História O Conto dos Seres Celestiais - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias Monsta X
Personagens Hyung Won, I'M, Joo Heon, Ki Hyun, Min Hyuk, Show Nu, Won Ho
Tags Changkyun, Coréia, Hyunsikv(btob) Mention, Iu Mention, Jaebum (got7) Mention, Jooheon, Jookyun, Love, Monbebe, Monstax, Nana (after School)mention, Rujie, Seulong (2pm) Mention, Sobrenatural, Suhyun Mention, Yaoi, Yoona (snsd) Mention
Visualizações 104
Palavras 5.407
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Bishounen, Crossover, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Fluffy, Misticismo, Romance e Novela, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Sobrenatural, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Heterossexualidade, Homossexualidade
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


*creditos desse desenho incrível da capa para o maravilhoso e super talentoso @omu_rizer tt *

Capítulo 1 - Matthew


Fanfic / Fanfiction O Conto dos Seres Celestiais - Capítulo 1 - Matthew

QUID PRO QUO

 

- ... as atividades das páginas 65-75 serão entregues após as férias e.... – o sinal estridente soa pelos corredores do colégio e centenas de alunos começam a arrumar suas mochilas afoitos.

Changkyun sai correndo pela escada tentando fechar o zíper da mochila a tempo. Seu trem sairia dali a quarenta minutos e não iria perdê-lo por nada. O rapaz pega sua bicicleta e pedala o mais rápido que pode em direção à estação ferroviária sem nem se importar com os pulmões queimando pela falta de ar. As férias finalmente haviam chegado e ele não perderia nem mais um segundo naquela cidade.

Quando chegou na estação, o trem já estava parado e os passageiros já formavam uma fila para entrar. Rapidamente colocou a bicicleta na garagem pagando o tíquete, correndo para a plataforma de embarque com sua mochila quicando nas costas. O rapaz mostrou o bilhete para o fiscal e entrou procurando sua poltrona 55E e para sua sorte, toda a cabine estava vazia o que lhe dava a chance de rever sua lista.

Sentou-se próximo a janela, abriu o zíper da bolsa, puxou um papel meio amassado jogando a mochila para o lado. O papel sulfite meio amassado continha sua letra cursiva meio ansiosa, mas isso não importava, era no conteúdo que o Im se concentrava. O rapaz segurava o papel com uma das mãos e com a outra roía a unha do polegar, as pernas cruzadas não impediam o balançar incessante dos pés em clara expectativa.

Sua ansiedade só se aplacou quando ouviu a voz da comissária informando o início da viagem e quando o trem começou a se mover Changkyun teve certeza: aquele seria certamente o melhor verão de todos.

 

.

 

Você acredita em destino? Acredita que existe um momento específico em nossas vidas em que o universo nos faz conhecer alguém que tem a capacidade de mudar completamente nossa vida? A história que eu vou contar é tão sem sentido que parece mentira. Ou loucura. Você pode não acreditar se não quiser, eu não o culpo. Nem eu acreditaria. Mas ela aconteceu sim e foi comigo.

Durante toda a minha vida, sempre passei os verões na casa dos meus avós no interior. Falando assim parece até que era um sítio legal cheio de coisas legais para fazer como subir em árvores e nadar no lago o dia inteiro, não é?

Ledo engano.

Meus avós eram sacerdotes de um templo na montanha. Eles cuidavam de toda a limpeza e organização daquele lugar e quando eu e meus primos íamos para lá, acabávamos fazendo a mesma coisa. O vovô sempre dizia que um serviço prestado aos deuses nunca era em vão e se cuidássemos com carinho de seu santuário veríamos sua benevolência. Na época isso não importava muito para a gente, éramos crianças então tudo parecia uma tortura.

A divisão das tarefas era por idade então Seulong, o mais velho, ajudava o vovô a cortar a lenha e a fazer os trabalhos mais pesados. Yoona e Nana cuidavam do jardim e da limpeza do interior da casa principal. Os gêmeos Hyunsik e Jaebum limpavam tudo do lado de fora, varrendo e passando pano e eu como era o mais novo e possuía mãos pequenas ajudava a vovó dentro do santuário. Eu tirava a poeira e organizava as ofertas.

Eu me lembro da sensação que tive quando entrei naquele lugar pela primeira vez, eu tinha cinco anos. Dentro do santuário tudo era iluminado apenas por velas aromáticas e incensos, flores adornavam uma espécie de palanque e no centro de tudo aquilo havia uma estátua de ouro gigantesca no formato de um tigre de bengala olhando fixamente para frente. Aquela estátua possuía um olhar tão imponente que eu acabei ficando com medo e comecei a dar passos para trás, mas a vovó segurou meus ombros e se abaixou até a minha altura.

- Está com medo pequeno Im?

- Ele parece bravo vovó... – ela passou a mão nos meus cabelos e sorriu.

- Você não precisa ter medo de 매튜.

- Maetyu?

- Isso! Ele é nosso espírito guardião. Sabe porque ele olha tão fixamente para frente? – ela pergunta e eu nego com a cabeça - É porque é ele quem protege nosso povo, por isso precisa ficar atento a tudo o que acontece ao redor.

- Por isso que a casa dele é no alto da montanha?

- Exatamente pequeno, assim ele consegue ver toda a Coreia e pode enxergar qualquer perigo. E é por isso que ele precisa estar bem alimentado – ela se levanta segurando a cesta de frutas e alguns vegetais cozidos.

- Vovó – eu puxo a barra de seu vestido.

- Diga querido.

- Eu posso levar a oferta hoje? Eu quero agradecer por ele proteger a gente – naquele momento eu vi algo brilhar nos olhos da vovó.

- Claro que pode querido.

Naquele dia, eu orei pela primeira vez ao deus tigre.

Depois disso a vovó me ajudou a tomar banho e nós fomos jantar, me lembro que desci as escadas correndo querendo contar tudo para os meus primos.

- Seulong hyung! Hoje eu ofereci comida para o Mat... Mathy... Pro Matthew!

- Matthew? Mas quem é Matthew? – Hyunsik pergunta para vovó que cai na risada.

- É Maetyu, Changgie!

- Ah, ta! Mas é que é difííícil!

 

.

 

Depois daquele dia, todos os anos eu ajudava a vovó com o santuário e sempre que ela deixava, eu realizava as ofertas e orava. Cinco anos depois, num dia de folga eu e meus primos gêmeos estávamos fazendo uma trilha não muito longe do templo.

- Eu tô com sede Sikku! – JB reclamava sem parar enquanto caminhávamos.

- Eu até te daria água se você não tivesse tido a brilhante ideia de fazer uma guerrinha agora há pouco, não é Jae?

- Pior são vocês que aceitaram uma ideia dessas – respondeu com um bico ao levar um empurrão de Hyunsik.

- A gente já tá quase chegando no rio.

Quando a gente chegou no rio, Jaebum já foi enfiando a cara na água sem nem pensar duas vezes. Hyunsik e eu preferimos ficar descansando perto das árvores um pouco. Depois de encher os cantis, Jaebum teve a brilhante ideia de querer nadar e com o calor intenso que fazia naquele dia, todo mundo acabou entrando na água. A gente já estava a algum tempo nadando quando um barulho nos arbustos chamou nossa atenção.

- O que foi aquilo? – cochichei assustado.

- Não sei, mas acho melhor a gente sair da água – Hyunsik sugeriu e nós decidimos sair.

O barulho dos arbustos soou mais forte e de repente um ronco grave foi ouvido.

- Merda, se esconde se esconde!

Jaebum foi nos empurrando para outro arbusto a tempo suficiente de apenas enfiarmos o corpo lá de qualquer jeito, mas assim que ergui a cabeça senti todo o sangue do meu corpo congelar. Eu estava hipnotizado.

Um lindo tigre de bengala se aproximava do outro lado do rio. A pelugem âmbar mesclada com branco era rasgada por belas listas negras por todo o corpo. As patas grandes e felpudas marcavam o passo imponente do felino até a beira do rio. Os orbes num tom quartzo citrino observavam tudo ao seu redor com atenção. Quando o animal sentiu que estava seguro, abaixou levemente a cabeça em direção ao leito do rio para beber água.

Eu observava tudo aquilo admirado, meus avós nunca haviam falado da existência de um tigre nas redondezas. O felino levantou a cabeça ao terminar de tomar água deixando os pelos de seu queixo encharcados formarem uma pequena poça na terra e, da mesma forma que apareceu sumiu pelos arbustos e então, como se finalmente nos fosse permitido, todos nós soltamos o ar ao mesmo tempo.

- Caraca, o que foi aquilo? – Hyunsik perguntava para mim com os olhos arregalados, mas eu não conseguia abrir a boca para nada.

- Aquilo foi um aviso para a gente voltar para o templo, vamos! – Jaebum falou pegando suas roupas as vestindo rapidamente e nós o seguimos, pegando as mochilas e voltando para casa.

O jantar correu tranquilo, todos conversavam animadamente sobre qualquer coisa que eu não prestava atenção, todos os meus sentidos estavam voltados para àquela cena no rio.

- Chang! Changgie! – voltei à realidade quando a vovó balançou a mão na frente do meu rosto chamando a atenção. Olhei em volta e estava sozinho na mesa do jantar.

- Desculpe vovó, eu me distraí – falei me levantando da mesa - Vamos, eu te ajudo com a louça.

Ficamos um tempo rindo e conversando enquanto lavávamos a louça juntos, mas eu estava curioso demais para me conter.

- Vovó... posso te perguntar uma coisa? – pergunto secando os copos e ela me olha de um jeito engraçado.

- Eu estava mesmo me perguntando se você estava bem – a vovó tinha esse dom de ler a gente. Ou vai ver eu sou transparente mesmo - Aconteceu alguma coisa?

- Nós vimos um tigre hoje no rio.

- Ommo! Sério? – ela falou um pouco assustada mas ao mesmo tempo alegre – Isso é incrível Changgie!

- É?

- Claro que sim querido! Maetyu raramente aparece por aqui, quem consegue vê-lo ou até mesmo tocá-lo é muito afortunado!

- Vó, a senhora tá me dizendo que aquele tigre que vi na floresta é o Matthew? O mesmo Matthew de ouro que tá no santuário? – ela assente e eu não sei o que responder. Seria isso mesmo possível?

Passei o resto daquele verão e dos outros verões indo para a floresta na tentativa de ver Matthew novamente, mas sem sucesso. Agora, eu estava na reta final do colégio e não sabia se conseguiria voltar para cá, por isso esse era o meu último ano. Definitivamente eu o encontraria.

 

.

 

Fui recebido na porta do templo com o abraço caloroso da vovó e do vovô agora já de cabelos brancos e fala arrastada. Naquele ano eu fui o único neto a aparecer no santuário, o que era de se esperar já que, com exceção dos gêmeos, todos já eram adultos com seus empregos e ocupações. JB decidiu ser músico e estava trabalhando em seu debut, já Hyunsik era professor de MMA e tinha um estúdio bem bacaninha nos EUA, por isso os dois não puderam vir. Os quitutes da vovó ficariam todos para mim.

O começo daquela semana foi normal, aproveitei a oportunidade para ajuda-los com as demais tarefas, mas incrivelmente naquele ano haviam muitos aprendizes ao sacerdócio então não havia muito o que fazer. Mas eu não abri mão de ir até o santuário ofertar ao Matthew, naquele ano eu havia economizado um bom dinheiro então acabei montando uma bela cesta. Pedi ao vovô para me vestir com as roupas tradicionais e segui para o templo oferecer a cesta. Chegando lá me ajoelhei, juntei as mãos e orei em silêncio. Terminei a oração e me levantei em direção a saída, mas antes de abrir a porta, me virei novamente e ousadamente pedi.

- Matthew.... Seria pedir demais poder te ver mais uma vez?

 

 

Naquela noite

 

- Changgie, você sabia que teremos um eclipse solar amanhã?

- Wow, um eclipse? Eu nunca vi um!

- Aqui para o templo é um evento sagrado. Os antigos contam que a montanha inteira se tornava um com o santuário e os deuses podiam passear aqui na terra em sua verdadeira forma.

Meus olhos triplicaram de tamanho, aquela seria a oportunidade perfeita para procurar Matthew.

 

Para a minha sorte, o dia amanheceu muito ensolarado então aproveitei a oportunidade para sair fazer trilha pela floresta. O que eu não esperava era o calor que iria fazer quando decidi fazer uma trilha mais longa que estava acostumado. Quando cheguei no final a única coisa que fiz foi cair com mochila e tudo no chão. Fechei os olhos respirando fundo por um momento, quando ouvi o som de uma cachoeira não muito longe dali. Não sei dizer se era por causa do barulho das águas ou se foi pela caminhada, mas senti meu corpo esquentar três vezes mais decidindo por fim ir tomar um banho rápido. Acho que foi a melhor escolha daquele dia porque olha, que água maravilhosa!

Mergulhei o mais fundo que pude ficando um bom tempo imerso naquele silêncio confortável debaixo das águas, quando comecei a ouvir um chiado se tornando cada vez mais alto. Assim que emergi para a superfície vi que o tempo havia virado completamente e agora, no lugar do sol acolhedor, nuvens cinzas cobriam o céu e a chuva começava a engrossar.

Saí rapidamente da água e vesti minhas roupas – que já estavam úmidas pela chuva – e corrí em disparada de volta para casa, mas parecia impossível correr no meio daquela lama que estava se formando no chão. A chuva se tornava cada vez mais forte formando pequenas correntezas pelo solo da floresta, fazendo meus tênis afundarem naquela mistura de lama e folhas secas, atrasando o meu passo. Decidi começar a pular pelas raízes das árvores, na intenção de chegar mais rápido ao meu destino.

Péssima escolha.

Eu não havia dado cinco pulos quando pisei em falso em uma raiz. Caí no chão e desci rolando sem parar entre folhas, galhos, pedras e raízes até que minha consciência se foi e eu desmaiei no meio de lugar nenhum.

 

 

Acordei sentindo ainda a chuva encharcando meu corpo, aquela tempestade não cederia tão facilmente. Tentei me levantar, mas senti o corpo todo doer violentamente e quando tentei apoiar os pés, senti o tornozelo doer muito. Que ótimo, eu havia torcido ou quebrado. Rezei para que fosse a primeira opção.

Olhei em volta procurando me situar dentro daquela floresta, mas eu não fazia ideia de onde estava, nada ali me parecia conhecido. Me arrastei para próximo de uma árvore tentando apoiar o corpo para me levantar, quando avistei não muito longe dali uma gruta e bom, se eu não quisesse morrer de frio ou ficar pior do que já estava, aquela era minha melhor opção. Por isso, comecei a me arrastar naquela direção.

Com muita dificuldades – graças a lama e meu condicionamento físico ser horrível – consegui me arrastar até o fundo, a gruta não era tão profunda, era possível ver a entrada graças a luminosidade – ainda que escassa - da claridade do dia. Eu me encolhi o máximo que pude para tentar me aquecer, mas era meio difícil com a água invadindo o solo além do vento passar livremente pela gruta por ela ser extremamente aberta, eu tremia muito. Fiquei tentando me esquentar enquanto olhava aquela chuva torrencial do lado de fora, só havia eu, as árvores e a chuva naquele floresta, pelo menos era o que eu pensava. Do nada, no meio daquela tempestade, aparece por entre os arbustos um tigre gigantesco. Ele caminhava tranquilamente pela floresta, parecia nem se importar com toda aquela chuva toda.

O animal virou em direção a caverna e começou a caminhar. Ali eu me desesperei. Os passos pesados trouxeram o felino para dentro da caverna e eu parei de respirar. Ele chacoalhou o corpo tirando o excesso de água e veio na minha direção sem quebrar contato visual, parecia olhar dentro dos meus olhos. Quando ele estava bem próximo eu fechei os olhos já esperando o pior, mas tudo o que senti foi um calor sobrenatural perto de mim. O tigre estava deitado atrás de mim com as costas coladas na minha cabeça. Olhei para trás confuso e o bichano se movimentou ronronando me fazendo erguer a cabeça, e assim que eu ergui o tigre se arrastou para baixo servindo de travesseiro.

Eu não sei dizer se foi o medo ou o calor que emanava do corpo do animal, mas só sei que foi olhando aquela chuva estiando vagarosamente e sentindo a respiração pesada do tigre, que eu acabei apagando pela segunda vez.

 

 

Acabei despertando com o som de algo que se assemelhava ao crepitar do fogo, abri os olhos sentindo a visão embaçada e cabeça latejar. Levei a mão à cabeça e senti o suor escorrendo pelos meus cabelos, eu estava com febre. Olhei para fora e não chovia mais, mas estava muito escuro. Há quanto tempo eu estava dormindo?

Fitei meu  relógio no pulso direito marcando 17:45. Estranho, não era para estar tão escuro assim. Procurei o calor do tigre mas não encontrei, ao invés disso tinha minha mochila de travesseiro e um pouco mais à frente estava uma fogueira muito bem alimentada. Quando foi que fiz isso?

Pisquei os olhos mais uma vez quando um homem seminu apareceu na entrada da gruta e começou a caminhar em minha direção. O rapaz parecia mais velho, tinha a pele extremamente branca, os cabelos negros ondulados caindo um pouco abaixo dos olhos, esses que tinham um belo tom verde-amarelado, além de um belo par de lábios avermelhados. Minha atenção se voltou por um momento para o que ele trazia numa das mãos, eram algumas plantas e flores que eu via minha avó usar no santuário. Ao ver que eu estava meio acordado, ele se aproximou se agachando ao meu lado.

- Você está bem? – ele me perguntou com uma voz grossa e rouca ao colocar a mão na minha testa – Ainda está quente.

Eu sei que estava febril e doente, mas confesso que achei toda aquela situação muito.... quente. Eu estava tão hipnotizado pela aparência dele que tudo o que consegui fazer naquele momento foi balançar a cabeça afirmativamente fazendo ele dar um sorriso tímido e cara, apareceram duas covinhas tão profundas nas bochechas dele que eu juro que dava para morar lá dentro.

O rapaz se vira para a fogueira e começa a macerar aquelas plantas em cima de algumas pedras, espalhando um aroma delicioso pela caverna, parecia calêndula-das-boticas, cânfora e mais algumas coisas que eu não conhecia. Ele pegou aquela pasta esverdeada que se formou e passou em todo o meu tornozelo e em alguns outros ferimentos, e depois me ofereceu água. Eu o olhava de soslaio ainda sem entender toda aquela preocupação do estranho comigo.

- Quem é você?

- Nós já nos conhecemos Changkyun, há alguns bons anos.

Franzo o cenho meio envergonhado por não reconhecer o rapaz, seria ele algum dos ajudantes do santuário?

- Como conseguiu me achar nessa tempestade?

- Eu estava te observando há algum tempo e tive sorte de estar por perto.

Naquela hora eu quis perguntar muitas coisas, ele estava me stalkeando? Ele me viu tomando banho no lago? Ele me viu cair? Seria ele um fanático maluco? Mas nada daquilo fazia sentido, ele não me assustava e não parecia querer “avançar” em mim sabe? Só sei que eu não sentia medo dele, então considerei isso como um sinal de que estava tudo bem.

- Ah...

- Sim? – ele me pergunta e eu abaixo a cabeça desconcertado.

- Me desculpe, é a última pergunta.

- Tudo bem – ele fala gentilmente.

- Porque está fazendo tudo isso?

A pergunta não o surpreendeu já que ele sorriu novamente me fazendo ter vontade de pegar minhas coisas e ir morar nas suas covinhas.

- Acho que estou tentando lhe agradecer – o rapaz falou me encarando – Você vem dedicando suas férias há quase dez anos em prol do meu santuário, sempre cuidando de tudo sem pedir nada em troca.

Eu pisquei os olhos um pouco desacreditado de tudo o que tinha acabado de ouvir. Naquela hora eu podia ouvir as engrenagens da minha cabeça se movimentando loucamente e finalmente tudo se encaixava. O eclipse, o tigre, a chuva, o rapaz.

- M-m-m-matthew?

O rapaz de cabelos ondulados abriu o maior dos sorriso naquele momento e me encarou.

- Eu gosto desse apelido.

Eu tapei a boca com a mão contendo um grito. Matthew, o tigre de ouro do santuário estava em carne e osso na minha frente!! Eu tentei me assentar para vê-lo de perto mas a dor começou a apontar na lateral das minhas costelas, me impedindo.

- Ow, não se mexa! – ele fala colocando os braços em cima do meu peito me impedindo de levantar – Você precisa ficar deitado para a emulsão fazer efeito.

- Eu... mas... Como? – eu não conseguia falar nada.

Matthew se aproxima um pouco mais de mim e sorri.

- Eu sempre tive uma curiosidade por você pequeno Im, não conseguia encontrar motivos para sua dedicação. Seus avós vem de outra época, as pessoas acreditavam mais nos deuses naquele tempo, agora um garotinho de cinco anos em pleno século 21 dedicado ao santuário? Servos assim não se encontram todos os dias, as vezes levamos a vida toda para encontrar um. Fico feliz que o universo tenha nos dado a chance de nos conhecer.

Eu sentia meu interior se revirar de emoção. O tigre, nosso protetor, tinha interesse em mim tanto quanto eu tinha nele! Eu estava com a resposta na ponta da língua, mas me contive quando vi Matthew ficar de pé.

- O eclipse está acabando, minha forma humana não vai durar muito tempo.

- Você já vai? – pergunto e ele afirma com a cabeça com um sorriso meio triste. Eu até tentei, mas não consegui esconder minha decepção.

Matthew se agacha ao meu lado mais uma vez colocando a mão na minha bochecha fazendo um carinho com os dedos, o toque de seus dedos era tão quente quanto em sua forma animal. O carinho cessa e ele leva o polegar para o meu lábio inferior o puxando de leve para baixo, aproxima o rosto do meu vagarosamente encostando os lábios carnudos nos meus num beijo quente e delicado, como o próprio Matthew.

Assim que nos separamos, ele se levanta caminhando para fora da caverna sem me dizer nada e de repente eu começo a me sentir sonolento.

- Matthew! – eu grito seu nome e ele se vira para me encarar - Eu o verei novamente?

Meu corpo inteiro começa a pesar, e eu sinto que estou adormecendo. Tento focar a visão e vejo aquele belo sorriso emoldurar seu rosto. Pouco a pouco minha visão vai ficando turva e tudo o que consigo perceber antes de adormecer de vez é o som da sua voz grave e mansa.

- Quem sabe pequeno Im? Só o tempo dirá.

 

 

 

- Changgie!

Olho para trás procurando o dono da voz quando encontro Minhyuk acenando exageradamente do portão da faculdade. Eu o conheci no último ano do ensino médio e apesar do meu jeito mais quieto, o garoto grudou em mim igual chiclete e bom, somos amigos desde então. Ele agarra sua mochila com as mãos e vem correndo em minha direção com seu cabelo vermelho voando para todo lado.

- Changgiiiie! – ele pula nas minhas costas me dando um dos seus abraços de urso.

- Oi Hyuk! Como foram suas férias? – pergunto tentando me desvencilhar daquele braços compridos, mas Minhyuk abraçava com a mesma força daquelas tias que não vemos a tempos.

- Foi um saco, não tinha nada pra fazer! – falou revirando os olhos - Você estava viajando e todos os meus amigos tinham compromisso. Acabei maratonando series na Netflix e engordando alguns quilos comendo só bobagem.

- Nossa, que vida horrível! – ironizo - Me pergunto como foi que você sobreviveu!

- Nem eu sei Changgie! – ele dramatiza colocando a mão no peito – Mas e você, conseguiu ver o tigre de novo?

- Não, não consegui – respondi amarelo e Minhyuk fez um beicinho em solidariedade.

A verdade é que desde o ano passado, eu não sabia mais o que era verdade e o que não era. Na minha cabeça, eu jurava ter tido um encontro com Matthew naquele eclipse. Eu tinha visto a forma humana dele e nós... bem, ele tinha me beijado. Só que quando eu acordei, estava na minha cama dentro do santuário sem ferimento algum.

Eu perguntei pra vovó como cheguei ali e ela me disse que não sabia dizer, na hora do eclipse ela e todos os outros estavam rezando no santuário. No dia seguinte e nos outros dias eu voltei para a floresta procurando algum rastro do tigre, mas não havia nada. Acabei me convencendo de que tudo não passou de um sonho de um garoto empolgado pelas histórias dos avós.

- Bom, pelo menos você o viu uma vez né? Talvez um dia você consiga de novo.

- É... talvez.

Nós caminhamos para a ala de ciências humanas, Minhyuk e eu cursávamos História – é, eu aproveitei todo o meu interesse no Matthew para saber mais sobre a história do meu povo – e seria nosso primeiro ano.

Entramos pelas portas do grande auditório, haveria ali uma aula inaugural do curso organizado pelo colegiado e nós estávamos muito empolgados. O auditório estava praticamente lotado restando para a gente os últimos assentos na última fileira.

Assim que nos sentamos, as luzes se apagaram e então um telão branco acendeu. Uma música oriental antiga começou a tocar e apareceu na tela branca o título do filme “A lenda dos cinco seres celestiais” escrito em letra cursiva.

O filme contava a história do início de tudo, quando cinco seres celestiais dominavam o mundo: o dragão, a serpente, o tigre, a fênix e a tartaruga. Cada um deles tinha sua função na criação do mundo, o tigre por exemplo zelava pelo meio ambiente entre outras coisas. Eu queria ter prestado mais atenção mas tudo aquilo só me lembrava mais e mais do Matthew e aquele bendito eclipse. Tudo parecia tão real para mim que eu conseguia sentir o calor dele próximo do meu corpo, fazendo meu coração quase saltar pela boca.

Eu estava quase saindo da sala para pegar um ar, quando as luzes se acenderam e todos bateram palmas para o filme. Um rapaz da minha altura saiu de trás do projetor caminhando até à frente ajeitando seus óculos arredondados de armação metálica.

- Quem será ele? – perguntei ao Lee que deu de ombros.

- Sei lá, deve ser monitor de alguma classe.

O rapaz se posicionou a frente do microfone encarando cada um dos alunos antes de sorrir abertamente.

- Sejam bem vindos ao curso de História. Me chamo Yoo Kihyun e sou o coordenador do curso.

- É o que...? – Minhyuk arregala os olhos e um burburinho se forma pela sala – Ele se banha no sangue de inocentes por acaso?

- Tudo bem, calma pessoal! – o coordenador fala divertindo-se com a reação dos alunos – Eu só pareço jovem, mas tenho idade suficiente para ser até pai de alguns aqui – ele se aproxima do microfone e cochicha – A verdade é que eu sou o dragão, o primeiro dos seres celestiais e por isso tenho essa carinha de bebê.

Ele segredou e toda a sala caiu na risada zoando o professor.

- Brincadeiras à parte, preciso dizer que não existe forma melhor de iniciar nossas aulas do que mostrando as lendas que deram origem a história do nosso povo. Eu ensino filosofia e religião para vocês e, para me auxiliar nesse curso, temos um time de professores mais que especializados. Quero apresentar a vocês o primeiro professor: Son Hyunwoo – ele aponta para o lado e só então me dou conta de que existem quatro pessoas paradas em pé no palco. No meio delas um homem moreno, alto e corpulento caminha sério até o seu lado – Ele ensina História Oriental no período paleolítico.

O moreno se curva em apresentação e desfaz a pose séria sorrindo abertamente o que faz seus olhos sumirem.

- Os próximos são Chae Hyungwon e Shin Hoseok – os dois  professores caminham juntos até ao lado do Kihyun. O primeiro era magro e bem alto, tinha lábios fartos e aparentava estar sempre com tédio. O outro parecia um atleta, era mais magro que o professor Son mas usava roupas apertadas que destacavam seus músculos. Pareceria esnobe não fosse o sorriso quase infantil que estampava seu rosto – Esses dois amigos inseparáveis ensinam linguística e antropologia respectivamente.

O professor Yoo estava quase terminando seu discurso quando um aluno entrou  correndo no auditório cochichando algo em seu ouvido, o que o fez sorrir agradecido.

- Eu pretendia apresentar o último professor na semana que vem devido aos compromissos dele, mas felizmente ele conseguiu chegar a tempo. Ele é uma feliz adição ao nosso colegiado e estamos muito gratos pela disposição dele em se mudar para Seul como professor definitivo nessa universidade. Quero apresentar a vocês Lee Jooheon, professor de História e Mitologia Oriental.

Na hora que ouvi aquele nome algo dentro de mim se incomodou. Eu olhei para a porta com certa ansiedade e quando eu o vi, esqueci o que era respirar.

O homem tinha os cabelos ondulados um pouco abaixo dos olhos, estavam virados quase todos para um lado só. Ele usava uma jaqueta de couro preta jogada por cima de uma camisa mesclada de preto e brancos, as calças com rasgos nas coxas e os sapatos também eram pretos. Tinha a pele branca e macia, os olhos pequenos e a boca carnuda. Tudo nele era exatamente como a forma humana de Matthew.

Ele se aproximou do microfone e o professor Kihyun lhe deu espaço para falar.

- Existe um termo em latim chamado Quid pro Quo que significa basicamente uma troca de favores em benefício mútuo. Eu acredito na troca de experiências como a força principal por detrás do conhecimento – ele fez uma pausa correndo os olhos pelos alunos pousando seus olhos na minha direção e eu podia jurar que vi seus olhos ficarem amarelados.

- Changgie – Minhyuk me cutuca com o cotovelo – Cara, ele tá olhando pra você! Você o conhece?

- Eu... eu não sei. Acho que não – falei um pouco confuso.

-  .... e sou conhecido por ser muito grato por aqueles que valorizam aquilo que compartilho – continuou - Por isso espero que tenhamos uma convivência longa e amigável nesses anos. Obrigada e bem vindos ao curso de História.

O professor Lee sorriu abertamente e eu não pude deixar de sorrir junto ao notar as belas covinhas que pareciam tão conhecidas para mim.

- Changgie! Changgie!! IM CHANGKYUN!

- O que foi Minhyuk? – falei revirando os olhos pro meu amigo afobado.

O auditório já estava quase vazio e os professores conversavam tranquilamente próximo da porta.

- Você pode para de secar o professor novo pra gente poder ir pra sala? – ele fala e eu empurro ele de “leve”.

- Cala a boca Hyukkie!! Eu não tô secando ninguém não!

Ele começa a descer as escadas soltando umas risadinhas e olhando cético pra mim.

- Se te faz sentir melhor, ele também estava olhando muito pra você.

- Ele estava? – pergunto sem me dar conta e meu amigo ruivo começa a rir descontroladamente.

- Te peguei!

Nós seguimos em direção a porta onde os professores conversavam e eu pude escutar um pouco do que eles falavam.

- Não tem problema professor Lee. Essa semana mesmo já mando colocarem no mural a vaga de estágio. Acho que vai ser uma ótima experiência para nossos alunos.

Eu passo pelos professores meio distraído ao ouvir sobre o estágio quando não vejo o degrau e piso em falso, mas antes que pudesse cair sou impedido por uma mão que agarra meu braço me puxando para trás.

- Meu Deus! – deixo escapar e seguro nas alças da minha mochila com força – Foi por pouco.

- Opa! – a voz grave e rouca fala atrás de mim – Você está bem?

Arregalo os olhos sem reação ao vê-lo tão perto de mim, o cheiro dele me lembra terra molhada e calêndula-das-boticas. Sinto vontade de chamá-lo de Matthew, mas tenho medo de parecer maluco, então apenas afirmo com a cabeça.

- Tome cuidado! – ele fala num meio sorriso – Não queremos ninguém com o tornozelo machucado, não é? – ele pisca para mim e eu o encaro boquiaberto.

- Eu quero!

- Quer o quê? – ele me encara sem entender.

- O... estágio que vocês estavam falando. Eu quero a vaga.

O Lee olha dentro dos meus olhos por alguns segundos – que pra mim pareceram uma eternidade – e depois sorri satisfeito.

- Kihyun! – ele vira para o professor Yoo que lhe olhava curioso – Não precisa mais fazer anúncio da vaga, eu já achei meu estagiário.

Ele me ajuda a levantar e estende a mão.

- Será um prazer trabalhar com você, Changkyun.

Aperto sua mão e estou pronto para lhe dar um sorriso quando algo me ocorre.

 

 

 

 

 

 

 

 

Como ele sabe meu nome?

 

❤️

 

Quid pro quo é uma expressão latina que significa "tomar uma coisa por outra". Uma troca igual. Semelhante a dar e receber. Uma troca de favores.


Notas Finais




Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...