História Lifeline Before the End - Capítulo 26


Escrita por: ~

Postado
Categorias The Walking Dead
Personagens Daryl Dixon, Personagens Originais
Tags Daryl Dixon, Passado, Personagem Original, Romance
Visualizações 306
Palavras 4.687
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Hentai, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Hey, Hey todo mundo!!

Olha quem chegou na data certa, sem nenhuma atraso!!! EUZINHA, tudo bem que era pra esse cap ter saído há algumas horas já, mas está caindo o mundo aqui na minha cidade, então a net me deixou na mão... Paciência.

Agradecimentos especiais tbm as maravilhosas divas que comentaram no cap passado *---* eu já disse que vocês são a purpurina dos meus dias?

Como prometido, capitulo narrado pelo Merle, temos um desfecho para o plot do Jason e bastante do passado dos meninos Dixon.
Um aviso especial é o ALERTA DE GATILHO desse cap, que fala sobre temas delicados, principalmente relacionamento abusivo, não deu pra isolar tudo como no cap do Daryl, mas o mais tenso está nos trechos em italico, caso alguém queira pular.
Lembrem-se sempre de respeitar seus limites emocionais.

Boa leitura.

Capítulo 26 - Acerto de contas


Fanfic / Fanfiction Lifeline Before the End - Capítulo 26 - Acerto de contas

~ Merle Dixon ~

Quando você vem de uma cidade pequena como Dawsonville, Atlanta pode ser um paraíso, ou um maldito inferno. Tudo depende do ponto de vista e do dia.

Diversão, garotas e drogas, tudo mais fácil na cidade grande. Por outro lado a concorrência é absurda, vender umas paradinhas e ganhar uma grana pode ser um belo desafio, os traficantes da cidade podem ser bastante violentos quando se trata de defender seu território.

Mas eu sempre fui bom no que faço, o que me gerou bons contatos, por isso, arrumar um lance, pra ir me mantendo até que eu finalmente pegasse aquele almofadinhas do Jason não foi difícil.

O maldito andava por todo canto com medo, não pela Shannon, quem buscaria vingança por uma simples garçonete? Mas ele tinha mexido com a filha de Peter Cooper, não tinha sido só a surra, todo mundo sabia que Peter não era o tipo que deixava as coisas pra lá.

O que ninguém sabia é que aquele Peter Cooper estava morto, era como se alguém tivesse cortado as bolas daquele maldito, se fosse em outra época...

Contudo, minha cunhadinha que me perdoasse, eu não estava lá por era. Natalie Cooper já tinha gente demais pra cuidar dela. Eu estava ali pela Shannon, ela merecia mais.

Observei a arma em cima da mesa, do quarto fuleiro de hotel onde eu estava. Aquele era o dia. O desgraçado estava indo para uma casa de campo ao norte da cidade, com o filho e a esposa, grávida, pelo que eu soube.

Depois de muito tempo, muito papo e algum dinheiro, um dos seguranças dele estava me devendo um favor. Ele me daria acesso a casa e distrairia os outros dois colegas de trabalho.

Seria jogo rápido. Um só tiro. Entrar e sair.

Sim, eu nunca tinha feito algo como aquilo, matar um homem, mas Jason merecia, não só pela Shannon. Eu tinha observado o filho da puta por tempo suficiente pra saber o que ele era...

Eu hesitei no início, no primeiro mês apenas segui o maldito, uma surra bem dada talvez fosse o bastante... Mas então eu percebi que homens como Jason não seriam detidos por uma surra, ele não pagaria o que fez com a Shannon com um a surra. E talvez ele fizesse outra vez.

A imagem da esposa e do filho me vieram a cabeça, um gosto amargo e conhecido invadiu meu paladar, ele acabaria com a vida dos dois, exatamente como meu pai tinha feito...

Vesti a jaqueta e coloquei a arma escondida no cós da calça, era início de tarde, mas eu teria que dirigir algumas horas até meu destino. Antes disso, havia apenas uma coisa que eu tinha que fazer, afinal era treze de julho.

Deixei o quarto e segui para uma cabine telefônica qualquer, disquei o número da oficina e após alguns toques Cooper atendeu. Daryl e Natalie tinham ido acampar, como um casal de pombinhos apaixonados. Minha cunhadinha devia ter uma bela chave de perna, porque eu nunca pensei que aquela merda duraria tanto.

Se, por um lado, eu achava aquilo bom, afinal Daryl não era do tipo que gostava muito de mulher e isso sempre me deixava preocupado, por outro eu não achava que aquele envolvimento com Natalie era uma boa coisa a longo prazo.

Fique com uma mulher por muito tempo e ela vai achar que manda em você, que controla a sua vida. Todas são assim, sem exceção, por isso eu nunca me apeguei...  

A imagem de Shannon, dançou na minha mente, mas eu a dissipei rapidamente enquanto discava.

Eu gostava da Natalie, ela era legal, pra uma garotinha mimada da cidade, até tinha me surpreendido, mas ela ainda era uma mulher, e só um cego não veria o quanto de influência ela tinha no meu irmãozinho. No momento aquilo era bom, eu precisava de alguém de olho no garoto enquanto eu resolvia minhas paradas. Mas e depois?

Não era como se eu quisesse ver os dois casados e rodeados de crianças remelentas. Credo.

Tive que ligar duas vezes e já estava prestes a desistir, quando alguém finalmente atendeu, a voz do meu irmão se fez ouvir do outro lado da linha.

— Olha só quem atende o celular da senhorita Cooper agora, já está assim é, irmãozinho! — debochei antes mesmo de dizer “alô”.

— Merle, seu desgraçado! — Daryl soou bastante contente.

— Feliz aniversário, Darlyna, pelo visto você está comemorando bastante, cuidado pra não quebrar o pau de tanto transar, já vi uns casos assim na TV.

— Vai se ferrar, Merle! — Ele xingou, mas percebi uma coisa surpreendentemente estranha, Daryl estava de bom humor, realmente estava. Não pude evitar franzir as sobrancelhas, enquanto segurava o telefone.

O mundo devia estar acabando e tinham esquecido de me contar.

— Quando você volta, Merle? Pare de procurar encrenca. — Daryl advertiu, mas, mesmo assim, parecia muito calmo pro meu gosto.

— Natalie fez alguma lavagem cerebral em você, foi? Você parece muito... feliz?? — comentei, deixando claro o estranhamento em minha voz.

Não houve resposta por um longo momento, como se o próprio Daryl tivesse acabado de se tocar daquele fato.

— Para, Merle e responde logo a minha pergunta, quando você volta? Você não fez nenhuma besteira fez? — Percebi que ele tentou usar um tom mais severo, como se precisasse disfarçar o que estava sentindo

— Minha vida é fazer besteiras, até parece que não me conhece. — Ri alto, fazendo algumas pessoas que estavam passando na rua me encararem, joguei um beijo para uma das mulheres. — Mas, sério, eu estou preocupado, por que você está assim tão felizinho? Diga que é porque ela deixou você entrar pela porta de trás, porque, se for por causa de um mini-Dixon a caminho eu vou...

— Merle! Porra, cara, dá um tempo! — A resposta veio ríspida, era o Daryl de sempre novamente e eu quase respirei aliviado.

— Esse sim é o meu irmãozinho, fiquei até mais calmo agora. — Ri ainda mais.

— Você ainda não respondeu minha pergunta...

— Fica em paz Darlyna, quando for a hora de voltar, eu volto em grande estilo, como sempre, até lá aproveita aí a farra, afinal, me parece que a coisa está boa. Feliz aniversário irmãozinho, não faça nada que eu não faria. — Desliguei antes que Daryl pudesse responder.   

Decidi que não pensaria no motivo de meu irmão estar tão feliz naquele momento, eu tinha assuntos mais sérios pra resolver...

***

A casa de campo de Jason era um local ligeiramente afastado, o típico refúgio de mauricinhos como ele. Deixei a moto escondida entre a folhagem e esperei dar a hora combinada.

Estava começando a escurecer, mas era como se o tempo não passasse, cheguei a pensar que meu relógio estava quebrado. Quando finalmente chegou o momento eu respirei fundo, chequei a arma uma última vez e caminhei até a entrada do lugar.

Michel, o carinha que me devia um favor, estava no portão, os olhos estatelados, olhando de um lado para o outro, como se a polícia pudesse sair de uma pedra a qualquer momento.

— Aí, cara, eu não sei se isso é uma boa ideia, se alguém descobrir eu estou ferrado. — Ele falava rápido demais, remexendo o corpo de uma lado para o outro.

— Relaxa, cara, eu já disse, ninguém vai descobrir que foi você que me deixou entrar, na boa. — Ergui minhas mãos.

Ele continuou me olhando incerto por um tempo.

— Não sei... Tem certeza que é só um susto? — perguntou olhando para trás e se certificando que ninguém estava vindo.

— Certeza absoluta — concordei, colocando a mão no bolso interno da jaqueta e tirando um belo pacote de heroína de lá, bem casualmente, os olhos de Michel vidraram no pacote. — Mas quer, saber, se você não tiver confortável com isso, de boa... A gente deixa nosso acordo pra lá. — Fiz menção de guardar o pacote, mas o cara, em uma velocidade assombrosa, tirou o bagulho da minha mão.

— Os outros dois caras estão espalhados, norte e sudeste, é uma ronda, em meia hora eles vão voltar aqui e eu dou uma distraída neles antes que possam passar pela casa — avisou, me dando passagem, enquanto já abria o plástico um tanto desesperado. — Você vai cumprir o restante da sua parte, não é?

— Claro, irmão, toda a droga que você puder consumir, totalmente de graça, por seis meses — menti, enquanto andava de costas na direção que ele indicara.

Esse era o problema com viciados, os idiotas acreditavam em qualquer mentira. Como se eu fosse mesmo ficar em Atlanta depois daquela noite. Eu sabia bem que teria que sumir por um tempo até a poeira abaixar...

Escondido entre as árvores eu avistei a casa, o tipo de construção chique, com janelas de vidro enormes que me davam visão de tudo que acontecia lá dentro, me abaixei ali e esperei por um momento.

Um garoto brincava na sala, embora não parecesse muito animado. Eu já tinha visto o moleque de longe algumas vezes e ele sempre tinha aquela aparência abatida, talvez fosse o fato de ser muito pálido, mas ele parecia uma daquelas crianças doentes.

Uma discussão começou no andar de cima, eu podia ouvir as vozes elevadas, embora não entendesse exatamente o que diziam. Tirei a arma do cós e a apertei na mão.

Minha respiração saiu do ritmo. A mulher desceu a escada primeiro, estava nervosa, parecia chorar, Jason desceu logo atrás, gesticulando e falando ainda mais alto. Fiz a mira, mas os móveis, e uma parte da parede, me prejudicavam.

O menino parou de brincar, levantou e ficou de pé ali no meio com os olhos arregalados, vendo os pais brigarem. Jason agarrou o braço da mulher grávida e continuou gritando, sacudindo-a levemente. O garoto chorava, tentou alcançar a mãe e levou um só safanão do pai, que o vez cair no chão.

As coisas saíram um pouco do foco, não era a primeira vez que eu via aquela filho da mãe brigando com a família, sempre me trazia aquele gosto amargo na boca, como uma lembrança que eu tentava reprimir a todo custo. Mas ela veio com força total daquela vez:

Não era mais Jason e a família dele ali, era meu pai, minha mãe e eu, Daryl ainda estava na barriga...

Papai estava bravo, ele sempre estava bravo, eu já tinha idade pra entender que dinheiro era, normalmente, o motivo. Talvez, se ele bebesse menos e trabalhasse mais, não tivéssemos tantos problemas. Mas preferia dizer que era culpa da minha mãe.

Ele bateu nela, eu tentei intervir e apanhei também, não era a primeira vez, não foi a última. Will Dixon saiu de casa batendo a porta, como se fossemos um peso que ele carregava nas costas.

Mamãe estava sentada no chão, as pernas cruzadas e as costas encostada na parede, enquanto abraçava a barriga, como se precisasse proteger meu irmão que ainda nem tinha nascido, as lágrimas escorriam pesadas pelo seu rosto, se misturando com o filete de sangue que saia pelo lábio cortado.

Me sentei ao lado dela, eu nunca sabia o que fazer ou o que dizer naqueles momentos, eu sempre me sentia fraco e inútil, eu nunca pude defender minha mãe, eu nunca pude defender ninguém...

Talvez por isso ela estivesse sempre triste, ela estava sozinha, vovó estava morta e eu era fraco.

Eu pedia pra irmos embora, mas por algum motivo, mesmo que na hora ela falasse que sim, nós nunca fomos. Papai chorava, pedia perdão e então eu podia ouvi-los fazendo as pazes no quarto. Era como um ciclo vicioso, sempre acontecia outra vez.

Papai prometia que mudaria, mas nunca mudava, eu parei de confiar, de acreditar...

“Isso é amor”, ele dizia ás vezes, poucas vezes, e eu pensava comigo mesmo que se aquela merda era amor, então eu nunca queria amar e ser amado na vida.  Tudo que eu queria era ser forte.

O barulho de algo quebrando me trouxe de volta a realidade, havia vidro no chão, provavelmente de algum dos muitos vasos caros que tinham por ali. Jason estava com as duas mãos no pescoço da esposa, enquanto o garotinho, puxava-lhe a roupa em desespero.

Já era o suficiente, eu não pude deter meu pai, mas eu podia parar Jason, eu não era mais fraco.

Sem pensar muito em como faria aquilo, saí de trás da árvore e consegui correr até a casa sem ser visto, apenas notaram minha presença quando eu abri a porta com um chute.

— Tira suas mãos da moça! — mandei em alto e bom som, no que os três ali me encararam totalmente atônitos. — Anda! — Sacudi o revolver.

A mulher foi a primeira a erguer as mãos, antes colocando seu corpo levemente na frente do garoto.

— Eu vou demitir aqueles merdas de seguranças. — Jason resmungou, enquanto fazia o mesmo, claramente desgostoso.

— Leve o que você quiser, só não machuque a gente, por favor. — A moça implorou um tanto apavorada. Mas que mulher estúpida.

— Eu não vim roubar nada, dona. Vim acertar contas com o esse filho da puta. — Deixei claro, enquanto fuzilava o homem, ela pareceu surpresa, talvez não soubesse de nada do que ocorrera em Dawsonville, talvez Jason tivesse mentido pra ela sobre tudo. — Pegue o garoto e suba, depois de hoje ele nunca vai tocar em você ou nele outra vez. Ele nunca mais vai tocar em ninguém.

Pegando o filho no colo, ela subiu as escadas, lançando um último olhar para o marido.

Jason me encarava de sobrancelhas franzidas, como quem tenta se lembrar de alguma coisa.

— Você faz mesmo tanta merda que sequer lembra por qual delas eu vim te cobrar? — Fui irônico, a arma estava firme na minha mão. — Se lembra da Shannon?

Uma sombra de entendimento passou pelos olhos daquele babaca, enquanto ele balançava a cabeça, fingindo tristeza.

— Foi um acidente lastimável... — Começou um discurso do qual me desliguei totalmente.

Que tipo de pessoa usava a palavra “lastimável”? Aquilo era a porra da vida real, não um filme.

— Cala a merda da boca! — Dei um passo para frente, puxando a trava da arma.

— Hey, calma, calma! — Jason ergueu as duas mãos. — Foi tudo um mal entendido, eu nunca quis machucar a moça, foi um acidente. Até a polícia encerrou o caso e declarou isso oficialmente.

Eu não conseguia decidir se sentia mais raiva daquele merdinha, por ser um cretino dissimulado, ou da polícia, por nunca fazer a merda do trabalho direito.

Coloquei o dedo no gatilho, tudo que eu tinha que fazer era apertar e então teria acabado... Por que eu não conseguia? Eu queria aquilo, eu queria aquele homem morto, mas querer e fazer eram duas coisas bem diferentes.

— Você não é um assassino. — Jason constatou certeiramente, eu já tinha quebrado a cara de muita gente, mas nunca tinha matado ninguém. — Olha, eu entendo, você está triste e com raiva, ela devia significar alguma coisa pra você, mas vamos ser sinceros, isso vai ter consequências. Por que você apenas não vai embora? Eu posso até te dar algum dinheiro, não compensa estragar sua vida por uma garota como ela...

O retardado nem bem tinha terminado de falar quando eu o atingi com o cabo da arma, bem naquela cara de merda que ele tinha, então eu subi sobre ele e soquei, de novo e de novo. Eu podia sentir alguns dentes se quebrando, enquanto Jason se debatia embaixo de mim. O maldito era o tipo que sangrava muito.

Talvez eu não conseguisse atirar no desgraçado, mas eu não precisava de uma arma pra dar cabo dele, eu podia fazer com as minhas próprias mãos...

Sabe aqueles dias em que você acorda e no momento em que coloca os pés no chão sabe que vai ser um dia de merda? Aquele não era um desses dias. Quando acordei, tudo que conseguia pensar é que seria um ótimo dia.

Acerto de contas e depois muita comemoração. Tudo que eu podia desejar. Talvez eu até comprasse um pressente maneiro para o maricas do meu irmãozinho. Era pra ser um dia maravilhoso da porra. Era...

— Coloque as mãos onde eu possa ver! — O policial gritou apontando sua arma na minha direção, quase no mesmo instante em que algumas viaturas paravam do lado de fora, espalhando aquela sirene irritante por todo lado.

Olhei o homem no chão, sobre o qual eu ainda estava praticamente em cima, e quase rosnei. Mas que filha da puta tinha chamado a polícia?

O tira foi mais enfático, dessa vez com o apoio do parceiro. Sem escolha, ergui minhas mãos cobertas de sangue, enquanto os dois homens se aproximavam e me davam voz de prisão, citando meus diretos.

Não que eu os ouvisse de fato, enquanto era algemado meus olhos seguiram para o topo da escada, onde a mulher me fitava com seus olhos arregalados. Ficou claro que ela tinha chamado a polícia. Maldita vadia de merda. 

Encarei Jason no chão, ele estava inerte, eu esperava que estivesse morto, mesmo que isso fosse me ferrar de muitas formas.

Me empurraram pra viatura, me jogando lá de qualquer jeito, uma ambulância chegava no mesmo instante e a vadia traidora aparecia na porta desesperada. Eu devia ter matado aquela desgraçada.

Sabe aquele dia em que você acorda e pensa que tudo vai dar certo? Pois é, eu nunca estive tão errado em toda minha vida...

***

Minhas mãos estavam algemadas na mesa, eu estava em uma sala fria, de tons cinzentos, um grande espelho do lado direito de onde eu sabia que os tiras podiam me ver. Merda de delegacia de cidade grande.

A dupla de salvadores da pátria que me prendera, já tinha tentado dar uma dura em mim, mas eu não abri minha boca, conhecia aquela laia o bastante para saber que dizer qualquer coisa era furada. Eles me trariam um advogado, um do estado, já que eu não podia pagar nada melhor.

Foram quase duas horas de espera algemado naquela mesa, os nós dos meus dedos estavam todos esfolados e eu ainda tinha sangue daquele filho da puta em mim. Sabia que aquilo era de proposito, eles podiam ter me colocado na cela, mas preferiram me deixar ali, era uma punição idiota. Cretinos.

Finalmente um homem engravatado entrou pela porta, mandou soltarem minhas mãos, perguntou se eu queria água, era o tipo polido escroto. Senti que daria merda.

Ele já sabia todo meu caso, ficou falando por minutos sem parar e eu me toquei de cara que ele não estava do meu lado, não mesmo.  

— Você invadiu uma propriedade privada, com uma arma ilegal e tentou matar um homem, esse caso pode ficar muito complicado se você não cooperar. — Juntou os papeis na mesa, como um arzinho superior que me irritou mais que qualquer coisa.

— Cooperar como? — perguntei, cruzando os braços.

— Confesse. Você pode conseguir um acordo, sua ficha não é muito boa, mas você nunca foi preso de fato, esteve no exército, essas coisas contam. Você vai dizer que entrou pra roubar, Jason reagiu e vocês brigaram. Por sorte ele não está morto nesse momento... Isso é um pouco a seu favor.

— Eu não sou um ladrão! — rebati de imediato.

— Prefere ser um assassino, então?

— Jason é o assassino, eu estava fazendo justiça. — Senti vontade de voar no pescoço daquele idiota.

— Justiça é para os tribunais e para quem estudou pra isso, você não é um vigilante ou justiceiro, você é só um criminoso comum, senhor Dixon.

Havia um risinho debochado nos lábios daquele idiota e eu perdi toda a minha paciência com ele.

— A justiça só atinge os pobres. Os almofadinhas, como você e o Jason, sempre se safam dela — retruquei, sem me importar em parecer amigável. 

— Isso é besteira, é só conversa de... — Ele tentou, mas eu tinha cansado daquele papinho.

— Quer saber? Vai tomar no cu você e o seu estudo, eu te demito. Não te quero como meu advogado, vaza. — Fiz um gesto de desdém com a mão e o cara me olhou como se não pudesse acreditar. — Então, qual a parte de “eu te demito” você não entendeu? Precisa de um diploma pra te ajudar a achar a saída?

— Boa sorte pra achar outro advogado então, você vai precisar, senhor Dixon. — Levantou com aquele ar superior, enquanto arrumava a gravata e então saiu, dizendo ao guarda que tínhamos terminado ali.

A pior parte não era estar preso e sem advogado, a pior parte era que Jason ainda estava vivo, eu tinha falhado no fim das contas...

Fui arrastado pra cela, como se fosse um pedaço de lixo, e jogado lá com outros tantos caras.

— Eu quero fazer minha ligação! — gritei, batendo na grade e o policial me encarou com um sorriso cínico.

— Os telefones estão ocupados agora.

Me segurei para não mostrar o dedo do meio, minha situação já estava ruim o bastante, mas não tinha problema, logo eu ligaria para o Daryl e daríamos um jeito.

Menos de dez minutos depois o mesmo policial voltou, a expressão denunciava seu claro desgosto.

— Você tem visitas — avisou, abrindo a cela novamente.

Franzi as sobrancelhas, quem viria me ver assim tão rápido?

Fui levado de volta para a mesma sala cinzenta e, quando a porta se abriu, tive uma baita surpresa. A esposa de Jason estava sentada, me esperando chegar.

— O que você está fazendo aqui? — perguntei, com a voz impregnada de ódio.

Os policiais me algemaram na mesa novamente, mas, diferente do que tinham feito com o advogado, não saíram da sala.

— Não me ouviu? Perguntei o que você está fazendo aqui, vadia? — Aumentei meu tom de voz e ela arregalou os olhos, enquanto os homens me olhavam feio.

— O que o meu marido fez pra você? — indagou, em um tom de voz baixo e amedrontado, percebi que ela fazia esforço pra parecer decidida.

Eu ri debochado, enquanto me encostava na cadeira, como se aquilo fosse um encontro casual e eu não estivesse preso ali.

— Ele não te contou, foi? — Estreitei os olhos, acusatório. — Ele matou uma garota, Shannon, ela era uma boa pessoa.

O nome de Shannon na minha boca tinha gosto de veneno, eu não era o tipo de cara que pensava muito nos “e se” da vida, mas os fatos estavam ali, só não via quem não queria... Uma palavra minha, um gesto, talvez pudessem ter mudado tudo.  

— Foi um acidente... — A mulher abaixou a cabeça, estralando os dedos nervosamente.

Então ela sabia? Que tipo de mulher sabia uma coisa dessas e deixava pra lá?

— Você realmente acredita nisso? É um acidente toda vez que ele te bate? É um acidente toda vez que ele bate no seu filho? — Joguei sem piedade, levando o corpo para a frente. — Ele estava fodendo com a Shannon e depois a matou, porque ela nunca foi como você que aguenta tudo calada.

Os olhos dela estavam nos meus, ela vacilou por um momento, tremeu.

— Ele cometeu um erro saindo com essa garota, e depois teve aquele acidente terrível, não foi culpa do Jason. — Não havia convicção nenhuma naquelas palavras.

— Continue repetindo isso quando se deitar todos os dias, mas não vai fazer virar verdade. Quando você cansar de ser o saco de pancadas daquele filho da puta, talvez   perceba que ainda não está tão acabada, pode conseguir um pau melhor... — insinuei, olhando-a de baixo a cima e ela se levantou ofendida. — Ou talvez ele te mate também...

Aquilo ficou no ar, como uma maldição. Olhos marejados e mãos tremendo, ela tinha medo do próprio destino, mas não fazia nada para mudá-lo, eu nunca entenderia algo assim.

— Nós vamos formalizar a queixa, é o único jeito de garantir nossa segurança. — Fez o possível pra assumir uma pose distinta e ameaçadora, que não foi capaz de me enganar por um mísero instante.

— Você nunca vai estar segura na mesma casa que ele, eu tenho dó de você, dona — soltei, cansado daquela conversa e das sensações conhecidas que ela me trazia, era como como ser um garoto novamente.

— Jason é o meu marido, ele é o pai dos meus filhos, eu o amo. — Se virou um momento pra me fitar. — Eu preciso proteger minha família. Desculpe...

Ela saiu antes que eu pensasse em responder, era como se eu tivesse sido jogado em um maremoto de lembranças outra vez:

Minha mãe estava doente, era como se fosse consumida lentamente por algo invisível, eu a via tentar todos os dias, mas, lentamente, ela perdia a briga. Daryl era muito pequeno pra entender qualquer coisa, meu pai piorava a cada dia. Era como viver um inferno dentro da minha própria casa, e ainda assim, os adultos tentavam mascarar aquilo.

Naquele dia Liliane acordou ainda mais estranha, ela fez nosso café e apenas se sentou para nós ver comer, chamou Daryl de canto e conversou com ele por um tempo, pude ouvi-la dizer que o amava. Depois me chamou também, passou a mão pelo meu rosto e me abraçou apertado, como alguém que está se despedindo antes de partir por muito tempo.

— Ei, filho, você pode me fazer um favor? — pediu, alisando meu rosto.

— Claro, mãe.

— Tome conta do seu irmão, ele é muito pequeno e não entende bem as coisas.

A encarei, sem entender bem o sentido daquele pedido, apenas daríamos uma volta, eu estava na idade de azarar as garotas e Daryl gostava de correr atrás dos meninos que tinham bicicleta, nada demais.

— Tá bom, nós só vamos ali e já voltamos. — Franzi as sobrancelhas, estranhando um pouco aquela conversa.

— Você é a única pessoa que ele tem, vocês são irmãos, nada pode ser mais importante que isso, promete que vai sempre protegê-lo? — Ela segurou meus ombros enquanto falava, como se aquilo fosse de extrema importância.

— Claro mãe, acha mesmo que eu vou deixar alguém se meter a besta com o meu irmãozinho? Eu sou um Dixon — declarei, orgulhoso de mim mesmo, em casa eu ainda podia ser fraco, mas nas ruas, entre os moleques da minha idade e, principalmente, entre os mais novos, eu já era respeitado.

 — É, eu sei que não vai.... — Deu um sorriso triste, enquanto me abraçava novamente.

— Você está bem? — perguntei, percebendo que ela estava prestes a chorar.

— Eu estou cansada, filho, muito cansada, desculpe... Vai brincar com o seu irmão lá fora, tudo bem? — Me encarou com ternura e eu assenti. — Lembre-se de cuidar do seu irmão, não importa o que aconteça, ele é a sua família, devemos proteger nossa família. — Me deu dez dólares e eu, empolgado com aquilo, não fiz mais perguntas.

Quando saí, um cheiro estranho no quarto chamou minha atenção, mas eu tinha dez dólares e isso era mesmo uma coisa rara em casa, então eu não me importei com aquilo.

Aquela foi a última vez que eu vi minha mãe, os adultos disseram que ela dormiu com um cigarro aceso. Mais tarde eu acabei percebendo que aquele cheiro estranho era fluído de isqueiro, minha mãe não morreu em um acidente, ela desistiu, porque estava cansada, e eu nunca disse isso pra ninguém.

Tentei tomar conta do meu irmão, como prometi, mas a verdade é que eu nunca conseguiria fazer isso dentro daquela casa, então eu fiz o que minha mãe nunca pode, eu fui embora, achei que Daryl ficaria melhor sem mim, achei que poderia voltar pra buscá-lo depois. Uma vida melhor, uma casa melhor... Mas quando eu voltei descobri que meu irmãozinho era exatamente como nossa mãe.

Ele estava preso em um tipo de amor que nunca vou ser capaz de entender, como um cachorro que é maltratado mas volta para o dono. Eu nunca pude lidar com aquilo, então eu sempre partia, mas aquela maldita promessa me fazia voltar todas às vezes.

— Vamos logo, Dixon! — O policial de puxou da minha própria mente e me arrastou de volta para a cela.

A mulher de Jason já se fora, apenas mais uma pessoa patética presa aquela merda que era o amor, eu tinha dó dos filhos dela.

— Avise quando quiser fazer sua ligação. O telefone está livre agora. — O tira avisou, me trancando de volta na cela.

Pensei por um momento e então neguei, a conversa com Daryl pela manhã voltando na minha cabeça, ele parecia feliz...

— Não tem ninguém pra quem eu queira ligar.

Talvez a melhor maneira de cumprir minha promessa, fosse não envolver meu irmãozinho naquela merda toda...


Notas Finais


Não só o Daryl carrega muitos traumas, Merle também, cada um encara a dor de uma forma.
Merlinho mesmo sendo escroto ainda consegue cativar a gente, ele nunca contou ao irmão sobre a mãe ter desistido.
Eu acho tão triste a história da Liliane, ela afundou na depressão até desistir, mesmo os filhos não foram o bastante.

Will tem muito carma pra resgatar, não é mesmo?

E algumas vezes, assim como aconteceu com o Jason, as coisas não terminam de forma justa, algumas pessoas nunca chegam a pagar pelo mal que fizeram...

Eu não coloquei nome na mulher do Jason, porque ela podia ser qualquer uma, milhares de mulheres vivem o que foi retratado aqui, e muitas vezes elas não são capazes de se libertar disso. Como o Merle disse é sempre um ciclo, o abusador (ou abusadora, porque não) da relação faz a vitima se sentir culpada pelos erros dele, pede desculpas, tem aquele tempo de calmaria e começa tudo de novo.
Mas diferente do que o Merle fez aqui com a mulher do Jason, pessoas nessa situação precisam de apoio e não de julgamento.

Podemos até achar que certas coisas são amor, mas se faz mal, então é melhor repensar.

É só por hoje, sexta que vem eu estou de volta com um capitulo narrado pela Natalie e talvez seja hora de alguém ouvir algumas verdades...

Bjss e até.


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