História Love By Chance - Second Season - Capítulo 49


Escrita por: ~

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Categorias Pollo
Personagens Adriel de Menezes, DJ Kalfani
Tags Drogas, Obsessão, Pollo, Pollover, Prazer, Romance, Violencia
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Palavras 4.726
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Drogas, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 49 - Segunda Chance


 

P.O.V. Clara

 

Desde que recebi alta do hospital, minha vida tem sido na cama. Às vezes, quando insisto muito, meu pai me deixa ficar na sala vendo tevê, e mesmo assim alguém fica me vigiando para ver se não vou aprontar.

Por isso, durante os dias da semana, meu pai fica comigo de manhã, e à tarde quando ele vai para a academia, o Caíque vem aqui, e à noite é meu pai novamente e a Sam. Ou seja, estou praticamente em cárcere privado.

Meu único passatempo tem sido escrever músicas e ensaiar com o Leo através do Skype. Essas duas semanas que ficarei em casa não vai ter música ao vivo na pizzaria, então a gente têm aproveitado para selecionar várias músicas e encaixá-las no repertório. 

Fazer tudo isso on-line é um verdadeiro desafio, mas não há outra maneira, já que daria muito trabalho trazer todos os instrumentos aqui para casa, sem contar que faria muito barulho.

Hoje de manhã a Sam foi para a gravação do clipe, e confesso que fiquei morrendo de vontade de ir também para poder assistir. Não vejo a hora de ela chegar e me contar como foi.

 

   — Trouxe um presente pra você. — Meu pai disse entrando no quarto.

 

   — Por favor, me diz que é uma televisão.

 

   — Não, é bem melhor que isso.

 

   — Outro carro? 

 

   — Não.

 

   — Diz logo o que é! — Ele pegou alguma coisa no bolso da calça e me mostrou um cubo mágico.

 

   — Tchã-rã!

 

   — Sério? Desde quando isso é melhor que uma televisão?

 

   — Desde que isso vai te manter bastante ocupada. — Ele me jogou o objeto e peguei.

 

   — Eu acho que você deveria colocar uma tevê aqui. Pensa que a sala vai ficar todinha só pra você.

 

   — Boa tentativa mocinha. — Ele riu. — Divirta-se com seu cubo.

 

   — Pensa bem paizinho, você nunca mais vai receber spoiler das suas séries.

 

   — Tcha-au. — E aí ele saiu fechando a porta e eu dei risada.

 

Embaralhei o cubo e depois comecei a grande missão de deixá-lo com as cores alinhadas. Eu nunca vou conseguir, mas é melhor do que olhar para o teto.

Minutos depois ouvi duas batidinhas na porta.

 

   — Pai só te deixo entrar se estiver com uma TV aí. — A porta abriu e fiquei surpresa em ver minha mãe. — Ah, oi.

 

   — Oi filha. — Ela deu um sorriso, entrou e fechou a porta. — Se eu soubesse que você queria uma televisão, teria te comprado uma.

 

   — Na verdade decidi que quero uma depois que descobri como é chato ficar aqui sem fazer nada. — Ela riu. — Pensei que você já tinha ido embora.

 

   — Meu vôo é daqui duas horas, então passei para ver como voccê estava. 

 

   — Eu estou bem. Entediada, mas bem.

 

   — Logo logo você vai estar de volta na civilização. — Demos um risinho. — E aí, o que você tem feito? — Ela sentou na cama da Sam e colocou a bolsa de lado.

 

   — Bom, já li todos meus livros, ouvi todas minhas músicas, ensaiei com meu amigo on-line, passei horas conversando com o Caíque por ligação, etc.

 

   — Até que não está tão tedioso assim.

 

   — Só que agora, por exemplo, meu namorado e minha irmã estão na gravação de um clipe, e eu estou aqui presa nessa cama.

 

   — Você deveria parar de reclamar, pelo menos você tem saúde.

 

   — É mesmo. Você não sabe o alívio que é sentir que aquilo não está mais dentro de mim.

 

   — Eu posso imaginar.

 

   — As mulheres grávidas do hospital onde você trabalha devem te agradecer de joelhos quando você consegue evitar que o filhos delas sofram de alguma forma.

 

   — Isso já aconteceu uma vez.

 

   — Sério? — Ela assentiu rindo e eu ri também. — Que coisa.

 

E então nós ficamos sem assunto. Dava para ver em seus olhos que ela queria me fazer várias perguntas, mas não disse nada. Ao invés disso, alegou que iria perder o vôo e se despediu de mim. 

 

   — Espero te ver em breve e com uma saúde de ferro. 

 

Dei um sorrisinho e então ela pegou sua bolsa e caminhou até a porta. 

 

   — Por que você me abandonou? — Falei sem pensar. Ela virou para trás e me olhou. — Sabe, depois que meu pai decidiu ficar, nós poderíamos ter sido uma família, mesmo que vocês não estivessem juntos como um casal. Você tinha tudo pra ser minha mãe, mas preferiu me deixar, sabe se lá porquê. Eu não ligaria se você tivesse se mudado para terminar a faculdade, mas acontece que você saiu de SP e nem se preocupou mais comigo, você simplesmente me deixou para trás. Você já parou pra pensar que meu pai poderia ser um louco e me largar num orfanato, ou sei lá o quê? Tudo bem que ele e eu sempre nos demos bem, mas você me deixou com uma pessoa que eu mal conhecia. Mãe, você perdeu tudo. Sempre foi meu pai; ele que estava quando tirei minha primeira nota vermelha, quando reprovei na escola, quando arrumei briga, quando tive meu primeiro namoradinho e agora um namorado de verdade, quando tive minha primeira decepção amorosa, na minha primeira menstruação... Sempre ele fez o papel que você deveria ter feito. — Ela estava com lágrimas nos olhos. — Me desculpe por falar assim tudo de uma vez, mas eu preciso que você saiba como eu me sinto. Onde você esteve esse tempo todo?

 

   — Eu não tinha noção disso tudo até saber que você estava no hospital. Eu sou sua mãe e fui a última a saber. Quando nos vimos, você estava tão mal, com o coração partido, e agora você tem um namorado, uma irmã, um trabalho, até um carro você tem, e eu perdi tudo isso na sua vida. Eu sinto muito mesmo. 

 

   — Sentir muito não é o suficiente.

 

Ela ficou quieta, com o olhar longe, depois abaixou a cabeça, respirou fundo e se sentou novamente na cama da Sam. Quando ela me olhou, eu senti alguma coisa diferente, e só entendi quando ela começou a falar.

 

   — Eu sei que você vai me odiar por nunca ter te contado isso, mas... Clara, você não é minha primeira filha.

 

   — Quê?

 

   — Quer dizer, você é minha primeira filha, mas não a primogênita.

 

   — Do que você tá falando?

 

   — Eu engravidei com 16 anos de um cara que eu mal conhecia. 

 

   — Mãe...

 

   — Por favor, me deixa falar. — Eu assenti. — Quando descobri, fiquei apavorada; não sabia nem cuidar de mim, muito menos de uma criança. Não encontrei mais o pai do bebê, e o meu me expulsou de casa. Quando o susto passou, eu me vi sozinha. Eu era adolescente, ainda estava na escola, não tinha um trabalho e claro que não iriam contratar uma pessoa grávida. Então minha mãe começou a me enviar dinheiro escondida. Ela adoraria ter um neto, mas não tinha coragem pra enfrentar meu pai. E, apesar de todas as dificuldades, eu passei a amar aquela vida dentro de mim; e cada dia mais ficava ansiosa para o nascimento. Porém, duas semanas antes de completar oito meses, descobri que o coração do bebê não estava mais batendo. 

 

   — Ah meu Deus. — Cobri a boca com a mão.

 

   — A causa nunca foi descoberta. Quando me disseram que precisavam induzir o parto, foi que eu desabei. Eu pensei "não vou conseguir fazer isso". Eles chamam de natimorto. Eu era tão nova, tão imatura, e não tinha ninguém além daquela criança que amava mais que a mim mesma. Foi tão difícil saber que alguém sairia de dentro de mim sem vida. Depois que aconteceu, me disseram que era melhor não ver, mas eu precisa ver. E então colocaram no meu colo um menininho tão lindo. Ele não tinha nada a ver com você. Tinha o cabelo bem pretinho, era bochechudo, tinha os olhos escuros... então eu o chamei de Gustavo.

 

   — O protegido de Deus. — Murmurei.

 

   — Por causa desse significado que eu resolvi colocar. — Ela limpou as lágrimas. — Quando eu o segurei, ele ainda estava quente. Mas conforme os minutos passavam, ele ia esfriando aos poucos, e eu imaginava como seria nossa vida se não tivesse acontecido aquela complicação. Quando tudo isso passou, a única lembrança que eu tinha era uma foto que tirei para nunca me esquecer dele. — Ela mexeu a bolsa e me entregou a foto.

 

Ele era exatamente o que ela tinha descrito. Acho que nunca vi um neném tão lindo em minha vida. Se eu não soubesse disso, pensaria que ele apenas estava num sono profundo.

Até então eu estava sem reação, mas quando vi a foto, uma turbilhão de lágrimas surgiram. Eu tinha um irmão.

 

   — Quando saí da escola, quis ser obstetra pra evitar que acontecesse com outras crianças o mesmo que aconteceu com meu filho. No primeiro ano da faculdade conheci o John, e acho que nunca me senti tão bem com alguém desde que isso aconteceu.

 

   — Ele sabe?

 

   — Não. Eu guardei para mim, não queria dividir essa parte da minha vida com ninguém. Quando engravidei de você... bom, você deve imaginar o medo que senti. Mas com você tudo deu certo. Eu cheguei a pensar que da outra vez não deu porque o pai não estava ao meu lado, mas sei que não tinha nada a ver. Foi aí que você nasceu Clara, e eu te dei esse nome porque você é a luz em minha vida. Então segurei aquela menininha loira pela primeira vez, e embora você fosse completamente diferente do Gustavo, só o que eu enxergava era ele. Eu tive medo de que você ocupasse o lugar dele, de alguma forma. Uma hora eu ia desmoronar, e eu não queria o John pra ver isso, então mandei ele ir embora, e era só nós duas. Conforme você crescia, eu imaginava você brincando com seu irmão, imaginava ele te defendendo das outras meninas, ele cuidando de você... eu estava indo bem, até você ficar muito doente. Pra mim aquilo era algo me dizendo que eu não seria uma boa mãe pra você, e que você estaria melhor sem mim. Eu sei que devia ter tentado, eu queria que desse certo como não deu com ele. Mas então seu pai chegou, e ele sempre teve mais jeito com você, mesmo só te vendo bebê e depois através das fotos que eu enviava à ele. Quando ele disse que iria fiar, eu vi a oportunidade de você ser feliz de uma forma que eu nunca iria conseguir te proporcionar. Quando decidi ir embora de cidade, acredite, foi a coisa mais difícil que já fiz. Mas tudo me fazia lembrar a mãe que podia ter sido aos 16 anos, e não fui. Quando me mudei, fui até a Clarice, mãe da Sam. Eu queria conhecê-la, queria saber que tipo de mãe minha filha iria ter, e sem dúvidas você estaria melhor com ela do que comigo. 

 

   — Você conheceu a mãe da Sam? 

 

   — Conheci, mas por favor, não conte à ela. — Assenti. — Enfim, as coisas não aconteceram como planejei. Eu achei que o John voltaria para casa, mas ele ficou em SP, e cuidou de você como eu nunca teria cuidado. Eu senti sua falta todos os dias, mas tinha que ser assim. Agora eu vejo o tanto de coisa que perdi por causa de um filho que eu pensava que não sobreviveu porque eu não cuidei dele o suficiente.

 

   — Não foi culpa sua.

 

   — Mas aquilo era um castigo por não tê-lo amado o bastante quando descobri a gravidez.

 

   — Você sempre o amou, só estava com medo, e foi uma complicação mãe, não foi culpa sua. 

 

   — Eu tinha medo de não te amar bastante e te perder para sempre. — Ela tornou a chorar.

 

   — Então se estou aqui agora é porque você me ama o suficiente.

 

Coloquei devagar os pés para fora da cama e abracei minha mãe e ela me apertou forte. Ela precisava disso.

 

   — Você devia ter me contado, eu te entenderia.

 

   — Me desculpa por ser uma péssima mãe.

 

   — Você não é uma péssima mãe. Você só quis o melhor pra mim. Me perdoa pelas coisas que te disse, pelo modo que te tratei...

 

   — Clara você não falou nada além do que eu merecia.

 

Ficamos ali abraçadas. Enquanto ouvia seu choro, imaginei como seria minha vida se eu tivesse um irmão.

Se ela o teve com 16, então hoje ele teria 20 anos. Ele teria o cabelo tão grande que se quisesse poderia fazer um rabo de cavalo. Ele seria rockeiro, namoraria uma garota com os mesmos gostos. Os filhos puxariam à ele, e eu teria os sobrinhos mais lindos do mundo. 

A gente provavelmente iria brigar pelas coisas mais bobas do mundo, como a Sam e eu sempre fazemos. Seríamos os três mosqueteiros.

Mas se ele estivesse vivo, talvez eu nem tivesse conhecido meu pai, tampouco a Sam. Ou talvez morássemos minha mãe, meu pai, meu irmão e eu, e não existisse a Sam.

Ou talvez eu não existisse. Minha mãe estaria tão contente com um filho que nem sequer pensaria em ter outro.

 

   — Eu sempre achei que você não gostava de mim. 

 

   — Se você me odiasse seria mais fácil ficar longe.

 

   — Eu não te odeio. — Desfiz o abraço.

 

   — Você diz isso agora. — Ela riu e limpou as lágrimas.

 

   — Mãe, da mesma forma que Deus te deu uma chance quando eu nasci e você não aproveitou, Ele está te dando outra agora.

 

   — Dessa vez não vou desperdiçar.

 

   — Se não for tarde demais, eu quero que você aceite o emprego e fique aqui. — Ela abriu um sorriso.

 

   — Você tem certeza?

 

   — Tenho. Nem sei porque falei pra você ir embora, acho que eu queria que você insistisse em mim. Mas agora que sei seus motivos, eu quero dar uma oportunidade para sermos mãe e filha, como deveria ter sido.

 

   — Obrigada filha. — Ela me deu outro abraço. — Só eu e você sabemos dessa história, e eu prefiro que continue assim.

 

   — Não vou dizer a ninguém, você tem minha palavra. Sei como deve ser difícil.

 

   — Eu te amo.

 

   — Também te amo. — Ela desfez o abraço.

 

   — Agora eu preciso fazer uma ligação para o hospital e dizer que vou aceitar o trabalho, e tenho que voltar pra Campo Grande para pedir minha demissão e fazer as malas. — Eu sorri. — Quando voltar quero saber tudo o que perdi, cada detalhe.

 

   — Isso vai durar muito.

 

   — Vamos ter todo o tempo do mundo.

 

                            .  .  .

 

P.O.V. Samantha

 

Quando Caíque e eu chegamos em casa, senti um clima meio estranho. Encontramos meu pai na cozinha e ele estava preparando o almoço.

 

   — Ah vocês chegaram! Como foi?

 

   — Incrível! — Falei animada.

 

   — A Sam arrasou. — Caíque disse.

 

   — Tô ansioso para ver. — Olhei rapidamente para o Caíque e tive a certeza de que ele estava pensando o mesmo que eu: meu pai vai me matar.

 

   — Vou contar pra Clara.

 

   — Acho melhor você não ir lá. — Meu pai disse.

 

   — Ué, por quê?

 

   — Ela tá lá com a mãe já tem um tempão.

 

   — A mãe dela? — Caíque e eu falamos juntos. — Pensei que ela já tivesse ido embora. — Continuei.

 

   — Ela passou para se despedir, mas agora já não tenho tanta certeza. Se não fosse pelas vozes lá dentro, provavelmente pensaria que alguém tinha morrido. — Nós rimos. — Caíque, vai ficar para o almoço?

 

   — Acho que vou.

 

   — Ótimo! Então acho melhor vocês se sentarem.

 

Oferecemos ajuda com a comida, mas ele recusou, então fomos para a sala, e liguei a televisão. Ele tomou o controle da minha mão.

 

   — Ei! — Tentei pegar de volta mas ele me impediu.

 

   — Tá passando uma maratona de Supernatural.

 

   — Sua sorte é que sou fã dessa série.

 

   — Eu já sei, a Clara me disse. — Ele deu uma risadinha e colocou na série.

 

   — Foi muito legal o que você fez hoje. 

 

   — Só te dei uma carona.

 

   — Tô falando do Isac.

 

   — Ah. — Ele fez pouco caso. — Foi só uma carona também.

 

   — Eu admiro muito o jeito como você não guarda rancor.

 

   — Sam, se tem uma coisa que eu guardo é rancor.

 

   — Quem você pensa que tá enganando? — Ele deu de ombros. — Sei que você consegue enxergar o lado bom do Isac, do mesmo jeito que enxergou o da Clara.

 

   — Ele tem lado bom? 

 

   — Ah para Caíque.

 

   — Tá... ele parece ser um cara legal, quando não fica olhando pra minha namorada. Mas isso não muda nada entre a gente.

 

   — Se a Clara voltasse a falar com ele, você tentaria ser amigo do Isac?

 

   — Ela voltou a falar com ele?

 

   — É só uma suposição. — Ele relaxou os ombros.

 

   — Não sei. Talvez se ele me pedisse desculpas por ter transado com a Clara quando estávamos juntos.

 

   — A culpa foi mais da Clara do que dele.

 

   — Mas a Clara já me pediu desculpas, inúmeras vezes. Além disso, não importa quem seduziu quem: quando um não quer, dois não transam.

 

   — Nossa, tá bom. — Levantei minhas mãos em sinal de rendimento. 

 

Minutos depois meu pai nos chamou para almoçar, e lá no em meu quarto a conversa parecia render bastante.

Comemos e conversamos sobre assuntos aleatórios. Eu nunca tinha notado o quanto meu pai gosta do Caíque, e acho isso muito legal. Fiz uma anotação mental para conversar sobre com a Clara mais tarde.

Quando eu ia comentar sobre minha curiosidade em saber o que as duas estavam conversando, a Malorie apareceu na porta da cozinha.

 

   — Oi gente. — Ela deu um sorrisinho..

 

   — Oi. — Respondemos juntos. 

 

   — John, posso falar com você?

 

Essa foi a deixa para o Caíque e eu corrermos para o quarto atrás da Clara.

Ela estava sentada na cama e limpava as lágrimas com as costas da mão.

Quando ela nos viu e abriu um sorriso caloroso, soube que estava tudo bem entre ela e a mãe. Nós sorrimos também.

 

   — Oi gente, como foi lá? — Ela perguntou.

 

   — Nada disso, nós estamos muito curiosos. — Caíque roubou as palavras da minha boca.

 

   — Ela me contou a verdade e eu decidi dar uma chance. 

 

Embora eu não fosse com a cara dessa mulher, estava feliz pela Clara também estar feliz. Tudo o que ela sempre quis foi os verdadeiros motivos por ter sido deixada de lado, e que um dia a mãe dela voltasse atrás, e isso finalmente aconteceu.

Sentei em minha cama de frente para ela e o Caíque se sentou ao seu lado.

 

   — E aí, o que ela disse? 

 

   — Eu não posso contar, mas ela disse que está muito arrependida e que sentiu muito minha falta. Eu pedi para ela ficar aqui, e ela vai voltar para Campo Grande e pedir demissão.

 

   — Que notícia maravilhosa! — Caíque disse e deu um beijo nela.

 

Então agora ela vai ficar perto da minha irmã e vai ser uma mãe de verdade? Confesso que estou sentindo um pouco de inveja.

 

   — Fico muito feliz por você, Mana. — Fiz carinho em sua bochecha.

 

Ficamos falando sobre esse assunto, até ela perguntar novamente sobre a gravação do clipe. Me deitei de bruços na cama e fingi ouvir o Caíque tagarelar, mas na verdade pensei em como nossas vidas iriam mudar porque agora a mãe dela vai estar presente.

 

   — ... e a Sam fez uma dança sensual.

 

   — O quê? — Ela arregalou os olhos. — Você fez isso Sam? 

 

   — Não foi nada demais. — Dei de ombros, peguei um cubo mágico em cima do criado-mudo e comecei a brincar.

 

   — E o Kalf viu isso?

 

   — Se ele viu? — Caíque deu risada. — Amor, ele tava numa cadeira e ela sensualizou para ele. — A boca dela formou um perfeito O.

 

   — Não acredito nisso!

 

   — Só aconteceu porque fui obrigada, tá?

 

   — Nossa, o diretor te ameaçou com uma arma.

 

   — Já te disseram como você é bom em dedurar os outros? — Eles riram. 

 

   — Aposto que você adorou provocar ele. — Dei um sorrisinho. — Não acredito que perdi isso...

 

   — Eu perguntei se a gente podia conversar e ele me disse para ir na casa dele mais tarde.

 

   — Ele não resiste à você.

 

   — É verdade. — Caíque concordou. — Ele fica desequilibrado quando você tá por perto.

 

   — Chega de falar de mim! Conta pra ela.

 

   — Contar o que?

 

   — Ele deu uma carona pro Isac.

 

   — Sério? — Ela virou a cabeça na direção dele.

 

   — Que porra, não foi nada demais.

 

   — Clara você daria uma carona pra Allyson?

 

   — Nem morta!

 

   — Então sim, foi tudo demais.

 

   — Você virou amigo dele? — Clara perguntou.

 

   — Claro que não, meu Deus!

 

   — Bom, adoraria ouvir a conversa mas preciso me arrumar para ver meu namorado.

 

Deixei o cubo na cama e levantei. Abri meu guarda-roupa, peguei uma calça jeans, um blusão do nirvana e roupas íntimas.

Dei tchau com as pontinhas dos dedos e me tranquei no banheiro. 

Tomei um banho demorado para não correr o risco de pegar eles no meio de uma discussão sobre o Isac, ou sei lá o que.

Depois que me vesti, saí do banheiro e eles estavam se beijando.

 

   — Que nojo! 

 

   — Cala a boca. — Caíque jogou um travesseiro em mim e mostrei língua.

 

De repente fiquei com vontade de perguntar se eles já tinham transado aqui, porque o Kalfani e eu não, só na casa dele, mas claro que não perguntei.

Penteei meu cabelo e fiz minha maquiagem de sempre, depois vesti meu all star e coloquei uma blusa de frio xadrez.

 

   — Sam, você usou a meia arrastão? 

 

   — Usei Clara. — Revirei os olhos.

 

   — Ela usou mesmo? — Perguntou ao Caíque.

 

   — É aquele bagulho com vários negócios parecendo losango? — Nós duas rimos.

 

   — É.

 

   — Então sim, usou.

 

   — Acho bom mesmo.

 

   — E que fique claro que nunca mais vou usar, pelo menos não para dançar, porque incomoda. — Ela fez cara feia.

 

Me lembrei de colocar a aliança e o colar, e depois de passar perfume me despedi deles, em seguida do meu pai.

O ônibus não demorou muito, então cheguei no prédio do Kalf mais cedo do que imaginei.

Subi até o andar certo e parei na frente de sua porta. Cheguei até a pegar a chave no bolso da blusa, mas concluí que se a situação fosse ao contrário, eu odiaria que ele entrasse quando bem entendesse, então toquei a campainha. Uma, duas, três vezes e nada.

É claro que o "passa lá em casa mais tarde" era de noite, e não agora. Sou uma idiota.

Dei meia volta e estava quase chegando no elevador quando ouvi a voz dele.

 

   — Psiu, volta aqui. — Me virei e enxerguei só sua cabeça para fora da porta.

 

   — Pensei que você não estava. — Voltei para a frente da porta.

 

   — Tava no banho. — Ele abriu um pouco mais para eu entrar e percebi que ele só estava de toalha.

 

   — Você não aprende mesmo a como abrir a porta, né?

 

   — Não tenho culpa se você sempre aparece quando tô pelado. — Dei uma risada e entrei. — Mas não faço isso sempre, tá? — Ele meio que se desculpou. — É só que eu sabia que era você. — Isso me fez sorrir por dentro, mas por fora eu continuava impassível. 

 

   — Vai se vestir pra não ficar doente.

 

   — Tá, já volto.

 

Então ele subiu a escada pulando um degrau por vez e soltei o sorriso que estava escondido. Isso quer dizer que ele ainda se sente à vontade comigo, né? 

Ao fundo estava tocando Location do Khalid, e aproveitei para me mexer no ritmo da música, comemorando essa pequena vitória.

Tudo parecia a mesma coisa de sempre, mas quando virei para o lado da estante, percebi um quadro com uma foto nossa, que não estava ali antes. 

Ele estava de frente para mim, porém de costas para a câmera. A única parte que mostrava além de suas costas era o lado esquerdo do rosto; seus lábios estavam próximos dos meus e nós sorríamos. Nós temos praticamente o mesmo gosto para fotos, e essa foi a nossa preferida.

É óbvio que ele colocou esse quadro depois da nossa briga, até porque a foto é da nossa viagem.

Esse gesto me fez ter mais certeza de que ele quer me dar outra chance, e só está esperando eu pedir por ela.

Peguei o quadro na mão e passei o dedo sobre seu sorriso em sintonia com o meu, e de repente eu me senti mais arrependida ainda por ter estragado tudo.

 

   — Gostou? — Me virei rápido e ele estava sentado no braço do sofá.

 

   — Gostei. Essa foto significa muito.

 

   — Eu revelei todas. — Ele abriu uma gaveta e pegou um plástico com as fotos. — Fiz duas cópias dessa para o caso de você querer roubar meu quadro. — Eu sorri.

 

   — Igual você fez com a minha foto que pendurou no quarto?

 

   — Aham. — Puxei as fotos da mão dele.

 

   — Pois agora eu vou te dar o troco e roubar todas essas.

 

   — Ei, todas não! Vamos dividir.

 

   — Não estou aberta a discussões. 

 

   — Sacanagem. 

 

Devolvi o quadro ao seu lugar e comecei a olhar as outras fotos. Senti tanta saudade da praia, de Natal, da gente...

Depois de olhar todas e ainda assim preferir a que estava no quadro, guardei no bolso e olhei para ele.

 

   — Então, o que você queria conversar? 

 

Quando ele me perguntou isso, me deu um branco. Eu não sabia o que falar, não sabia como agir. Começou a tocar a música Never Be Alone do Shawn Mendes e então eu simplesmente falei:

 

   — Eu não sei o que tá acontecendo. Nós estávamos brigados, e de repente tudo mudou quando eu dancei hoje. E agora você acabou de me mostrar fotos que significam muito pra gente... — Fiz uma pausa. — Você vai me perdoar agora ou vai terminar tudo?

 

   — Isso é um ultimato? 

 

   — Não aguento mais essa dúvida que você tá me fazendo sentir. — Ele sentou no braço do sofá novamente.

 

   — Me lembro claramente de você dizer que não ia desistir. Que ia me dar um tempo, depois ia voltar, e ia fazer isso até a gente resolver.

 

   — Eu quero resolver agora.

 

   — Você não cumpre com sua palavra.

 

   — Ah vai se foder Kalfani.

 

   — Tá vendo como você é? Se eu não te perdoar agora você vai embora e pronto?

 

   — É.

 

   — Você não sabe mesmo pedir desculpas.

 

   — Do que você tá falando? Porra, eu te enviei sei lá quantas mensagens me lamentando por tudo o que fiz, fui atrás de você, me rastejei e tô aqui fazendo isso de novo. Nem sei se você merece tudo isso. — Ele franziu as sobrancelhas.

 

   — Sabe, todas essas vezes que você se "rastejou", eu não ouvi uma única vez você me pedir desculpas por ter tomado uma decisão sem mim.

 

   — Ah, então é isso? — Ele assentiu. — Você não ouviu e nem vai ouvir. Eu sei que fui uma imbecil, mas não preciso de você pra tomar minhas decisões.

 

   — A questão não é precisar, Sam. Nós somos um casal, a viagem era nossa, então eu tinha ao menos o direito de dar minha opinião.

 

   — Você deu sua opinião, e discordou de mim. Ah, quer saber? Esquece essa merda toda. — Me virei para ir embora mas ele me segurou pela cintura. Quando percebi estava parada em sua frente, e ele estava rindo.

 

   — Tá me achando com cara de palhaça? 

 

   — Na verdade, tô sim. — Ele continuou rindo.

 

   — O que é Kalfani?

 

   — Você é uma bobinha por achar que eu estava bravo por isso.

 

   — O que?

 

   — Eu fiquei com raiva por você ter voltado sem mim, mas eu entendo seu lado, sei que você queria ter certeza de que a Kate estava bem, e eu admiro muito o jeito com que você faz qualquer coisa pelas pessoas que ama. Eu sei que você faria a mesma coisa por mim.

 

   — Então por que você me disse tudo isso?

 

   — Queria ver até onde você chegava. — Fechei a cara. — Você tem o pavio muito curto.

 

   — Não acredito, seu filho da puta! — Soquei seu peito e ele se curvou para frente de tanto rir. — Esse tempo todo achei que você não queria nem olhar na minha cara. — Ele parou de rir e voltou a olhar para mim.

 

   — Na verdade eu não queria, mas você foi lá no show, e disse umas coisas tão fofas, e ficou tão segura que nem parecia você.

 

   — Você tá me testando desde aquele dia? 

 

   — Aham. E teria continuado se você não tivesse me provocado hoje.

 

   — Cara, você é o número um da minha lista negra.

 

   — Se eu também for o número um do seu coração, então nada mais importa.

 

Nós sorrimos ao mesmo tempo e depois nos beijamos. 

Ele me fez esquecer toda a raiva, todo o desespero e a dúvida que eu estava sentindo.

 

   — Senti tanto sua falta. — Falei com a testa encostada na sua.

 

   — Eu também. — Ele me abraçou e abracei de volta. — Nunca mais quero brigar, minha marrenta.

 

   — Faz tanto tempo que você não me chama assim.

 

   — Posso não chamar, mas você sempre vai ser. — Sorri e beijei sua bochecha. 

 

   — Tenho tanta coisa pra te contar.

 

   — Eu também tenho, mas primeiro quero você. — Ele voltou a me beijar.  — Adoro quando fazemos as pazes.

 



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