História Love Inside Out - Capítulo 19


Escrita por: ~

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Categorias A Feia Mais Bela
Personagens Fernando Mendiola, Letícia "Lety" Padilha Solís
Tags A Feia Mais Bela, Ferlety, Fernando Y Lety, La Fea Mas Bella, Lfmb, Romance
Exibições 184
Palavras 7.535
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Famí­lia, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Linguagem Imprópria, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 19 - Nossa Família


               Fernando já estava parado à porta do quarto há alguns minutos. Não conseguia parar de olhar para Letícia enquanto ela ninava Anna em seus braços. A sensação que surgia naquele momento era inigualável, e ele não se permitia sair antes que ela a colocasse no berço. Mas, Letícia parecia preocupada com algo, e Fernando logo notou em sua feição enquanto ela admirava a filha.

- Oi... – Ele sussurrou para não acordar a bebê.

               Letícia o olhou e sorriu triste.

- Algum problema?

               Ela não respondeu. Assim que ele perguntou, ela se levantou e com cuidado colocou Anna adormecida em seu berço. Depois de alguns segundos olhando-a aguardando se ela acordaria ou não, Letícia caminhou em direção à porta certificando-se de que ela realmente estava dormindo. Assim que saiu do quarto, ela parou ao lado de Fernando no corredor e suspirou pesadamente.

- Ela não está mamando. Desde que voltamos do hospital.

- E isso é normal? – Fernando perguntou preocupado.

- Não. Ela deveria estar mamando normalmente... Mas... Desde então tenho que usar a bombinha.

- E você já ligou para o médico?

- Já. Ele disse que é normal algumas vezes, mas que se persistir preciso voltar com ela para ver o que está acontecendo.

- Tenho certeza que não tem nada de errado. – Ele sorriu tocando em seus ombros.

- Eu só... Queria que estivesse tudo normal. Não queria que ela estranhasse dessa maneira.

- É só uma fase, amor.

               Letícia o olhou e sorriu de lado. No mesmo instante Sofia passou por eles e parou ao corredor olhando-os.

- Oi meu amor. – Letícia sorriu.

- Oi. – Respondeu com certo desanimo.

- O que está fazendo?

- Vou fazer o meu dever.

- Quer ajuda?

- Não. Eu consigo fazer.

               Sem esperar ela entrou para seu quarto, deixando Fernando e Letícia preocupados.

- O que deu nela? – Lety perguntou.

- Não sei. Está assim desde que acordei. Ela ficou na sala assistindo desenho e estava muito calada. – Fernando encostou-se à parede. – Será que está com ciúmes?

- Você acha?

- Não sei. Ela estava empolgada quando vocês chegaram, mas... Já faz três dias.

- Precisamos conversar com ela.

- Acho que precisamos ter um tempo para ela. E nesse tempo podemos conversar.

- Ótima idéia! Vamos perguntá-la o que ela gostaria de fazer hoje. Isso deve animá-la.

- Vamos!

               Os dois seguiram até o quarto de Sofia e quando pararam à porta, ela estava em sua cama fazendo o dever. Ao vê-los na porta, ela ergueu a cabeça mas não lhes deu atenção, voltando a olhar para o caderno sobre a cama.

- Oi gatinha. – Fernando se aproximou da cama. – Está precisando de ajuda?

- Não. Já estou boa em matemática. – Respondeu sem olhá-los.

- Ah... Isso é ótimo! – Letícia sorriu, sentando-se ao lado dela. – Então... Que tal se assistirmos um filme quando você terminar de fazer o seu dever?

               Sofia a olhou.

- De verdade?

- Claro! – Fernando sorriu. – Você pode escolher o filme que quiser!

               Sofia pela primeira vez desde que acordou, sorriu.

- Seria ótimo!

- Que bom que gostou da idéia! – Letícia sorriu. – Então... Vamos deixar que você termine o dever, e logo depois vamos assistir ao filme, tudo bem?

- Tudo!

               A garota pareceu animada, e Fernando e Letícia ficaram um pouco mais aliviados.

- Vamos deixá-la a sós para terminar o dever então... – Letícia se levantou. – Se precisar de ajuda, apenas nos chame.

- Tudo bem, mamãe. Obrigada.

- Não há de que, meu amor.

               Os dois saíram do quarto e quando chegaram ao corredor, suspiraram aliviados.

- Será que isso vai deixá-la um pouco mais à vontade? – Letícia perguntou. – Eu não faço idéia do que fazer!

- Calma. Só precisamos continuar dando atenção à ela.

- Eu me sinto péssima!

               Fernando a envolveu em um abraço.

- Eu não queria dar mais atenção à Anna do que para ela.

- Não estamos fazendo isso. Só... Precisamos dividir a atenção entre as duas. Sofia ainda é muito pequena para entender que Anna é apenas um bebê e precisa de um pouco mais de cuidado.

- Mas nós precisamos dar atenção à Sofia também.

- É claro!

               Letícia suspirou.

- Acha que vamos precisar de uma ajuda?

- Claro que não. – Fernando riu. – Vamos dar conta.

               Ela concordou e continuou abraçada à Fernando, pensando que ser mãe não era tão fácil quanto pensava, mas que ela estava disposta a aprender uma lição nova à cada dia.

 

 

 

•••

 

 

               Lety terminava de dobrar as roupas sobre a cama. Agora além de ter que ajeitar as roupas de Fernando e Sofia, também tinha que se preocupar em separar as roupas de Anna, que tinham de ser lavadas separadamente depois que ela recusou que Maria tivesse todo esse trabalho. Enquanto ajeitava as roupas sobre a cama, seu celular vibrou em seu bolso e ela rapidamente o atendeu, sem pausar o seu trabalho.

- Alo?

- Oi sumida!

               Era Carolina.

- Oi Carol! E então... Como estão as coisas?

- Eu que te pergunto! Já tem três dias que não tenho notícias de vocês! Como está minha afilhada?

- No momento dormindo como um anjo. – Lety riu.

- Eu já estou com saudades de vê-la.

- Pode nos visitar quando quiser. As portas estão abertas.

- Eu adoraria, mas alguém me abandonou na livraria sozinha com o novo funcionário. Preciso ensinar tudo à ele.

- É claro! – Lety riu.

- E qual é o motivo da falta de ligações? Mensagens? Ausência das redes sociais?

- Estamos muito atarefados.

- Atarefados? O que andam fazendo?

- Acredite... A profissão “mãe” é mais difícil do que pensa.

- Está tendo problemas com alguma coisa?

- Exceto que Anna não quer aceitar ser amamentada mais e que Sofia está com ciúmes dela? Não.

- Ah, Lety... Eu nunca tive a experiência de ser mãe para te acalmar, mas posso imaginar que sejam problemas normais dos primeiros dias, não é?

- Eu espero que sim. Estou em tempo de enlouquecer. – Letícia sentou-se pesadamente à cama. – Fernando está fazendo o possível para me ajudar, mas eu me sinto mal por isso, sabe?

- Mal por quê?

- Sobre a Anna, eu acho que tem algum problema comigo.

- Não diga isso, Lety. Acho que são coisas normais nos primeiros dias do recém nascido...

- E sobre a Sofi, eu sinto que deveria me dedicar mais. Mas ao mesmo tempo estou preocupada com o problema da Anna, e eu me sinto péssima com isso!

- Voce está precisando relaxar um pouco.

- Eu não tenho mais tempo de relaxar! – Exclamou eufórica. – Eu tenho mil coisas para fazer e não tenho tempo de descansar.

- Acho que alguém está ficando um pouco neurótica.

- Experimente ser mãe de duas crianças e você irá me entender.

- Ei, calma!

               Ela suspirou.

- Desculpe... Não queria dizer isso.

- Tudo bem. Sabe de uma coisa? Acho que você está realmente precisando relaxar. Por que não aproveita que Anna está dormindo e tem um tempo a sós com Fernando?

- E a Sofi? Precisamos dar atenção à ela.

- Façam um programa dos três então.

- Nós já planejamos. Estamos terminando ela...

               Letícia não pôde terminar a frase. No mesmo instante ouviu um choro agudo vindo do quarto ao lado.

- Preciso desligar. Anna acordou.

- Tudo bem. Me liga depois.

- Certo.

               “Se eu tiver tempo”, pensou ela.

- Até logo.

- Até!

               Lety jogou o celular sobre a cama e se apressou em ir ao quarto de Anna. Embora ela não tivesse o costume de chorar muito, naquele dia ela estava visivelmente inquieta, e Letícia não fazia idéia do que fazer.

- Calma, meu amor... – Lety a tirou do berço, aninhando-a em seu braço. – Está com fome? Será que dessa vez você vai aceitar?

               Enquanto a acalmava, Lety sentou-se à poltrona e tentou pela vigésima vez que Anna aceitasse mamar, mas mais uma vez, sem sorte.

- Ah, filha... Por que você está assim? – Perguntou levantando-se, tentando acalmá-la.

- Eu ouvi um choro de lá de baixo... – Maria parou à porta. – Está tudo bem?

- Tirando que ela não aceita mamar de jeito nenhum? – Letícia perguntou tensa.

- Ainda nada?

- Não. O que eu tenho de errado, Maria?

- Nada, Lety. Essas coisas são normais.

- Mas já faz quase três dias. Desde que saímos do hospital.

               Maria não lhe respondeu. Percebeu o quanto Lety estava preocupada e não quis piorar a situação.

- Acho que vou voltar para o hospital e saber o que eu preciso fazer...

- Oi! Precisa de alguma coisa? – Fernando parou à porta do quarto.

- Não! – Letícia respondeu um pouco impaciente. – Só preciso... Saber o que está acontecendo com ela.

- Mamãe... – Sofia parou ao lado de Fernando. – Já terminei minha lição. Podemos ver filme?

- Agora não, Sofi.

               Os três a olharam, mas ninguém se atreveu a dizer nada.

- Eu vou ligar para o médico e marcar uma consulta. Preciso saber o que está acontecendo com ela.

               Sem esperar uma resposta ou uma opinião, Letícia passou por eles saindo do quarto com Anna em seu colo. Fernando abraçou Sofia e olhou preocupado para Maria.

- Ela está enlouquecendo... – Maria comentou.

- Eu vou ver como ela está. – Fernando suspirou se afastando.

 

 

 

•••

 

 

 

- Que ótimo, Doutor! Eu chegarei em alguns instantes. Muito obrigada!

               Letícia desligou o telefone e finalmente pôde suspirar aliviada por uma boa notícia.

- Oi... – Fernando entrou em seu quarto. – Está tudo bem?

- Agora sim. Acabei de ligar para o Doutor Mateus e ele disse que tem um horário vago até as três.

               Ainda com Anna em seu colo, Letícia colocou a bolsa dela sobre a cama e começou a arrumá-la.

- Lety, você não acha que deveria se acalmar um pouco antes de fazer qualquer coisa?

- Eu estou calma, Fernando. Muito calma.

- Não, você não está.

               Ela o olhou.

- Está parecendo prestes à explodir.

- Não sei se você reparou, mas não é fácil fazer várias coisas ao mesmo tempo.

- Eu reparei sim. – Ele respondeu um pouco ofendido. – Eu também sou pai, e tenho as mesmas responsabilidades que você.

- Eu não quis dizer isso.

- Eu sei o que você quis dizer. – Ele suspirou. – As coisas não estão tão complicadas assim. Você quem está complicando elas.

- Ah... Entendi. Então agora o problema sou eu?

- Letícia! – Fernando aumentou a voz. – Meu Deus! Você precisa se acalmar!

- Eu estou muito calma! – Ela aumentou a voz e Anna voltou a chorar.

               Os dois ficaram em silencio e Letícia tentou acalmá-la, mas não poderia fazer isso quando ela mesma estava fora do normal.

- Deixa que eu fico com ela... – Fernando se aproximou pegando Anna em seu colo. Imediatamente ela parou de chorar, parecendo um pouco mais tranqüila.

- Ótimo! Agora eu faço minha própria filha chorar.

- Lety... Você precisa dar um tempo para você mesma. – Fernando a olhou com seriedade. – Você está aumentando um problema que é mínimo, e isso está te deixando péssima. E não adianta falar que não é verdade. – Ele disse assim que ela abriu a boca. – Eu vou levá-la nessa consulta, mas quero dizer pessoalmente ao Doutor Mateus como você está.

- E como é que eu estou?

- Fora de si! – Ele disse rapidamente. – Está se preocupando demais com varias coisas e na sua cabeça isso está virando um problema gigante! Eu já disse que estou aqui para te ajudar! Maria está aqui para te ajudar! Tudo o que nós estamos fazendo nesses dias que você e Anna vieram para casa é ajudá-la, e você parece querer resolver as coisas sozinha! Eu entendo e respeito sua preocupação com a situação da Anna e da Sofia, mas você precisa pensar que não está sozinha! Eu disse que estaria ao seu lado e eu não menti quanto à isso. Você precisa confiar em mim também!

               Ela não teve coragem de respondê-lo. Tudo o que ele disse era verdade, e de fato ela sabia que estava aumentando o problema. Mas embora já tivesse aprendido muitas coisas quando se tornou a mãe de Sofia, Letícia estava enfrentando o desafio de cuidar de duas crianças, ao mesmo tempo em que não sentia-se preparada para tudo isso. Ela amava sua família mais do que tudo no mundo, mas uma voz em sua cabeça dizia que ela não era capaz de cuidar de todos eles como ela queria, e isso a torturava à cada minuto.

- Pode terminar de arrumas as coisas... – Fernando disse um pouco mais calmo, olhando para Anna. – Aproveite que ela está mais calma.

               Dizendo isso, Fernando saiu do quarto, deixando Letícia a sós. Seus olhos encheram-se de lágrimas e tudo o que ela queria naquele momento era deitar sobre a cama e chorar. Mas, ela precisava resolver a situação de Anna, e o médico não a esperaria por muito tempo. Engolindo o choro e tudo o que Fernando lhe falou, ela terminou de arrumar a bolsa de Anna, decidindo se acalmar e resolver as coisas. Ao sair do quarto, ela desceu até o primeiro andar e ouviu Fernando conversar com Maria.

- Ela está assustada, apenas isso. – Maria disse à Fernando. – Logo ela vai se acostumar com essa rotina.

- Eu sei disso. – Fernando respondeu olhando para Anna. – Só quero que ela saiba que estamos aqui para ajudá-la, e que ela não precisa pensar que está fazendo tudo sozinha.

               Letícia sentiu o peso de sua consciência. De fato ela sabia que tinha a ajuda de Maria e principalmente de Fernando, e que desde que voltaram do hospital, os dois a ajudaram em tudo o que ela precisou. Mas, em sua cabeça, ela precisava resolver as coisas sozinhas para saber que era capaz de fazer isso, ainda que a pressão a deixasse completamente louca. Assim que Maria percebeu que ela estava à porta, sorriu tensa e Fernando virou-se para olhá-la.

- Já está tudo pronto. – Ela disse segurando a bolsa de Anna. – Nós... Podemos ir?

- Claro. – Ele se aproximou, entregando Anna para ela. – Deixa que eu levo a bolsa.

               Lety entregou a bolsa à Fernando e olhou para Anna, que estava adormecida em seu colo.

- Pode olhar Sofia por algumas horas, Maria? – Lety perguntou. – Nós não vamos demorar.

- É claro que sim.

- Obrigada. – Letícia sorriu. Queria agradecê-la mais de uma vez por saber que Maria estava ajudando  em tudo que estava ao seu alcance, mas ela não precisou fazer isso. Maria retribuiu o sorriso como se mostrasse que estava tudo bem.

               Antes de sair de casa, Letícia foi até a sala onde Sofia assistia ao seu filme favorito. Sentiu-se péssima por não ter cumprido a palavra de que passaria a tarde assistindo à um filme com ela, mas ela não poderia perder a oportunidade de uma consulta de ultima hora para Anna.

- Sofi...

               A garota a olhou, deitada ao sofá.

- Seu pai e eu vamos ao médico... Nós não vamos demorar, tudo bem?

               Ela não respondeu enquanto a olhava. Depois de voltar sua atenção para o filme Sofia apenas ergueu a mão fazendo sinal de positivo. Letícia pôde perceber um gesto típico de Fernando naquele momento, mas não quis piorar a situação. Obviamente Sofia estava chateada por não terem cumprido a promessa, mas ela pretendia se redimir quando voltasse do médico.

- Vamos? – Fernando a olhou parado à porta com as chaves nas mãos.

- Vamos. – Letícia olhou para Anna que ainda estava adormecida e o seguiu para fora de casa.

 

 

•••

 

 

 

- Está tudo perfeitamente bem com ela. – Doutor Mateus disse ao examiná-la. – Não há motivos para preocupação.

- Mas ela... Ela não quer amamentar... – Letícia o olhou apreensiva. – Isso não é algum problema comigo?

- De maneira alguma. – Ele sorriu tranqüilizando-a. – Isso pode se dar ao fato da mudança de hábitos. Ela se acostumou com o hospital nos primeiros dias, e estranhou o ambiente da casa, mas isso vai se resolver logo.

- Tem certeza que não tem um problema comigo?

               O médico riu.

- Lety... Eu sei que é normal que a mãe pense “tem algo de errado comigo” ou “meu próprio filho não gosta mais de mim”, mas acredite, essas coisas são normais.

- É que eu não agüento mais usar aquela porcaria de bombinha! – Ela desabafou.

- Eu sei. Posso imaginar. Mas, continue tentando. Se ela não teve problema desde quando nasceu, é porque provavelmente só está estranhando o novo ambiente. Barulhos, ruídos... Isso tudo influencia.

- Então... O que eu posso fazer?

- Continuar insistindo, até ela perceber que está em um ambiente próprio para ela. Você está fazendo isso em um lugar tranqüilo? Próprio para ela?

- Estou fazendo no próprio quarto dela.

- Então espere que em algum momento ela vá se acostumar, não se preocupe.

               Letícia suspirou olhando para Anna.

- Está tendo algum problema em casa? Discussões com o marido? Ou algo parecido?

- Não, de maneira alguma. – Letícia respondeu rapidamente.

- Então não há problemas. E também vou receitar algo para você...

- Para mim?

- Sim! – Ele se inclinou sobre a mesa. – Você precisa se acalmar um pouco.

               Lety o olhou surpresa.

- Eu sei, não é um aconselhamento de um profissional, não é? – Ele riu. – Mas desde que Anna nasceu e eu fui o escolhido para ser o seu médico, eu me sinto de certa forma parte da família.

               Lety sorriu com o comentário.

- E sinceramente... Eu entendo que seja um pouco complicado nos primeiros dias, mas eu tenho certeza que você pode contar com a ajuda de alguém, não é?

- Sim. – Ela respondeu rapidamente. – Tenho bastante ajuda.

- Por isso eu digo que você precisa se acalmar. Não precisa se sobrecarregar dessa maneira. Eu sei que parece que tudo cai sobre você no momento que você pensa “eu sou a mãe, eu preciso resolver as coisas”, mas não é exatamente assim. Sei que você pode contar com a ajuda do seu marido e de outras pessoas que estão em sua volta. Anna está com a saúde perfeita, e é isso que importa, não é?

- Sim. – Lety suspirou satisfeita. – É exatamente isso que importa.

- Então se dê o tempo necessário. As coisas vão se resolver.

               Letícia sentiu que estava ouvindo um conselho vindo dos céus. Embora Fernando indiretamente tenha dito isso enquanto tentava acalmá-la, ouvir do profissional que cuidava de sua filha também a tranqüilizava.

- Obrigada, Doutor. – Ela sorriu. – Eu vou me lembrar disso.

- Não há de que. – Ele retribuiu o sorriso. – Agora... Acho que essa princesinha precisa se acostumar com o novo quarto, não é?

- Claro! – Letícia riu, levantando-se. – Mais uma vez, muito obrigada.

- Se precisar de alguma coisa, pode me ligar.

- Pode deixar.

- Até logo.

- Até.

               Letícia seguiu em direção à porta e ao sair do consultório, suspirou aliviada. Sua maior preocupação é que houvesse algo errado com ela ou que Anna estivesse com algum problema, e ao saber que tudo isso não passava de coisas de sua cabeça, foi como se um peso enorme deixasse seu corpo. Ao virar no corredor, ela viu Fernando sentado parecendo entediado e ao mesmo tempo preocupado, e quando a viu, ele se levantou rapidamente.

- E então? – Ele perguntou olhando-a.

- Ele disse que está tudo bem com ela. E comigo.

               Fernando sorriu aliviado.

- Eu disse, não é?

- Ele disse que talvez ela esteja estranhando o ambiente, e que eu preciso ter um pouco mais de paciência.

- Isso é ótimo. Agora já sabe que não tem nenhum problema com as duas.

- É... – Ela sorriu e olhou para Anna. – Eu... Te devo desculpas. – Disse voltando sua atenção para Fernando. – Eu estou sendo imatura e... Não é justo que eu desconte minhas frustrações em você.

- Não... – Fernando se aproximou tocando em seu rosto carinhosamente. – Eu disse que estaria ao seu lado, independente se você esteja louca ou não.

               Letícia riu.

- É, eu sei. É que... Eu sinto à todo o tempo que eu preciso resolver as coisas, sabe? Eu sei que você e Maria estão me ajudando em tudo o que eu preciso, mas é que... Eu sinto que a maior parte da carga está sobre mim.

- Mas não está. – Ele disse carinhosamente. – Estamos juntos nessa, e tudo o que você precisar eu irei te ajudar.

- Eu sei. – Ela sorriu. – E obrigada por isso.

               Fernando se aproximou e lhe deu um rápido beijo, no mesmo instante em que Anna se mexeu nos braços de Lety.

- Acho que temos uma ciumenta por aqui. – Fernando brincou.

- Vamos embora. – Lety riu. - Ainda temos que passar o restante da tarde com Sofia.

- Bem lembrado. – Fernando pegou a bolsa de Anna sobre o banco. – Vamos.

               O caminho até em casa foi muito mais tranqüilo do que a ida até o hospital. Um pouco porque ambos estavam aliviados por Anna estar bem e com ótima saúde, e muito porque Letícia sentia-se mais leve depois de perceber que estava tentando carregar todos os problemas em suas costas, sendo que ela tinha a ajuda de todos em sua volta. Ela estava disposta a relaxar um pouco mais, e ao invés de sentir o peso enorme de ser mãe de duas crianças, ela aproveitaria isso, e da melhor maneira possível.

               Assim que chegaram em casa, Letícia saiu à procura de Sofia enquanto Fernando levava Anna para o quarto. Ela procurou pela garotinha por toda à casa, até perceber que ela estava no banho. Assim que parou à porta do banheiro e ouviu o barulho do chuveiro, Letícia entrou com cuidado para não assustá-la. Sofia a olhou, mas não lhe deu atenção, continuando a passar o xampu em seu cabelo.

- Quer ajuda? – Letícia perguntou.

- Não. – Respondeu com certa frieza. – Já terminei.

               Letícia não quis dizer nada, mas assim que Sofia desligou o chuveiro com metade do cabelo repleto de sabão, teve que se segurar para não rir. Ao mesmo tempo em que queria deixar claro à Sofia que nada tinha mudado, e que Fernando e ela a amavam como sempre, ela deixou que Sofia se sentisse independente por pelo menos um tempo, assim como ela desejava.

- Pode me passar a toalha, por favor? – A garota pediu indiferente.

- É claro. – Letícia lhe entregou a toalha. – Seu cabelo ficou ótimo!

- Obrigada.

               Letícia prendeu o riso. Ainda havia sabão por todo o cabelo de Sofia, mas ela não quis lhe desanimar dizendo isso.

- Consegue escolher suas roupas sozinha também?

- Consigo.

- Que bom!

               Letícia a acompanhou de volta ao quarto e Sofia abriu sua gaveta, procurando por uma roupa ideal para colocar. Lety percebeu que ela não fazia idéia de qual era a gaveta de pijamas, e principalmente que não sabia que o seu pijama preferido estava recém lavado, e que Letícia estava com ele.

- Precisa de ajuda? – Perguntou divertida sentada à cama.

- Não. – Sofia respondeu pegando a primeira roupa que viu em sua frente. – Já consegui a roupa que queria.

- Ah... Que bom então – Lety sorriu e a observou vestir a roupa.

               Sofia teve um pouco de dificuldade para conseguir colocar a roupa, principalmente porque estava colocando-a do lado contrário, mas ela preferiu não dizer nada. Ela estava claramente com raiva por seus pais não terem cumprido com a promessa de passar a tarde com ela, mas Lety esperava que ela se acalmasse para se desculpar e se redimir por isso.

- Ficou ótimo, meu amor. – Lety sorriu olhando-a.

               A garota não respondeu. Olhou para o seu próprio reflexo no espelho e torceu a boca. A calça que havia escolhido estava do avesso, e a blusa que colocou era nova e estava do lado errado. Mas, para não admitir que não conseguia fazer as coisas sem a ajuda de Lety, ela forçou um sorriso e olhou vitoriosa para a mãe.

- Eu já estou grandinha o suficiente para fazer minhas próprias coisas.

- Eu estou vendo. – Lety sorriu. – Então acho que não vou precisar mais te ajudar a escolher as roupas e nem te ajudar no banho, não é?

- Não. – Sofia tocou em seu cabelo, que estava totalmente embaraçado e oleoso por conta de toda a espuma que ela deixou após sair do banho. – Eu estou muito bem assim!

- É isso que importa. – Lety se levantou. – Então não precisa de ajuda para descer e jantar também?

- Não.

- Tudo bem. Seu pai e eu estamos te esperando no primeiro andar.

               Sofia olhou para Lety e pensou em dizer algo, mas permaneceu em silencio. Embora Fernando não fosse seu pai biológico, era claro a genética da família. Sofia era orgulhosa como ele.

 

 

•••

 

 

               Letícia desceu para o jantar após certificar-se de que Anna estava adormecida. Com a babá eletrônica em uma das mãos, ela entrou à sala de jantar e Fernando havia acabado de arrumar a mesa.

- Onde está a Maria? Já foi?

- Sim. – Fernando a olhou. – Acabou de sair.

- Ah... – Letícia sentou-se à mesa. – Eu estava pensando em comprar alguma coisa para ela amanhã, mas não faço idéia do que comprar.

- É aniversário dela?

- Não. Só queria agradecer por ela nos ajudar tanto.

               Fernando sorriu.

- Isso seria ótimo.

- Sim! – Letícia colocou a babá eletrônica ao seu lado.

- Onde está a Sofi? – Fernando olhou para os lados.

- Está descendo.

- Você não a esperou?

- Não. – Respondeu sorrindo. – Ela está sendo independente agora.

               Fernando não entendeu a resposta de Letícia até Sofia aparecer à sala, com as roupas ao avesso e o cabelo para cima, completamente bagunçado. Depois de juntar todas as forças para conseguir prender o riso, Fernando acompanhou a filha dar a volta à mesa, sentando-se o mais afastando possível dos dois.

- Boa noite, Senhorita. – Fernando a olhou. – Quer que sirva o seu jantar?

- Ah não, amor. – Letícia respondeu rapidamente. – Ela é uma garotinha crescida agora, consegue colocar o próprio jantar, não é Sofi?

               Sofia deu um longo suspiro e se levantou, aproximando-se de onde a comida estava sendo servida.

- Sim! Eu consigo.

               Fernando entregou um prato à ela e observou divertido a dificuldade de Sofia em colocar a comida ao prato. Letícia estava da mesma maneira, mas nenhum dos dois disse absolutamente nada. Metade da comida caiu sobre a mesa e a outra metade se misturou com  no restante no prato. Parecendo satisfeita com isso, Sofia voltou para o outro lado da mesa e sentou-se, de cara amarrada.

- Não quer se aproximar? – Letícia perguntou olhando-a.

- Não. Estou bem aqui. – Disse dando uma fincada no macarrão em seu prato.

               Letícia e Fernando sorriram e serviram o próprio jantar.

- Sabe, Fernando... Eu estava pensando. Já que Sofia agora é uma mocinha e não precisa da nossa ajuda mais, acho que ela poderia começar a ir sozinha para a escola, não acha?

- Ótima idéia, meu amor.

- Ir sozinha? Até a escola? – Ela os olhou abismada. – Mas vocês sempre dizem que é perigoso uma criança andar sozinha na rua.

- Ah, mas você não é mais criança. – Fernando sorriu.

- Eu tenho nove anos!

- Então já é uma mocinha! – Letícia disse. – Já está na idade de ir sozinha para a escola.

               Por um tempo Sofia pensou em continuar com sua indignação, mas logo cruzou os braços parecendo decidida.

- Eu consigo ir sozinha. – Disse com a voz firme. – Não preciso que o papai me leve mais.

- Viu só? – Letícia olhou para Fernando. – Eu tenho tanto orgulho da nossa garotinha. Está crescendo tão rápido.

- Logo vai poder morar sozinha. – Fernando sorriu.

- Morar sozinha? – Ela perguntou indignada. – Mas quem vai me colocar para dormir?

               Os dois a olharam, esperando que ela mesma respondesse sua pergunta.

- Ótimo! – Respondeu brava, jogando o garfo sobre o prato. – Se querem saber, eu vou me mudar hoje mesmo! Vou morar sozinha e vocês não vão precisar se preocupar comigo mais.

               Fernando e Letícia ficaram em silencio e observaram a garota sair da mesa e caminhar à passos firmes, saindo da sala de jantar. Assim que ficaram a sós, os dois gargalharam e Letícia se levantou.

- Acho que já está de bom tamanho. – Disse ainda rindo. – Eu vou conversar com ela.

               Ao subir as escadas e sair no corredor, Letícia escutou a voz abafada de Sofia, parecendo conversar sozinha. Em silencio ela se aproximou da porta e viu que ela estava com a mochila sobre a cama, guardando algumas roupas. Letícia prendeu o riso, mas continuou parada à porta enquanto ela falava sozinha.

- Se eles querem que eu more sozinha, então eu vou morar sozinha! Já está mais do que claro que não me querem mais nessa casa! – Resmungava enquanto guardava uma roupa qualquer em sua mochila.

- Vai à algum lugar? – Lety perguntou cruzando os braços.

- Vou morar sozinha! – Sofia disse sem olhá-la. – Já que vocês não me querem aqui, eu vou procurar um lugar.

- Nós não dissemos que não te queremos aqui. Só dissemos o que você disse o dia inteiro, que consegue fazer as coisas sozinha. – Respondeu calmamente. – Você não diz que está grandinha demais para isso?

- E estou. – Respondeu olhando-a. – Eu consigo fazer as coisas sozinha!

- Isso é ótimo. – Letícia sorriu e se aproximou. – Quer que eu te ajude a arrumar sua mochila?

               Sofia a olhou perplexa.

- Você sabe... Precisa levar roupas de frio. Nunca se sabe se faz frio para onde você vai.

               Ela não respondeu. Letícia pegou algumas roupas de dentro da gaveta e as colocou dentro da mochila.

- Quer algo para comer também? Se for um lugar longe, pode ter fome ate chegar lá.

               Mais uma vez Sofia não respondeu.

- Eu vou pegar algumas frutas...

 - Não. – Sofia a interrompeu. – Não preciso de comida para... Onde eu vou.

- Ah, que ótimo! – Lety sorriu. – Então por que não vai se despedir da sua irmã enquanto termino de fazer sua mochila? Aposto que ela vai sentir saudades de voce.

               Sofia a olhou estranhamente e então caminhou até a porta do quarto, dando uma ultima olhada para Letícia. Enquanto estranhava a reação de sua mãe, Sofia foi até o quarto de Anna e se aproximou do berço, olhando-a dormir.

- Eu preciso ir... – Ela sussurrou apoiando-se na ponta dos pés para conseguir alcançar o berço. – Eles ficarão melhor sem mim. Nessa casa não cabe duas crianças, e você obviamente vai ficar com o meu quarto. Mas não se preocupe. Eles são pessoas legais e você vai gostar deles.

               Por um instante Sofia olhou para a irmã e sentiu algo diferente. Ela não queria se afastar dela. Embora Anna ainda fosse pequena demais para entendê-la, a ligação que as duas tinham era notável desde o primeiro dia que se conheceram. Sofia fazia questão de ajudar Letícia com todas as coisas relacionadas à ela, mas chegou um momento que ela se sentiu de certa forma uma intrusa na casa, e embora estivesse estranhando o comportamento dos pais em aceitar tranquilamente que ela tivesse “crescido”, ela não conseguia deixar de sentir-se triste com tudo isso.

- Você pode ficar com meus brinquedos. E pode ficar com minhas bonecas. Um dia eu volto...

               Dizendo isso, Sofia beijou a palma da mão e a colocou carinhosamente sobre o rosto de Anna, que continuava à dormir. Assim que virou-se para sair do quarto, Fernando estava parado à porta com as mãos no bolso.

- Então... Você estava se despedindo? – Perguntou olhando-a.

- Sim. – Ela respondeu firme. – Eu já estou indo embora.

- Ah... Está indo embora... – Ele sorriu. – Então, boa sorte. Não se esqueça de nos ligar e nos manter informados.

               Sofia novamente estranhou a reação de Fernando, mas passou por ele decidida de que deveria “ir embora”. Assim que chegou ao corredor, Letícia estava com sua mochila em mãos, parecendo totalmente tranqüila com aquela situação.

- Coloquei tudo o que precisa aqui.

- Obrigada. – Sofia pegou a mochila e assim que a pegou, a deixou cair no chão com o peso.

- O que foi? Está muito pesada? – Lety perguntou.

- Não. Está muito bem assim.

               Com dificuldade ela tirou a mochila do chão.

- Então... Eu já vou.

- Tchau, meu amor. – Letícia se abaixou para beijá-la. – Assim que encontrar um bom lugar para ficar, nos ligue, tudo bem?

               Sofia estranhou aquele conselho, mas preferiu não dizer nada.

- E sabemos que você não vai precisar nos pedir isso, mas se precisar de alguma coisa, pode nos ligar ou mandar uma carta, dependendo de onde esteja. – Fernando sorriu.

               Mais uma vez Sofia não respondeu. Apenas virou-se e com dificuldade por conta do peso da mochila, ela caminhou em direção à escada. Assim que terminou de descer todos os degraus com cuidado para não se enrolar e cair pela escada à fora, ela parou à porta e olhou para a escada, onde Fernando e Letícia estavam parados olhando-a. Depois de dar um longo suspiro, ela saiu pela porta, caminhando em direção ao jardim.

- Até onde vai deixar ela ir? – Fernando olhou para Lety.

- Ela não vai muito longe. – Ela riu. – É melhor você a seguir. Escondido.

               Fernando sorriu divertido e com cuidado para não fazer barulho, desceu as escadas.

 

 

•••

 

 

               Sofia estava frustrada por seus pais não terem lhe impedido de fugir de casa. Ela esperava que toda aquela cena fosse adiantar de alguma coisa, mas tudo o que ela conseguiu foi piorar ainda mais a situação. Ao sair pelo portão de casa, que estava estranhamente aberto, ela olhou para a rua que estava iluminada com a luz dos postes. Não havia uma alma viva por ali, e o medo começou a perturbá-la. Sua mochila estava estranhamente pesada, e a única coisa que ela conseguiu fazer foi caminhar apenas alguns metros de distancia de sua casa. Assim que percebeu que foi o mais longe que ela andou sem a companhia de um adulto, ela parou escorando-se ao muro de uma das casas, colocando sua mochila no chão. Arrependida por ter feito tudo isso, ela suspirou desanimada querendo voltar para casa no mesmo instante. Por mais que ela se sentisse mal com toda a situação de Fernando e Letícia lhe darem menos atenção depois que Anna chegou em casa, ela não falou sério quando disse que já era grande o suficiente para fazer suas próprias coisas. Ela queria a ajuda deles, e principalmente, queria que os dois a tratassem como criança, que de fato ela era.

               Depois de sentir-se totalmente arrependida pelo que fez, Sofia abaixou-se ao chão chorando, abrindo sua mochila. Tentou procurar o que poderia ajudá-la naquele momento, mas logo percebeu que nenhuma das roupas que ela havia colocado na mochila estavam ali. Ao contrário do que imaginou, dentro de sua mochila havia vários livros pesados e alguns pesos de academia que Fernando usava para malhar pela manhã. Ao estranhar os objetos dentro de sua mochila, Sofia limpou as lágrimas que rolavam em seu rosto e logo viu alguém se aproximar. Antes que pudesse se assustar pensando ser alguém desconhecido, ela rapidamente reconheceu Fernando, e não pôde deixar de suspirar aliviada por isso.

- Oi. – Ele sorriu quando se aproximou. – E então... Já desistiu de morar sozinha?

               Sofia desabou a chorar e colocou as mãos no rosto, balançando a cabeça afirmando.

- Eu não quero morar sozinha, papai!

               Fernando sorriu e se apressou em abraçá-la, carregando-a em seu colo.

- Nós sabemos disso. – Ele a acalmou com um abraço.

- Vocês sabiam? – Ela o olhou ainda chorosa.

- Claro que sim. – Fernando limpou as lagrimas dela. – Nós não deixaríamos que você saísse de casa em momento algum.

- Mas... Vocês disseram...

- Nós só estávamos concordamos com o que você disse. Você não disse que já é grandinha demais para fazer suas próprias escolhas?

- Mas eu não sou, papai. Eu ainda sou criança! Eu tenho apenas nove anos e eu adoro morar com vocês. Eu não quero morar sozinha, e não quero tomar o meu banho sozinha, e também não quero colocar o meu jantar sozinha. Eu quero que vocês me ajudem com tudo, principalmente com o dever de casa. E eu não quero ficar grande! Nunca!

               Fernando riu e voltou a abraçá-la.

- Você vai ficar grande um dia, mas não precisa ter pressa para isso. Nós ficamos felizes em ajudá-la com tudo.

               Sofia soluçou enquanto apertava o abraço.

- Agora vamos. Vamos voltar para casa antes que sua mãe fique preocupada.

               Fernando pegou a mochila de Sofia enquanto a carregava e logo reclamou do peso.

- Meu Deus! Essa mochila está mais pesada do que você! – Ele a olhou. – O que foi que você colocou aqui?

- Não fui eu. – Ela riu.

- Acho que precisamos repensar na sua idade. Uma criança de nove anos não conseguiria carregar uma mochila pesada assim.

               Sofia gargalhou e Fernando sorriu satisfeito ao vê-la sorrir. Ainda carregando-a, ele voltou para casa, que não estava muito distante. Assim que entraram em casa, Letícia estava parada à escada esperando pelos dois. Assim que Fernando colocou Sofia no chão, ela correu em direção à Lety e a abraçou.

- Eu não quero ir embora, mamãe. Eu quero ficar aqui com vocês. E eu quero que você me ajude com o banho, e com as roupas, e com o dever.

               Letícia sorriu satisfeita e se abaixou, olhando para Sofia.

- Então já desistiu de que é grandinha demais para morar sozinha?

- Sim! Eu não quero morar sozinha! Eu quero ficar com vocês pra sempre!

               Lety riu e passou a mão nos cabelos da garotinha.

- Primeiro vamos dar um jeito nesse cabelo. Ainda tem metade de shampoo aí.

               Sofia gargalhou e Letícia sorriu, feliz em vê-la gargalhando.

 

 

•••

 

 

 

               Depois de tomar um banho digno, Sofia deitou-se animada em sua cama e Lety sentou-se ao seu lado, cobrindo-a.

- E então... Podemos conversar sobre o que aconteceu? – Ela perguntou olhando-a.

               O sorriso de Sofia diminuiu e Letícia segurou sua mão.

- Por que você teve a idéia de fazer tudo sozinha?

- Eu achei que vocês não precisariam se preocupar comigo. – Ela a olhou magoada. – Agora Anna está em casa e vocês precisam se preocupar mais com ela.

               Lety se aproximou ainda mais, dessa vez tocando no rosto dela com carinho.

- Em momento algum nós iremos dar mais atenção à uma do que à outra, meu amor. Vocês duas são nossas filhas, e nós amamos as duas na mesma intensidade.

- Mas a Anna é... Você sabe... Sua filha de verdade.

- E você também é. – Letícia disse rapidamente. – Olhe só... – Ela pegou uma moldura que havia sobre a cômoda de Sofia. – Você sabe o que é isso, não é?

- O meu premio no campeonato de soletrar. – Ela respondeu orgulhosa.

- E o que está escrito aqui bem grande?

- O meu nome.

- E qual é o seu nome?

- Sofia Mendiola Ribeiro Padilha.

- Viu só? Isso quer dizer que você é sim nossa filha, e que nós somos seus pais, e nós te amamos muito, muito mesmo!

               Sofia sorriu.

- E não quero que você duvide disso jamais.

- Eu pensei que... Vocês não teriam tempo para mim mais.

- Eu sei que as coisas parecem um pouco complicadas no inicio, mas... Tudo vai se resolver. E eu quero me desculpar por hoje.

- Por quê?

- Nós prometemos que teríamos uma tarde juntos e acabou não dando certo nossos planos.

- Ah... Eu sei que Anna precisava ir ao médico.

- Sabe?

- Sim. Maria me disse.

               Lety sorriu.

- Viu só? Você é compreensiva, e isso é lindo. Mas ainda assim, nós estamos em débito com você.

               Fernando parou à porta do quarto no mesmo instante, prestando atenção na conversa.

- E nós decidimos que amanhã você poderá escolher um lugar para fazermos um passeio.

- Qualquer lugar? – Ela perguntou empolgada.

- Qualquer lugar. – Lety sorriu.

- Podemos ir àquele parque de diversões? Ah mamãe, por favor! Eu estou louca para ir!

               Lety riu.

- É claro que sim, meu amor. Passaremos um dia em família lá.

- E Anna pode ir também!

- Claro que sim!

               Sofia pareceu satisfeita, ajeitando-se à cama.

- Então... Está tudo bem agora? – Lety perguntou.

- Sim! Mais do que bem!

               Fernando riu e se aproximou da cama.

- Eu disse que ela é uma garota esperta. – Ele abaixou-se ao lado dela na cama. – E nunca mais quero que pense que ficaremos bem sem você aqui. Hoje nós estávamos te vigiando, mas você não pode sair de casa sozinha.

- Eu sei. – Ela suspirou. – E eu fiquei com medo de ficar sozinha.

- Foi por isso que tirei todas as suas roupas e coloquei coisas pesadas dentro da sua mochila. – Lety disse sorrindo.

- Foi você que fez isso? – Sofia perguntou surpresa.

- Claro! Eu não poderia deixar você ir longe.

               De repente Lety foi surpreendida com um abraço. Satisfeita com a atitude de Sofia, e aliviada por ela ter entendido tudo o que aconteceu, ela retribuiu o abraço.

- Obrigada, mamãe.

- Eu te amo, meu amor. – Lety disse sincera.

- Eu também te amo.

               Fernando sorriu emocionado com a cena, e assim que separaram o abraço, fingiu estar emburrado.

- E eu também não ganho um abraço? – Perguntou.

- Claro, papai! – Sofia gargalhou e o puxou para um abraço apertado. – Eu também te amo!

- Eu também, gatinha. – Ele sorriu retribuindo o abraço.

- Bom... Então podemos ir dormir tranqüilos? – Letícia se levantou. – Você vai ficar quietinha na sua cama, não é?

- Eu não vou a lugar nenhum. – Ela disse ajeitando a coberta sobre seu corpo.

- Ótimo. – Lety se inclinou para beijar sua testa. – Boa noite, meu bem.

- Boa noite, mamãe.

- Boa noite, Sofi. – Fernando fez o mesmo.

- Boa noite, papai.

               Os dois se afastaram e pararam à porta do quarto, olhando satisfeitos para Sofia. Assim que Fernando apagou a luz, eles caminharam até o corredor e Letícia suspirou aliviada, escorando-se à parede.

- Você trancou o portão, não é? – Ela perguntou apreensiva.

- Sim. – Fernando riu.

- E acionou o alarme? E trancou a porta de dentro?

- Lety, eu tranquei tudo. Não se preocupe. – Respondeu divertido.

- Eu fiquei com tanto medo dela pensar que não estávamos ligando para ela. – Ela sussurrou.

- Você foi ótima. – Fernando sorriu se aproximando. – Agora ela entende que nós a amamos.

- Achei que ia ter um troço quando você saiu atrás dela. Comecei a pensar que tinha feito uma coisa errada e que... Ela poderia estar em perigo.

- Eu estava vigiando ela o tempo inteiro. Não precisava se preocupar com isso.

               Mais uma vez ela respirou aliviada.

- Você é uma ótima mãe. – Ele a olhou com ternura. – E eu estou orgulhoso de você.

               Letícia sorriu.

- Obrigada.

- Você está melhor?

- Muito melhor.

- Então que tal se nós descansássemos enquanto Anna ainda está dormindo?

               Os dois sorriram maliciosos, mas antes que pudessem se beijar, ouviram um choro vindo do quarto em frente. Fernando suspirou desanimado e afastou-se de Letícia, que não conseguiu prender o riso.

- Eu volto em um instante.

- Eu vou tomar um banho gelado enquanto isso.

               Ela riu do comentário e caminhou até o quarto de Anna. Fernando seguiu até o banheiro do seu quarto para tomar um banho, e enquanto isso, não pôde deixar de se sentir satisfeito com todas as coisas boas que estavam acontecendo. Durante aqueles dias ele temeu que Letícia se sentisse pressionada e atarefada, mas finalmente as coisas estavam voltando ao normal. Sofia havia entendido que eles não a deixariam de lado depois de chegada de Anna, e Lety sentia-se mais segura quanto ao fato de ser mãe de duas crianças. Ao sair do banho, ele se vestiu e saiu à procura de Letícia, que ainda não tinha voltado para o quarto. Ao parar à porta do quarto de Anna, ele sorriu ao vê-la sentada à poltrona, amamentando a bebê.

- Ela aceitou. – Letícia o olhou contente. – Finalmente.

               Fernando sorriu satisfeito e se aproximou, com cuidado para não atrapalhar. Ele se abaixou ao lado de Letícia e ela voltou sua atenção para sua filha em seus braços, que aceitou ser amamentada sem problema algum.

- Temos tanta sorte... – Comentou enquanto olhava para Anna.

- Muita. – Ele respondeu em voz baixa. – E eu ainda mais.

               Lety o olhou.

- Além de ter duas filhas maravilhosas, tenho uma esposa incrível.

               Ela sorriu satisfeita e o olhou apaixonada.

- E eu não sei o que fiz para merecer um homem tão maravilhoso como marido e pai das minhas filhas.

- Bom... Você assinou alguns papéis dizendo que queria isso. Mesmo que por obrigação.

               Os dois prenderam o riso e logo ela fez sinal para que ele fizesse silencio, assim que Anna se mexeu em seu colo.

- E acredite... – Ela respondeu em voz baixa. – Foi a melhor decisão que tomei.

               Fernando sorriu satisfeito. Não precisou respondê-la. Letícia já sabia o quanto ele a amava e o quanto era grato por ela ter lhe dado uma família tão linda. E ela pensava da mesma maneira. Nenhum dos dois imaginava que um casamento que começou por uma obrigação, se tornaria na melhor escolha que ambos fizeram, resultando em uma família tão linda e tão amada.


Notas Finais


Eu sei que o capítulo foi um pouco "docinho" demais, mas precisava mostrar como eles estão felizes com a família haha. Mas não se preocupem, a partir do próximo capítulo as confusões voltam. Já estava na hora, não é? (pequeno spoiler) hihi


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