História Look at the stars - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jimin, Jungkook, V
Tags Drama, Romance, Taegguk, Taekook, Vkook
Visualizações 54
Palavras 8.194
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Fluffy, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


OOLÁÁÁÁ GENTE LINDA!
Primeiramente, embora a OS não seja dedicada ao Jimin maaaas
FELIZ ANIVERSÁRIO BOLINHO A MÃE TE AMA MUITO NENÉM
Agora, vamos para a história ainda sem capa, relevem <3
Eu trabalhei muito tempo em cima disso e posso dizer que SIM, eu tô MUITO satisfeita <3
Agradecimento puramente especial ao amor da minha vida, minha galáxia e primeira stan disso aqui, porque assim, ela ama mais o plot de Look at the stars do que eu rsrs <3
Luizão, te amo amore, muito obrigada <3

Então, eu espero de verdade que vocês gostem da história, coloquei minha alma nesse bagulho e é pra tá aceitável viu KKKKKKK
Sem mais delongas, uma boa leitura e desculpem os erros <3

Capítulo 1 - Look at the stars - Capítulo Único


Jeongguk alternava seu olhar pelas lustrosas estrelas que enfeitavam aquela noite de outono. Distribuídas pelo vasto céu encoberto por uma negritude que assemelhava-se a um breu opaco, os singelos astros envolviam o horizonte escuro numa áurea encantadora – aos olhos do jovem estudante – volviam o paraíso incolor num evento vívido e imerso em sua própria beleza. Evidentemente, tal descrição só poderia ser feita por um indivíduo que possuísse os mesmos olhos que o Jeon.

Pois possuir tais orbes que vislumbrassem cada fragmento do universo com destreza, era uma dádiva que apenas uma pequena porção da humanidade portava.

A capacidade de reconhecer vida como vida, presenteando a mesma com seu devido valor.

Enquanto muitas pessoas prendiam-se a mágoas passadas, prostrando-se a chorar por todas as dores somadas durante cada momento mal aproveitado de suas respectivas vidas, Jeongguk preferia se afogar em seu mar de estrelas cintilantes. Perder-se-ia mais uma vez em seu próprio universo, encantando-se novamente por sua singela galáxia particular.

Quisera ele tanto brilhar junto as estrelas.

– Jeongguk-ah! – o moreno teve seus devaneios de rotina interrompidos pela fina voz do colega com qual mantinha maior intimidade. O moreno levantou o olhar lentamente, até pousá-lo sobre a cabeleira loura do companheiro de classe, este que apresentava um comportamento inquieto. – A aula já acabou, Jeon. Por que permanece aqui mesmo após o término do último período? – indagou curioso o menor.

Já era do conhecimento de Jimin o estranho comportamento do mais novo, todavia, o Park ainda insistia na tentativa de compreender o que se passava na cabeça do jovem das madeixas escuras. Jeongguk encarou o menor confusamente, tendo em vista que aquelas não eram as feições originais do colega, absurdamente distorcidas pela sua visão repentinamente embaçada.

– Jeongguk, eu sei o quanto você costuma se perder quando pensa nas suas amadas constelações, mas daria pra voltar ao mundo real, por favor? Está ficando cada vez mais tarde, e eu não me perdoaria se te deixasse aqui sozinho. – confessou o Park, exibindo um bico infantil de descontentamento. Avoado às preocupações do mais velho, Jeongguk continuou a fitar o nada, imaginando como seria presenciar a formação de um buraco negro.

Será que as estrelas velariam suas companheiras falecidas?, divagava sem nexo, Irreal.

– Jeon Jeongguk! Eu vou desistir de você e ir embora, quer ficar sozinho?! – Jimin esbravejou ao se levantar bruscamente de seu aconchego no chão. Dramatizava tudo e qualquer fato em sua vida, e com as constantes ignoradas recebidas pelo atrevimento inconsequente do mais novo, não haveria de agir diferente.

– Acha mesmo que eu ficaria sozinho? – indagou o das orbes negras. – Acha que, em algum momento de nossa existência, realmente ficaremos sozinhos?

Jimin encarou o colega com a mente imersa em caos. Ficara louco de vez, Jeon?

– Como assim, cara? – o Park voltou a agachar-se ao lado do mais novo.

– Nunca cogitou a ideia de um ser maior estar por trás de tudo? Nos observando? – as pupilas do moreno dilatavam-se na medida que sua voz era banhada pela empolgação.

– Você não era ateu? – Jimin não se encontrava em posição alguma de entender os rumos que tal conversa tomaria.

– Eu ainda sou, Jimin. – o mais novo rolou os olhos para cima indignado. Céus, por que ninguém nunca me entende?

– Tá, foda-se. – o menor ajeitou-se para se retirar da sala quase inabitada, repreendendo-se mentalmente pela grosseria usada. Não fora intencional, não desejava aparentar tamanha falta de interesse para com as divagações de seu dongsaeng, mas não se sentia mais na ínfima obrigação em aturar suas filosofias sem sentido. – Vamos jantar algo na cantina e depois eu te acompanho até em casa.

– Por que faz isso por mim? – Jimin deixara a indagação do colega pairar no ar, enquanto sua mente era preenchida por cada vez mais dúvidas a respeito de sua relação com o moreno. Por que fazia aquilo por ele, sendo que o que mantinham sequer era uma... amizade.

Amor platônico?, pensara diversas vezes ao tocar no assunto consigo mesmo, Não, lógico que não. Afinal, o menor mal nutria afeto pelo outro.

Seria então, um sentimento de obrigação? Uma afeição leve construída pelas semelhanças que ambos compartilhavam, sendo estas seus únicos pilares a sustentarem sua coexistência? Haveria o Park, de maneira involuntária, desenvolvido um compromisso pelo bem estar do mais novo?

É, concluiu exausto pela intensa atividade mental, deve ser isso mesmo.

– Porque você carrega o brilho das estrelas no olhar, uma singularidade que deve ser preservada com muito afinco, Jeon. – Jimin sorriu largo, fazendo com que seus olhos se tornassem delicados riscos amáveis.

– Seria um resquício de poeira cósmica milenar? – o moreno exibiu seus dentes brancos com ansiedade e passeou, pela centésima primeira vez naquele mesmo dia, pelos seus próprios tijolos dourados de sua mente mergulhada em fantasia.

– Pergunte isso pra tia da cantina quando for pagar meu hambúrguer, porque eu vou colocar toda minha janta na sua conta.

Não fora necessário mais de dois segundos para que o Jeon despertasse de suas aleatoriedades momentâneas, e corresse atrás do loiro que gargalhava pelos corredores vazios do colégio.

 

Look at the stars

 

O pouco de frio que fazia naquela noite, era notado no humilde amontoado de vapor que deixava a boca arroxeada do rapaz das orbes enegrecidas. Jeongguk esfregou ambas as mãos na tentativa falha de proporcionar um pouco de calor para si, já que começara desde cedo a sofrer as variações daquele clima desconfortável.

– Qual vai querer, Jeon? – Jimin repetiu a pergunta de outrora, ao visar que o mais novo mantinha-se perdido em sua própria realidade. – Jeongguk, eu pedi qual lanche você vai querer. – bufou alto o bastante para ser notado pelo colega.

– Hã... maçã? – uma gota de suor frio escorreu pela sua face fazendo-o distrair-se mais uma vez. Mal notara a expressão de descontentamento do mais velho, que o encarava com sua estranheza costumeira. Que mal havia em querer uma maçã?

– Jeongguk, não se vende maçãs numa cantina. – respondeu simplista enquanto esfregava o rosto com a destra.

– Ah... – o olhar do moreno tornou-se avoado pela sexagésima oitava vez naquele mesmo dia. As orbes desfocadas foram capturadas pela atenção preocupada de seu hyung, que prontamente salvou-o de uma possível queda ao firmar suas mãos na cintura alheia.

– Jeon, está tudo bem? – o Park sentiu-se aflito ao não receber uma resposta de imediato, visto que seu dongsaeng travava uma cruel batalha contra si mesmo em seu interior conturbado. – Quer ir lá fora tomar um ar?

– Eu... – respirou fundo tentando manter a fala. – E-eu quero ir lá fora... – lançou seu olhar suplicante para o das madeixas louras. – E-eu quero vê-las.

– Ver quem? – Jimin pendeu a cabeça para o lado, com uma feição levemente triste habitando sua face delicada. Os pequenos olhos estreitos em uma linha assemelhavam-se aos franzidos lábios carnudos, tornando o semblante inteiro num emaranhado de expressões confusas, que tanto ansiavam entender seu intrigante dongsaeng.

– As estrelas, hyung. – Jeongguk arrastou-se ao lado do colega para fora da cantina, esforçando-se ao máximo para não permitir com que as pernas vacilantes o fizessem desabar. No momento em que a sola de seu tênis branco fizera contato com as gotas de orvalho resididas no pátio da escola, o Jeon ergueu a cabeça para o céu buscando pela protetora da noite, a única capaz de acalmar seu coração acelerado.

Jimin auxiliou o mais novo a sentar-se no gramado, deixando que o corpo fraco do moreno descansasse em seus braços, fazendo questão de permanecer de apoio para outro. Jeongguk respirou fundo, piscando várias vezes os olhos, almejando a paz que a luz da lua ainda haveria de lhe proporcionar. Cerrou os punhos com força, sentindo o suor frio escorrer pela face sem hesitação, e voltou a tentar realizar de maneira falha os exercícios de respiração que aprendera certa vez, buscando em sua memória escapes para a angústia que apertava-lhe o peito.

Tão preso.

– Jeongguk, você está me deixando preocupado. Está pálido e suando frio, tudo bem com você, cara? – Jimin pousou as mãos sobre os ombros trêmulos do mais novo, já úmidos pelo suor que banhava o uniforme com claros bordados. – Jeon, do que você precisa?

– P-preciso... que o-lhe para o céu, hyung. – uma risada soprada antecedeu o sorriso fraco que se formara na face do moreno. – Po-de me dizer?

– Dizer o quê? – a profundidade do olhar de ambos os conectava.

– Elas estão sorrindo? – as orbes negras se arregalaram ao sentir o ar esvaindo-se do próprio pulmão exausto.

– Elas quem, Jeongguk?!

– As estrelas, hyung. – um filete de sangue escorreu pelo nariz do mais novo acompanhando a intensa atividade mental que o torturava. – Pode vê-las sorrir?

Como uma lâmpada que se acendia, o Park tornou a observar o céu repleto de respingos brilhantes, deixando com que sua mente fosse aberta pelas filosofias do colega, e pudesse enfim absorver os encantos daquela noite. Noite que apagava crianças para o sono assim como apagara o Jeon para os sonhos.

 

Look at the stars

 

A imensidão do universo resplandecia no semblante de cada estrela, o quão belo era o espetáculo em que elas viviam dia após dia. Com astros distanciando-se desde a milhões de quilômetros de distância a milhares de anos luz que nunca teriam fim. A diversidade de cores que enfeitava aquela galáxia esbranquiçada, era uma visão deslumbrante para cada estrela, sendo seus passatempos preferidos dia após dia, observar aquele emaranhado de belezas que as rodeava constantemente.

Mas para uma estrela em especial, integrante de uma certa constelação, aquela grandeza sem fim era só mais um motivo para seus medos e inseguranças abalarem suas frágeis estruturas. Enquanto os demais corpos celestes levavam sua existência louvando tamanha grandiosidade oferecida por sabe se lá quem, a pobre estrela temia admirar tudo aquilo sozinha, percebendo que a cada momento que se fosse e ela resolvesse olhar para o passado, veria que toda aquela escuridão acabaria por destruí-la de dentro para fora, volvendo-a na anã branca que sempre deveria ter sido.

Quiçá a pequena estrela encontrasse alguém que passasse a eternidade consigo algum dia.

Ah, como invejava os humanos! Seres que se prostrava a observar todo dia de seu aconchego, acompanhando cada passo dos mortais e sentindo cada vida pulsar com fervor conforme os segundos se passavam. Ela sabia o quão cruéis e inconsequentes as pessoas poderiam ser, portanto, preferia analisar as ações daqueles que a própria sentia que valiam a pena.

Aqueles que possuíam bondade correndo pelas veias e vontade abraçando o coração. Aqueles que carregavam o brilho do universo no olhar, e se prontificavam alegremente a tornarem-se a galáxia de outro semelhante. A estrela ansiava por aquilo, por aquela companhia, por aquele sentimento que tanto aquecia o coração daqueles que o desfrutavam por completo.

A estrela queria amar e sentir-se amada.

Então permitiu que mais uma vez seu olhar recaísse sobre um de seus humanos prediletos, que deixava aquele mundo para se unir a sua própria galáxia que anos antes lhe deixara. A estrela sorriu abertamente quando percebeu a alegria do homem em fechar os olhos e se permitir abraçar a leveza que o envolvia.

Sabia que em algum canto do universo, aquelas novas estrelas habitariam juntas pela eternidade, sorrindo como nunca antes. Porque era na verdadeira plenitude, que as estrelas eram capazes de sorrir verdadeiramente. E sempre que olhares para o céu estrelado de uma noite abandonada pelas nuvens, você conseguirá ver um par de estrelas, talvez um trio ou até mais.

Preocupe-se com seus astros, procure vê-las sorrir.

– O que tanto vê neste pobre planeta? – uma estrela vizinha questionou, pela milésima vez apenas naquele século, para a companheira de constelação.

– Não entendo a cisma que vocês tem para com eles. – a outra referiu-se aos humanos, defendendo mais uma vez tal raça defeituosa.

– Eles se machucam e matam uns aos outros. Destroem o meio em que vivem e ainda buscam por descanso eterno ao fim de suas vidas na maior cara de pau. Preciso perguntar de novo o que tanto vê neste planeta, contaminado pela desgraça que esses seres lhe trouxeram? – uma carranca torceu as feições da não tão bela estrela.

Então a estrela amante da vida tornou a observar seu planeta intrigante, imaginando por qual motivo ao certo ela era tão apaixonada pelo mesmo. Seu sorriso forçado se desfez aos lembrar-se de todas as guerras e conflitos que presenciara, de tanta luta para nunca chegar a lugar algum, de tanto sofrimento para nunca alcançar a paz.

Então perguntou a si mesma, o que tanto via naquele pobre planeta?

Seu interior se aqueceu ao lembrar daqueles que carregavam o brilho do universo em cada gesto, cada sentimento, cada olhar.

– Esperança.

 

Look at the stars

 

O interior do hospital se agitou na entrada de um novo paciente naquela quase madrugada de uma sexta-feira, aparentemente, tranquila. Mesmo que já houvesse se passado mais de um mês desde o ocorrido, a tensão envolvia os corredores que levavam até aquele quarto branco que abrigava um jovem estudante com os dias contados.

Leucemia linfoide aguda, avançando de maneira assustadora para os doutores que assumiram o caso. As notícias que se seguiam não poderiam ser piores, considerando que o paciente de apenas dezesseis anos, com um futuro inteiro pela frente, era limitado a permanecer naquela cama, que provavelmente, viria a ser seu leito de morte.

A enfermeira impediu pela quarta vez a entrada do loiro afobado no quarto do doente, porém, quando dera de cara com aqueles olhos desesperados novamente em menos de dois minutos, seu coração fora amolecido, tornando-a incapaz de recusar o pedido insistente do garoto de adentrar o quarto. Assim que a passagem lhe fora dada, o jovem movimentou-se para perto da cama com uma rapidez desnecessária, visto que a distância que o separava do paciente era mínima. Seu olhar arregalado encontrou o do outro que permanecia como da última vez em que se viram.

Completamente sem vida.

– Jeongguk... – um fio de voz hesitante deslizara pela boca do Park. Percebendo que não teria resposta do mais novo, o loiro apenas rodeou a sala em busca da poltrona que ficava ao lado do janelão que levava à sacada. Contou os minutos pelo relógio pendido no alto da parede do quarto, e assim que terminara sua visita, martirizou-se mais uma vez por não ter conseguido absolutamente nada com o moreno.

Antes de deixar o recinto por completo, limitou-se a se despedir do Jeon com um singelo toque em sua mão pálida e gelada que residia em seu colo magro. Soltou um suspiro baixo, sequer atraindo a atenção do doente, e enfim permitiu-se abandonar o hospital naquela tarde gelada de outono.

Finalmente sozinho, Jeongguk sentiu a primeira de muitas lágrimas abrirem caminho por sua face arroxeada devido ao frio, encontrando-se com o fino tecido do uniforme hospitalar. Bufou ao lembrar-se de sua situação digna de pena, enterrando o rosto nos joelhos em seguida, não hesitando ao abraçar a si mesmo em busca de um conforto que nunca chegaria.

Não queria evitar Jimin, quem dirá ferir seu coração também aflito. O garoto era o primeiro e único amigo que o moreno já tivera, tendo a relação de ambos começada no início dos anos   finais do fundamental. Jeongguk nunca se importara em ser solitário, havia suas próprias fantasias para o fazerem companhia. Já o Park, encontrara no mais novo tudo o que buscou por tanto tempo. Um igual a si. Não nas percepções de vida, mas sim nas experiências da mesma. Ambos apenas com a mãe, e sozinhos num mundo que não os compreendia.

Mesmo acostumado a solidão, o Jeon pouco se importara com a aparição do baixinho em sua vida, tampouco rejeitara sua amizade. O moreno, mesmo não sendo mestre em demonstrar sentimentos carinhosos para com outras pessoas, amava verdadeiramente a presença do menor para si. Seu aconchego, seu refúgio, seu melhor amigo.

Aquele que nunca desistira de si, ainda que jamais houvesse sido correspondido na mesma intensidade no projeto de relação que construíram ao passar dos anos.

Já era do conhecimento de todos a estranha personalidade do Jeon e seu jeito peculiar de se relacionar com as pessoas, assim como sua maneira encantadora de ver o mundo e todo o universo que o estudante metido a astrônomo ansiava desbravar. E sendo do conhecimento de todos, também, compreendiam o quão era difícil ter tudo aquilo que um dia fora sonho, ser limitado a apenas uma breve ilusão.

Jeongguk não era burro, sabia que deixaria o mundo em breve. Sabia que a morte lhe esperava na porta mais próxima que viria a abrir.

E isso o entristecia de maneira absurda, pisoteando todos seus sonhos e fantasias, roubando todo seu brilho que tanto julgavam vir das estrelas. Falando em seus amados astros que deixara de ver desde que fora internado, a saudade que tinha de observar o céu iluminado era impossível de se calcular. Porém, Jeongguk já não mais obtinha paz ao olhar para a lua, ou prazer ao sentir-se parte do universo.

Jeongguk não sentia mais prazer em nada.

Sempre acreditou na filosofia de aproveitar a vida enquanto ainda a tivesse, e sempre imaginava as pessoas em doenças terminais fazendo tudo o que gostariam de fazer antes de deixar o mundo. Como se aquela corrida contra o tempo fosse uma descarga de adrenalina em suas veias, para que seu corpo corresse em prol da esperança de manter-se vivo. Mas agora que se encontrava em tal situação, Jeongguk só almejava o dia em que enfim poderia fechar os olhos e abandonar de uma vez todo aquele sofrimento.

Perdido em sua própria dor, mal percebera a porta do quarto sendo reaberta de maneira nada discreta, revelando uma mulher descabelada e sorridente prostrada diante si. O moreno forçou-se a olhar para a progenitora, que segurava um embrulho enorme atrás de seu corpo pequeno e preocupantemente magro.

– O que faz aqui, mamãe? – a voz saíra como um rasgo torturante em sua garganta irritada.

– Vim visitar meu filho doentinho, oras! – disse a mulher numa fala carregada de empolgação. Ela carregava com dificuldade o presente que tentava esconder de maneira falha, mais isso não a impedira de esticar-se até o filho e deixasse um selar estalado em sua testa gelada.

– Mãe... – o mais novo encarou o nada por tempo o suficiente para a mulher perceber seu desconforto com tudo aquilo. Ela sabia o quanto toda aquela situação afetava o garoto, assim como também a destruía por dentro embora sempre tentasse não demonstrar.

A verdade era que ela estava mais do que desesperada. Perderia seu bem precioso para mesma doença que matara seu marido sete anos antes, e isso era algo que ela procurava lidar da melhor maneira possível para não desestruturar o filho ainda mais. Ele que sempre fora um jovem cheio de vitalidade, vivendo cada momento como se fosse único.

Claro, com seu próprio jeitinho peculiar.

– Shh! Sem depressão por hoje, está bem? – a mais velha pediu gentilmente, obtendo como retorno um aceno fraco do garoto. – Quer saber o que eu tenho aqui? – um sorriso largo iluminou a face cansada da mulher.

– Não. – o moreno fora sincero em seu desinteresse. Jeongguk desconhecia o que um dia jurou ser amor à vida.

Já não tinha mais vida do mesmo.

– Hã... mas eu quero saber... uma coisa! – atiçou a mulher ao sentar-se, sem permissão alguma, no lugar vago da cama.

– O que seria? – Jeongguk pendeu a cabeça para o lado tentando entender as intenções de sua mãe.

– As estrelas, Gukkie! – ela sorriu abertamente. – Pode vê-las?

– Mas está de dia e-

– Shh! – a mais velha tapou a visão do filho com ambas as mãos, após largar o presente ao lado da cômoda no canto do quarto. – Esqueceu de tudo o que eu te ensinei? Pode estar de dia aqui, mas em algum lugar do mundo será noite. Então, consegue vê-las?

Jeongguk engoliu em seco e permitiu-se fechar os olhos para fazer o que sua mãe desde muito cedo lhe ensinara. Imaginar. Imaginou um céu negro com seus respingos resplandecentes brilhando para si, imaginou um mundo apaziguado com a tranquilidade obtida pela lua, protetora dos filhos daquele universo tão vasto e de beleza tão inigualável. Imaginou nebulosas cantando cantigas às estrelas menores e a matéria negra sendo preenchida por suas mais diversas magias.

E quando pensou ter imaginado um mundo só seu, percebeu enfim, que ele já existia, e apenas havia se lembrado do mesmo. Lembrou-se de seu próprio universo, onde passara boa parte de sua existência mergulhado em sua plenitude cósmica.

– Mamãe. – chamou pela progenitora docemente, sentindo sufocar-se por aquela sensação de aconchego que há muito não sentia.

– Diga, querido. – as lágrimas já rolavam pelo rosto da mais velha, emocionada por enfim poder rever o sorriso do filho.

– Elas estão sorrindo, eu posso ver. – gargalhou fortemente, extasiado pelo momento de paz que finalmente encontrara.

– Abra os olhos, amor. – o garoto obedeceu à mãe e não pode calcular a intensidade de seus sentimentos ao ter seu presente habitando seu campo de visão. – Gostou? – perguntou a mulher, tendo em seus braços o que um dia fora o embrulho do que tanto esperou entregar ao filho.

– Um... telescópio? – a boca escancarada do mais novo parecia incapaz de ser fechada. Estava em completa surpresa, animação e felicidade. Era como se estivesse se reencontrando aos poucos.

– Jeongguk. – a mulher tornou-se séria ao segurar as mãos pálidas do jovem e lhe direcionar um olhar duro. – Você vai morrer. – as orbes do moreno se esbugalharam ao ter a verdade sendo posta diante si sem a menor delicadeza. – Mas sabe qual é a maior ironia disso? É que um dia, todos vamos morrer.

– M-mãe...

– Me deixe falar, Gukkie. – a mulher soluçou alto em meio ao choro já formado. – Você sempre foi um prodígio, um orgulho tanto para mim quanto para seu pai. A melhor coisa que aconteceu em nossas vidas, e eu serei eternamente grata aos céus por ter tido você. E embora você esteja indo cedo demais, eu não me arrependo de nada e jamais ousaria ter feito algo diferente. Eu não errei com você, por mais que não seja um adolescente cheio de amigos e festeiro, você é especial ao seu modo.

– Mamãe... – as lágrimas escorriam deliberadamente pelo rosto pálido do Jeon mais novo.

– Você é perfeito, Jeongguk. – ela sorriu largo, o mesmo sorriso doce e puro que o filho herdara. – Então, não desperdice o que resta da sua vida se amargurando por não poder... continuar... – a mulher respirou fundo, secando um pouco do suor que escorria pela pele febril do filho. – Aproveite o que te resta, Guk. Eu sei que você não gosta que eu gaste dinheiro com você, mas, esse telescópio é para alimentar seu amor por esse universo que você nutre desde que nasceu. Somos todas estrelas, certo? Apenas esperando pelo dia em que brilharemos eternamente?

– Sim. – ele confirmou orgulhoso das próprias palavras que dissera outrora, sendo reproduzidas pela progenitora de maneira ainda mais amável.

– Então use esse telescópio para se reencontrar, Jeongguk. Encontre sua própria galáxia antes de deixar esta aqui.

 

Look at the stars

 

Descansava serenamente devido a, conhecida por muitos, falta do que fazer. Seu passatempo preferido era observar seus humanos, e por qual motivo não o fazia mais? Simples, a estrela cansara. Cansara da mesma rotina, ficara durante dezenas e mais dezenas de eternidades observando o que quer que fosse, e nunca descobria motivo em nada, quem dirá de sua própria existência. Estaria o corpo celeste tendo uma crise existencial? Talvez nem mesmo ela soubesse, só sabia que estava cansada de ficar sozinha.

As demais estrelas não pareciam gostar de si, visto que passava boa parte do tempo observando os seres repudiantes que os humanos eram. Ah, que elas soubessem o quanto as pessoas as amam, divagava a estrela em suspiros pausados.

Encarou o nada mais uma vez e bufou sonoramente, exausta de tantos pensamentos sem fundamento algum. Amarrar-se-ia em mais algum humano de valor, e o acompanharia por toda sua caminhada com um fim talvez não tão demorado quanto gostaria. A estrela se apegava demais a seus humanos, que na maioria das vezes, tornavam-se os protagonistas de suas histórias.

Foi quando naquele mesmo segundo na contagem do espaço, que sua respiração falhou quando seu corpo celeste fora apanhado por um olhar muito intenso. Vindo da Terra.

Na capital da Coreia do Sul, mais especificamente, de uma sacada de um quarto de hospital.

A estrela percebia os batimentos acelerados do humano e o olhar confuso que o mesmo lançava para si. Ele a analisava com proeza, como se em cada olhada tentasse avidamente decodificar cada grandeza do astro. E num ato de total inconsciência, seus olhares se encontraram, uma conexão como nunca visto antes fora construída e seus interiores se aqueceram com o contato.

Jeon Jeongguk deixou de visar o céu pelo telescópio e procurou por sua estrela a olho nu, usando um esforço acima do normal para permanecer de pé apoiado nas barras da sacada. Suas orbes negras brilharam ao depararem-se com o céu estrelado que assemelhava-se à uma tela de pintura escura com respingos de tinta branco. Um branco tão vívido quanto a chama que acendia em seu peito, ao enfim encontrar sua mais nova atração.

Desde que recebera o presente de sua mãe, o jovem prostrara-se a se aventurar pelo universo, descobrindo aqui e ali, motivos para continuar vivendo. Passava horas e mais horas lendo os livros de astronomia e física que Park Jimin o trazia na maior boa vontade, e no restante da visita, ouvia atentamente as novas histórias que o menor lhe contava com alegria. Como se sua flor estivesse renascendo, os exames do Jeon melhoravam lentamente, incapacitando seu quadro de saúde de agravar-se da maneira assustadora que outrora estivera. Jeongguk sentia-se feliz, sentia-se renovando aos poucos, num tratamento sofrido e demorado, que lhe traria resultados animadores.

Dias atrás, enquanto o moreno prosseguia com sua jornada nas estrelas, encontrara uma constelação muito bela, até então, desconhecida pelo seu olhar ágil. Decidira, então, observar tal paisagem durante todas as noites, tentando conhecer e amar por igual cada brilho que a compunha. Mas naquele momento, em que teve sua visão cruzada com a solitária estrela, o Jeon permitiu-se sorrir pequeno, porém, encantado.

Tendo, por um breve momento, seus pensamentos completamente centrados no astro.

A estrela, pelo contrário, estranhava a intriga estampada na face angelical do humano que a analisava com tamanho fervor. O que era tão especial em si, para fazer aquele jovem vidrar-se tanto em sua imagem? Em momento algum da longa vida da estrela tal coisa acontecera, considerando que sempre fora ela a observadora, e nunca a observada.

Tornou a olhar para os lados, a procura de uma de suas companheiras para trocar ideias a respeito daquele novo acontecimento. Foi quando se viu sozinha.

Onde estava sua constelação?

Teria se afastado de suas companheiras? Estaria definitivamente sozinha pela eternidade? Como não percebera a movimentação das estrelas? Por quanto tempo ficara perdida em seu próprio mundo? Todos aqueles pensamentos atravessados se colidiam em sua mente, provocando o aflorar de um sentimento cruel que desintegrava-a de dentro para fora.

O medo.

Medo de morrer na solidão, medo de jamais sentir-se feliz de verdade, medo de desistir de tudo.

Afinal, todos temos direito de sentir medo, até mesmo as estrelas.

Portanto, desesperou-se.

Se a constelação havia se afastado de si, sem sequer importar-se caso estava a segui-la ou não, era porque realmente não pertencesse a ela. Talvez não pertencesse à lugar nenhum, tendo sido condenada desde o início de sua existência a vagar sozinha pelo universo, na incessante busca de achar algo ou alguém que pudesse confortá-la.

Que pudesse ser sua galáxia.

Então, num segundo qualquer no qual a estrela não prestava atenção em mais nada a não ser em seu pânico notável, seu interior acalmou-se numa velocidade assustadora, tornando-a estável novamente. Após o fim de sua agitação, a estrela desviou seu olhar vago para o ponto da Terra que observava momentos antes. Seu peito se aqueceu e ela finalmente permitiu-se sorrir fraco para a figura encantadora que a visava de maneira apaixonada.

De todos os humanos que já observara, aquele, conhecido por Jeon Jeongguk, definitivamente era diferente. Era como se cada coisa no universo que estivesse sob seu olhar brilhante, se sentisse especial e unicamente amada. A estrela, portanto, percebeu aquela chama gostosa acender em seu peito, indicando que aquele ser valia a pena, que aquele humano era, de fato, belo por dentro e por fora.

 

“Aqueles que possuíam bondade correndo pelas veias e vontade abraçando o coração. Aqueles que carregavam o brilho do universo no olhar, e se prontificavam alegremente a tornarem-se a galáxia de outro semelhante.”

 

Sim, Jeon Jeongguk possuía as preciosidades que a estrela tanto buscava na humanidade. Possuía a capacidade de enxergar a luz em meio a escuridão, de encontrar valor nas menores coisas, de ser especial ao seu próprio modo. Ele possuía virtudes das quais boa parte dos seres invejaria. A estrela analisou, pela primeira vez desde seu contato com o garoto, o quão deplorável sua situação conseguia ser. Visou os joelhos fracos dobrados, tremendo para conseguir manter-se em pé, os braços magros debruçados pelo corrimão da sacada e o sorriso largo estampado no rosto por receber a atenção de sua estrela na mesma intensidade que ela recebia a sua.

Eram poucos os humanos que conseguiriam escapar do fim que aguardava o jovem. A estrela, então, decidiu que caso o Jeon perdesse as esperanças em si mesmo, ela seria a dele. E após receber o mais lindos dos sorrisos, cujo ela sabia ser direcionado unicamente a si, concluiu.

Talvez não estivesse sozinha como pensara.

 

Look at the stars

 

 – Jeongguk! – chamou pela décima vez. – Cara, eu não vim contar a minha vida amorosa pra você ficar me ignorado, seu pirralho. – resmungou Jimin, exigindo a atenção que sabia que o maior lhe devia. O tempo passara levemente, e ironicamente ou não, a situação em que o Jeon fora colocado servira para aproximar o moreno do baixinho. De prováveis amigos, evoluíram para melhores amigos.

Jeongguk percebera que no tempo que lhe restava, devia aproveitar cada minuto como se fosse o último, e isso incluía em valorizar a presença de Jimin como devia ter feito há muito antes.  

– Desculpe, desculpe! – o das orbes escuras riu fraco, recebendo pequenos sinais de reprovação vindos do Park. – Estava distraído, pode repetir, por favor? – piscou seus olhos repuxados para ganhar o perdão do loiro.

– Eu não vou repetir o que eu fiz, Jeon. Tenha respeito pela minha pessoa! – o rosto do mais velho enrubesceu-se rapidamente, arrancando risadas em demasia do moreno.

– Ah, acho que me lembro de alguns detalhes. Era algo como... chuca, não é? – o loiro arregalou os olhos a ponto de perder seus traços orientais, o que significou na perfeita deixa para que o mais novo estourasse em gargalhadas contagiantes.

– JEONGGUK! – Jimin o repreendeu com urgência, ao perceber a presença da mãe do moreno prostrada diante de ambos soltando altas risadas. – VOCÊ É UM TRAÍRA!

– E você um apaixonado! – revidou o maior.

– Sabe, filho, as vezes você também parece um apaixonado de tanto que se perde nessa sua cabecinha peculiar. – sorriu a senhora Jeon com graça. – O que tanto rola aí dentro, hein?

Jeongguk pensou por um tempo sem chegar a conclusão alguma, como de costume. Completara quatro meses desde que fora internado, e até então, nunca preocupara-se verdadeiramente sobre o que ocorria consigo. Era sempre sua mãe quem estava a par dos exames que faziam em si, Jimin que diariamente cuidava de seu bem estar, os médicos que o monitoravam com grande frequência.

Mas, e ele?

Ah, Jeongguk só tinha olhos para as estrelas.

Uma em especial.

– Eu... – o mais novo dali engoliu em seco. – Eu... encontrei uma estrela.

– Você vê várias por dia, Guk. – relembrou Jimin. – O que te faz revelar que encontrastes uma estrela?

– Ela é diferente, hyung. – Jeongguk olhou para o céu ainda claro pela janela aberta. – Ela é única.

– Todas as estrelas são únicas, meu amor. – a senhora Jeon deixou um carinho gostoso sobre as madeixas escuras do filhos. – O que você viu de diferente nesta?

– Ela é incrível, mãe. Completamente única! – ressaltou o mais novo, surpreendendo até mesmo o loiro que não mantinha um olhar tão direto quanto sua progenitora que dera um salto para trás. – É como se.... como se... como se estivéssemos conectados!

– Pirou de vez, Gukkie? – o Park riu soprado ao perceber a agitação do melhor amigo.

– Pode ser que sim, mas eu sei do que eu estou falando, Jimin. – assegurou com total convicção. – Eu sinto ela me encarando, e é como se ela me sentisse também. Não precisamos de uma conversa para estabelecer um contato, apenas de um.... de um olhar.

A senhora Jeon sorriu largo ao distanciar-se do filho, abrindo caminho para o amigo do mesmo se preparar para retirar-se do quarto acompanhado de si. Lançou um último olhar ao garoto que permanecia encantado com o que acabara de descobrir e deixou um riso fraco escapar.

– Você já leu algo sobre isso em algum livro de física ou puramente de astronomia? – a mulher perguntou docemente.

– Não, não tem nada sobre isso em nenhum deles. – a decepção do mais novo era nitidamente visível.

– Se não está nos livros, Jeongguk, saiba que está no seu coração.

 

Look at the stars

 

Bufou frustrado ao notar a demora que tivera em encontrar sua estrela. Finalmente a noite caíra, e Jeongguk fora rapidamente até o telescópio para iniciar sua conversa por sentimentos com seu astro preferido do universo. Porém, estava cada vez mais difícil se concentrar em algo, visto que sua visão embaçava hora ou outra repentinamente, sem aviso prévio.

Contudo, não iria se incomodar com detalhes tão fúteis, considerando que agora estava frente a frente com a majestosa presença de sua estrela mais uma vez. O tempo passara voando, e a conexão de ambos apenas aumentava. Era como se um fosse a salvação do outro, como se a estrela sustentasse Jeongguk na sua caminhada de vida, e Jeongguk fizesse companhia à estrela em sua solidão evidente.

Se contentavam apenas em se observarem, mas como ambos ansiavam se tocar, se terem por completo, tornava a relação um pouco mais dificultada. Precisavam se algo para aprofundarem aquele contato, e Jeongguk, muito animado, resolveu nomear sua estrela com um nome de um príncipe de um livro que lera certa vez.

Taehyung.

– Deve ser legal conversar com você, Taehyung. – o moreno disse tão baixo que pensava que a estrela sequer teria o escutado. Porém, a ligação que ambos construíram era muito mais forte que isso. – Você parece ter coisas interessantes para contar.

Quem sabe eu tenha mesmo, coelhinho, a estrela pensou em resposta, se referindo ao humano pelo apelido carinhoso que criara no dia em que se apaixonou por seu sorriso. Porque a cada novo encontro, a estrela se apaixonava por algo diferente no Jeon.

E naquele momento, ela se apaixonara pelo seu nome. Jamais havia sentido algo como aquilo, aquela sensação de acolhimento, aquele calor percorrendo o corpo, aquele nervosismo em prosseguir com o contato. Nunca sentira nada igual, nunca sentira-se tão... amada.

Era a coisa mais linda que já haviam lhe feito. A estrela agora tinha um nome, e amava seu nome. Taehyung era um nome lindo, afinal, tão lindo quanto Jeongguk. Renovada pelo mais novo adorável gesto do moreno, Taehyung permitiu-se sorrir abertamente enquanto encantava-se por cada pedacinho do mais novo que se encontrava boquiaberto.

– Você... falou? Comigo? – o Jeon questionou num misto de espanto e êxtase.

Você... pode me ouvir?, o pensamento da estrela saíra carregado de ansiedade.

– Isso não é loucura, certo? Está realmente acontecendo? – o moreno abaixou o telescópio buscando por sua estrela no céu, que por razões desconhecidas, parecia brilhar mais intensamente naquela noite.

Eu... acredito que sim, respondeu o astro com um quê de hesitação.

– Taehyung?

Jeongguk?

Por algum motivo, aqueles nomes pareceram muito mais belos para ambos ao serem pronunciados por suas companhias noturnas. Que agora não eram mais somente noturnas, pois Jeongguk carregaria no coração a presença de Taehyung todos os segundos, onde quer que estivesse.

Taehyung o incentivava a viver e Jeongguk incentivava o outro a existir. E naquele mundo onde ambos coexistiam por um amor incomum nascido de um humano que perdera tudo e de uma estrela que nunca tivera nada, eles encontravam nos mais singelos gestos dos laços que construíram, a verdadeira felicidade buscada por muitos e alcançada por poucos.

Porque eles amavam e eram amados.

 

Look at the stars

 

Jimin entrou ofegante no hospital, aos tropeços de seus passos ligeiros e atravessados. Encontrou a senhora Jeon sentada abraçando os próprios joelhos nos bancos que ficavam ao lado do quarto em que o filho estava internado. Sentou-se ao lado da mulher e encostou a cabeça da parede fria, fixando seu olhar aflito em qualquer lugar do teto, tentando lentamente acalmar sua respiração.

– Como ele está? – buscou coragem suficiente para iniciar um diálogo com a mais velha, que permanecia desde a hora em que chegara, encarando o chão com suas orbes vazias.

– Dormindo. – limitou-se a responder em poucas palavras. – Foi uma parada cardíaca difícil.

Não é como se paradas cardíacas fossem fáceis, o Park pensou para si.

– E os médicos? O que disseram? – arriscou-se a adentrar naquele assunto deveras delicado.

– Menos de uma semana. – a senhora Jeon respirou fundo, deixando algumas lágrimas escaparem no processo. – Ele tem menos de uma semana.

– E o que vai fazer? – Jimin perguntou suavemente, batalhando internamente para não revelar sua voz embargada.

– Aceita ou surta. Não é o que dizem? – ela riu sem humor.

– Vai aceitar?

– Não.

– Vai surtar?

– Também não.

O loiro passou o braço por trás da mais velha, convidando-a para um abraço reconfortante. Ambos permaneceram naquele aconchego gostoso, aproveitando o que lhes restavam de tranquilidade, até o momento em que o doutor principal que cuidava do caso do jovem estudante, apareceu assim que a porta do quarto fora aberta.

– Ele acordou. – anunciou com a voz grave ecoando pelo corredor, atraindo para si os olhares desesperados dos ali presentes. – Se despeçam.

A boca da mulher abriu-se sem emitir som, permanecendo em completo estado de choque. Jimin pediu permissão para ir primeiro, recebendo-a rapidamente por um fraco acenar vindo da mais velha. O Park se direcionou até o quarto, deparando-se com o melhor amigo afundado na cama, aparentando estar completamente esgotado. Aproximou-se sorrateiramente do doente, se agachando ao lado da cama para segurar a mão assustadoramente fria do outro.

– E aí, cara. – tentou soar o mais casual possível, mesmo com sua voz embargada denunciando o contrário. – Suave?

– J-Jiminnie... – o Jeon sorriu fraco, virando a cabeça para visualizar a imagem do amigo.

Jimin acabou por não conseguir segurar o choro, que se seguiu alto e sofrido. Não conseguiu evitar sentir-se destruído ao ter as orbes negras do dongsaeng direcionadas a si, tão opacas, já não mais possuindo o brilho que outrora costumava exibir com orgulho. A vitalidade se esvaíra do corpo por completo, deixando apenas aquela caixa vazia esperando para ser inabitada. O Jeon estava a um passo de deixar aquele mundo, e tal fato nunca esteve tão concreto.

– Tudo b-bem, Jiminnie, eu se-i. – a voz parecia cortar a garganta do mais novo, mas aquela frase fora o suficiente para o menor desabar novamente agarrado a mão do moreno. Aquela fala era o suficiente para deixar claro que Jeongguk tinha total conhecimento do que aconteceria, e havia aceitado todas as consequências de sua situação.

Era verdade, o garoto estava pronto. Só temia por aqueles que ainda ficariam depois que ele fosse.

– O q-que vai fa-zer? – questionou tristemente ao avaliar o estado desesperador do hyung.

– Eu vou... – Jimin fungou seguido de um suspirou alto. – Eu vou cagar para o que acontecer com você e seguir com a minha vida. – a falsa afirmação arrancara risadas extremamente fracas do mais novo. – Você se acha importante demais para fazer falta na minha vida?! Pff, se enxerga, Jeongguk! Eu vou é viver minha vida!

– Use camisinha, hyung.

Aquilo fora o estopim para Jeongguk ser envolvido num abraço caloroso pelo melhor amigo. Jimin admirava o bom senso de humor do outro, e mesmo no fim da vida, ainda possuía a capacidade de se preocupar verdadeiramente com o próximo.

– Vai ficar b-bem? – o mais novo pousou um olhar pesaroso sobre o loiro, este que segurava sua mão fortemente contra o rosto.

– Vou sim. – Jimin deixou um leve selar na testa do moreno. – Fique bem também, ok?

– Ficarei. – assegurou ao mais velho. Jimin abriu um sorriso largo em meio a tantas lágrimas, e obrigou-se a largar a mão do outro, depositando-a novamente sobre o lençol umedecido pelo suor frio do melhor amigo. Deixou a sala em passos lentos, tentando aceitar o que seguiria após aquela madrugada.

Falhara miseravelmente, porém, não desistiria de tentar.

 

Look at the stars

 

A mente de Jeongguk estava uma bagunça. Não conseguia focar em nada, e todo o quarto parecia girar e se debater em agonia. Tentou fixar o olhar em algum canto, mas perdeu o rumo novamente quando uma onda de dor tomou-lhe por completo. As últimas palavras da mãe ecoavam em seu consciente, o choro do amigo e da progenitora, os eu te amos recebidos, tudo parecia se torcer em sua cabeça, provocando-lhe um desconforto imenso.

Foi quando em meio a tudo aquilo, seu ser encontrou paz por um segundo, ao lembrar-se vagamente de algo.

Sua estrela.

Em seu momento de quase morte, o Jeon esquecera-se totalmente de seu amado astro. Este que o acompanhara durante aqueles vários meses que ultrapassaram a marca de meio ano. Seu amável e cintilante Taehyung, que mesmo dentro de tantos delírios e confusões, nunca o abandonara. Nunca deixara de brilhar para si, e somente si.

Mas ele não imagina quão desesperado a estrela se encontrava. Taehyung se via completamente sem saída de tamanha dor e sofrimento. Por mais que visse seu amado todos os dias, o citado não o via há semanas. Há tempos que o Jeon não conseguia sair da cama para sequer ir até a janela, quem dirá alcançar o telescópio. Taehyung não era burro, tinha uma eternidade de experiência de vida para saber que o seu humano deixaria o mundo em breve, afinal, era nítido o quão perto da morte ele se encontrava. Contudo, o amor falava mais alto, e ele recusava-se a aceitar isto.

Não depois de tantos olhares, tantas conversas, tantas carícias a longa – e veja quão longa – distância, os dois se tornaram inseparáveis. Eles se deram motivos suficientes para prosseguirem juntos, todavia, Jeongguk ainda era humano. Frágil, mortal e severamente doente.

Mas Taehyung ainda não aceitava o fato de ser deixado.

Não depois que Jeongguk se tornara sua galáxia.

E a maior ironia, era que aquele amor, que haviam construído na mais incomum das situações com os mais distintos seres, era o que movia o mais novo a se movimentar sofridamente pelo quarto, numa tentativa falha de chegar até a sacada. Jeongguk caiu da cama num baque dolorido, gemendo alto ao sentir todos os músculos contraírem em agonia. A angústia tomou-lhe o peito quando o ar lhe faltou, mas não fora o suficiente para que o fizesse parar. Prosseguiu se arrastando pelo chão, arrancando os fios que se prendiam nos móveis durante o caminho, sentindo as consequências da falta de todos eles.

Mas ele precisava.

Precisava ver sua estrela uma última vez e dizer que a amava.

Precisava agradece-la por tudo.

Precisava tê-la para si antes de deixa-la.

Taehyung consumia-se em ansiedade por ver seu pequeno numa trajetória tão difícil para alcança-lo. Não se esforce, Jeongguk!, implorava angustiado por ver o garoto naquela situação, tão indefeso, tão frágil.

Tão desesperado quanto si.

Taehyung queria correr ao seu encontro, pega-lo nos braços, dizer que tudo ficaria bem, que viveriam juntos para sempre e nada poderia interferir no amor que construíram. Mas Taehyung não podia.

Ele era só uma estrela, que nunca pôde fazer nada.

E agora estava prestes a perder mais um de seus humanos. Aquele que mais amou.

O único que verdadeiramente amou.

O som estrondoso da enfermeira abrindo a porta assustada despertou o Jeon de seu transe. Ela correu até o garoto que mal conseguia formar uma frase e o colocou de volta na cama, religando a si, todos os fios que se desprenderam. A mulher falava frases que o mais novo não conseguia entender, conseguia sequer distinguir as expressões apavoradas que habitavam o rosto da enfermeira.

As luzes do quarto foram se acendendo na medida que mais médicos iam povoando o local. Os equipamentos que mantinham Jeongguk vivo apitaram enlouquecidamente, como se gritassem que algo de muito errado estava acontecendo. Claro, porque não eram eles que mantinham o moreno vivo.

Era sua estrela.

Esta que fez Jeongguk usar suas últimas forças para derramar um mar de lágrimas, assustando a todos os profissionais presentes. Sua respiração cessou completamente e ele pensou ter ouvido dezenas de gritos se misturando naquela bela confusão que se formara. Por um momento o garoto não ouviu mais nada, não sentiu mais nada, não pensou mais em nada. Mas por algum motivo, alguma força inexistente, ele estava muito triste. Extremamente triste.

Por que aquela sensação de que faltava algo o assolava tão fortemente, ainda mais em um momento como aquele?

Então um forte clarão tomou suas vistas por completo, uma leveza anormal o consumiu e Jeongguk sentiu-se renovado. Abriu os olhos e se viu num lugar completamente branco, como uma sala tingida com a junção de todas as cores sem entrada ou saída. Olhou para o que seria o chão e viu seus pés descalços, firmes como há muito tempo não estavam. Deu alguns passos, estranhando a sensação de caminhar novamente, ergueu suas mãos para o alto sentindo a curiosidade de se observar por completo, como se estivesse se conhecendo novamente.

Foi quando ouviu um som surpreso ser solto por um segundo indivíduo que compartilhava a sala consigo. Encarou aquela figura curiosa, aquela pele morena harmonizando com as madeixas castanhas onduladas que caíam sobre o olhar amendoado. Não conseguia identificar quem era, mas assim que um sorriso retangular contagiante se abriu para ele, sentiu seu coração ser abraçado por um sentimento capaz de tranquilizar toda sua alma.

– Jeongguk?! – a voz grave, cuja presença reconheceria em qualquer circunstância, deliciou seus ouvidos.

– T-Taehyung... – um suspiro surpreso deixou os lábios rosados do moreno, que não tardaram a serem umedecidos pelas lágrimas que desciam em abundância. – Taehyung! – o mais novo gritou com todo o fôlego que possuía, correndo até os braços do castanho. – Você...

– É. – confirmou o maior ainda sem jeito. – Acho que sim.

Era tudo muito novo para o outro também, considerando que estava acostumado a viver como uma estrela. Mas pudera enfim realizar seu sonho de tomar seu amado humano nos braços, o guardando com o carinho que toda vida sentira pelo mesmo.

– Eu queria tanto te ver! – revelou o Jeon aos soluços. – Eu queria tanto te ver uma última vez antes de me despedir e...

– Nada de despedidas, Gukkie. – o mais velho segurou a face angelical do menor. – Isso não é uma despedida.

– Esse seria nosso final feliz? – o olhar de Jeongguk arregalou-se em expectativa, ao passo que fortalecia o aperto em que se envolvia com o maior.

– Isso não é um final, Jeongguk! – o outro gargalhou. – É o nosso começo!

– Como assim? – o Jeon se perdeu na beleza que era sua estrela em sua forma humana. – Eu não irei morrer?

– Encare seu fim como quiser, meu amor. – o alegria tomou o corpo de Taehyung ao chamar o mais novo daquela maneira que sempre desejara. – Mas já ouviu falar que quando alguém morre, mais uma estrela brilha no céu?

A boca do moreno se escancarou em espanto ao perceber a intensidade do que aconteceria a seguir. Tornar-se-ia aquilo que sempre venerou enquanto vivo? Iria fazer parte de seu amado céu estrelado? Seria também protegido pela mãe da noite? Mas o mais encantador de tudo isso, obteria a plenitude na eternidade que passaria ao lado de Taehyung?

– Eu te amo tanto. – Jeongguk colou sua testa na do maior. – Já disse o quão lindo você é em sua forma humana? Parece brilhar mais do que como estrela.

– Eu também te amo e você é ainda mais lindo pessoalmente. Não sabe o quanto esperei para dizer isso. – Taehyung fechou os olhos para aproveitar o calor que o amado emanava pelo toque.

– Você aceita ser minha galáxia? – Jeongguk sorriu largo, revelando os amáveis dentinhos de coelho.

– Eu já sou sua galáxia, assim como você sempre foi a minha. – Taehyung segredou, deixando sua face cada vez mais próxima da do menor. – Mas e você, Jeon Jeongguk? Aceita ser minha estrela, e brilhar ao meu lado por toda a eternidade?

Jeongguk respirou fundo, antes de encarar aquelas orbes que cintilavam para si e somente si. Sorriu largo, e recolhendo toda a coragem da excitação que lhe tomava, respondeu em alto e bom som.

– Claro que eu aceito.

 

 

Nunca o mundo presenciara um fim ou começo tão belo e amável. Em incalculáveis anos de existência, o universo jamais tivera a oportunidade e honra de ser o palco para o desabrochar de um amor tão sincero e puro, capaz de quebrar as barreiras de qualquer dificuldade que se opusesse a construção de tais laços.

E nunca na história da humanidade, o céu teve um par de estrelas tão brilhantes, capazes de contagiar com seus radiantes sorrisos, cada ser que tivesse seu olhar atraído por elas.

Porque elas se amavam, e amavam se amar.

 

 

 

 

 

"Olhe para as estrelas, cada alma que um dia habitou aqui na Terra nos observa do céu. Consegue vê-las brilharem? As estrelas estão sorrindo."


Notas Finais


Entããão? O que acharam? Sintam-se livres para interagir com a tia que não é tia, amo meus leitores demais <3
E esse final? Jeongguk realmente se encontrou com Taehyung ou foi tudo um sonho? Taehyung é real ou Jeongguk que é pirado? A interpretação fica a mercê de vocês, hihihi
Espero do fundo do meu coração que tenham gostado <3
Muitooo obrigada por lerem e é isso pessoal! Amo vocês, se cuidem, até mais <3

BEIJÃO DA TIA QUE NÃO É TIA É NÓIS <3


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