História Loup Garou: Ragnarök - Capítulo 16


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Ação, Anjos, Bruxas, Demonios, Deuses, Emily, Fim Do Mundo, Guerra, Lobisomem, Lobo, Romance, Sexo, Vampiros, Vikings, Vincent, Violencia
Visualizações 79
Palavras 7.082
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Saga, Sobrenatural, Steampunk, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Prevejo xingamentos duplos. Primeiro, porque atrasei e segundo....por como o capitulo termina hehehe"
- sorry ;)

Capítulo 16 - O inesperado


Fanfic / Fanfiction Loup Garou: Ragnarök - Capítulo 16 - O inesperado

Então você é a cria de Marmaroth. A garota problema de Lucífer. – disse Celeste, me encarando de cima a baixo. Não parecia nada feliz com isso. – Tem a aparência de sua mãe. O que é uma pena, pois eu estava começando a gostar de você.

- Você não me conhece para gostar de mim. – respondi.

- Tem razão. – disse ela, se aproximando. Parou bem na minha frente, o rosto a centímetros do meu. – E eu não disse que gosto. Onde está Sebastian?

- Sendo mantido bem longe de você.

Ela estreitou os olhos, então seus lábios finos abriram um meio sorriso, os olhos negros nos meus.

- Quer negociar por ele. – adivinhou ela.

- Não quero ter que me indispor de mais uma vida de forma desnecessária.

- Já ouvi falar. – ela afastou seus seguranças com um gesto, então foi até uma das poltronas grandes enquanto um deles trazia uma das bebidas fluorescentes do bar. Ela bebeu antes de falar outra vez. – Um Dybbuk na Tailândia, antes disso mais de duzentas pessoas carbonizadas em uma arena, um garoto possuído, uma garota possuída, quatro capitães de Lucífer mortos e sua própria mãe se recuperando lentamente, já que você tirou dela sua essência demoníaca e agora estará fadada a uma vida mortal. Oh, e eu quase ia me esquecendo do meu monstro favorito: Vincent McKinley.

Eu não sei bem como descrever, nem tenho como mensurar o nível de violência emocional que me causou ouvir o nome dele e de repente me lembrar do curto caminho que eu havia escolhido trilhar desde que simplesmente havia sido deixada sozinha, destituída de crenças ou qualquer esperança. Um caminho torto, negro e doloroso. Mas, eu não me permiti pegar minha lança por baixo do meu vestido e parti-la ao meio, não me permiti usar o meu poder contra ela e reduzi-la a nada.

Me sentei na poltrona em frente a ela e cruzei minhas pernas enquanto a encarava com uma expressão fria, sem qualquer traço de emoção. Celeste me encarou com curiosidade, inclinou a cabeça enquanto sondava a minha mente, parecia satisfeita pela minha reação.

- Eu sei o que está tentando fazer. Quando digo que estou acima de vocês, eu não estou brincando. Eu não minto desnecessariamente e vou jogar limpo para que não haja qualquer dúvida posterior. – Me inclinei um pouco mais na direção dela, encarando seus olhos. – Eu estou morrendo de vontade de partir essa sua cara em dois. Eu poderia mandar meus caçadores parti-la ao meio agora mesmo, já que seus seguranças foram tomados a menos de um minuto.

Ela franziu as sobrancelhas e olhou para os seus seguranças. Então sorriu ao ver as sombras ao redor deles, todos demônios horríveis de chifres de bode segurando as sombras de cada segurança e entortando-os de forma nada normal. A música alta havia nos impedido de ouvir os ossos se partindo, pedaços deles despontavam por todas as partes da carne remoída formando apenas bolotas de tecido e muito sangue em cada lugar.

Celeste voltou sua atenção pra mim e apontou para Louise atrás de mim. Olhei por cima do ombro e não contive um sorriso. Louise estava com olhos amarelos de demônio, apontava uma faca para o próprio pescoço, a ponta já estava machucando sua carne, pois uma gota começava a escorrer. Olhei de volta para a demoníaca a minha frente.

- Você é boa. Eu nem senti as presenças deles. – disse ela, coçando o queixo. – Mas, ao que parece eu tenho a vantagem. Se não me entregar Sebastian serei obrigada a matar sua amiga e depois matar você.

- Matar Louise não seria desafio, quanto a me matar...Bem, isso seria um pouco mais complicado do que você supõe. Por que não paramos com a enrolação agora que me testou e chegamos ao que interessa? Você não vai me matar e nem conseguirá extrair o que quer da minha mente. Ou acha que não senti um toque fugaz nas minhas defesas assim que olhei para Louise? Você esperava me desestruturar o bastante para entrar na minha mente e espreitar os meus planos, testou o meu emocional para saber até onde eu iria se fosse provocada, não sabe sobre o que realmente aconteceu a Vincent, já que teria dito logo que matei meu namorado ao invés de simplesmente que matei Vincent McKinley. Você pode ter aprendido um bocado sobre mim nos últimos dois minutos em que estamos conversando, mas eu aprendi muito mais.

- Aprendeu? – perguntou, erguendo uma sobrancelha.

- Você é inteligente, mas arrogante de um jeito ruim. Infelizmente acha que sou como Marmaroth, mas eu não tenho a tolerância dela e nem a mesma paciência. Gosta de ser desafiada, pois ama mostrar aos outros a extensão da sua força. Tem afinidade com a justiça, embora a aplique em demasia, algo que pegou da convivência com Samael. Ele sabe que Sebastian é cria dele? Ele é muito parecido com você.

O sorriso de Celeste sumiu, então seus olhos negros se tornaram cor de lava. Ergui as sobrancelhas pra ela.

- Xeque-mate. Agora solte Louise e escute o que tenho pra dizer. Nada de bom virá de um confronto entre nós duas. Tenho algo que pode beneficia-la. Não sinto que esteja atrás do garoto simplesmente porque ele é seu filho ou já o teria encontrado. Na verdade eu percebi que para os demoníacos sua progênie não passa de apenas servos leais, jamais ocuparão o posto que seus progenitores ocupam. Não existem pais ou mães, existem apenas Criadores e criações.

Ela continuou a me encarar por um tempo bem longo, então recostou-se no encosto da poltrona. Deu dois goles em sua bebida, antes de cruzar as pernas e indicar que eu continuasse.

- Eu posso dar o que você quer. – eu disse.

- Você não sabe o que eu quero.

- Não? Sei que tem algo a ver com Sebastian, algo que ele sabe e que você não quer que outros saibam, do contrário porque sairia para encontra-lo pessoalmente quando vivia muito bem antes com seu anonimato? Por que quebrar o seu tão cuidadoso padrão de silencio e invisibilidade diante dos olhos dos demoníacos se ele não estivesse escondendo algo que envergonhe você? Eu não preciso saber o que ele sabe. Na verdade, não me interessa. – ela ergueu as sobrancelhas em surpresa, podia ver pela minha aura e ouvir no tom da minha voz que eu estava dizendo a verdade. - Você me interessa.

- Eu? – perguntou, quase incrédula.

- Sim. Na verdade, algo que você possui e eu quero muito. Os olhos de Cerastes.

Ela ficou completamente imóvel, pela falta de movimento em seu peito eu podia dizer que até mesmo sua respiração parou. Eu também não me movi, permaneci imóvel enquanto lia cada linha de sua aura, cada micro movimento de sua face. Eu não tinha percebido antes, mas a música estava suspensa no ar, indo no ritmo muito lento e baixo, como se meus ouvidos não pudessem mais acompanhar a frequência.

Ou um poder insano estivesse até mesmo dobrando o tempo.

- Você supõe muito, Primordial. Você adivinha muito. Mas, adivinhar não é saber, supor não é o mesmo que a certeza. Deveria ter mais cuidado com as suas palavras, pois elas podem trazer consequências devastadoras pra você ou aqueles que você ama. Vincent McKinley que o diga.

Sorri pra ela. Um sorriso frio, sem emoções. Mas, não se engane, o inferno se abalava inteiro e se revolvia dentro de mim. Então, vinha o ódio e tudo parecia melhor. Como agora, olhando pra ela e querendo muito partir seu crânio em dois.

- Ah, eu sei muito. Afinal, foi Cerastes quem me mandou nessa empreitada.

- Você...falou com o Oraculo? – ela juntou as sobrancelhas.

- Samael me levou até ela. Foi assim que cheguei até você.

- E por que acha que vou dar o que você quer? Tem ideia do poder que daria a Cerastes se você devolvesse a ela os olhos?

- Não preciso dos dois. Preciso de apenas um. – levantei um dedo pra ela.

Fui até a amurada de vidro, observei as pessoas dançando lá embaixo, em câmera lenta, os corpos roçando uns nos outros e as expressões vividas em prazer e luxúria. Não precisei estar no topo da Willis Tower pra acha-los pequenos, ínfimos, inúteis.

- Quando estive com ela eu pude sentir seu poder. Sei que aquela fábrica em cima da toca não serve apenas para abafar o seu sussurro, afinal ela já deve ter procurado por aquele que nasceu para porta-la. A fábrica também esconde seu poder. Eu pude senti-lo, sei que está incompleto e que é extremamente perigoso. Eu jamais o daria a ela sem saber quais são as verdadeiras consequências, por isso sei que o poder de um único olho é o bastante para que ela me dê o que eu preciso.

- Todos aqueles que a usaram enlouqueceram, morreram de forma trágica ou coisa pior. Samael a encerrou lá por ordens de Lúcifer. Não serei eu a ir contra as ordens do Príncipe e...

- Acha mesmo que eu o deixaria descobrir? – olhei-a pelo canto do olho. Celeste torceu os lábios, os olhos me avaliando. – Você sabe o que eu sou, sabe do que sou capaz e que se eu quiser posso muito bem tomar a coroa de Lucífer. Mas, minha pretensão não é poder, a única coisa que quero é encontrar Deus e o Oraculo pode me dizer onde ele está.

- Não subestime Lúcifer. Ele é muito mais poderoso do que imagina. – alertou ela.

- Não estou subestimando. – e eu não estava mesmo. Lúcifer fora capaz de reprimir meu poder Primordial a ponto de me fazer voltar a forma humana. – Eu testemunhei seu poder, sei que ele poderia me deter se quisesse, mas não tem a força necessária para me matar. O que quero dizer é que eu não precisaria entrar em confronto com ele já que ele jamais descobriria. Posso reprimir o poder do Oraculo, assim ninguém saberá que o usei. Quando Cerastes tiver encontrado Deus, eu devolvo o olho a você.

- Simples assim? – ela ergueu uma sobrancelha.

- Simples assim. Eu não preciso do garoto, apenas o usei para chegar até você. Também não preciso do olho, tudo o que eu quero é encontrar Deus. Depois disso, você nunca mais me verá novamente.

Celeste balançou a cabeça, remexeu sua bebida antes de dar um longo gole mantendo os olhos em mim enquanto pensava. Levou um longo tempo antes de ela baixar o copo vazio e vir até mim. Ela olhou para as pessoas lá embaixo, completamente envoltas em suas danças proibidas e o tempo ainda meio parado, meio em movimento. Depois do que pareceu uma eternidade ela falou sem olhar pra mim.

- Sabe que o que você pede é demais, não é?

- Sim.

- Não estou dizendo que aceito, mas se eu aceitasse você teria de me dar duas coisas em troca. – ela olhou pra mim, o rosto sério e ainda assim com uma larga dose de desafio em seus olhos. – Eu quero o garoto. Você vai entrega-lo a mim, sem ferimentos e vivo. É um imbecil, mas é meu servo. Não gostaria de me indispor dele enquanto preciso de seus serviços.

- Certo. E a outra coisa?

- Existe algo que foi muito...caro...para mim. – ela enfiou a mão no bolso do colete, parecia um gesto inconsciente. Era uma corrente preta, tão escura que se camuflava com suas roupas e eu jamais a teria notado se ela não tivesse mexido nela. Levava a um bolso menor, como um bolso de relógio. – Um objeto que me foi roubado. E eu o quero de volta.

- E o que seria? – perguntei, mantendo meus olhos em sua aura. Os olhos dela se estreitaram levemente.

- Um relógio de bolso.

Franzi a testa, mas não discuti. Ela deu um meio sorriso com a minha expressão confusa. Era um sorriso desafiador, zombeteiro.

- Ele é um relógio um tanto especifico e único. Ele foi roubado a muito tempo. Fazia um pouco mais do que marcar as horas. Era um relógio muito, muito especial.

- Isso é fácil. Só preciso saber quem o roubou e posso mandar os meus cães encontra-lo. – eu disse, dando de ombros. Celeste jogou a cabeça pra trás e riu, uma gargalhada maldosa e sarcástica.

- A ingenuidade angelical. Mesmo como princesa demoníaca você ainda a mantem. Não sei se acho muito cativante ou só muito tolo. Acha que já não tentei isso? O ladrão é mais ardiloso do que eu e você juntas. A única forma de pegar aquele relógio é voltando ao dia em que foi roubado.

- Voltar no tempo não é uma habilidade que eu consiga controlar. – eu disse. Celeste deu de ombros.

- Não me interessa como vai consegui-lo, apenas traga-o a mim. – ela se afastou da amurada de vidro, jogou uma moeda logo a frente, a escuridão se abriu pra ela. Celeste virou para me dar um último olhar desafiador. – Piccadilly Circus, 21 de Janeiro de 1890, as sete e vinte e três da noite. É melhor não se atrasar, senhorita Griggori. Muito provavelmente não terá outra chance como essa. Traga-me o garoto e o relógio, então voltaremos a falar sobre os olhos de Cerastes.

Dizendo isso, ela simplesmente partiu nas sombras. Os sons voltaram ao normal assim que Celeste partiu, pude ouvir Louise gritando do meu lado, surtando por finalmente conseguir controlar o próprio corpo. Ela tocava o próprio rosto, jogou para longe a faca, o rosto em pânico.

- O QUE DIABOS ACONTECEU?! – berrou ela, histérica e apavorada.

- Você foi possuída por Celeste. – expliquei, olhando para as pessoas lá embaixo.

- E você diz isso nessa calma?! – seus olhos se arregalaram.

- Você está viva, não está? Deveria estar feliz.

- Ah, claro. Eu fiz o download de uma demoníaca poderosa no meu cérebro e tudo deveria parecer normal! NORMAL?! SÉRIO?! – eu estava tentada a esbofetear seu rosto para fazê-la voltar a razão.

- Pelo menos você não virou aquilo dali. – apontei para o lado.

Ela seguiu meu dedo, então seu rosto negro ficou pálido, em seguida azul, então verde. Ela se virou para o lado e vomitou como louca ao ver os corpos retorcidos dos seguranças de Celeste, apenas um amontado de carne com as pontas brancas dos ossos esmigalhados para fora.

- O que diabos...? – ofegou Louise, limpando a boca.

- Foi necessário. Agora se já parou de dar chilique eu preciso de você.

- Necessário. Ela esmagou sete caras duas vezes o tamanho dela porque era necessário. Às vezes eu me pergunto se você já foi humana. – resmungou ela, o rosto ficando verde de novo. – E então, funcionou?

- Em partes. Celeste quer o garoto e uma outra coisa em troca do olho de Cerastes.

- Demoníacos. O altruísmo nunca funciona com eles. – disse ela, passando o dedo pela ferida em seu pescoço.

- O quão boa você é com feitiços do tempo? – perguntei. Louise arregalou os olhos.

- Isso não quer dizer... – olhei para ela. Seus ombros caíram. – Merda!

- Vamos encontrar com Safira. Temos uma nova missão.

Abri minhas asas, Louise deu vários passos pra trás, desviou o olhar e vi seus joelhos tremerem como se quisesse cair sobre eles. Eu devia tê-la avisado para dar distância, só que já era meio tarde. Subi na amurada de vidro, estiquei-as o máximo que deu.

As pessoas lá embaixo olharam para o alto, ainda meio tontas por causa de todo o TDC. Suas mãos se ergueram como se quisessem me tocar, como se pensassem que eu poderia atender suas preces. Não, eu não me sentia como uma deusa. Eu tinha quase pena dessas pessoas, pois eu não era o anjo da salvação. Não no momento. Eu era o anjo das trevas, o anjo que poderia condenar cada uma dessas pessoas e talvez um dia chegar a não me importar.

Me joguei lá de cima, eles pularam para me pegar, os sorrisos abertos e loucos. Nem mesmo chegaram a tocar em mim, pois eu desaparecia nas sombras a centímetros deles. Era melhor trocar de roupa para a viajem, pois momentos perigosos procuravam por pessoas despreparadas.

 

                                                                      ***

 

- Nós vamos fazer o que?! – berrou Safira, arregalando os olhos.

- Exatamente o que ouviu. Vamos voltar no tempo e entregar a Celeste um relógio de bolso místico.

Safira trocou olhares com Louise. A bruxa apenas deu de ombros. A Succubus levou algum tempo pensando, então olhou para o garoto sentado na poltrona perto da janela e me observando com um rosto sério, quase carrancudo. Era impressionante a semelhança com Celeste e me perguntei se eu também parecia uma cópia fiel da minha própria mãe.

- E quanto ao garoto?

- Ela vai me entregar. Não vai? – disse ele, o tom furioso. – Você prometeu!

- Eu prometi não mata-lo, prometi que Safira não faria mal algum a você. Nunca prometi não entrega-lo a Celeste. Mas, pode ficar calmo. Não vou entrega-lo a ela.

- Não? – perguntaram os três com o mesmo tom de surpresa, depois só Safira continuou. – Nós fomos contratadas para levar esse garoto até ela. Eu não quebro contratos.

- Vocês darão a ela algo muito melhor do que o garoto, Safira. Confie em mim. Por enquanto estou mais interessada em saber porque exatamente Celeste tem interesse em você. – eu disse, olhando para o garoto. Ele engoliu em seco, então deslizou os óculos por seu nariz.

- E-eu não vou dizer.

- Então não posso te ajudar. Não tenho tempo a perder e se eu tiver que entregar você a ela, eu farei sem pensar duas vezes. É melhor repensar suas escolhas, garoto. Imediatamente. – Me virei para Louise. – Já fez isso antes?

- Não me insulte. – disse Louise, revirando os olhos. – Muitos dos ingredientes que usamos atualmente já não existem mais. Pelos de unicórnio, dentes de tigres dente de sabre, amidalas de dragão ou mesmo os pelos da barba de Merlin. Onde exatamente você acha que vamos busca-los?

- Ótimo. Quando podemos partir?

- Alguns minutos, não é um feitiço complicado, mas vou precisar de uma mecha de cabelo de Safira e do seu. – disse Louise, pegando seu amuleto do bolso e saindo das vistas.

Seu apartamento era modesto, para dizer o mínimo. Ficava numa área afastada do mar turbulento de pessoas que era o centro de Nova Orleans. Em prédios industriais de tijolos vermelhos, sua sala tinha essa mesma parede, embora grafitada com desenhos de magia e outros que eu não podia entender. O assoalho era de uma madeira enfraquecida, desbotada, como os velhos chãos de bares por toda Nova Orleans. Havia Sálvia queimando para todos os lados, assim como Wolfsbane e algumas outras ervas.

- Não sei se concordo com isso, Emily. – disse Safira, torcendo a boca em descontentamento.

- Eu sei o que está pensando. Eu também estou achando fácil demais. – respondi, maquinando nosso plano.

- Ela simplesmente não insistiu para que você entregasse o garoto a ela, partiu esperando que entreguemos o relógio a ela antes dele. É quase como se ele não importasse tanto pra ela. Um moleque que ela vem procurando a tempos.

- Cinco anos, sete meses e quinze dias para ser exato. – resmungou o garoto. Ele balançou a cabeça. – Ela não vai dar a você seja lá o que for. Você não conhece Celeste. Vai arranjar um jeito de acabar com você sem sujar as próprias mãos, esse é o seu método favorito. Ela nunca entra em confronto direto.

- Como todos os demoníacos. Nós nunca lutamos, nós nunca debatemos. Nós mentimos e trapaceamos para conseguir aquilo que queremos. E o melhor de todos é aquele que não precisa levantar um único dedo para conseguir aquilo que quer, só precisa soprar em alguns ouvidos e tudo se faz sozinho. – eu disse.

- Está falando de Lúcifer. – disse Safira.

- Bem, eu não tenho muito interesse em como ele rege o reino infernal, mas com certeza para estar no topo da hierarquia algo muito grande ele deve ter feito, algo muito maior do que fazer com que todos caíssem. Ele pediu a Samael para arrancar os olhos de Cerastes e depois encerra-la debaixo de uma fábrica têxtil imensa na Umbra. Há alguma ligação entre ele e Cerastes que por enquanto eu não posso ver.

- Você está mergulhando em águas profundas demais, ruiva. Talvez não consiga subir a superfície. Eu prefiro ficar fora dessa sua empreitada, se não se importar. – disse Safira, o rosto sombrio.

- Estaremos prontas em cinco minutos. – alertou Louise em algum lugar do apartamento.

Segui Safira para um dos quartos do apartamento. Não tinha móveis, nem mesmo janelas ou luz. Havia inúmeras velas coloridas para todo lugar e caixas de som espalhadas pelo quarto, uma música falada estranha tocava no ambiente, seguia um ritmo bizarro como fosse um disco tocado de trás para frente.

- Safira, eu vou precisar da sua ajuda. – disse Louise, a voz baixa enquanto tocava a parede protegida com uma imensa tela branca que ocupava a parede inteira, seu amuleto vermelho balançando em uma de suas mãos.

- Certo. Detalhes completos? – Safira tocou o rosto de Louise.

- O mais nítido que puder. Dessa vez vou mais longe do que já fui antes, então preciso de um vislumbre exato. Queime as mechas de cabelos perto da Sálvia, por favor.

- O que ela vai fazer? – perguntou o garoto, uma dúvida que também era minha.

- Não que seja da sua conta, mas ela vai abrir um portal para a Londres de 1890 através de um grafite. – respondeu a Succubus, enquanto cortava uma pequena mecha do meu cabelo, assim como o dela e jogava dentro de uma cuia de madeira.

- Um grafite? – perguntei, confusa.

- Já ouviu falar da história da mulata de Córdoba? – disse Safira, fechando os olhos enquanto tocava o rosto de Louise.

- Não.

- Foi uma feiticeira que escapou de uma prisão aproximadamente no início do século 19. Foi condenada pela Inquisição em 1814 por bruxaria. Ela era uma Wicca que ajudava as pessoas em uma vila em Córdoba, no México. Foi arrastada até o tribunal do império e condenada por um júri desonesto. Ficou confinada a uma cela aos maus tratos dos carcereiros por três dias antes de sua condenação. Ela seria enforcada no dia 13 de junho de 1814, mas não foi assim. Já que a moça tinha um certo poder especial.

- Qual? – perguntou o garoto, piscando os grandes olhos negros curiosos.

- Cada Colven de bruxas tem suas próprias maneiras de manifestar seus dons. Louise tem a música, outras manifestam através de sacrifícios, elementos naturais. Essa Wicca em particular tinha o dom da pintura. Era assim que ela a manifestava. Na hora da execução da sentença, o carcereiro foi buscar a mulher e imagine a surpresa dele ao ver o desenho de um barco na parede e nele estava a moça lhe acenando um adeus em quanto partia rumo ao mar caribenho. Ela nunca mais foi vista. Ficou conhecida como a Mulata de Córdoba.

- Uau.

- O nome dela era Maria Salina de Gonzáles Óbregon. – disse Safira, abrindo os olhos e se afastando de Louise que também abrira seus olhos, estavam brancos como leite enquanto murmurava palavras estranhas, o ar começou a circular no quarto. – Esta é Louise-Marie de Gonzáles Óbregon. Sua descendente.

Os olhos do garoto se abriram ainda mais quando viu Louise pegar duas latas de Spray e começar a grafitar na tela branca. Ela era muito rápida, fazia rabiscos rápidos e por vários minutos tudo pareceu um amontoado de linhas brancas e cinzentas. Demorou para que os rabiscos começassem a tomar a forma de prédios antigos, ruas. Depois começaram a aparecer pessoas, carruagens, uma lua encoberta por nuvens pesadas, uma avenida movimentada que lembrou bastante a Times Square.

- Estamos quase lá. – disse Safira, amarrando o cabelo no alto. Estava sem seu vestido vermelho, vestia jeans, botas até os joelhos e um casaco pesado.

- Você vai vir conosco. – eu disse ao garoto enquanto eu ajustava minhas botas até pouco abaixo dos joelhos. Coloquei minha faca de combate entre as fivelas da bota. Prendi bem minha lança recolhida em sua forma de cilindro no coldre na minha coxa. Também garanti que meu coldre estivesse seguro com as minhas armas presas na altura das minhas costelas, meu colete pareceu suportar bem. Tive certeza que os óculos goggles presos acima da minha cabeça não fossem cair enquanto viajava no tempo.

- Por que o garoto vai conosco? – perguntou Safira, olhando para ele com desconfiança.

- Porque eu posso sentir as forças de Celeste se voltando pra ele.

Ela e o garoto olharam pra mim com espanto, endireitei os botões de ametista do meu colete e ajeitei melhor a camisa preta por baixo.

- Ela está mandando caçadores virem atrás do garoto. O feitiço protetor de Louise não vai conseguir detê-los por muito tempo. – fechei meus olhos e me concentrei. – Estão famintos, mas não vem para mata-lo. Agonia, Pânico.

Abri meus olhos. Safira retirou alguns fios de cabelo do garoto e começou a queima-lo na cuia perto das Sálvias ardendo nos cantos. O garoto deu um salto para o lado quando meus dois cães infernais surgiram gigantescos no ressinto que pareceu pequeno demais para todos. Eu acenei para eles, ditando a ordem da minha mente para a deles. Eles chamariam reforços se fosse necessário, já que eu não subestimaria Celeste em nada. Invoquei outros demônios menores para protegerem nossa ida quando Louise deu o sinal de que estava tudo pronto.

- Agonia e Pânico vão cobrir nossa retaguarda, garantir que o garoto fique seguro caso Celeste tente algo mais do que mandar seus lacaios.

- Estamos prontas. – disse Safira, o cabelo esvoaçando.

- O que fazemos agora? – perguntou o garoto.

- Vamos nos segurar a Louise e não soltar. Ela vai atravessar a pintura. Não abram os olhos até ela mandar, isso é muito importante. Se o fizerem a magia é quebrada e vão acabar atrás de três toneladas de tijolos vermelhos esmagando cada osso seu. Entenderam?

- Maldita hora em que saí da cama. – resmungou o garoto, os dedos trêmulos enquanto segurava o braço direito de Louise. Safira tocou as costas, eu peguei o braço esquerdo.

Murmurando mais alto, ela ergueu a mão esquerda com o amuleto brilhando, o prédio sacudindo levemente enquanto começava a entrar, a tela tremulando como se fosse feita de água.

Eu só tive uma experiência em viajar no tempo e ela não fora nada agradável. No ano anterior eu tinha lutado contra um ceifador furioso e voltamos a quase quatrocentos anos atrás. Acabei prendendo-o no mar da Flórida, entre as Bahamas. O que com o tempo os mortais passaram a chamar de Triangulo das Bermudas. Não tinha sido uma viajem agradável, muito menos indolor. O que Kaab me explicou mais tarde foi que meu poder combinado com o do Ceifador e o fato de estarmos indo tão rápido como a velocidade da luz é que causou um certo atrito no Véu ou alguma outra barreira e fomos “chutados” para trás no tempo. Tratei isso como uma coincidência e jamais voltei a pensar no assunto.

Agora parecia boa coisa que eu já tivesse tido pelo menos uma única viajem temporal. Assim fiquei preparada com o frio extremo, o esmagamento nas entranhas e o gosto horrível na boca assim que meu cérebro foi comprimido dentro do crânio. Eu quase deixei o braço de Louise enquanto prendia a respiração com o frio nos meus pulmões ou o meu sangue congelando nas veias. Eu acho que pude ouvir o garoto soltar um choramingo.

Tão rápido quanto aconteceu, a sensação se foi e meus pulmões foram capazes de respirar.

- Podem abrir os olhos agora.

Ofeguei quando meus olhos se abriram e vi os flocos de neve caindo levemente. Estávamos bem no telhado de um prédio não muito alto e esparramado. Eu podia ouvir sons abaixo, como uma multidão e quando andei até a beirada, perto de uma gárgula, eu pude ver tudo.

Realmente, parecia a Times Square, mas sem os arranha céus. Eram os telhados escuros de Londres, com suas chaminés de barro e janelas pequenas de famílias inquietas por trás de cada cortina. Abaixo, na avenida tomada por carruagens e cavalos, estava apinhado de pessoas apressadas indo e vindo distraidamente com suas roupas antigas. Estou falando de mulheres em vestidos longos com babados e homens com seus bigodes, bengalas e cartolas. No centro da praça Picadilly, havia a famosa fonte com o cupido em bronze, menos desgastado, pois o tempo não o havia desbotado.

- Voltamos. – ofeguei, olhando e ainda não acreditando.

- Sim, voltamos. – ofegou o garoto ao meu lado, ele abriu um imenso sorriso. – Podemos investir na Apple?

- Acorda, moleque. – disse Louise, torcendo os lábios. - Não interferimos no tempo. Primeira regra das bruxas.

- Espera, espera. Vocês voltam no tempo para pegar ingredientes que já não existem mais no presente. Já pararam pra pensar que os ingredientes podem não existir no presente porque vocês já os estão esgotando aqui no passado? – disse ele, coçando a cabeça.

- Ãhn...bem... – Louise coçou a cabeça como ele. Safira veio para o meu lado.

- Consegue ver algo incomum? – perguntou ela.

- Estamos em pleno século 19. Tudo é incomum. Mas, não há nenhum poder demoníaco próximo, eu poderia sentir. Agonia e Pânico estão nos vigiando, meus caçadores também estão e prontos para qualquer comando meu. Se algo acontecer, estaremos preparados.

- Ela disse as sete e vinte três da noite. – Safira se agachou, olhando a noite lá embaixo.

- Procurem. – comandei.

Todos nós ficamos na beirada do prédio, olhando o movimento lá embaixo, todos nós ao lado de gárgulas, quase imitando suas poses. O garoto olhou em seu relógio.

- Não consigo saber que horas são. Meu relógio está maluco. – disse ele, batendo em seu próprio pulso.

- O tempo do presente não funciona aqui. Fiquem atentos para qualquer movimento incomum. – avisou Louise.

Nos separamos e acompanhamos uma área maior da praça Picadilly. Havia tanto que podia me distrair, principalmente com aquela neve toda. Eu acompanhava cada aura, cada alma passando lá embaixo. Podia dizer seus pensamentos, suas vontades e desejos. Era tudo tão arcaico, era como se eu estivesse presa em um dos meus filmes favoritos de época. Aquilo não deveria me agradar, não deveria me distrair, só que me fazia lembrar de algo muito distante.

Eu podia sentir algo no ar, alguma coisa que eu não sabia explicar bem. Levei a mão ao coração e o senti acelerado, toquei meu rosto e fiquei surpresa em sentir o rubor ao invés da pele fria por causa de toda aquela neve, minha respiração estava ofegante, se condensando na noite. Até minhas mãos tremiam! O que diabos estava acontecendo?

- Ali! – berrou o garoto, apontando para a direita.

Todas olhamos e logo nossos olhos se estreitaram. Uma loira alta corria por entre as pessoas, o rosto suado. Ela quase foi atropelada por algumas carruagens, esbarrando em pessoas. Logo vi seu rosto franzido de preocupação. Eu teria reconhecido em qualquer lugar.

- Não consigo ver. Parecem borrões daqui. – resmungou Louise. Safira também se esforçava pra ver.

- É Celeste. Como conseguiu ver tão longe? – eu perguntei ao garoto. Ele me encarou por um tempo, pareceu procurar algo no meu olhar e não sei bem o que encontrou. Então, ele fez um movimento familiar com os ombros e duas grandes asas negras começaram a se desenrolar e aparecer como uma miragem. Só que elas eram falhas, faltava uma porção de penas nelas.

- Achei que soubesse. Eu sou um puro sangue. – ele carregou tanto desprezo na frase que foi desnecessário seu rosto se franzir mais ainda. – Não nasci do ventre de uma virgem mortal como todos os outros demoníacos, não sou mestiço. Celeste me gerou.

- Entendo. Por isso posso sentir você com tanta clareza.

Eu sou como você. Criado para cumprir os deveres e expectativas de outros. – seu tom mental era cheio de dor e raiva.

Encarei seus olhos negros e era como encarar a mim mesma. Mas, não o reflexo que eu via no espelho, estava mais para o antigo eu. A garota insegura e cheia de dúvidas sobre si mesma que eu fui um dia, a infame detetive Griggori.

- Merda. – resmungou Louise, se levantando. – Vamos perde-la.

Olhei de volta e logo vi Celeste começando a se afastar das pessoas, agora dava pra ver quatro brutamontes correndo atrás dela, todos com tatuagens no rosto e pescoço, pareciam símbolos. Eu podia sentir certo poder neles, suas auras vibrando em dourado e com uma iluminação distinta. A certeza dos magos. Eles eram bruxos.

Acompanhamos por cima dos telhados, corremos como pudemos. Sebastian e eu usamos nossas asas para nos impulsionar por cima de cada prédio, correndo pelos telhados de Londres e seguindo a demoníaca assustada lá embaixo. Mas, o que poderia assustar tanto uma princesa infernal a ponto de ela sair correndo em pânico ao invés de simplesmente lutar contra aquilo que a ameaçava?

Troquei olhares com Sebastian e podia dizer que o garoto pensava o mesmo.

Já ouviu falar nesse tal relógio antes? – perguntei em sua mente, sem parar de voar baixo por cima dos prédios. Ele estava a poucos metros de mim.

Não tenho certeza.

Como assim não tem certeza?

A mente dele se fechou. Ele não queria falar sobre isso e senti seu silêncio ressentido e cheio de rancor. Peguei apenas vislumbres de suas lembranças e logo vi o porquê.

Ela...apagava as suas lembranças? – perguntei, surpresa.

É comum entre Criadores compartilharem informações com suas crias para formar vínculos, assim como também é comum que eles as apaguem caso mostre certa inconveniência. Agora saia da minha mente! – resmungou ele, segurando os óculos para não cair.

- Para a direita! – berrou Safira lá em baixo, usando as sombras para se impulsionar. Louise usava seu amuleto para saltar bem alto entre as casas.

Celeste foi pega pelos cinco grandalhões, eles apenas a empurraram e roubaram algo de suas vestes. Um deles sorriu ao tirar de um pequeno embrulho aveludado um relógio de bolso negro, tão escuro que parecia ter sido feito do manto da noite. Os cinco começaram a correr, comemorando e rindo enquanto deixavam Celeste no chão, o lábio partido e ofegante.

Sua expressão foi um misto de alivio e raiva. Então veio o pânico enquanto ela se levantava, olhava para trás como se ainda estivesse sendo perseguida. Assim, ela fez algo que surpreendeu a todos nós. Voltou a correr, mas não atrás dos ladrões e sim para a direção oposta antes de jogar uma moeda no ar e se esconder nas sombras.

- Por que ela não os pegou? – ofegou Sebastian, tão confuso quanto eu.

- Não importa. Precisamos pega-los. – rebati.

- Emily, espere! – berrou Safira lá de cima quando disparei a frente e comecei a voar mais próxima dos cinco bandidos que se embrenharam numa sarjeta e desapareceram.

Segui o rastro de suas auras, senti o poder que eles usaram para dobrar as sombras e conseguirem se mover rapidamente entre os becos sujos de Londres. Parecia que a cada dez sarjetas havia vinte mendigos deitados ou sentados nos cantos, sujos e maltrapilhos.

Eu me lembrava das aulas de história mundial e das próprias histórias que Hamish me contava. 1890 era aproximadamente o ano que a Revolução Industrial já mostrava todo o seu esplendor e toda a sua feiura, um prelúdio do que seria a atualidade egoísta e individualista de hoje. Hamish me contou como ele vivera como trabalhador nas fábricas têxteis e de maquinário pesado. Crianças de quatro e seis anos já trabalhavam em maquinários gigantes, usadas para entrar em tubulações ou lugares onde seus corpos pequenos podiam passar, fazer coisas que outros não podiam. Hamish trabalhara dezesseis horas por dia por uma renda muito baixa, assim como acontecia com crianças e mulheres, assim como pessoas velhas. Eles até mesmo apanhavam se não fossem “bons” o bastante no que faziam.

Não importava quem fosse, se você fosse um pária social já era perfeito para toda a exploração quase escravagista da época. Foi assim que muitas famílias aristocratas da Inglaterra e do mundo fizeram suas fortunas, era por isso que algumas pessoas simplesmente nasciam num berço dourado construído muito antes de seus bisavós nascerem. Eles chamavam de herança de família, eu chamo de podridão histórica.

Por isso havia tantos mendigos pelas ruas de Londres e muito provavelmente havia muitos em tantos outros lugares, por causa de toda a exploração. Muitos deles preferiam morrer de fome e frio do que morrerem de tanto trabalhar para ganharem nada em uma época em que tudo o que as pessoas podiam tirar umas das outras...elas tiravam. Era irônico pensar na aristocracia conservadorista da época. Se esforçavam tanto para parecerem requintados, perfeitos...humanos. Não muito diferente da atualidade em que tudo era coberto por uma grossa maquiagem, mas por baixo as coisas permaneciam as mesmas.

Ou piores do que já foram.

Balancei a cabeça para escapar dos meus devaneios morais e desci por um beco onde o rastro das auras ficou mais forte. Comecei a correr pelo beco, ouvindo o bater das minhas botas sem salto ressoando nas paredes das casas e voltando pra mim em ecos, ondas. Pareciam até o pulsar de um relógio.

O estranho foi perceber que de repente eu estava com aquela sensação de novo. O pulso acelerado, o rosto afogueado, as mãos suando e tremulas, meu coração parecendo que iria voar por algum motivo estranho. Quase como...expectativa. Como se ele soubesse de algo que eu não sabia. Pelo menos não conscientemente.

Virei a esquerda e tropecei em algo que me fez cair de cara no chão, acabei batendo a testa no chão de ladrilhos. Reprimi um resmungo de dor e me virei para ver qual objeto ridículo eu ia ter que destruir por ter me feito cometer um erro tão estúpido. Foi quando prendi a respiração ao notar o cadáver destroçado de um dos ladrões.

Se você tem estomago fraco, eu não recomendo seguir adiante. Mas, você deve ser uma daquelas pessoas morbidamente curiosas. Vai por mim quando eu digo que a curiosidade mata mais do que um gato. Ela mata a tão doce e subestimada inocência.

Não diga que não avisei.

Não, cadáveres não me assustam, afinal eu mesma já tinha deixado alguns por aí. O que me surpreendeu foi a brutalidade crua naquele em especifico. Sua garganta estava aberta de uma forma tão grotesca que eu podia ver os ossos de sua vertebras cervicais banhadas em sangue fresco. Seu braço fora arrancado, suas entranhas estavam espalhadas pelo caminho, a parede ao lado manchada de sangue como se ele tivesse tentado escapar. Curiosamente faltava-lhe o coração. Dava pra sentir o cheiro de seu intestino impregnando o ar, uma podridão que só podia cheirar a azedume e morte. Revirou meu estômago.

Ouvi o grito a não muito longe e engoli em seco, pois algo começava a fermentar na minha mente, algo que não me agradava e realmente me assustava. Sob passos lentos eu segui a trilha de sangue pelo beco, os gritos, os sons ocos de carne sendo dilacerada e ossos sendo partidos.

Eu encontrei mais um capanga, este estava sentado, o peito aperto com os ossos da caixa torácica para fora, assim como muitos órgãos lacerados, de novo não havia o coração. Em seu colo estava sua cabeça que fora arrancada e agora jazia entre suas pernas com o rosto ainda expressando todo o seu pânico absoluto. Andei mais, tentei muito não deixar o cheiro de sangue me incapacitar e me jogar para as lembranças de Declan parcialmente devorado.

O ladrão mais dilacerado foi o terceiro, encontrei-o em uma poça de sangue e de sua própria urina. Faltavam braços, pernas, as entranhas também espalhadas, seu crânio aberto, a cabeça jogada num canto com o rosto completamente rasgado. Músculos, artérias e ossos, tudo exposto como se aquele cara que eu vi correndo a menos de dois minutos simplesmente não tivesse existido sob outra forma que não um fatiado pedaço de carne humana. Também parcialmente devorado, faltava o coração.

Com pernas tremulas eu cheguei até o final do beco que virava para a direita e essa foi a pior decisão que eu já tomei. Pensando agora, deve ter sido a segunda pior decisão da minha vida.

O quarto homem gorgolejava e se sacudia, mas logo percebi que não estava vivo. Os olhos vidrados e pupilas azuis mortas não estavam vivas, seu corpo não estava se debatendo por sentir dor. Convulsionava porque um outro homem o estava devorando, seu corpo se chacoalhava porque esse mesmo monstro abria seu peito com vontade. Eu podia ver presas brancas e afiadas dilacerando a carne, o som em sua boca quando ele mordia e ela espirrava sangue por entre seus lábios, escorrendo pelo queixo. O vi abrir o homem, remover seus órgãos e jogar por cima do ombro como se não fosse nada.

Então a criatura se levantou e ergueu o cadáver do homem pelo pescoço. Estava partido ao meio, os órgãos pendurados, assim como eu podia ver a parte final de sua coluna, dava pra sentir o cheiro rançoso de sangue e de suas tripas partidas. O cheiro da morte.

Como se não bastante, a coisa enfiou a mão em seu peito, perfurando como se não fosse nada. Ele retirou o coração e com duas grandes dentadas o engoliu inteiro. Eu tive de engolir convulsivamente para impedir o vômito de subir a minha boca. Devo ter feito algum som ou devo de ter me movido de um jeito muito errado, pois de repente os olhos daquela coisa se voltaram pra mim.

Tinha as roupas de um trabalhador industrial, estavam empapadas com sangue, mas não escondia a fuligem de suas roupas velhas. Usava uma camisa batida que um dia fora branca, um suspensório, calças escuras e sapatos surrados. A boina cobria seu cabelo louro e fazia uma certa sombra horrível em seu rosto, só que fazia pouco para ocultar seus olhos animalescos.

Prateados. Como duas luas cheias.

Eu não sabia que emoção era mais forte. Eu não conseguia me mover, respirar ou mesmo pensar. Eu só conseguia olhar pra Vincent e tentar muito não surtar. Eu nunca tinha sentido tanta violência dentro do meu ser como naquele momento. Uma dor infernal onde deveria haver um coração, uma raiva imensa, uma tristeza que beirava ao desespero e algo mais. Muito, muito mais.

Só que aquele não era o meu Vincent. Aquele era o Vincent pós-Asrael, o selvagem, o louco, o descontrolado assassino.

E eu estava prestes a ser morta por ele.



 



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