História Maré - Capítulo 9


Escrita por: ~

Postado
Categorias Originais
Tags Gay, Homossexual, Original, Romance, Yaoi
Exibições 25
Palavras 5.401
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Festa, Hentai, Lemon, Romance e Novela, Shounen, Slash, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Oie, obrigada a todos que acompanham a história! Foi um dos capítulos que mais gostei de escrever e fiquei ansiosa para postar logo! Boa leitura <3

Capítulo 9 - Capítulo 8 (Parte I) - Claridade


[GUSTAVO POV] 

  Já era o quinto terno que eu experimentava. Minhas esperanças já estavam se esgotando. 
  Clarisse e Theo olhavam para mim de baixo para cima e depois trocavam olhares de desaprovação. 
    - Chega, vamos embora. 
  - Não! - Clarisse chegou perto de mim, deixando Theo para trás dando uma olhada nos ternos que a vendedora tinha separado para mim. - Você é uma das pessoas mais importantes do evento, você tem que estar impecável. 
  - Primeiro de tudo, ninguém vai me conhecer, então eu definitivamente não preciso estar tudo isso. Chermont me disse que vão ser quase quatro horas de evento e a maioria desses ternos são extremamente desconfortáveis. Você sabe que eu odeio usar essas coisas. 
  - Ah, Gustavo, me poupe. É só uma noite. E as pessoas podem não te conhecer mas para Louis você vai, sim, ser a pessoa mais importante de lá. 
  - Não é pra tanto. 
  - Você é a única pessoa para quem ele dedicou o livro que vai poder estar lá. Faça justiça a isso. 
  A garota saiu balançando seus cabelos cor de rosa. Ela sabia que falando isso eu iria para com a birra e aceitar que vou ter que passar quatro horas com pessoas desconhecidas. Ah, se só esse fosse o problema... 
  Louis me parou na faculdade dois dias atrás e me convidou para a festa de lançamento do livro. O Garoto Verde. Falou que a editora vem colocando grandes expectativas em cima do livro. Todos falam que vai ser um grande sucesso. Eu nunca tinha parado para conversar com Chermont sobre os livros que ele já tinha escrito, e acho que só percebi que ele já era meio famoso quando ele me entregou o convite e falou que outros autores, inclusive os que escreveram uma resenha do livro, estarão lá. Seria um evento privado, para 150 pessoas, e ele disse que se eu não fosse não teria sentido comemorar uma coisa que só aconteceu por minha causa. Seria em um hotel cinco estrelas, que, inclusive, meu pai frequenta bastante. 
  Devo admitir que de início recusei. Esse tipo de coisa não é pra mim. Nunca nessa vida saberia me comportar na frente de pessoas importantes, e mesmo eu sendo "rico", algumas dessas pessoas são muito mais. E eu já lidei com muita gente rica para entender que ou você se iguala a eles ou você é completamente trucidado. Eu que nem me importo com a maioria das coisas que eu tenho/ganho me pego me gabando de alguma coisa, só para não parecer inferior a essas pessoas. 
  Mas Louis pareceu chateado. Falei que ia. 
  - Mas você vai ter que usar terno. É traje esporte fino. - ele apontou para o canto do convite onde dizia exatamente isso. 
  E lá estava eu, terça-feira depois da faculdade, escolhendo um terno. Meu verdadeiro inferno é ter que ir em lojas de roupas. Eu geralmente visto qualquer coisa e sigo a minha vida. 
  Theo me entregou um terno azul escuro e me mandou experimentar. Obedeci e entrei no provador, vestido aquelas peças pesadas. Observei minha imagem no espelho; meu cabelo estava bagunçado por tirar e colocar roupas o tempo todo, mas meu rosto estava vívido. Na verdade, meu rosto tinha tanta cor que as sardas quase sumiam das bochechas. O azul do terno fez meu cabelo parecer bem mais laranja, e meus olhos bem mais amarelos. Sorri algumas vezes para mim mesmo, ensaiando a expressão-padrão que eu ia ter que usar o tempo todo.
  Suspirei. 
  Dei uma volta e olhei minha bunda. Ficava bonita naquela calça. 
  - É esse. 

 


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  Thomas desceu suas mãos das minhas costas para minha cintura, me puxando para mais perto. Eu agarrava os cabelos loiros, que estavam estranhamente compridos, enquanto me afundava em seu rosto para um beijo profundo. 
  De novo no sofá da minha sala, onde tudo tinha começado. 
  O loiro colocou uma das mãos por dentro da minha cueca e apertou minha bunda. Aproveitei e segui o movimento das suas mãos com meu quadril, fazendo-o arfar. 
  - Uou...
  - Não vai se acostumando, até por que eu nunca mais vou ficar em cima de você. 
  Ele sorriu e começou a seguir o ritmo lento do meu corpo. 
  - Ah, você nunca quis ser o passivo? 
  - Não, não mesmo. - Levantei os olhos e comecei a pensar sobre. - Na verdade, eu acho que deve ser bom, mas eu não tenho tanto interesse assim em dar. 
  - É bom. 
  Eu senti sua mão escorregando um pouco mais entre minhas nádegas e, num susto, tentei me afastar mas ele me impediu. 
  - Se deixa levar, Gustavo. Você vai ver que é bom. 
  Eu estava muito contraditório à situação. Eu não achava que eu seria o passivo alguma vez na minha vida. Sempre tive esse jeito mais feroz, e eu achava que se me comessem eu não teria controle da situação, o que pra mim estava fora de cogitação. 
  Mas a visão de Thomas, eu sentado em seu colo, estava maravilhosa. Suas coxas grossas me faziam ficar sentado com as pernas bem abertas. Sua blusa estava levantada e deixava sua barriga de fora. Ele não era muito malhado, e tinha até um pouquinho de barriga, mas ainda conseguia ser extremamente gostoso. 
  Fechei os olhos e respirei, acenando com a cabeça para ele entender que tudo bem. 
  Senti um dos seus dedos entrando na minha intimidade e suspirei forte. Imediatamente senti meu corpo acordando ao toque de Thomas. Ele fez movimentos leves, entrando e saindo, enquanto beijava meu pescoço e deixava chupões no mesmo. 
  - Vou colocar mais um. 
  - O-O que? 
  - Acredite, vai ajudar bastante a acostumar com o volume aí dentro. 
  - Droga...
  - Já estamos aqui. 
  - Tá...
  Ele me puxou com a outra mão para um beijo e mordeu meu lábio inferior enquanto introduzia mais um dedo. 
  - Ai, porra!
  - Shh, vai passar.
  Tomei sua boca novamente para tentar parar de pensar na dor que se iniciava em mim. Depois de algum tempo, nossas línguas dançavam em sincronia e eu rebolava em cima dele, ainda desconfortável, mas querendo cada vez mais. 
  Thomas levou suas mãos para o zíper da minha calça e começou a abrir. O ajudei com a sua blusa, e tirei a minha, e, alguns segundos depois, estávamos despidos no sofá, os corpos quentes se encostando. O garoto então se levantou rapidamente e se posicionou atras de mim, beijando minhas costas. Observei seu membro, e quase desmaiei. Não era grande, pelo menos não tanto quanto o meu, mas imaginar aquilo entrando em mim me deu uma agonia gigante. Só não sai por estar extremamente excitado. 
  Ele virou meu rosto o suficiente para alcançar minha boca, meu corpo inclinado sobre seu peito, e começou a me tocar enquanto me beijava lentamente. 
  - Hmmm, isso é bom. 
  Ele sorriu no meio do beijo e começou a acelerar os movimentos que fazia em mim. 
  - Porra... 
  Gemi bem baixinho. Eu sabia que isso mexia com ele. Estar no poder deve estar deixando-o ainda mais louco. 
   Ele parou de me tocar e empurrou meu corpo, me deixando de quatro. Como já tinha visto ele fazer antes, curvei as costas para baixo. Ele pegou seu membro e passou entre minhas nádegas, ameaçando me invadir mas não o fazendo. 
  - Caralho, Thomas, anda logo! 
  - Não é bom? Você sempre faz isso. 
  Olhei para ele pelo meu ombro, e vi a clara diversão em seu rosto. Eu estava parecendo um pimentão. 
  Ele então começou a inserir seu membro em mim, bem devagar. A dor era bem menor do que eu esperava, mas mesmo assim era grande. 
  - Já foi o início. Vou deixar você se acostumar. 
  - Thomas. 
  Ele levantou uma sobrancelha enquanto massageava meus quadris. 
  - Só... vai. 
  - Pede direito. 
  - Por favor. - a agonia já estava me consumindo e eu não aguentava mais esperar. 
  - T-Thomas... 
  Ele agarrou o meu membro novamente e o apertou. 
  - O que, Gustavo?
  - Só me fode logo, porra! 
  Então ele o fez. 


  - Gostou? 
   Eu desenhava em seu peito formas aleatórias com meus dedos enquanto recuperava direito o ritmo da minha respiração. Observei seu rosto que estava alaranjando com a luz do sol de fim de tarde que entrava pela janela. Seu rosto estava bronzeado, e ele parecia cansado. Não por causa do sexo, mas como se fosse um reflexo do cansaço de dentro, um cansaço mental. Eu sabia reconhecer por que eu exalava toda a exaustão da minha mente, e conhecia exatamente como ela se manifestava no meu físico. 
  - Sim. Foi bom. 
  Ele sorriu de leve.   
  - Thomas, alguma coisa tá acontecendo? 
  Ele beijou o tipo da minha cabeça e me apertou num abraço, seus braços em minha volta e eu deitado em seu peito nu. 
  - Minha mãe, como sempre. Sempre ela que tá acontecendo. 
  - O que foi dessa vez? 
  Thomas respirou profundamente. Era um assunto complicado para ele falar sobre, eu sabia. Mas ele já tinha me dito que eu era uma exceção, não tinha vergonha de falar disso comigo. 
  - Ela largou o namorado traficante. E isso é bom. Mas... ela tá muito mal, Gustavo. Bebendo cada vez mais, usando drogas, fica dias sem comer e sem tomar banho. Sinceramente a única coisa que a separa dos viciado da rua é que ela fica dentro de casa. 
  - E tem um filho maravilhoso como você. 
  Ele se sentou, desfazendo a posição confortável. Começou a chorar. 
  - Não, TomTom, não chora por isso...
  - Eu acho que vou interná-la numa clinica de reabilitação em outra cidade, de onde ela veio. A irmã dela mora lá com o marido e os outros dois irmãos dela. Vai fazer bem, ela não vê eles há séculos...
  - Sim, aposto que sim. Eu posso ajudar, se quiser compro as passagens no meu cartão e...
  - Agradeço, mas não precisa. Eu tenho dinheiro pra isso. Economizei. E além do mais, minha família de lá tem dinheiro, já falei com minha tia e ela disse que ajudaria no que precisasse. 
  Ele levantou seu rosto e me encarou, sua face em uma expressão de profunda tristeza.  Pousou as mãos em meu rosto e encostou nossas testas. 
  - Só que eu vou também, Gustavo. Vou morar com meus tios enquanto ela fica na clínica. Eles tem dinheiro, mas não tem tempo. Sinceramente, acho que eles estão fazendo isso mais por mim do que por ela. Por dó. Se fosse por ela eles teriam ajudado quando a gente apareceu na porta deles há um tempo atrás. Ou pena ou peso na consciência. 
  - O-O que você quer dizer? 
  - Que eu preciso ir, Gus. 
  - E-E a faculdade? Você não pode! Ela sempre te tratou mal. Quem te criou foram meus pais e você sozinho enquanto ela enchia a cara e agora, depois que você finalmente voltou para minha vida você quer ir embora? Em tão pouco tempo perder você e a Vitória? Thomas, você não pode ir! Não pode fazer isso comigo. 
  Minha pele ardia com a notícia. Ele ia me deixar igual da última vez. 
  Por alguns segundos flashes daquele dia surgiram na minha cabeça. Como eu gostaria de estar perto do mar agora. 
  Ele me encarou incrédulo e se levantou. 
  - Gustavo, você sabe o que eu passei com minha mãe. Você sabe o porco nojento que meu pai era e o que isso fez com ela, com a gente. - Ele apontou o dedo para o próprio rosto. - Você tá certo, sua família me ajudou muito, mas é a sua família, não minha. A minha família, ou o que sobrou dela, está se acabando e eu preciso ajudar. 
  Ele começou a vestir suas roupas que estavam espalhadas no chão, com pressa, claramente chateado. 
  - Sabe, você sempre foi mimado, mas nunca percebi que você era egoísta pra caralho. Passar bem. Vou embora quinta feira. 
  Então ele saiu pela porta do meu apartamento, me deixando para trás. 
   E por mais que isso me chateasse, nem tudo estava tão ruim. Eu me direcionei ao banheiro, tomei um banho e comecei a me arrumar. 
  Estava indo encontrar Chermont e se eu contasse pra ele tudo isso ele iria me entender. Iria mostrar que eu não preciso ir até o mar para me sentir vivo. Que eu não estou vazio, que esse sentimento de perda não é maior do que eu. 
  Mal podia esperar. 

 


    [LOUIS POV]

 

  Eu estava ansioso. 
  Na verdade, ansiedade é um jeito fácil de escapar da realidade: eu estava extremamente preocupado. 
   Fazia um tempo desde o meu último livro, e eu não estava preparado para tudo que ia acontecer. Interações sociais nunca são um problema pra mim, exceto quando tenho tanta coisa pra lidar como agora. 
   Eu com certeza estava morrendo de felicidade com o lançamento do livro. Impossível não ficar feliz com o resultado que eu já tinha começado a receber, mesmo sem ter publicado o livro ainda. 
  Mas é um território perigoso onde eu me meti. 
  Gustavo remarcou nossa aula por que precisava ir atrás de um terno. Eu sei que não é nada demais, mas ele odeia usar roupas elegantes e o fato de ele deixar isso de lado por uma noite me faz feliz. Ele vai estar lá. 
  Ela também, no meu coração. 
  Chagas me liga a cada meia hora para se certificar de que tudo vai correr bem. A editora fechou o salão de festas de um hotel muito bom, pessoas importantes foram convidadas — e essas pessoas importantes chamaram pessoas importantes— e vai ter imprensa, pouca, mas vai ter. Tenho que dar três entrevistas, preparar um discurso e introduzir meu livro pro mundo. 
   Isso seria complicado — não impossível, até por que eu consigo fazer qualquer coisa — se minha musa não fosse. E ele vai. Isso é o mais importante. 
  Então era uma ansiedade boa. Não algo que me remoesse as entranhas, mas algo que me deixava excitado com a reação das pessoas. Elas vão odiar? Vão lembrar dos meus livros antigos? Descobrirão que Gustavo é G. A.? Por que não é impossível, é só juntar as peças. Eu o conheci e quebrei meu bloqueio de escrita. 
   Ajeitei o cabelo uma última vez no espelho do quarto do hotel. Era uma das melhores suítes. Claro, bancada pela editora. Era grande — maior que minha sala e meu quarto juntos. A cama era king size e era redonda. Eu nunca tinha visto uma cama redonda antes. O quarto tinha um estilo art deco, com papéis de parede de linhas que formavam desenhos, muitos detalhes dourados, todo em bege e branco. Me sentia como se tivesse vivendo dentro de O Grande Gatsby, aquele filme com o Leonardo DiCaprio. Era ao mesmo tempo luxuoso, mas simples, traspassava sua essência sem exageros. Tinha uma TV com uma lareira embaixo, um minibar com dois bancos e uma geladeira. Ah, o minibar não era a geladeira. Era literalmente um bar, só que pequeno o suficiente para uma pessoa ficar atrás manuseando as bebidas e duas sentarem na sua frente. O banheiro era branco, possuía um espelho gigantesco, tanto na parede da pia quanto na contrária à essa. As paredes alternavam aleatoriamente entre mármore branco, preto e bege, às vezes dividido bruscamente em linhas retas, às vezes mesclando entre si. A banheira era grande o suficiente para três pessoas, e tinha uma TV embutida na parede, caixas de som e até uma plataforma encoberta para conectar o celular (que pode ser reproduzido na TV ou tocar as musicas no aparelho de som). 
  Eu não me importo nada com coisas luxuosas. Ganhei bastante dinheiro com meus livros ao decorrer dos anos, mas não conseguiria gastar. Não tinha vontade de mudar de casa, também por causa de Adeline, não precisava de um carro novo e definitivamente não precisava de viver como um rei. Eu gosto da simplicidade, e gosto de investir em algo que valha a pena. 
    Mas de vez em quando me permito ser mimado. Ainda mais pela editora. 
   Chagas bateu na minha porta e, quando a abri, quase fechei de novo alegando que tinham batido no quarto errado. O cara que se vestia como um menino de 12 anos usava um terno preto com uma blusa verde musgo, seus cabelos estavam penteados e sua barba feita — bem feita. Ele me passou o cronograma, e conversou sobre os entrevistadores e quem eu deveria cumprimentar primeiro. Ele falava como um homem de negócios, sem gírias e sem erros. 
   Eu já o tinha visto assim, em outras ocasiões. Mais ainda era um choque muito grande. 
   Eu optei por uma camisa rosa. Não rosa salmão, rosa claro, que combinava com minha gravata borboleta vermelha. Realmente queria ter usado minha escarfe, mas não deixaram. Uma pena, por que muita gente bonita iria e a escarfe realmente realça meus olhos. 
  Não que precisem de realce. 
   

 

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  - Chermont! Faz tempo desde que nos encontramos!   
  Uma mulher de 60 anos (com cara e corpo de 30) me abraçou forte, mas transparecendo toda a elegância possível. Ela era Gal Skofmann, uma das escritoras que fizeram uma resenha para meu livro. Uma das avaliações dela saíram na edição final do livro. Ela era alta, esbelta na medida certa. Sua pele era negra, e parecia reluzir um brilho natural. Não só do iluminador que usava no conjunto da maquiagem profissional em seu rosto, mas em todo o corpo que estava a mostra. Usava um vestido azul escuro com uma camada fina de tecido brilhoso, segurado por alças bem finas. Sua perna direita ficava evidente quando andava, assim como os saltos altos finíssimos, com a famosa sola vermelha. Seu cabelo estava preso somente de um lado, deixando a outra metade volumosa exibindo cachos perfeitos. Ela era metade brasileira e metade sueca. Eu a conheci numa palestra, na qual ela falou, e nos tornamos amigos quando fui ao backstage conversar sobre o assunto. Tínhamos muito em comum, e ela era uma pessoa extremamente inteligente. Me deu muitas dicas de escrita. 
   Com mais de 30 livros publicados em muitas línguas, a presença dela ali fazia o evento valer quase o triplo. Uma das pessoas mais importantes do lugar, do mundo, estava ali para me prestigiar. 
   - Como li seu livro em um dia só! As 400 paginas me encararam de um jeito, Louis. Parabéns. Vai ser um sucesso, definitivamente. Já imagino a editora traduzindo e mandando para fora. Garotos e garotas vão gostar, de todas as idades, mas principalmente os novos como você. Tão emocionante. A dor, a perda, a descoberta, a necessidade. A luta contra os sentimentos de luto e a depressão. Lindo! 
   - Nossa, Gal. Uma honra ouvir isso de você. 
  - Que hora a minha! Estava com saudades de você e desses olhos esmeralda. 
   Um garçom passou e nos ofereceu champanhe, o qual ela com certeza aceitou. 
  - E diga-me, — ela bebericou sua taça enquanto me encarava — quem é G. A.? 
  - A alma do livro, Gal. 
  Ela arregalou os olhos, animada, e deu pulinhos excitados (dentro de toda a graça possível que exalava). 
  - Uma namorada? A musa, Chermont! Tem de ser uma namorada. Se construiu O Garoto Verde em cima de uma musa, é com certeza alguém que você ama. 
   Abri a boca para responder mas ela continuou. 
  - Hm... Não foi sua mama. Foi definitivamente alguém que ama. 
  - Amo? Por que? 
  - Detalhes! Construção de caráter! Não é você mesmo que tenha os olhos de esmeralda especificados no livro. É sua essência, mas como se fosse peneirada, e alguma peneira é essa sua musa. Você escreveu sobre a paixão em pessoa. Não como narciso, como uma inspiração. 
  - G. A....
  Corri meus olhos pelo salão tentando achar uma cabeleira ruiva. Não foi difícil. 
   Gustavo entregou seu convite para o guarda que estava na porta de entrada do salão enorme, e andou um pouco desajeitado para dentro do local. Coçou a cabeça algumas vezes e estreitou os olhos, buscando, na visão periférica que tinha, a mim. Ele encontrou meus olhos, que encararam os dele de volta, e sorriu. 
  Meu rosto imediatamente se desfez em alegria. 
   Gal estava desnorteada, talvez por que eu tenha parado de prestar atenção em nossa conversa por um segundo ou talvez um minuto, perdido em Abreu. Ela percebeu o sorriso e seguiu meu olhar. 
  Ela bateu de leve em meu ombro, incrédula. 
  - G. A.? 
  - Hã? - voltei meu rosto para ela, ainda extasiado da visão de Gustavo, estonteante em um terno azul. 
  - Nada contra, Louis! Viva o amor, viva a literatura e viva nós! 
  Ela virou a taça de seu champanhe. Estava alegre demais, e começo a imaginar se não tinha começado a beber antes de iniciar a conversa comigo. 
  Gustavo se aproximou e correu devagar em minha direção me puxando para um abraço. O encontro de nossos corpos fez surgir uma reação elétrica em mim, como se tivesse sido atingido por 100.000.000 de kWh. Retribui o abraço. Por ser mais baixo, meu rosto se encaixava na curvatura de seu pescoço, e pude sentir o perfume que usava, algo caro, que não tinha muito a ver com ele, mas com a ocasião. Apertou meu corpo e sussurrou no meu ouvido:
  - Chermont, isso é incrível. Parabéns. Eu... Só queria te falar que eu estou muito orgulhoso. Sério. Esse lugar, com certeza não dedicariam isso tudo para qualquer pessoa. Desculpa se eu não percebi antes que você é um escritor incrível. Você é. 
  Ele se separou de mim e sorriu. Aqueles dentes incrivelmente brancos e alinhados, a boca rosada e com uma pequena pintinha marrom no canto esquerdo, que só dava para ver de muito perto. Como eu estava. 
  - Comprei para você. Não sabia muito bem o que mais comprar, então desculpa. 
  Ele me entregou uma sacola preta pequena e um buquê de flores verdes e rosas brancas. Não era nada demais o buquê, mas já podia dizer que valia muito mais do que as outras coisas que eu tinha ganhado. 
  Um assistente de Chagas que estava coordenando o evento veio e pegou o presente da minha mão, assim como o buquê, e me avisou que eu teria mais meia hora de interação com os convidados e deveria fazer a leitura de uma passagem do livro e discursar. 
  Gustavo parecia constrangido, mas não se deixou abalar por isso. 
   - Gustavo, essa é Gal Skofmann. Ela...
   - G-Gal? Skofmann? Você por acaso escreveu a trilogia Resgate dos Ventos? 
  Gal pareceu brilhar quando ele mencionou um dos seus maiores sucessos. 
  - Sim, meu bem! 
  - Nossa, eu sou apaixonado pela história! Você é tipo, uma das minhas escritoras favoritas! Eu na verdade cheguei a sonhar em encontrar com você. Gal Skofmann está na minha frente!
   Ele parecia muito animado, como uma criança visitando um parque de diversões pela primeira vez ou uma fã do One Direction sendo chamada no palco. Eu não sabia que ele gostava tanto assim da Gal. Já tínhamos comentado sobre um outro livro dela, mas ele não pareceu nem metade entusiasmado como agora. 
  Toquei seu ombro, o que o fez hesitar por um segundo. Talvez ficou com medo de eu o repreender. 
  Nunca repreenderia seu rosto iluminado dessa forma. 
  - Bom, vou deixar vocês conversando por um tempo, já já tenho de fazer o discurso. E preciso caminhar um pouco mais, terminar a recepção. 
  Gustavo olhou para mim e para Gal, como se pedisse ajuda. 
  - Não se preocupe. Gal é uma pessoa maravilhosa. Vocês vão ter muito assunto em comum. 
  Pisquei para os dois e sai dali.


    [GUSTAVO POV] 


   Eu já estava na terceira taça de champanhe. 
   Gal deveria estar na vigésima. 
   Primeiro de tudo: Gal Skofmann! 
   A mulher era incrível. Bonita demais para a idade. Nunca velha demais para ser bonita. Ela parecia uma edição especial e limitada da boneca Barbie em tamanho real. 
   - Olha, Chermont vai falar! 
   Em um pequeno palanque, haviam dispostas duas nessas repletas dos exemplares d'O Garoto Verde, uns enfileirados e outros em pé num suporte. Atrás tinha um telão, passando fotos de Louis em sessões de autógrafos antigas, algumas fotos que foram tiradas no evento na hora, ele recebendo um prêmio de literatura. Fotos das peças teatrais que foram baseadas em uma de suas histórias. Uma mesa de discurso com a logo do hotel em dourado na frente, e Louis atrás, perto do microfone embutido na mesa. 
   - Boa noite à todos! Primeiro, é claro, é uma honra ter tantos amigos, escritores, atores, dramaturgos, professores... Todos aqui essa noite para prestigiar minha mais nova obra. Realmente, estou começando a me emocionar. 
  Ele fez um gesto bobo como se fosse chorar, arrancando risadinhas da plateia. 
  - Mas agora sério, esse livro é o mais importante da minha carreira. E talvez vocês possam estar se perguntando como eu sei disso se ainda muitos livros estão por vir. 
  Chermont pigarreou e olhou para baixo, encarando as mãos. 
  - Não tem sido fácil. Meus amigos escritores compartilham da minha dor quando falo que minha vida pessoal acabou por se tornar um fardo para minha escrita. Nem transformar essas emoções em palavras consegui por um tempo. Às vezes me perguntava se as pessoas não estavam loucas por comprarem meus livros, apaguei e reescrevi mil vezes essa história, a história do Garoto Verde. Ela me acompanha desde muito tempo. 
  Ele observava todos. Fiquei torcendo para cruzarmos olhares, mas ele não olhava de jeito nenhum em minha direção. 
   - Esse menino cada vez mais está se tornando um homem. - Gal comentou comigo, tropeçando um pouco nas palavras. 
   - ... Minha tia, Adeline, e minha mãe — a quem dediquei parte desse livro — sempre foram minha inspiração. Nada nunca foi mais importante do que familia para mim... 
  - Vem cá, vocês passam muito tempo juntos? 
  - Ah, sim. Bastante. Todos os dias nos encontramos na faculdade.  E também em casa. 
  Ela assentiu, como se fizesse algum cálculo na cabeça e tivesse chegado no resultado correto. 
  - Sempre soube que ele namoraria alguém nessa área. E vocês moram juntos? Não casaram? 
  - O que? 
  Ela gesticulou para Louis, que falava sobre a importância que sua mãe tinha para o desenvolver da história, como se eu fosse idiota. 
  - Ah, nós...
  - E claro, G. A. Ultimamente as pessoas só querem saber de G. A. Bom, a identidade dessa pessoa ainda é um segredo. Ela é tão importante que eu não arriscaria dividi-la com mais ninguém. - Agora seus olhos olhavam diretamente para mim. Às vezes desviavam para outros lugares do salão, para disfarçar, mas recaiam sobre mim de novo. - Bom, ela... Não está tanto tempo assim na minha vida. Na verdade, quase nada. Mas parece que nos conhecemos a vida inteira. Nosso primeiro encontro foi em um momento muito ruim para ela, e eu só sentia a imediata obrigação de fazer essa pessoa sorrir. Seu sorriso é lindo. É o sorriso várias vezes descrito em O Garoto Verde. 
  Meus olhos estavam brilhando, hipnotizados em cada palavra que Chermont dizia. 
  Seu maxilar estava rígido e engoliu em seco algumas vezes, talvez preocupado com alguma coisa ou nervoso demais sobre o livro. 
  - Esse trecho... - limpou a garganta. - "... E em meados de março me encontro do lado de fora dessa casa velha e imunda. Limpa sim, como se eu tivesse obsessão com limpeza. Mas imunda sentimentalmente. Ali morrera tantas esperanças. Ali morrera uma mãe. Ali morrera o que, um garoto verde só conhecia como familia. E levava ali, quando pisava os pés na casa velha, um grande elefante verde nas costas."
  "O garoto verde partiu sem olhar para trás. Completo, mas inacabado. Preparado para mergulhar novamente nos cabelos da mulher que amava." - De novo, seus olhos encontraram o meu. Dava para perceber que ele sabia de cor as palavras escritas. Estava dizendo-as para mim. Mas fingia ler alguma coisa para outra pessoa de vez em quando. - " E tudo teve enfim sentido. Ele estava apaixonado por todos os detalhes da amada; seu cabelo ensolarado, seus olhos girassóis. Parecia uma pintura de Van Gogh, com a mesma melancolia, mas a mesma felicidade. A pequena mancha em sua boca foi tocada pelos dedos calosos e cheios de história do garoto verde. Depois seus lábios tocaram a mancha. Desejava e sonhava e criava ilusões sobre o gosto dessa boca. Sobre o toque de sua pele." - Louis pausou e respirou fundo, ainda olhando para mim. Parecia a ponto de chorar. - "E o garoto verde encontrou a garota Sol. Musa, Afrodite, Hera e Atena. Todas as personalidade em uma beleza de Apolo. O amor de sua vida mortal que uma vez foi vivida em uma casa velha e imunda." 
  As pessoas de todo o salão irromperam em aplausos. Eu estava em choque, não sabia que minha mãos tinham automaticamente começado a seguir o ritmo das palmas ou se eu estava estático no lugar. 
   - Ele é um gênio. Você tem sorte. 
   Me virei para Skofmann com uma expressão vazia. 
   - Nós não... Namoramos
  Ela pegou uma taça de champanhe e me entregou, pegando uma para si mesma. 
   - Como não? Pois ele vai lhe pedir hoje. Não é possível. 
  - O que? 
  - Qual seu sobrenome?
  - Abreu. 
  - G. A. A musa de Chermont. 
  Percebi que talvez deveria ter falado qualquer coisa menos meu sobrenome verdadeiro para ela. Virei a taça de champanhe e deixei as bolhas e o sabor doce do líquido invadir meu paladar. 
  - Olha, Gal, você está bêbada e tirando conclusões erradas. 
  - Sim, sim, Gustavo, culpe a bebida e não a faísca entre vocês! 
  - Sou aluno dele. Ele me dá aulas particulares. Ele não é gay. Eu sou, mas ele não. Eu não amo ele. E-Eu...
  - Aluno? 
  A expressão assustada no rosto esculpido de Gal me assustou. Ela estava esperando qualquer coisa menos isso. 
  - Sim...
  - Ah, não, isso é muito ruim! 
  - O que? Por que? 
  Louis se aproximou de onde estávamos, mas ao tentar chegar até aqui várias pessoas o paravam para conversar. Eles não podia ignora-las. 
  - Oh, Chermont está encrencado. Você é maior de idade pelo menos? 
  - Claro! Mas o que tem a ver? 
  Gal riu com gosto. Minha expressão de desespero e confusão deveria estar beirando ao ridículo. Ela se aproximou. 
  - Cuidado Gustavo. Não é ético. Um professor e um aluno? Isso vai pegar muito mal para Louis. Vocês já se beijaram? Fizeram sexo?  
  - Não! - tinha começado a me exaltar com a mulher. - Nada disso, Gal! Você tá delirando. 
  - Gustavo. Me ouça. - Ela segurou meu rosto com seus longos dedos cheios de anéis prateados e unhas longas e feitas, aproximando nossos rostos. - Não faça nada. Louis ainda está processando. Não sabe que você é a garota Sol. Não sabe disso. Sabe, mal de escritor deixar o subconsciente tomar conta na hora de escrever. Ele não sabe, Gustavo. Você é G. A. e ele ama você. 
  As palavras dela me atingiram como vários tiros contra meu corpo. 
  Deixei a minha escritora favorita para trás e fui até Chermont. Pedi licença para um homem careca que conversava com ele e o puxei para um canto. 
  Sua respiração estava descompassada. Ele tentava rir para descontrair o ambiente sombrio que nos cercava após aquela leitura. As coisas não ditas. 
  - V-Você gostou? Do trecho, quero dizer. D-Do livro em si, e-eu vou te dar uma cópia, é claro, e você vai poder me dizer o que acha...
  - Me dá a chave do seu quarto. 
  - O que? 
  - Anda, Louis. 
  Ele me encarava com os olhos arregalados, enquanto procurava o cartão eletrônico que abria a suíte provavelmente luxuosa na qual ele estava hospedado. Retirou o cartão do bolso interno do seu paletó e me entregou. 
  - Quarto? 
  - 1838
  Cheguei perto do seu rosto, e juro que vi seu coração sair pela boca. Encarei seu rosto por alguns segundos. 
  Suas maçãs do rosto tão relevantes no rosto quadrado. Maxilar perfeito. A barba curta. A boca desenhada. Os olhos grandes e verdes. Duas pedras preciosas. O nariz forte, perfeitamente empinado, curvado em todos os lugares certos. 
   - Louis Chermont. 
  - E-Eu...
  - Me encontre no seu quarto em meia hora. A gente precisa conversar. 
   Virei e fui em direção ao elevador, apertando o andar 18. As portas se fecharam com a imagem de um Louis ainda parado, enquanto várias pessoas se aglomeravam ao seu redor. 
   Claro que ele não prestava atenção em nenhuma. 
   Olhos verdes em olhos amarelos. 


Notas Finais


Vou postar a parte dois do capítulo 8 em breve! Talvez tenha um Extra de Natal, contando um pouco sobre um natal que Thomas participou na casa de Gustavo (incluindo mais informações sobfe os pais do Gus) e um natal de Louis quando a mãe dele ainda estavam viva e Adeline não sofria com a depressão! Espero que tenham gostado, se quiserem comentar o que vocês gostariam de saber mais (para eu incluir no Extra) ou comentar qualquer coisa, até um "oi", sintam-se a vontade. Obrigada por acompanharem!


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