História Me before you - Capítulo 12


Escrita por: ~

Postado
Categorias Fifth Harmony, One Direction, Shawn Mendes
Personagens Camila Cabello, Lauren Jauregui, Shawn Mendes, Zayn Malik
Tags Camren Vero
Exibições 25
Palavras 4.990
Terminada Não
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Intersexualidade (G!P)
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Boa leitura.

Capítulo 12 - Você só vive uma vez...


                                                                                       * * *

 

No terceiro sábado de maio, Sofi e Chris voltaram para casa.

— Então, como é tudo lá? *perguntei*

— Ótimo. Lá é muito bom. Quer dizer, é difícil não ter ninguém para me ajudar a cuidar de Chris e ele demorou um pouco para se adaptar à nova creche.

— O curso é bom?

Sofi abriu um sorriso.

— É excelente. Não consigo nem explicar, Mila, como é bom voltar a usar a cabeça. Tenho a impressão de ter perdido um tempo enorme... e agora é como se o tivesse recuperado. Isso parece bobagem?

Balancei a cabeça. Na verdade, fiquei contente por ela.

— Mamãe sente sua falta *falei.*

— A partir de agora, viremos quase todo fim de semana.

*Sorri*

— Mamãe contou que o sua amiga deficiente veio jantar aqui.

— Ela não é minha amiga deficiente. O nome dela é Lauren.

— Desculpe. Lauren. Quer dizer que a velha lista de programas antissuicídio está funcionando?

— Mais ou menos. Uns programas foram melhores que outros.

— Você acha...? *Vi que ela estava pensando na melhor maneira de formular a pergunta.* — Acha que você vai vencer?

Como se fosse uma espécie de campeonato.

— Não sei. Acho que preciso me esforçar ainda mais.

— Eu ainda não acredito que você foi a um concerto. Logo você!

— E eu gostei.

Ela levantou uma sobrancelha.

— Gostei de verdade. Foi... emocionante *insisti.*

Sofi olhou bem para mim.

— Mamãe disse que ela é uma simpatia.

— É, mesmo.

— E muito bonita.

— Uma lesão na espinha não transforma ninguém no Quasímodo.

— Enfim, mamãe ficou muito surpresa. Acho que esperava encontrar o Quasímodo.

— O problema é esse, Sofi *falei, jogando o resto do meu chá no canteiro.* — As pessoas sempre esperam.

 

                                                                                       * * *

 

Mamãe estava animada durante o jantar. Comemos, conversamos, rimos. Mamãe deve ter perguntado umas cem vezes se ela tinha certeza de que estava se virando realmente bem e se Chris precisava de alguma coisa, como se meus pais tivessem dinheiro sobrando para dar à ela.

Naquela noite, acordei por volta da meia-noite com um choro. Era Chris no quartinho. Ouvi Sofi tentando consolá-lo e acalmá-lo. Esperei até o choro parar, para tentar dormir, mas tudo se repetiu às duas da manhã.

Desta vez, ouvi mamãe andar de chinelos pelo corredor e murmurar alguma coisa. Então, finalmente, Chris ficou quieto.

Às quatro, acordei com minha porta rangendo ao ser aberta. Pisquei, tonta, olhando na direção de onde vinha a luz. Era Chris na porta, as pernas do pijama compridas demais, o cobertorzinho de estimação arrastando um pouco no chão. Não conseguia ver seu rosto, mas ele ficou em pé ali, inseguro, como se não soubesse o que fazer.

— Venha cá, Chris *sussurrei. Quando ele veio na minha direção, vi que ainda estava meio dormindo. Os passos eram hesitantes, o dedo enfiado na boca, o precioso cobertor sendo agarrado. Puxei o edredom e ele subiu ao meu lado na cama, deitando no outro travesseiro, e se encolheu todo. Cobri-o e fiquei olhando para ele, encantada com o seu sono profundo e imediato.*

— Durma bem, querido *sussurrei e dei um beijo na testa dele; uma mãozinha gorda agarrou a minha camiseta como para garantir que eu não iria embora.*

 

                                                                                    * * *

 

— Qual o melhor lugar onde você já foi?

Lauren e eu estávamos sentadas no abrigo, esperando que uma chuvinha repentina parasse para darmos uma volta nos jardins atrás do castelo.

— Melhor de que forma? Por que essa pergunta?

Despejei um pouco de sopa de uma garrafa térmica e segurei a colher próximo à sua boca.

— É de tomate.

— Certo. Meu Deus, está quente. Espere um instante. *Ela olhou para longe.* — Escalei o monte Kilimanjaro quando fiz  vinte e oito anos. Foi incrível.

— Que altura?

— Mais de cinco mil metros até o pico Uhuru. Nos últimos metros já estava engatinhando. A altitude prejudica muito.

— Estava frio?

— Não... *Ela sorriu.* — Não é como o Everest. Pelo menos, na época do ano em que fui. *Ela olhou ao longe, imersa na lembrança.* — Foi lindo. É considerado o teto da África. Lá de cima dá para ver quase até o fim do mundo.

Lauren ficou calada por um instante. Olhei para ela, pensando onde realmente estaria.

— Que outros lugares você gostou de conhecer?

— A Baía Eau Douce, nas Ilhas Maurício. As praias são lindas, ótimas para mergulhos. Hum... o Parque Nacional de Tsavo, no Quênia, com toda a sua terra vermelha e os animais selvagens. O Parque Nacional Yosemite, na Califórnia. Montanhas tão altas que o cérebro da gente não consegue processar tamanha imensidão.

Contou de uma noite que passou escalando, pendurada num penhasco a muitos metros do chão, e precisou prender o saco de dormir no rochedo, pois, caso rolasse o corpo durante o sono, aconteceria um desastre.

— Você acabou de descrever o meu pior pesadelo.

— Gosto de grandes cidades também. Adorei Sydney. E as terras ao norte da Islândia. Lá tem um lugar perto do aeroporto onde se pode tomar banho em fontes vulcânicas. É uma paisagem um pouco estranha, nuclear. Ah, gostei também de andar a cavalo na planície central da China. Cheguei lá após dois dias a cavalo, partindo da capital da província de Sichuan; os moradores cuspiram em mim, pois nunca tinham visto uma mulher branca antes.

— Tem algum lugar que você não conhece?

Ela tomou mais um pouco de sopa.

— Coreia do Norte? *Ela pensou.* — Ah, nunca fui à Disneylândia. Será que vale a pena? Nem à Eurodisney.

— Uma vez, comprei uma passagem para a Austrália. Mas nunca fui.

Ela virou-se para mim, surpresa.

— Acontece. Tudo bem. Talvez eu vá um dia *acrescentei.*

— Nada de “talvez”. Você precisa sair daqui, Camila. Prometa que não vai passar o resto da vida enfiada nesta cidade que mais parece uma maldita estampa de jogo americano.

— Prometer? Por quê? *Tentei fazer uma voz suave.* — Aonde você vai?

— É que... não aguento pensar que você vai ficar aqui pelo resto da vida. *Ela engoliu em seco.* — Você é muito inteligente. Muito interessante. *Ela desviou os olhos de mim.* — Você só vive uma vez. É sua obrigação aproveitar a vida da melhor forma possível.

— Está bem *concordei, com cuidado.* — Então me diga para onde eu devia ir. Aonde você iria, se pudesse ir para qualquer lugar?

— Agora?

— Sim, agora. E não me venha com Kilimanjaro. Tem de ser um lugar onde eu possa me imaginar *expliquei.*

O rosto da Lauren relaxou  um sorriso brotou em seu rosto.

— Eu iria a Paris. Sentaria numa mesa na calçada do Café Marais, tomaria uma xícara de café e comeria croissants quentes com manteiga sem sal e geléia de morango.

Virei-me para ela e disse baixinho:

— Podíamos ir. De Eurostar. É simples, acho que nem precisaríamos que Vero fosse junto. Nunca fui a Paris. Adoraria ir. De verdade. Principalmente com alguém que já conhece. O que acha, Lauren?

Eu já me imaginava naquele café. Sentada àquela mesa, talvez admirando meus novos sapatos franceses comprados em alguma butique chique, ou escolhendo um doce com os dedos pintados de esmalte parisiense vermelho.

— Não.

— O que disse? *Levei um instante para deixar aquela mesa na calçada de Paris.*

— Não.

— Mas você acabou de dizer...

— Você não entendeu, Camila. Não quero ir lá nessa... nessa coisa. *Ela apontou para a cadeira, a voz sumindo.* — Quero ir a Paris como eu era. Quero sentar, recostar-me nas cadeiras, usando minhas roupas preferidas, com lindas garotas francesas me olhando ao passar. Não quero ver as pessoas passarem e desviarem o olhar, rápido, ao perceber que sou uma mulher numa enorme e maldita cadeira de rodas.

— Mas podemos tentar. Não precisa... *arrisquei.*

— Não, não podemos. Pois ao fechar os olhos consigo saber exatamente como é estar na Rue des Francs Bourgeois, fumando um cigarro, o suco de tangerina num copo alto e gelado na minha frente, o cheiro do rosbife com fritas que alguém pediu. Conheço todas essas sensações.

Engoliu em seco.

— Se formos lá e eu estiver nesta maldita geringonça, todas essas lembranças, essas sensações boas, vão desaparecer, apagadas pela dificuldade de chegar à mesa, de subir e descer nas calçadas parisienses, pelos táxis que se recusam a nos levar, pela maldita bateria da cadeira de rodas que não pode ser recarregada numa tomada francesa. Entendeu?

A voz dela tinha endurecido. Tampei a garrafa térmica. Ao fazer isso, fixei o olhar nos meus sapatos para que Lauren não visse a minha expressão.

— Entendi *respondi.*

— Certo. *Ela respirou fundo.*

Lauren notou que fiquei desapontada, pois inclinou-se um pouco para o meu lado. Seu rosto se suavizou.

— Então, Camila. Acho que a chuva passou. Aonde vamos esta tarde? Percorrer o labirinto do jardim?

— Não *respondi mais rápido do que pretendia, e vi o olhar que Lauren me lançou.*

— Você sente claustrofobia lá?

— Quase isso. *Juntei nossas coisas.* — Vamos voltar para casa.

 

                                                                                           * * *

 

No fim de semana seguinte, levantei no meio da noite para beber água. Estava com dificuldade para dormir.

Não gostava de ficar acordada à noite. Acabei me perguntando se Lauren também estaria acordada, lá do outro lado do castelo, e imaginei no que ela estaria pensando. O que não foi uma boa ideia.

A verdade é a seguinte: eu não estava conseguindo nada. O tempo estava se esgotando. Não conseguia nem convencê-la a ir a Paris. E quando ela disse o motivo, foi difícil contra-argumentar. Ela tinha um bom motivo para recusar todas as viagens mais longas que sugeri. Como eu não podia dizer por que queria tanto levá-la, eu tinha pouco poder de persuasão.

Ao passar pela sala, ouvi um barulho.

Parei, dei alguns passos para trás e fiquei na porta. Empurrei-a com cuidado. Meus pais estavam deitados no chão da sala, as almofadas do sofá formavam uma espécie de cama.

Ficamos nos olhando por um instante à meia-luz, eu com o copo na mão.

— O que... o que estão fazendo aqui? *perguntei.*

Minha mãe se apoiou no cotovelo.

— Psiu, fale baixo. Nós...Fizemos uma mudança.

— O quê?

— Demos nossa cama para Sofi *disse papai.* — Ela e Chris não estavam se sentindo bem no quartinho. Então, demos o nosso quarto para eles.

— Mas não podem dormir aí! É desconfortável.

— Estamos ótimos, querida *disse papai.* — Eu garanto.

Como continuei parada ali, meio boba, tentando entender, ele acrescentou:

— É só nos fins semana. E você não pode voltar para aquele quartinho. Precisa dormir, ainda mais... *Engoliu em seco.* — Ainda mais que é a única da casa que trabalha.

— Volte para a cama, Mila. Ande. Estamos ótimos. *Mamãe praticamente me enxotou.*

Subi a escada, os pés descalços sem fazer barulho no carpete, mal ouvindo os murmúrios de conversa vindo lá de baixo.

Deitei na minha enorme cama e olhei pela janela os postes de luz na rua até o amanhecer, quando — finalmente, graças aos céus — consegui algumas preciosas horas de sono.

 

                                                                                         * * *

 

No meu calendário, faltavam oitenta dias. Fiquei preocupada outra vez. E eu não era a única.

A Sra. Jauregui esperou até a hora do almoço em que a Vero vinha ajudar a Lauren e me chamou para a grande sala, para perguntar como iam as coisas.

— Bom, estamos saindo com mais frequência *respondi.*

Ela balançou a cabeça, como se concordasse.

— Ela tem conversado bem mais *acrescentei.*

— Com você, pode ser. *Ela deu uma risada que não era bem uma risada.*

— Já comentou com ela sobre viajar para o exterior?

— Ainda não. Vou falar. É que... sabe como ela é.

Ficamos ali, em silêncio. Ela me ofereceu uma xícara de café. Tomei um gole. 

— Então...  Lauren me contou que foi à sua casa.

— Sim, no meu aniversário. Meus pais prepararam um jantar especial.

— Como ela estava?

— Bem. Muito bem. Foi bastante simpática com minha mãe. *Não consegui evitar um sorriso quando me lembrei.* — Quer dizer, mamãe está meio triste porque minha irmã e o filho saíram de casa. Minha mãe sente falta deles. Acho que... Lauren quis distraí-la.

A Sra. Jauregui pareceu surpresa.

— Que... que simpática da parte dela.

— Minha mãe também achou.

— Não lembro a última vez que Lauren quis jantar conosco.

Ela fez mais algumas perguntas. Nada direto, claro, não era seu estilo. Mas não pude dar as respostas que ela queria. Alguns dias, achava Lauren mais feliz — saía comigo sem reclamar, me provocava, parecia um pouco mais atenta ao mundo do lado de fora do anexo —, mas o que eu realmente sabia? Ela parecia ter um imenso mundo interior sobre o qual não me dava qualquer pista. Nas duas últimas semanas tive a desagradável impressão de que esse mundo interior estava crescendo.

— Ela parece um pouco mais feliz *disse ela. Dava a impressão de querer se convencer disso.

— Acho que sim.

— Foi... *ela passou os olhos por mim* — ...muito gratificante vê-la um pouco mais parecida com o que era antes. Tenho certeza de que tudo isso é graças a você.

— Nem tudo.

— Eu não conseguia me aproximar dela, nem um pouco.. Lauren é uma pessoa única. Desde adolescente, ela sempre me olhava de uma forma que me dava a impressão de que eu tinha feito algo errado. Nunca soube bem o que era. *Tentou rir, mas o que saiu não foi de forma alguma um riso, então olhou para mim por um breve instante, mas logo desviou o olhar.*

— Você se dá bem com sua mãe, Camila?

— Sim. Minha irmã é que me deixa louca *disse.*

A Sra. Jauregui olhou pela janela.

— Só nos restam dois meses e meio *disse ela, sem virar a cabeça.*

— Estou fazendo o possível, Sra. Jauregui.

— Eu sei, Camila. *Ela concordou com a cabeça.*

Saí da sala.

 

                                                                                      * * *

 

— Então, vamos lá, Camila. Que programas animados você planejou para esta noite?

Estávamos no jardim. Vero fazia fisioterapia em Lauren, levantando as pernas dela até o peito e abaixando-as enquanto Lauren estava deitada em um cobertor.

Eu me sentei no gramado perto delas e comi meus sanduíches. Agora, eu raramente saía para almoçar.

— Por quê?

— Curiosidade. Quero saber como passa seu tempo quando não está aqui.

— Bom... esta noite participarei de uma pequena luta de artes marciais avançadas, depois vou de helicóptero jantar em Monte Carlo. E então, no caminho de volta para casa, talvez tome um drinque em Cannes. Se você olhar para cima às... aah... lá pelas duas da manhã, acenarei para você quando passar *respondi. Abri o meu sanduíche e olhei o recheio.* — Acho que vou terminar de ler meu livro.

Lauren deu uma olhada para Vero.

— Dez pratas *disse ela, sorrindo.*

Vero enfiou a mão no bolso para pegar o dinheiro e falou:

— Sempre assim.

Olhei para as duas e perguntei:

— Sempre assim o quê?

Vero pôs o dinheiro na mão da Lauren.

— Ela disse que você ia ler um livro, eu disse que ia ver TV. Ela sempre ganha a aposta.

O sanduíche grudou nos meus lábios.

— Sempre? Vocês têm apostado quão chata é a minha vida?

— Não usamos essa palavra *respondeu Lauren. O olhar levemente culpado me fez pensar em outra coisa.*

Endireito-me.

— Deixe-me ver se entendi. Vocês estão apostando dinheiro se numa noite de sexta-feira eu vou estar em casa para ler um livro ou ver TV?

— Não *respondeu Lauren.* — Teve uma rodada em que apostei que você iria ver o Corredor na pista.

Vero soltou a perna da Lauren. Pegou o braço, esticou-o e começou a massageá-lo a partir do pulso.

— E se eu dissesse que ia fazer uma coisa totalmente diferente?

— Mas você nunca faz *disse Vero.*

— Na verdade, vou ficar com o dinheiro *falei, tirando a nota de dez da mão de Lauren.* — Porque esta noite vocês erraram.

— Você disse que ia ler! *reclamou Lauren.*

— Agora que tenho isto *continuei, mostrando a cédula de dez* —, vou ao cinema. Pronto. Pode acionar o Juizado de Pequenas Causas ou seja lá como se chame.

Levantei, guardei o dinheiro no bolso e joguei o resto do meu almoço no saco de papel pardo. Sorri ao me afastar delas mas, estranhamente, e sem qualquer razão aparente, meus olhos se encheram de lágrimas.

 

Naquela manhã, fiquei uma hora trabalhando no calendário antes de ir para a Granta House. Em alguns dias, eu apenas me sentava na cama e, de lá, olhava o calendário, a caneta na mão, pensando para onde eu poderia levar Lauren. Ainda não estava convencida de que poderia levá-la para muito mais longe e, mesmo com a ajuda de Vero, pensar em passar a noite em algum lugar parecia uma ideia assustadora.

Talvez Lauren e Vero tivessem razão. Talvez eu fosse chata. Talvez eu fosse a pessoa menos capacitada do mundo para inventar coisas que pudessem instigar a vontade de viver em Lauren.

Um livro, ou a televisão.

Posto assim, era difícil concluir outra coisa a meu respeito.

 

                                                                                     * * *

 

Depois que Vero saiu, Lauren foi me encontrar na cozinha. Eu estava sentada à mesinha, descascando batatas para o jantar, e não olhei para ela quando chegou e posicionou a cadeira no vão da porta. Examinou-me.

— Sabe *falei, finalmente.* — Eu poderia ter sido malvada com você. Poderia ter dito que você também não faz nada.

— Não sei se Vero teria apostado que eu iria sair para dançar *disse Lauren.*

— Eu sei que é brincadeira *prossegui* — Mas vocês fizeram com que eu me sentisse muito mal mesmo. Se vocês vão fazer apostas com a minha vida sem graça, precisam me avisar? Não poderiam fazer disso uma espécie de piada particular?

Ela não disse nada por um tempo. Quando, finalmente, olhei para ela, estava me observando.

— Desculpe *disse.*

— Você não me parece arrependida.

— Bom... está bem... talvez eu quisesse que você escutasse isso. Talvez eu quisesse mostrar o que você está fazendo da sua vida.

— Acha que estou desperdiçando minha vida...?

— Acho, na verdade.

— Meu Deus, Lauren. Eu gostaria que você parasse de me dizer o que eu devo fazer. E daí se eu gosto de ver televisão? E daí se eu não quero muito mais que ler um livro? *Minha voz tinha ficado esganiçada.* — E daí se estou cansada quando chego em casa? E daí se não preciso preencher meus dias com atividades frenéticas?

— Mas um dia pode se arrepender *disse ela, em voz baixa.* — Sabe o que eu faria, se fosse você?

Larguei o descascador.

— Acho que você vai me dizer.

— É. E fico bastante constrangida de dizer isso a você. Eu faria um curso noturno. De costureira ou estilista de moda, ou seja lá o que for esses remendos de que você realmente gosta. *Fez um gesto em direção ao meu minivestido, inspirado no estilo Pucci dos anos 1960, feito com o tecido que, uma vez, tinha sido uma das cortinas do meu avô.*

A primeira vez que papai viu, ele apontou para mim e levou cinco minutos para parar de rir.

— Eu procuraria o que pudesse fazer e que fosse mais barato: aulas de ginástica, natação, voluntariado, qualquer coisa. Daria aulas de música, ou passearia com o cachorro de alguém, ou... *sugeriu Lauren.*

— Certo, certo entendi o recado *falei, irritada.* — Mas não sou você, Lauren.

— Sorte sua.

Ficamos ali por um tempo. Lauren entrou na cozinha e levantou o assento da cadeira de maneira a nos vermos por cima da mesa.

— Certo *falei.* — Então, o que você fazia depois do trabalho? Era algo tão precioso assim?

— Bom, não me sobrava muito tempo depois do trabalho, mas eu tentava fazer alguma coisa todos os dias. Praticava escalada indoor em um centro esportivo, jogava squash, ia a concertos, experimentava restaurantes novos...

— Tudo isso é fácil com dinheiro *reclamei.*

— E eu corria. É verdade *disse, e levantei uma sobrancelha.* — Tentava aprender a língua de lugares que eu poderia visitar um dia. E encontrava meus amigos... ou quem eu achava que eram meus amigos... *Ela hesitou por um instante.* — E planejava viagens. Procurava por lugares em que eu nunca tinha estado, coisas que me assustassem ou me levassem ao limite. Uma vez, atravessei o Canal da Mancha a nado. Pratiquei parapente. Subi montanhas e as desci esquiando. É *falou, quando fiz menção de interromper.* — Sei que muitas dessas coisas exigem dinheiro, mas muitas outras, não. Além do mais, como você acha que eu ganhava dinheiro?

— Explorando as pessoas na City?

— Eu fazia o que me faria feliz e o que eu queria fazer; me preparei para trabalhar no que me permitisse fazer as duas coisas.

— Você faz isso parecer tão simples.

— E é *disse ela.* — O problema é que ainda assim é muito trabalho. E ninguém quer trabalhar muito.

Terminei com as batatas. Joguei as cascas no lixo e coloquei a panela no fogão, pronta para mais tarde. Virei-me e, apoiando os braços na mesa, sentei-me ali, com as pernas balançando.

— Você teve uma boa vida, não?

— É, tive. *Ela chegou um pouco mais perto e elevou o assento até quase ficar na altura dos meus olhos.* — Por isso é que você me irrita, Camila. Vejo todo esse talento, toda essa... *Ela deu de ombros.* — Essa energia e inteligência e...

— Não diga potencial...

— ...potencial. Sim. Potencial. Não consigo entender como se contenta com essa vidinha. Essa vidinha que será passada quase toda num raio de quinze quilômetros, sem ninguém que a surpreenda, incentive ou mostre coisas que façam sua cabeça girar e você perder o sono à noite.

— É uma forma de dizer que eu deveria estar fazendo coisas melhores do que descascar batatas para você.

— Estou avisando que existe um mundo inteiro lá fora. Mas eu gostaria muito que, antes de conhecer esse mundo, você fizesse umas batatas para mim. *Ela me lançou um sorriso e não pude evitar retribuir.*

— Você não acha... *comecei a dizer, mas desisti.*

— Continue.

— Não acha que é mais difícil para você... se adaptar, digamos assim... Porque você fez todas essas coisas?

— Está perguntando se eu preferia não ter feito nada?

— Estava pensando se não seria mais fácil para você. Se tivesse tido uma vida menos rica antes. Viver assim, como você vive agora, quero dizer.

— Jamais me arrependerei do que fiz. Porque, quase sempre, se você está enfiada numa cadeira assim, só pode ir aos lugares da lembrança. *Sorriu.* — Então, se você está me perguntando se prefiro me lembrar da vista que se tem do castelo quando se está no mini mercado, ou daquela linda fileira de lojas por ali, então, não. Minha vida foi ótima. Obrigada.

Desci da mesa. Não tinha muita certeza, mas me senti mais uma vez como uma pessoa colocada contra a parede. Peguei a tábua de cortar no escorredor.

— E Mila, me desculpe. Sobre aquela história da aposta.

— Tudo bem. *Virei-me e comecei a enxaguar a tábua.* — Mas não pense que isso vai lhe trazer de volta aquelas dez pratas *sorri pra ela.

 

                                                                                       * * *

 

Dois dias depois, Lauren teve uma infecção e acabou no hospital. Fui visitá-la duas vezes, levando músicas e coisas gostosas para comer, me ofereci para fazer companhia mas, particularmente, senti como se eu estivesse atrapalhando, e logo percebi que ela não queria mais atenção. Disse para eu ir para casa e aproveitar o tempo que teria para mim mesma.

Levei a metade de uma manhã para concluir que esse tempo poderia ser útil. Fui à biblioteca e comecei a pesquisar. Olhei todos os sites sobre tetraplégicos que pude encontrar e descobri coisas que poderíamos fazer quando Lauren estivesse melhor.

Fiz listas e acrescentei o equipamento ou as coisas que seriam necessárias para cada programa. Encontrei salas de bate-papo para portadores de lesão na coluna e descobri que havia centenas de pessoas iguais a ela lá fora — vivendo vidas escondidas em Londres, Sydney, Vancouver ou até ali naquela rua —, ajudadas por amigos ou familiares e, às vezes, sozinhos, o que era de cortar o coração.

Eu não era a única cuidadora interessada naqueles sites. Havia namoradas perguntando como ajudar seus parceiros a terem confiança para sair de casa de novo, maridos querendo saber opiniões sobre os equipamentos médicos mais novos.

As pessoas usavam muitas siglas nos bate-papos. Descobri que LME era lesão na medula espinhal; ITU, infecção do trato urinário; FS, forte e saudável. Vi também que uma lesão em C4 e C5 era bem mais grave do que em C11 e C12.

Havia história de amor e perda, de homens lutando para lidar com esposas deficientes físicas e também com filhos pequenos. Havia esposas que se sentiam culpadas por terem rezado para que o marido parasse de espancá-la; agora ele nunca mais faria isso.

Havia maridos que queriam se separar da esposa deficiente, mas tinham medo de como a comunidade reagiria.

E havia ameaças de suicídio: os que queriam se matar; outros que os encorajavam a esperar, a aprender a olhar a vida de outra maneira. Li cada uma delas e me senti como se estivesse olhando para um panorama secreto de como o cérebro da Lauren funcionava.

Na hora do almoço sai andando pela cidade, comenda meu sanduíche.

Depois de passar a manhã inteira enfiada no mundo dos paralíticos, só o fato de poder andar e comer meu sanduíche ao sol já me dava uma sensação de liberdade.

Quando terminei, voltei para a biblioteca e solicitei o computador que estava usando. Tomei fôlego e digitei uma mensagem.

Olá, sou amiga e cuidadora de uma tetraplégica de trinta e três anos, com lesão em C4 e C5. Ela era muito bem-sucedida e dinâmica em sua vida anterior e está tendo dificuldades para se adaptar à nova realidade. Na verdade, sei que ela não quer mais viver e estou tentando pensar em maneiras de fazê-la mudar de ideia.

Alguém pode, por favor, me dizer como posso fazer isso? Alguma ideia de coisas de que ela possa gostar, ou meios de eu conseguir fazer com que ela pense de maneira diferente? Todas as opiniões são bem-vindas.

Assinei Abelha Atarefada. Então, recostei-me na cadeira e finalmente apertei “Enviar”.

 

                                                                                          * * *

 

Na manhã seguinte, quando me sentei no terminal, havia quatorze respostas.

Entrei no bate-papo e fiquei surpresa com a lista de nomes. Pessoas do mundo inteiro haviam respondido dia e noite. O primeiro dizia:

Cara Abelha Atarefada

Seja bem-vinda. Tenho certeza que sua amiga terá muito consolo por ter alguém cuidando dela.

 

Eu não estou muito certa disso, pensei.

 

Quase todos nós enfrentamos um obstáculo definitivo na vida. Talvez a sua amiga tenha chegado ao obstáculo dela. Não deixe que ela afaste você. Mantenha-se positiva. E lembre-o de que não compete a ela decidir quando chegamos e saímos desse mundo, mas ao Senhor. Com Sua Sabedoria, Ele resolveu mudar a vida da sua amiga, o que pode ser uma mostra de que Ele...

 

Passei para a mensagem seguinte.

 

Cara Abelha,

Não tem jeito, ser tetra pode ser um saco. Se a sua amiga ainda por cima gostava de esportes, vai achar mais duro ainda. Eis as coisas que me ajudaram: muita companhia, mesmo quando eu não estava querendo. Boa comida. Bons médicos. Bons remédios, antidepressivos, quando necessário.

Você não disse onde vocês estão, mas se conseguir que ela converse com outras pessoas na comunidade de LME, isso pode ajudar. No começo, eu era muito relutante (acho que uma parte minha não queria admitir que eu era um tetra), mas ajuda saber que não se está só.

Ah, e NÃO DEIXE que ela assista a nenhum filme como O escafandro e a borboleta. Mó deprê!

Dê notícias.

Sinceramente,

Ritchie

 

Pesquisei por O escafandro e a borboleta. “A história de um homem que fica paralisado devido a um derrame e suas tentativas de se comunicar com o mundo externo”, dizia o resumo do filme. Anotei o título no meu bloco, sem saber se eu estava fazendo aquilo para garantir que Lauren não o assistiria ou para me lembrar de ver depois.

As outras duas mensagens eram de um Adventista do Sétimo Dia e de um homem que sugeria coisas para levantar o ânimo de Lauren que certamente não estavam no meu contrato de trabalho. passei rápido para outra mensagem, com medo de que alguém desse uma olhada na tela por trás de mim.

E então eu fiquei indecisa quanto à próxima mensagem.

 

Olá Abelha Atarefada,

Por que acha que a sua amiga/paciente/o que for precisa mudar de ideia?

Se eu conseguisse um jeito de morrer com dignidade e se eu soubesse que isso não devastaria minha família, eu me mataria. Estou confinado a esta cadeira há oito anos e minha vida consiste numa série de humilhações e frustrações.

Você consegue mesmo se colocar no lugar dela? Saber que ficará de cama para sempre; sem poder comer, se vestir ou se comunicar com o mundo exterior sem que alguém o ajude? Nunca mais transar? Encarar a possibilidade de ter escaras, adoecer e até precisar de respiradores?

Você parece uma pessoa ótima, e tenho certeza que tem boas intenções. Mas talvez você não cuide dela na semana que vem. Talvez no futuro seja alguém que a deixe deprimida, ou até que não goste muito dela. Isso, como todas as outras coisas, está fora do controle dela. Nós, portadores de LME, sabemos que muito pouco está sob nosso controle — quem nos alimenta, quem nos veste, quem nos lava, quem prescreve nosso remédio. Viver consciente disso é muito duro.

Por isso, acho que você está fazendo a pergunta errada. Quem são os fortes e sadios para decidir como deve ser a nossa vida? Se essa não é a vida certa para a sua amiga, a questão deveria ser: como posso ajudá-la a acabar com isso?

Sinceramente,

Gforce, Missouri, Estados Unidos

 

Fiquei olhando para a mensagem, meus dedos parados sobre o teclado. Depois, passei para as mensagens restantes. Eram de outros tetraplégicos criticando as palavras desanimadoras de Gforce, afirmando que eles conseguiram um jeito de seguir em frente, que a vida deles valia a pena. Houve uma pequena discussão que parecia não ter nada a ver com Lauren.

A seguir, voltaram a comentar o meu pedido.

sugestões práticas: degustação de vinho, música, exposições de arte, teclados de computador especialmente adaptados.

“Sugiro uma companheira”, escreveu Grace31, de Birmigham. “Se ela amar, sentirá que pode seguir em frente. Sem amor, eu já teria afundado várias vezes.”

Essa frase ecoou na minha cabeça até bem depois de eu sair da biblioteca.

 


Notas Finais


Desculpem os erros e até o próximo..


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