História Memória do ódio - Capítulo 7


Escrita por: ~

Postado
Categorias EXO
Personagens Baekhyun, Chanyeol, D.O, Kai, Lay, Sehun, Suho, Xiumin
Tags Kaisoo
Visualizações 45
Palavras 4.925
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Romance e Novela, Shonen-Ai, Universo Alternativo, Violência, Yaoi
Avisos: Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Voltando tranquilamente, me recuperando da ressaca pós provas ♥

Capítulo 7 - Ele foi embora, mesmo preso ao meu lado


 

 

 

 

Aqui está uma canção que me lembra de quando éramos jovens.

Relembrando todas as coisas que já fizemos, você precisa continuar seguindo em frente.

Lá fora, no mar, é o único lugar em que eu, honestamente, consigo alguma paz de espírito.

Você sabe, está sendo difícil voar.

Se for para eu fracassar, você estaria lá para me aplaudir? Ou você se esconderia atrás de todos eles? Porque se eu tiver que ir, no meu coração você crescerá e lá é o lugar ao qual você pertence

-  I'm Outta Time (Oasis)

 

 

 

1 ano e meio antes

 

 

Você me odeia? Porque se eu fosse você, me odiaria.

Pode ser, embora ainda duvide disso, que eu acabe por algum motivo, impulsionado por um instante de coragem avassalador, entregando o que escrevi aos meus pais, ou a psicóloga ou a conselheira da escola, quem sabe até a Sehun, aos outros alunos. Mas isso, significaria abrir a vista de todos, a pior parte da minha vida e permitir que ela fosse analisada por pessoas que nunca estarão dentro da minha cabeça, sentindo o que eu sinto todos dias. Algumas delas dizem me amar, mas esse amor sobreviveria ao meu pior erro? Eu ainda seria digno de ser amado apesar de o ter cometido?

Existem momentos em que penso que abrir minha boca facilitaria as coisas. Se eu subisse no topo da escola, naquele andar mais alto e gritasse bem com toda força o que aquele lugar e aqueles alunos fizeram a Kyungsoo, será que algo dentro de mim seria modificado? De um jeito que não doesse pensar no que fiz, ou melhor, no que não fiz?

As piores coisas da vida não chegam em nosso colo de graça. Supostamente você deveria ser forte para segurá-las e é só por isso que elas chegam até seu corpo, seus ombros, invadem seus sonhos e penetram a camada fina de felicidade que envolve seus dias.

Eu nunca quis ser odiado, mas se isso acontecer, por mim tudo bem. Porque ninguém, em nenhum lugar no mundo, vai me odiar na mesma proporção em que eu me odeio. Tudo aquilo, nosso passado, tomou rumo e forma muito maiores e já não posso controlá-los. E bem, só não me importo mais. Nada do que eu disser de agora em diante vai alterar aqueles fatos, eles são inalteráveis e agora não há nada a ser feito. Não estou oferecendo uma justificativa, isso não é sobre pedir desculpas e obter perdão.

Acontece que preciso contar mais algumas coisas a respeito dele, o que envolve involuntariamente a mim e minha sensação de impotência, são elementos que não podem ser desvinculados.

Eu tentei.

Tentei concertar as coisas, quis remediar o acontecido no mesmo segundo em que coloquei minha cabeça no travesseiro para dormir, depois daquela festa. Mas eu não o encontrei. As férias de verão vieram como um grande soco do mundo contra o meu estômago, me dizendo que eu já o tinha perdido, que depois daquilo, tudo seria inútil. Entretanto não percebi e como um maldito arrependido, insisti em querer ter o que eu nunca teria por direito.

Não faço ideia de quantas vezes me encontrei parado, implorando por atenção, em frente à sua casa. Aquele cheiro enjoativo de hortênsias me fazendo companhia por longos minutos, em certas ocasiões até mesmo horas, para receber sempre um não como resposta. Segundo sua mãe, Kyungsoo não estava em casa, mas eu sabia que era uma desculpa mentirosa. Ele nunca viajava em períodos de férias. Não tinha parentes próximos a quem visitar e tampouco saia de casa. A senhora Do e seu passo meio manco, sempre me encarava com uma espécie de desgosto antes de me expulsar dali tão educada quanto poderia, o que não era muito.

Desde que eu tinha presenciado o abandono de seu marido ao lar, nunca mais tinha posto meus pés naquele jardim bem cuidado. Ela tinha me dito que eu não deveria voltar e assim eu fiz, mas aquilo pelo qual seu filho, naquele momento passava, era algo muito maior do que um casamento despedaçado e eu esperava, sinceramente, que ela fosse capaz de entender isso, que conseguisse perceber que ele não andava bem e algo de sério havia lhe acontecido.

Poder ser que o próprio Kyungsoo não me quisesse por perto e por isso ela mentiu, em respeito à sua vontade. Naquele tempo, foi a ideia que me pareceu mais plausível. O filho permaneceu um mês inteiro sem sair de casa e eu passei o mesmo período levantando todas as minhas possibilidades e pensando no quanto eu havia arruinado nossa amizade, arruinado a ele por minha covardia.

Não tive forças para contar a meus pais e agora sei que essa teria sido a ideia mais sensata naquele momento. Até aquela fatídica noite, Baekhyun para mim era só um pivete mimado e que se achava o dono da escola. Ele e seu bando não eram tão corajosos se pressionados, se colocados contra a parede. No entanto, eles fizeram o que fizeram e depois disso passei a nutrir um medo insano dele, do que ainda poderia a fazer a Kyungsoo e a mim, que na tentativa de ajudar pudesse acabar arruinando tudo.

 Adultos supostamente são sensatos, responsáveis, mas eles não passam as horas de sua semana, em sua maioria, trancados em uma escola, em carteiras desconfortáveis e convivendo com o preconceito em sua origem, no lugar onde ele cria raízes junto ao desenvolvimento do caráter, onde o ódio é moldado e deixa perpetuamente seus estilhaços depois que explode.

Queria que Kyungsoo me dissesse o que deveria fazer, pois a ideia de ir sozinha até uma delegacia me assombrava, me assombra ainda hoje quando me lembro do interrogatório a que fui submetido depois de sua morte. Se eu contasse, e depois eles dessem com a cara na porta da residência da família Do? A mãe dele, talvez pelo medo, os deixaria entrar, mas e quanto a seu filho? Ele falaria ou também estaria, assim como eu, paralisado pelo medo de Baekhyun? Eu me deixei levar pelo conforto da covardia esperando que as aulas retornassem, para que juntos decidíssemos o que fazer.

Eu vi meu melhor amigo ser transformado por aquilo que o fizeram e eu não movi um musculo para tirá-lo daquela situação. Quando o novo período letivo teve início eu quis sim falar sobre o ocorrido, mas aquele Kyungsoo que encontrei não era mais o mesmo. Na minha cabeça, pelo menos, ele não era e ainda penso dessa forma nas vezes em que me permito olhar para trás.

Ele estava sentado, aéreo ao que acontecia a sua volta, não me viu chegar, nem se contraiu quando o abracei com lágrimas nos olhos. Retribuiu meu abraço com a mesma força e foi a primeira vez, em muito tempo, que não repelia algum toque meu. Contudo, se recusou a falar sobre o assunto. Tentei de modo implícito abordá-lo várias vezes durante aquela primeira semana de aula pós férias, mas desconversou e fez que não sabia sobre o que eu estava falando. Sua expressão nitidamente se alterava para algo difícil de ser descrito, um pouco de desgosto, ódio ou dor ao me ouvir falar, porém agilmente conseguia mudar de assunto afastando a mim e a ele mesmo daquela parte ruim de nossas vidas.

Houve um dia, em que cansado de tentar ajudá-lo sem sucesso, fui direito com as palavras.

Disse que sabia o que Baekhyun e os outros tinham lhe feito naquela noite, sabia o nome de todos os envolvidos, inclusive Sehun que estava apenas vigiando do lado de fora do quarto (ao me escutar mencionar o último nome, seus olhos brilharam surpresos e assentiu com a cabeça pesaroso). Expliquei que aquilo era uma coisa horrível, como se ele próprio não soubesse, e que se quisesse, juntos poderíamos tomar providências para que os responsáveis não saíssem disso impunes. Não poupei minhas palavras, porque estava cheio daquilo e explodi.

Atualmente meus dias não são os melhores, a morte de Kyungsoo matou parte das coisas boas do meu cotidiano, mas ainda ouso dizer que aquela primeira semana de aula, foi a pior da minha vida, ainda que não soubesse disso quando a vivi. Porque eu senti que ele estava indo embora naquele momento, sei que já estava sumindo, bem ali, diante dos meus olhos. Eu estava perdendo-o. No entanto, não fui capaz de me impor, de fazer alguma coisa concreta.

Eu deixei que aquelas palavras sobre aquele dia saíssem, apenas porque carregá-lo estava sendo difícil e Kyungsoo me escutou, mudo e inerte como um recipiente vazio, como se aquelas coisas já não importassem mais e no final, quando já sem fôlego sugeri que fossemos a delegacia ou quem sabe conversar com o diretor da escola, ele apenas me estendeu de maneira calma um dos desenhos que tinha feito durante as férias.

“Não há nada a dizer além disso”. Susurrou.

Aquilo que seus dedos pálidos me ofereceram, não passava de um grande amontoado de tinta indefinido. Cores quentes sobrepostas e depois manchadas raivosamente de preto. Em nada se pareciam com os demais desenhos que costumava fazer. Kyungsoo, usualmente, tinha um traço delicado. Seus desenhos eram realistas e estava habituado inclusive, a desenhar pessoas do nosso dia a dia, ou estranhos que encontrava pela rua, ou famosos que admirava.

Aquilo que me mostrou era apenas grotesco de se ver, desconcertante. Se olhasse com mais atenção era possível identificar três formas meio humanas, meio monstruosas, pintadas em vermelho e amarelo. Até hoje, nada me tira da cabeça o ranço que aquela ilustração me causou. Me senti tão impactado que não consegui mais argumentar aquele assunto e a história toda, aparentemente morreu ali, em algum canto da biblioteca da escola e pouco tempo depois, voltou a falar, me ajudando a escolher uma próxima leitura, tranquilo, inexpressivo.

Eu fui idiota. Acreditei que ele, por algum motivo, tivesse decidido apenas seguir em frente, que misteriosamente o tempo de um mês recluso em seu quarto, tivesse sido o suficiente para cicatrizar aquela merda que tinha acontecido. As marcas da surra levada e as deixadas naquela festa, talvez já tivessem abandonado seu corpo, mas não sairiam tão fácil de sua cabeça, assim como não saem até hoje da minha. Pensar que estava tudo bem foi besteira, covardia e ingenuidade da minha parte, o que me faz voltar a pensar que de fato, as piores coisas não acontecem de graça e justamente por terem um preço a ser pago, elas não vão embora nunca. Kyungsoo não vai embora nunca.

A imagem que Baekhyun pintou, como aquele desenho tenebroso do meu melhor amigo, em meu subconsciente, também não vai me abandonar nunca. Eu pensei que estava respeitando sua vontade, mas na verdade estava ajudando a afundá-lo ainda mais. Fingi que não até o dia de sua morte, porque seja lá o que tenha acontecido, suas atitudes em relação a mim já não eram mais as mesmas. Ele já não me afastava ou maltratava como antes e seria extremamente hipócrita da minha parte dizer que isso não me afetou.

Ele parecia mais calmo apesar de tudo, mais apegado a mim como nunca antes esteve. Já não dizia coisas cruéis quando eu tentava me aproximar e se tornou cada vez mais receptivo as minhas investidas. Apesar da dor e do momento ruim em que nos encontrávamos, nossa relação sofreu um avanço gigantesco naquela época.  Em algum lugar dentro da minha cabeça, eu sabia que não dava para simplesmente passar uma borracha por cima daquilo tudo e que seria imprudente tentar fazê-lo, mas ele voltou a segurar minha mão, a encostar a cabeça em meu ombro e se agarrar a mim como se eu pudesse protegê-lo de alguma coisa.

Ele me fez acreditar que estava tudo bem. Me sinto culpado a cada passo que dou, a cada vez que me pego por distração rindo de alguma coisa que meus pais dizem ou quando Seulgi chega eufórica contando sobre algum livro ou qualquer besteira, ou se Sehun acha que de algum jeito ainda vamos ser amigos. Mas eu não sei se posso viver assim, pesado pelo resto da vida, porque eu quis tanto ser forte para ajudá-lo e ele apenas sorria, aquele sorriso forçado e que não era dele, contaminando a minha mente com aquela felicidade que não era real.

Eu tentei adentrar sua defesa, queria que tivesse pela primeira vez na vida me contado sobre os sentimentos que guardava, sobre o que queria, sobre quem ele era de verdade. Porque eu posso contar de todos os seus piores momentos, mas quem era o ser humano por trás deles? Quanto mais o tempo passa, mais eu sinto que jamais saberei, pois quando estava perto de tocá-lo, próximo de senti-lo, ele se transformou em um estranho sem que eu sequer pudesse me dar conta de tal transformação.

Transmutou-se, porque sendo ele mesmo, talvez eu descobrisse antes da hora o que ele não queria. Eu acreditei estar a sua frente uma única vez na vida, achei que sabia tanto da sua dor, que o entendia. Todavia, seus problemas não começaram com aquela festa, nem terminariam com ela. Aquilo foi apenas uma parcela de algo muito maior que eu nunca pude controlar, nem ele, nem ninguém.

Antes que eu pudesse começar a questionar ainda mais as coisas que de repente, ele começou a fazer, como me tratar bem, como ir mal nas provas e despencar com suas notas, a desenhar coisas estranhas. Ele virou o jogo, aquela relação errada que mantínhamos, para que deixasse de ser o foco e de forma que eu me calasse quanto ao crime cometido e do qual nos dois tínhamos conhecimento.

Eu deixei de pensar sobre sua mudança de modo definitivo em poucos meses. Sendo mais especifico, no dia em que depois de o ter repreendido por uma nota 3 em química, ele me beijou. Afoito, meio desajeitado, sem dar aviso, sem me explicar o porquê.

Foi o meu primeiro beijo.

Estava longe de ser bonito ou planejado, mas me bagunçou como qualquer outro contato com ele me bagunçava. Perdi a noção do espaço, das coisas ao meu redor, das palavras. E não havia mais nada que eu pudesse dizer a respeito do novo Kyungsoo, pois por ilusão, fui tomado de uma felicidade idiota, típica de quem tem seu amor retribuído.

Me culpo, porque consenti com sua máscara. Foi mais fácil para mim acreditar que estava tudo bem e presumo que também foi mais fácil para ele fingir. Sei que não posso, nunca poderei afirmar isso com uma certeza plena, pois ele já não está aqui. Mas o fato é que eu não o questionava mais sobre nada, só me bastava que estivesse ali, do meu lado.

Certa vez tinha me dito que eu não deveria nunca depender dele da forma como ele dependia de mim. Eu entendo o porquê, agora eu entendo, mas aos quinze anos eu era só um idiota covarde e eu não poderia imaginar, por Deus, eu não poderia. Então me tornei dele, manipulado como um boneco pelo seu amor frágil, pelos sentimentos frágeis que não sabia sustentar, só fingia. Eu era dele, talvez eu sempre tenha sido, mas foi necessário o medo de perdê-lo para me tornar ciente do quanto ele era preciso. Era uma necessidade tão extrema que aceitaria qualquer coisa. A criança chorona, adolescente maltratado, o melhor amigo, o das palavras cruéis, o primeiro amor. Aceitaria o Kyungsoo de antes e o Kyungsoo transformado, qualquer faceta que quisesse me oferecer.

Mas não achei que chegaria o dia em que levantaria da cama sabendo não poder encontrar na escola, na rua, em meu corpo, Kyungsoo nenhum. Nem aquele recipiente vazio que parecia fazer tanto esforço para gostar de mim, do mesmo jeito que eu gostava dele.

Ele não voltaria. Contudo, hoje sei que ele, naquele tempo, já tinha ido embora. Quando seu cadáver ensanguentado percorreu o caminho até o chão, ele já estava perdido há muito tempo. É claro que ainda sinto culpa por tudo, mas agora já entendo o quanto é difícil querer controlar as vontades e a vida de outra pessoa sem nunca obter êxito, ou quem sabe, essa seja apenas mais uma, das inúmeras tentativas de retirar de mim o peso de sua partida.

Kyungsoo nunca foi meu, não como eu fui dele.

Eu não o conhecia.

 

 

9 meses depois.

 

 

As flores de papel azul rodeando o quadro negro não me animaram. Seulgi havia enfeitado tudo com muito cuidado, mas a imagem da sala de aula arrumada não ajudou em nada a melhorar minha condição, não me senti melhor e retribuir seu sorriso foi provavelmente a coisa mais falsa que fiz naquele dia. As pequenas dobraduras se assemelhavam a arranjos malfeitos de rosas, outras, a hortênsias e eu teria rido pela ironia que a escolha sugeria, mas ela não tinha como saber que a mãe de Kyungsoo costumava ser uma grande apreciadora daquela flor. Quase ninguém da nossa classe a conhecia.

Estive pensando muito nela recentemente, cheguei a conversar com meus pais sobre a possibilidade de lhe fazer uma visita, porém fui desencorajado antes de começar a expor meus argumentos. Entendia o ponto de vista deles. Logo eu, se fosse qualquer outra pessoa talvez isso a ajudasse, mas eu não era uma visita válida, só iria acabar de enterrar a pobre mulher na solidão a que recorria desde a morte do filho.

Não pude visitá-la, mas fui obrigado a comparecer nesta festa ridícula, com alunos todos agindo no modo automático.

Eu não guardo mais nenhum rancor sobre Sehun, mas a forma como ele a cada minuto olhava inquieto para meu rosto, como se eu estivesse prestes a sair correndo do local, da escola, da vida de todos os envolvidos, me irritava. A única coisa que eu estava realmente perto de fazer, era levantar e acertar um soco bem no meio daquela cara assustada. Mas eu gostava demais da Seulgi para estragar sua tentativa de, seja lá o que ela estivesse tentando, na verdade eu nem sei o que ela pretendia com aquilo.

Permaneci sentado segurando um copo suado de refrigerante a maior parte tempo. Entre uma rodada e outra de comidas típicas daquela ocasião, eu acenava com a cabeça quando alguém me cumprimentava, fingia prestar atenção no que as pessoas conversavam e ignorar o rosto ranzinza de Yixing, isolado em dos cantos da sala de aula. Supostamente eu deveria ser a pior pessoa ali, porém ele conseguiu me superar na careta e no mau-humor.

Pensei que ficaria quieto até o fim daquilo tudo, pensei até em ir até ele perguntar se estava tudo bem, mas qual não foi minha surpresa ao vê-lo dirigindo-se ao centro da lousa, pigarreando um pouco alto até conquistar a atenção de todos os presentes.

Não quis acreditar que ele estivesse fazendo isso, mas ele fez.

Eu sempre pensei que para merecer uma homenagem, primeiramente, o homenageado deveria ter realizado algo grande, do qual pessoas, incluindo ele próprio, se orgulhassem. Não fiz nada de bom e nada do qual me orgulhe. Apesar das pessoas daquela escola acharem que sim, sei que não sou melhor que nenhum deles para me tornar merecedor de palavras que me façam parecer honroso.

Yixing discursou alguns minutos sobre o fim das aulas que se aproximava, sobre a formatura, sobre como deveríamos ser fortes dali em diante. Seríamos adultos, ingressaríamos em uma faculdade ou arrumaríamos um bom emprego, ou as duas coisas simultaneamente, mas independente das escolhas, ele disse, era preciso lembrar e carregar como um aprendizado tudo o que vivemos durante os anos na escola.

Palavras genéricas de todo o modo. No entanto, no momento em que citou meu nome, eu soube muito bem onde tudo aquilo iria chegar. É verdade que mencionou outras pessoas, como a Seulgi que tinha as melhores notas, ou outros alunos aleatórios que ao longo da trajetória haviam realizado algumas conquistas, como os atletas, os integrantes do conselho estudantil. Mas eu não tinha feito nada de útil, eu nunca quis ter feito nada de útil. Contudo, ninguém ali pareceu notar meu desconforto, pelo contrário, aplaudiram com mais força as frases ditas para ovacionar minha coragem, para respeitar a minha dor.

Eu aguentei tudo calado, até mesmo sorri como agradecimento, mesmo que não sentisse nenhum pingo de gratidão pelo que foi dito. E quanto a Kyungsoo? Por que não tocaram em nenhum momento no nome dele? Era ruim lembrá-lo? Saber que já esteve sentado naquelas mesmas carteiras, que tinha andando por aqueles mesmos corredores e respirado o mesmo ar que ainda respirávamos, os atormentava? Ele não fez nada de bom naquela escola, mas a escola também não lhe deu nada que valesse a boa memória. Só deu ódio, mas do ódio ninguém ousou falar, porque era incômodo, mas ele era real, diferente daquelas palavras reproduzidas sem nenhuma emoção.

Quando sai da sala, segui como que por extinto o caminho até a biblioteca. Lá passei os melhores momentos durante o meu último ano ao lado dele e foi ali também, que me senti enganado pela última vez. Havia feito uma pausa em minhas leituras, porque acho que é sempre muito difícil voltar a velhos hábitos, retornar a atividades que te davam prazer, depois que alguém que você ama vai embora. Não sei exatamente a razão disso. Só parece meio egoísta da minha parte ser feliz, apesar de saber que este não é um pensamento saudável de se ter.

Eu percorri os dedos por títulos antes lidos e agora enredos remotos em minha memória. As leituras feitas para determinadas aulas e as que realizei por gosto, aquelas que obriguei Kyungsoo a ler para discutir comigo. Os livros de poesia, dos sonetos de Shakespeare, dos versos depravados de Bukowski aos melancólicos de Plath. Eu nunca chegaria aos pés de nenhum deles, por isso, parei também de escrever poemas, embora agora me encontre preso a essa narrativa grotesca do passado.

A biblioteca, apesar de tudo, continuava a ser meu lugar favorito na escola, sempre foi e voltar a ela me fez sentir como em casa novamente. Se eu saísse dali, talvez o mundo continuasse a ser aquela imensidão de coisas e pessoas sem sentido, mas nela eu tinha força, tamanha que formulei versos, rimas, estrofes em minha cabeça e fui tentado pela ideia de retirar dali algum livro para ser meu companheiro durante a próxima semana e foi isso que fiz, tomei nas mãos um exemplar empoeirado de Noites Brancas e sai de lá como se nada pudesse me atingir.

Nada. Até ouvir a voz de Yixing elevada em algum canto do pátio. Da onde estava, uma pilastra de concreto me fazia invisível aos olhos dele e de Seulgi e o mais sensato, teria sido ir embora dali para o conforto da minha casa, onde sozinho me permitiria mergulhar na complexidade das palavras do autor russo. Eu não entenderia quase nada, mas isso me faria distraído por alguns dias, algumas horas que fosse. Não saberia desvendar as intenções ocultas em cada construção complicada de parágrafo, ao contrário daquela conversa entre meus colegas de classe. Dela, eu sabia de cada coisa não dita, sabia da fúria, do rancor, eu sabia de tudo.

“Só fez a sua parte Yixing”. A voz feminina tentava acalmá-lo.

“Eu não queria ter dito nada daquilo e você sabe disso”. Era extremamente desconfortável ouvir o nosso representante de classe gritando, ele não era assim, nunca foi. “Nada nessa escola vai mudar se a gente continuar fingindo que tá tudo bem. Vamos nos formar, mas e quem fica? E as crianças que vão chegar aqui? Tem coisa muito mais importante a se fazer que uma festa de despedida idiota!”

Concordava que a festa, em partes, poderia ter sido dispensada. Mas e Seulgi? Do jeito dela, ainda que torto, ela estava tentando fazer uma coisa boa e não merecia escutar gritos como aqueles.

“Eu sei que as coisas estão erradas, mas você ouviu, eles disseram prestariam mais atenção ao que aconteceu, prestariam mais atenção nos alunos”. Tentou argumentar, inutilmente. Yixing ainda andava de um lado para o outro irritado.

“Só prestar atenção não é suficiente”. Eu concordaria com ele, se tivesse encontrado um mapa que revelasse uma solução para aquele problema, mas era algo enraizado há anos e anos por alunos cruéis e autoridades displicentes.

“Essa merda de festa só aconteceu porque o Jongin ainda anda que nem um morto vivo pelos cantos e o Sehun não para de chorar”. Seulgi deixou escapar. Estava perdendo o controle também. Se ao menos soubesse que eu já o tinha perdido tantas vezes nos últimos nove meses. “Você sabia que ele anda tomando remédios controlados? Você quer pensar tanto no futuro dos outros, mas se esquece de quem ainda tá aqui do teu lado Yixing, e está todo mundo completamente ferrado”.

Não fiquei surpreso sobre a atual condição de Sehun, era nítido para qualquer um que o conhecesse apenas de vista, que ele não andava bem. Era popular, por isso, as pessoas falavam muito e é claro que murmurinhos e fofocas machucam, ele sabia melhor que qualquer um, inclusive. Estava colhendo o que plantou no fim das contas.

“O Jongin vai ter que aprender a lidar com isso e estou pouco me fodendo para o Sehun. Eu quero ser paciente porque o luto danifica e as pessoas não saem de cima, mas o mundo não gira em torno dele, nem em torno das suas vontades Seulgi”. Me senti mal por escutar meu nome no meio daquela discussão. Eu já desconfiava que tudo aquilo, aquela festa só tinha acontecido por minha causa, mas seu objetivo ainda parecia nebuloso até aquela conversa. Ela estava tentando me ajudar e Yixing, já não achava que eu era digno de ajuda, não mais.

“Isso não é uma vontade minha, ele é nosso amigo”.

“Sim ele é e tem agido como uma criança durante esses últimos meses. O que aconteceu não vai ser mudado, e daí? ” Indagou. “Ele vai continuar de um lado para o outro como um zumbi até que a droga desse ano acabe e não dá pra ficar apenas passando a mão na cabeça dele todos os dias”.

Nunca tive a intenção de me fazer de coitado, de ser a vítima daquela história, embora seja um pouco difícil não inspirar pena nas pessoas quando se anda pelos lugares de cabeça baixa. Eu só não queria que me olhassem e lembrassem sempre do que aconteceu. Eu queria sim ser mais forte, ser mais que um morto vivo para meus pais, para meu próprio bem e do meu futuro depois da escola, mas eu continuava a ser só fraco ao invés de melhorar.

Yixing talvez tivesse razão.

“E se fosse você no lugar dele? Me diz, como agiria? ” A suposição de Seulgi me fez arfar em descrença. Meu coração tornou-se descompassado ao tentar imaginar aquilo. Ele no meu lugar, qualquer pessoa no meu lugar. Eu nunca, nem em imaginação, suposição ou sonho, desejaria o que eu passei a alguém. Não queria mais ouvir aquilo.

“Eu saberia à essa altura, reconhecer que essa história não vale toda essa autoflagelação, não vale nem metade dela na verdade e nós dois sabemos disso”.

Enxergar a minha dor pela percepção de um terceiro não era algo bom de nenhum modo. Eu estava me autoflagelando? Me auto desgastando por nada?

“Isso não é sobre o Kyungsoo é sobre o Nini”. Então lá estava ele. Evocado do inconsciente. Kyungsoo era meu nada para eles, mas para mim, ainda que por um curto período, foi a minha vida inteira e eu o carregaria para sempre, até meu túmulo.

Yixing riu. Um riso cruel demais para um rosto sempre sereno como o dele, mas não o repreendi, nem mentalmente, nem senti nenhuma mágoa em relação a isso.

“Ele era só um elemento secundário, Seulgi”. Explicou. A voz já não estava mais elevada. Acho que percebeu seu excesso, o jeito como a namorada parecia espantada com a mudança de personalidade, mas nem assim o julgou. Eu também não o julgava. “Isso. Tudo isso, sempre foi só sobre Kyungsoo e se o Nini anda por aí caindo aos pedaços, a culpa é justamente dele e das coisas ruins que carregava na cabeça, você sabe que sim. Eu te amo, amo o Jongin também, mas não dá pra salvar todo mundo, o tempo todo. O Kyungsoo tá morto, ele não vai voltar, não tem mais nada pra fazer...”

É isso que chamam de rancor?

Quando cheguei em casa e me tranquei no quarto sem conseguir olhar o rosto sorridente da mamãe, me perguntei no que tudo aquilo se resumia. Será que também tenho dentro de mim todo esse ressentimento? Afinal ele me deixou, ele fez o que fez, então por que eu não o odeio? Por que, ao contrário, odeio a mim mesmo?

Estava queimando de raiva, bati a porta do quarto e ignorei meu pai gritando do lado de fora. Derrubei da estante os meus livros, revirei os cadernos da escola, as gavetas, até encontrar aquele maldito desenho e não contive minha raiva, meu desespero ao fazê-lo em pedaços e depois dele, todos os outros vestígios de Kyungsoo espalhados por aquele cômodo. Todos os papeis rabiscados durante as aulas, todos os retratos pendurados na parede, os que tiramos desde a infância, fotos da escola, os advindos dos traços que fez olhando dentro dos meus olhos fingindo, sempre fingindo. Acabei com tudo ali do lado de fora, para que fosse capaz de tirar tudo que ainda estava por dentro. As palavras de Yixing se repetindo como looping em minha mente.

 “... a história acabou e a gente fez o que pôde. Você não acha que já é hora de seguir em frente?”


Notas Finais


Enquanto eu estava revisando, tava escutando Oasis e pensei em trocar a citação por uma de Wonderwall, mas deixei como estava mesmo. Por isso vou deixar o link das duas músicas:
https://www.youtube.com/watch?v=bPm6f1HNzgw
https://www.youtube.com/watch?v=bx1Bh8ZvH84

Obrigada por ler o/
Perdoe qualquer erro


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