História Longe daqui - Capítulo 43


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Categorias Orange Is the New Black
Personagens Personagens Originais
Tags Alex Vause, Orange Is The New Black, Piper Chapman, Vauseman
Exibições 385
Palavras 5.565
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Ficção, Romance e Novela, Suspense
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Alô Vocês!
Estou de volta com o penúltimo cap. Não devo demorar a postar o último.
No cap passado, A Cartomante, esqueci-me de dizer que ele foi inspirado no conto de título homônimo do estupendo Machado de Assis.
Espero que apreciem este.
Bjs e até.

Capítulo 43 - Construindo


Fanfic / Fanfiction Longe daqui - Capítulo 43 - Construindo

 

Ficamos apenas três dias em minha casa. Fomos ver minha mãe que morava em uma cidade vizinha, onde também tinha seu restaurante e alguns amigos meus para quem quis apresentar minha noiva.

Eu pegava uma garrafa de vinho na despensa da minha mãe, quando Piper me chamou aos gritos.

_ Al, você precisa ver isso!

Cheguei à sala e ela apontou para a TV para onde olhava como hipnotizada.

Na tela a figura de Joe sendo preso e a repórter contando a história do “Tarado das estradas”.

Sentei-me sossegadamente ao lado da minha noiva e assisti a toda a reportagem.

A polícia Tinha feito uma armadilha para ele, que deu carona para uma policial disfarçada e foi preso em flagrante por tentativa de estupro. Isso tinha ocorrido havia menos de cinco horas e, após as primeiras veiculações na mídia, sete mulheres já tinham se apresentado às autoridades policiais como vítimas de estupro ou de tentativa, apontando-o como o autor desses crimes.

_ Esse é “ele”, então? _ Diane perguntou-nos ao final, visivelmente mexida com o assunto. Que monstro! Graças a Deus foi preso!

Ela e Piper seguiram com a conversa, comentando a reportagem, o crime, o criminoso, as vítimas.

_ E você, minha filha, não tem nada a dizer? _ minha mãe perguntou-me, por fim.

_ Estou feliz que isso tenha se resolvido.

_ Você não parece surpresa. _ Piper me disse, esquadrinhando-me a fisionomia.

_ Eu?... é... não... eu estou bem surpresa, Piper.

_ Mentirosa! Você sabia... você está por trás disso, Alex Vause?

Suspirei.

_ Eu contratei uma amiga minha, detetive particular. Ela é de outro estado, mas pedi que cuidasse disso para mim e ela o fez como um favor especial. Não quis confiar em qualquer um para um trabalho tão importante e imprescindível.

Piper olhava-me espantada.

_ Piper, pela maneira que ele agiu com você, dissimuladamente, com planejamento, era óbvio que não foi um crime de ocasião e um cara desses não deve ficar solto por aí. Após confirmar o que suspeitávamos, que ele de fato tinha essa prática, minha amiga levou o caso à polícia e o detetive que ficou encarregado do caso achou melhor que se fizesse uma armadilha para garantir o flagrante, apesar de ter duas vítimas prontas para prestar queixa. Também ficou comprovado que Ernest, o barman de Holliday’s, não era seu cúmplice, apenas tinha se aproveitado da ocasião para ganhar um trocado a mais.

Gostaria de poder traduzir o olhar que ela me lançou. Havia amor, gratidão, surpresa, admiração, enlevo...

_ Obrigada. _ ela me disse quase sussurrando, mirando-me nos olhos.

Claro que um cara desses não podia ficar solto, mas também era óbvio que o meu interesse e empenho tinha sido em primeiro lugar por ela. Minha resposta foi pegar sua mão e depositar um beijo.

Piper quis se apresentar e dar queixa também, uma vez que não tinha mais que se esconder. Eu era sua testemunha e a apoiei em tudo. Fizemos isso no dia seguinte, antes de partir.

 

A volta foi um pouco mais rápida que a viagem de ida. Fizemos menos paradas à la turistas.

Paramos em Hollyda's exatamente no mesmo horário em que ali nos vimos pela primeira vez. Piper não gostou muito da minha ideia, mas eu fiz questão. Izzy ficou feliz em nos ver e nos ofereceu um brinde.

_ Eu sabia, estava muito na cara que vocês se interessaram uma pela outra. E então você, Piper, conseguiu algo inusitado, prender de vez o coração de Alex Vause! _ ela estava sentada à nossa mesa. Havia poucos clientes àquele horário e todos eram conhecidos dela e estavam servidos.

Conversamos a respeito do Cão Grande, ela naturalmente sabia de tudo e estava muito feliz pelo desfecho daquele capítulo da história de seus clientes e amigos caminhoneiros.

De repente minha atenção foi tomada por alguém novo no recinto. Ernest entrou pela frente fazendo a campainha da porta soar e cumprimentou a todos em geral. Pareceu hesitar ao nos ver ali, conversando com Izzy. Eu me levantei rapidamente, no meio de uma frase da dona do lugar e avancei para ele, antes que pudesse alcançar o balcão. Ele não teve tempo de reagir ao soco que lancei em seu rosto e caiu sobre uma mesa, derrubando duas cadeiras. Eu o peguei pela gola do casaco de couro marrom que ele vestia e o levantei, trazendo-lhe o rosto para perto do meu.

Izzy e Piper vieram até nós, depois de passado o primeiro susto. Os outros clientes apenas acompanhavam de longe o desenrolar dos fatos.

_ Lembra da minha noiva? Piper? Lembra que você a vendeu para seu amigo Joe? Você sabe que pode ser preso por cumplicidade em sequestro e aliciamento para tráfico de mulheres?

Ele me olhava assustado. As duas mulheres tentavam me convencer a soltá-lo.

_ Eu... eu não fiz por mal, ele não é meu amigo. Eu não sabia...

_ Sorte sua, ou já estaria preso junto com aquele lixo humano.

Eu o soltei finalmente. Ele massageava o queixo.

Izzy ordenou que Ernest fosse se recompor e me pediu uma explicação. Voltamos a nos sentar, após colocar as cadeiras no lugar.

_ Eu não fazia ideia, mas terei uma conversa com meu irmão para tomarmos uma atitude...

_ Espera... você não está dizendo que vai demiti-lo. _ Piper interveio.

_ Piper, não sei, é muito grave o que aconteceu. Nós vamos conversar e depois falar com ele.

_ Não importa. Ele não fez por mal, você o ouviu, mesmo as investigações o livraram de uma culpa.

_ Não. As investigações o livraram de um crime, não de uma culpa. _ eu falei.

Ela suspirou e fechou os olhos, retorcendo um pouco os lábios, num gesto típico de tentar recuperar a paciência. Mas não me olhou, continuou fitando Izzy.

_ Eu não quero ser responsável pela perda do emprego de ninguém. Até por que... _ agora ela me fitava _ ...minha noiva já se encarregou de aplicar um bom castigo no rapaz.

Levantei as sobrancelhas para ela, que voltou a mirar Izzy. Esta, por sua vez, me fitava com um olhar divertido, mas tornou a ficar séria.

_ Ok, Piper, eu prometo a você que isso não ocorrerá. Mas não podemos simplesmente deixar isso passar em branco como se nada houvesse. Eu tive muito cuidado aquele dia para não colocá-la em risco. Por sorte, nada lhe aconteceu, mas teria sido imperdoável que algo mais grave lhe ocorresse por uma irresponsabilidade de alguém de dentro do meu estabelecimento. Vou falar com meu irmão e teremos uma conversa séria com Ernest. Ele é primo da minha cunhada e tomaremos medidas em família. Agora, se vocês me derem licença, vou ver como ele está.

_ Claro, por favor. _ Piper disse.

_ Izzy, desculpe-me. Eu sei que...

_ Vause, tudo bem, eu te entendo e, afinal isso aqui também é um bar, não existe melhor lugar para se quebrar a cara de alguém. Lançou-me um sorrisinho cínico e se retirou.

_ Piper...

_ Alex, isso foi horrível, sabia?

_ Eu estava com esse cara entalado.

_ E é assim que você resolve tudo? Quebrando a cara das pessoas? Estamos de volta ao tempo das cavernas?

_ Nem tudo.

_ Deixa eu ver, desde que eu a conheci, você já quebrou a cara de quatro pessoas. Três delas por minha causa. Bom, eu não vou computar Larry como uma pessoa, mas vou colocá-lo no rol das “caras quebradas por minha noiva, Alex Vause”.

_ Exatamente, Piper, por sua causa. Eu apenas a estou defendendo.

_ Não, Al, não. Neste caso, você não estava me defendendo. Você estava extravasando sua raiva. Agora eu sei que se já estivéssemos juntas quando Joe me atacou, você teria partido para cima dele também. E acho que você só não o caçou para isso porque ele não chegou a me estuprar, de fato, e você estava mais interessada em que ele fosse preso.

_ Isso é ruim? Amar tanto você, a ponto de ser capaz de quebrar algumas caras?

_ O meu medo, Alex é que um dia desses você encontre alguém que lhe faça frente.

_ Sério, meu amor, você está preocupada que alguém me quebre a cara? _ fiz uma careta para ela, que revirou os olhos, impaciente.

_ Alex...

_ Ok, eu já entendi, não sou uma lésbica das cavernas. Prometo a você que, de agora em diante, eu vou pensar duas vezes e ver se tem outras formas de resolver os assuntos pendentes, mesmo que sejam relacionados a você. Ok?

_ Assim está melhor. Mas vou cobrar. _ ela acariciou meu rosto e me deu um selinho.

_ Mas, diga-me sinceramente, você não gostou de me ver quebrando a cara dele?

Ela sorriu e balançou a cabeça.

_ Você não tem jeito mesmo, não, Al...

 

Ainda na estrada, Piper me disse que já sabia exatamente o que queria fazer da vida, mas só me contaria depois de resolver algumas coisas.

Ela queria ver a mãe, mas achou melhor evitar ir à cidade delas. Ela então a chamou para nos visitar, assim que nos instalamos, cada uma em seu apartamento. Ela, aliás, fez questão de escolher o dela em um bairro diferente do meu, embora não muito longe. Resolvi não discutir, se eu fosse discutir por cada ideia diferenciada que minha noiva tivesse, nós passaríamos mais tempo discutindo e brigando do que qualquer outra coisa.

Não tinha sido muito fácil de convencer o casal a vir de avião, mas Piper teve medo que ele pegasse a estrada com a caminhonete dele que, literalmente caía aos pedaços e avisou ao irmão que já tinha comprado as passagens. Assim, em uma manhã de sábado, Piper e eu fomos buscar Carol, Cal e Neri no aeroporto. Nós os levamos para a casa dela, onde tínhamos dormido.

Almoçamos um delicioso peixe assado com legumes e um vinho do porto. Eu me divertia com meu cunhado, ele era de fato uma figura. Ficava a imaginar ele e Neri casando-se ao enterro da avó e minha sogra paralisada de vergonha.

_ Neri e eu não aceitamos o convite de Alex para vir ao seu noivado porque não tínhamos certeza se você diria sim, Piper. _ Cal dizia à mesa.

_ Mentira. Se houvesse alguma possibilidade de me ouvir dizer um não, você teria largado suas encomendas de lado e teria vindo nem que fosse à pé, somente para assistir ao constrangimento de Alex.

Ele soltou uma gargalhada sonora.

_ Bem isso está próximo da verdade, mas o fato é que tínhamos uma encomenda de um móvel e já estava atrasada.

A mãe de deles também não comparecera, com uma desculpa esfarrapada de compromisso na igreja, mas eu sabia que tinha sido apenas por estar pouco à vontade depois de tudo que ocorrera. E Polly desculpou-se, mas estava do outro lado do oceano cuidando de sua empresa.

_ Diga-me, como é isso de fabricação de móveis com pallets? _ Piper perguntou curiosa e meu cunhado passou a discorrer sobre a delicada produção artesanal.

Após a sobremesa, sentamo-nos na sala e eu servi licor e café. Minha sogra e Nora preferiram licor, Piper e eu tomamos café e Cal recusou ambos. Carol pediu, a menos que os filhos tivessem algo contra, que as duas noras participassem da conversa.

_ Acho que todos vocês sempre me viram como uma megera.

Ela parou e ninguém se pronunciou.

_ Eu não os culpo, eu tive muito tempo para ser uma megera e pouco tempo para compreender isso e me arrepender.

Nova pausa. Piper, talvez inconscientemente, trazia um olhar de desafio.

_ Eu sempre achei que a vida tinha sido errada comigo. Sempre achei que o seu pai tinha me traído por não pensar como eu. Eu amei o seu pai. Muito. Por incrível que pareça, nós fomos felizes, nós nos casamos por amor e tínhamos sonhos iguais. Mas Bill cresceu, tornou-se alguém melhor. Quanto a mim... não sei se regredi ou se estacionei. Eu odiava o fato de não ter a vida que eu sonhei... eu perdi vocês, perdi seus momentos, suas alegrias, seus sonhos... porque eu estava com raiva demais, tentando mudar o mundo à minha volta, odiando as pessoas que possuíam o que eu achava que deveria ser meu e também as que não possuíam.

Ela suspirou, fechou os olhos e puxou longamente o ar para os pulmões, soltando-o em seguida, lentamente. Parecia fazer uma enorme força para segurar as lágrimas. Abriu os olhos e continuou, agora mirando o chão.

_ Deve ter sido horrível crescer na minha casa, viver ao meu lado. Eu era infeliz e amarga. Eu queria que vocês fossem o que eu tinha idealizado como certo. Eu... _ as lágrimas escorreram pelo rosto dela. Ela passou as pontas dos dedos para enxugá-las. Havia algo de altivo e glamoroso na forma como ela se comportava, em seus menores gestos. Cal tirou um lenço do bolso e lhe entregou. Ela agradeceu e se enxugou com a mesma delicadeza. Ele ficou ali, parado diante dela por um momento, como se desejasse lhe dizer algo. Mas depois voltou a se sentar ao lado da esposa.

Ela se recompôs e continuou.

_ Eu fui má com você, Cal. Eu o julguei sempre, em tudo que você fez. Eu o julguei sempre mal.

_ É verdade, mãe. É muito verdade, mas eu sempre me defendi de você. Eu sempre revidei a cada ataque, eu sempre lhe respondi à altura e fiz exatamente o que eu queria.

_ Mas... deve ter sido difícil ser criticado assim por sua própria mãe.

_ Depois de uma vida inteira, você se acostuma... Mas... eu tinha sim essa sensação de fracasso... por mais que eu gostasse de seguir meu coração e fazer o que eu tinha vontade, por mais que eu me divertisse te afrontando, eu trazia comigo essa sensação de tristeza no fundo da alma. Eu não podia agradar minha mãe, eu não podia ser o filho que ela queria e ela não podia ser a minha mãe... isso afeta você, de alguma forma, sabe... a gente acaba procurando sempre o melhor, você quer sempre acertar, sempre fazer tudo da melhor forma possível, mesmo que seja algo que sua mãe reprove, mesmo que seja algo pelo que ela tenha desprezo,  você sempre faz pensando: “Eu tenho que fazer direito, eu tenho que fazer da melhor forma possível”. Mesmo que seja um campeonato de cuspe, você quer ganhar, você quer que o seu cuspe alcance a maior distância possível porque você não quer fracassar, afinal, você já é um fracasso... aos olhos de quem você gostaria tanto de orgulhar...

Ele também tinha lágrimas nos olhos, assim como Neri. Piper, ao meu lado, estava se segurando, apertando muito a minha mão. Mas a última frase dele fez Carol rir em meio às novas lágrimas que as palavras dele lhe tinham provocado. E, no fim, todos rimos.

_ O que? É verdade. Eu participei de muitos campeonatos destes e alguns piores também.

_ Por favor, Cal, poupe-nos dos piores, sim... _ Neri pediu, em meio a risadas.

_ Você venceu alguns, pelo menos? _ Carol perguntou, rindo e chorando ao mesmo tempo, passando a ponta do lenço sob os olhos, enquanto mirava o filho.

_ Digamos que virei um especialista. Venci muitos.

Depois de conter as risadas e as lágrimas, ela se dirigiu a Neri.

_ Eu sou a tipificação da sogra que habita o imaginário popular, eu sei. Deve ter sido horrível encarar meu olhar de desprezo, minhas palavras duras, meu ar de superioridade. Eu achava que você não era boa para o meu filho, que você o desviava definitivamente de tudo aquilo que sonhei para ele. _ ela respirou fundo, engolindo mais um choro _ Eu estava errada. Você é uma grande mulher. Por ter me aturado todas as poucas vezes que nos encontramos, aturado minhas ofensas sem me ofender, por amor e respeito ao meu filho. É assim que eu sei. Você nunca o incitou contra mim, ao contrário, muitas vezes ele me disse que você o incentivava a me procurar, mesmo que fosse para dizer um olá e saber como eu estava.

_ Eu perdi meus pais muito cedo, Sra. Chapman e acho mesmo um desperdício de tempo que vocês não se falem por tanto tempo. E também que vocês gastem os poucos momentos juntos se ofendendo.

Carol balançou a cabeça lentamente para dizer que entendia. Respirou fundo mais uma vez e me olhou.

_ Quando soube que Piper estava novamente com uma mulher e, ainda por cima, uma caminhoneira, quase morri de desgosto... mas para variar, eu estava novamente errada, você logo me provou isso. Você salvou a vida da minha filha, em todos os sentidos. E eu lhe sou muito grata, Alex. Piper se tornou uma mulher linda e completa ao seu lado. O amor de vocês é palpável. Eu acho que meus filhos escolheram muito bem. Muito bem mesmo.

_ Obrigada, Sra. Chapman. _ eu disse oferecendo um sorriso sincero para ela.

Ela me sorriu de volta.

_ Eu errei igual com os meus dois filhos. Errei com a minha família. Mas Cal, como ele mesmo disse, sempre se defendeu de mim. Você Piper, você demorou um pouco. Você era uma menina linda e só depois, já na faculdade você ousou se rebelar realmente. Eu não sei se você amou CC, como foi o que vocês viveram, mas acho que ela foi muito isso na sua vida, uma forma de se rebelar contra mim. Eu fui cruel com você. Quando eu vi a aproximação entre você e aquela colega de classe, como era mesmo o nome dela...

_ Chris.

_ Isso, Chris... eu soube que havia algo mais e tratei de vigiá-las e de lhe repetir mil vezes o quanto eu odiava o homossexualismo, o quanto eu sentia nojo...

_ Nunca houve nada entre nós, acho que era um sentimento novo ambas e... nós éramos muito jovens. Na verdade, mãe, eu acho que você trouxe à minha consciência esse sentimento e acho também que ela não chegou a ter essa consciência naquela época. Então eu me afastei. E nunca dei a resposta que ela tanto me pedia: Por que.

Piper tinha soltado a minha mão e contorcia os dedos no colo, olhando para a mãe. O ar de desafio tinha se dissipado.

_ Eu achava que podia conter a natureza dos meus filhos. Conter, dirigir, controlar, enfim. Eu errei com vocês. Com os dois, mas o mal que eu lhe fiz, Piper, ao fazê-la sentir vergonha e medo de seus sentimentos... e depois, abandonando-a nas mãos daquele... monstro... _ ela fechou os olhos e as lágrimas escorreram livremente por seu rosto _ eu não fui apenas horrível com você, Piper. Eu fui monstruosa. E só percebi isso quando ele quase a matou...

Ela cobriu os olhos com as mãos e soluçava.

_ Perdoe-me Piper... eu... Nem sei se mereço... mas preciso pedir perdão a vocês... meus filhos...

Cal se levantou e se sentou no braço da poltrona em que ela estava, abraçando-a.

_ Está tudo bem, mãe. Nós a perdoamos, sim. Nós esperamos tempo demais para tê-la conosco e tudo o que queremos agora é que sejamos uma família. De verdade. Pela primeira vez.

Eles choravam e ficaram assim por um tempo, chorando abraçados. Quando se separaram, ele ficou ali, alisando os cabelos da mãe, num gesto tão bonito. Piper levantou e foi até eles. Sentou-se no outro braço da poltrona e lhe segurou uma das mãos.

_ Mãe, eu sei que você não sabia o que realmente acontecia naquela casa e sei que ficou horrorizada ao descobrir. Sei que você teve medo ao pensar que eu tinha caído nas mãos daquele maluco de novo. E eu a perdôo por tudo. Tudo o que aconteceu de ruim é passado. Mas nós precisamos construir o agora e o amanhã. Paulatinamente. Sem pressa, sem ansiedade, sem cobranças. Nós queremos você nas nossas vidas. Eu acho que você tem muito para oferecer, muito para nos ensinar.

_ E aprender. _ Carol completou.

_ Também. _ Piper levantou e se inclinou sobre a mãe, abraçando-a também. Cal abraçou a ambas.

_ Neri, eu também quero pedir perdão a você.

_ Está tudo bem, sra. Chapman. De verdade.

 

_ Acho que está na hora das minhas noras me chamarem apenas de Carol. _ minha sogra declarou mais tarde, quando estávamos todos à mesa de jantar, jogando dominó. _ E você, Cal precisa me ensinar a disputar cuspe.

_ Mãe?!!! _ Piper falou horrorizada.

Neri e eu rimos.

_ Claro que sim, mãe.

_ Claro que sim? Por Deus, Cal!... mãe, não é nada disso que você tem que fazer de agora em diante.

_ Como assim? Você vai querer me cercear?

Piper abriu a boca, mas não disse coisa alguma.

_ Ai, amor, acho que sua mãe tem razão... _ falei, olhando para ela.

Ela me olhou indignada. Todos ríamos, menos ela.

_ Bati! _ Carol gritou.

_ Bateu? Como bateu? _ Neri questionava.

_ De novo? _ perguntei intrigada.

_ Mãe, você está roubando. _ Piper falou categórica.

_ Claro que não! Que absurdo!

_ Mãe, você nos distraiu com essa história de cuspe e fez algo para bater! _ Cal afirmou, muito desconfiado.

_ De maneira alguma! Falei sério! Vocês é que não sabem perder!

_ Pois vai ter que me provar, cuspindo.

_ Claro. Quando e onde você quiser.

 

 

 

Um ano, sem dúvida, passa depressa. As coisas simplesmente se ajeitaram em seus lugares, em pouco mais de um ano.

Piper decidiu o que queria fazer. Abriu um pequeno restaurante de beira de estrada, perto da entrada da cidade e chamou Lorna para comandar a cozinha. Esta não só aceitou, como aproveitou para fazer algo em que já vinha pensando, continuar os estudos e se especializar em gastronomia.

Na verdade, minha loira adquiriu uma espelunca e a transformou em algo incrível, estilo rústico, com muita coisa artesanal confeccionada pelo irmão e a cunhada, a quem ela contratou e que contaram com a ajuda dela e de Lorna. Suzanne e Taystee também ajudaram, em horário de folga. durante os meses de fabricação, eles vieram morar na cidade, no apartamento de Piper e montaram uma pequena fábrica artesanal num pedaço do enorme estacionamento do restaurante. Foram usados muitos pallets, barris, caixotes, pneus e outros materiais. As mesas e cadeiras, bem como o tampo dos balcões foram feitas com pallets. Esse material também foi bem utilizado na decoração das paredes, inclusive dos banheiros, onde se apostou em prateleiras e cantoneiras com flores. Vasos e outros artigos decorativos surgiram de garrafas pet, jornais e revistas.

A comida era self service porque, à beira da estrada, as refeições tinham que ser rápidas. Mas para quem não tivesse pressa, ao lado do restaurante havia uma loja de souvenirs com predominância em artesanatos produzidos por Cal e Neri, principalmente miniaturas de caminhões, que eram o xodó de Piper e também revistas e livros. Ao lado da loja, uma área de lazer em meio a um gramado, com poltronas, cadeiras e mesas em pallets, pufs feitos com pneus. No gramado, havia um pequeno jardim florido e duas árvores com uma rede.

O resultado era simplesmente espetacular, não se diria que os materiais por baixo daquelas peças eram coisas para se jogar fora.

_ Meu amor, você tem certeza? Isso me parece uma loucura, é preciso pensar direito... _ dizia eu a Piper, quando ela me contou seus planos.

_ Meu amor, seu irmão e sua cunhada são dois artistas. _ eu dizia a ela, depois de ver os primeiros resultados.

No fim, eles foram obrigados a contratar mão-de-obra extra para conseguir produzir principalmente as peças maiores a tempo. Contrataram dois homens para cortar e lixar. O acabamento era por conta deles e das meninas.

Piper chamou a mãe dela para cuidar da loja e ela aceitou. Ela ainda ofereceu um emprego à Norma para trabalhar na cozinha e esta, apesar de ter uma aposentadoria garantida pelo sr. Bloom, aceitou prontamente. Também contratou a mesma empresa que Red e eu usávamos para fazer o monitoramento e a segurança.

A inauguração do Piper’Rustic foi um enorme sucesso. O restaurante da minha loira tornou-se um lugar conhecido e de parada certa para turistas e caminhoneiros.

Red e eu também tivemos um bom ano. Expandimos a empresa e abrimos uma filial do outro lado do estado, administrada por Poussey e Soso, que se casaram pouco antes da inauguração do Rustic.

O mais difícil, sem dúvida, seria o julgamento de Larry, que deveria acontecer um ano após sua prisão.

Ainda havia mais segredos para serem revelados da história dele e, para não ver tais segredos escancarados no tribunal e poupar os pais de uma exposição ainda maior, ele optou por fazer um acordo e foi condenado a apenas duas prisões perpétuas e algumas dezenas de anos, com possibilidade de soltura dali a muitos anos, quando estivesse muito velho.

Não obstante, ficamos sabendo dos detalhes que Norma trouxe à luz e explicava a insanidade dele. Toda a raiz de sua loucura tinha um nome: Vee.

Ela o criara como se ele fosse seu filho. O protegia como se ele fosse especial, melhor que os outros. Não permitia que nada ou ninguém o magoasse. A verdade é que Larry principiara na vida como um menino franzino, tímido, medroso e chorão. Os pais o viam apenas ao final do dia e, muitas vezes, enquanto não desmamava, Vee os acompanhava nas viagens. Mas ao final de três meses, já com o rebento inteiramente entregue à mamadeira, as viagens do casal Bloom voltaram ao ritmo de antes da existência de sua continuação: semanas e, por vezes, mês ou meses. Assim que, desde bebê, Larry acostumou-se às ausências dos pais, vendo em Vee, não somente a figura materna, mas também a paterna e a de sua segurança e proteção.

Foi ela que o ensinou e lhe ouviu a primeira palavra: Vee; foi ela quem assistiu ao seu primeiro passo; foi para os braços dela que ele correu no primeiro tombo, como também nos subsequentes, foi ela que o levou à escola em seu primeiro dia de aula, quando ele ainda era quase era um bebê, foi ela que compareceu à maior parte de suas reuniões de pais e festas escolares; foi para ela que ele deu os presentes de dia das mães e também dos pais; foi ela que o protegeu toda vez que um menino maior o perseguiu. Vee simplesmente ia ao encontro da criança, a encurralava e ameaçava, terminando invariavelmente com a frase: “Não ouse encostar no meu filho nunca mais!”.

Mas também foi Vee que não o corrigiu quando ele fez a primeira maldade ao animal de estimação da família. Ainda em tenra idade, sem entender bem o que fazia, puxou o rabo do pequeno gato angorá e o atirou longe. Vee ria, quando Norma aproximou-se para corrigi-lo, mas foi abruptamente interrompida por ela.

_ Não ouse repreender meu filho!

Apesar da postura de brava, a outra ainda tentou timidamente argumentar que ele não era realmente filho dela. Mas o rosto de Vee transformou-se numa verdadeira máscara de terror.

_ NUNCA MAIS REPITA ISSO! ELE “É” MEU FILHO! META-SE APENAS COM SUAS PANELAS! DA CRIAÇÃO DO “MEU” FILHO CUIDO EU!

Norma saiu assustada. O único a presenciar aquela cena inusitada, foi o motorista, Eli. Mas ele se calou, não demonstrou nenhum tipo de incômodo ou qualquer outra reação nem durante a discussão nem quando Norma passou por ele, em direção à cozinha.

Foi assim, na sombra dos estranhos cuidados de Vee, que Larry cresceu, dono de seu mundo, rodeado de proteção, um menino cruel e dissimulado, que sabia esconder suas maldades, cínico, invejoso, e... estranho detalhe, ele odiava meninas. E Norma soube exatamente o motivo quando ele tinha treze anos.

Ela não era muda até então. Num dia em que os patrões estavam em casa, ela acordou muito mais cedo que o normal e se dirigia à cozinha para tomar água quando presenciou uma cena que a assombraria para o resto da vida. À porta do quarto de Vee, que ficava perto da escada, enquanto o dela era ao fim do corredor, Larry a beijava. Ele de pijama, a camisa aberta. Ela com uma fina e curta camisola. Ambos abraçados, esfregando-se um no outro, sem notar a presença da outra empregada.

_ Vai, meu querido, hoje você não pode ficar mesmo. Seus pais estão aqui. Amanhã você passa a noite toda comigo. _ a voz dela era baixa.

_ Eu vou, mãe... mas contra a vontade... _ a resposta do menino tinha o mesmo tom.

Paralisada pelo horror provocado pela cena que assistia, quando Norma pensou em se esconder, fez-se tarde. Larry se virou e eles deram de cara com ela. Ambos ficaram lívidos.

Em verdade, eram três pessoas, sem a pigmentação original no rosto e sem reação, naquele corredor. Seria impossível para qualquer deles dizer depois quanto tempo se teria passado por eles, tamanho era o estupor que os tomava.

A primeira a voltar a si, foi Vee.

_ Vá! _ disse ao menino.

_ Mas... ela... _ ele dizia, olhando de uma para outra.

_ Não se preocupe. Eu cuido de tudo. Como sempre. Vá!

O jovem adolescente saiu correndo escada acima para seu quarto, no andar superior.

Norma percebeu que tremia, quando a colega a puxou pela mão e a fez entrar no quarto dela. Ela se deixou levar. A outra fechou a porta, encostou-a à parede e se aproximou muito do rosto dela.

_ Você não viu nada. _ a mesma expressão maníaca da primeira vez que Larry tinha judiado de um animal inocente havia tantos anos antes, a voz perigosamente calma. _ Não é da sua conta o que eu faço com meu filho entre quatro paredes. Alguém tem que cuidar desse menino e foi a mim, que os Bloom o confiaram. Alguém tem que ensiná-lo como lidar com uma mulher. Ele não vai aprender isso por aí, com essas vagabundas que não valem nada. Ele tem que saber que ele é muito melhor que qualquer uma delas. Ele tem que saber que mulher alguma estará à sua altura. Que nenhuma delas presta para ele, mas tem que saber fazer sexo direito para que não riam dele quando chegar a hora certa. É isso que eu ensino a ele. Eu o ensino a se comportar como um homem e isso não é da sua conta. Não é da conta de ninguém. Você entendeu?

Norma fez que sim com a cabeça.

_ Eu quero ouvir você.

_ Si... sim...

_ Ótimo. Muito bom mesmo. _ Vee andou até o criado-mudo, pegou algo e voltou com a mão para trás. Quando chegou perto dela colocou um canivete aberto na frente do rosto da outra. _ Se você abrir a boca para qualquer pessoa, eu arranco sua língua fora e ninguém nunca mais vai ouvir sua voz. Você me entendeu?

_ Si... sim...

_ Ótimo. Agora volte para sua insignificância.

O erro de Norma foi abrir a boca. Ela contou para o tímido Lorenzo, o jardineiro, que sempre considerara seu amigo e sempre confessara, longe de Vee, que não concordava com todo o mau comportamento de Larry. Mas ela estava enganada, ele contou para Eli e este e Vee providenciaram o “triste acidente” em que ela perdeu a língua, no mesmo dia em que os Bloom viajaram. Na verdade eles arrancaram a língua dela, com a ajuda de um “carniceiro” conhecido de Vee.

_ Eu lhe avisei, agora ninguém nunca mais vai ouvir sua voz. _ ela sentenciou sorrindo à pobre e estarrecida Norma, antes dela ser anestesiada, para o “procedimento”, em um quarto mal iluminado de uma clínica improvisada em algum lugar para onde Norma foi levada de olhos vendados. 

Nora teve medo que algo ainda pior lhe ocorresse. Sozinha, órfã, fora trabalhar naquela casa muito cedo e temendo por sua vida, calou-se e se acostumou a viver em silêncio sobre todas as maldades de Vee e Larry. Quando este foi morar sozinho, Vee decretou que ela também iria para servi-lo e poder ficar de olho nela.

Era essa Vee que andava solta, sem uma sombra de pista sobre seu paradeiro, apesar de todos os esforços de polícia e detetives particulares para encontrá-la. Sim, mesmo minha amiga que investigou o velho Joe não logrou encontrá-la, era como se ela tivesse virado fumaça. Em minha opinião, ela estava longe, salvara a própria pele e não voltaria tão cedo, com medo da prisão.

Não obstante, muito antes de saber disso tudo, Piper voltou a ter pesadelos esporádicos e passou a fazer terapia, algo que a ajudou a lidar com todo o pesadelo que ela tinha vivido. Com o passar do tempo, os pesadelos desapareceram novamente, mas eu sabia que uma sombra sempre a perseguia e não era a lembrança de Vee e sim a da cartomante do parque e suas palavras, ou melhor, as não palavras. Era justamente o que ela não dissera que intrigava minha noiva. Eu implicava com ela dizendo que ela era mais mística do que eu podia imaginar. E ela sempre me repetia a mesma frase do mestre Shakespeare: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia.” E eu apenas ria e lhe beijava.

Assim que o dito popular novamente se fez verossímil e aquele ano (E mais alguns meses) passou relativamente depressa.

 



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