História Lua de Sangue - Capítulo 30


Escrita por: ~

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Categorias Demi Lovato, Wilmer Valderrama
Tags Darissa, Dilmer, Lobos, Romance, Teen Wolf, Terror
Exibições 56
Palavras 3.944
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Ficção, Ficção Científica, Mistério, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Sobrenatural, Terror e Horror
Avisos: Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 30 - Cansei de respeitar o seu espaço.


“Ao passar dos dias a gente se acostuma com a falta, o vazio, o tempo, a falta de tempo, com o que nos deixa vazios, e a gente se preenche. Com o tempo a gente segue, com o coração, sem o coração, sendo doce, amargo, sendo frio, bem quente. A gente só segue e com o tempo, não sente mais.”

Cruzar o deserto foi mais fácil do que sair do acampamento. O olhar de descrença e desprezo do Wilmer nunca será apagado de minha mente quando matei o Tyler. Durante a nossa "fuga" ele não olhou nenhuma vez em meus olhos e tampouco disse alguma coisa a respeito. Este, mesmo ferido, dirigiu um dos veículos do acampamento onde estávamos e resolvi não contestar, apesar de tudo, ele conhecia o caminho. 

O percurso foi silencioso e, por diversas vezes, paramos em conveniências de postos de gasolina. Wilmer comprou uma nova peça de roupa para mim e para ele, sua blusa estava encharcada de sangue podre e mesmo que não disse nada, eu sentia sua dor.

Dormimos no veículo durante quatro dias seguidos, parando poucas vezes. Wilmer enfrentava o seu luto, pois, de certa forma, tudo aquilo era importante para ele. Saber o que de real Virgínia queria, quebrou sua confiança e provavelmente arruinou os momentos bons e os ensinamentos dela. Ao passo que eu tentava realmente me entender e, pela primeira, aceitar tudo o que aconteceu e não apenas amontoar em um baú de memórias, pois, como visto, algum dia, alguém irá o abrir e, consequentemente, ficarei vulnerável.

 A melhor maneira de lidar com os temores é enfrenta-los e usá-los como armaduras, antes que os inimigos os usem, sem nenhuma piedade. Portanto, no final, estávamos na mesma e, provavelmente, por isso respeitamos o silêncio e o espaço do outro. O mutismo entre nós não era incomodo, mesmo que no fundo eu sentisse a necessidade de esclarecer algumas coisas com ele, ambos estávamos respeitando as dores do outro e a forma individual de lidar. 

Nesta noite, em especial, não dormimos no veículo, mas em um motel de estrada. Wilmer alugou dois quartos, um ao lado do outro, e quando ele foi me entregar a chave, não se deu o trabalho de erguer seus olhos - estes sempre à espreita de mínimos detalhes e vibrantes da sua maneira -, ele se manteve cabisbaixo e caminhou até o quarto com uma sacola de utensílios para autocirurgia, quanto a isso resolvi não me intrometer, o seu olhar já dizia que não me queria por perto e tampouco queria me ajuda, caso contrario teria solicitado, mesmo sendo orgulhoso.

A insônia esteve presente naquela noite, o colchão sobre a cama de molas, sem dúvidas, era melhor que o estofado de couro e duro do carro. Além disso, diferente dos demais dias em que o cansaço estava impregnado em minha pele, dessa vez eu acabei pensando por demais. Acontece, contudo, que a agonia do Wilmer no quarto ao lado se foi percebida por mim. Ele grunhia de dor tentando retirar o projétil, o cheiro de sangue e o seu tecido apodrecendo foi sentido por mim - todos meus sentidos estavam apurados e, pela primeira vez, eu conseguia me controlar de fato -, o que me fez concluir que não era uma bala de prata e tampouco uma bala comum, levava o indivíduo à morte aos poucos, por mais que Wilmer havia me dito que aquilo não era nada demais. 

Saio do quarto, batendo em demasia na porta ao lado, aos gritos.

— Wilmer, por favor, me deixe te ajudar — Nada veio em resposta. — Wilmer, por favor. 

Eu repeti isso diversas vezes e o outro se manteve calado e o único som que eu conseguia ouvir era da sacola de plástico. Aquilo era agoniante.

— Por favor, Valderrama. — Comprimo meus lábios, estalando a língua ao perceber que ele não atenderia a porta. — Caralho, Wilmer isso é sério, não aja como...

Antes que eu pudesse completar a frase, a porta abriu revelando Wilmer, sem sua blusa e com uma gaze envolvendo a região do diafragma. 

— Como o que? — perguntou ele arqueando o cenho, seu tom de voz era dilacerante.

— Deixe-me te ajudar, conseguiu retirar?

— Desde quando se preocupa comigo?

Bato meu pé no chão, ao dar um passo para trás, diante o seu bloqueio comigo.

— Não faça isso...

— Sabe o que é engraçado, eu estou fazendo exatamente como você faz comigo! — Engulo em seco, comprimindo meus lábios.

Depois de tudo, eu nunca o tratei bem de verdade.

— Se não quer minha ajuda, tudo bem — Ergo minhas mãos para cima, resolvendo não insistir. —, porém acho que devermos falar sobre o Tyler. Não adianta fugir desse assunto.

Ele deu um largo passo para frente, eliminando o espaço que existia entre nós e seus olhos ficaram negros e opacos, sem nenhum sinal de vibrantes luzes que sempre estiveram presentes no seu olhar.

— Não é bom quando o jogo vira, não é mesmo? Você sempre foge de seus problemas, desde quando passou a querer enfrenta-los? — seu tom era cortante e desafiador.

— Você está sendo injusto comigo — indaguei em tom baixo. — Eu o matei, eu compreendo que esteja chateado e...

— Você acha que estou chateado? — questionou rosnando as palavras — Eu não estou, Demetria. Estou furioso. Você tinha opções, se eu não o matei, por que você então tinha que fazê-lo? — alterou-se.

Desvio meu olhar por alguns instantes, mordendo minha língua e logo volto a encaro. Toda aquela situação me deixava tensa.

— Eu tinha opções, sim, eu tinha. Mesmo assim, eu optei por matá-lo. Sabe por quê? Ele passaria o resto da vida enlouquecido, ligado a mim, revivendo minhas emoções e memórias. Acha isso digno? — Encaro-o, porém sua feição continuava fechada e ameaçadora. — Eu não tive intenção de fazer aquilo, foi uma autoproteção que não tive ideia de que aconteceria.

Umedeço meus lábios, hesitante e estalo a língua diante o silêncio do Wilmer.

— Você está assim por causa do Tyler ou por que eu o matei e isso pode significar minha perda de controle? Que isso venha a me tornar em algo como você um dia já foi. É isso que teme? 

Ele me fitou e, no final, apenas fechou a porta do quarto na minha cara.

— Obrigada pela resposta — Dou um chute na porta diante a sua ignorância. — Quer que eu vá embora e nunca mais tenha o prazer de me ver, de novo?

Encarei a porta por alguns segundos e então ele abriu a porta com um sorriso amargo no rosto, aquilo, com certeza, fez meu coração apertar.

— Faça o que quiser — Deu de ombros. —, mas se continuar comigo, será sobre as minhas regras.

Antes que eu pudesse retrucar, ele fechou a porta novamente em minha cara.

Eu nem pensei em ir sem ele, na verdade, eu o esperei frente ao carro, na manhã seguinte, e ele pareceu surpreso em me ver.

— Tem certeza disso? — seu sotaque estava carregado e ele arqueou uma das sobrancelhas com descrença.

— Aonde vamos? — perguntei ignorando a maneira como estava me tratando.

Wilmer retirou a chave do bolso e pelo movimento percebi uma pequena careta formar em seu rosto devido à dor. Este destravou o carro e respondeu:

— Vamos cruzar a fronteira do México — disse como se fosse a coisa mais obvia.

— Eu não tenho nenhum documento, Valderrama. Estou só com a roupa do meu corpo, literalmente.

— Não será preciso documento — afirmou entrando no carro, sem mais detalhes.

Mais algumas horas de carro se passaram e eu percebi que Wilmer continuava a sangrar, eu sabia que se fizesse algum comentário ele ficaria ainda mais ignorante, por isso me contive. E de fato, ao cruzarmos a fronteira, não foi necessária nenhuma documentação, apenas o famoso clientelismo fora colocado em pratica, mais alguns maços de dinheiro, do qual Wilmer sacou antes de sairmos do país.

E novamente, foram horas e mais horas de estrada. Tudo era longo demais e a velocidade do carro não permitia que a vista fosse apreciada, pareciam borrões marrons e fazia com que o percurso fosse ainda mais entediante.

Percebo a velocidade do carro além do limite determinado e as mãos tencionadas do Wilmer no volante, sua face evidenciava sua dor, mesmo que saiba esconde-la bem. Pelo que parece, dentre esses dias que se passaram, ele estava pior, mais pálido, comendo menos. O veiculo era velho e o modo como Wilmer dirigia fez com que este apressasse o que já era iminente e, assim, o cheiro de óleo queimado invadiu minhas narinas.

Ele bufou batendo sua mão contra o volante. O carro não andaria mais, o mecânico do posto de gasolina havia dito que o carro aguentaria poucos quilômetros e foi exatamente o que aconteceu. Na verdade, o veiculo já era velho, pois Wilmer resolveu deixar na estrada o carro do exercito e alugar uma lataria, uma forma de prevenção caso estejam atrás de nós.

— Vamos achar um lugar para passarmos a noite — disse ele, retirando a chave da ignição, pegando a mochila no banco de trás e logo saindo do veiculo.

Estava anoitecendo e sem dizer nenhuma palavra sigo seus passos arrastados. Sua mão posicionou no local dos tiros e sua face estava tensionada.

— Pensei que tivesse retirado o projetil.

Wilmer demorou a responder e não ousou olhar em meus olhos, tampouco sorrir.

— O processo de cicatrização é morado — mentiu. Mesmo não o conhecendo muito, eu sabia que estava mentindo. Caso contrário não pensaria em uma resposta. Além disso, de todo o que ele falou sobre esse mundo, nada foi mencionado de algum projetil que dificultasse o processo de cura, ou isso acontecia, ou você acabava morrendo. E creio que a última opção era pertinente.

— Você não faz a menor ideia de onde está indo, não é mesmo?

— Eu não conheço muito essa região, passei aqui apenas por causa da droga do posto.

Suspiro, colocando minhas mãos no bolso traseiro da calça e logo um sorriso simplório desenha meus lábios.

— Em algumas quadras tem uma pensão, não é muito longe.

Visto que não tinha muitas opções, ele apenas fez um sinal para que passasse na frente e seguisse caminho.

Após sair do Internato, Charles e eu passamos alguns meses apenas viajando pelo estado. Não tínhamos dinheiro e ficamos apenas pedindo carona e inventando mentiras aleatórias que tínhamos sido assaltados, ou que acabamos de nos casar. Essas lembranças são uma das melhores que tenho, pois não tínhamos preocupações e nos adaptávamos ao que estava diante de nós.

 E ao estar em frente ao prédio simplório, com as paredes amarronzadas desgastadas e as janelas de vidro refletindo alguns raios, foi inevitável não permitir que um sorriso desenhasse meus lábios. Quando entramos, o cheiro de incenso foi reconhecido, o mesmo de anos atrás, cítricos com laranja e logo o rosto angelical da dona apareceu a partir da batida de sinos presos a porta.

— Miranda — cantarolo seu nome.

Seus olhos castanhos me olham desconfiada, tentando relembrar quem sou e Wilmer, que estava ao meu lado.

— Claro, Demi irmã do Charles — disse ela com nítida alegria na voz rouca.

Suas mãos buscam as minhas por cima do balcão e ela as acaricia.

— Como ele está? — perguntou ela com olhos vibrantes.

Miranda nutriu um sentimento materno por Charles, visto que ela perdeu o seu filho quando tinha a idade dele, na época. Então, durante os meses que ficamos revezando na pensão, ele se aproximou bastante dela.

— Está bem — Sinto a voz rasgar a minha garganta. — Na verdade, eu acabei de me casar.

Delicadamente, eu desvencilho de sua caricia e entrelaço meus dedos com o do Wilmer. Este me olhou estranho e eu apenas sorri.

— Estávamos de lua de mel no México nesses dias e infelizmente...

— Soube do que aconteceu. Vocês estavam perto da explosão do convés? — supôs ela com uma cara piedosa, levando sua mão na boca. 

Olho rapidamente para Wilmer e pela sua reação, mesmo que mínima, eu sabia o que aquilo representava. Ele tinha ido atrás de informações da sua irmã em um convés onde ela comumente ia. Eu liguei os pontos mais rápido do que eu queria.

— Infelizmente... — Esboço um sorriso torto — E Wilmer acabou se machucando tentando me proteger, não é meu amor?

Ele claramente não estava gostando muito do que estava acontecendo e, quanto a mim, não poderia negar que estava adorando o provocar. Miranda assimilou a face fechada e rígida do Wilmer à dor e não propriamente a mentira descarada que estava colocando.

— Então, será que você poderia me emprestar algumas toalhas e roupas limpas... Acertamos tudo no final.

— Claro — afirmou rapidamente sentindo-se feliz por nos ajudar.

— Esperamos aqui.

Miranda, então, desapareceu pela porta lateral e eu permiti que meus olhos vagassem solenemente pelo ambiente que me trazia inúmeras lembranças. Logo ela estava de volta com uma sacola em mãos e apanhando a chave no nosso quarto.

— Se precisarem de qualquer coisa, não hesitem em me chamar — disse ela com um sorriso dócil entregando-me a sacola e a chave.

Devido a condição do Wilmer, ficamos no segundo andar, porém isso não dispensou o esforço dele para subir os dois lances de escadas. Ele permaneceu em silêncio pressionando a ferida e caminhando praticamente arrastando seus pés. Quando finalmente destranquei o quarto, um leve sorriso sorrateiro desenha meus lábios a partir das memórias que surgiam.  

Toda a mobília consistia numa poltrona, num criado largo de madeira surrada, numa cama de casal. Ao lado esquerdo, uma porta separava o banheiro do quarto. Imediatamente jogo a mochila que carregava no ombro no chão e corro até a cama, permitindo sentir o impacto do meu corpo contra o colchão macio e logo bato com a mão no espaço ao meu lado, para que o Charles se aproximasse.

— Pensei que o processo de cicatrização fosse mais demorado — indaguei me referindo a tatuagem em meus pulsos — Quando fiz nas costelas, com a mamãe, demorou mais tempo.

— Seu corpo deve ter mudado — comentou ele, depois de algum tempo deitando-se ao meu lado.  — Nos dois vamos queimar no inferno, por ter mentido para aquela mulher.

— Está arrependido? Posso ir até ela e falar que estamos em uma relação incesta — disse tirando sarro da situação, apoiando meu queixo em seu peitoral e olhando em seus grandes olhos esverdeados. — Estamos bem?

— Por que não estaríamos? — questionou ele, colocando suas mãos atrás da nuca e erguendo a cabeça.

— Não pegue minhas frases prontas, seu acéfalo.

— Estamos, Devonne. Não é normal pessoas ficarem e depois continuarem sendo melhores amigos, mas somos uma exceção a regra.

— Eu inventei aquela mentira, porque a Miranda não iria aceitar se ficássemos no mesmo quarto, ela é religiosa por demais. Talvez as coisas tenham mudado, mas quando eu vim aqui era assim, por isso disse que era irmã do Charles. Eu não queria arriscar — explico, colocando a sacola em cima do criado e retirando as peças. — Eu vou tomar banho.

Antes observo Wilmer deixar deslizar a mochila de seu ombro com dificuldade e a forma como seus músculos estavam rígidos. Mesmo ele estando de costas para mim, eu podia imaginar sua face tensionada pela dor. Bufo diante o seu orgulho e caminho até o banheiro, encostando a porta, em seguida.

Este era pequeno, mas eu não poderia reclamar, pois os banheiros públicos, com certeza, eram os piores. Começo a desabotoar a blusa que usava e logo a coloco sobre a pia. O reflexo do espelho dizia muitas coisas sobre mim. Apesar de o meu sistema imunológico ser eficiente, vários hematomas estavam presentes em meu corpo, alguns chegavam a ser tão grandes como a palma da mão. Entretanto, estavam desaparecendo aos poucos, comparando com os outros dias.

Encaro-me no espelho, apoiando as mãos na pia e logo meus olhos mudam de cor. Eu estava no controle. Suspiro fundo, tentando relaxar meus músculos, porém algo desperta minha atenção e faz com que o meu coração erre algumas batidas. O som estrondoso contra o assoalho de madeira fez com que eu abrisse a porta desesperada e me deparasse com Wilmer grunhindo de dor no chão, sua blusa jogada no chão junto a gaze que, provavelmente, ele iria refazer o curativo. As mãos do rapaz pressionavam a região e entre seus dedos o sangue escapava. Corro em sua direção, ajoelhando-me e tentando entender o que causava isso. Pouso minhas mãos sobre as suas, tentando retira-las, porém ele as manteve firme.

— Pare com isso Wilmer, me deixe te ajudar — indaguei exaltada.

Então, suas mãos desprenderam do local. A região era uma grande macha negra arroxeada e com uma fissura larga no centro. O seu tecido estava apodrecendo, ou já estava apodrecido, e alastrando em outas regiões de seu corpo.

— Você não retirou o projetil? — questiono tentando manter a calma.

O rosto do Wilmer estava avermelhado diante a dor, seus dentes estavam trincados e as veias de seu pescoço exaltadas.

— Só consegui retirar uma, a outra... — Então, ele gritou grave de dor, contorcendo o seu corpo e inclinado seus ombros.

Meus olhos percorrem o quarto e encontro a mochila, provavelmente, ele deve ter guardado as coisas. Alcanço-a e abro-a, sentindo minhas mãos estremecerem. Ajoelho-me novamente perto do Wilmer e jogo todas as coisas da mochila no chão ao lado.

— Tudo bem. Como faz isso? — questiono com os olhos arregalados, observando assustada a vodca já pela metade, o canivete, alguns medicamentos, toalhas de rosto, gaze e outros.

— Precisa procurar ela e depois retirar — murmurou ele com a respiração falha.

— Parece ser simples — indago, piscando algumas vezes e passo minhas mãos pelo rosto.

Pego a garrafa de vodca, molhando minhas mãos e, em seguida, a região próxima do diafragma e consequentemente o grito rouco do Wilmer devido a ardência.

— Vai ficar tudo bem — murmuro não acreditando nenhum pouco nas minhas próprias palavras. — Eu irei te ajudar.

A todo o momento minha respiração falhava e as batidas do meu coração chegavam a ser extremamente abusivas a ponto de sentir os músculos ao redor do órgão seguirem o movimento com estranha rapidez.

Eu não sou boa lidando com sangue, na verdade, eu não sabia como ainda permanecia ali ao seu lado, encarando a região. Balanço minha cabeça, pegando o meu indicador e adentrando vagarosamente na fissura de sua pele, foi inevitável não desviar o meu olhar e fazer uma careta. Em resposta, Wilmer grunhiu novamente e suas veias extrapolaram sua pele.

— Seja rápida — ordenou ele em um rosnado.

Apoio minha outra mão contra a região, criando um apoio e tento sentir, com a ponta do dedo, o projetil. Eu estava enfiando meu dedo na carne viva e morta do Wilmer e o sangue presente não facilitava em nada o processo. A dor não era apenas por causa de mim, mas, também, com o alastramento dos efeitos da bala.

— Eu acho que estou sentindo — disse atropelando as palavras e sentindo a ponta do metal contra o meu dedo.

Retiro o meu indicador e percebo minha visão ficar turva, por isso pisco diversas vezes até ela retornar ao normal.

— Está pronta? — perguntou ele com o sotaque em evidencia.

Um grande nó formou-se em minha garganta e apenas afirmo com a cabeça. Wilmer então olhou para o lado e eu pude ver as gotas generosas de suor em sua testa e pescoço. Ele pegou a garrafa de vodca enquanto eu apanhei o canivete, após derramar o liquido na região e conter sua dor, ele colocou a toalha na boca. Respiro fundo, colocando minha mão ao lado da fissura servindo como apoio e logo tento retirar o projetil. Sorte, ou não, este estava inteiro e não demorou muito para que eu o livrasse do corpo do Wilmer e o jogasse no chão como se fosse um bicho asqueroso.

No entanto, algo estava errado. O corpo do Wilmer não reagiu com alivio diante a retirada, na realidade, ele permaneceu do mesmo jeito: tensionado. Por antes eu estar concentrada com a remoção do projetil, eu não percebi que Wilmer não respondia. Seus olhos estavam fechados e sua expressão serena e rapidamente ondas e ondas de desespero vieram me aterrorizar.

— Wilmer, por favor, acorde. Wilmer. — Toco em seu rosto esperando por alguma resposta, mas nada veio. — Não. Não. Isso está errado. Tudo errado — As lágrimas desesperadas escorregavam por minhas bochechas. — Não me deixe, Will, não me deixe. Por favor, você também não.

Mas nada vinha em resposta e eu não compreendia o motivo. A respiração do rapaz era rala e cada vez mais ineficiente. Ele não podia me deixar, não assim, não agora, não ele. O meu coração se apertou tanto que logo eu me encontrava em prantos com o seu sangue em minhas mãos.

Então, as palavras de Virginia reviveram em minha mente: O seu coração, mais uma vez, em pedaços e sua mão coberta de sangue daquele que ama.

— Não. Ela está errada — indago com amargura, balançando negativamente a cabeça.

A visão estava turva e com as lágrimas foi difícil discernir, porém algo maior fez com que eu tomasse alguma atitude, por isso agarro fortemente na mão do Wilmer, como se fosse a minha última esperança, independente se as chances são mínimas.

Então, eu estava quebrada em infinitos pedaços. Agora parecia que esses infinitos foram multiplicados por outros infinitos impregnados de dor e angustia. Misturados com os meus pareciam ser os elementos necessários para uma combustão interna.

Não sei se ele sentia tanta dor ou se a sua dor misturava-se com a minha. Era praticamente insuportável e sem fim. Pelo menos, eu sabia que estava aliviando a dele e poderia significar em sua volta. O rosto do Wilmer começou a suavizar, seus músculos começaram a relaxar e rapidamente o folego apressado foi tomado por ele, trazendo-o de volta. Seus olhos se arregalaram quando recuperou o ar e logo os sinto cheios de preocupação. Desvio o olhar notando minhas veias pulsando rapidamente sobre o meu braço e sou obrigada a fechar os olhos e trincar meus dentes.

Por fim, parecia que sua dor começava a suavizar e minhas veias paravam com as oscilações internas. Vagarosamente abro meus olhos, com receio.

— Como você está? — Pergunto com a voz rouca.

Meu olhar percorre o seu ferimento percebendo que ele não estava mais aberto e tampouco com a mesma coloração arroxeada, parecia que eu o dei forças para se recompor, para se revigorar. Os meus dedos começaram a tremer e comprimo meus lábios tentando conter o choro.

— Como você está?  — Ele replicou, levando sua mão ao meu queixo e fazendo-me olha-lo.

Eu não conseguia responder. Nem sabia o que aconteceu, na verdade, eu sabia. Só não acreditava.

—Você tem noção do que isso significa?

O ritmo do meu coração estava acelerado e eu conseguia perceber meu sangue fluindo rapidamente pelas veias e artérias e, também, como meu corpo se comportava diante o fornecimento de oxigênio. Ele tentava recuperar o seu ritmo natural, já que foi exigido por demais agora.  

— Vá tomar banho, Wilmer — indago desviando meus olhos. — Vá se limpar — ordenei.

Os meus olhos estavam marejados e ardiam. Wilmer olhou-me com raiva e bufou se levantando.

“Qualquer um pode retirar a dor de um humano. Todavia, Lobos só conseguem retirar de outros de sua alcateia ou com um enorme vínculo.”

— Quer saber — iniciou ele enquanto eu me levantava. —, eu cansei. Cansei de dar o tempo que você precisa, cansei de respeitar o seu espaço e te ver se matando a cada momento.

Inconscientemente, prendo minha respiração. Seus olhos estavam dilatados e ele cuspia as palavras como se há muito tempo estivessem presas em sua garganta.

— Eu simplesmente cansei. Você continua sendo a mesma, ignorando o que está bem na sua cara, achando que assim irá resolver os seus problemas, sem, de fato, enfrenta-los. Eu sempre estou disposto a te ajudar e você sempre se fecha a qualquer tentativa minha. Eu cansei disso!

Ele, então, bateu a porta do banheiro, me deixando com o sangue nas mãos. 


Notas Finais


oie oie!!
não gostei de como ficou esse capitulo, eu reescrevi duas vezes, mas continuei não gostando, enfim vai ficar desse jeito! espero que tenham gostado e para aqueles que estavam com saudade dos dois juntos nos vemos no próximo capitulo, estou mega ansiosa por ele!!
beijocas


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