História Lifeline Before the End - Capítulo 32


Escrita por: ~

Postado
Categorias The Walking Dead
Personagens Daryl Dixon, Personagens Originais
Tags Daryl Dixon, Passado, Personagem Original, Romance
Visualizações 362
Palavras 5.340
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Hentai, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Hello everybody!!!

Cheguei nesse segunda com mais um cap de Lifeline (ehhhhh)
E já começo com noticias maravilindas!!! Lembram do Emmy da semana passada??? GANHAMOS NA CATEGORIA MELHOR ENREDO!!!
Vocês conseguem imaginar minha felicidade??? Só tenho a agradecer imensamente por terem confiado na história, essa vitória é mérito te vocês e eu serei eternamente grata por dedicarem tanto carinho a esse bebê que é Lifeline.

Agora um aviso: Vocês sabem que eu tenho uma veia dramática fortíssima, digna de novela mexicana mesmo, então fica aqui o alerta de muito drama uahsuashush

Pra dar o clima, temos uma arte personalizada ilustrando o capitulo, com um trecho de "The Other" do Lauv, essa é a música tema do capitulo e eu recomendo fortemente que ouçam, sério. (link lá embaixo)

Bom é isso, nos vemos lá em baixo.
Boa leitura.

Capítulo 32 - Apenas mais uma noite


Fanfic / Fanfiction Lifeline Before the End - Capítulo 32 - Apenas mais uma noite

"Who wrote the book on goodbye?
There's never been a way to make this easy
When there's nothing quite wrong but it don't feel right
Either your head or your heart, you set the other on fire"

The Other ~ Lauv

 

~ Daryl Dixon ~

— Vai beber mais alguma coisa? — Ouvi a garçonete perguntar, mas era como se a voz dela estivesse a quilômetros de distância.

Encarei minha garrafa de cerveja, ainda sobre a mesa, e percebi que estava parcialmente cheia, porém totalmente quente. Quanto tempo fazia que eu estava ali olhando para o nada?

Era pra eu ter tomado apenas uma bebida e deixado o Joe’s um pouco depois de Deborah Spelman. Minha ideia era dirigir até Atlanta e ver o meu irmão desmiolado. Merle tinha um dom para se meter em encrencas.

Porém, de alguma forma, o fato do meu irmão estar atrás das grades me assustou muito menos do que a outra parte da minha realidade...

Por fim, eu tinha pedido uma ou duas cervejas e ficado apenas sentado ali, incapaz de me levantar, por horas e horas a fio. Nem pra ficar bêbado eu prestava.

Nunca fui bom em tomar decisões, na maior parte do tempo eu apenas deixava que a vida seguisse seu curso, e como em um rio, eu me deixava levar pela correnteza.

Provavelmente aquilo de “deixar a correnteza me arrastar” tinha me levado até aquele momento.

Os últimos dias tinham sido... complicados, no mínimo. Natalie estava mal, choro e remédios, uma tristeza angustiante.  Eu tentava convencer a mim mesmo que tudo passaria, que ela ficaria bem, mas a verdade é que cada vez que eu olhava para Natalie Cooper eu via tudo que minha mãe passou. Era assustador. Me causava pesadelos muito realistas. Me fazia reviver coisas que eu tinha enterrado no fundo da mente, ao mesmo tempo em que eu me sentia preso a ela, de uma forma que eu não queria ficar preso a ninguém.

Era tudo muito confuso...

Por isso, não foi uma surpresa que Deborah quisesse levar a filha embora, eu sabia que isso era o certo. Acho que no fundo eu esperava que a correnteza agisse por mim e levasse Natalie pra longe, mudasse o rumo das coisas...

Mas a proposta que eu recebi era algo que eu nunca, nunca mesmo, teria imaginado. E as coisas ficaram realmente confusas na minha cabeça, achei que algumas doses de qualquer merda ajudariam a clarear a mente, contudo eu sequer consegui beber, deixei a merda da cerveja criando moscas na garrafa.

— Só veja quanto deu. — respondi, não esperando que ela voltasse a minha mesa e pagando minhas cervejas direto no caixa

Quando coloquei os pés para fora do bar, percebi que era bem mais tarde do que eu supunha. Eu ficara ali todo aquele tempo, tentando descobrir que rumo dar para a minha vida, mas na verdade eu não chegara a conclusão alguma. Ou melhor, eu sabia sim o que devia ser feito, eu só estava com problemas para aceitar aquilo.

Respirei o ar da noite e agradeci mentalmente não ter vindo de caminhonete, afinal, desse modo, eu teria mais um tempo para pensar enquanto caminhava até em casa.

“Em casa” onde era isso? Minha casa era onde o meu pai vivia? O lugar onde eu tinha pisado uma única vez naqueles dias, apenas para pegar roupas... Essa devia ser minha casa, certo?

Então porque a imagem mental que eu fiz não foi essa? Por que a primeira coisa que pensei, foi saber se Natalie estava bem?

E por que aquilo tudo me assustava tanto?

Quando abri o portão, passando por toda a instalação da oficina, intocada nos últimos dias, eu percebi algo crucial: enquanto Natalie estivesse ao meu alcance eu sempre voltaria pra ela, como metal atraído por um imã. Era pra ela que a correnteza me levava.

Parei ao pé da escada e encarei a subida, voltando, em seguida, meu rosto para o mesmo lugar por onde eu entrara. Acho, que mesmo antes de colocar o pé no primeiro degrau, eu já sabia o que era certo fazer, mas nadar contra a maré não era fácil.  Então eu subi, me permiti seguir a correnteza pelo menos mais um pouco.

Pensei que encontraria Natalie dormindo, já passava das dez e ela dormia muito, por causa dos remédios, mas, ao invés disso, quando abri a porta do quarto, a porta do banheiro estava entreaberta e a luz acesa.

No mesmo instante em que eu ensaiava chamar seu nome, ela apareceu enrolada em uma roupão, secando os cabelos em uma toalha, segurando, algo que parecia uma caixa de remédios na outra, não parei para prestar atenção no que era.

— Oi. — Sorriu fraco, guardando a caixa em uma gaveta de penteadeira. Os olhos menos inchados, porém a postura tensa. — Você sumiu a tarde toda, senti sua falta. Está tudo bem?

Me encarou inquisitiva e preocupada, enquanto jogava a toalha em uma cadeira e abraçava o próprio corpo, esperando uma resposta.

— Eu tinha umas coisas para resolver. — Encostei no batente, percebendo que eu ainda não estava pronto para contar da minha conversa com a mãe dela.

Percebi a ironia daquilo, e o quanto eu tinha sido escroto dias atrás por cobrar honestidade de Natalie, sobre a situação com meu pai, quando eu mesmo não conseguia ser totalmente honesto em algo parecido.

— Pensei que te encontraria dormindo... — comentei, ainda parado ali, enfiando as mãos nos bolsos.

— É, eu estaria, se tivesse tomado os malditos remédios, mas cansei deles, então... — Natalie deu de ombros, percebi que ela não se aproximou os metros que nos separavam, analisando minha postura, como se soubesse que tinha algo errado.

Era assustador o quanto aquela garota me conhecia. 

— E como você está se sentindo? — perguntei, enquanto ela pegava a escova na penteadeira.

— Eu odeio essa pergunta, sabia? — Deu uma risadinha sem graça, desviando os olhos dos meus e virando para o espelho. — Eu não estou bem, pra ser honesta, mas não acho que a tristeza e dor que eu sinto seja coisa de remédio.

— Sua mãe acha... Talvez ela esteja certa. — sugeri, caminhando até ela e parando às suas costas, ao mesmo tempo em que nossos olhos se cruzavam no espelho.

— Essa foi a frase mais assustadora que eu já te ouvi dizer. — Natalie riu, uma risada de verdade dessa vez.

Percebi o quanto eu sentia falta dela, mais precisamente, daquela parte dela que me fazia sentir leve, como se nada mais no mundo importasse, como se não houvessem preocupações... 

— Minha mãe toma remédio pra tudo na vida, pra dormir, pra acordar, mas pelo que eu acabei descobrindo esses dias, os remédios não resolvem os problemas dela, só os camuflam. Ainda não sei como eu vou lidar com o que eu estou passando, mas não acho que eu vou descobrir isso dopada, então... — Deu de ombros, voltando seu corpo na minha direção, depois de colocar a escova de volta na penteadeira.

Senti um certo alivio por vê-la mais decidida e mesmo amuada, no entanto, aquela ruga de preocupação ainda estava em sua testa, a marca irrefutável de que nada mais era leve como antes, de que não podíamos fugir das decisões que teríamos que tomar.

O que é bom dura pouco, é o que dizem, não é?  Vai ver eu não merecesse paz e calmaria no fim das contas.

— Talvez eu tenha umas ideias de como você pode lidar com isso... — sugeri, deixando meus ombros caírem.

Eu sabia exatamente o que era certo, eu só precisava de um pouco de coragem pra dizer em voz alta. Ou talvez eu precisasse de coragem pra fazer a coisa errada.

— Sério? Eu gostaria de ouvir suas ideias. — Natalie se virou, parecendo interessada.

Palavra alguma saiu da minha boca, eu simplesmente não consegui deixar de encarar os olhos negros, mesmo na penumbra do quarto era como se eles brilhassem, como se tivessem uma galáxia particular.

Senti o toque de Natalie no meu braço direito, sutil e leve, apenas a ponta de seus dedos descendo pelo meu pulso e alcançando minhas mãos. Enchi os pulmões, aspirando e me embriagando do perfume dela, como se fosse uma droga.

Era doloroso lutar contra, era doloroso permanecer, mas se era dor por dor, então eu desejava mais uma noite, mesmo sabendo que era injusto e talvez errado.

Se tudo que é bom tem que acabar, então que acabe amanhã...

— Depois — respondi finalmente, levando minha mão esquerda ao rosto de Natalie e a puxando para mais perto. 

— Depois está ótimo pra mim. — Ela murmurou entre meus lábios, pouco antes que nos beijássemos.

Intenso, quase descontrolado, o beijo se tornou visceral, minha camisa voou pra algum lugar, enquanto o roupão de Natalie escorregava para o chão.

Nos movemos em conjunto para a cama, como se compartilhássemos uma necessidade mútua um do outro. Da minha parte, era um desejo sôfrego, eu queria que aquela noite durasse, que o dia nunca nascesse, mas, ao mesmo tempo, eu ansiava por ela, assim como alguém deseja água fresca no meio do deserto.

Foi quase violento o modo como nos entregamos, havia uma urgência dolorosa em cada movimento meu, porque eu sabia o que aquela noite significava, e me sentia um crápula por saber e, mesmo assim, deixar acontecer.

Mas eu simplesmente precisava dela, desesperadamente, precisava olhar em seu rosto e ver seus olhos brilharem enquanto a fazia minha. Eu precisava guardar aquele momento na minha mente, para me convencer que tudo tinha sido real quando não houvesse mais nada.

E quando acabou, quando caímos um ao lado do outro, com nossos corpos cansados, suados e satisfeitos, quando Natalie simplesmente me fitou na penumbra do quarto, sem nada dizer, por horas, eu soube que, independente do que acontecesse depois, eu nunca seria capaz de pertencer a outra pessoa da forma como tinha pertencido a ela.        

Aquilo era o mais próximo do amor que eu conseguiria chegar na vida.

Então eu adormeci, mesmo sem querer. Adormeci sabendo que o fim daquela noite era inevitável...  

***

Eu sempre convivi com pesadelos, eles nunca foram grande novidade pra mim, porém, naqueles últimos dias meus sonhos eram diferentes. 

Verdade que eu nunca sonhei com monstros e fantasmas, acho até que tais coisas sequer me assustariam. Minhas noites, geralmente, eram assombradas por imagens do meu pai, as brigas dele com a minha mãe, e todas as surras ou humilhações, que eu ainda podia sentir na pele. Era o normal do meu dia a dia, então, depois de anos sonhando esporadicamente com aquilo, tais pesadelos não tinham mais efeito em mim. Era só mais um pouco de merda na qual minha vida estava atolada.

Mas naquelas últimas noites, algo tinha mudado.

Eu era o protagonista dos meus pesadelos, era eu vivendo um relacionamento regado à brigas, era eu chegando em casa bêbado, era Natalie sofrendo exatamente como minha mãe.

E naquela noite em especial, meus pesadelos ganharam um terceiro protagonista, eu me tornei o carrasco de um pequeno garotinho, eu me tornei meu pai, e isso foi mais assustador do que qualquer outra coisa.   

Quando abri os olhos, com o coração ainda acelerado, só havia uma pergunta em minha mente: Será que podemos fugir do que nossos pais nos criaram para ser?

Eu acreditei totalmente que não. Eu não poderia fugir daquilo. Não dava pra fugir de quem eu era, eu sempre seria um Dixon...

Respirei fundo e me sentei na cama, percebendo que eu estava sozinho. Os primeiros raios de sol entravam pela janela, provando que eu conseguira dormir algumas horas, desde que tomara Natalie em meus braços.

Uma noite de calmaria como eu queria, mas a manhã tinha chegado... Quanto mais eu protelaria o inevitável?

Imagens daquele maldito pesadelo me voltaram a mente e eu fechei os olhos com força. Eu tinha prometido a Peter que faria o certo pela filha dele e percebi claramente o que “fazer o certo” significava naquele instante.

Eu nunca seria bom o bastante.  E o pior de tudo era que eu sempre soube, era isso que vinha me tirando a paz nos últimos dias, era essa a verdade que eu vivia tentando negar...

— Foi um sonho ruim? — Ouvi a voz de Natalie e a procurei pelo quarto, encontrando-a sentada no beiral da janela.

Eu apenas suspirei, comprimindo os lábios, enquanto dava levemente de ombros, preferindo não dar uma resposta concreta.

A luz alaranjada do início da manhã dava a Natalie uma aparência quase etérea, como se ela fosse algum tipo de visão. Ela vestia minha camisa xadrezada azul, se eu bem me lembrava era a mesma camisa que eu tinha usado da primeira vez que tínhamos saído juntos.

— Você sequer dormiu, não é? — perguntei, enquanto me vestia.

Ela copiou o mesmo movimento que eu tinha feito anteriormente, deixando minha pergunta sem uma resposta verdadeira e voltando os olhos para o nascer do Sol. Aquele quê de preocupação ainda estava estampado em seu rosto, ela abraçava o corpo e parecia distante e, ainda assim, nunca estivera tão linda.

Era como se houvesse algo de melancólico no ar, ou talvez fosse apenas eu que sabia exatamente o que estava por vir.

— No que você está pensando? — questionei, me aproximando e me debruçando sobre o beiral da janela ao lado dela.

Não houve resposta imediata, só o silêncio acompanhando pelo canto de alguns pássaros que estavam acordando naquele momento.

— Não sei... — Sua voz veio depois de alguns minutos, mas seus olhos permaneceram longe dos meus. — Eu só, sei lá, fico tentando acertar as coisas na minha cabeça, mas... Eu sinto que eu perdi parte do controle da minha vida, parece que existem lacunas enormes, em planos que estavam perfeitos semana passada.

Natalie ainda estava triste pelo pai, isso era evidente, mas havia algo mais, algo que não estava lá nos dias anteriores... Talvez ela soubesse, talvez ela tenha enxergado a verdade que estava entre nós desde o começo.

— Você perdeu alguém importante, é normal que seus planos não façam mais sentido. Talvez você precise de planos novos, novos ares... — lancei, enquanto ensaiava mentalmente tudo que eu diria a seguir, enquanto eu me preparava inutilmente para algo que eu nunca estaria preparado.

— Eu não quero novos planos. — Finalmente os olhos negros se voltaram para mim.

Tudo que eu quis naquele instante foi fechar as cortinas, trancar a casa e ficar ali naquele quarto, com Natalie, para sempre, eu queria que o mundo acabasse, que o tempo parasse, que fossemos apenas eu e ela.  

— Às vezes o que queremos e o que precisamos são coisas diferentes — argumentei em voz alta, pareceu um conselho para ela, mas na verdade era para mim mesmo.

— Daryl Dixon fazendo reflexões profundas é novidade pra mim. — Natalie riu, e eu admirei aquilo como se fosse um presente de Deus, ao mesmo tempo em que me sentia terrivelmente culpado.

Voltamos ao silêncio, Natalie desceu do beiral para se debruçar ao meu lado. As costas da mão dela tocando a minha sutilmente e permanecendo ali.

— Quer me contar o que tem de errado? — perguntou neutra, calma, naquele tom carinhoso que sempre usara comigo, o tom que ultrapassara todas as minhas barreiras.

— Como assim? — Me fiz de desentendido, mas em minha mente já havia uma lista de todas as coisas erradas que cercavam minha vida.

— Já faz uns dias que você estranho, você me olha de um jeito diferente, e passa muito tempo fechado em si mesmo... — devolveu, naquele mesmo tom, preocupada, porém compreensiva.

Era ainda mais difícil fazer o necessário com ela agindo daquela forma, era quase desesperador.

— É complicado... — Dei de ombros, sendo evasivo, tentando ganhar tempo.

Eu queria encontrar uma forma de fazer aquilo sem que ninguém saísse machucado, mas a verdade é que estávamos no em um carro desgovernado prestes a voar da pista, se ferir era inevitável, mas se saltássemos do carro antes do impacto, talvez sobrevivêssemos. Era pular no asfalto ou esperar o impacto...

— Tudo sobre você é complicado, Baby Dix, já me acostumei. — Natalie sorriu, sua mão procurando a minha e entrelaçando os dedos nos meus. — Uma hora você vai ter que me dizer, sabe disso, não sabe?

Ela me dava forças, e a ironia daquilo perfurou meu coração como um tiro a queima roupa. 

— Não sei bem por onde começar... — admiti, apertando a mão dela, enquanto me sentia estranhamente enjoado.

— Por que não começa por hoje; Você sumiu a tarde toda, e quando voltou estava muito abalado. O jeito como você olhou pra mim, como me tocou... Você me beijou com desespero e quando estávamos na cama foi... intenso. — Ela parou um minuto, como se estivesse lembrando da noite anterior, sorriu de canto, mas eu me senti a pior pessoa do mundo. — Não estou dizendo que não gostei, porque eu gostei. Eu precisava daquilo. Mas teve um momento, quando você me olhou bem no fundo dos olhos, aquilo pareceu uma... Bom, eu não gostei do que pareceu.  

Uma despedida.

Ela não disse, mas eu soube que tinha percebido. Ela era Natalie Cooper, claro que tinha percebido... Me senti pior que um verme, o nó no meu estômago subiu para a minha garganta e eu não sei de onde tirei a força de vontade para não vomitar.

— Eu falei com a sua mãe hoje. No Joe’s... — despejei de uma só vez, eu não podia mais protelar aquilo. — Ela acha que você tem que voltar pra Washington.

A postura de Natalie não mudou em nada, ela não parecia surpresa, tão pouco nervosa.

— É claro que ela acha. — Revirou os olhos na minha direção, como se a opinião da mãe não fizesse a menor diferença.

— Ela acha que eu devia ir com você... — continuei, sentindo novamente o impacto daquela proposta.

Ainda era um choque pra mim e Natalie teve a mesma reação, deixando claro que não esperava uma coisa como aquela da mãe.

— Como é? — Ela soltou minha mão, e virou totalmente o corpo na minha direção.

— Ela acha que não vai fazer bem pra você ficar na cidade e que não conseguiremos ter um futuro aqui. — Desencostei do batente e bati meus dedos ali, aquela conversa começou a me deixar impaciente.

Deborah estava certa, qualquer um via como aquilo iria acabar, eu sempre tinha visto, mas preferi fechar os olhos.

— E o que você acha? — Natalie foi perspicaz, deu um passo na minha direção, me procurando com os olhos, colocando o rosto levemente na frente do meu.

Engoli em seco quando meu olhos se encontraram com os dela, não havia mais como fugir daquilo, não havia mais como negar a verdade.

— Eu concordo com ela. — Fui direto, sustentei seu olhar, escondi todo o resto dentro de mim.

Natalie desviou o rosto, deu um passo para trás e abraçou o corpo, enquanto fitava a rua vazia pela janela, era impossível pra mim decifrar o que se passava pela cabeça dela.

— Mas você também não se vê vivendo em Washington, vê? — Fez a pergunta sem me encarar, talvez ela estivesse começando a se dar conta de coisas que eu já sabia há dias. 

— Não — respondi de pronto.

Eu cheguei a tentar me visualizar na capital quando Deborah fez a proposta, mas aquela era uma coisa impossível, mesmo na minha mente, e foi triste, porque eu olhei nos olhos daquela mãe e vi o quanto de orgulho ela estava deixando de lado para me fazer aquela proposta.

— Eu nunca te pediria pra ir, eu entendo o que está em jogo pra você. Não é só sua família, é quem você é. Você é um caçador, Daryl Dixon, te levar para a cidade grande seria a mesma coisa que prender um tigre em uma jaula... — Natalie voltou os olhos pra mim novamente, a mão pousando sobre a minha. Aquela era a maior prova do quanto ela me conhecia e do quanto ela me respeitava.

— Você entende o impasse em que chegamos, não entende? Eu tenho que ficar e você tem que partir. — Finalmente eu falei o necessário, nossos caminhos eram opostos, era claro como água.

— Eu não vou pra lugar nenhum, Daryl. — Ela disse aquilo para me acalmar, mas o efeito foi o oposto. Por que Natalie tinha que ser tão teimosa?

Me afastei da janela e respirei fundo, meneando a cabeça nervoso.

— Mas você precisa ir. Essa é a coisa certa.   — Fui enfático. Gostaria que ela facilitasse as coisas, toda aquela situação já era dolorosa o bastante, a última coisa que eu precisava era de Natalie bancando a cabeça-dura insistente.

— Você está errado, eu preciso ficar. — Ela se encostou na janela e suspirou, mordendo os lábios como se houvesse algo mais para dizer, porém se calou.

Passei a andar de um lado para o outro, não tinha um meio fácil de fazer Natalie entender tudo que se passava pela minha cabeça e, se eu não a fizesse entender, ela nunca desistiria.

Parei de andar, passando as mãos pelo rosto, antes de encará-la novamente.

— Acontece que eu não posso fazer isso, não dá mais. — Minhas palavras saíram tremulas, eram muitas emoções ao mesmo tempo, era difícil descrever ou processar cada uma delas.

— Tudo bem... As coisas estão confusas e muito bagunçadas agora, eu entendo. Mas podemos parar e ir mais devagar. Podemos resolver isso. — Natalie caminhou até a cama e se sentou, com uma calma que começou a me tirar do sério.

— Devagar ou rápido, ainda estaremos indo para o mesmo lugar, e eu não... — Voltei a caminhar feito uma barata tonta pelo quarto, minha voz já tinha subido três tons. — Eu não posso fazer isso! Esse não sou eu, não posso te dar o que você quer.

Ela mantinha os olhos em mim, neutra, eu era a tempestade e ela a calmaria, totalmente opostos.

— Eu sequer disse o que eu quero. — Deu de ombros, baixando mais um pouco o tom de voz, como se quisesse me mostrar que eu estava exagerando.

Geralmente aquela estratégia dela funcionava, geralmente a calma e o controle dela quebravam minhas pernas e me faziam parar, mas daquela vez não funcionou, daquela vez apenas me lembrou todos os motivos pelos quais não daríamos certo.

— Você não precisa dizer, fica bem claro pelo jeito que você olha pra mim!  — acusei, dando três passos na direção dela. — Você tenta construir uma fortaleza ao meu redor, Natalie, mas ao invés de me proteger, você me sufoca.

Minha última frase a desestabilizou, ela tirou os olhos de mim e levantou da cama, ficou perdida nos próprios pensamentos por um tempo. Me senti ainda pior por ter dito aquilo, mas era necessário, não era mentira. Eu me sentia sufocado ás vezes, nem sempre era uma sensação ruim, mas, ainda assim, era sufocante.

— Eu só... — Ela não soube como terminar.

Natalie queria me proteger, eu via isso, queria me dar toda a atenção que meu pai não deu, mas esse não devia ser o trabalho dela. Eu me senti acolhido e bem no começo, mas quando encarei a situação de frente, percebi para o que realmente estávamos caminhando.

— Você quer uma família, e eu não posso te dar uma, entende isso? — confidenciei e algo dentro de mim desmontou.

Sempre ficou claro pra mim que eu tinha destruído minha própria família, como é que eu podia construir outra?

— Você está com medo, eu entendo, eu tenho medo também, é novo e assustador, mas podemos lidar com isso. Juntos. Eu sei. — Natalie segurou meus ombros, delicada, porém firme, era difícil lutar contra a determinação dela.

Mas minha incapacidade de rebater as convicções que ela demonstrava, tinha sido o que nos levara aquele ponto. Se eu tivesse resistido mais, se eu tivesse mantido-a afastada, nada daquilo estaria acontecendo.

— Eu não tenho medo de nada! — menti, me esquivando dela em um movimento brusco. — Eu só não sou esse homem que você acha que eu sou! Você montou uma imagem minha na sua cabeça, mas ela é falsa, uma ilusão, esse não sou eu!

A verdade é que eu tinha medo sim, medo de onde aquilo tudo nos levaria, medo de ser alguém que eu não queria ser. Medo de repetir os erros do meu pai.

— Você está nervoso, e está sendo extremista.  Vamos conversar quando você estiver mais calmo... — retrucou, respirando fundo e tentando passar por mim.

Foi minha vez de segurar em seus ombros, eu tinha que fazê-la ver a verdade.

— Por que você teima em fechar os olhos para a verdade, Natalie? Eu não posso ser o cara que você quer, eu não posso ser o cara que você precisa...

Ela tinha que entender o que estava em jogo pra mim, o que ficar com ela significava de verdade e o quão difícil era. Aquele era o momento em que eu tinha que saltar do carro e cair no asfalto, eu tinha que suportar a dor do concreto raspando e queimando a minha pele, porque eu sabia que não seria capaz de suportar a batida.

— Eu não nasci pra isso, eu simplesmente não consigo estar em um relacionamento, nem com você nem com ninguém. Eu tentei, mas esse não sou eu. Eu não sou o tipo de cara com uma mulher numa casa perfeita, que faz churrasco aos domingos e cria um filho. Eu não posso... — A primeira lágrima escorreu pelo rosto alvo de Natalie, enquanto ela dava um passo pra trás, eu a tinha jogado do carro também e isso me feria duplamente.  — Eu não fui criado pra isso, ser forçado a ser um marido, ou um... pai, seria pior que tortura. Eu simplesmente não posso.

Praticamente pude ver algo se quebrando entre nós, Natalie pareceu assustada, algo dentre as coisas que eu tinha dito realmente a atingiu. Eu a vi tremer enquanto se apoiava na cômoda.

— É por isso que você precisa ir. Porque toda vez que eu olho pra você, eu me lembro disso, não importa o quanto você tente me consertar, não importa o quanto você feche os olhos para todos os meus problemas... Isso é o que eu sou. Eu não posso ser consertado, ou curado e toda vez que eu olho pra você, toda vez que eu toco você, toda vez que você me beija, eu me lembro disso. — Dei as costas e caminhei até a janela, segurei no beiral e respirei fundo, eu nunca tinha sido tão sincero, nem com ela, nem comigo mesmo.

Fechei os olhos com forca e passei a mão pelo rosto antes que uma lágrima rolasse.

Que merda eu tinha feito quando deixei aquela bochechuda entrar na minha vida? E por que eu ainda sentia que faria tudo de novo apenas para passar mais uma noite ao lado dela?

— Eu tentei, tentei pra caramba, mas não dá...  — Admiti com a voz falhando algumas silabas. Desejei ser outra pessoa, desejei que caísse um raio na minha cabeça, mas eu sabia que nada disso aconteceria, eu só tinha a realidade, era como nadar na merda, não tinha como sair limpo. — Você precisa ir, porque é doloroso demais olhar pra você e saber que eu vou te machucar, quanto mais isso durar pior vai ser, e você sabe disso. Eu sei que você sabe. Quanto tempo até acabarmos como os seus pais? Quanto tempo até acabarmos como os meus pais? Não podemos fazer isso.

Me virei pra encarar Natalie e soube que ela entendia, que ela sabia que era o fim e não se importava nem um pouco em parecer forte, como eu estava tentando.

Ela soluçou enquanto algumas lágrimas escorriam pelas bochechas coradas pela dor. Eu me senti um monstro.

— Você precisa voltar pra Washington, não tem mais nada pra você aqui em Dawsonville, além de dor e desgraça. — Dizer aquilo, olhando nos olhos dela, foi a coisa mais difícil que eu já tinha feito na vida. Mas eu me apoiei ao fato de que Natalie estaria melhor sem mim.

Ela não estaria perdendo nada. Eu podia conviver com isso.

A vi controlar a respiração e limpar o rosto, olhar para cima e menear a cabeça com um sorriso de lado.

— Só tem um problema, Daryl... — Havia um quê de ironia na sua frase, mas ela respirou fundo após terminar, parando por um momento e me olhando nos olhos depois disso. — Eu te amo.

Foi quando tudo virou de ponta cabeça, meus olhos arderam, a ponta dos meus dedos começou a formigar, minhas pernas fraquejaram e eu senti que tinha um buraco no meu peito.

Ela me ama... Não consegui impedir uma lágrima de rolar pelo meu rosto. Por um instante deixou de ser sobre as coisas que eu estava tentando evitar e passou a ser sobre as coisas que eu estava perdendo. E eu nunca estive tão perto de fraquejar, de deixar a correnteza me levar, porque talvez desse certo, porque, talvez, fosse mais fácil fechar meus olhos e fingir que não sabia que eu me afogaria. Natalie me amava e isso podia ser o bastante.

“O amor não é o bastante” a frase característica de Peter, dita por Natalie no velório, soou na minha cabeça como um alarme, e eu nunca entendi o Cooper tão bem como naquele instante.

Era uma verdade cruel e dolorosa; amor não era o bastante, amor não mudava quem eu era, amor não mudava o passado. Eu ainda era eu, e ainda não sabia lidar com aquilo.

Então, fiz a única coisa que me pareceu certa no momento, eu usei aquele amor contra nós...

— Se você me ama, então você precisa me prometer que vai embora com a sua mãe... E que não vai voltar, não vai ligar, ou me mandar cartas. — Era cruel, afinal eu sabia exatamente o peso que uma promessa tinha para Natalie. — Eu preciso te arrancar de mim e não vou conseguir se souber que existe qualquer chance de te ter de volta.

E ali estava a verdade, se Natalie estivesse por perto, meus passos sempre me levariam para ela, acabaríamos em um ciclo vicioso e doentio onde nenhum dos dois seria verdadeiramente feliz.

Nós não tínhamos futuro e eu sabia que isso era minha culpa.

Natalie me encarou como se eu tivesse acabado de atirar nela a queima roupa. Eu a quebrei, pois a queria a salvo de mim, não fazia sentido, mas parecia certo na minha cabeça.  

— Isso é injusto... — A resposta saiu em um fio de voz, eu me senti um criminoso. Se antes eu já não era bom, depois daquilo eu me tornaria indigno de salvação.

— Eu sei. — Assenti tentando parecer firme.

Aquilo era um erro, mas ficar com Natalie seria um erro ainda maior, eu não estava pronto para ariscar. No fim, era tudo sobre meus medos e minha covardia. Eu era apenas um maricas, como Merle sempre dizia.

Natalie ficou me encarando por um tempo, até que finalmente caminhou até mim. Era como um condenado percorrendo o corredor da morte. Parou a centímetros e, sem aviso, me beijou docemente, apenas um encostar de lábios, enquanto segurava a gola da minha camisa.

— Eu prometo. — declarou ao se afastar, os olhos nublados fixos nos meus. — Eu prometo que, se eu sair de Dawsonville, eu nunca vou voltar e que não vou te procurar, de nenhuma forma. Eu prometo que... — Ela respirou fundo, soltando todo o ar dos pulmões — se você sair por essa porta agora, isso vai ser um adeus, Daryl Dixon.

Então era tudo ou nada, minha escolha, estava tudo nas minhas mãos. Natalie deixava claro o que queria, porque ainda estava segurando firme a gola da minha camisa.

Segurei suas mãos com as minhas e fiz pressão para baixo, devagar e delicadamente, seus dedos me libertaram, mas era como se seus olhos implorassem. Eu dei um passo pra trás e ela reprimiu um soluço, abaixou a cabeça e fechou os olhos.

Agradeci mentalmente, eu nunca seria capaz de virar as costas com Natalie olhando pra mim. Soltei suas mãos e foi como ser engolido pelo vazio.

Simplesmente prendi a respiração e parti, desci as escadas correndo, bati a porta da frente, liguei a caminhonete e acelerei, mal vendo o que estava na minha frente.

Eu estava fugindo. Covarde, maricas...

Antes de dobrar a esquina olhei pelo retrovisor e vi Natalie na janela. Aquela era a última vez que eu a via e ela estava chorando. Por minha causa.  

— Adeus, Natalie Cooper. 


Notas Finais


Pois é... Tô devastada, acho que vocês sabiam, pelo prologo, que algo assim estava a caminho. Daryl não tinha superado os traumas dele, apenas deixado as coisas de lado, depois de uma semana toda de gatilhos é compreensível que ele fuja. É triste, mas deixa claro que certas coisas deixam uma marca profunda, que muitas vezes a pessoa não é capaz de superar.

Novamente temos uma promessa entre o nosso DixChechas e agora é que são elas. Dois caps para o fim, o próximo é o final oficial, narrado pela Natalie, depois teremos um pequeno epilogo narrado pelo Daryl. Mas não pensem que acabou porque ainda temos fortes emoções antes da segunda temporada.

Agora um aviso rápido, não vou dar data de postagem porque vou arrancar os 4 sisos essa semana, como não faço nenhuma ideia de como isso vai ser, melhor não prometer nada. Mas não se preocupem, se eu morrer arranjo wi-fi no céu pra postar uahsaushuahs

Bjs e até

PS: Essa é a música, já com tradução. ( https://www.youtube.com/watch?v=uRjNO8N9wEE )


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...