História Mais cinco minutos, talvez? - Capítulo 16


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Humor Negro, Yaoi
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Palavras 5.987
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Colegial, Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Romance e Novela, Violência, Yaoi
Avisos: Álcool, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 16 - Capítulo 16- Erik


Há uma linha tênue entre a inveja e o ciúme.

Mesmo que a ligação de ambos possa parecer inevitável, a verdade é que jamais poderíamos dizer que são a mesma. Enquanto o ciúme é motivado por aquilo que temos medo de perder, a inveja é o desejo de ter algo que pertence a outra pessoa. E o grande problema disso tudo, é que, quase sempre, um acaba desencadeando o outro.

Eu costumava acreditar que existia dois tipos de pessoas nessa vida: As que se perdem no decorrer dos anos; e as que já nascem perdidas. E eu sempre me vi preso na segunda categoria.

Quando eu era pequeno, costumava ouvir o tempo todo que eu tive muita sorte de ter nascido na minha família e que eu deveria ser muito grato por isso. Afinal, quem não ia adorar ter uma família rica, com mais dinheiro do que se pode gastar?

Bem, vou te dizer a verdade: Eu não queria.

Não vou usar o velho clichê da frase que diz que “ dinheiro não traz felicidade”, porque isso não é realmente verdade. Dinheiro até pode trazer felicidade. O problema é que ele também traz muitos problemas.

E o meu problema começou quando eu tinha só cinco anos de idade.

Eu já era esquisito naquela época, e isso não passou totalmente despercebido. Na verdade, eles se deram conta disso, muito antes que eu mesmo percebesse. Mas então eu pergunto: Como é possível alguém já ser esquisito com cinco anos de idade? Quer dizer, nessa época temos amigos imaginários e mal sabemos usar o banheiro sozinhos! Qualquer criança de cinco anos deveria ser considerada esquisita!

Mas de alguma forma, eles simplesmente concluíram que eu não era uma criança normal.

A verdade é que minha saúde era muito frágil devido alguns problemas respiratórios. Por conta disso, passava boa parte do meu tempo de cama ou em hospitais. Frequentei poucas aulas do jardim de infância e fui ensinado basicamente em casa. Ninguém sabia exatamente o que eu tinha e todo mundo achava que eu poderia morrer a qualquer instante.

Meu pai achava que isso era devido ao fato da ausência da mãe que eu nunca sequer conheci. Outras pessoas achavam que era pela ausência do meu próprio pai, que mesmo nessa época estava sempre me deixando sozinho. E outros simplesmente concluíram que eu era assim de nascença. Eu concordava mais com o último grupo.

Meu pai, por outro lado, insistiu na ideia de que o que eu realmente precisava era de uma nova mãe.

E foi aí que ele conheceu Felícia e sua família loucamente afundada em dívidas, beirando a falência e fazendo qualquer coisa por dinheiro. Incluindo vender a filha caçula da família para ser madrasta de um garotinho estranho. Bem, não que eu esteja sugerindo que Felícia seja uma interesseira que se casou por dinheiro. Na verdade, ela realmente se apaixonou pelo meu pai e nunca escondeu o fato. Ela não tem culpa de nascer em uma família cretina. Nenhum de nós temos.

O problema era que eu mal tinha conseguido digerir o fato do meu pai estar se casando novamente, e que agora eu teria que dividir a atenção dele com uma completa estranha, quando Felícia resolveu que seria uma ótima ideia acrescentar mais membros a minha família...

E foi assim que eu acabei conhecendo Isaac Miller.

— Este é meu sobrinho Isaac. Ele tem a sua idade. — Foi o que Felícia disse, me empurrando em direção ao garotinho na minha frente. — E, a partir de hoje, Isaac será seu novo primo.

Naquela época nós ainda tínhamos a mesma altura, mas esse era o máximo de semelhança entre a gente. Isaac estava com os cabelos pretos impecavelmente penteados para trás, contrastando totalmente com as enormes bochechas cor-de-rosa e os grandes olhos azuis. Ele poderia facilmente fazer algum comercial infantil...

Eu, por outro lado, sempre desarrumava meu cabelo na primeira oportunidade. Meu nariz estava escorrendo e a minha cara era de choro. Eu parecia uma dessas crianças subnutridas que alguém teve piedade o suficiente para levar pra casa e adotar.

A princípio, ele não disse absolutamente nada. Nem mesmo me olhou nos olhos. Era como se Isaac estivesse estudando cada parte de mim para decidir se valia a pena ou não, ser meu amigo. 

Não que eu pudesse julga-lo por isso. Meu pai havia tentado me enturmar com vários outros garotos com idades próximas a minha. Só que nenhum deles pareceu ter aprovado a ideia. Isso ficou bem claro quando disseram na minha cara que só brincavam comigo porque os pais os obrigavam.

Por isso não criei muitas expectativas.

Mas, pra minha surpresa, depois de um longo silêncio, ele simplesmente deu de ombros e disse:

— Quer brincar? — E o tom nem parecia ter sido de má vontade. Era como se ele realmente não se importasse em brincar com alguém esquisito como eu.

Eu fiquei impressionado com a facilidade que ele tinha de fazer amigos. Completamente oposto de mim. E naquele momento, a possibilidade de me socializar com qualquer pessoa que tivesse muito menos de trinta anos me deixou realmente feliz. Então pensei que aquilo era uma ótima ideia.

Isaac provavelmente também pensou o mesmo, já que um sorriso se iluminou naquelas bochechas rosadas. Ele costumava sorrir bastante nessa época. Quando éramos apenas duas crianças e os desastres ainda não tinham começado a acontecer...

Depois disso, eu simplesmente defini que Isaac era meu melhor amigo. Não que eu tivesse outros candidatos ao posto, é claro. Mas quem liga? Eu tinha feito um amigo e eu estava feliz com isso! Agora eu não era mais tão estranho e solitário. Agora eu também tinha alguém pra brincar comigo e me arrastar para um mundo mais luminoso.

— Isaac é o meu melhor amigo! — Eu costumava proferir.

—Que bom, Erik! É bom ter amigos, não é? — Meu pai respondia feliz.

Isaac costumava me visitar quase todos os dias e sempre dormia na minha casa nos fins de semana. Mesmo que, eu nunca tenha ido à casa dele, nem mesmo uma vez.

— O papai não gosta de barulho. — Foi a justificativa que ele me deu quando eu perguntei por quê. E eu não insisti mais no assunto.

Eu só havia falado com o pai de Isaac, Adrian Miller, duas vezes. E isso foi o suficiente para eu concluir que não gostava do sujeito. Ele costumava usar Isaac como desculpas para aparecer aqui em casa e pedir ajuda ao meu pai para “financiar” aquilo que ele chamava de “projetos sociais”. E ele também era um idiota que fedia a cigarros.

 A Sra. Miller era um pouco melhor que o marido. Eu me lembro que ela era superficialmente gentil comigo quando éramos pequenos e estava sempre sorrindo. Mesmo que ela não parecesse uma pessoa muito feliz.

Eu sempre achei que meu relacionamento com meu pai era complicado, considerando o fato dele ser bem ausente, mesmo quando eu era criança. Mas quando eu olhava para a minha situação com meu pai, e olhava para a família de Isaac, eu me sentia um pouco mal por ele.

Então achei que podia fazer algo pra mudar isso.

— Por que você não mora comigo? —Eu perguntei um dia a Isaac. — Você não teria mais que ir embora e poderíamos ficar juntos para sempre!

Ele me olhou um pouco surpreso pela repentina proposta. Mas não como se a ideia fosse ridícula demais. Porque no fundo, acho que Isaac era tão solitário quanto eu.  

— Não posso morar aqui. — Ele respondeu. — Meus pais não deixariam...

— Eu acho que deixariam. — Eu disse inocentemente. — Seus pais não ligam muito pra você, não é?

Naquele momento, quando aquelas palavras saíram da minha boca, tudo o que eu menos queria era magoar Isaac. Até porque, quando você tem seis anos e está prestando atenção nos seus pequenos brinquedos de montar, a última coisa que você espera é um surto do seu melhor amigo.

— Retire o que disse! — Ele se levantou de repente. Foi a primeira vez que eu vi o rosto raivoso de Isaac. — Retire!

Levantei meu olhar para ele.

— O que deu em você?

— Retire o que você disse! — Isaac gritou comigo. Ele nunca tinha gritado comigo antes. Por isso fiquei assustado, sem saber o que exatamente eu tinha dito de tão ruim.

— O que eu fiz de errado? — Eu perguntei a ele, também me levantando.

Isaac me empurrou. Tão forte, que acabei caindo em cima dos brinquedos. Naquele momento eu estava tão chocado com a explosão dele, que nem mesmo liguei para a dor.

E então ele simplesmente começou a chorar. Como se na verdade, eu que tivesse empurrado ele.

Felícia veio correndo quando escutou o barulho.

— O que aconteceu? — Ela disse, indo até ele. — Por que está assim?

Eu não conseguia responder. Eu estava tão confuso quanto ela. Então apenas fiquei sentado observando ela abraçá-lo. Eu havia machucado a minha mão quando Isaac me derrubou, mas naquele momento... Eu não sentia nada. E mais tarde, quando Felícia me perguntou novamente o que tinha acontecido, eu ainda não era capaz de responder.

Isaac voltou novamente no dia seguinte, com o pai dele do lado e ainda mais chateado do que no dia anterior. Não parecia uma “briga” tão séria a ponto de Adrian ter ido lá conversar comigo ou com meu pai. Mas mesmo assim, ele foi e parecia estar de tão bom humor quanto o filho.

— É só uma briga de crianças, Adrian. — Meu pai disse com bom senso. Ele também não estava muito interessado naquele incidente. — Logo eles fazem as pazes novamente...

— Mesmo assim, Isaac não deveria agir desse jeito! — Adrian cutucou Isaac, que estava com os braços cruzados e a testa franzida. — Ande logo e peça desculpas ao Erik!

— Mas a culpa foi do Erik... — Isaac interrompeu em um murmuro. — Ele não deveria ter dito aquilo!

Adrian deu um olhar cruel para o filho, que fez até mesmo eu me encolher e abraçar o meu pai.

— Acho que já conversamos sobre isso. Não conversamos, Isaac? — Ele disse em uma voz irritadiça, fazendo Isaac abaixar a cabeça e assentir contragosto.

Quando voltou a erguer a cabeça e me encarar, ele não parecia nenhum pouco feliz comigo.

— Desculpe por ter te empurrado. — Disse. E dessa vez eu notei o tom desgostoso em sua voz.

— O que você disse para irrita-lo, Erik? — Meu pai perguntou.

Naquele momento, eu juro que ainda não tinha entendido qual foi a parte que havia magoado Isaac. Talvez, se eu fosse menos idiota, as coisas poderiam ter sido diferentes.

— Nada, papai. — Eu disse em um muxoxo. — Só pedi para ele morar aqui, comigo...

— Não foi só isso! — Isaac gritou novamente. — Você disse que... — Então ele encarou o próprio pai, que o encarava de volta com uma expressão fechada. E seja lá o que ele ia dizer, Isaac apertou os lábios e desistiu. Acho que ele tinha medo de repetir as minhas palavras em voz alta e elas se tornarem concretas.

— Foi por causa disso? — Adrian perguntou a ele. — Só por que ele quer que você more aqui? Porque não disse antes? A ideia não é ruim!

Meu pai e Isaac o encararam surpresos. Eu não.

— Você não se importaria? Quer dizer, por mim tudo bem. A casa é grande e o Erik está sempre sozinho, então acho que seria ótimo para ele. Mas... — Meu pai olhou pra Isaac, que parecia estar a um passo de começar a chorar de novo. — Acho que ficou claro que Zack não gostou muito da ideia...

— Besteira. — Adrian respondeu pelo filho. — Isaac gosta de ficar aqui. E eu poderia até mesmo me concentrar melhor no trabalho sem ele por perto. Você sabe como crianças podem ser terríveis...Ah, e Felícia estaria por perto, é claro.

Dizer que o clima estava começando a parecer ruim, seria eufemismo. Isaac parecia estar ainda mais chateado, eu tinha notado isso e estava começando a achar que a culpa era minha, e meu pai estava me encarando como se tentasse saber o que fazer.

— Eu acho que você deveria falar com ele primeiro, Adrian. — Papai disse firme. — Não será bom nem para Zack e nem para o Erik se alguma coisa se tornar forçada. Eles não podem se sentir presos um ao outro por puro capricho...

Meu pai estava certo. Ele sempre esteve, na verdade. Mas nenhum de nós deu ouvidos a ele naquele dia.

Então, um mês depois daquilo, Isaac se mudou para a minha casa. 

Acho que já tinha ficado bastante claro que nossa amizade já estava estremecida por causa do que tinha acontecido. Mas ainda assim, eu não queria perder o único amigo que eu tinha.

— Você ainda está muito chateado comigo? — Eu perguntei a ele, um pouco depois da mudança.

Isaac balançou a cabeça negativamente. Ele estava sentado em uma das pedras do jardim, arrancando a grama. Ele já não sorria mais.

— Não. Não estou chateado com você. — Ele respondeu. Mas não consegui dizer se era realmente verdade.

— Eu gosto de você. — Eu disse simplesmente a ele. E isso, pelo menos, fez Isaac levantar a cabeça e me encarar. — Você é meu amigo. Não quero que fique triste!

Isaac ainda me encarou por um tempo. Ele não parecia realmente estar com raiva nem nada assim. Mas ainda parecia triste.

— Pode guardar um segredo? – Ele sussurrou para mim depois de um tempo.

— É claro! – Foi a minha primeira mentira.

— Tem certeza?

— Zack, somos amigos! — Foi a segunda mentira.

Ele apertou os lábios para mim por algum tempo.

— A verdade é... — Ele hesitou. — Acho que você está certo. Acho que o papai não gosta muito de mim. E as vezes, também acho que ele não gosta muito da mamãe...

Eu não queria ter parecido tão indiferente naquele momento. Mas eu realmente não me senti surpreso com aquilo. Talvez eu devesse. Éramos pequenos e Isaac estava desabafando comigo. Mas eu realmente não senti nada quando ele me contou aquilo. Apenas me fingi de desentendido o suficiente para perguntar:

— Por que você acha isso?

Isaac soltou um suspiro dolorido.

— Eu... Vi algo que não deveria. — Os olhos dele pareciam assustados de repente. — O papai... Estava... Ele... Ele estava com uma mulher. Uma que não era a mamãe... — Ele se encolheu. — O papai disse que eu não poderia contar pra ninguém sobre isso. Ele disse que se eu fizesse... Eu ia destruir a nossa família. E eu não quero isso, Erik. Não quero que ele me odeie!

Eu tinha apenas seis anos naquela época. Mas sabia que aquilo que Isaac estava me contando não era algo banal.

Então contei a terceira mentira:

— Isso não vai acontecer. — Eu disse firme a ele. A verdade é que por dentro eu estava tremendo. — Tenho certeza que ele não te odeia. Talvez ele só esteja ocupado. É o que o papai diz quando não pode brincar comigo.

— O meu pai não é como o seu. — Isaac disse firme, me encarando. — Quantas vezes o seu pai já te bateu?

Meus lábios abriram.

— Nenhuma! — Respondi como se fosse obvio. Até porque, nunca consegui imaginar meu pai batendo em nada. Nem em uma barata.

A expressão de Isaac se tornou um sorriso triste.

— É. Eu já sabia. — Ele murmurou mais para si mesmo. — Papai disse que eu deveria vir morar com vocês porque eu estaria ajudando a família. Disse que eu teria que me comportar para não envergonhar o nome da família. Então ele mandou eu ser bonzinho com você. E eu serei bonzinho, Erik. Mas você não pode falar nada disso para ninguém. É o nosso segredo! Certo?

— Certo!

~.~

Na primavera, quando eu completei sete anos, minha saúde já estava estável o suficiente para começar a escola. Seria a primeira vez que eu teria outros amigos além de Isaac. Isso me deixava extremamente feliz.  Isaac estava comigo quando compramos meus materiais novos. Ele parecia tão animado quanto eu em começarmos a estudar juntos. Nós passamos várias noites antes do ano letivo começar, rindo e fazendo planos para quando as aulas voltassem...

E essa é a última boa lembrança que tenho de quando ainda éramos amigos.

A coisa toda começou a dar errado no verão. Geralmente, as pessoas associam o verão com coisas boas e felizes, mas eu diria que foi quando tudo começou a virar um verdadeiro inferno.

A verdade é que a escola não era tudo isso que eu pensei que fosse.

Eu tinha muita dificuldade para fazer amigos novos. Era tímido, e descobri que nem todo mundo era como Isaac, que simplesmente resolvia tudo com um simples “ Quer brincar? ”. Ele tentou me ajudar a me enturmar com os outros garotos. Mas parecia que aquilo não era pra mim. Quer dizer, eu nem conseguia correr como uma criança normal sem ter um ataque de asma! Quem ali iria querer brincar comigo?

Isaac tinha muitos amigos. Eu, por outro lado, só tinha Isaac. E isso meio que me deixava com inveja...

— Não se preocupe, Erik — Ele me disse. — As coisas vão melhorar...

Mas as coisas não melhoraram.

Às vezes eu sentia que quanto mais eu andava com Isaac, menos eu existia. Mas se eu não estivesse com ele, então eu realmente era invisível! Era como se Isaac fosse um grande holofote. Ele podia até querer iluminar meu caminho, mas ele estava, na verdade, me cegando...

Acho que Isaac tinha a capacidade de fazer eu me sentir um peso na vida das pessoas mesmo quando ele não tinha intenção disso.

Certa vez, um garoto disse a Isaac:

— Você não deveria passar tanto tempo com o Erik. Vai acabar ficando estranho igual a ele.

E eu estava bem do lado dos dois.

“Hey”, eu queria dizer a eles, “ Isaac não é tão melhor que eu assim. Ele apenas finge que é”.

Mas então eu pergunto: Quando você sabe que algo ruim vai acontecer, tentar impedir de acontecer realmente ajuda? Ou a coisa ruim acontece porque você tentou impedi-la?

Uma semana antes do aniversário de oito anos de Isaac, nós brigamos.

Honestamente, eu nem me lembro como começou. Nos últimos meses, nós brigávamos por quase tudo: O que íamos assistir na Tv, quem passaria mais tempo na banheira... Eu discuti com ele porque ele usou o meu shampoo, uma vez! Felícia dizia que estávamos evoluindo de primos para irmãos. Mas o que eu via, na verdade, era o meu suposto melhor amigo me irritando mais do que ele realmente deveria irritar.

— Você está agindo como um idiota. — Ele me disse um dia.

— Bem, eu estou irritado. — Confessei a ele. — Os garotos da escola agem como se eu fosse a sua sombra e não gosto disso.  Eu não quero ser considerado “ o seu primo esquisito” pra sempre. Nós nem mesmo somos parentes!

Pensei que Isaac reviraria os olhos  e diria que as coisas iam melhorar, como sempre. Mas na verdade, ele resolveu dizer as palavras erradas, na hora errada:

— Você está apenas com inveja porque eles gostam mais de mim do que de você. Não tenho culpa se sou mais legal que você! — Ele riu. Poderia parecer engraçado para ele, mas não pra mim.

Então disse a mim mesmo que ninguém mais gostaria dele tanto assim se soubesse sobre todo o drama familiar de Isaac. Ele seria apenas mais um esquisito. Exatamente como eu.

Mas esses pensamentos tiveram consequências, eu descobri em seguida.

Três dias antes de Isaac completar oito anos, ele estava se vangloriando para os garotos da turma sobre algum passeio idiota que o pai dele prometeu de presente.

Honestamente, pode parecer cruel da minha parte, mas eu tinha quase certeza que aquele passeio não ia acontecer de qualquer forma. O pai de Isaac nunca tinha comemorado nenhum de seus sete aniversários anteriores, então por que esse seria diferente?

Mas Isaac, como qualquer criança que adora o pai, era ingênuo demais para ver isso.  E isso me irritou mais do que a discussão que tivemos.

— Ele disse que será o dia todo só pra mim... — Isaac estava contando animadamente. — Vamos passar o dia juntos. Talvez até andar de barco...

— Ele não vai! — Foi como se meus lábios se mexessem sozinhos. As palavras simplesmente pularam para fora, frias e duras, como se não viessem de mim. — O seu pai te odeia, não é? Você mesmo disse isso. Então ele não vai. Não sei porque ainda acredita nele... Você é estupido, Zack.

De repente, eu não tinha apenas a atenção de Isaac. Outros garotos também estavam olhando para mim. Pela primeira vez. Surpresos em vários sentidos.

— Erik... — Isaac começou com uma voz baixa, mas foi interrompido.

— O seu pai... Te odeia? — Um deles perguntou a Isaac.

—Claro que não! — Ele respondeu com pressa em uma voz falha, me encarando, como se me mandasse calar a boca.

Isso apenas fez eu continuar ainda pior:

— Ah, ele odeia, sim! E não só você, não é Isaac? A sua mãe também. Ele até tem outra mulher. Talvez ele também tenha outra família. Outro filho. E aposto que ele gosta mais deles do que de você. Não é por isso que você foi morar na minha casa? Porque seu pai não queria você por perto?

A respiração de Isaac estava falhando. Não sei se ele queria chorar ou se estava com raiva. Os outros garotos ainda estavam nos observando.

— Por que está dizendo isso? Você prometeu! Você disse que não contaria... — Ele balbuciou, com o rosto vermelho.

— Então é verdade? — Outro alguém perguntou. — Seu pai tem outra família?

— Não... — Isaac parecia completamente perdido. — Não é verdade. O meu pai me ama! O Erik está mentindo. — Ele se virou para mim. — Você é um mentiroso! Mentiu pra mim!

Depois disso a sala virou um tumulto.

Isaac tentou dar algumas explicações, mas cada vez ficava pior, e ele acabava ainda mais nervoso. Se pelo menos naquela hora eu tivesse me arrependido. Se ao menos eu não tivesse me sentido tão melhor em ver Isaac tão perdido...

Humilhado, eu descobri depois. Era assim que Isaac estava se sentindo.

Tudo o que eu queria, era que Isaac entendesse, pelo menos uma vez, como eu me sentia. Queria que percebesse como viver no meu mundo também era assustador. Eu queria que ele sentisse a mesma droga de sensação que eu sentia quando estava perto dele.

Porém, em vez disso, eu só consegui machucar o único amigo que cheguei um dia a ter.

Mas o desastre de verdade aconteceu depois que a aula acabou.

Eu achei que ele estava apenas chateado. Ele não tinha falado mais comigo o resto da aula ou mesmo quando estávamos voltando para casa. Ele não disse nada. Era como se Isaac estivesse em outra dimensão. Mesmo quando o carro estacionou, dizendo que já havíamos chegado em casa, ele não desceu.

Eu desci. Eu o deixei sozinho. Eu não disse nada a ele. Eu nem mesmo pedi desculpas por ter sido um idiota na aula. Esse talvez tenha sido o meu pior erro.

Eu estava indo em direção a porta quando senti o empurrão nas minhas costas. Isaac.

— Porque fez isso? — Ele me empurrou de novo. — Por que fez isso?

Quando a voz de Isaac se transformou em um grito, eu me virei.

E vi que ele estava chorando.

— Porque fez isso comigo, Erik? Pensei que fosse meu amigo...

Trinquei meus dentes sem querer.

—Seu amigo? —Acabei falando tão alto quanto ele. — Há muito tempo não sou seu amigo. Eu disse a você! Todos vocês me tratam como uma sombra. Eu estava cansado disso...

— Mas... Eu disse a você pra não falar sobre meu pai... Você até mesmo disse que ele... Que ele me odeia! Como pode falar isso?

Eu já estava com a dinamite e o fosforo na mão, então só resolvi jogar a bomba.

— E você acha que isso foi uma mentira? Bem, não foi. O seu pai não gosta de você, Isaac. Nem a sua mãe, provavelmente. Ninguém gosta realmente de você!

Ninguém gosta realmente de nós, era o que eu queria dizer na verdade. Isaac era só uma criança perdida. Exatamente como eu.

Foi nesse momento que ele veio pra cima de mim.

Lembro que o dia estava muito frio, apesar de ainda não ser a época. De modo que os falsos socos que Isaac tentava me dar, não machucavam nem um pouco por conta das fofas luvas de lã que ele usava.  Mesmo assim, estávamos brigando. Engalfinhados como dois garotos de rua. Eu estava grudado no cabelo de Isaac e ele nas minhas roupas. Teria sido bem engraçado... Até chegarmos a piscina.

Mas nós não havíamos percebido.

Empurrei Isaac novamente, mas não o suficiente para ele cair, apenas para me soltar. E ele soltou. Esperei encontrar a terra fofa atrás de mim, mas não havia nada. Era apenas eu, a gravidade e a piscina logo atrás.

Quando nós dois percebemos que eu ia cair, Isaac esticou a mão. Ele tentou me puxar de volta. Mas era tarde demais e eu já estava afundando na água gelada. Não sei por quanto tempo fiquei naquela piscina, mas realmente achei que ia morrer. Se não fosse afogado, seria de frio. E em alguma parte desse meu devaneio eu acabei perdendo a consciência.

Só voltei a abrir meus olhos no hospital.

Lembro que a primeira coisa que eu consegui ouvir foi a voz do meu pai. A voz que só usava quando ele estava furioso. E olha que isso era muito raro.

Ele estava no telefone com felícia:

— Eu sei que ele é seu sobrinho, e eu gosto muito dele também. Mas Isaac quase matou o Erik! Eu não posso e não vou permitir que eles continuem convivendo. — Ele fez uma pausa buscando ar. — Olha, liga para o seu irmão e diga para ele buscar Isaac ainda hoje. Eu não estou com humor para nada agora. Erik ainda não acordou e é bem provável que ele esteja com uma pneumonia...

Aquilo não soou nada bem aos meus ouvidos. E pra completar, eles achavam que Isaac tinha feito aquilo comigo. Eles não sabiam que tinha sido um acidente.

Quando meu pai me viu acordado correu até mim. Eu podia ver o desespero nos olhos dele.

— Oh, Erik... — Ele disse com a voz mais calma. — Eu pensei que tinha perdido você...

Mas eu não tinha tempo para o reencontro dramático. Eu precisava dizer a ele que Isaac não tinha feito aquilo. Eu tinha que dizer que foi um acidente.

Que a culpa foi toda minha, na verdade.

— Um... Acidente. — Foi só o que saiu da minha boca, entretanto. Meus pulmões chiavam sempre que eu tentava espirar mais fundo. — Isaac...

O rosto do meu pai ficou sério.

— Acidentes podem virar tragédias, Erik. — Ele passou a mão nos meus cabelos. — Isaac não quer nos dizer porque estavam na beira daquela piscina. E nem porque você caiu nela. Então não posso simplesmente dizer que foi um acidente.

Se não fosse tão sufocante falar, eu teria dito a ele. Toda a verdade. Eu juro que teria. Mas não conseguia. Eu mal conseguia respirar!

Fiquei internado por um longo tempo depois disso. Meu pai não me respondia nada quando eu perguntava sobre Isaac. Ele desconversava e fingia que nada tinha acontecido. Sempre que eu tentava dizer a ele sobre aquele dia, meu pai apenas dizia “ está tudo bem, Erik. Não foi culpa sua”, e então voltava a mudar de assunto.

Quando eu finalmente recebi alta, implorei a ele para me deixar falar com Isaac. Ele ainda estava bem relutante sobre isso, mas depois de muita birra da minha parte, ele finalmente cedeu.

Tentamos ligar para ele mais de oito vezes durante três dias. Isaac não me atendeu.

Até que um dia ele finalmente me ligou de volta.

Fiquei tão feliz. Achei que era finalmente a minha chance de consertar as coisas, então atendi o telefone completamente agitado:

— Zack? É você? Você está bem? — Eu podia sentir o desespero na minha voz. Quando ele não respondeu nenhuma das minhas perguntas, eu emendei: — Eu recebi alta recentemente. Ainda não posso fazer muitas coisas, mas estou bem. Você vai vir me ver? Ou ainda está com raiva?

Esperei ainda longos minutos até escutar o suspiro do outro lado da linha.

— Não, Erik. Eu não vou ver você. — Ele respondeu com uma voz sem emoção. E disse apenas isso.

Senti como se tivessem me jogado dentro daquela piscina novamente.

— O que? Por que?

— “ Por que? ”? — Eu escutei ele rir. — Não está óbvio?  O seu pai me culpou pelo seu acidente, sabia?  Ele disse que eu tentei matar você! Ele me acusou, como se eu tivesse empurrado você de propósito.  E você sabe o que foi pior de tudo? É que você não contou a verdade a ele. Você apenas deixou que ele acreditasse nisso.

— Zack, eu tentei... — Eu me apressei em tentar explicar. Mas Isaac não me deu essa chance.

— Você não disse a ele a verdade. E então ele ligou para o meu pai. Você deveria ter visto como foi. Ele gritou comigo. Ele também disse que eu era uma vergonha e ... Que não precisava de um filho inútil como eu. Ah, e tudo isso, no meu aniversário!

— Escute, Zack, eu vou contar tudo...

— Mas a pior parte não foi essa. — Ele me interrompeu de novo. —Sabe os garotos da escola? Bem, eles contaram para todo mundo sobre o meu pai. Eles começaram a espalhar boatos sobre mim e a minha família e agora todo mundo sabe que o meu pai tem outra mulher. Inclusive a minha mãe.

Eu estava sentindo meus pulmões falharem novamente.

— Ela não ficou nada bem, Erik. Ela não fala e nem sorri mais. Ela nem mesmo sai do quarto. — A voz dele estava falhando também. — E, três dias atrás... Meu pai falou que vai pedir o divórcio. E, apesar deles acharem que eu não sei o que é, eu sei, Erik. Eu sei, sim! Mas nenhum dos dois quer ficar comigo no momento, então eles vão me mandar para um colégio interno até resolverem tudo...

— Zack, eu sinto muito...

— Mentira! — Ele gritou pelo telefone. — Você é um mentiroso, Erik Bryan! E eu realmente odeio você!

O telefone ficou mudo e as minhas mãos tremiam. Minha respiração falhava, havia gelo nas minhas veias... Eu não sabia se eu ia desmaiar ou vomitar.

Eu realmente era como uma sombra. Uma sombra tóxica e cruel... E eu não sabia mais como consertar.

Depois daquele dia nós nunca mais nos falamos novamente. Isaac simplesmente foi embora. Embora da minha casa, da escola... E da minha vida. Ele havia se tornado uma espécie de lenda para mim. Aquele garotinho, que antes eu chamava de melhor amigo, simplesmente não existia mais.

Pelo menos era o que pensava...

Isaac voltou no início do quinto ano. Quando eu soube disso, implorei e fiz de tudo que podia para ir estudar na mesma escola que ele. Eu ainda carregava a culpa pelo que tinha acontecido, e não queria que as coisas ficassem daquele jeito.

Então, depois de três anos sem nenhum contato, eu reencontrei Isaac.

Eu até mesmo tinha ensaiado as palavras na frente do espelho: “Me desculpa. ”.  “Sei que você me odeia, mas, por favor, vamos começar de novo!”...

Mas as coisas não eram tão fáceis assim.

Quando nos encontramos novamente no corredor da escola, era como se os olhos dele me atravessassem. Como se eu nunca tivesse existido. Ele tinha me apagado totalmente...

Pelo menos por um tempo. Depois as coisas começaram a ir de mal a pior.

Com o tempo ele começou a debochar de mim no intervalo. Dizia coisas sobre a minha aparência, minha personalidade e até mesmo disse que eu gostava de outros garotos. Ele começou a me empurrar sem razão e a me dar apelidos constrangedores. Mas pelo menos não me ignorava. Achei que fosse bom sinal...

Quando Isaac se juntou com outros babacas sádicos, as provocações pararam de ser apenas assédio moral. Eles começaram a vir para cima de mim. E não é como se eu gostasse de apanhar todos os dias, mas eu simplesmente não conseguia dizer nada. Sempre que meu pai ou Felícia me perguntava sobre os hematomas, eu mentia.

Isaac estava me punindo pelo que eu fiz a ele. Eu sabia disso. Talvez, exatamente por eu saber, sempre parecia mais doloroso.

As zoações e crueldades aumentaram dia após dia.  Eles conseguiram fazer com que toda a escola me olhasse como se o mundo pudesse ser um lugar melhor sem mim.

Havia um ou outro que não concordavam com aquilo. Mas o que eles poderiam fazer? Ninguém queria ser a vítima também. E, infelizmente, o mundo é assim. Pessoas com poder controlam pessoas com medo.

Depois de viver praticamente no inferno por tanto tempo, achei que já estava mais do que na hora de tomar uma decisão logica: Me matar.

Não faltou gente para criticar e julgar o modo que eu escolhi para lidar com aquilo. Eles me chamaram de covarde e disseram que eu era o pior por fazer isso. Mas a verdade é que não existe um manual preestabelecido que te ensine a sobreviver ao inferno.

Então eu fiz o que achei que deveria fazer.

Você faria melhor? Ótimo! Eu fico feliz em saber. Mas deixe-me dizer: Quando você tem seu espirito destruído sem dó nem piedade, dia após dia, ano após ano, sem descanso... A vontade de desistir de tudo acaba batendo na porta.

E eu obviamente consegui fracassar até nisso...

— Às vezes... É como se eu tivesse ultrapassado o meu tempo aqui na Terra. E todas as pessoas estivesse constantemente tentando me dizer isso... — Eu disse finalmente.

— As pessoas são idiotas, Erik. Elas mal conseguem cuidar da própria vida, mas ainda querem lidar com a dos outros. Não dê ouvido a elas...— Diego disse, um pouco depois de eu ter terminado de contar toda a tragédia grega. Ele havia me deixado falar tudo o que eu queria, sem me interromper, e eu percebi que estava meio que me sentindo grato a isso. — Você realmente teve uma merda de vida nos últimos anos, não é?  

— Você acha? — Eu ironizei. — Eu nem consigo me matar direito!

— Não que isso seja um talento desperdiçado. — Ele respondeu calmo.

Eu suspirei.

Como se eu já não tivesse chorado o suficiente contando toda aquela porcaria de história, outra lagrima estava saindo do meu olho.

— Você já teve a sensação... De que fez tudo errado? — Pressionei o peito com o polegar— Bem aqui. A sensação de que seu mundo está prestes a sumir?

Tive a impressão de ouvir Diego sorrir.

— Só o tempo todo...

Acabei rindo também.

Às vezes, eu me perguntava, caso a situação fosse outra, se eu e Diego poderíamos ter sido amigos. Talvez não. Considerando que nossos mundos eram tão diferentes. Mas uma pequena parte de mim queria que sim.

— Nós somos amigos, Erik. — Ele respondeu. — Você é um garoto problemático. Mas eu gosto de você...

Acabei sorrindo. “ Eu gosto de você”? Há quanto tempo eu não escutava algo assim? Acho que até mesmo Diego podia surpreender, às vezes.

— Obrigado por me ouvir, Diego. — Porque pela primeira vez eu me sentia menos pesado.

Mas então o telefone tocou

E eu sabia que aquilo não era bom sinal, só pelo fato de ninguém nunca me ligar.

— Diego! — A voz do outro lado soou mau humorada. Caleb.

— Não, é o Erik. — Respondi no telefone. A Diego disse: — É seu irmão. E ele parece mau humorado...

— Isso não é mau humor... — Para minha surpresa Diego respondeu instantaneamente com quase o mesmo tom de voz. — Isso é...

Mas eu não consegui entender o que ele disse, pois na mesma hora Caleb gritou no telefone:

— O que vocês dois fizeram?

E eu percebi que Diego estava certo. Aquilo não era mau humor.

Era desespero!

— Nada! Não fizemos nada! — Respondi para Caleb. Com exceção, claro, do incidente com Isaac; mas achei que não era boa hora para trazer isso à tona. — Por que?

Pelo telefone, eu ouvia a respiração descompassada de Caleb, como se ele tivesse corrido uma maratona. Eu estava começando a ficar nervoso também.

— Meu irmão... — Ele disse depois de um tempo. — Meu irmão está morrendo de novo!



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