História Loup Garou: Herege - Capítulo 67


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Categorias Originais
Tags Emily, Lobisomem, Loup Garou, Originais, Vampiros, Vincent
Exibições 86
Palavras 6.777
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Ficção, Magia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Saga, Sobrenatural, Steampunk, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 67 - Ba Gua


Fanfic / Fanfiction Loup Garou: Herege - Capítulo 67 - Ba Gua

 

Era engraçado o modo como o tempo passa diferente para os imortais. Geralmente eu tenho toda a paciência do mundo, para ser um predador no topo é preciso ter o dom de suportar a espera e usar o tempo para planejar. Eu sou a prova viva de que a paciência é um dom adquirido. Sempre tive certeza disso. Exceto uma vez. Aquela única vez em que eu despejei tudo o que estava entalado desde o momento em que eu a vira e ela simplesmente não disse...nada. Porra, eu tinha acabado de me expor depois de tanto tempo e ela me dava esse chá de espera que doía mais do que o inferno. Eu me sentia tão culpado por tudo e o silêncio dela só piorava as coisas.

Olhei na profundeza daquelas esmeraldas e eu quis sorrir por um motivo muito bobo. Ela estava ali, simplesmente ali parada, olhando pra mim. De repente eu existia pra ela porque ela se lembrava. Eu existia porque ela queria assim, e isso me deu uma vontade incontrolável de rir como idiota. Eu li as emoções passarem depressa em seu rosto. Emily tinha mudado, agora com ela me encarando dava pra perceber melhor.

Seu rosto de anjo estava ainda mais angelical, ninguém seria capaz de olhar pra ela sem precisar desviar o olhar no mesmo instante, só que isso não me afetou, só me fez querer continuar encarando. O cabelo longo e laranja caía liso até a cintura, exceto pelos cachos nas pontas. A pele do mesmo tom rosado, agora estava mais suave, suas expressões deslizavam por cima sem deixar qualquer marca, o que seria assustador se eu não a conhecesse.

- Você diz isso, mas... – ela suspirou e balançou a cabeça, os olhos fechados. Então, seus lábios se comprimiram e quando ela me olhou de novo, vi um vazio estranho. Aquilo me assustou. Ela estava prestes a me chutar, mas do único jeito que podia me machucar. E machucar pra caralho. – Eu não vejo como pode ser assim, Vincent.

- O que você não entende? – perguntei, surpreso.

- Você diz me amar, mas toma todas essas decisões sozinho, como se eu não existisse pra você. Como se o que vivemos não tivesse importado. Não consigo acreditar em você. Não mais. Eu nunca vou entender porque você foge de mim, quando deveria fazer o oposto. – seu rosto estava vazio e aquilo fez minha respiração ficar rápida. – Você diz tudo o que pensa, me machuca, me pune, me testa além do limite. E nem parece se importar.

- Eu me importo!

- Não acredito em você.

Grunhi, incapaz de me conter. Agora era minha vez de ficar com raiva.

- Você não tem ideia das coisas que fiz por você. Não tem ideia das coisas que ainda terei de fazer, do que terei de me tornar, das coisas que terei de enfrentar pra ficar com você. Eu morri várias e várias vezes pra chegar até aqui, tive de reviver toda a minha vida com Asrael para salvar aquilo que importa pra você. Se isso não é se importar com uma pessoa, então não sei de mais nada. Eu vivi quatrocentos e setenta anos perambulando entre almas humanas e sobrenaturais, já enfrentei mil tipos de mortes diferentes, mas ninguém nunca chegou tão perto de me matar como você. Você pergunta porque eu fujo de você... – me aproximei, deixei minha voz baixa como um sussurro e encarando aquele rosto de anjo eu perdi minha raiva, perdi o equilíbrio na corda a que eu tentava andar. – Emily Anne Griggori, você é a única que pode me machucar de verdade. Uma palavra sua e eu desapareço, me desvaneço no ar se você assim o desejar. Como quer que eu não fuja de algo assim? Como quer que eu não tenha medo de que um dia você saia por aquela porta e eu nunca mais a veja mesmo tendo toda a eternidade para procurar? Só a ideia me sufoca! Quando isso acontecer...o mundo pode existir sem mim, pois não fará diferença alguma eu estar aqui ou não estar, já que você não estará comigo.

Ela deu um passo pra frente e se inclinou na minha direção. Achei que fosse me empurrar janela abaixo, mas ao invés disso fez algo que me surpreendeu. Ela passou os braços pelo meu pescoço e me abraçou com força. Senti seu cheiro puro, os cabelos macios pegando no meu rosto. Automaticamente a abracei de volta, bem apertado. Fechei meus olhos enquanto respirava seu cheiro.

- Sem você eu vou me perder. – sussurrei, incapaz de me controlar. Meu coração estava apertado, batia muito rápido. Esse abraço podia ser tanto um recomeço como uma despedida. Eu não queria solta-la. – Eu não sei se posso continuar essa jornada, não sei se sou forte o bastante pra isso. Eu preciso de você, Emy. Não só no meu coração, mas em tudo.

- Você é um idiota. – disse ela, me apertando com mais força. Sua voz tinha aquele timbre tremulo de quando ela estava prendendo as lágrimas. – Sempre acha que consegue carregar o maior fardo sozinho e isso só faz com que você machuque a si mesmo. Quando vai perceber que não está sozinho, Vincent? Quando vai perceber que somos um? Você não pode enfrentar o mundo por conta própria.

- Eu sei. Mas, não quero que você corra riscos por minha causa. Quero que você cresça e fique mais forte, mas não as custas dos meus erros. Isso poderia custar mais do que estou disposto a pagar. E no fim, eu não terei muita escolha. Vou ter que deixa-la partir.

- Eu não vou a lugar algum. E nem você.

Ficamos em silêncio por um instante, apenas abraçados ali entre a janela e o vento ártico surrando as minhas costas, quase como se quisesse me empurrar pra dentro, o que eu estava muito disposto. Nesse momento, algo mudou e eu não tenho certeza do que foi. Alguma defesa minha foi parar no chão quando o perfume da pele dela entrou pelo meu nariz e acalmou meu sistema inteiro, ao mesmo tempo em que ligou um instinto um pouco mais primitivo. Sem pensar, virei minha cabeça devagar e encostei meu nariz em seu pescoço, meus lábios roçaram levemente a pele dela e senti na boca o pulsar de seu coração aumentar. Meus ouvidos estalaram e consegui ouvir o som dele aumentando.

Emily deslizou as mãos para os meus ombros, depois para os meus braços e bem lentamente começou a se afastar de modo que meus lábios deslizaram por seu pescoço, o lado do seu maxilar, para sua orelha. Ela paralisou nos meus braços, então na mesma lentidão virou o rosto para o meu. Meus olhos ficaram presos por um instante naquele verde profundo e percebi que ela se sentia do mesmo jeito que eu, como se nossos corpos tivessem vontade própria. Ela começou a se inclinar pra mim e logo nossos lábios se tocaram em um beijo inesperado. Foi um toque leve, um beijo breve até ela afastar a cabeça pra me olhar. Minha boca de repente estava queimando, ganhando vida e a sede era insuportável. Eu precisava de mais.

Foi a minha vez de me inclinar e tocar meus lábios nos dela. Outro beijo simples, sem pressa, até que no meio tudo voltou a ficar confuso. Uma de suas mãos deslizou do meu biceps para o meu cabelo e ela intensificou o beijo, sua língua fazendo parte da minha e sua respiração ficando rápida. Segurei sua cintura, espalmei a mão na base de suas costas e a trouxe para mais perto. O momento foi transformado em um beijo de saudade absoluta, reconciliação não dita e o que mais o seu cérebro puder projetar.

Quando dei por mim eu já estava dentro do quarto dela e estava fazendo-a andar de costas até a parede perto da janela, eu a encostei lá, o beijo se tornou desesperado. Erámos como dois viajantes no deserto que de repente cruzam com um oásis de águas cristalinas. Depois de todo aquele inferno no campo de batalha, de todas as torturas dos demoníacos, a merda desse caminho torturante, o tempo longe dela...Deuses, eu finalmente tinha alcançado o único paraíso que eu queria. O único que eu precisava. E por algum milagre ela parecia sentir o mesmo, pois não me impediu quando minhas mãos desceram até sua bunda e eu a ergui, obrigando-a a entrelaçar as pernas ao meu redor. Ela gemeu na minha boca.

Emily puxou meu cabelo de leve, me devorando como eu a devorava. Nossas respirações estavam muito altas, principalmente quando desci meu beijo para seu pescoço e distribuí beijos naquela mesma parte sensível.

- Vince. – sussurrou ela no meu ouvido, a respiração muito alta. Ouvi o ruminar no meu peito e meus olhos mudando de cor. Ela tinha um cheiro maravilhoso, subi meus beijos até sua boca.

- Griggori! Ei, dorminhoca! Era pra você dormir um pouco e não entrar em coma! – gritaram do lado de fora.

Emily grunhiu na minha boca, meio lamentando e meio gemendo. Não parei de beija-la, apenas movi minha boca de volta para sua garganta e comecei a abrir com a boca os botões de sua camisa branca, cortando com os dentes as linhas dos botões, descendo meus beijos a cada botão arrancado. Ela encostou a cabeça na parede e gemeu baixo.

- Griggori! – voltaram a berrar.

Ela deslizou uma mão pelo meu peito, provavelmente sentindo o quanto meu coração pulava, seus olhos fixos em mim, só que fechei meus olhos para que ela não os visse em vermelho ao invés do prata. Apertei suas coxas ao meu redor, sentindo a suavidade da pele dela. Nossas respirações estavam muito altas.

- Precisamos de você lá! Anda logo! – a voz parecia impaciente.

Emily puxou minha boca para a dela, mordeu meu lábio inferior e me pressionou no lugar certo. Gememos juntos. Eu sabia que não deveria, só que eu não conseguia achar meu autocontrole, não dava pra parar.

Merda, McKinley. Controle-se!, pensei, irritado comigo mesmo.

- Emily, vamos lá! – dessa vez era uma voz diferente, mais calma, ainda que com a mesma urgência.

Com muito custo do meu autocontrole eu consegui me obrigar a me afastar. Levemente deslizei-a de volta até o chão e dei vários passos pra trás, ordenei que essa fome em mim recuasse, meus olhos voltaram a ser o azul humano, só então os abri. Não tínhamos tempo pra isso, eu precisava ajudá-la a salvar os anjos e Asferia.

- Já estou descendo! – respondeu Emily, o tom esbaforido.

Ela respirou fundo como eu, as mãos nos joelhos. Fechou os olhos, parecia estar se concentrando muito, pois a mandíbula estava apertada. Quando voltou a abri-los o fogo de antes estava mais baixo, controlado. Era fascinante de observar o modo como agora seu controle era maior. Ela deslizou os olhos pra mim e deu um meio sorriso, suas bochechas estavam vermelhas.

- Será que um dia vamos conseguir terminar o que começamos? – perguntou, quase em tom de gracejo enquanto corria pelo quarto para se vestir. Me obriguei a sentar na poltrona no canto afastado do quarto ao invés de toca-la como eu queria.

- Talvez. – eu disse, retribuindo o sorriso. Um sorriso que derreteu enquanto uma nova realização se abria na minha mente.

Emily colocou uma camisa clara, um colete curto marrom por cima, calças de montaria, botas pretas e uma capa pesada preta com pelos na touca. Ela pegou um óculos goggles, passou o elástico pela cabeça para deixa-lo no alto feito uma tiara de bronze com símbolos angelicais, nas laterais das grandes lentes redondas havia mecanismos que giravam como engrenagens de relógio. Ela pegou um tubo prateado de trinta centímetros e o prendeu a perna, duas armas estranhas que me lembraram das hammershots de brinquedo de Sam e balas enormes com pontas brilhantes em azul ficaram presas em pequenos sulcos em seu cinto.

- O que foi? – perguntou ela, parecendo um pouco constrangida. Eu nem notei que estava encarando.

- Steampunk. – eu disse, olhando-a de cima a baixo. Ela ergueu uma sobrancelha.

- Nefilim angelical. Nós inventamos o estilo, os humanos copiaram.

- É estranho pra mim ver você nesse estilo, detetive Griggori. Você fica bem nele.

Ela olhou do mesmo jeito quente de antes e eu me obriguei a me manter longe. Me levantei e fui até a porta do quarto dela. Falei sem olhar pra ela.

- Vou sair pelos fundos para que ninguém me veja. Eu encontro você no campo de batalha. Preciso ver algo antes, mas não devo demorar. Tome cuidado.

- Vincent? – olhei pra ela por cima do ombro. Ela estava de sobrancelhas franzidas, confusa. Deu um passo na minha direção, automaticamente dei um passo pra trás e ela parou. – Está tudo bem?

- Não. Mais uma vez meu egoísmo levou a melhor. - fechei meus olhos para que a visão dela tão entregue desaparecesse no escuro da minha mente. – Eu encontro você.

- Vincent, tome cuidado. Os angelicais estão caçando você. Muitos de nós caíram, estão confusos e cheios de ódio. O verão como inimigo, provavelmente irão tentar te matar. – ela se aproximou, estava cheia de preocupação. Não pude resistir e peguei seu rosto entre as mãos, encostei minha testa na dela.

- Eu não tenho medo.

- Mas, eu tenho. – ela colocou as mãos nas laterais do meu rosto e se esticou para me beijar. Me forcei a tornar o beijo breve, fechei meus olhos para sentir seu cheiro com mais intensidade. – Por favor, seja cuidadoso.

- Você também.

Fui antes que ela pudesse me fazer ficar, eu a vi pular pela janela quase ao mesmo tempo em que desci as escadas de madeira num rompante, parti para a porta dos fundos. Olhei, ouvi e senti o cheiro de tudo antes de abri-la e mudar de forma para o dia gelado. Era o meu tipo de dia e seria muita arrogância pensar que ele tinha ficado assim por minha causa, só que eu era arrogante assim. Era fácil pensar que eu também influenciava o tempo dessa forma. Mas, eu sabia o que estava vindo. Quanto mais frio ficava, mais perto o Ba Gua estava e eu ainda não tinha ideia de como o venceríamos. Felizmente, a pessoa que poderia saber essa resposta estava por perto.

Eu senti a presença nos ventos, quase pude ver seu formato. Uivei baixo, deixando-o levar minha mensagem na neve mais rápido do que eu podia correr. Minhas patas não afundavam na neve, eu sentia as pontadas do gelo praticamente perfurando a minha pele e aumentando meu poder. Chacoalhei meus pelos, aumentei a velocidade até chegar nas arvores. A casa/cabana de Emily ficava no mais alto ponto da cordilheira, meio afastada do restante das casas da aldeia estranha e camuflada.

Uma loba branca surgiu das árvores e começou a correr do meu lado. Ela não disse nada, apenas correu ao meu lado. Descemos a cordilheira pela floresta, seguindo o mesmo caminho de antes. Ela não me repreendeu e nem me criticou por ter deixado a formação há algumas horas. Eu precisava ver Emily, era mais do que uma necessidade, era praticamente uma obrigação.

Onde estão os lobos? – perguntei.

No campo de batalha. Os demoníacos mandaram outra horda, só que dessa vez eles se alimentam do gelo. – disse ela, a voz calma na minha mente.

Onde eles arrumam essas coisas? É como se a Weaver trabalhasse para eles. – grunhi.

A Weaver alimenta conflitos desde Caim e Abel. É óbvio que também estaria presente aqui. Steampunk, Cyberpunk, são outros nomes para a Aranha e seus brinquedos.

Não pude deixar de rir, ainda que a situação não fosse para rir. Os demoníacos eram espertos. Viram os angelicais explorando suas falhas e resolveram endurecer sua estratégia. Pelo o que eu me lembrava das ilusões, Gabrielle me mandava imaginar como seria se eu atacasse um inimigo com armas que se alimentavam do ambiente ao seu redor. Lembro-me de ter escolhido pontos estratégicos, explorar os pontos mais fracos, reduzi-los ao cansaço para depois atacar com toda a força. E era exatamente isso o que estavam fazendo.

Os drones de antes foram para cansa-los, para reduzi-los e desestrutura-los. Agora era a hora dos demoníacos atacarem com força. E eu sabia exatamente como fariam. Pra isso, eu precisava dela. Precisava da dragão milenar que acompanhava Emily e ela nem se dava conta.

Eu a encontrei no meio das árvores, cercada pelos lobos de Asynjor e a nossa espera. Seus olhos prateados me encararam, ela grunhiu ao me ver, as escamas do pescoço se arrepiando. Eu só podia imaginar o que ela via na minha alma, provavelmente nada de bom. Voltei a minha forma humana e caminhei até ela, mas não me aproximei muito.

- Aurora. Esse é o seu nome, não é?

- O que quer de mim? – rosnou ela, estreitando os olhos pra mim.

- Eu sei o que você é.

- Acho isso um pouco difícil de não se ver. Eu sou um dragão. – disse ela, o tom repleto de desdém.

- Você é um Ba Gua. – eu disse. Seus olhos se arregalaram e o silencio pétreo que se seguiu veio repleto de algo que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem. – Por que se esconde nessa forma? Sei que seu tamanho pode cobrir essas montanhas e seu poder é capaz de congelar todos os nove mundos de Yggdrasil.

- Como sabe o que sou? – ela estava assustada.

- Posso não ver auras como Emily, mas posso sentir seu poder invernal. Eu sou feito do gelo de Niflheim, é difícil existir um poder que eu não possa sentir. – cruzei meus braços. – Preciso saber, porque se esconde nessa forma.

Ela suspirou, piscou os grandes olhos e os fixou na copa das árvores congeladas.

- Eu sabia que essa hora chegaria, só não imaginei que seria você a me descobrir. Cedi meu lugar nos portões ao meu irmão, ele era mais digno do que eu. Confiei em uma mortal para cuidar do caminho proibido, o caminho que leva até os portões de Shangri La. – ela trincou os dentes, mostrou as presas pra mim. – E ela me traiu. Era uma demoníaca, uma poderosa.

- Helene. – disse Asynjor.

- Sim. Você não tem ideia do tamanho do poder deles, não tem ideia do que eles são capazes de fazer para conseguir o que querem.

- Eu tenho uma vaga ideia. – lembrei-me de todo aquele tempo preso nas lembranças com Gabrielle. Engoli o amargor e a dor.

- Eles capturaram meu irmão e a mim. Como conseguiram, eu ainda não consigo imaginar. Tentaram entrar em nossa mente, destruir a nossa vontade e por um tempo eu fui forte. Fizeram isso por muito tempo, passamos muito tempo sob a tortura deles. Até que em um último esforço, os demoníacos usaram suas máquinas e tiraram meu poder. Mas, ao invés de encarnar neles, meus dons passaram para o meu irmão.

- Então, ele se tornou duas vezes mais poderoso. – eu disse, torcendo a boca. Quando é que as coisas eram fáceis pra nós?

- Meu irmão perdeu a luta e os deixou entrar por minha causa. Eles o controlam agora. Meu poder está de tal forma reduzido que tive de me esconder em um ser menor. Um simples dragão de fogo. – disse ela, cheia de pesar.

- Mas, o seu fogo ainda é maior do que o de outros dragões. O que resta de seu poder ainda está aí. Você pode derrota-los. Talvez seja a única que possa.

- Você também tem seus dons. – disse ela, parecendo frustrada. Balancei a cabeça.

- Meu poder do inverno só aumentará o deles. A única forma de derrota-los é com fogo, só que com todo esse gelo duvido que até mesmo Emily consiga invocar o Ignis mais poderoso que ela tem. Ela precisa de você.

- Não vou lutar contra ele. Não posso. – disse ela, balançando a cabeça enorme.

- Então deixe que eu lute com ele, mas ajude-a a derrotar os brinquedos da Weaver.

- Você não pode mata-lo.

- Meu poder é maior do que você imagina. – eu disse, dando um meio sorriso.

- Você não entendeu. Nada perfura as escamas de um Ba Gua. – ela respondeu, balançando a cabeça.

- Flechas Negras são forjadas para matar dragões. Trouxemos algumas conosco. – disse Asynjor, mostrando uma Flecha Negra enorme. Só dava para solta-la de um arco feito especialmente para um Crinos ou de uma grande balesta.

- Tente me espetar com ela. – fiquei na dúvida, mas a dragão encheu o peito. – Vamos, tente.

Asynjor veio com a flecha como se fosse uma lança de pesca, pareceu hesitar por um instante. Então, com força, arremeteu contra o peito de Aurora. O som alto de CLANG veio da flecha quando ela partiu ao meio. Asynjor olhou sem acreditar para a metade do metal negro fumegando em suas mãos. Ela olhou pra mim.

- O que faremos? Nossa flechas serão inúteis.

- Eu darei meu jeito. Não sei como, mas sei que vou bolar um plano muito, muito ruim. – eu disse, suspirando. Voltei minha atenção para a dragão. – O que me diz, Aurora? Vai ajudar ou não? Você escolheu Emily por algum motivo. Até agora se absteve da batalha, mas está na hora de tomar sua decisão.

- Eu não vou lutar contra o meu irmão. Se ele morrer, tudo termina. – disse ela, me olhando seriamente.

- Não estou pedindo pra lutar contra o seu irmão. Estou pedindo para que ajude Emily a derrotar os drones. Ela precisa de você. E você dela, ou não a estaria seguindo mesmo agora. Eu vou tentar trazer seu irmão de volta, mas preciso que mantenha Emily a salvo. Ela ainda não sabe o significado do que virá.

Aurora suspirou e fechou seus olhos por um instante. Demorou um certo tempo para que voltasse a abri-los, então se aproximou e focou seus olhos prateados em mim.

- Você é diferente do que achei que seria.

- Do que está falando?

- A Guerra das Lágrimas foi profetizada, o seu destino nela foi escrito a muito tempo. Eu sabia que o encontraria, só nunca pensei que seria assim. Eu vejo onde seu destino irá leva-lo e me pergunto se você sabe o tamanho do preço que irá pagar. – sussurrou ela. Merda. Ela conseguia ver através de mim. Minha voz também saiu baixa quando respondi.

- Eu vi o inicio e o fim do mundo. Sei como tudo termina nas garras de Morfirios. Eu o vi destruir os mundos para começar tudo de novo de uma nova forma. Eu não vou deixar isso acontecer. Eu não nasci para enfrentar o inferno e depois ser varrido para debaixo do tapete como se meus feitos tivessem sido nada. Os deuses se lembrarão de mim nem que eu tenha que queimar meu nome neles, não importa o quanto isso me custe. Isso é uma promessa.

Ela bufou, então abriu suas asas encouraçadas brancas com mesclas cinzas. Se não estivéssemos nas sombras da floresta, ela estaria perfeitamente camuflada com a neve e as rochas.

- Espero que consiga, jovem lobo. Mais ainda, eu espero que não se corrompa, pois o poder que irá obter está além da imaginação. Eu lutarei pela nefilim, mas quanto ao meu irmão...você está sozinho nisso. – ela alçou voo e se camuflou com as nuvens baixas enquanto desaparecia.

- Um Presa Branca sempre caminha sozinho. – sussurrei. O vento ártico acariciou meu rosto, quase como se tentasse me reconfortar. A única coisa que poderia me reconfortar agora era esmagar alguns bonecos demoníacos. – Devemos partir. Eles já esperaram tempo demais.

Corri na direção do vento, formei vários clones de gelo para me acompanhar. Eles foram na frente, seriam minha primeira linha de batalha. Asynjor fez alguns pra ela, os outros fizeram o mesmo e logo tínhamos um exército de gelo completo. O sons de nossas patas batendo no chão com a fúria era alto, era a única música de que precisávamos. Sombras cobriram os céus e quando olhei vi dezenas de grandes corujas cinzentas, amarronzadas e grandes carregando pedregulhos enormes em suas garras. Também havia vários corvos enormes carregando suas próprias pedras gigantes. Um corvo negro muito menor se destacou entre eles, logo ele desceu e estava voando na altura das minhas orelhas.

- Gerda enviou ajuda. A corte das corujas ouviu o chamado dela e Bianc veio com os outros Corax. – grasnou Huggin.

Gerda disse que não se envolveria. É claro que acharia um jeito de quebrar a própria ordem. – disse Asynjor, mostrando as presas em um sorriso lupino. – Ela não se envolverá mais do que isso, Vincent.

Essa é uma disputa anjos e demônios. Judaico-hebreu. E não nórdica. Mesmo nós, não deveríamos estar nos envolvendo. Mas, você me conhece. Regras não são o meu forte.

Sorte a dos anjos você ser um herege.

Estamos chegando. Mudem de forma.

Com um grunhido de prazer mudei para a forma Crinos, minhas cópias de gelo fizeram o mesmo. A floresta terminou e pulamos para fora dela como o bando de selvagens que éramos. Deslizamos no barranco, lá embaixo, bem na encosta estava o exército angelical combatendo. Rosnei com o gosto da fúria na minha boca ao ver as figuras de metais com detalhes em azul em suas couraças brancas. Tinham formas humanoides, usavam capas cinzentas e máscaras de gás que cobriam completamente seus rostos. Havia vários deles ao redor do perímetro, meio escondidos nas árvores e atirando nos angelicais e garous com armas soviéticas antigas, embora seus projeteis fossem feitos de gelo, como pude perceber.

Asynjor...

Eu já vi. Os Anunai comigo! – ordenou ela. Seis ou sete garous a acompanharam para o outro lado na floresta, enquanto eu descia com o exército de gelo e mais vinte garous com o mesmo poder de gelo.

Foi questão de segundos até que os nossos aliados notassem nossa presença e ficassem paralisados diante da visão do exército de gelo descendo a colina a tona e passar por eles em um burrão, nossos olhos nos nossos inimigos.

Liderei-os até os drones que combatiam no chão com armas de fogo em trincheiras e espadas para o corpo a corpo. Peguei um entre minhas presas quando passei, arrebentei-o com facilidade e arremeti minha espada em sua barriga, cortei-o ao meio e joguei suas duas partes em dois drones que atacavam um angelical ferido, suas asas congeladas. Peguei o angelical entre os dentes enquanto meus clones me davam cobertura e o levei para longe da batalha, arrastei-o para a margem e então o soltei.

Dois angelicais com faixas brancas nos braços surgiram e o arrastaram para as margens da floresta, desaparecendo com ele. Provavelmente eram do pelotão médico ou coisa assim. Mudei para minha forma humana, olhei ao redor na batalha, procurando. Um brilho laranja chamou minha atenção e observei atentamente. Emily combatia duas máquinas enormes que tentavam cuspir gelo nela e em sua outra amiga angelical, a morena que salvei antes. Ramona, eu acho.

Ela lançou um chicote no braço mecânico do robô gorducho. Ele a ergueu, tentando se soltar. Uma língua de fogo subiu rapidamente no braço do robô, ele berrou de dor, o som de chiado alto mesmo sob toda aquela bagunça de espadas em metal, explosões, sons de tiro e gritos de batalha. Emily escalou o braço dele com a mesma facilidade de uma cabra montanhesa, conseguiu se colocar em cima da cabeça do gigante e enrolar o chicote em chamas em seu pescoço. Com espanto, percebi que Ramona fazia o mesmo com seu robô. Então, como se fossem rédeas em chamas, aquelas duas puxaram os chicotes o que fez os gorduchos darem uma guinada e começarem a correr sem rumo, esmagando drones em seu caminho.

- Garota esperta. – eu disse, dando um meio sorriso. Peguei o arco que um dos Anunai estendeu pra mim. Preparei uma flecha enquanto o anunai incendiava a ponta.

Puxei o arco o máximo que pude, então o soltei. Vi a flecha percorrer o ar, então atingir um ponto especifico nas costas do gorducho de Emily. Ele começou a tombar, então caiu de joelhos. Emily rolou no chão, já se levantou preparada para correr e transformou aquele seu cilindro estranho em uma lança de lâmina dupla. Uma ponta era feita de prata e a outra de um metal negro que reconheci. Revirei meus olhos. Ela tinha fundido minha espada com sua lança. Voltei minha atenção para o Anunai tatuado.

- Está na hora. Reúna os outros Anunai, chame o dragão.

Ele assentiu e partiu, finquei o arco no chão, apertei as tiras na minha armadura leve. Eu tinha que agradecer a Bianc por tê-lo arranjado pra mim, assim como sua presença nos céus. Assisti as corujas chegarem junto com os corvos gigantes. Estavam a poucos metros agora. Entrei na batalha, rasgando e cortando qualquer robô que estivesse no meu caminho. Encontrei Emily fatiando um robô dourado enorme, Ramona estava com as costas coladas nas dela, faziam os mesmos movimentos como se tivessem ensaiado.

Puxei minha espada e arremeti contra um dos robôs enormes no meio da multidão de angelicais combatendo. Felizmente, eu podia ver Asynjor lá no alto, combatendo os atiradores robóticos com fogo e morte. Pulei nas costas do gigante e enfiei minha espada no espaçamento entre sua cabeça e seus ombros, o único espaço minúsculo que expunha seus circuitos. Arranquei sua cabeça, ela voou longe. Seu corpo começou a socar e dar braçadas desgovernadas, nisso ele esmagava seus próprios companheiros. Usei meu peso para empurra-lo para frente e ele saiu desembestado, dando braçadas e mais braçadas, os angelicais saíram da frente e deixaram as máquinas serem massacradas. Pulei das costas dele e dei um mortal para trás, bem ao lado de Emily.

Ela e Ramona estavam ofegantes, ambas as sobrancelhas erguidas pra mim.

- Vocês não são as únicas com habilidades únicas. – eu disse, dando de ombros. Emily revirou os olhos pra mim, reprimindo um sorriso. – Está na hora de vocês recuarem.

- De jeito nenhum! – Ramona esmagou um robô com seu machado gigante. Ela colocou uma mecha do cabelo preto para trás e apoiou o machado em seu ombro como se ele não pesasse nada. – Se recuarmos agora vamos perder o Leste.

- Não vão. Precisamos de vocês ao redor do perímetro, montem as maiores fogueiras que conseguirem. Estamos prestes a fazer chover pedra. – apontei para o alto.

As corujas e corvos estavam perto, saindo das nuvens. Ramona e Emily arregalaram os olhos ao verem os grandes pedregulhos. Ela olhou pra mim, havia uma mancha de óleo em sua bochecha e um corte em seu lábio azul.

- Precisam se afastar ou vão se ferir.

- Mas, e vocês? – perguntou Emily, franzindo as sobrancelhas.

- Damos conta do recado. – respondeu Asynjor, saindo do nada junto com os outros anunai. Ela olhou pra mim. – Eles estão prontos.

- É uma questão de segundos. Vamos agrupa-los ali e as aves terão uma visão limpa para jogar as pedras. Emily, você e os outros, tragam o sol.

- Eu posso criar tempestades, mas nunca tentei trazer o sol. – disse ela, hesitante.

- Eu sei que você consegue. – eu disse, minha voz fervendo em convicção. É claro que ela conseguia, eu já a tinha visto fazer. Emily suspirou então assentiu e tocou minha mão.

- Cuidado. – apertei sua mão gelada na minha.

- Você também.

Ela recuou junto com Ramona, ambas gritando para os angelicais recuarem e apontando para as margens da floresta. Os angelicais parecendo surpresos com a decisão, só que eles logo perceberam que não teriam escolha. A medida que destruíamos as maquinas, a neve no chão as formava de novo e de novo e de novo. Está aí um replay que ninguém pediu. Os anjos não teriam forças para lutar contra eles por muito tempo.

O único objetivo daquele exército de metal era deixá-los fracos e cansados, para depois atacar onde mais dói, onde poderiam realmente machuca-los. Eu sabia disso. Sabia porque fui eu quem bolou a estratégia. Trinquei os dentes com a minha fúria. Eu não tinha ideia do que tinha feito enquanto estava desacordado, mas para o ódio dos angelicais por mim ultrapassar até mesmo os limites de suas próprias leis...bem, eu realmente não iria querer saber.

Atacamos os robôs para mantê-los longe enquanto os angelicais exaustos recuavam como pediam. Quando já não parecia mais haver nenhum, nós formamos uma barreira de gelo ao redor do perímetro. Eu sei, não parecia inteligente, afinal era do gelo que eles se alimentavam. Mas, o objetivo era fazê-los pensar que tinham ganhado. E nós conseguimos isso quando muitos caíram matando em cima da parede de gelo, absorvendo-a com a ferocidade de uma besta faminta. Só que a única besta faminta ali era eu, e eu estava morrendo de fome. Grunhi no peito, toquei no chão ao mesmo tempo que todos os nossos guerreiros, o gelo subiu naturalmente pelos nossos braços, aumentou e aumentou...

Aumentou tanto, que nos tornamos gigantes de gelo. E isso foi incrível.

Quando os robôs começaram a ultrapassar a barreira de gelo ao devora-la como um bando de formigas, usamos nossas lâminas de gelo para fatia-los, pisamos neles, esmagamos, destruímos. Os empurramos com toda a força, nos usando como iscas ambulantes e eles vieram atrás, famintos para nos devorar. Olhei para o alto e as corujas já estavam em cima junto com os corvos gigantes.

- Agora. – murmurei, minha voz saindo estranha de dentro do gelo.

Ouvi o som medonho do vento sendo cortado no alto, deixei que os robôs montassem em mim, tentando me devorar. Até que começou a nos atingir.

BAMP! BAMP! BUM! BAMP!

Era literalmente uma chuva de pedras caindo sob nossas cabeças. Pedregulhos pesados de sabe-se lá quantas toneladas, ainda cobertos de raízes e musgo. Fechei meus olhos enquanto recebia as pancadas.

- Mantenham-se firmes! Firmes! – incentivei, fortalecendo meu corpo gigante de gelo a aguentar o impacto das pedras enquanto ela esmagava o exército de metal.

Eles até tentaram correr, mas os angelicais que observavam de longe os espantavam com fogo e eles voltavam correndo para nós, tentando nos devorar, atraídos pelo gelo em nós como uma mariposa atraída pela chama. Quando o sol apareceu de repente foi que tudo ficou ainda pior e eles se tornaram desesperados ao ver a neve ao redor derreter e o nosso gelo permanecer.

Os anunai aguentaram bem, olhei brevemente para o lado e vi Asynjor em sua forma gigante de gelo. Ela era bem forte, aguentou tudo sem nem mesmo alterar a respiração. A chuva de pedras continuou até nos cobrir por inteiro, tapou o sol e eu soube que estávamos soterrados. Quando a chuva parou o silencio foi de arrepiar, junto com o grasnar dos corvos acima de nós e o piar alto das corujas, ambos como sons de mal agouro.

VUP. VUP. VUP...

O som de asas coriáceas se ergueu acima dos outros, o silencio no grasnar dos corvos me avisou que estava na hora. Um rugido forte e alto tremeu as pedras acima e abaixo de nós. Estava na hora. Forcei a camada de gelo em mim a se tornar maior. Então, o som do trovão preencheu o ar e o calor subiu. As línguas de fogo penetravam entre as pedras, lambendo minha forma de gelo, embora não tivessem efeito algum. Era gelo espiritual, derreteria com a mesma lentidão do aço.

Forcei para cima, tive de forçar com toda a minha energia e consegui remover algumas pedras para poder passar. Minha forma gigante ajudou, era mais forte do que meu corpo mortal. Tirei os pedregulhos, vi o sol no alto, saí para a superfície, rolando por cima das pedras. Os outros Anunai faziam o mesmo, saindo das pedras com suas figuras gigantes tatuadas de gelo. A transparência permitia ver o corpo mortal dentro dele.

Olhei ao redor, Asynjor saiu logo depois e eu a ajudei a tirar os outros. Andamos pelo meios das chamas, todos inteiros e em suas formas de gelo. Eu conseguia aguentar bastante tempo no fogo, ajudei os outros a saíram de debaixo das pedras enquanto a dragão sobrevoava e vinha com mais chamas. Corremos para longe, brandindo espadas em remanescentes e jogando-os ao fogo para que não voltassem a se remontar. Alguns naturalmente fugiram, outros ofereceram resistência. No fim, não poupamos ninguém e os ateamos as chamas do dragão.

Quando tudo pareceu limpo, paramos para observar nossa obra. Aurora ateou fogo com ferocidade no monte de pedras, embaixo dele eu podia ouvir as máquinas gritarem e tentarem desesperadamente sair. Algumas conseguiram, apenas para correr em chamas e cair mortas a poucos metros do monte de pedra. Estava acabado.

O grito do exército angelical preencheu o ar, um brandir de batalha repleto de jubilo e alivio. Os Anunai também berraram, erguendo suas espadas. Asynjor manteve a postura séria e trocou olhares comigo. Eu tinha dito a ela tudo o que eu presenciei durante o meu estado inconsciente, então ela sabia que aquilo estava muito longe de acabar.

- Vincent!

O som da voz de Emily veio com clareza apesar dos gritos de batalha dos dois exércitos. Eu a encontrei passando pelos anjos com alguma dificuldade com aquelas asas pretas enormes. Ela voou até mim, a carranca em seu rosto de anjo só a deixou mais linda.

- Você e seus planos suicidas! Não dava pra avisar com antecedência?! – berrou ela, indignada. Eu apenas dei de ombros. – Eu deveria te bater.

- Deixe para o que está vindo. – eu disse, sentindo o ar frio aumentar ainda mais. Olhei para onde o vento me chamava, em direção a corrente Oeste

O vento aumentou com tanta força que começou a curvar as árvores, as nuvens voltaram a tapar o sol e tive de proteger meus olhos contra os galhos finos e as folhas secas que chicoteavam a minha pele. Emily segurou meu antebraço com força. Olhei pra ela.

De repente ela ficou branca como papel, até mesmo o azul sumiu de seus lábios e a respiração parou em sua garganta, os olhos arregalados e desfocados. Todos os anjos começaram a ter a mesma reação, alguns caíram de joelhos e Emily também teria caído se eu não a tivesse segurado.

- Emily! – chamei, segurando-a junto a mim.

- O que está acontecendo? – perguntou um dos Anunai, acho que era Sigur. Ele olhou para os anjos petrificados ao redor.

- A corrente Oeste... – ofegou Emily, a voz praticamente sendo roubada pelo vento. Seus olhos ficaram azuis sob pretos como se alguém tivesse jogado tinta neles, então se fixaram no oeste. De lá, na neblina ártica dava pra ver o clarão...a terra tremeu, um estrondo preencheu o ar e o vento ficou mais forte. – Foi rompida.

- Não pode ser. – ofegou Ramona, o rosto tão pálido como a neve.

Todos os olhares se voltaram para o alto. E lá estava...pendendo a centenas de metros nas nuvens a corrente ancestral Oeste fumegando em vermelho, o elo derretido soltando fumaça ao tocar as nuvens árticas, a evidencia de um crime que anjo nenhum perdoaria. Não dava pra ver a ilha flutuante, pois estava acima das nuvens, mas eu sabia que ela oscilou e para quem vivia lá devia parecer um terremoto de 7.0. Emily tremeu nos meus braços, o ar escapando de seus pulmões ao ver a corrente rompida.

Ouvimos então outro estrondo, só que dessa vez a rajada de vento ártico praticamente nos tirou do chão e tive de me agachar para não cair. Os anjos com as asas abertas foram pegos de surpresa, rolaram na neve, os lobos os ajudaram como puderam. Segurei Emily com mais força a medida que um poderoso rugido preenchia tudo. Tive de tapar os ouvidos, meus globos oculares tremeram nas órbitas. Eu podia muito bem imaginar o roncar de mil trombones, pois se assemelhariam ao rugido do monstro vindo do céu, serpenteando as nuvens árticas e fazendo o ar se tornar ainda mais gélido. Para mim era natural, só que dava pra sentir os angelicais sucumbindo com o frio que exigia muito deles.

Lá do vale, eu o vi... e a visão era impressionante. Sua figura branca e colossal taparia até mesmo o sol se pudesse, sua sombra cobriu o vale inteiro. As escamas deviam ser do tamanho de tanques de guerra e brilhavam no alto como estrelas, a bocarra enorme de focinho canídeo estava aberta e o grande bigode esvoaçava ao seu lado, dava pra ver seus olhos mesmo da distância a que estávamos. Estavam arregalados, daquele mesmo jeito típico dos dragões chineses e como eles, não possuía asas. Entre suas escamas, brilhava uma luz azul fluorescente, como a cor dos olhos de Emily. Exceto que o dele era evidencia de seu poder invernal ilimitado.

Era o Ba Gua. Ele finalmente tinha decido aparecer. Agora era uma questão de tempo até a ruína recair sobre nós.

 

 

 



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