História Matemática é amor - Capítulo 1


Escrita por: ~ e ~Metamorfose_

Postado
Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Discalculia, Iniciativa Narnianos, Matemática É Amor, Projeto Metamorfose, Tema 2!persistência
Visualizações 22
Palavras 5.101
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Comédia, Escolar, Famí­lia, Slash

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Olá~
Como vocês estão, meus lindos? Espero que bem ♡
Passando rapidinho só pra postar essa one delícinha que foi feita exclusivamente para o Projeto Metamorfose ♡
Queria agradecer a Juliana (@Dotiro) e ao Gabriel (@LEGEND_). Sem o apoio e paciência de vocês, meus caros, essa one nunca seria postada.
Muita coisa aconteceu e atrapalhou a postagem, mas é com muito orgulho que digo que nós conseguimos *chuva de purpurina*
Tanto a capa quanto a betagem foram feitas pelo Gabriel (esses boys que você usou na capa… Ô DELÍCIA!!!).
Ah, me digam que vocês também notaram os chifres do professor na capa kkk Isso rendeu muitas risadas, pois só depois que eu apontei eles que o Gabriel notou kkk Nós três (eu, a Ju e o Gabriel) concordamos que os chifrinhos meios que combinam com a matéria kkk QUE HORROR!!! KKK
Que horror…
Isso me lembra que eu li muito “que orrô” na betagem…
Gente do céu, nem fiquei envergonhada…
O “que orrô” sempre vinha acompanhado de “insira aqui uma plaquinha da vergonha”...
TÔ ZUANDO GENTE! EU TÔ SÓ ZUANDO PQ SOU DESSAS!!!
Não me odeie, moço .-.
Já te agradeci o suficiente por me emprestar o seu nome e me deixar usá-lo na one, Gabriel? kkk
Saibam que formamos uma equipe maravilhosa, apesar de não termos interagido tanto quanto eu queria ♡
Agora vamos ao grito de guerra do grupo: “Ô XULIANAAAAAAAAAAAAAA!!!”
Links e mais informações sobre o projeto nas notas finais.

Boa leitura ♡

Capítulo 1 - Encontrar o X é pros fracos, os fortes amam sabagaça


08 de Fevereiro de 2007



 

“O sol já raiou, a alegria é maior…”

A vontade que Gabriel tinha de quebrar o tijolo que todos chamavam de celular e que emitia a sinfonia do capeta era grande, mas a vontade de caçar o ser que havia feito aquela terrível combinação era imensamente maior.

Ainda sonolento, o jovem retirou o braço debaixo dos edredons macios e se esticou todo para desligar o despertador do aparelho e acabar com todo aquele sofrimento. Após alguns segundos, depois de vencer a preguiça, tomou coragem para se levantar, foi em direção ao banheiro para fazer a sua higiene e se arrumar para a escola.

Aquele seria o primeiro dia de aula do último ano de Gabriel e, diferente dos demais alunos que estavam lamentando o término das férias, ele não poderia estar mais empolgado. Logo ele estaria livre de suas obrigações como estudante e poderia se dedicar cem por cento em ajudar os pais no pequeno mercado que eles tanto lutaram pra erguer e manter em atividade.

Chegando na cozinha com a mochila jogada desleixadamente sob o ombro esquerdo, Gabriel viu a sua mãe acabando de passar o delicioso café que ele sabia muito bem que a mulher fazia e não conteve a tristeza ao vê-la daquela forma.

— Já acordou, filho?

— Já sim, mamãe — sorriu brevemente enquanto caminhava na direção da mais velha e a abraçava forte. — Bença?

— Deus o abençoe — respondeu simples ao mesmo passo que retribuía o abraço do filho. — Sente-se e tome o seu café antes de ir pra aula. Aliás, ‘tá animado pra mais um ano?

— Sim — riu com a forma extrovertida da mulher logo tão cedo. — Papai já foi trabalhar? — questionou já se sentando e se servido do pão fresquinho que havia sob a mesa junto com o café quente. Aquela era uma pergunta muito sem lógica já que o mesmo sabia que o pai já havia saído antes mesmo do sol nascer, mas mesmo assim insistiu.

— Já sim. Agora se apresse, senão iremos nos atrasar.

Era desgostoso para Gabriel ver a mãe acordando tão cedo pra lhe fazer o café da manhã e lhe fazer companhia até o dado momento que fosse para a escola. Ele queria muito que tanto a mãe quanto o pai  dormissem mais, descansassem mais, para a longa e estressante jornada de trabalho que eles tinham no mercado. Ficou divagando sobre esse fato e tantos outros da vida sofrida que os pais tinham enquanto comia lentamente o seu café da manhã que mal notou o tempo passar.

— Filho, Já acabou? Vamos logo! — foi tirado de seus pensamentos pela voz de sua mãe que o apressava.

Acompanhado da mãe, Gabriel saiu de casa e juntos seguiram para o ponto de ônibus. A mulher ao seu lado olhava insistentemente para o relógio que trazia no pulso e Gabriel sabia o que esse ato significava: ela temia que o ônibus que eles pegariam para irem aos seus destinos atrasasse e isso dificultasse as coisas pro lado do marido que havia saído cedo para conferir o caixa e o estoque do mercado. Era angustiante pro garoto ver a mãe dessa forma, mas mesmo antes dele abrir a boca para acalmá-la, o transporte que os levaria apareceu na curva, fazendo a mulher soltar um suspiro aliviado. Subiram no transporte e se sentaram lado a lado, se separando apenas quando a mãe desceu no ponto que ficava próximo do trabalho enquanto ele permaneceu dentro, a espera da chegada ao colégio da rede pública.


 

 

Risadas, gritos, abraços carregados de saudade e caras amassadas de adolescentes amaldiçoando à toda e qualquer divindade existente pelo fim das férias e retorno das aulas, era o que compunha o cenário caótico que Gabriel via ao colocar os pés no colégio. O jovem achava engraçado que, enquanto a maioria repudiava o início de mais um ano, ele e uma pequena parcela de estudantes estavam imensamente felizes com a volta das aulas.

Gabriel cumprimentou os amigos que via e foi rápido ao escolher um lugar discreto, bem ao fundo da sala, aguardando pacientemente a chegada do primeiro professor que daria início às aulas do seu último ano. Coisa que não tardou a acontecer, mas, surpreendentemente, pela porta da sala passou um homem muitos anos mais velho que os demais que ocupavam aquela sala, que já foi tomando a frente da lousa.

Murmúrios vinham de todos os lados enquanto Marcus, o homem que estava de pé de frente para uma sala repleta de adolescentes barulhentos, se apresentava como o novo professor de matemática.

A maioria dos rapazes ficaram indiferentes à novidade, as meninas davam gritos histéricos pelo fato de agora terem um professor homem e não a senhora que dava aula dessa mesma matéria durante os anos anteriores e Gabriel tremia por dentro.

Um “Ih, acho que alguém ficou sem a sua fada madrinha…” soou em algum lugar próximo à Gabriel e isso só serviu para confirmar que, de fato, estava encrencado; o ano começando pessimamente pra ele.

Motivo? Gabriel não sabia de absolutamente nada relacionado à matéria.


 

 

— ‘Tô ferrado, mano — um certo garoto um tanto desesperado murmurava ao olhar a extensa prova que tinha à sua frente. Os enunciados das questões o confundiam, os números se misturavam e, quando ousava tentar solucionar algum problema, as respostas que encontrava eram astronomicamente absurdas se comparadas às (use a crase aqui) dos exercícios que foram corrigidos em sala de aula e que ele tinha caprichosamente copiados no caderno.

Aquela era apenas a primeira prova que era dada no semestre pelo novo professor e, diferente dos demais colegas que estavam concentrados em suas respectivas provas com as feições serenas, Gabriel já sentia como seria o restante do ano; o gosto amargo do fracasso lhe invadindo.

As aulas do novo professor eram, por vezes, divertidas, e sempre acabava rindo do jeito despojado de Marcus ensinar, mas o principal Gabriel não conseguia extrair delas: conhecimento. Simplesmente não não conseguia absorver a matéria dada.

Diferente do que o adolescente imaginava, Marcus era  era do tipo de professor boa pinta que se enturmava facilmente com os seus alunos e por isso mesmo ele entendia melhor as dificuldades de cada um e os orientava de forma correta no decorrer das aulas, mas quanto ao caso de Gabriel… Bom, Gabriel se mantinha sempre focado e tentava mostrar interesse aos fazer as atividades propostas, porém nada que fizesse era o bastante para acompanhar o restante da turma. Começava a acreditar então que, independente do esforço que fizesse, não conseguiria alcançar os demais.

Conforme os dias passavam, Gabriel se via cada vez mais desmotivado em frequentar a escola e mais tentado a desistir, de jogar tudo pro alto e seguir o baile, e somente ainda o fazia por não conseguir encarar os pais e dizer-lhes o quão ruim ele estava indo. Os olhares decepcionados dos seus progenitores não era algo que Gabriel quisesse ver. Ele sabia que para conseguir se formar ele deveria ser aprovado em todas as matérias, mas a verdade era que, por mais que tentasse, ele não conseguia desvendar o mistérios que acercam os números e expressões dos problemas matemáticos. Tentou, por diversas vezes, estudar com afinco a matéria passada pelo professor naquele mesmo dia, mas era sempre a mesma coisa. Se perdia, frustrava-se e acabava com uma enorme dor de cabeça no final.

O fato de não querer ser uma decepção para os pais somado aos problemas que eles enfrentavam no mercado fez com que Gabriel continuasse com a sua rotina de estudos mesmo estando ciente que qualquer esforço seria em vão. Notou, por várias vezes, que o professor sempre tentava ajudar perguntando repetidas vezes se todos haviam entendido e sempre olhava de relance para si, e até mesmo tentou conversar consigo ao final de cada aula, mas Gabriel nunca deixou Marcus sequer se aproximar. Ele sabia o que o professor queria, sabia que ele estava tentando chegar até ele para descobrir o porquê de suas notas estarem indo tão mal.

Mas, para o azar do garoto, após a última aula na segunda onde ele acabou dormindo na sala e acordou sobressaltado ao notar que a sala estava no mais absoluto silêncio e que o colega ao seu lado não estava mais no seu devido lugar, ele se viu sendo observado de perto por olhos brincalhões pelo seu estado. Marcus estava à sua frente, ocupando a carteira da frente, voltado para si, os ombros sob o encosto da cadeira enquanto a sua face coberta pela barba por fazer descansava sob os braços.

O susto fez Gabriel praguejar alto e isso fez o professor rir do jovem que ainda demonstrava nas feições o quão assustado ainda estava, mas tão logo o riso veio o clima sério se instalou entre eles. Marcus levantou o rosto e encarou o garoto diretamente sem mais qualquer sombra de riso.

— Agora que acordou, será que podemos conversar sobre o seu baixo rendimento na minha matéria mesmo você se mostrando interessado a princípio? — questionou com o semblante totalmente sério e Gabriel sentiu o seu interior revirar-se de vergonha. Esperava que aquele momento nunca chegasse, que aquela conversa nunca viesse a existir, mas Gabriel não podia virar as costas à Marcuse o deixar sem qualquer resposta para a sua pergunta. Talvez ser sincero com o outro fosse aliviar um pouco a tensão que sentia. Talvez Marcus desistisse de lhe jogar indiretas durante as aulas, simplesmente desistisse de si ou talvez… Não custava tentar, não é mesmo?

— Desculpa, professor. Eu sempre tive dificuldade com a matemática — aquilo de fato havia intrigado Marcus.

— Fale mais, Gabriel.

— Não tem mais o que falar. Eu sempre tive dificuldade com números, nunca compreendia as matérias passadas em sala de aulas tão rapidamente quanto os meus colegas. — sua face tornou-se mais triste e um alarme soou na mente do professor. — Acho que é melhor eu desistir de tudo, sabe? Não adianta insistir em algo que eu sei que vai ser inútil. Acho que será melhor eu abandonar o colégio. Meus pais tem um mercado e acho que eu posso ajudar nas entregas e na reposição do estoque.

— E por acaso você acha inteligente da sua parte desistir de entender uma ferramenta essencial para a sobrevivência do homem na sociedade cuja prática está inserida em nossa rotina? — olhou-o desafiador. Tudo que Marcus menos queria era ver algum aluno seu, mesmo que ele seja um professor substituto, desistir da matéria que tanto ama lecionar.

— Mas eu não sei-

— Olha — cortou o garoto à sua frente —, eu vou pedir a diretora que me conceda uma reunião com os seus pais e a partir dela iremos decidir o que será feito — disse já se levantando.

— Não! — interrompeu exasperado e imitando a ação do professor, ficando cara a cara. — Eu não quero preocupá-los com esse pequeno problema, eles já têm muito no mercado e eu posso cuidar disso sozinho.

Suspirando longamente, o homem encarou Gabriel por um longo tempo antes de decidir o que fazer com o garoto de olhar assustado.

— Haverá uma reunião com os seus pais — disse decidido, ajudando a aumentar o medo crescente do outro. — Vou conversar com eles sobre essa sua dificuldade extrema que você tem na minha matéria e iremos chegar a uma conclusão do que seja melhor pra você.

Dito isso, Gabriel acompanhou com os olhos temerosos o homem ir até a sua mesa, a maior da sala, recolher a sua pasta com o material de trabalho e encaminhar-se à saída.

Marcus voltou para casa naquele dia com com a breve conversa que teve com o seu aluno rodeando a sua mente e um pressentimento lhe alertava que Gabriel talvez cedesse à pressão, acabando assim por finalmente desistir dos estudos. Ele havia notado que o garoto tinha dormido no decorrer de sua aula, a última do dia, e acabou por impedir que o amigo dele o acordasse quando o sinal soou ao longe, liberou a turma e velou o seu sono enquanto o esperava acordar.

Julgava que seria melhor ter um momento a sós com Gabriel para falarem abertamente sobre a notável grande dificuldade que ele apresentava em sua matéria, mas pelo que constatou, o jovem se via desesperado estando entre procurar ajuda — o que incluía deixar os pais cientes do seu atraso — e largar tudo pro alto.

Por mais que pensasse, Marcus se via cada vez mais comprometido a ajudar o aluno. Pensando nisso, fez uma anotação mental de que deveria voltar a conversar com o garoto em particular no dia seguinte e tentaria mostrá-lo o porquê de ele ter que aceitar a ajuda que oferecia, assim como a necessidade de manter os seus progenitores a par da situação.

Mas, infelizmente, Gabriel não retornou no dia seguinte e nem nos outros daquela mesma semana.


 

 

Gabriel só havia chegado ao último ano do ensino médio por causa de um acordo que fizera com a sua antiga professora, a mesma que dava aulas pra si desde quando ingressou naquele colégio. O acordo era simples: ele ficava calado e copiava tudo que ela passava e ele tinha a sua média garantida ao final de cada bimestre. Simples e eficiente até aquele momento…

Mas por que caralhos Marcus não havia caído na sua tentativa — que mostrou ser falha — de coitadinho e não lhe deu os pontos que ele precisava? Ele faria de tudo para isso.

Era pensando nessas coisas que Gabriel mantinha a sua cabeça ocupada enquanto trabalhava no depósito de verduras que ficava aos fundos do mercado que pertencia aos pais. Estava tão concentrado no que fazia, separando as verduras e legumes, e pensando no que havia desistido que não notou uma figura parada próxima a fileira de caixas de tomates ao seu lado esquerdo e só a notou quando ia pegar mais uma das caixas para a seleção.

— O que o senhor faz aqui? — perguntou após o susto inicial.

— Fora da escola pode me chamar pelo nome, Gabriel — disse após desfazer a carranca de desagrado ao ouvir o “senhor” saído da boca do mais novo.

— Certo, mas o que…

— Então é aqui que você passa as manhãs que deveria estar na escola… — disse olhando ao longo do enorme galpão que era usado para separar e armazenar os alimentos. — Me diga uma coisa: você está feliz aqui?

— Estou — disse sem hesitar, se recompondo do susto de ver o ex professor ali.

— Certeza? — incitou.

— Sim. Eu ajudo os meus pais em tempo integral agora e isso os deixa menos sobrecarregados.

— Mas você se sente bem desistindo dos estudos, Gabriel? Ainda mais que só falta esse ano?

— Você não vai me dar os pontos que eu preciso de bandeja, né? — tentou, por um segundo abaixando a guarda e se mostrando como realmente é, uma pessoa indefesa .

— Definitivamente não, aluno meu só passa sabendo — decretou com um sorriso terno brincando nos lábios.

— Então não tem como eu voltar — fechou a cara. — Por que está aqui, Marcus? — o nome soando debochado na voz. — Se for comprar algo é só seguir pelo caminho que veio e entrar onde há uma placa enorme sinalizando a entrada do mercado, aqui é só seleção e armazenamento do que vendemos.

Gabriel não queria o professor ali. Queria que ele se irritasse com ele, que desse as costas para si e nunca mais o assombrasse com aquela maldita matéria que tirava a paz de seus sonhos, mas, curiosamente, ao invés de fazer o que Gabriel queria, Marcus apenas sorriu largamente enquanto se aproximou da bancada onde o mais novo trabalhava.

— Estamos progredindo. Já está até me chamando pelo nome…

— Olha, eu não quero ser ignorante contigo nem nada, mas se você insistir eu vou deixar a minha boa educação ir pra puta que pariu e-

— Você disse que o que te motivou a desistir de vez do colégio foi porque você quer ajudar os seus pais, certo? — perguntou se curvando na bancada e cruzando os braços, ficando perigosamente mais próximo do rosto raivoso do garoto que lhe voltou um olhar confuso devido à ação do outro.

— Certo.

Marcus olhou a sua volta e notou que o garoto estava trabalhando na seleção de várias caixas de tomates até a sua chegada.

— Quanto custa o quilo de tomate?

— Pergunta lá no mercado, eu não sei de preços.

— Ah, vamos lá, você deve saber por alto quanto deve custar o quilo dessa fruta nessa época do ano — olhou-o questionador.

— Er… — aquela situação toda estava desconfortável para o jovem que não conseguia se concentrar com a aproximação um tanto estranha do professor e para responder aquela pergunta avulsa. — Uns três reais o quilo, acho.

— Quantos quilos há em cada caixa?

— Pra quê você quer saber disso?

— Só me responde.

— Aqui não é a sua sala de aula e eu não preciso obedecer a cada ordem sua, então-

— Pelo que eu pude perceber, você quer dar uma boa vida aos seus pais, certo?

— É o que eu venho falando há muito tempo.

— Um dia os seus músculos não serão o suficiente pra dar uma boa vida pra eles, garoto. Adquirir conhecimento é fundamental pra quem almeja uma vida estável. Deixe de ser egoísta, porque eu sei que no momento você só não quer tentar por medo de fracassar, e faça o que eu te digo.

Como que o cara que havia lhe dito curto e grosso que não daria os pontos necessários para ele se formar lhe dizia agora que era ele o covarde? Será que o professor não via que ele estava fadado ao fracasso com a negação dele de ajudá-lo?

De súbito, Gabriel saiu de perto do ex professor e encaminhou-se para fora do galpão, mais precisamente para o estacionamento que ficava do outro lado da rua.

— Não fuja dos problemas, garoto! Você não pode simplesmente desistir de tudo sempre que alguma dificuldade lhe aparecer! — Marcus, que vinha a passos calmos atrás de si, gritou, fazendo-o parar onde estava na calçada e se virar para o homem de meia idade.

Seu único pensamento era de xingar o outro e começar uma briga com Marcus ali mesmo, mas uma voz se fez presente e o impediu de prosseguir.

— Gabriel? — olhando para trás o garoto pôde ver a figura delicada de sua mãe a lhe olhar curiosamente. Notou que ela segurava algumas pequenas sacolas ao lado de um carro e que uma senhora de idade avançada estava depositando as compras feitas no mercado no porta malas. — O que você está fazendo com esse homem?

E foi naquele exato momento que Gabriel soube o verdadeiro significado da expressão “estar com o cu na mão”.

— A senhora é a mãe do Gabriel? — Marcus passou por ele e parou de frente para a senhora e a fazendo girar o corpo, ficando de costas para o filho.

“Merda! Merda! Merda!”

— Sim, por quê? Quem é você? — crispou as sobrancelhas em dúvida.

— Eu sou… — parou ao ver o garoto sinalizar desesperado ao fundo e quase riu quando o mesmo juntou as mãos em súplica. — Sou Marcus, o professor de matemática do Gabriel.

E só com aquela última frase Gabriel sentiu o seu coração parar enquanto a sua mãe abria lentamente um largo e sincero sorriso ao homem à frente. Certamente nada de bom resultaria daquele encontro e Gabriel já contava com o couro esquentando mais tarde.

Gabriel via temeroso a sua progenitora conversar amistosamente e rir com Marcus sobre si. Para ele aquela era uma visão que nunca antes pensou ser capaz de presenciar.

— E quando vai terminar a greve das escolas públicas? — a doce senhora perguntou curiosa e amável.

Aquela foi a mentira usada por Gabriel para não levantar suspeitas até que tivesse coragem suficiente para dizer que havia desistido do colégio e ele sabia que era uma alternativa bem idiota, mas ele achava — e torcia — para que os pais não dessem papo para os fregueses ou para os vizinhos e descobrissem a verdade antes dele juntar coragem suficiente para acabar com toda essa mentira.

— A greve? — reforçou a pergunta somente para testar se não havia ouvido errado, afinal, o que que Gabriel tinha na cabeça pra tentar justificar as suas faltas com uma greve?

— Sim, Gabriel disse que estão em greve devido ao baixo salário que são pagos aos professores… — disse incerta. — Ou será que o Gabriel está mentin-

— Ah! — elevou o seu tom de voz para chamar a atenção da mulher quando esta estava a virar-se para encarar o filho. Marcus sabia que, da forma que o outro estava, ele iria se entregrar para a mãe e isso o encrencaria ainda mais. — Sim, sim, a greve.

— Então, quando acaba? E o que o senhor está fazendo por aqui?

— Vim justamente dizer ao seu filho — agarrou o garoto, que antes havia chegado sorrateiramente por trás de sua progenitora, pelos ombros, abraçando-o de lado como se fossem velhos amigos — que a greve acabou. Soube por alto que ele estava aproveitando esse recesso para ajudá-los no estabelecimento de vocês e julguei que talvez ele não viesse saber do retorno das aulas há tempo.

— Ah, certo — sorriu. — Eu já estava começando a ficar preocupada com essa greve que já dura uma semana professor… — deixou a frase morrer sugestivamente.

— Marcus — devolveu o sorriso.

Ver a mãe sorrindo para o professor era estranho para Gabriel, mas esse fato ficou em segundo plano tendo em vista que Marcus havia, de certa forma, o ajudado a se livrar de uma fria. Só ele sabia o que poderia acontecer se a senhora dona Marta descobrisse que, além de mentir, ele havia desistido dos estudos.

— Filho? — foi tirado de seus devaneios pela mãe.

— Hum? O que foi, mamãe?

— Vá lá dentro e pegue pra mim uma caixa que está perto do caixa.

— Pra quê, ma-

— Vai logo, Gabriel — sorriu, mas somente Gabriel sabia que aquele sorriso forçado em específico significava que ele não deveria enrolar caso contrário ele teria motivos de sobra para lamentar mais tarde.

Fez o que a mãe pediu mesmo receoso em deixá-la sozinha com o seu professor.

— Desembucha, professor — permaneceu com o sorriso congelado na face enquanto esperava a explicação do outro.

— Do que a senhora está-

— Meu filho se arrepia todo quando falamos algo relacionado à escola com ele e essa história de greve devido ao baixo salário dos professores não pode só atingir a escola que o Gabriel estuda. Converso com os meus clientes, sabe? — disse tudo sem vacilar o sorriso.



 

 

— Todos podem sair — todos se se levantavam sorridentes —, menos o Gabriel.

Gabriel fica pra trás com cara de poucos amigos.

— O que foi? Fala depressa porque eu ‘tô com fome — disse emburrado quando Marcus já estava bem próximo.

— Só queria dizer que estou feliz em lhe ver nas minhas aulas novamente — disse rindo da atitude do garoto.

— Digamos que eu não tinha opções…

E aquilo era a mais pura verdade se visto que o garoto ou vinha com os próprios pés ou pagaria o maior mico com a mãe o trazendo pelas orelhas. fora que a mãe dele ia conversar com Marcus.

— Agora se me der licença… — fez menção de sair, mas Marcus o impediu ao se movimentar o corpo pro lado e bloquear a passagem do garoto.

— Na verdade eu também queria saber se os seus pais o levaram na profissional que eu indiquei.

— Levaram — tentou passar novamente, mas foi bloqueado pela segunda vez.

— O que ela disse? — perguntou curioso.

— Não é como se você não soubesse — sorriu debochado. Olhou para a mão do professor que estava sob o braço, mais precisamente para a aliança do anelar. — é ela, certo?

— Hum?

— A pedagoga com cara de cu, é ela não é? — Gabriel olhava abismado pro professor que soltou uma sonora gargalhada ao ouvir como o outro havia se dirigido a sua ex esposa. — Vai com calma, ‘mano. Você vai morrer desse jeito — riu após o outro começar a tossir em meio ao ataque de risos.

Após se recuperar da crise, Marcus olhava ainda com a sombra de sorriso para o garoto à sua frente.

— Não sei se é por falta de coragem ou imaginação, mas ninguém nunca associou a carranca dela a algo. E respondendo a sua pergunta: ela é a minha ex esposa sim. Mas agora me diga: o que Sthefany disse?

Gabriel ficou totalmente sério após a pergunta feita. Ele pensava que o outro não insistiria ou simplesmente se esquecesse após a crise de riso. após suspirar longamente, Gabriel começou a relatar o que ela havia dito.

— Não é como se você não soubesse.

— Do que está falando?

— A minha mãe já deve ter ligado pra direção explicando a minha situação e a diretora já deve ter te orientado.

— Bem — sentou-se em uma das mesas. —, nada me foi passado. Agora desembucha, garoto.

Sthefany — disse o nome seguido de uma careta. Decididamente ele não foi com a cara da ex do professor, só não sabia explicar se foi pela cara amarrada ou se pelo laço que ela tinha com o professor de matemática. — disse que, diferente da dificuldade de aprendizagem onde a pessoa que tem dificuldade em algo por simplesmente possuir uma maneira diferente de aprender essa determinada coisa, eu na verdade tenho um distúrbio de aprendizagem. — apontou com o indicador para a própria cabeça sorrindo sarcasticamente. — No meu caso, ele está associado ao cérebro defeituoso que demonstram dificuldade em adquirir o conhecimento da teoria da matéria que você ensina.

— Hum… — pensativo, Marcus não disse mais nada. Gabriel bufou um riso de descrença ao ver o estado do outro.

— Sabe, eu tenho que te agradecer.

— Por quê? — olhou em desconfiança para o jovem a sua frente.

— Por que agora eu sei que eu sou um burro e que não vou conseguir me formar nunca — ditou triste, por mais que um sorriso estivesse bailando falsamente nos seus lábios bem desenhados.

— Você não é burro — disse com convicção.

— Sim, eu sou — fechou o semblante.

— Não é porque o seu cérebro defectivo não consegue captar o que eu ensino na sala de aula que você é burro, Gabriel.

— Não é-

— Você quer se formar? — perguntou sério olhando nos olhos do estudante.

— Claro que eu quero! — respondeu o óbvio. — Só não adianta eu insistir a vir nas suas aulas já que você não vai me passar e o meu cérebro é biologicamente incapaz de entender esse inferno de números e expressões! — Gabriel soltou seu desabafo.

— Eu não vou te passar, isso é fato, mas eu posso me comprometer a te ajudar com aulas extracurriculares caso você queira se formar.

— Não me dê esperanças se eu sei que tudo será em vão… — lamentou.

— Sthepany lhe disse como tratar a discalculia?

— Quando eu ouvia toda a explicação eu parei de prestar atenção no que ela falava com a minha mãe. Tem tratamento? Um eficaz?

— Tem sim e eu posso te ajudar — sorriu. — Mas, a pergunta que não quer calar: você vai persistir com a minha ajuda ou desistir de tudo?

— Eu quero a sua ajuda, querido professor.

— Ora, pare de graça.

— Se eu parar ganho pontos extras?

— Nem fodendo.

— Um educador usando esse linguajar? Me pergunto se a sua ajuda será de grande coisa…

Marcus ri e o sinal toca.

— Perfeito, ficarei sem merenda — choramingou.

— Vai. Te dou cinco minutos pra lanchar rapidamente enquanto eu faço a chamada do próximo horário.

— Obrigado — seguiu para a porta, mas parou antes de sair pela mesma. — Mas e você? Não vai comer?

— ‘Tá preocupado com o bem estar do seu professor? — perguntou com ar de riso.

— Claro… Que não dou a mínima. Só estou usando a boa educação que meus pais me passaram.

Foi-se deixando Marcus rindo pra trás e não tardou para que os outros alunos retornassem para a sala.


 


 

Gabriel estava nervoso, muito nervoso. A pulsação estava a mil enquanto as mãos suavam a espera da sua vez. Na frente da sala, Marcus entregava as últimas provas do terceiro semestre e, pelo que Gabriel pôde perceber, muitos dos seus colegas faziam caras desgostosas ao ter as notas.

— Quanto você tirou? — alguém perguntou mais à frente.

— Três. Minha mãe vai me matar, cara.

Um alarme soou na mente de Gabriel ao ouvir a breve conversa. Se um dos melhores alunos havia tirado uma nota tão baixa, imagina ele, um pobre garoto discálculo que teve poucas aulas extras com Marcus?

Ao final, todas as notas foram entregues, exceto a de Gabriel, e Marcus liberou a classe mais cedo. Como havia virado rotina nas últimas semanas, Gabriel ficara para trás. Antes era por causa das aulas extras que Marcus ensinava ali mesmo, no colégio, agora a espera de uma chuva de broncas vinda do mais velho.

Com a prova do garoto em mãos, o professor caminhou até a sua carteira, no fundo da sala, e a colocou com a folha virada para baixo, impedindo Gabriel de ver, o que segundo ele pensava, a nota nula.

— Vire — pediu calmo.

— Olha, me desculpe por fazer você perder o seu tempo. Eu escutei o Ruan falando que tirou três, e olha que ele é o melhor aluno da sala, e eu sei que eu fui um verdadeiro fracasso na avaliação — começou atropelando as palavras e sem ter coragem de olhar para o professor que estava de pé próximo de si. — Eu não posso recompensar o tempo perdido, mas eu juro que… — cansado de toda aquela falação, Marcus virou a prova. — Puta que pariu, eu tirei seis!!!

— Não se contente com a média, você ainda tem que conseguir recuperar a nota dos outros bimestres e não pode tirar menos que uma média oito no próximo pra passar.

— Mas eu tirei seis, professor! — disse sem tirar os olhos da folha que agora agarrava firmemente.

— Eu sei — sorriu ao ver a euforia do garoto. — Parabéns Gabriel…


 


 

08 de Fevereiro de 2017


 

“O sol já raiou, a alegria é maior…”

Um homem revirou-se desgostoso na cama e tentou tampar os ouvidos com o travesseiro para abafar o som indesejado. Tudo que ele mais queria no momento era ficar no aconchegos dos cobertores que o esquentavam e dos braços fortes que envolviam a sua cintura. Remexeu-se mais um pouco até ficar de frente para a figura da pessoa que estava ao seu lado, sorrindo logo em seguida.

— Desliga isso, Gabriel — murmurou o outro sonolento ainda sem abrir os olhos poucos segundos antes do celular entrar no “modo soneca”.

Deu graças quando o ruído parou e assim pode ver com mais calma cada pequeno detalhe da face do namorado. Os traços e a barba cheia, mesmo que agora estivesse salpicada de fios brancos, era a melhor visão que Gabriel tinha todas as manhãs e saber que o homem que era objeto de seus olhos curiosos era o principal motivo de persistir quando ainda não conhecia a sua limitação, lhe alegrava.


Notas Finais


E então, gostaram? *-*
Quem nunca acordou com o celular tocando "o sol já raiou" não sabe o que é verdadeiramente passar raiva kkk
Resumidamente, o projeto Metamorfose é um projeto que é composto por uma equipe maravilhosa que posta oneshots de autoajuda aqui no Spirit ♡
Novas ones são postadas semanalmente e, caso tenha se interessado após ter lido essa humilde one, aconselho que você vá na tag “Projeto Metamorfose”.
Vale ressaltar que não são só ones originais que participam do projeto e que vocês pode topar com histórias de vários de grupos, séries… ♡
Link do projeto: https://spiritfanfics.com/perfil/metamorfose_
Link do perfil da fundadora: https://spiritfanfics.com/perfil/thaix_uchiha15


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