História Maré - Capítulo 10


Escrita por: ~

Postado
Categorias Originais
Tags Gay, Homossexual, Original, Romance, Yaoi
Visualizações 19
Palavras 5.050
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Festa, Hentai, Lemon, Romance e Novela, Shounen, Slash, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Ei, Feliz Natal a todos!
Espero que gostem desse capítulo extra. Aqui tem algumas informações sobre a história que podem ajudar vocês a desvendarem o que está por vir!
Agora que me formei do ensino médio tenho tempo de sobra e posso me dedicar mais a fic e outros projetos pessoais :)
Boa leitura!!!

Capítulo 10 - (Extra de Natal) - Alguns anos atrás...



[LOUIS POV]

 

2 ANOS ATRÁS

 

Odeio hospitais. 

Assim como eu odeio o dia de hoje. Como nunca mais vou poder comemorar o natal de novo.

Uma enfermeira passa por mim e delicadamente pousa as mãos em meus ombros.

- Senhor, você está bem?

- S-Sim... - sussurro. 

- Acho melhor você sentar. Vou pedir para alguém buscar uma água e...

- Não! - Quase grito no rosto da mulher. - Desculpa, eu só... Já vou embora. 

- Tem certeza? 

- Sim. 

Me desvencilho das mãos da enfermeira e continuo o caminho doloroso, que parece nunca ter fim, até a saída do hospital. 

Não consigo aguentar. 

Por que dói demais

Caio de joelhos no chão. Não sei se já cheguei do lado de fora, se estou na recepção ou se nem saí do corredor. 

Algumas vozes chamam, e minha visão escurece. Meu rosto é tomado por mãos conhecidas, mas não sei de quem são. 
  


--- ---- ---

  Já sei imediatamente, mesmo antes de estar completamente acordado, que estou em casa. Esse apartamento velho que não tem mais nenhum significado. 

Meu quarto está arrumado, como sempre. A única coisa fora do lugar é o cobertor que me aquece.

Mas eu estou pegando fogo por dentro e não preciso dele. 

Levanto. Observo meus dois pés tocando o chão gelado, meu corpo semi nu. Tem um espelho e eu encaro o homem nele. 

Por que isso não é um sonho? 

Eu odeio olhar para mim, para meu rosto e ver os olhos dela. O cabelo dela. Por que não posso parecer com o merda do meu pai? 

Era para tudo estar perfeito. Consegui um emprego. Estamos virando de ano. O que sempre dizem sobre essa época, são cinco dias do Natal até o Ano Novo para você pensar em quem você quer ser nos próximos 365 dias que seguem. Eu tenho dinheiro. Ia levar a família para viajar. 

Voltaríamos a Paris.

Dois meses visitando médicos. 

Eu secretamente perguntava para cada um deles se ela poderia viajar. Tudo estava bem. Ela iria visitar Cannes, eu iria relembrar as memórias da infância, Adeline aproveitaria casa segundo com a gente. 

Mas foi no dia de Natal. Alguns comemoram o nascimento. 

Para mim, a partir de agora, o dia celebra a morte. 

E ela se foi mesmo com todos falando que estava tudo bem. Sua saúde estava ótima como nunca. 

O que diabos ela tinha? Nunca saberemos. A autópsia deve sair daqui a alguns dias, mas os médicos já suspeitam de infarto causado por uma suposta insuficiência renal. Os sintomas são simples, como perda de apetite e cansaço. Uma doença silenciosa. Não tinha como perceber antes; ela sempre aparentava cansada e comia pouco. 

E olhando para o espelho eu imagino meus olhos sendo os dela, inanimados, sem vida qualquer. 
  Corro até o espelho e o jogo no chão. Ele se quebra em vários pedaços que se espalham pelo chão do meu quarto. 

Não quero parar. Tenho em mim uma raiva, um ressentimento e uma dor enormes. 

Tem uma TV na parede. Eu a desligo da tomada e arranco da parede, jogando com toda força no chão. Mais vidro. 

Então começo a jogar todos os livros da minha prateleira no chão. Alguns jogo pelas janelas. 

Seguro o livro do Pequeno Príncipe. Hesito por um segundo, olhando a capa, a arte do autor. 

Ela lia para mim antes de dormir. 

Le Petit Prince. 

Não preciso mais dele. Por que essa história não tem mais significado nenhum pra mim. Jogo-o pela janela. 

Sinto uma dor aguda nos pés e percebo que pisei nos cacos de vidro espalhados pelo chão. Mas a dor não se compara com a de dentro. Continuo. 

Abro as portas do meu armário. Jogo todas as roupas no chão, na cama, algumas até voam para fora da janela. Soco a porta. Soco de novo, e de novo, e de novo. A porta do armário velho de madeira agora tem o formato da minha mão. 

Tem a seção do meio do armário, onde eu guardo meus pertences como cremes, produtos de beleza e de cabelo, esse tipo de coisa. Pego cada perfume e os jogo na parede. Em poucos minutos o quarto tem um cheiro insuportável da mistura de todas as fragrâncias. 

Então tem um canivete que ganhei de aniversário há um tempo atrás, com minhas iniciais gravadas na lâmina. Abro ele e encaro meu rosto no reflexo. 

Estou suando como nunca. Meu cabelo está grudado na minha testa e nuca, meus olhos estão esbugalhados. Minha respiração descompassada. Tem sangue no meu rosto de quando tentei tirar os cacos do meu pé. Eu não fiz a barba, então pareço mais ainda um psicopata. 

No fundo do armário tem um espelho. Minha expressão vazia e conturbada me encara.

Coloco a ponta do canivete no meu pescoço. 

- T-Tão fácil... Acabar tudo... - falo para mim mesmo. 

Pressiono a lâmina e me sinto no controle de uma situação em estado de alerta. 

Qualquer pensamento pode mudar meu futuro nesse momento. 

- Eu consegui, mamãe. O emprego. Eu ia levar a gente pra França, por que meu último livro vendeu bem e compraram os direitos para produzir uma peça. Eu tenho muito dinheiro agora, por que tudo que eu pensei em fazer com ele era gastar em você, no seu tratamento, na sua saúde e na sua felicidade, mama. Pourquoi tu me quittes?* Je ne peux pas le faire sans vous**. - Aperto ainda mais a lâmina em meu pescoço, e um pequeno fere de sangue escorre, gelado.

Je n'ai aucune raison de vivre!*** - grito. 

- Chega. Por favor. 

Levo um susto com a imagem de Adeline à minha porta. Solto o canivete e caio de joelhos no chão, os pedaços afiados cortando ainda mais minha carne. Ela corre os olhos fundos pelo quarto. 

- Não me venha com essa merda, Louis. Não fale besteiras. 

Ela anda sobre o espelho quebrado, sem se machucar por causa dos chinelos. Chega até mim e puxa meu queixo para cima. 

- Eu estou sofrendo também! - Ela grita. - Eu não esperava, assim como você! Não me venha com essa merda de tentar se matar! Se você for também, o que eu vou fazer? Hein? 

Ela percebe que estava agarrando meu rosto com força e me solta, colocando as duas mãos na cabeça. 

- Merde, merde! Putain...****

Adeline, sem soltar as mãos dos cabelos, os quais aperta entre os dedos, me encara. 

- Pardon... - ela diz, baixinho. 

Assinto. Me levanto com os joelhos doloridos e cortados, e vou até ela, abraçando seu corpo rechonchudo. 

- Me desculpa por isso. Vou arrumar. Eu só... - Lágrimas começam a rolar sobre a minha face. - Eu vou sentir tanta saudade. Mamãe... 

Começo a soluçar, incapaz de terminar minha fala.

- Eu sei, Cherrie, eu sei. 

- Addie, você... E-Eu não vou deixar você. Não me deixe. 

- Nunca, Louis! 

Apertamos o abraço ainda mais.

Engraçado como nesse gesto, a dor que eu carreguei durante toda a manhã se dividia com a dela. Nossos braços entrelaçados, e logo acima de nossas cabeças, todos os nossos sentimentos se abraçavam também. Não está tudo bem. Mas a partir desse momento eu sei que vai ficar. 

Ainda tenho Adeline. Mesmo que Adèle tenha ido embora. 

 

 


[LOUIS POV]

2 ANOS ATRÁS

 

Odeio hospitais. 

Assim como eu odeio o dia de hoje. Como nunca mais vou poder comemorar o natal de novo.

Uma enfermeira passa por mim e delicadamente pousa as mãos em meus ombros.

- Senhor, você está bem?

- S-Sim... - sussurro. 

- Acho melhor você sentar. Vou pedir para alguém buscar uma água e...

- Não! - Quase grito no rosto da mulher. - Desculpa, eu só... Já vou embora. 

- Tem certeza? 

- Sim. 

Me desvencilho das mãos da enfermeira e continuo o caminho doloroso, que parece nunca ter fim, até a saída do hospital. 

Não consigo aguentar. 

Por que dói demais. 

Caio de joelhos no chão. Não sei se já cheguei do lado de fora, se estou na recepção ou se nem saí do corredor. 

Algumas vozes chamam, e minha visão escurece. Meu rosto é tomado por mãos conhecidas, mas não sei de quem são. 
  


--- ---- ---

  Já sei imediatamente, mesmo antes de estar completamente acordado, que estou em casa. Esse apartamento velho que não tem mais nenhum significado. 

Meu quarto está arrumado, como sempre. A única coisa fora do lugar é o cobertor que me aquece.

Mas eu estou pegando fogo por dentro e não preciso dele. 

Levanto. Observo meus dois pés tocando o chão gelado, meu corpo semi nu. Tem um espelho e eu encaro o homem nele. 

Por que isso não é um sonho? 

Eu odeio olhar para mim, para meu rosto e ver os olhos dela. O cabelo dela. Por que não posso parecer com o merda do meu pai? 

Era para tudo estar perfeito. Consegui um emprego. Estamos virando de ano. O que sempre dizem sobre essa época, são cinco dias do Natal até o Ano Novo para você pensar em quem você quer ser nos próximos 365 dias que seguem. Eu tenho dinheiro. Ia levar a família para viajar. 

Voltaríamos a Paris.

Dois meses visitando médicos. 

Eu secretamente perguntava para cada um deles se ela poderia viajar. Tudo estava bem. Ela iria visitar Cannes, eu iria relembrar as memórias da infância, Adeline aproveitaria casa segundo com a gente. 

Mas foi no dia de Natal. Alguns comemoram o nascimento. 

Para mim, a partir de agora, o dia celebra a morte. 

E ela se foi mesmo com todos falando que estava tudo bem. Sua saúde estava ótima como nunca. 

O que diabos ela tinha? Nunca saberemos. A autópsia deve sair daqui a alguns dias, mas os médicos já suspeitam de infarto causado por uma suposta insuficiência renal. Os sintomas são simples, como perda de apetite e cansaço. Uma doença silenciosa. Não tinha como perceber antes; ela sempre aparentava cansada e comia pouco. 

E olhando para o espelho eu imagino meus olhos sendo os dela, inanimados, sem vida qualquer. 
  Corro até o espelho e o jogo no chão. Ele se quebra em vários pedaços que se espalham pelo chão do meu quarto. 

Não quero parar. Tenho em mim uma raiva, um ressentimento e uma dor enormes. 

Tem uma TV na parede. Eu a desligo da tomada e arranco da parede, jogando com toda força no chão. Mais vidro. 

Então começo a jogar todos os livros da minha prateleira no chão. Alguns jogo pelas janelas. 

Seguro o livro do Pequeno Príncipe. Hesito por um segundo, olhando a capa, a arte do autor. 

Ela lia para mim antes de dormir. 

Le Petit Prince. 

Não preciso mais dele. Por que essa história não tem mais significado nenhum pra mim. Jogo-o pela janela. 

Sinto uma dor aguda nos pés e percebo que pisei nos cacos de vidro espalhados pelo chão. Mas a dor não se compara com a de dentro. Continuo. 

Abro as portas do meu armário. Jogo todas as roupas no chão, na cama, algumas até voam para fora da janela. Soco a porta. Soco de novo, e de novo, e de novo. A porta do armário velho de madeira agora tem o formato da minha mão. 

Tem a seção do meio do armário, onde eu guardo meus pertences como cremes, produtos de beleza e de cabelo, esse tipo de coisa. Pego cada perfume e os jogo na parede. Em poucos minutos o quarto tem um cheiro insuportável da mistura de todas as fragrâncias. 

Então tem um canivete que ganhei de aniversário há um tempo atrás, com minhas iniciais gravadas na lâmina. Abro ele e encaro meu rosto no reflexo. 

Estou suando como nunca. Meu cabelo está grudado na minha testa e nuca, meus olhos estão esbugalhados. Minha respiração descompassada. Tem sangue no meu rosto de quando tentei tirar os cacos do meu pé. Eu não fiz a barba, então pareço mais ainda um psicopata. 

No fundo do armário tem um espelho. Minha expressão vazia e conturbada me encara.

Coloco a ponta do canivete no meu pescoço. 

- T-Tão fácil... Acabar tudo... - falo para mim mesmo. 

Pressiono a lâmina e me sinto no controle de uma situação em estado de alerta. 

Qualquer pensamento pode mudar meu futuro nesse momento. 

- Eu consegui, mamãe. O emprego. Eu ia levar a gente pra França, por que meu último livro vendeu bem e compraram os direitos para produzir uma peça. Eu tenho muito dinheiro agora, por que tudo que eu pensei em fazer com ele era gastar em você, no seu tratamento, na sua saúde e na sua felicidade, mama. Pourquoi tu me quittes?* Je ne peux pas le faire sans vous**. - Aperto ainda mais a lâmina em meu pescoço, e um pequeno fere de sangue escorre, gelado.

- Je n'ai aucune raison de vivre!*** - grito. 

- Chega. Por favor. 

Levo um susto com a imagem de Adeline à minha porta. Solto o canivete e caio de joelhos no chão, os pedaços afiados cortando ainda mais minha carne. Ela corre os olhos fundos pelo quarto. 

- Não me venha com essa merda, Louis. Não fale besteiras. 

Ela anda sobre o espelho quebrado, sem se machucar por causa dos chinelos. Chega até mim e puxa meu queixo para cima. 

- Eu estou sofrendo também! - Ela grita. - Eu não esperava, assim como você! Não me venha com essa merda de tentar se matar! Se você for também, o que eu vou fazer? Hein? 

Ela percebe que estava agarrando meu rosto com força e me solta, colocando as duas mãos na cabeça. 

- Merde, merde! Putain...****

Adeline, sem soltar as mãos dos cabelos, os quais aperta entre os dedos, me encara. 

- Pardon... - ela diz, baixinho. 

Assinto. Me levanto com os joelhos doloridos e cortados, e vou até ela, abraçando seu corpo rechonchudo. 

- Me desculpa por isso. Vou arrumar. Eu só... - Lágrimas começam a rolar sobre a minha face. - Eu vou sentir tanta saudade. Mamãe... 

Começo a soluçar, incapaz de terminar minha fala.

- Eu sei, Cherrie, eu sei. 

- Addie, você... E-Eu não vou deixar você. Não me deixe. 

- Nunca, Louis! 

Apertamos o abraço ainda mais.

Engraçado como nesse gesto, a dor que eu carreguei durante toda a manhã se dividia com a dela. Nossos braços entrelaçados, e logo acima de nossas cabeças, todos os nossos sentimentos se abraçavam também. Não está tudo bem. Mas a partir desse momento eu sei que vai ficar. 

Ainda tenho Adeline. Mesmo que Adèle tenha ido embora. 

 

 


[EDNA POV] 


       9 ANOS ATRÁS 

 

  Gustavo parece radiante. Eu sei que ele vai gostar do presente. Vem me enchendo o saco para comprar uma pista de carrinhos toda incrementada desde o aniversário. Preferi esperar até o Natal por que pude mandar personalizar. Sei que gosta da cor azul, então pedi para que fizessem um brinquedo único, com as iniciais dele, todo em tons de azul. Vai combinar com o quarto dele. 

Há dois dias ele me pediu para o amigo, Thomas, passar o Natal com a gente. Acharia estranho, claro, por que todos gostam de passar o Natal com a família. Mas nunca vi uma criança como Thomas antes. 

No dia em que fui até a diretoria por causa de uma das implicações das outras crianças com Gustavo, aparentemente Thomas o havia defendido. Eles começaram a ser inseparáveis a partir daí. Nunca fui como outras amigas minhas, que não deixam os filhos brincarem com crianças de outras classes sociais. Na verdade, esse é um pensamento bem problemático da parte delas. 

Não sou religiosa a ponto de deixar que isso guie minha vida, mas acredito que somos todos iguais. Thomas é apenas uma alma jovem que foi muito machucada. 

E quando meu filho o chamou de melhor amigo, decidi entender um pouco mais da vida do loirinho. Fui até a escola e conversei com a diretora. Ela me disse que o menino e mãe sofreram com o pai abusivo por anos e ele nunca tinha estudado antes numa escola. A mãe jovem cada vez mais descuidada, a medida que o menino crescia ela simplesmente o deixava em seus próprios pés. A diretora, Carla, conhecia muitos pais, por isso sabia da história deles com mais detalhes. Me contou tudo que podia. 

E a partir desse dia, Thomas entrou em meu coração. Me doía ver aquela criança se divertir quando saía conosco, ou vinha para nossa casa, e na hora de ir embora o seu semblante mudava completamente. Eu o considero meu filho, assim como Gustavo. 

Corri e comprei um presente para ele. Sei que o menino não tem muitas condições. Ele vive aqui em casa, na verdade muito mais do que na própria casa, então comprei dois pares de roupas e um boneco para o menino. Não é muito, mas quando abre ele pula de felicidade. Não lembrava a última vez que tinha ganhado uma roupa nova. Na verdade, que tinha ganhado qualquer coisa de alguém. Me abraçou forte. Abraçou Sérgio.

Depois de um tempo, começamos a comer. Ele hesita um pouco, com medo de ser mal educado. Lhe dou o sinal positivo e ele se solta um pouco mais. Repete o prato várias vezes. 

Se dá bem com toda a família. Os pais de Sérgio e minha mãe o adoraram. 

Chamo meu marido para ir até a cozinha, fingindo precisar de ajuda com as sobremesas. 

Sérgio me puxa para um beijo. 

- O que foi? - ele sorri, ainda perto do meu rosto. 

- Você pensou no que eu falei? 

Ele suspira e me encara por alguns segundos. 

- Ah, Sérgio...

- Meu amor. - Ele pega as minha mãos e as juntam, encontrando-as em seu peito. - Você é uma pessoa maravilhosa. Mas não acho que estamos preparados para passar por isso de novo. 

- Mas foi tranquilo com Gustavo... 

- Por que eu tenho nome, Edna. Por que temos dinheiro. 

- E não temos isso agora, também? 

- Thomas... Precisa ficar com a mãe. 

- Ele passa mais tempo aqui do que com ela! E... Aquela mulher vai perder a cabeça logo, logo. Vai ser pior, e ele vai parar no sistema de qualquer jeito. A diferença é que ele não vai ficar assustado e não vai se sentir abandonado! 

Olho para ele, com uma última chama de esperança acesa em mim. 

- Tudo bem. - ele diz, convencido. Sei que em grande parte, ele concordou para me fazer parar de insistir. - Mas vamos ter que inventar uma história. 

- Pode ser um primo distante? 

- Ou filho da sua irmã. 

- Minha irmã? 

- Sim. Que você não falava à muito tempo, por que, sei lá, ela era uma perdedora. Morreu e deixou o filho para trás. 

- É, pode funcionar. 

Sérgio beija o topo da minha cabeça. 

- Não vai ser fácil. E não vai ser o mesmo que foi com Gustavo. Você sabe. 

- Sim, sim. Mas tudo bem. - Dorrio para ele. - Vamos adotar Thomas, e ele vai ser feliz. Conheço pessoas que vão ajudar com a papelada. Vai dar certo.

Ele encara os pés e depois me olha. Algo em sua expressão parece vazio.

- Só não vai ser como foi com Gustavo. 

Assinto para ele. 

 


[GUSTAVO POV] 


        6 ANOS ATRÁS 

 

Primeiro dia de aula na escola nova. Não que eu me importe. 

Estando longe dele, tanto faz. 

Tendo algo para ocupar a cabeça, tanto faz. 

Minha vida é um grande tanto faz. 

Coloco minha mochila na única cadeira disponível, no fim da sala. Estou tão concentrado em não ficar nervoso que não percebo o ambiente ao meu redor. Apenas assisto à aula e tento diminuir o nervosismo.

Poderia ser igual antes. 

As pessoas podem estar enxergando o quão perdedor eu sou. 

"Ele não te quis por que você é uma aberração!" 

"Ele tem uma namorada, por que esse é o normal, não um namorado!"

"Sabe por que todos implicaram com você durante toda sua vida? Por que você é um lixo!"

"Fraco!" 

- Parem... - sussurro baixo.

- Ei...

A menina sentada na minha frente está com o corpo virado para trás. A aula já acabou e todos estão conversando. 

Parece que fiquei perdido com as vozes na minha cabeça. 

- Você tá bem? 

Ela tem a pele morena e olhos bem azuis. Seu cabelo tem a raiz preta, mas todo o resto é um tom de azul desbotado. 

- N-Não. 

Arregalo os olhos. Eu geralmente não sou sincero quando perguntam isso. Sempre estou bem. Me arrependo na hora de ter respondido. 

- Quer que eu te leve na enfermaria? 

- Não! Por favor...

- Tudo bem. Mas ei, se você tá nervoso por que é o primeiro dia de aula, relaxa. Nossa turma é muito tranquila. 

Balanço a cabeça em afirmação. De alguma forma, as palavras da menina me acalmaram. 

- Você não lembra mesmo de mim, né? 

- D-Desculpa. 

Ela abre um sorriso simpático. 

- Nós estudamos juntos desde o maternal. Bom, menos ano passado e ano retrasado, que eu vim pra cá. Sou Clarisse. 

Esse nome não me é estranho. Não lembrava de uma menina de cabelos coloridos na minha sala, mas provavelmente ela tinha começado a pintar recentemente. A verdade é que desde que conheci Thomas nunca mais prestei atenção em ninguém da turma. Pra mim, todos me odiavam e me achavam estupido. 

O único que gostava de mim de verdade era ele. 

- Depois vou te apresentar para o resto do pessoal. Eles também estudaram com a gente. 

- Ah... Desculpa não lembrar. 

- Tudo bem. - ela ri. - Você estava sempre com aquele menino. E antes dele, você era bem recluso. 

A menina de repente pega o celular, com um sorriso enorme, começa a procurar algo nele.

- Aqui! 

Ela me mostra uma foto, duas crianças em roupas de festa junina, dançando. Uma delas sou eu. 

- Eu lembro disso! Quer dizer, não perfeitamente, mas lembro!

- É, a gente dançou juntos. Acho que na primeira série. 

Encaro a menina. 

Por um segundo, penso que as vozes vão voltar a me atormentar. Vão falar para mim que ela só esta fazendo a obrigação de me receber, por ser novo.

Mas há algo tão sincero no sorriso dela. A foto me fez despertar lembranças antigas da minha infância. Lembranças boas. 

As vozes ficam quietas.

Mal posso esperar para conhecer o resto das pessoas. Ou melhor, reconhecer. 

Talvez tudo fique bem daqui pra frente. 

 


[EDNA POV]

 

9 ANOS ATRÁS

 

  Gustavo parece radiante. Eu sei que ele vai gostar do presente. Vem me enchendo o saco para comprar uma pista de carrinhos toda incrementada desde o aniversário. Preferi esperar até o Natal por que pude mandar personalizar. Sei que gosta da cor azul, então pedi para que fizessem um brinquedo único, com as iniciais dele, todo em tons de azul. Vai combinar com o quarto dele. 

Há dois dias ele me pediu para o amigo, Thomas, passar o Natal com a gente. Acharia estranho, claro, por que todos gostam de passar o Natal com a família. Mas nunca vi uma criança como Thomas antes. 

No dia em que fui até a diretoria por causa de uma das implicações das outras crianças com Gustavo, aparentemente Thomas o havia defendido. Eles começaram a ser inseparáveis a partir daí. Nunca fui como outras amigas minhas, que não deixam os filhos brincarem com crianças de outras classes sociais. Na verdade, esse é um pensamento bem problemático da parte delas. 

Não sou religiosa a ponto de deixar que isso guie minha vida, mas acredito que somos todos iguais. Thomas é apenas uma alma jovem que foi muito machucada. 

E quando meu filho o chamou de melhor amigo, decidi entender um pouco mais da vida do loirinho. Fui até a escola e conversei com a diretora. Ela me disse que o menino e mãe sofreram com o pai abusivo por anos e ele nunca tinha estudado antes numa escola. A mãe jovem cada vez mais descuidada, a medida que o menino crescia ela simplesmente o deixava em seus próprios pés. A diretora, Carla, conhecia muitos pais, por isso sabia da história deles com mais detalhes. Me contou tudo que podia. 

E a partir desse dia, Thomas entrou em meu coração. Me doía ver aquela criança se divertir quando saía conosco, ou vinha para nossa casa, e na hora de ir embora o seu semblante mudava completamente. Eu o considero meu filho, assim como Gustavo. 

Corri e comprei um presente para ele. Sei que o menino não tem muitas condições. Ele vive aqui em casa, na verdade muito mais do que na própria casa, então comprei dois pares de roupas e um boneco para o menino. Não é muito, mas quando abre ele pula de felicidade. Não lembrava a última vez que tinha ganhado uma roupa nova. Na verdade, que tinha ganhado qualquer coisa de alguém. Me abraçou forte. Abraçou Sérgio.

Depois de um tempo, começamos a comer. Ele hesita um pouco, com medo de ser mal educado. Lhe dou o sinal positivo e ele se solta um pouco mais. Repete o prato várias vezes. 

Se dá bem com toda a família. Os pais de Sérgio e minha mãe o adoraram. 

Chamo meu marido para ir até a cozinha, fingindo precisar de ajuda com as sobremesas. 

Sérgio me puxa para um beijo. 

- O que foi? - ele sorri, ainda perto do meu rosto. 

- Você pensou no que eu falei? 

Ele suspira e me encara por alguns segundos. 

- Ah, Sérgio...

- Meu amor. - Ele pega as minha mãos e as juntam, encontrando-as em seu peito. - Você é uma pessoa maravilhosa. Mas não acho que estamos preparados para passar por isso de novo. 

- Mas foi tranquilo com Gustavo... 

- Por que eu tenho nome, Edna. Por que temos dinheiro. 

- E não temos isso agora, também? 

- Thomas... Precisa ficar com a mãe. 

- Ele passa mais tempo aqui do que com ela! E... Aquela mulher vai perder a cabeça logo, logo. Vai ser pior, e ele vai parar no sistema de qualquer jeito. A diferença é que ele não vai ficar assustado e não vai se sentir abandonado! 

Olho para ele, com uma última chama de esperança acesa em mim. 

- Tudo bem. - ele diz, convencido. Sei que em grande parte, ele concordou para me fazer parar de insistir. - Mas vamos ter que inventar uma história. 

- Pode ser um primo distante? 

- Ou filho da sua irmã. 

- Minha irmã? 

- Sim. Que você não falava à muito tempo, por que, sei lá, ela era uma perdedora. Morreu e deixou o filho para trás. 

- É, pode funcionar. 

Sérgio beija o topo da minha cabeça. 

- Não vai ser fácil. E não vai ser o mesmo que foi com Gustavo. Você sabe. 

- Sim, sim. Mas tudo bem. - Dorrio para ele. - Vamos adotar Thomas, e ele vai ser feliz. Conheço pessoas que vão ajudar com a papelada. Vai dar certo.

Ele encara os pés e depois me olha. Algo em sua expressão parece vazio.

- Só não vai ser como foi com Gustavo. 

Assinto para ele. 

 


[GUSTAVO POV] 


        6 ANOS ATRÁS 

 

Primeiro dia de aula na escola nova. Não que eu me importe. 

Estando longe dele, tanto faz. 

Tendo algo para ocupar a cabeça, tanto faz. 

Minha vida é um grande tanto faz. 

Coloco minha mochila na única cadeira disponível, no fim da sala. Estou tão concentrado em não ficar nervoso que não percebo o ambiente ao meu redor. Apenas assisto à aula e tento diminuir o nervosismo.

Poderia ser igual antes. 

As pessoas podem estar enxergando o quão perdedor eu sou. 

"Ele não te quis por que você é uma aberração!" 

"Ele tem uma namorada, por que esse é o normal, não um namorado!"

"Sabe por que todos implicaram com você durante toda sua vida? Por que você é um lixo!"

"Fraco!" 

- Parem... - sussurro baixo.

- Ei...

A menina sentada na minha frente está com o corpo virado para trás. A aula já acabou e todos estão conversando. 

Parece que fiquei perdido com as vozes na minha cabeça. 

- Você tá bem? 

Ela tem a pele morena e olhos bem azuis. Seu cabelo tem a raiz preta, mas todo o resto é um tom de azul desbotado. 

- N-Não. 

Arregalo os olhos. Eu geralmente não sou sincero quando perguntam isso. Sempre estou bem. Me arrependo na hora de ter respondido. 

- Quer que eu te leve na enfermaria? 

Não! Por favor...

- Tudo bem. Mas ei, se você tá nervoso por que é o primeiro dia de aula, relaxa. Nossa turma é muito tranquila. 

Balanço a cabeça em afirmação. De alguma forma, as palavras da menina me acalmaram. 

- Você não lembra mesmo de mim, né? 

- D-Desculpa. 

Ela abre um sorriso simpático. 

- Nós estudamos juntos desde o maternal. Bom, menos ano passado e ano retrasado, que eu vim pra cá. Sou Clarisse. 

Esse nome não me é estranho. Não lembrava de uma menina de cabelos coloridos na minha sala, mas provavelmente ela tinha começado a pintar recentemente. A verdade é que desde que conheci Thomas nunca mais prestei atenção em ninguém da turma. Pra mim, todos me odiavam e me achavam estupido. 

O único que gostava de mim de verdade era ele. 

- Depois vou te apresentar para o resto do pessoal. Eles também estudaram com a gente. 

- Ah... Desculpa não lembrar. 

- Tudo bem. - ela ri. - Você estava sempre com aquele menino. E antes dele, você era bem recluso. 

A menina de repente pega o celular, com um sorriso enorme, começa a procurar algo nele.

- Aqui! 

Ela me mostra uma foto, duas crianças em roupas de festa junina, dançando. Uma delas sou eu. 

- Eu lembro disso! Quer dizer, não perfeitamente, mas lembro!

- É, a gente dançou juntos. Acho que na primeira série. 

Encaro a menina. 

Por um segundo, penso que as vozes vão voltar a me atormentar. Vão falar para mim que ela só esta fazendo a obrigação de me receber, por ser novo.

Mas há algo tão sincero no sorriso dela. A foto me fez despertar lembranças antigas da minha infância. Lembranças boas. 

As vozes ficam quietas.

Mal posso esperar para conhecer o resto das pessoas. Ou melhor, reconhecer. 

Talvez tudo fique bem daqui pra frente. 


Notas Finais


Traduções das frases em francês
* Por que me deixou?
** Eu não posso fazer isso sem você.
*** Não tenho mais razões para viver!
**** Merda, merda! Porra...


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