História Mais Perto - Capítulo 6


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Ecchi, Epg, Estela, Hentai, Luiza, Maisperto, Romance, Sebastian, Vicent
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Palavras 5.041
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ecchi, Hentai, Romance e Novela
Avisos: Adultério, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 6 - Mais Perto de se queimar


— Q—quê? – Estela ficou tão surpresa que engasgou com a própria saliva.

— Sexo sem compromisso, amizade colorida, como preferir chamar. – Vicent falou tão naturalmente que a loira ficou assustada.

— Eu... eu... não acredito que está me fazendo esta proposta! – Estela queria sair de alguma maneira daquele lugar. Era como ver seu passado voltando em apenas uma pergunta. Mas então lembrou que ainda estava há metros do chão e presa numa gaiola.

— Eu também não acredito que estou fazendo essa proposta, - Vicent passou a mão pelos cabelos, tentando esconder o nervosismo - mas pense bem, Estela, nós somos perfeitos um para o outro! Você não quer compromisso e eu não consigo me comprometer com ninguém. Você sabe quem eu amo e isso ajuda bastante, porque você não ficará frustrada em não receber uma declaração de amor. Além disso, acredito que assim como eu, você não quer que a noite de ontem seja a única. E se no fim, achar que foi uma péssima ideia, a gente não vai precisar se encontrar novamente. Em mais ou menos um mês estarei voltando para Dubai e você pode retornar à sua rotina. É perfeito!

            Analisando os argumentos de Vicent, parecia bem tentador. Estela precisava admitir, não queria que a noite que passaram juntos terminasse, mas...

— Vicent, eu não sou do tipo que dorme com um cara só por prazer! – sibilou.

— Mas ontem...

— Ontem eu pensei que seria a última noite que a gente se veria! Eu não esperava que você ficasse mais tempo! – a loira retrucou, nervosa.

— Eu também não, mas agora que estou aqui, confesso que adoraria repetir o que fizemos ontem. Você foi incrível! – a loira sentiu as bochechas queimarem. Deus, quantos anos tinha? Em tão pouco tempo já havia enrubescido mais vezes do que gostaria. Ela odiava isso.

— Você não tem cara de que prefere esquecer as mágoas nos braços de outra mulher. – a loira atacou.

— E não faço. Mas tenho necessidades, Estela, como qualquer outro homem. E você também. Eu posso fazer muito mais do que ontem.

            Vicent avançou sobre Estela, que estava no banco oposto ao seu, abrindo as pernas da loira e acomodando-se entre elas com os joelhos no chão. Não havia muito o que fazer considerando o lugar onde ambos se encontravam, principalmente com a roupa de Estela. Vicent nunca odiou tanto uma calça jeans. Ele precisava convencer a loira de que aquela ideia era boa, que era vantajosa e que eles poderiam aproveitar bastante. Seria péssimo passar aquele mês sem a companhia da mulher. Ela estava ajudando-o a permanecer naquele lugar e mal sabia disso.

            O moreno depositou beijos ao longo do pescoço e da clavícula da loira, enquanto segurava firmemente suas coxas. Ele podia sentir que Estela estava tensa e na defensiva, mas ele estava confiante de que poderia fazê-la relaxar. Roçou os dentes no lóbulo da orelha da loira, dando uma leve mordiscada, para em seguida chupá-lo com vontade. Tudo isso enquanto colava-a ao seu corpo, permitindo que sentisse o calor que emanava dele.

            Com uma das mãos, Vicent enfiou os dedos nos cabelos da loira, inclinando sua cabeça, de forma que pudesse ter um acesso melhor ao seu pescoço. Ele passou a ponta da língua lentamente e depois deu um chupão no local. Ao encarar Estela, o moreno sorriu. Ela mordia o lábio inferior numa tentativa de se conter.

— Não faça isso, Estrelinha. – Vicent falou após separar os lábios dela com o polegar, passando então a língua entre eles, dando início a um beijo.

            A loira se rendeu ao seu toque, movendo seu corpo sob o dele na tentativa de senti-lo melhor. Sua língua envolvia a dele, tocando-o com tanta suavidade que Vicent às vezes precisava pensar se o que sentia era real ou não. As mãos de Estela desceram pelo seu corpo, explorando-o apesar de todo o pano que impedia que ele sentisse seu toque, até chegar à calça, que a loira usou para trazê-lo mais para si. Vicent deixou escapar um gemido diante da sensação daquele corpo curvilíneo colado ao seu.

            Ele queria mais, muito mais e Estela também. Ela não podia negar, depois de começar a tocá-lo como fazia, tão desesperadamente e ao mesmo tempo tão intensamente.  O aroma adocicado da loira estava se impregnando em suas narinas, deixando-o de alguma maneira viciado e dependente daquele perfume, da maciez da pele dela, de sua delicadeza, elegância. Por Deus, só queria levá-la para cama e se afundar nela o mais lento e fundo que conseguisse.

            Sua calça parecia uma prisão e aquela gaiola um verdadeiro complexo presidiário. O espaço parecia ficar menor a cada segundo, o ar se tornava mais denso, os pulmões de ambos começaram a funcionar com mais dificuldade. Os seios de Estela reclamavam por liberdade e pelas mãos de Vicent, por sua boca, por sua língua.

— Vicent. – a loira gemeu ao seu ouvido enquanto recuperava a respiração. – Me toque.

            A voz rouca da loira embargada pelo desejo foi um verdadeiro estimulante para os ouvidos do moreno, que sorriu maliciosamente, encarando-a com seus olhos de um azul escuro profundo que mostravam suas pupilas dilatadas. Vicent se preparava para atender ao pedido de  Estela quando alguém pigarreou. Era o operador da roda gigante.

            Cientes da posição em que se encontravam, Vicent e Estela se ajeitaram rapidamente e saíram do brinquedo de cabeça baixa, envergonhados, evitando os olhares das pessoas que estavam na fila. O moreno nem se lembrava a última vez havia sido tão ousado. Era divertido.

— E então? – perguntou à loira quando chegaram a um lugar distante dos olhares curiosos.

— Eu... eu... – a loira oscilou por um momento sem saber o que responder.
 

(...)
 

            Três da manhã e Estela mal tinha pregado os olhos.

            Toda vez que tentava fechá-los alguma coisa relacionada à Vicent aparecia em sua mente: a proposta que havia feito, os beijos, a noite que passaram juntos.   

Revirou-se na cama pela enésima vez.

            Mas que droga!

            Precisava dormir.

            Havia prometido passar na empresa da família pela manhã e à noite havia a tortura mensal que era o jantar com seus familiares. Estela começava a achar que aquele era um ótimo dia para estar morta.

            Napoleão, seu gato, estupidamente sentindo a áurea negra que emanava do corpo da dona, subiu na cama despreocupadamente e deitou na cara de Estela. Não havia máscara melhor que aquela se a mulher não começasse a pensar em Vicent tocando-a. A loira começava a sofrer de ansiedade. Maldita hora em que havia negado tão veemente a proposta de Vicent! Se arrependimento matasse...

            Não tinha jeito, precisaria de um remédio para apagar.

— Desculpa, Napoleão, mas isso não vai funcionar.

Agarrou o gato e foi com ele pegar sua caixa de Diazepam. Após tomá-lo, pensou em deitar novamente na cama, mas não pareceu  uma ideia muito convidativa se sabia que pensaria no moreno. Preferiu deitar no sofá e antes que percebesse o remédio já fazia efeito.  
 

(...)
 

O dia de Estela estava ótimo. Além de não ter dormido bem à noite e estar com olheiras, havia se atrasado para a reunião na empresa. Na pressa de se vestir conseguiu uma mancha roxa na canela, por isso precisou trocar a saia que usaria por uma calça. Pegou um trânsito horroroso e quando finalmente conseguiu chegar, uma hora já havia se passado do horário marcado.

— Me desculpe o atraso. – a loira falou ao entrar na sala. Um homem de meia idade e vestido impecavelmente em um terno a aguardava.

— Dia ruim? – o homem de pele bronzeada perguntou.

— Dia péssimo. – a loira tomou seu lugar numa cadeira de frente para ele, jogando sua bolsa sobre a mesa.  – Da próxima vez, me lembre de não marcar uma reunião no domingo.

— É bom vê-la, Estela. Você emagreceu. Por acaso está novamente deixando de se alimentar para ficar estudando?

— Carlos, isso é passado. Você deveria saber. – a loira cruzou as pernas despreocupadamente.

— Sabe que me preocupo com a sua saúde. – disse num tom protetor.

— Se não soubesse, não teria deixado a empresa em suas mãos. – a loira cruzou os braços, tentando, inconscientemente não entrar naquele assunto.

            Carlos cuidava da empresa já que Estela não podia e ela, em sã consciência, jamais deixaria que a mãe e a irmã assumissem o posto. O homem era um grande amigo do seu falecido pai, e já trabalhava na empresa antes mesmo da morte do presidente da Vega Cosméticos.

— E então, Carlos, como estão as coisas?

— Ótimas. A Vega tem crescido assustadoramente nesses últimos três anos, você sabe. Aqui estão os relatórios e os livros contábeis para sua verificação. – entregou um pendrive à loira. – E aqui documentos que eu preciso que você assine. – colocou sobre a mesa um envelope.

— Prazo fatal de assinatura. – a mulher pediu.

— Uma semana. – o homem respondeu.

— Muito bem. Há algo importante que eu precise saber?

— Alguns investidores estão organizando um evento para o fim deste mês. Gostaria que você fosse representando a empresa. Não poderei ir. Minha esposa irá operar neste dia.

— Está tudo bem com Sheyla? – perguntou.

— Sim. Apenas uma correção ocular, mas precisará de ajuda.

— Vou ver se posso. Irei avisá-lo depois. – falou indiferente, já começando a analisar os papéis.

— Bom, se não houver mais assuntos para tratarmos, gostaria de me retirar. Tenho que levar Maria ao balé. – levantou-se já recolhendo suas coisas.

— Mande um beijo para as meninas.

            Carlos acenou em sinal positivo e retirou-se, deixando a mulher sozinha.

            Estela permaneceu durante todo o dia na empresa. Leu os documentos que precisava assinar, conferiu os relatórios e os livros contábeis. Realizou suas próprias análises e sugeriu alguns planos de ação imediatos. Tudo aquilo levou menos tempo do que gostaria e antes que percebesse a tarde mal havia acabado e a loira se pegava pensando na proposta de Vicent.

            Como ele tinha coragem de sugerir uma coisa daquela? Será que na testa de Estela vinha escrito “Mulher fácil” para que ele fizesse aquela proposta de forma tão natural quanto quem pede um copo d’água? A loira queria morrer. Principalmente porque cada vez mais se sentia tentada a voltar atrás em sua decisão.

            Quanto tempo tinha mesmo que ela não transava? Ah, sim, mais ou menos dez anos. Era bom estar na ativa, principalmente se fosse com Vicent. Ele era bonito, tinha um corpo maravilhoso, pensava no prazer dela e em um mês sumiria da sua vida. Isso era ótimo, não? Estela não sabia dizer. Deus, era loucura transar com um cara que era apaixonado por sua melhor amiga! Não importava se Luiza era casada e amava o marido. Não importava se ela já era mãe e se via Vicent apenas como seu melhor amigo. O que importava era que o moreno ainda a amava de corpo e alma. Não sabia se seu psicológico poderia lidar com aquilo. Era uma verdadeira furada.

            Mas Estela merecia ser feliz. Daniel não demorou muito para seguir em frente e arranjar outras, por que então a loira precisava ficar se martirizando? Não! Vicent não queria compromisso e isso era ótimo, porque Estela também não estava disposta a se comprometer. Seu relacionamento sério era com o trabalho. E era bom que continuasse.

            Espreguiçou-se na cadeira.

            Chega de pensar nisso.

            Olhou a hora. Já estava se atrasando para o jantar de família. Arrumou-se e seguiu para seu carro. Logo a loira já estava na pista principal em direção à sua casa.

Só havia uma coisa que detestava mais que os encontros arranjados da mãe: os jantares de família. As companhias eram melhores que a dos encontros, precisava admitir, mas isso só até começarem a falar da vida amorosa de Estela. Era mais ou menos nesse momento  que começava a pensar em armas potenciais.

No encontro familiar se reuniam Estela, a mãe, Luna e o marido de Luna, David.  Eles costumavam revezar o local dos encontros, mas sempre era na casa de alguém da família, nunca em restaurantes. A vez agora era da mãe das meninas, que morava na zona nobre da cidade, num apartamento bem espaçoso. Herança do marido de Lua.

Ao chegar em casa, Estela saiu jogando a bolsa e os materiais que havia trazido da empresa por  toda a casa. Napoleão nem se deu ao trabalho de levantar a cabeça de sua caminha para ver o que se passava, ele já conhecia essas variações de humor da dona e geralmente elas estavam  ligadas a encontros com a mãe.

Ela não queria ir. Na verdade, a loira nunca queria ir a esses encontros. Há muito tempo Estela não tinha um momento para desfrutar sozinha, sempre havia algo para ocupá-la de alguma forma, fosse o trabalho, a faculdade, a empresa da família, os encontros da mãe ou até mesmo as obrigações com os familiares. Por um lado ela gostava dessa correria, já que assim não tinha tempo de pensar nas desventuras de sua vida, mas às vezes, só às vezes, gostaria de um pouco de paz.

Mas isso não era possível.

Assim, Estela se jogou embaixo do chuveiro como um ser sem alma, apenas sendo controlado. Após o banho, vestiu uma regata, um short jeans desfiado e calçou seus chinelos. Colocou o cordão de ouro em formato de estrela que havia ganhado do pai, que costumava usar sempre que precisava encontrar Lua. Era uma forma de provocá-la e mostrar que o passado e o próprio pai ainda estavam com ela. Pegou uma bolsa marrom qualquer e colocou dentro dela uma sandália de salto grosso também marrom junto com seu telefone e sua carteira. Estela amava saltos, amava mesmo. Talvez fosse uma das poucas coisas que ainda gostava na vida, mas odiava ter que usá-los para ir à casa da mãe.

Lua sempre exigia elegância das filhas, principalmente quando corria o risco de levar um pretendente para Estela aos encontros de família. Como já estava provocando-a com seu cordão e a mancha roxa nas pernas descobertas, decidiu não provocar também com os chinelos.  

— Me deseje sorte, Napoleão. – pegou suas chaves e  olhou para seu gato, que como resposta apenas fechou os olhos novamente.

Bastardo Egoísta. -  pensou.

— É por isso que eu amo esse gato. – disse antes de fechar a porta atrás de si.
 

(...)
 

— Droga!

            Estela corria pela rua após sair correndo de dentro do táxi. Estava mais que atrasada, tudo por culpa do engarrafamento que pegou.  Seu telefone já vibrava freneticamente em sua bolsa.

— Boa noite, João! – a médica cumprimentou o porteiro enquanto trocava os chinelos pelas sandálias.

— Boa noite, Dra. Vega! Atrasada de novo? – o homem ofereceu um sorriso cúmplice.

— Sempre. – ajeitou as tiras da sandália. – Lua deve estar  querendo comer meu fígado no jantar. – brincou.

— Acho bom correr. – sussurrou de forma divertida.

— Tem razão. – a loira sussurrou de volta. – Como estou? – fez uma pose.

— Linda. Só espero que sua mãe ache o mesmo. – o senhor piscou para a loira. Ambos sabiam que Lua não era a mulher mais fácil de se agradar.

— Preciso ir.  Deseje-me sorte! – gritou enquanto  corria para pegar o elevador que tinha acabado de ficar disponível.

            Estela respirou profundamente algumas vezes, como se fazendo isso sua máscara blindada de boa filha fosse colocada. Caminhou a passos lentos e arrastados no corredor que dava para o apartamento de sua mãe. Então tocou a campainha.

— Estela! Que bom que você chegou! – David recebeu-a com um abraço.

            David era um loiro alto de olhos verdes que mais parecia um estrangeiro naquele país tropical. Apesar da aparência, ele era um inútil quando se tratava de questões profissionais. Claramente havia comprado seu diploma. David vinha de uma família rica, o que fez o olho da Sra. Lua e da Srta. Luna crescer, mas ele não era bom no que fazia. Quando as mulheres insistiram e o colocaram na gerência do departamento jurídico da VEGA, foram os dias mais infernais de Estela, principalmente por causa da atuação do cunhado junto ao conselho. Além de lidar com os problemas diários ainda precisava arrumar a bagunça de David e lidar com a insatisfação dos funcionários.

Apesar disso, o cunhado talvez fosse a pessoa que ela mais simpatizava naquela família. Ele era uma boa pessoa quando estava longe da VEGA e Estela tentava assegurar que permaneceria assim. Agora, trabalhando no escritório de sua família, David vinha ganhando destaque e fazendo uma boa atuação na área penal. Estela ficava feliz por ele.

— O que é isso? – Lua olhou-a de cima abaixo de dentro da casa.

— Oi, mãe. Boa noite pra você também.

— O que aconteceu com você? Te sequestraram enquanto fazia compras no supermercado e te desovaram na porta de casa? – a loira revirou os olhos com o comentário da mãe.

            David já estava apreensivo. Mal havia se passado cinco minutos e já podia se ver as faíscas entre as duas mulheres.

— Estela, por que não entra? – o homem incentivou-a enquanto sua mãe apenas ignorava-a.

— Trouxe o vinho. – falou retirando uma garrafa da bolsa, uma aquisição apressada durante o caminho para a casa da mãe. Estela sempre levava a bebida, porque sabia que mais do que todos, precisaria dele. Por causa disso, sempre ia e voltava de taxi da casa da mãe. Não queria matar ninguém, nem se matar.

— Espero que seja caro. – Lua comentou.

            A médica nem se deu ao luxo de responder, apenas pôs sobre a mesa da sala de estar a garrafa de Pizzato DNA 99 Single Vineyard Merlot 2005. Estela deixou uma risada amarga escapar. Ela não tinha olhado o nome, apenas a safra. Parecia uma coincidência infeliz que a marca do vinho fosse Pizzato. Era como se as memórias do seu último encontro com Vicent fossem revividas só com aquele nome.  Estela não gostava disso.

— Estela! – Luna veio em sua direção, recebendo-a com um abraço e um beijo na bochecha. - Pensei que nos deixaria passar fome a noite toda!

            Estela sorriu forçadamente.

— Minha conduta médica não permitiria. – piscou para a irmã para que sua frase não parecesse tão ofensiva quanto gostaria que fosse.

— Por que demorou tanto? – Luna seguia-a enquanto caminhava para sentar-se no sofá da casa da mãe.

— Estava na VEGA resolvendo alguns problemas. – a menção do nome da empresa da família já fez brotar um muxoxo de sua mãe, de onde quer que estivesse.

— Ah, você foi à VEGA? Como estão as coisas? E o pessoal? Carlos continua à frente da empresa? – David aproximou-se incluindo-se na conversa com aquela enxurrada de perguntas.

— Vão bem. Carlos continua lá e inclusive está fazendo um ótimo trabalho! Acho que foi a melhor decisão que já tomei na vida passar a VEGA aos cuidados dele. – a loira alfinetou sua mãe que trazia da cozinha alguns petiscos cortados em uma bandeja.

— Se Carlos é tão bom assim deveria dar de uma vez a empresa a ele. – Lua rebateu.

— Posso fazê-lo, mas você precisa me garantir que conseguirá sobreviver sem a renda que ganha da empresa. Isso seria o quê? Cem por cento de seus ganhos?

            Lua não se deu ao trabalho de responder, apenas virou-se e voltou para a cozinha. David tentava disfarçar a tensão acendendo a chama da panela de fondue.

— Estela, você não deveria falar assim com a mamãe! – Luna repreendeu.

— Como está no escritório, David? – a médica ignorou a irmã.

— As coisas vão muito bem! Precisam ir, né, pra conseguir pagar as despesas que sua irmã me dá. – os dois riram enquanto Luna fechava a cara.

— Ora, por favor, são apenas algumas comprinhas! Você deveria agradecer pela esposa que tem! Eu deveria gastar todo o seu dinheiro, isso sim!

— Retiro o que disse! Não está mais aqui quem falou! Acho que não há casos suficientes no mundo para que eu consiga ganhar mais do que você gasta!

— Será que não está na hora de Luna começar a trabalhar, David? Ela poderia ser sua secretária. – Estela sugeriu enquanto levantava-se e pegava uma taça para por o vinho que acabara de comprar.

— O quê? Nem pensar! Eu sou uma lady! Nasci para ser amada e adorada. – protestou.

            Estela meneava a cabeça enquanto se servia do vinho pensando no quão fútil era a irmã.

— Espero que você tenha casado com Luna sabendo dessas condições, David. – a médica falou.

— Eu sempre soube, cunhada. Mas o que eu posso fazer? Não dizem que o amor é cego? – deu de ombros, começando a espetar alguns petiscos num garfinho para mergulhá-los no queijo.

— O amor é cego e burro também. – Estela pegou o garfinho das mãos de David ao sentar-se. Antes que ele pudesse protestar ela voltou a falar. – Essa lady aí já trabalhou muito quando se engraçava pra Sebastian, você sabia?

— Estela! – Luna protestou. -  Mamãe, venha logo pra sala! Estela está começando a jogar seu veneno em mim!

— É muito frouxa mesmo! – a loira falou antes de enfiar os petiscos de David na boca.

— Eu já disse, sou uma lady. – Luna deu língua para a irmã.

— Essa lady aí é furada. Uma lady nunca faria o barraco que a sua irmã fez semana passada no cabeleireiro! – David falou para Estela, tentando conter o riso.

— David! Você também vai ficar contra mim?

— Meu bem, nós não estamos contra você. – o homem segurou a mão da amada.

— Estamos apenas a favor um do outro. – Estela completou os cunhados piscaram entre si.

— Você deveria ter casado com ela então! – Luna soltou sua mão da do marido.

— Ah, mas Estela é muito chata e econômica, nós não nos daríamos bem. – defendeu-se.

— E David é muito lento e fraco pra rotina que eu levo. – um sorriso brincava nos lábios de Estela enquanto ela ajudava o cunhado a reconquistar a esposa. Era divertido provocar Luna.

— O que vocês estão fazendo com a minha princesinha, hein? – Lua apareceu na sala com mais uma bandeja de petiscos, que deixou perto da panela de fondue, antes de acomodar-se na poltrona ao lado do sofá.

            O sorriso de Estela desapareceu e em poucos segundos ela já partia para sua segunda taça de vinho.

— Nada demais, minha amada sogra.  – David falou.

— Eles estão me provocando, mãe! – Luna queixou-se.

— Querida, não se pode confiar no que um advogado diz, muito menos em uma mulher que faz uma tatuagem no próprio peito! – fez menção ao decote de Estela que mostrava a assinatura de seu pai.

— Luna, você não contou pra mamãe da tatuagem que fez ? É por isso que tem andando com os braços cobertos, não é mesmo? – a mãe se espantou com a revelação de Estela.

— Luna, você fez uma tatuagem ?! Você fez uma tatuagem e não me contou?! Eu não acredito nisso!

— Sua naja! Por que você foi contar pra mamãe?!  - Luna vociferou para a irmã. - O David pediu! – apontou para o marido.

— Não jogue a culpa em mim, querida! – David se defendeu. - Eu não tenho nada a ver com isso! Eu simplesmente cheguei um dia e ela já estava lá.

— Se tiverem que brigar façam isso enquanto estou aqui para prestar os primeiros socorros. – Estela pegou mais um petisco e comeu.

            Luna pensou em responder, mas decidiu parar.

— Estela, por favor, para de jogar seu veneno. – Lua pediu.

— Mãe, fondue de novo? – Luna mudou de assunto antes que as coisas piorassem. – Se continuarmos assim, podemos mudar o nome dos encontros familiares para encontros do fondue.

— Se continuar reclamando vou dar na sua cara, garota! Da próxima vez vou colocar você pra fazer a janta!

— Não! – Estela e David falaram em uníssono.

— Não faça isso! – a loira pediu.

— Tenha piedade de nós, sogra.

— Idiota! – Luna jogou uma almofada no marido.

— Luna, você nem sabe fazer um miojo, como quer brigar com David? – a médica pôs-se a defender o cunhado.

— Não defende ele, Estela! – David e Estela começaram a rir.

— Mãe, onde está a Nilza? Pensei que ela fosse fazer o jantar. Ela sempre faz. – Estela comentou.

— Dei folga a ela. Queria fazer a janta eu mesma. – falou indiferente, comendo um petisco.

— De fato, devemos parabenizá-la pelo esforço em cortar os petiscos. – Estela brincou.

— Você acha que ela cortou alguma coisa? Quem cortou fui eu!

— David! – Lua repreendeu-o. – Como você revela meus segredos dessa forma? – todos riram.

— Como vai o trabalho, Estela? – Luna perguntou.

— Cansativo como sempre. Trabalhar na emergência é sempre muito estressante e desgastante. Não tenho hora pra sair, só pra chegar, almoço quando dá e dormir pra mim é privilégio. – tomou um gole de seu vinho.

Entre risos e alfinetadas, Estela já ia para a terceira taça.

— Se está tão difícil você simplesmente poderia voltar para a VEGA, aquele lugar que você tanto adora. – Lua falou de forma desdenhosa.  

            A mãe e a irmã não gostavam de serem associadas a qualquer coisa que tivesse o pai dela envolvido.  Isso machucava Estela.

— Vocês sabem que meu compromisso com a vida é maior que com a empresa. – a loira protestou.

— Seu compromisso deveria ser em arranjar  um homem que te pegue de jeito. Duvido que ia pensar  outras coisas. Veja Luna, está sempre feliz e sorrindo, por quê? Porque ela tem um homem, ela dá sempre e é mimada por ele. – Lua comentou.

— Mãe, por favor... – Estava demorando para começarem as alfinetadas.

— E aquele homem maravilhoso que eu encontrei com você outro dia? – a mãe de Estela insistiu. - Não me diga que deixou escapar aquele pedaço de mau caminho? Você já foi melhor, querida. Deve ser essa tatuagem afastando os homens.

— Eu acho que é a personalidade mesmo. – Luna palpitou. – Estela é uma velha rabugenta. Como alguém pode querer uma velha rabugenta?

— Por que não falamos de algo mais interessante? – a médica tentou mudar o assunto.

— Já estamos falando de algo interessante, Estela. – a irmã da loira disse com um sorriso de quem sabia que o jogo havia virado.

— Luna, me desculpe, - a mãe das mulheres falou. -  mas eu não consigo ver como ser uma pessoa com quase trinta, solteira, amarga e chata pode ser interessante. – Lua falou. – Querida, você precisa aproveitar enquanto aparenta ser jovem.

— Eu não preciso de um homem, eu preciso que vocês parem de achar que eu só vou ser bem sucedida na vida se tiver um! – Estela deixou sua irritação transparecer.

— Essa rebeldia é falta de sexo. – Lua falou tranquilamente, como se fosse a coisa mais óbvia. - Estela, quando foi a última vez que você deu pra alguém, hein?

— Não acredito que vamos entrar nesse assunto! – a loira virou de uma vez o que restava em sua taça.

— Querida, você precisa esquecer o passado. Já faz muito tempo que tudo aconteceu, está na hora de seguir em frente! – Lua comentou. David apenas assistia calado enquanto comia, com medo que a bomba estourasse em seu colo.

— Eu estou seguindo em frente! O único problema são vocês que não aceitam o modo de vida que eu escolhi!

— Você é mesmo feliz se isolando e olhando de cara feia pra todos a sua volta? Você acha que as pessoas que tanto amou gostariam disso? Você diz que superou o passado, mas sempre vem com ele pra essa casa. – Lua fez menção ao cordão de Estela.

— Alguém precisa amar o papai. – a médica atacou.

— E você precisa parar de ser essa egoísta mesquinha só por que um cara de teu um pé na bunda! – Lua disparou.

            Estela encarou-a, abriu a boca para contestar, mas não conseguiu emitir som algum.

— Obrigada pelo jantar. – a loira conseguiu falar depois de alguns minutos de silêncio. - Estou saindo. – anunciou, pegando sua bolsa.

— Estela... não vá... – a médica pôde ouvir a voz de David se perdendo.

            Ao passar por eles pegou a garrafa de vinho e ao sair bateu a porta com força. Ninguém foi atrás dela no corredor ou no elevador. Se ao menos Estela soubesse o silêncio que tomou conta da noite naquela casa, talvez não ficasse tão mal.

— Já vai, senhorita? – a loira respondeu ao porteiro apenas com um aceno enquanto caminhava cabisbaixa em direção à rua, a passos duros e rápidos.

            Passado.

 Como ela poderia se desapegar? Era algo impossível! O passado estava em sua mente, sua pele, em seu coração e no ar que respirava. Foi fácil para Luna e Lua superarem as perdas que tiveram. Ambas não simpatizavam muito com seu pai e olhavam apenas para os próprios interesses. Estela ficou sozinha, desamparada e ainda responsável pela vida de mais de quinhentos funcionários. Era muita pressão pra quem acabara de perder tudo o que amava.            Às vezes a loira sentia falta do espírito que costumava ter, mas então ao encarar a realidade ao seu redor percebia que havia feito a escolha certa, deixando aquela parte de si morrer.

Estela não queria voltar para o vazio de sua casa e encarar seu gato que só ligava apenas para si mesmo. Ela queria ir para um lugar onde as pessoas dissessem que estava tudo bem ser assim, que ela tinha tomado as decisões corretas, que mesmo sem o espírito que costumava ter, Estela ainda era encantadora, querida, desejada.  

            Foi então que percebeu que só tinha apenas uma pessoa que poderia fazer isso: Luiza. Mas Luiza tinha família e não podia ajudá-la como antes. Ela tinha coisas mais importantes. Talvez, por mais uma vez, Estela teria que aguentar aquela dor sozinha e calada. Então ela lembrou de algo, ou melhor, alguém. E uma proposta.
 

(...)
 

            Vicent estava frustrado. Em sua vida de conquistas, somente Luiza tinha resistido ao seu sex appeal. Será que estava perdendo o jeito? Deitado no sofá de sua casa, ele jogava o telefone pra cima e agarrava repetidas vezes enquanto pensava na resposta para essa pergunta. Porque foi tão fácil para Estela rejeitá-lo? Será que ele estava ficando sem pegada? Ou será que se enganou sobre quem era a mulher que conheceu?

            O moreno pensou por um bom tempo e chegou à conclusão de que a melhor decisão seria esquecer aquela proposta ridícula e seguir em frente. Superado este dilema, era  hora de levantar e ver quem tocava insistentemente a campainha.

            Descalço mesmo, Vicent caminhou em direção à porta, apenas com uma calça de moletom até alcançá-la e abri-la para se deparar com ela. Deus, Estela estava... UAU! Extremamente sexy. O short curto revelava as coxas grossas, a regata colada ao corpo, mostrava sua cintura fina e seus seios médios destacavam a tatuagem à amostra. Os saltos davam ao seu visual uma aparência muito mais sensual. Por conta desse conjunto, ao vê-la, a única coisa que conseguiu fazer foi continuar a encará-la.

— Sua proposta... – Estela começou. A voz rouca causando arrepios em seu corpo. – Ainda está de pé?

            Vicent sorriu maliciosamente. É claro que estava. 


Notas Finais


E então? Gostaram?
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