História Lobisomem: Os Destituídos - Capítulo 3


Escrita por: ~

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Categorias World of Darkness (Mundo das Trevas)
Personagens Personagens Originais
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Palavras 4.282
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 3 - S01EP03 - Hazel Storm


            Albany, 18 de Julho de 2015.
                      Casa dos Lawrence. – 07:00.

Zoe zanzou pra lá e pra cá com o celular nas mãos por um bom tempo. Tentou retornar a chamada algumas vezes e fracassou em todas. A madrugada avançou junto com o cansaço. No fim ele venceu e a catapultou na cama. As pálpebras despencaram.

No mundo dos sonhos ela acelerou sobre quatro patas em meio ao abandono de uma floresta de concreto. Parecia uma cidade largada às moscas, sem ninguém. Houve um intervalo ocupado pela escuridão sem cheiro ou som. Em seguida a Rahu viu o rosto de seu pai com uma pinta roxa no centro da testa. Ela o encarou com curiosidade, até que de repente a marca se espalhou pelo rosto da face. Os olhos saltaram do globo, a boca secou, a pele foi chupada para dentro e Mark fora reduzido a uma caveira vazia.

Acordou mais cedo naquela manhã com dor de cabeça e a respiração fora de compasso. Estava suada como se tivesse saído de uma sauna. O sol da manhã brilhava sem calor lá fora. O piar dos pássaros prenunciaram o dia bonito. O vento que vinha lá de fora era uma das coisas boas da cidadezinha.

Ela sentiu-se pegajosa, e notou todo aquele suor nos lençóis da cama. “Ah, merda”. Pulou para fora da cama, procurando a toalha que não tinha guardado na noite anterior, impossível com a preocupação que estava. Tomou uma ducha fria para melhorar a dor de cabeça. Voltou ao quarto e buscou pelo celular, caído no chão. Na tela nenhuma chamada perdida para aliviar sua consciência. “Onde você se enfiou?” Trocou de roupa e desceu pelas escadas.

Cruzou a sala e viu o sofá vazio. Mark tinha se dado ao trabalho de dormir na cama depois do noticiário esportivo. Ela distribuiu passos e agitação pela cozinha, conquistando algumas frutas. Abocanhou a maçã que estalou com o toque dos dentes e molhou boca e bochecha. Discou mais uma vez o número de Taylor. – "O número que você discou não recebe chamadas ou está desligado."

Frustrada, com outra chamada sem resposta. A garota enfiou o aparelho no bolso, pegou as chaves de casa e saiu sem cerimônia. Não iria ficar parada esperando para ter notícias. Tinha que descobrir o que havia acontecido depois daquela chamada.

Zoe acelerou os passos pelas ruas de Albany. Só a brisa que vinha das montanhas cruzou seu caminho. Tudo estava parado e o sol iluminava os Montes Apalaches criando uma paisagem de cartão postal. A paz seria estragada em breve. Turistas chegariam e enfestariam a cidade de barulho e sujeira. Alguns de olho nas opções de alpinismo, outros convidados para o seminário Beleza & Saúde a ser sediado no hotel-fazenda.

O prédio de Taylor era simples e vivia de portas abertas. As janelas de todos os apartamentos estavam tampados por cortininhas. Depois de lances de escada a Uratha alcançou o apartamento certo. Ela forçou a maçanetas e descobriu o óbvio: a porta estava trancada.

— Taylor! — Bateu na porta. Aquele lugar era como sua segunda casa, até os vizinhos da amiga a conheciam. O silêncio depois das batidas perdurou alguns instantes. O bufo de insatisfação fugiu dos pulmões de Zoe que ameaçou voltar a bater, mas dessa vez com ar de espancamento. Só não o fez porque uma voz conhecia irrompeu a quietude.

— JÁ VAI! — Taylor aproximou-se com cuidado do olho mágico. Cara de zumbi, força de uma criança. Noite mal dormida. “Caralho. Será que essa maluca não tem nada melhor pra fazer que dá uma de galo na manhã de sábado?”. Destrancou a porta e abriu.

Quando a porta abriu, os olhos de Zoe encontraram a loira com os olhos caídos e arranhões pelo corpo. Pareciam recentes, mas já em estado avançado de cicatrização.

A morena não esperou por um convite, foi entrando sem ser convidada. — Quer me dizer que porra aconteceu ontem? — O apartamento de Taylor era mal cuidado. O chão sentia saudades de uma vassoura. A pia vivia com mais vasilhas que os armários e roupas sempre estavam espalhadas pelo chão por não caberem no cesto.

— Bom dia pra você também. — Ironizou dando passagem. Fechou a porta em seguida e foi até a mesa. Pegou o controle da TV e a ligou. Perambulou enquanto trocava frases com Zoe. — Acho que tem alguém nos vigiando. Não sei se é um espírito ou uma alcateia. Corri pra caralho e me machuquei toda na fuga. Essa coisa de ser Uratha é uma merda.

Zoe procurou pelo sofá, tirou algumas roupas sujas que ocupavam o espaço e se largou ali mesmo. Acompanhando com os olhos a amiga andando. — Me faça um favor da próxima. Atenda a merda do celular. Perdi as contas de quantas vezes te liguei. — Bufou. Lá estava ela bancando a mãezona novamente. — Você viu o que era?

— Ah claro! Vou me lembrar de enfiar o celular no cú antes de me transformar da próxima vez. Tudo só pra você poder me ligar, mãe. — Destilou seu sarcasmo. Então parou de andar e fez pose de pensativa. Murmurou mais pra si que pra amiga. — Tenho que ver se encontro o aparelho. Deve estar lá ainda. — Balançou a cabeça e voltou a cuidar dos afazeres simples. Entre um bocejo e outro, comentou. — Vi não. Mas coisa boa não era. Só não sei o porquê de estar no cemitério àquela hora. Isso me encucou. Talvez estivesse me seguindo.

— Olha a língua, não foi assim que te criei. — Zoe revidou, imitando o tom de voz mais sério. — Talvez essa “coisa” que estava te seguindo poderia estar procurando o que você foi checar no túmulo da minha vó? E até agora você não me disse o que foi fazer lá.

— Conversei com seu pai sobre isso. Ele não me quer xeretando. — Escorou na parede e mirou a televisão. Olhos grudados na tela, mente em outro lugar. — A parte boa de ser Uratha é nosso organismo, certo? Não ficamos doentes, cicatrizamos rápido e por aí vai. Nem HIV pode com a gente. — O tom saiu com algum orgulho. — Sua vó era velha, mas nem tanto. Não tiro isso da cabeça. — Então a vista flagrou algo, ou melhor, alguém interessante na TV. — Olha lá! Olha lá! Olha lá! Aquela gordinha que te falei outro dia!

A voz do sujeito saiu excitada sem ritmo, como de alguém que tenta falar depois de machucar a barriga de tanto rir. — Michelle, Michelle... Nós sabemos! Você não o viu dançando antes de dizer Sim quando ele propôs! Como raios foi a dança pré-nupcial?! Ha ha ha! Você TEM que nos enviar o vídeo.

Explosão de gargalhadas no auditório. O apresentador do talk show fez graça com a última aparição do Obama. É verdade que o presidente esclerosando ao rebolar foi hilário, mas foi diante de crianças sem cabelo e brilho no olhar, sentença de morte sem crime, juiz, júri ou julgamento.

Percebe o quão doente tornou-se a sociedade? Um babaca invade a escola e chacina os pirralhinhos. Choro e lágrimas na metade dos canais, nos outros, discussões sobre a crueldade da infância. É burrice simplificar. Os analistas não percebem que debochar de alguém fazendo o bem não é diferente do que abominam. É um jogo de “faça o que eu digo, não o que eu faço”. Chama-se HIPOCRISIA. Estamos doentes disso.

O auditório estava cheio. Os convidados encaravam um palco cor de madeira tomado por uma bandinha sem talento à direita e uma mesa em L ocupada pelo entrevistador-estrela no centro, um branquelo de cabelo preto chupado, sorriso comprado e terno de rico. Ao lado de seu gabinete havia duas poltronas da cor do fundo do oceano.

As risadinhas perderam força com o acelerar dos segundos que a separaram da piada. Jimmy Fallon se recompôs e mirou a câmera dois. O comediante forçou seriedade, não convenceu. E assim seguiu o programa da NBC.

— Agora vamos tratar de um assunto QUASE tão sério quanto as reboladas do homem-da-casa-branca: A Ditadura da Beleza. Convocamos dois expoentes para um debate. — Levantou-se para incentivar os aplausos e receber os convidados. — Com vocês, Hazel Storm, ativista da causa e futura médica, e Daniel Macon, escritor do best-seller “Ser Gordo Não É Normal."

A garota estava acima do peso, mas bem longe de ser balofa. Seus cabelos castanhos desciam até o meio das costas. O rosto tinha formato redondo e sustentava maquiagem sóbria, feita para destacar o sorriso que espelha simpatia. O busto cheio era ressaltado por uma roupa comportada, mas incapaz de esconder curvas que aguçam.

O escritor colecionava pouco mais de quarenta primaveras, dono de olhos na cor mel que esverdeavam dependendo da luz. Sua pele clara ressaltava a barba rala e alguns dos fios grisalhos no cabelo negro. Um homem bem apessoada, de postura chamativa e jeitão charmoso.

Os dois espiavam o programa pela festa da cortina quando foram chamados. Daniel se jogou para o palco com seu melhor sorriso estampado. Levantou a mão e distribuiu acenos feito político em campanha. Apertou a mão do apresentador com força, deu um último aceno para a plateia e sentou-se no sofá mais próxima da mesa.

Há anos participava daquele tipo de coisa e ainda sim ficava nervosa. Cada debate era um debate e mais do que defender a causa, Hazel era orgulhosa demais para sequer pensar em ficar por baixo. Seu orgulho a tornava competitiva. Talvez por ter passado a maior parte de sua vida “por baixo”, agora que sentia que havia alcançado o “topo”, não queria descer nem por um momento. Como forma de controlar o nervosismo, pensava nele como um bom sinal. Diziam que o medo era um bom aliado por desenhar os limites claros. Não era medo o que sentia, mas a premissa era a mesma. Tinha toda a sua base argumentativa na cabeça e sabia exatamente como iria acabar com aquele escritorzinho preconceituoso. Provavelmente na infância era o tipo de garoto que tornava a vida de garotas como ela em um verdadeiro inferno, e agora fizera disso uma carreira. Hazel respirou fundo, abriu um belo e simpático sorriso, enquanto entrava no palco e acenava para a multidão. Soprou-lhes um beijo e tomou seu lugar no sofá.

— Boa noite, Hazel. Sua mãe está muito boa, como sabemos. — Jimmy vestiu o rosto com assanhamento e sorriu para as rápidas gargalhadas da plateia. — E seu pai?

Hazel riu com naturalidade adquirida com os anos de piadas sem graça que aturava. — Igualmente bom! — Respondeu também entrando na brincadeira por um momento. Era importante ganhar a simpatia do público e do apresentador logo de cara.

— Boa noite, Daniel. — O apresentador continuou. — Como estão as vendas?

— Primeiro, eu gostaria de dar boa noite à Hazel, nossa companheira essa noite, a você, ao público aqui presente e a todos em casa que nos assistem. — Macon sorriu quando foi ovacionado. — Tudo segue ótimo, Jimmy. Estamos indo para a 7ª edição. Nem a editora esperava.

— Ah. Que bom. — Fallon ajeitou-se na cadeira. — Hoje fala-se muito em Ditadura da Beleza. Pra vocês, o que é isso? Hazel...

— O nome é bastante autoexplicativo, Jimmy. — Começou ela. — É exatamente isso, vivemos em uma sociedade teoricamente democrática, mas que impõe um regime ditatorial para dizer como as pessoas devem ser. Um padrão é criado, e as pessoas – em especial as mulheres – devem se encaixar naquele padrão para serem consideradas bonitas e/ou saudáveis. O problema com isso é que é impossível. A ciência nos diz que não existe um ser humano idêntico ao outro, existem aproximadamente sete bilhões de pessoas no mundo, então como sete bilhões de pessoas conseguiriam se encaixar dentro de UM “ideal”? É loucura! É apenas mais uma ferramenta de segregação e controle. — Findou assumindo uma postura mais séria.

— Pra mim é conversa fiada. Não há ditadura. As praças de alimentação vivem cheias e as pessoas seguem comendo o que bem entendem. Viram o balanço financeiro do McDonald’s nos últimos anos? Recorde atrás de recorde. — Daniel olhava a plateia como se ela fosse um júri. Gesticulava com as mãos de jeito teatral. — A questão é que somos responsáveis por aquilo que fazemos ao nosso corpo. As pessoas, ou melhor, os mais relaxados, acham injusta a questão porque não conseguem se encaixar por um motivo simples: não se esforçam. A obesidade, por exemplo, é uma doença. Claro. Mas para quem tem problema no metabolismo, não para quem come o dia inteiro e só anda de carro. Não é culpa da sociedade se você vê na TV e na internet pessoas esbeltas. Elas fizeram aquilo acontecer. E tem como qualquer um aqui atingir determinados níveis. Não acho certo tentarem me convencer que um bumbum flácido é tão lindo quanto um durinho.

— Você alteraria a nomenclatura, Daniel? — Indagou o apresentador.

— Claro! Se há uma ditadura, essa é da Saúde. Pega os primórdios do seres humanos. Éramos caçadores, peregrinos. Não é da nossa natureza o sedentarismo. Hoje é escada rolante, vidro elétrico, controle remoto. O papo da nossa amiga insiste na mensagem: “Vamos aceitar a preguiça e ficarmos fora de forma mesmo”. Penso nas crianças que não tem condição de discernir as coisas.

— Se é assim, vamos esquecer as academias, os livros as editoras, as escolas, os carros, os aviões, as roupas, os perfumes e tudo o mais, porque nada disso é da nossa natureza também. — Hazel respondeu com tranquilidade erguendo uma sobrancelha. — É muito cômodo lembrar dos “primórdios” da raça humano quando convém, não é mesmo? Nós evoluímos e agora temos a opção de sermos sedentários se quisermos. Assim como existem pessoas que estão acima do peso por uma questão de metabolismo, existe aquelas que são “esbeltas”, por uma questão igualmente metabólica, mas comem tanto ou mais besteira que uma pessoa considerada “gorda”. Ser magro não é sinônimo de saúde e estar acima do peso não é sinônimo de doença. Em alguns casos é uma escolha, em outros, não, mas não importa. Meu “papo” não enaltece a preguiça, que aliás, é outro estereótipo tolo muito usado para pessoas que não estão dentro dos padrões. Existem magros preguiçosos também. Enfim... Meu “papo” é: aceite-se como você é. Se a pessoa quer malhar, emagrecer e tudo o mais, porque ela quer. Ótimo, isso é uma coisa, mas esta imposição para que as pessoas tenham um determinado tipo de corpo é absurda. Devemos respeitar as pessoas independente de formas. Não acha que um bumbum flácido é tão bonito quanto um durinho? Tudo bem. Seu gosto, sua escolha. Eu compreendo, acho que muitos compreendem e até concordam. — Comentava apontando para a plateia e então olhando para as câmeras. — Aposto que muitos em casa concordam com você. — Voltou a fitar o escritor, abrindo um sorriso. — Mas tenho certeza de que, assim como existem aqueles que discordam, existem aqueles que concordam, mas não saem por aí escrevendo livros sobre como qualquer coisa diferente daquilo que elas gostam é “feio”, “anormal”, “doente” e preguiçoso. Não precisava gostar de algo, Macon e nem achar bonito. Só precisa saber o seu lugar e respeitar o ser humano sem julgá-lo por sua aparência. Seja ela uma escolha ou não. — Findou com uma piscadela.

A plateia se agitou. Daniel recolheu-se no sofá com um sorriso amarelo, escudo para o próprio constrangimento. Jimmy lançou um: — Uuui — No ar. A baderna demorou um pouco para dissipar.

Daniel respirou fundo, antes de prosseguir. — Palavras bonitas, sem dúvida. Mas seguem covardes. Claro que devemos nos aceitar como somos. Jamais discutiria isso. É algo sagrado, é a ideologia que fundamenta a sociedade americana, não é mesmo?! Gastamos um tempo para aprender a lidar com as diferenças, mas amadurecemos e progredimos. Qualquer livro de história mostra isso. A questão aqui é maior que estar acima do peso ou não. Vai muito além, entendem? — Olhava firme para a plateia. — Seria ótimo se uma menininha chegasse em casa, se visse no espelho gordinha e não chorasse. É o que acontece? Não! Por quê? Porque o peso dela interfere em como as outras pessoas lidam com a mesma ao longo do dia, às vezes até mesmo dentro de casa. Mas vem cá. A ideia não é justamente a autoaceitação? Ela quer que o mundo a aceita assim para que ela consiga se aceitar. Não é uma inversão das coisas? As pessoas devem, primeiro, deixarem de se tornar escravas das opiniões dos outros. Ela quer ter orgulho próprio, não custa jogar seguindo as regras. Quer mundo o jogo porque não se adequar?

— Deixe-me ver se entendi, Macon... Você concorda comigo, mas acha que a menina que sofre BULLYING deve mudar para agradar aos outros e logo depois diz que ela deve ter “orgulho próprio”? Quer dizer que não é a sociedade que precisa abrir os olhos e aprender a aceitar as diferenças? — Hazel soltou uma leve risada. — Bem... O que esperar do autor de um livro cujo título é: “Ser Gordo Não É Normal”? É por causa de pessoas como você, Macon, que garotinhas como as do seu exemplo chegam em casa chorando, porque você diz para o mundo que aquela criancinha não é normal. Sétima edição, huh? Parabéns! — Cobriu-se pelo sorrisinho cheio de sarcasmo. — Na verdade, a questão é sim autoaceitação, porque uma vez que as pessoas aprendam a aceitar se aceitar, independente de qualquer coisa, elas não terão mais porque criticar o gordinho, por ser gordinho. O magro, por ser magro. O negro, por ser negro e por aí vai. No final, a raiz é sempre a mesma: Baixa autoestima. As pessoas encontram algo nas quais se declaram “superiores” as outras para se sentir bem. Crianças magras implicam com crianças acima do peso, não por elas estarem realmente acima do peso, mas muitas vezes por motivos não relacionados. Às vezes aquela criança tem pais ausentes e desconta sua frustração no amigo gordinha que tem uma família carinhosa e sempre presente, pra isso, ela usa algo que nossa sociedade diz ser um “defeito” e não é. Mas se aquela criança se amar e se aceitar como ela é, o bullying psicológico simplesmente não a atingirá e para os outros perderá a graça. E é por isso que pessoas como eu existem, para dizer: — Hazel abriu levemente os braços. — “Hey, olhe para mim! Eu sou modelo, curso medicina em uma das melhores faculdades do país e estou aqui dizendo para o cara que não te acha normal, que ele está errado. Se eu consigo, você também consegue!”.

As palmas surgiram com mais força, agora acompanhadas de assobios. As pessoas se levantaram e a algazarra se instalou. Jimmy teve que usar seu jeito engraçado para tranquilizar tudo. Daniel murchou feito balão mal amarrado. Seu sorriso era tão forçado que talvez os lábios passassem por um episódio de cãibra mais tarde.

A bandinha começou a puxar um som para anunciar o intervalo. Teriam trabalho com aquela euforia.

— Pessoal. Daniel Macon e Hazel Storm. — O apresentador acenou para o casal com um sorriso na face. — Eles estarão no Seminário Beleza & Saúde que acontecerá na capital na noite de sábado. Quem quiser conhecer e conversar, já sabe aonde ir. — Levantou-se da cadeira, deu a volta na mesa e abraçou os dois convidados num cumprimento de despedida. Olhou para a câmera um. — Você em casa já tem seguro de carro?

A equipe do show invadiu o palco e conduziu com alguma discrição os entrevistados para os bastidores, tirando-os de cena debaixo de muitos aplausos, sobretudo Hazel.

Daniel aguardou a primeira oportunidade de isolamento da garota e se aproximou. — Você fala bem. Não me lembro de ser humilhado por alguém que tem idade para ser minha filha. — Riu sem graça. — Só vende o conteúdo errado, Srta. Storm. Uma pena. Nos vemos em Albany.

A ativista era sorrisos e acenos para as câmeras e a plateia. Fora do palco, após retirarem-lhe os microfones, a garota respirou aliviada como sempre fazia depois de terminar um debate. Quando Macon se aproximou ela olhou para ele e riu. — Não vendo conteúdo algum, Macon. Apenas estou tentando abrir os olhos das pessoas, mas vou aceitar o elogio. Obrigada e até Albany!

Taylor seguiu assistindo TV. A reprise tinha entrado na propaganda. Relaxou-se e comentou. — Já assisti uns vídeos dela. Da Hazel. É filha de um casal famoso. Gosto do jeitão. Espero conhecê-la. — Respirou fundo. — Mas e então? Do que estava falando?

Zoe permaneceu em silêncio durante o debate na tela. Ela tinha uma maneira diferente de lidar com problemas, onde conversa era sempre descartada e as mãos entravam em ação. — Hã?... Da minha vó? — Comentou meio incerta, ainda vagava nos próprios devaneios. — Tô esperando uma explicação que faça mais sentido, como você xeretando túmulos por aí.

A loira respirou e despejou o que a atormentava junto do ar. — Sua vó foi assassinada. E ninguém parece ligar.

— O quê?!! — Se não estivesse sentada, provavelmente teria caído para trás. Susane já estava enterrada há um tempo, porque agora Taylor vinha com uma história diferente? Levantou-se do sofá e andou de um lado para o outro, na tentativa de processar aquela nova informação. Por fim parou, e fitou a amiga com uma expressão séria. — Você não tá brincando comigo né? Como sabe disso?

— Ele me contou. — Apontou pra televisão. — O escritor. Ele é Uratha e bem conhecido em Nova York. O chamam de Coiote-Efêmero. O nome na verdade é John. Acho que Daniel é o artístico.

— Você já disso isso pro meu pai? — Imaginava a fúria que poderia despertar em Mark com o suposto assassinato. Zoe já estava lidando com o coração acelerado. — E outra, a quanto tempo você tá sabendo disso? Esse é exatamente o tipo de coisa que se conta na porra da hora que se descobre!

— Olha. O cara me contou depois de encher a cara e passar a mão em todas as mulheres da boate. Eu não contei pra ninguém porque não dei bola pro beberrão. Mas isso martelou na minha cabeça depois. Por isso fui ao cemitério. Muita coisa do que ele disse tem sentido. Mesmo assim acho melhor ficarmos de bico fechado.

— Ótimo. — Murmurou para si. Encarou o chão por alguns segundos, ponderando o que faria. Se não era uma opção o pai ficar sabendo da tal história, Zoe queria ao menos conseguir uma resposta do tal coiote. — Vai trocar de roupa. Vamos encontrar esse cara, eu quero ouvir o que ele tem pra dizer.

— Apressadinha, não viu o que disseram? Eles vão estar aqui só a noite, no seminário lá do hotel-fazenda. Temos outra prioridade, ou se esqueceu?

— O fato de um bêbado qualquer espalhar por aí que minha vó foi assassinada já é prioridade. — Voltou a afundar no sofá. Curiosidade e impaciência misturavam-se. — Então... Como vai lidar com essa história toda do cemitério? — Disse apoiando o queixo com a mão, sua mente estava bem longe dali.

A voz sem força esclarecia o mar de incerteza em que estava afundada. — Eu não sei. Nem devia ter contado. — Taylor cruzou os braços e soltou o ar sem pressa. — Talvez o melhor seja não mexer com isso. Não encontrei respostas firmes no cemitério. E se o seu pai falou pra não mexer com isso, por que desobedecer?

Zoe ficou alguns instantes em silêncio. — Já pensou em voltar lá? Quer dizer, agora é dia. Bem menos provável de ser surpreendida por essa coisa sua. Podemos ir juntas. Eu te mostro onde foi o enterro.

— Podemos sim. Bom que eu recupero meu celular. — Comentou ela. — Mas só depois de dormir. Eu não estou me aguentando em pé.

A morena deu uma leve risada. — Deixa de ser preguiçosa. Se você dormir eu juro que te carrego até lá.

— Vai ser insistente assim lá no inferno. — Bufou já recolhendo umas peças de roupas pra usar. — Essa aqui não, usei anteontem. Essa outra ontem. Aquela tem dois dias. Ah! A blusa verde. Usei na terça-feira. — Pegou e deu uma fungada demorada. — Ahhh. Já usei roupas mais cheirosas, mas é o que tem. — Comentou voltando o olhar para o chão, o novo guarda-roupa da casa. Quando conseguiu um short leve, passou as mãos nos cabelos e murmurou. — Prontinha. Mas lembre-se que temos que convencer seu pai a aparecer na tur. Caso contrário, tchau tchau Taylor nessa vida, hein.

Zoe acompanhava em silêncio a loura procurando por uma roupa “descente”. Não conteve um risinho durante o processo. — Você é um exemplo de pessoa organizada. — Ironizou. — Deixa que eu falo com ele. — Levantou e seguiu para a porta de saída. Era impressionante como seu jeito marrento, e alguma seriedade eram descartadas sempre que passava muito tempo com Taylor.. — Me lembre de te dar um perfume.

A loirinha riu enquanto trancava a porta. — Com a fortuna que ganha na McMillan’s? Coitada. — A risada tornou-se gargalhada. Eram bons os momentos em que a vida parecia normal. A companhia de Zoe lhe ajudava a matar saudade disso. — Ai, ai. Pro cemitério então. Prepare-se pra dar em cima do coveiro. Não levo jeito. — A cutucou com o ombro.

As duas conquistaram as ruas de Albany. A movimentação aumentou com o passar dos minutos. Os turistas que procuravam a capital pelo ecoturismo desembarcaram aos montes na rodoviária e encheram o Centro. Depois começaram a chegar os interessados no Seminário, um grupo bem estereotipado dividido entre ratos-de-academia e nunca-puxei-ferro-na-vida.

O vento refrescava e as folhas balançando era a sinfonia que dava ritmo ao lugar. O cheiro de nozes invadiu os pulmões das garotas trazendo para mais perto a infância. Seguiram com suas piadas e histórias.

Vinte minutos de caminho foi o bastante para que alcançassem o cemitério. Havia alguns carros no estacionamento. Uma barraca de madeira vendia flores perto da entrada. O céu azul era um manto que deixava o lugar bem diferente da lembrança de Taylor. As risadas diminuíram e se transformaram em comentários sérios. Muitas ideias, nenhum plano. Como analisar o defunto de uma vovozinha no meio do dia? A ficha tinha caído.


Notas Finais


Mais um capítulo para acelerar um pouco a narrativa.


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