sabia o motivo da demora de Maphin. Targan enviou imediatamente alguns de seus homens para isolarem a área e manter qualquer transeunte longe. Após a notícia de que o corpo de Maphin já estava nas catacumbas do templo e que as investigações haviam sido iniciadas, Nercy sentiu que finalmente poderia dormir. Era cerca de meia noite, a melhor hora para as atividades segundo os ladinos, mas a matriarca estava tão cansada que apenas trancou sua porta e nem se preocupou em tirar seu uniforme antes de se jogar em sua cama.

 

*           *          *

 

     No dia seguinte os cinco líderes haviam se reunido no salão do trono do Imperador. O palácio era em um terreno enorme cujos jardins apareciam tanto interiormente, no pátio interno, quanto exteriormente, ao redor do prédio. A construção era magnífica e imponente com torres a terraços muito bem planejados. As janelas eram enormes, mas limitadas a alguns cômodos e corredores, permitindo assim que muita luz do sol entrasse e desse uma iluminação natural ao ambiente. Nos grandes portões que davam acesso à entrada daquele território havia sempre guardas atentos às pessoas que cruzavam a frente da morada do rei.

     Depois de entrar pelos portões o visitante se deparava, primeiramente, com uma longa trilha bem marcada e cercada pelos arbustos e árvores do jardim real. Durante a caminhada por aquela bela trilha, podiam ser vistos mais soldados olhando atentamente para cada visitante. Mesmo que não pudessem ver o movimento dos olhos dos soldados, que ficavam feito estátuas sem ao menos mexerem a cabeça, era possível sentir o peso da atenção deles sobre si. Aqueles olhares poderiam deixar qualquer um intimidado e temeroso por estar rodeado de tantos guardas.

     O caminho levava até a porta de entrada do palácio que consistia em uma escada que dava para uma enorme porta de madeira maciça cujas bordas eram muito bem trabalhadas em ouro. Um pouco antes do início da escada havia sempre seis soldados de cada lado. Todos muito bem apresentados com suas armaduras polidas e lanças bem afiadas.

     O interior da construção era muito carregado em decorações e formas geométricas que eram sempre trabalhadas em ouro ou prata. Tudo era muito belo e magnifico, mas o excesso transformava tudo aquilo em um enorme antro de poluição visual e mau gosto.

     Mais um corredor se estendia depois da porta de entrada, mas agora esse era acompanhado de pilares cujas cores eram alternadas entre vinho e branco. Eram altos e detalhados na base e na parte que se unia ao teto, mas durante sua extensão delicados desenhos de ramos e galhos podiam ser observados cravados na pedra. Eles guiavam os visitantes para a sala do trono onde o Rei costumava passar a maior parte de seu tempo.

     A sala do trono era muito espaçosa com um teto muito alto. Ali não havia muitas janelas, mas em compensação enormes lustres e candelabros pendiam do teto e todos eles com inúmeras velas e decorações com pedras preciosas e cintilantes. O teto também não escapava de todas aquelas ornamentações, mas em si era mais simples com decorações apenas em seus cantos e um contorno um pouco afastado das paredes.

     Como que por ironia, o trono do rei não era lá essas coisas. Tinha um assento, um encosto apregoado e descansos de braços acolchoados com um veludo azul. O armamento era dourado e trabalhado em formas curvas e de conchas. Os elementos que realmente chamava a atenção no espaço do trono eram as enormes cortinas bem costuradas que cobriam quase toda a parede atrás do trono. Iam até um pouco abaixo do teto e ali havia um apoio para que o resto do tecido das cortinas pudesse ficar pendurado como as de antigos teatros.

     O rei se encontrava sentado em seu trono e Liturgo estava prostrado de pé ao seu lado. Os outros líderes, que estavam em frente aos dois, observavam o Imperador e Liturgo conversarem sobre futilidades ignorando totalmente a presença dos outros.

- Eu estou enjoada só de olhar para essas paredes e ter que respirar esse perfume que jogam nas flores. – Nercy resmungou.

- Estou passando mal só por ver essa roupa horrível que o Rei escolheu para nos receber. Parece que ele fez de propósito! – Sidá, que estava ao lado de Nercy, respondeu ultrajada.

     Targan e Markus estavam irritados. Haviam chegado ali fazia apenas alguns minutos, mas o imperador tinha conseguido cansá-los. Os dois se olharam e perceberam que pensavam a mesma coisa sobre toda aquela espera, então o general resolveu acabar logo com aquilo e pigarreou para que Liturgo e o Imperador pudessem ouvir. Com a atenção de Liturgo e os olhos raivosos do Rei sobre si, Targan pôde iniciar:

- Vossa majestade nos convocou para esta audiência a fim de discutir conosco sobre a tal... Competição.

- Ah, claro. – o Imperador concordou – Vocês ficaram encarregados de receber os aventureiros e de recolherem suas fichas. Vocês terão de ler todas elas sem exceção para que não aja nenhuma infração de regras. – o rei fez uma pausa – Desejo que o General Rukandor e a Matriarca Perikratus cuidem de minha proteção pessoal e da segurança durante toda a competição. Não quero nenhum viajante passando perto de minha propriedade!

- Como desejar, Vossa Alteza. – Targan disse fazendo uma reverência diante do Imperador. Ele percebeu que Nercy não havia se movido um centímetro e a fuzilou com o olhar. Mesmo um pouco relutante a ladina pendeu o corpo e a cabeça para frente em uma meia reverência.

- A Grã-Feiticeira Cardênia está encarregada de cuidar daqueles magos, animais, mutantes, monstros... Hum, seja lá o que aquelas coisas forem. – o imperador disse claramente enojado – E você, “Mestre de Caça”– o imperador voltou sua atenção para Markus – está encarregado de cuidar das fronteiras e das florestas junto da Matriarca e do General.

- Às suas ordens, Imperador. – Sidá e Markus responderam e reverenciaram o rei contra a vontade tentando digerir todas aquelas ofensas.

- Todos vocês deverão listar as riquezas que os participantes trouxerem e após encaminharão tudo para os depósitos imperiais. Agora devo me retirar, pois descansarei até a abertura da competição.

     Logo após, o Imperador se retirou da sala do trono sendo seguido por Liturgo e mais alguns criados que iam atrás, impedindo que a barra de seu manto encostasse no chão. Os líderes esperaram até as portas do corredor lateral serem fechadas para se encaminharem para a saída. Enquanto Markus caminhava junto dos outros líderes não pôde deixar de soltar um comentário sobre o Imperador:

- General, concordo com o que disse anteriormente. Nosso Rei é um pavão! – Markus debochou.

- Não acredito que ele simplesmente nos entregou a tarefa de recolher as fichas. Isso facilita muito nosso trabalho. – Targan falou.

- Creio que tudo isso dará mais trabalho do que nós imaginamos. – Nercy disse com uma mão no quadril.

- Todo o trabalho que nós tivermos é justificado pelo nosso objetivo. Não nos arrependeremos nenhum pouco quando enfiarmos o Imperador nas masmorras e depois o levarmos à forca. – Sidá disse se abanando com seu leque.

- Assim esperamos, minha senhora! E o Império voltará à grandiosidade de épocas passadas. – Markus disse rapidamente antes que os guardas, que abriam a porta que dava para o jardim, ouvissem.

     Os quatro saíram do palácio ansiosos para dar início aos preparativos para a competição, pois muita coisa ainda tinha de ser organizada. A competição, com certeza, seria estressante para os líderes, mas também ocasionaria muitos eventos pelos quais ninguém nunca havia sonhado passar. 


Notas Finais


Espero que este capítulo tenha sido do agrado de vocês e desejo-lhes um bom fim de semana.

Até mais.


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